Zecatinga
Introdução
Nesta
econômica introdução à novelinha usaremos recursos corriqueiros aos escritores
porém a ressaltar um que é o uso da linguagem coloquial moldada ao roceiro da época
Entre Guerras; pretendemos encaixar tal linguagem na forma culta atual, o
quanto nos permite o engenho a arte e a ignorância. Com isso pondo melhor,
pensamos, o Leitor, Você, no mundo do personagem; o mundinho a iniciar aí
embaixo.
1º
cap. Voz do Velório
Agora neste instante nesta parcela do
tempo no limiar do tempo Zecatinga encontra-se imóvel, anda parado a se
constatar de fato sem nenhuma forcinha para arredar o pé; o pé! o todo o corpo
o ser, o ser exposto no lugar em que nunca desejara estar; a rigor antes nunca
houvera imaginado estar – no velório! não num velório mas no seu próprio velório...
Se se exigir mais dados a compor o
quadro da verdade, não chega ao clássico velório burguês, mesmo levando em
conta uma cidade de sua época, a época? à beira da Segunda Guerra Mundial.
Porque velado pelo seu povo na roça na aldeia na zona rural enfim então
existente; mais adiante os roceiros seriam enxotados com suas enxadas e suas
famílias do mato para a zona urbana nascente crescente exuberante, embora a
região tivesse tão só vilarejos a pleitear câmara municipal e prefeitura. A
burguesia dava também primeiros passos rumo ao poder futuro, o futuro é hoje e
o Zé não pode comprovar pois num velório, no seu próprio velório. Depois, claro
neste escuro, o enterro o túmulo arreganhado à espera e o sepultamento. Agora
Zecatinga no centro, e seria a sala? o comum que se via numa casa pobre – nada tendo
com velório solene do meio urbano com suas exigências legais e o povo... ah o
povo sempre foi é e será o povo na habitual reação humana.
Caso fosse na cidade, como por exemplo
Vila Alta, se nesse meio e não no meio rural; então a gente a chegar circunspecta
silenciosa embora sempre hajam engraçadinhos igual numa festa. Bem, é uma festa
no entanto festa fúnebre para despachar o morto do mundo dos vivos, ou assim
admitido. Seria, fosse na cidade o espaço onde o cadáver a mesa ou o 'pleiteante'
já no caixão tendo adorno de flores velas a aguardar os paramentos as
autoridades; e o fundo, no fundo bolachinhas cafezinhos gracinhas e negocinhos
pois se aproveita a oportunidade pôr em dia as relações sociais. Na área do falecido,
a parte central da festa ou ajuntamento, bancos cadeiras aos cansados entre
fofoquinhas a passar o tempo.
Mas não – o tempo é agora no então e
longe da civilização com sua parafernália, visto acontecer no sítio, desta
forma se referiam à roça. E o velório dá-se numa casa pobre; poderia ser numa
miserável palhoça e não sendo o caso porque de madeira o imóvel e usadíssimo
pelos anos; o comum de se ver. Pobre e no costume roceiro: a sala, flores selvagens
o quanto possa uma flor de embelezar o mundo ser grosseira, trazidas de boa
vontade por vizinhas comadres e parentas. Ouvem-se ladainhas, os cantos puxados
pelos fiéis católicos, semelhante ao que vez por outra surgem nos terços, nunca
padres aparecem nas colônias das fazendas; ali os mais versados na crença dirigem
tal culto simples.
No centro do velório encontra-se certa
mesa grosseira onde o caixão, uma encomenda de última hora ao habitual vizinho
com pendores aos serviços carpinteiros. Em volta nesse espaço espremido a gente
visitante, a calar como possível as crianças; aí as orações repetidas e repetidas
mil vezes de geração a geração. Um que outro a falar preços e tarefas lavradoras
sob olhares condenatórios dos mais conspícuos na tradição divina. E, lógico, o
choro dos parentes e mais achegados.
Por que os do sangue em lágrimas ou
apenas respeitosas criaturas?
Em geral pelas saudades antecipadas na
falta de agora, a prantear o morto.
Por fim no quase início um
esclarecimento. Neste texto a gente vai
entremeando a fala caipira de entre guerras na fala presumidamente culta. Mas
quem o personagem.
2º
cap. Quem Zecatinga
Naturalmente um homem, um ser humano,
um homem comum e semelhando os outros tendo sua história, seu romance, num
planeta de bilhões de romances. O do Zé teve início com os rabiscos de
nascimento. E claro, do registro de nascimento, a praxe no mercado geral. Então
seu Tonho, compadre Tonho aos seus iguais dessemelhantes, Antônio teria (aqui
início duma invenção da imaginação visto não ter sido visto a entrar no
cartório na cidade-Vila importante na região); teria atrelado seu cavalo num
poste ou pau fincado em frente da repartição; (aqui poremos no presente:) se
dirige no balcão ao funcionário, na hora a tomar um cafezinho e sequer oferecendo
ao capiau desconhecido e cheirando a égua do suor de seu cavalo, estando o
desconhecido ainda inseguro e na timidez que a insegurança dá tanto à inocência
quanto à ignorância nessas horas a um caipira diante da autoridade. A mulher da
autoridade leva o bule a xícara a bandeja para dentro nos fundos, a casa do
funcionário; este se levanta ver o que 'manda' o roceiro. Eís que se entabula
um diálogo, realmente triálogo ou mesmo tetrálogo caso se conte os curiosos a
se achegar à novidade.
Eu quero, senhor doutor... e fala a
respeito da cria, uma criança nascida pra ser qualquer coisa importante no mundo,
qual toda família deseja aos seus e sendo, seria seu primogênito. Sim porque
frequente a mulher dar à luz um filho que vingara como o primeiro porém antes,
doente subalimentada e maltratada nas condições roceiras e na pobreza rondando
a miserabilidade que era a riqueza do povão na enxada; em razão disso perdia,
perdera Maria várias crianças ainda no bucho. Enfim salva-se o Zecatinga tido primogênito...
Diz querer registrar seu menino. O
nome!? puxa, não havia pensado na coisa nem a esposa citara qualquer... Zé,
ora. "Não", responde o alto e
único funcionário e proprietário do
cartório; Zé não existe. Insiste então Compadre Tonho ao escrevente em Zeca.
Também não existe, isso apelido; registrá-lo-ei (fala registrarei) como José. Entretanto
José de quê? Daí complicou... O pai, o pai do filho, com certeza o pai pois
dona Maria íntegra digna honesta e mandada pelo marido; depois ao fim dos tempos
Antônio velhinho fraquinho perdidinho no mundo seria será de fato mandado e então
se pode afiançar desde já que Maria mandando em Antônio, sem fugir à verdade
nos costumes das massas.
Por final, cansado o funcionário a
defender-se das prerrogativas de Antônio e ouvindo a teimosia matuta, aceita escrever
no livrão cheirando a museu hoje e usando uma caneta dura de pau molhada na
tinta preta do tinteiro grafando o assento como José Katinga, ficava vexatório
e quase pecaminosa a sonância daí o registro com a letra k; neste ponto a convencer
o trabalhador da roça propôs com K a dar uma importância enorme parecendo
estrangeiro como o escritor Kafka por exemplo. Tinga devia ser o nome da
família do compadre Tonho, mas eis aqui o primeiro imprevisto: fê-lo de fato com
o K, aquela letra atrevida junta com as manas W e Y que na época contavam no
abecedário pátrio; depois sumamente suprimidas as três do alfabeto por uma
reforma e readmitido hoje, por força (contra o povo, ora o povão nem toma por ignoranante
conhecimento) por força doutra reforma, esta a Ortográfica que entrou em vigor
em 2009. Pronto, José Katinga; no entanto à gente da rua de sonância como o C,
daí virar José Catinga e após uns anos Zecatinga. Pronto, diz a gente.
Contudo aqui o segundo susto ou
imprevisto e que no caso anula o imprevisto de mais respeito por velho que foi
agorinha explicado.
Porque o pai contou no registro do
menino apenas com aquele rabiscado na igreja pelo padre na cidade-Vila do batizado.
Mesmo porque Vila Alta não tinha ainda cartório nem prefeito nem câmara.
Invalida também a cena anterior quase a virar briga entre o pleiteante roceiro
e o funcionário que não havia ainda sido indicado ao cargo.
O Padre escreveu certo no documento de
batizado Zecatinga com o C de casa não com K de Kafka; então complicou outra
vez: "Zeca de quê, indaga o religioso, e o sobrenome o nome de família?"
O pai da criança ainda novo e mui tímido, fica sem resposta e de boca aberta
mais uma vez. O pároco conserta "Filho, diz do filho a chorar aguinhas
salgadas, por que não põe os nomes dos Santos? não vê quantas imagens aqui na
igreja a abençoar o nenê!"
Ora, a voz do povo não costuma ser a
voz de Deus!?
O povo, vizinhos amigos conhecidos
compadres parentes, parentes adoram intrometer-se por serem íntimos; e assim igual
os meninos colegas de brinquedo e também os companheiros de enxada, o trabalho
na pobreza acaba sempre a começar cedo e o menino vira lavradorzinho no roçado...
No entanto nisto conta muito mais as comadres – todos pronunciavam cumádis às
comadres e cumpádis aos compadres se bem não se aventurassem os machos machões
nas conversas das comadres – e assim, assim se torna por força do tempo José
Katinga em Zé Catinga ou como o compromisso de escrita Zecatinga. Está dito.
3º
cap. Um Cheiro de Zé no Ar
Há um cheiro de Zé e não será em virtude
da desvirtude do Zeca andar parado cadáver imóvel pranchado no seu velório!
Tornemos ao Capítulo 1º. As pessoas bem vestidas de domingo, é uma segunda
braba, comentam o morto no já gasto "parece que está dormindo"; um
outro alguém "é incrível, ainda ontem conversei com o Zé etc. e tal"
muitos etc. em cochichos. Ora não, não estamos no Velório Municipal de Vila
Alta, hoje de fato zona urbana e o burgo pontifica lá em cima do penhasco, uma
vista linda de morrer, expressão nada feita para soar bem em velórios; porém
acontece numa sala pobre de casa pobre de moradores pobres, emprestada ao
serviço visto o despacho do José Tinga à sua última morada (e aqui deu um
cacófato horrível) a última, o povo pensa assim e assim fala. Há flores silvestres
e uma que outra cultivada tratada por mãos santas, além daquelas arrancadas das
latinhas – ui as latinhas nas mudanças de pobres... são plantinhas medicinais
da medicina caipira com nomes nada científicos mas batizadas pelos caboclos,
aqui nunca sabemos origem; são vegetais coloridos pela pródiga natureza. Tem no
velório em volta do caixão exposto na mesa umas cadeiras, uma despencando insegura
e daí sempre alguma boa alma avisando do perigo aos pretendentes cansados.
Então há muita conversa, conversa de roça e de casa de roça, falam de preços de
chuva de falta de chuva a geada o vendaval e o vendaval de prejuízos; lembram
indisposições com vizinhos ou com patrões; e claríssimo lembrar e repisar
sofrimentos e mortes dos mortos antigos, num sofrer de novo, bem masoquista ou
próprio do sentimentalismo latino; enfim coisas e assuntos fora de hora justo
na hora do velório, onde se requer silêncio e respeito; todavia respeito e
cuidados não tem a meninada de língua solta lá fora a festejar na festa fúnebre
com suas brincadeiras e brigas, e nisto alguenzinho corre contar tudo e todo
malfeito à mamãe lá dentro e se esta enfunada por nada ou por muito sobram as
orelhas paternas como as do compadre Tonho... ué mas ele não morreu no ano
passado!? não, o outro Tonho, o que veio da Fazendinha; um sujeito bom e
trabalhador, inclusive fizeram ele e o morto vivo amizade, num papo a começar
contando o filho do pai no tim-tim por tim-tim da morte sofrida do pai do
filho, este ali jazendo esticado trajado com um terno que teria chegado a si no
matrimônio oficial (aquele antes no padre não conta) com dona Maria, ainda
jovem Maria, ela também de vestido de noiva emprestado. Depois... não devolveram
ao dono as roupas! Não. Decerto o Zé, honesto que era na devolução contudo o
morador foi embora, na roça se revezam muito os trabalhadores e certamente não
deu tempo pagar o empréstimo das vestes na vizinhança. O tempo fora passando
passando e olhem agora Zecatinga vestindo paletó escuro até limpo e passado a
cheirar horrivelmente naftalina afugentadora de baratas no guarda-roupa a nhec-nhecar
rangendo ao abrir ao fechar rápido pelas mãos medrosas de Maria...
Sim tem um cheiro de Zé. Dele,
coitado, por algumas podridões brotando pelos orifícios saindo das pacueras.
Igualmente lembram-se o cheiro de velas desagradáveis acesas derretendo; e das
flores, estas a tentar harmonizar os hálitos pesteados ali. No povo em visita
tem sempre uns a se perfumar, mesmo os machos da espécie, entretanto como fazer
evitar...
Ih tem muito mais cheiros ligados ao
homem ali e fora dali nos anos que passaram. Vejamos, reportemo-nos aos que
tenham origem... Enfim são cheiros que soam como póstumos no tempo póstumo.
Sim, temos na área e no tempo até ao
tempo cheiros dele com outras origens mais ou menos explicáveis não explicados.
O Tinga de Zeca ou Tinga de família do
velho Tonho Tinga tinha característico de todo lavrador (do operário do servidor
do funcionário também lá longe no burgo nascente) que era o cê-cê, o cheiro de
corpo humano suado, agravado e bem nítido no costume roceiro, aquilo que já
quase não mais sente ou se conscientiza do tardar o banho, de fato o banho
porque o hábito secular quiçá milenar é a água no sábado apenas, bem dito: não
estando frio o tempo... do contrário têm mais três sábados à espera no mês.
Assim não se espera e por essa razão não há maior cobrança, deita-se dorme-se levanta-se
fedendo como antes nos castelos de abrantes e fim de papo. Não. Prossigamos
nesta discussão muda.
O Zé cheirava como todos os iguais
dessemelhantes ou semelhantes porém não iguais – enfim ninguém a reclamar disso
por isso. No entanto cheirava mal, tudo impregnado nas vestes, a roupa não se
troca toda hora e... ah deixa pra lá. Não, dona Maria por razão de proximidade
reclamava, ficando a falar sozinha e aí tem sempre um filhote a necessitar
amparo cortando início dum bate-boca conjugal, sobre o porco do seu pai... Não,
menino, num é o porco vermelho não é
vermelho e sim branco com pelos sujos a fuçar por aí, esse é porco mesmo, falei
o porco que é seu pai! e ocê tá tamém sujo seu porcalhão.
Um cheiro que grudava nas calças na
camisa na cueca samba-canção e por fim lençol colcha cobertor e ih até na gente
noite toda... e não é de sua conta, vai agora dar o recado da cumádi, descarta
ao filho a mãe mulher do Zecatinga. Acabou? Não, num acabou: o Zé por preconceito
quem sabe não usava água de cheiro, nenhum barato perfume (a trabalhar é claro
que não se espera tal) quando a andar por aí ou a pescar ou a ver aquela
porcaria de jogo de bola: não pondo perfume a abater ou diminuir o cê-cê brabo,
dos que as glândulas assopram pra fora; uns homens sem perder a macheza punham
perfume a neutralizar um pouquinho e federem ao menos menos um pouquinho...
Nunca o Zé. Além dos acréscimos; acréscimos? ora, o de resto de minhoca e de
peixe na beira do riacho e dos galhos verdes: vivia quebrando e triturando nos
polegares partes de certas ervas aromáticas bem cheirosas quando de volta ao
lar, lar doce lar. Já Maria sequer notava mais pelos anos. O sumo de frutas, a
laranja a mexerica tangerina, mas isso nos outros da família e vizinhança igual
acontecendo em troca e mistura de hálitos em hábito. Ora, bolas, isso tudo
seria novidade no mundo!
4º
cap. Apelido e Cheiro Pegam...
Ká
ah como moleque é e sempre foi desabrido desavergonhado na irreverência mundana
que grassa por aí – ele, eles que o apelido pegara, ele o tratava KÁ e escrevia
nos muros o colega de brinquedo e insulto assim; a gozar? a gozar. O Zequinha o
que fazia no que se fazer! chorava. Cá querendo afirmar a propagar que Zezinho
fedia. Contudo fedia mesmo, de feder, de se fugir de perto? claro que não, pois
o próprio ofensor cheirava, mal. Enfim essa a problemática: a gente não enxerga
com o nariz os próprios odores...
Então o ofendido e lógico o ofensor
igualmeente tornando à casa imediato aos seus para brigar corriqueirices com os
manos na penca que havia em cada família pobre da época – não, sim, os ricos
eram prolíficos mas sem tanta gentalhinha da gentalha; além do bem das babás,
mamãe no cabeleireiro; e os pimpolhos endinheirados não fediam, fediam aperfumados
– os pobres brigavam até à intervenção da língua de mamãe e depois o chinelo de
mamãe ou da irmã mais velha dos infratores, se esta com iniciativa ou brava por
gênio. Calavam-se contendores. Não se calava o cheiro.
E se Ká quisesse antemão não dizer fedido
moleque sujo essas coisas; porém ofendido e colegas de brinquedo em brincadeira
ou vivendo seriamente sabiam o que 'ká' propunha. O Zequinha chorava. Aí se
pega grande.
Nunca fora grande, menino espichado
esticado vareta entre crianças, antes mediano. E será mediano; aqui grande quer dizer adulto. Pronto.
Daí cheira; além do cheiro de gente, cheiro de gente só tolerado pelos cães; ele
cheira um pouco mais que outrem por não amar demais o chuveiro.
Todavia ficara para trás no texto explicação
sobre odores mais ou menos marcantes, uns explicáveis, outros chato explicar.
Por exemplo em vida toda (aqui vida-existência) cheirava a fumo, a fumante
inveterado. Impregna na pessoa, certas mulherinhas do povo também fumavam,
inclusive as da família de Zecatinga; já as ricas chupando ricos cigarretes,
não escachariam...
O tabaco marcou esse, este que tá ali
de barriga pra cima no caixão no velório, seu velório. Como no tempo tantos
assim (por mais tende a medicina e os pregadores lutando contra o vício:) que
inclusive não sendo positivo não mas tolerável nele e noutros. Aliás este não um
ganho notável que é o combate ao fumar nesta sociedade mais ou menos podre, embora
interessada em se melhorar?
O fumo.
Outro cheiro deselegante – parece que
tudo seja deselegante; sabe-se lá. Outro fora nele o álcool. Se bebia? ué, não
tem o dizer a dizer "come com farinha!" em tudo se mete a bebida.
Desde que o mundo é mundo. Não: desde que os antigos descobriram por conotação
religiosa a decerto 'gostosura' de algumas bebidas para relaxar relaxados.
Nele.
Vejamos o corolário do pobre beber
inveteradamente. Ah, pra que ir tão longe – perto, aquizinho jaz o Zeca estufado
no seu velório, o clínico falou "pare ou morre". Morreu.
As bebidas alcoólicas entraram tanto
nesse seu bucho estufado aí, que seu cheiro misturou-se ao cheiro do próprio
Zé, se impregnando se confundindo com o hálito de suor e restos de comida mal
deglutida pelo organismo do homem branco, branco se se quiser no entanto
queimado do sol se se quiser e exalando o cheiro do tabaco e do álcool se se
quiser; enfim o cheiro 'natural' do bebum.
Daí, daqui as referências familiais e
de amigos próximos a criticá-lo pelos desandos do então cachaceiro... Se houve
tentativas dos do sangue ao parente a superar o vício!
Isso atrasou uns dias de estar esticado
neste velório. Contudo expunha outros
odores ou mais nobres ou mais aceitos por ordem da tolerância social. Um sendo
ligado aos temperos domésticos e então não se percebe mesmo. Ou se nota mais
ainda...
Assim o ligado à cebola. Tem inclusive
uma estória gozativa de se levar, trazer, ao velório dos outros para mostrar se
não sentimento profundo lágrimas soltas; quem nunca entrou dar palpite na
cozinha, não saberá como arde as rodelas de cebola nos olhos... Nele, sem pensar
diminuir o peso doméstico em sua Maria, nele se incorporara desde menino até
descansar aí no centro do velório o cheiro de cebola, por viver no seu viver a
trincar nos dentes a dita cuja... Sim, fica um bafo do vegetal no animal
(leia-se Zecatinga) a catinga da cebola.
Pior nesse pior o caso do alho. Tem
gente que não dispensa o alho na comida, têm os que não aceitam substituem o
condimento por outros vegetais. Além de ser usado como medicamento roceiro, o
chá de alho cura resfriado e gripe, dizem. Sabe-se que ele é antibiótico
natural, não os roceiros mas os estudiosos no assunto. O grosso da massa adora
o dente, dente de alho em condimento. E permanece no odor da pessoa
naturalmente. O caso do Zé. Não obstante, este adora mastigá-lo. Ah a Maria,
d.Maria o criticava muito por isso como sua íntima (de estimação) "ocê tá
temperado! nóis já pode comê!" Todavia e os de fora – quase todos são de
fora inclusive os de dentro do lar... – sim e os de fora pensavam disso o quê?
Porém
exalando outros desagradáveis e Ela, a esposa, "ocê tá cheirando a peixe
podre, homi". Apreciava bem as pescarias no riacho; e claro comer
peixinhos fritos.
Tem entretanto a bafejar em meio ao Zé
'Temperado' a pimenta mais ardida, a dedo de moça por exemplo, o pimentão, menos
picante e deixando presença no bafo do Zeca, pra depois a mulher ralhar.
"Qui diacho esse homi só pensa em comê e adispois arrotar na gente!"
E havia a carne, carnívora a família à beça. Sem bife, quando trazendo do
açougue da Vila, então não era ainda município a possuir açougue armazém e bar
pra se enxer a cara. Aí o esposo tornando a trançar pernas ( por vezes
inclusive a perder derrubado da mula velha usada como cavalo algo na estrada,
bebunzinho... Em vista disso, quer dizer do uso da carne em casa, o bife
atraente na cozinha. Não perdoava, comia de boca aberta igual qualquer capiau.
Aliás como não comer não abrindo a boca e mostrar seus dentes podres! Nisto o
mastigar barulhentamente qual porco. Ela assim o apelidava. Oh, tem pior. O
pior? deitava-se quase sempre após almoço dominical e fazia roncando xixi na
cama. Por isso desentendimentos. A propósito, lembramos aqui o da urina e do
cocô, as fezes enfim; as quais às vezes mal limpas faziam a esposa desse homem enrugar
o nariz...
Em razão dessa alimentação atabalhoada
embora necessária dentro do costume roceiro – o bodum. Isto é, explicamos por
condições e imposições de sua própria natureza mas forçado ainda mais pelo
desregramento comilão. Certos alimentos se impregnam e entram no ser. O caso.
Este bodum no trato de agora levou esse
homem a ter a característica que o marcou. Condicionou até no seu nome e no de
família.
5º
Cap. O Santo Nome
O nome, que realmente é o de família e
que o brasileiro inverte após o apelido – era desde tempos imemoriais, curtíssimos
no País, o nome foi sempre Tinga, certamente vindo do apelido popular dalgum
parente atrás. Ao Zé surgindo do Tonho, velho Tonho morto no ano passado; aqui
referência ao seu velório agora, o do Zé, filho do Tonho, seria então por ordem
da lógica José Tinga. Os conviventes chamando o já idoso de uns 45 anos para a
época em que se morria velho-novo ainda, sim referindo-se a Ele Zeca; então
virando Zecatinga. Partiu o costume a unir seu chamativo bodum ao nome: catinga,
fedor, no caso dormido e azedo exalantemente ofensivo ao olfato alheio, o fedor
que os matutos chamavam catinga; virou nele Zé-Katinga (o K do funcionário do
cartório, está o leitor lembrando?)
O interessante nisto tudo fora o tudo
certo ao Zeca, o qual terá se acostumado, não conformado e aceitante porém ao
correr do tempo, porque em geral o caboclo não filosofa seu nome. Não quer isso
dizer não exista tradição na preservação do apelido dos nossos a da gente rude;
ou sendo nuança apenas, desinteressada nesse mister, pelo menos semelhando em
comparação do homem urbano e atrelado ao mando do mundo europeu e ocidental até
as Guerras Mundiais. Ah não nos lembremos das crises com reflexos até hoje,
séc.21, as quais corrompem o restante do Planeta.
6º
Cap. Roupa Suja...
Roupa suja se lava em casa, isto dizer
popular consagrado em nosso povo, sobre as intimidades e/ou defeitos faltas
abusos que não devem sair a se mostrar na rua. Têm certos acontecimentos e fatos
concretos ou não divulgados ou na melhor hipótese não se devem propagar por aí.
Aí sim muito a guardar na família Tinga, os diz que disseram e até invenções,
sempre desnecessárias aos e dos parente amigos conhecidos compadres. Seria para
gente, se se propusesse a isso, fastidioso. Não cabe aqui; aqui, por alto
apenas algo como fosse pego pela câmera da tevê (que aliás não se via, não existindo
na roça da época da Segunda Guerra; hoje qualquer sobrante casa roceira já tem
já pode ter telas e inclusive abusar nos abusos que a mídia pratica sobre a
população indefesa ou 'indefesa'. Não tinha:) tanto assim que funcionava ah e
como funcionava... o bate-boca. Mas tomemos um foco de errados ou tortos: o
costume da Família numa simples lavagem de roupa da casa. Primeiro que se não
trocavam peças de vestuário; nem aquilo por baixo com as de cima à vista,
calças camisas. Além de alguma coisa próxima do tema, o cheiro. Bom? ruim? nenhum
porém os de Maria acostumados na troca e portanto neutro e não tem sentido se se
alegrando no bom e se irritando no ruim. Contudo deve-se falar e até insistir
no fato de a Maria lavar mal a roupa caseira; d.Maria? d.Maria. Dona Maria a
oposição ao Zecatinga? este essa. A senhora, limpíssima inclusive ao ponto de
criticar o marido (no padre? no padre e depois também no cartório; essa:)
Acontece, aconteceu muitas vezes assim; acontece não ter por decerto não ter
aprendido com a mãe, mãe dela, a cuidar bem o suficientemente as peças, até as
suas próprias mesmo. Ou seja, levava (ia à mina de todos moradores todas comadres
a cuidar cada qual de suas) levava lavava corava esfregava, estendia a pingar
no varal de quase todas comadres – uma delas transportava na cabeça roupa
molhada a pendurar no varal de sua residência ou tapera; não a maioria, a
maioria comadre. Maria fazia o que fazia estendia nesse arame farpado mais ou
menos comunitário, em meio à conversa infindável e mesmo a deixar vazar intimidades
dessas de sete chaves ou deixando roupa suja em meio às limpas para ser desnuda
e discutida em casa, no aconchego do lar doce lar... E em meio dos gritos delas
comadres, e à gritaria das crianças. Entretanto não cumpria nessa celebração o
compromisso de lavar bem os panos... Expliquemos a coisa.
Na cidade, posteriormente visto
algumas populações permanecerem rurais e
portanto de costumes roceiros mesmo sendo cidade não vila; essas nem se conta
na explicação da oposição. Seguinte, Ela, a Maria! a Maria lavava esfregava;
torcia o pescoço da peça levada lavada mas não a contento. Explica-se melhor a
explicação:
No começo da cidade se limpava a roupa
com sabão em pedra, isto é pedaço sólido; o normal ou comum, nada demais. Daí
apareceu por ordem da tecnologia e da propaganda o consumo e antes a invenção
do sabão em pó.
E aqui entrar a coisa.
Pois nas primeiras caixas do saponáceo
em pó, este fedia. Fedia! fedia sim. O fedor tão caro a estas linhas, então
aparecendo... Como? simples – d.Maria e seria Maria Tinga não era não seguira a
Katinga do esposo; mas sim a Maria. Ela não tirava direito os fragmentos do pó
do sabão da roupa que lavara, estes à luz solar e ao tempo se transformavam
quimicamente noutra substância, aqui carregada a enxofre, nisto sim o concentrado
fedor!
Assim a roupa lavada já seca e
novamente suja embebida no suor forte e contínuo do Zecatinga, fedia horrores e
também as pecinhas dos filhinhos umas gracinhas.
No entanto isto tudo na comparação em
limpeza da sujeira do tecido entre campo e meio urbano no início da tecnologia
insuficiente porque hoje em dia se bota líquidos perfumados, tipo amaciantes,
havendo perfumantes especiais ou embutidos no pó ou no líquido a se adicionar
na máquina lavadora; inexistente nessa época na zona urbana e claro menos na moradia
da roça.
A exploração deveu-se ao fato de nesse
tempo e depois desse tempo à mesma d. Maria; de Ela não tirar direitinho
resíduos enxofrados de cada peça. Não sendo para economizar água não, isto que
é fato nem sempre cumprido, mesmo na cidade onde se esbanja o líquido precioso
e básico em falta nos muitíssimos lares.
Em corolário dessa falta de preparo da
senhora, o Zecatinga, além da catinga que fora quem sabe vindo de Ká, o Ká
gozado pelos gozadores com tal mau gosto e talvez eles a dar origem aos
pichadores atuais (séc.21). Então o pobre (pobre de fato, nunca passaria disso
até chegar aqui, aqui velório aqui seu próprio velório. Essa pobre criatura com
méritos ser trabalhadora e digna – fedia horrores, dito já dito e repetido,
exalava seu fedor, seu bodum e a Maria acresceria sempre acrescera o cheiro da
roupa mal repassada na bacia de água limpa, agora então suja. Preguiça? quem
saberia se não isso! mas certamente falhando na técnica cabocla de limpeza. Não
teria na conversa comadre, nessa falação solta em que se perdia a pichar cumádi
X e então se esquecido de limpar bem!?
Lavemos pilaticamente nossas mãos.
Cap.
7º Informes Curiosos
Se cheiro não se descreve ou apenas
tentando fazê-lo a dar ideia ainda que imprecisa; não é assim com seu físico.
Como foi o Zé. Ora, como qualquer matuto, inclusive trajava-se o comum o
encontradiço. Uma pessoa desse jeito na cidade, logo os outros sabem ser um
caipira. Não obstante, absurdo tentar ver o pobre como se pinta um roceiro a se
apresentar ridiculamente nas festas juninas: o sujeito rasgado remendado
pintado abobeado! se envergonhado, ainda seria passível. Talvez coubesse nele o
gosto discutível à camisa xadrez. De resto resta o ridículo como dito, a
fantasia o humorístico. Ah, o homem da roça era como qualquer outro de outra
área. Inclusive sim podendo até ter televisão em casa, não tinha no tempo das
Guerras; inclusive algum possível abastado sitiante, não um trabalhador,
tivesse então energia elétrica, quando a propriedade perto do meio urbano; o
que não sendo o caso de nosso Zecatinga. Alguns poucos roceiros tendo rádio mas
de pilha, aquelas grandonas a durar mil horas gastas numas quinhentas. E uns
entre eles possuindo carregadores de baterias de automóvel, para alimentar a
roça. Ainda aqui, não o caso do Zeca. A questão do rádio, que a Maria nunca
pôde ter em casa, ajudou muito os ouvintes a desenvolver a imaginação; enquanto
comparado à tevê, esta já mostra a imagem como as empresas querem que se veja.
É um mundo diferente, longe do mundo roceiro de fato. Depois... Bem, ele usava simples
vestimenta estando no campo a trabalhar ou na cidade a passear e mais fazer compras;
isto se podia notar nele e noutros.
Por outro lado podemos mostrar o Zé no
que mais fazia: pescar e puxar a enxada. Foi trabalhador. (Agora aí descansando...)
Claro, na roça suado cansado, ainda aqui teve lá seu privilégio, que é o de ser
cuidado pela esposa; a Maria se esmerava... quer dizer, cuidava do seu homem
porém mais voltada às necessidades dos filhos do casal, da roupa por exemplo.
Aliás não exagerando a casa como todo no
banho e aqui tornando ao tema, o cheirro, o do fedor do cheiro se se pode
tratar desse jeito pois têm os cheiros bons e atrativos. No conjunto a gente
cheira muito mal. Sim, verdade que gambá cheira pior e mais forte. Entretanto
gente cheira fedorentamente. O gambá, pobrezinho, exala o natural como defesa.
Gente não se encaminha a esse tipo de defesa; antes que isso isto: esconde seu
odor com cosméticos e perfumes há séculos; e tais perfumes às mais das vezes
acabam vencidos ou afetando negativamente mais ainda outrem... Parece não ter
solução a essa intenção de solução.
Quer dizer, cheira mal imaginando
cheirar bem e decerto sim a si; e outrem que se acomode...
Outra
característica dessa gente roceira – tão ou mais curiosa que demais
características – é a fala propriamente. Estas linhas haviam antes avisado
entremear a pronúncia e o som ouvidos na época e no lugar, fato que é mui
marcante quiçá ridículo e claro: isto a depender de quem ouça ou observe os
matutos. Por exemplo Maria não diz nunca vamos, "bâmu" a trocar vê
pelo bê; ela e os outros vizinhos compadres etc., usam a miúdo a expressão
"pra mode", o comum; não diz 'desde' mas "desna" e em toda
palavra onde o LH caboclos simplificam o L e o H a usar "famía" em
lugar de família e "míu", o grão de milho. Ah, com isso todo mundo entende e se entende. Outra
forma curiosa de nossos roceiros é a expressão 'malapregunto', quer dizer não
desejar ofender o ouvinte mas tendo intenção saber mais algum podre... Tanto
ele e mais ela no casal a usar o expediente; sem ferir, ou exatamente ferindo
as orelhas do outro... Enfim perguntar sim, porém no mal sentido e quiçá
autorizado.
Neste ponto da narrativa o Leitor a
nos indagar: onde o cheiro nisso!
Tem razão, não fujamos qual criminoso
a se esconder covarde ou medroso. Mea culpa. Contudo o que ora foi dito
tem cheiro. Sim. Entrando o comentário acima como atrevido e espevitado, na
verdade sem fugir do Zecatinga e seu cheiro, marca registrada. Pusemos os
esclarecimentos tão só como pano de fundo da problemática... As vestes usadas
usadíssimas pelo nosso personagem lembram ou acordam para o fato de que tecido
mui usado sem troca diária ocasiona uma exalação medonha, do tipo 'saia de
perto...' E quando Maria reclama ou apenas lembra ou mais que isso goza na sua
linguagem cabocla seu parceiro, na reclamação ou adversão embutido aquela
assopração fedida do mesmo. Então Você pergunta e ela aguentava! Respondemos:
Ela encontra-se no velório dele e ainda porta no dedo a aliança do casório. A
gente ou não sente (mais) ou não conscientiza o cheiro dos nossos. Provável que
nem os gambazinhos reclamam dos adultos de sua tribo e ou espécie. Outra
vertente nisso – e aqui não estamos seguros não estarmos a ser submetidos às
lambadas da crítica, visto hoje, século 21, se tenham acirrado o choque e a
crítica sobre as diferenças entre sexos (daí a figuração lambadas...) – um
porém nisso somos lembrados da afirmativa não comum mas ouvida algumas vezes de
que a nossa fêmea sinta certo atrativo no cheiro do suor do macho. Não. Não nos
force explicar; aqui somos mais pendentes à usada expressão "segredo
levado e escondido no túmulo". Do Zé? Até que sim. Não. Em nosso túmulo e
sepultado a sete-chaves. Xô curiosidade. Prossigamos.
Uma verdade entre pescadores, também
pecadores porque todos habitantes deste Orbe são pecadores. Se insistirem nisto
também, também levaremos às sete chaves da sepultura. A verdade: Sim, a Esposa
não se conformava com o Zeca no retorno da volta do riacho; tinha uma volta com
barranco preferida dele onde vez que outra atirava restos de comida azedada no
caldeirãozinho em marmita levado ao rio, pensando fosse ceva e daí pegar mais
peixinhos. No retorno ao lar doce lar a matracação da companheira, sobretudo
pelo cheiro de peixe estragado no cheiro do seu homem. E se brigavam por isso!?
claro, aqui escuro pois tendo o casal mil outras razões a se desentender.
Ah e havia a miúdo outras mil de
entendimento. Mais ainda quando a causa a ter a casa num exalar cheiro de
fritura ou de remédio da botica careira na Vila; o 'perfume' de remédio às
crianças. Então mesmo para falar o faziam baixo. Quer dizer, Zecatinga não
sabia o baixo nas coisas. Troquemos por menos gritado, pronto.
A pescaria dava à famía alguns
bate-bocas. Não só pela situação rotineira mas pela situação financeira da
coisa, coisa de não se laborar nos domingo feriado dia santo e/ou preguiça ao
dia que devera ser produtivo segundo o fiscal do patrão. Uma vez por essa razão
até fora demitido (aqui nunca cabia direitos trabalhistas, mesmo à gente da cidade
eram falhos).
Havia o cheiro do peixe sim ou não
podres ao sol e às horas na beira do corgo. E outros cheiros como o da roupa o
do arroto de alimento e... ah isso chato dizer: o do pum. Sabemos que se convencionou
esse nome à descarga da prisão de ventre, que todos têm. A "famiâje" do
pum dizia e assim todos roceiros nas grosserias de linguagem com muita gíria,
quase dialeto na roça. A gíria em que o
brasileiro é rico, milionário... A gente não quer ferir ouvidos puristas.
Depois nos últimos tempos e então o Zecatinga
já não mais trabalhava, trabalhava a família, incluindo Maria no cabo da enxada
– sim já beirando o Velório tão presente. Ele só pescava, sob obediência da
esposa, a qual deixava que os filhos solteiros em casa fossem junto do pai, os
casados tinham suas companheiras a brigar ou obedecer... então ia o Zé acompanhado
dos meninos, um ficaria pra titio sem casar. Eram bons companheiros. O morto,
vivo, dizia destes "bons pirangueiros". Olhe, daria um romance
massudo os fatos das pescarias (doutro lado daria muita mentira... de pescador).
Enfim isso a criatura, ela malcheirosa sim e sim teimosa.
8º
Cap. Retalhos Finais de Zé
Nossa rota com o Zecatinga mostra
inclusive lances curiosos referindo-se a outras pessoas outros conviventes,
porém não pode fugir de sua presença ou furtar-se ao seu conhecido cheiro.
Poríamos hálito, que ele tendo de montão nos seus mal-educados arrotos e
relações outras inesperadas. Aliás ao olfato alheio é sempre inesperado sentir
outrem, outrem mormente sendo o Zé. Misturemos tudo nessas indicações (sem
aprovar relaxo do personagem mui registrado nas páginas anteriores). Primeiro
vejamos como tratado na intimidade. Havia um compadre, desses chegados e de confiança,
o qual, longe o apelidava Catingudo, pelo óbvio; também óbvio que perto frente
ao cumpádi Zé não feriria assim. Inclusive criticara o amigo Zé por andar
sempre com um ramo de arruda na orelha a afastar mal-olhado. Quase o dito compadre
ofende o compadre a chamá-lo Catingudo, freado em tempo (é quando muita vez a
gente não completa a frase já na língua...)
De repente, ora de repente se todos
dias e várias vezes no dia entra com seu mando na área o cheirinho do café! Maria
se esmerava ao torrar ao moer no moinho ao passar no coador a infusão e
sobretudo ao servir certas visitas. Claro, nem todo visitante com esse tratamento
e a deferência. Agora, nisso, uma coisa chata era que Ela pegava diário seu
marido a beber café direto no bule! Pra si demais o abuso do homem; e aqui início
de discussão; sem solução: nunca o Zé deixou esse condenável hábito. Ou que
fosse a boa senhora a registrar sua (dela não dele) atitude noutro flagrante,
aqui bom e produtivo, que era o fazer e oferecer pão de casa. O caboclo em geral
gosta do de padaria trazido nos dias de compra na Vila. Em geral consome-se o
feito no lar. Então o dela, Ela ofertava com graça ao visitante aquele que ela
mesma fazia; antes já avisando o forno de assá-lo com o cheiro gostoso do alimento.
Outro aspecto da vida na família, na
intimidade a mulher ralhando os filhos e o pai dos filhos por já com mão suja e
tudo o mais partir o pão ainda quente...
Esses são cheiros atrativos. Contudo
numa casa de roça, velha ainda por cima nesse por baixo, aí sobravam outros
desagradáveis como o irritante cheiro mau de percevejo por exemplo. E lá vai dona
Maria nunca o Zé a pingar querosene fedido no estrado envelhecido estragado com
larvas entremeio.
Havia, houve muitas vezes, os cheiros
de compadrio ou de vizinhos. Será aqui haver nos expressado insuficiente! Bem,
é o seguinte. Quando na casa uma dúvida sobre cheiro qualquer e preocupação
pelo tal cheiro, não o cheiro do tal Zé, não; um outro aspecto da coisa. Tem
gente, uma minoria estatística, que não sente cheiro algum. O caso da vizinha dona
Carmen, uma espanhola, com essa deficiência física. Uma vez Maria levou-lhe,
para comprovar e confirmar suspeita terrível, uns nacos de carne de porco
supostamente estragados, a fim de ficar ciente com a outra moradora se o
alimento ainda bom para consumo ou se de fato avariado. Ela foi e uns filhos
foram também, curiosos como toda criança, presenciar. Dona Carmen inspirou
aquilo e respondeu "parece que cheira bem, a comida está boa" Daí
Maria caiu na real pelo engano e se lembrou que a mulher da casa vizinha não
percebia cheiro! Ora, dona Carmen... Comum uma vizinha pedir auxílio doutra em
momentos desses. O mais encontradiço era levar como presente doces cheirosos em
oferta de amizade; dias depois quase sempre a receber em paga do gesto bonito e
fraterno outra guloseima. Lógico depois com os íntimos comentar a 'troca' em
favor do relacionamento. Numa das vezes quase o Zé fala alto contra o pão azedo
trazido à sua família por dona Assunta. A Maria tapou-lhe a boca com aviso,
mais sinal que fala, em ofender o presente...
Esses os demais cheiros dos demais, o
Zecatinga sendo o primeirão no assunto...
Todavia tornemos às costumeiras
exalações. Uma é bem frequente – o cheiro de cachorro molhado. O Peri do Zecatinga
ficava sempre encostado ao amo, no rio no trabalho na casa; não molhado e 'fedegoso';
porém molhado saindo da água a se chocalhar chocalhando os pingos no dono. Companheiro
nas jornadas ao rio, o Zé tinha muita afeição ao animal, um vira-lata autêntico
e inclusive certa vez esse mesmo Zé se envolveu desnecessariamente num pensar
sobre o sumiço do Peri. Desaparecera coincidentemente quando da mudança dum
compadre; desaparecera de perto da família do Zé e este julgou haver sido
roubado pelo compadre, Compádi Tonho (o mesmo que lhe dera emprestado o terno
que veste ali no centro do Velório; isso já dito aqui apenas relembrado).
Supôs... Isto lhe rendeu preocupação e inclusive uma insônia, ele que não era
de grandes filosofias, sofreu. Insoniar,
a contar as horas da noite, em que umas passam normais outras se encompridam...
Até chegar o dia o sol a 'vida' rotina – com sabor a cabo de guarda-chuva. O
que viu-sentiu nessa noite: o roncar da Maria (mentirosa, pensou ele, ela diz
não roncar e me critica sempre) o choramingo de algum dos seus meninos, um cachorro
a ladrar lá fora perto-longe e então se volta à lembrança do Tonho; já tem
certeza haver o compadre roubado Peri. Noutro dia o gosto de cabo guarda-chuva
a puxar enxada; de manhã mal-humorado nem o cafezinho de praxe quis embora
insistência da esposa. No entanto uma tarde, a seguir lá no alto os negros urubus
– e onde urubu é certeza carne podre a feder – loguinho encontrou os restos do
seu pobre cão, portanto não levado em mau gosto pelo compadre, o qual fora de
mudança da fazenda.
Para melhor finalizar isto, que tal um
cheiro barato por muito existir, sendo geral em gente? O chulé. Isso, o xulé
que o Zecatinga tinha de montão, a assustar e afungentar seus próprios filhos –
quando a tirar os pés do botinão caipira que usava. Aqueles de elástico no
tornozelo e de couro e solado quase sempre de borracha de pneu, mui encontrado
na roça de antanho. A Maria a lhe gritar, os filhos se não a falar disso
comentar entre si ou apenas se distanciando do pai nessa ingrata hora.
O pai? Esse que está ali, aí
espichado...
Na conclusão até poderíamos deixar o
gasto uso da palavra cheiro; trocando em bafio por demais cheiros (não dele...).
Num tempo na época das Guerras usou-se, as autoridade usavam e também os
roceiros na roça, o BHC, um inseticida que depois provado ser perigoso à saúde.
Então se aplicava nas casas a fim de acabar com as baratas e demais insetos. O
cheiro permanecia semanas; inclusive contaminando gente! Outro, esse benéfico era
é ainda o cheiro a subir da terra após chuva, cheiro de terra molhada. São
aromas amenos. Também a exalação de vegetais, como que a erva esfregada a
deixar sua marca no ar.
Um lembrete a tempo de encerrar a
narrativa. Quisemos não pudemos mostrar como o Zeca se arrumava; claro não
sendo um primor... Se vestindo se perfumando... Ora, se a Maria não lhe pegasse
no pé sairia a feder peixe da pesca ou suado da enxada – aí indo a se relacionar
com outrem, mesmo fosse roceiro e emparelhado ao seu pensamento. Aliás ele não
se via não se sentia; ao menos diferente.
Mas terminemos enfim. Esse o
Zecatinga, um sujeito que nossa boa intenção registra cheirar à mentira de
verdade.