O tem-tem do Trem
cap.
UM
Iniciemos o texto do zero, zero à
direita à esquerda não importa ao tratar vender a ideia da existência do Tonho,
Tonho como mamãe o chamava gritava toda hora que é hora de antes, ela: comadre,
esse veio para eu pagar os pecados, um capeta. O Tonho os outros desconhecendo o
tema do 'capetismo' o tratariam mais tarde Sr. Antônio, outros e até o Chefe da
Estação assim se referindo a Ele em sua frente por ser estranho. Não agora.
Ninguém, não se achando ninguém a levar a mercadoria... Nem mesmo o carroceiro
da fazenda, Fazenda Santa Clara, alegando compromissos outros e mais o tempo da
colheita do café com ordens expressas dos patrões, expressas e desconhecidas
mesmo dos mais íntimos dele, carroceiro ocupadíssimo, assim alardeando a fugir
da responsabilidade. Sobrou ao Tonho, ninguém todos ali alegando outros compromissos
como o ter de se levantar cedo noutro dia ou qualquer – a fugir da encrenca
suposta. Restou ao Tonho, moço dos seus 30 anos bem vividos (sem
sem-vergonhice, esclareço:) quem esclarece! ora bolas o autor destas linhas,
visto eu existir, não fugirei à responsabilidade; Você também, se bem que possa
não existir ou mencionar de sua parte poder fugir à responsabilidade examinar
as linhas, Você Leitor; ou, aí nos entendemos às mil maravilhas: dizer não
existir. Já no caso do autor ele é o sine
qua non: tem que existir. Existindo afirmo o Tonho.
O Sr. Antônio, apelido mui comum em
nossa sociedade, assim como José João etc. e tal – o Tonho, dito caboclo de
seus 30 janeiros, fazia aniversário em outubro não importa não havendo a si nem
aos irmãos dele esse negócio de aniversariar e bolo e festa e parabéns; quando
muito o coração materno preparando um bife acebolado no almoço como preferência desse filho trintão... Importante
ter 30!? veremos que sim porque aí maduro, inclusive pra se casar, morreria
solteirão não pela beleza macha discutível porém por doença: era doentiamente
tímido! nunca um conquistador.
Porém ao ser encarregado a transportar
a mercadoria à cidade, cidade no entanto mais patrimônio acanhado com estação
de trem, isto vantagem pelo escoamento da produção agrícola, era mais um
vilarejo que município digno desse nome. Aliás várias aldeias como Alto Cafezal
e Vila Barbosa lutavam para ser cidade e antes disso ter estação de estrada de
ferro; posteriormente juntados como município, no município de Marília. Para
onde agora e depois de muito lenga-lenga o Tonho dirige a besta que os dirige
ou os leva à cidade. Era para ser um cavalo ou égua entre os varais da carroça,
ficou um burro! Nesse tempo os cavalos e éguas eram o motor das charretes
urbanas. Puseram um burro a puxar, melhor no pior: mula teimosa e coiceira. O
que grave ao rapaz que não tinha traquejo nem formação de carroceiro não sabendo
as vozes de comando a contento se não
'ohôoo' e 'eia'! também desconhecendo a besta ou por burrice ou por
surda, não atendia ao improvisado carroceiro.
O importante nisso tudo é que marcham
(quer dizer homem carroça mercadoria) marcham lento sem tempo para chegar rumo
à urbe e mais pensando na estação de embarque da caixa...
Antes outra coisa importante a entender
este capítulo. Seguinte. Estamos, eu autor e o Leitor possível, Você, a desenvolver
a estória do Tonho e seus percalços para despachar certa mercadoria bem acondicionada,
a tampa leve se encaixando à base pesada e feitas ambas de madeira com a mercadoria
bem protegida dentro; em destino a outra cidade mais longe mas primeiro que
isso, chegar e despachar na estação ferroviária de Marília... caso a teimosa
mula aceitasse e não negasse fogo... ao jovem de 30 anos? ao jovem de trinta.
Postos os termos e insistindo nesses trinta
anos, necessário esclarecer que na época – inícios do século 20 até meados dele
– com essa idade um homem já maduro e logo seria idoso beirando os 50, quando
se sujeitava ter a chamada doença ruim, o terrível câncer. O Tonho maduro
portanto. Pouco mais tarde pleitearia aprender mais que sabendo no meio rural.
Então o que aprender para ter por exemplo um eventual matrimônio, ele incapacitado
ao mister por doente, dito a enfermidade da timidez. Contudo casado ou solteiro
não interessando e sim o fato de carregar uma carroça emprestada da fazenda para
levar a carga, aqui supostamente valiosa.
O outro dado importante à nossa fala,
é que não pretendo escrever obra literária e longe ser de gabarito. O tratamento
a combinarmos será o da linguagem coloquial próxima do povão em que me insiro,
e Você também, caso exista...
Em frente.
Por estarmos numa ligeira confusão é
que será difícil entender a explosão mais tarde do Chefe ao atendê-lo.
O Chefe: Senhor... afinal de contas é
Antônio José Arlindo ou João! (a um mequetrefe disse: durma-se com um barulho
desses! ou melhor, com uma loucura dessas!!!)
Cap.
DOIS
O Zé, sr. José ao chefe da estação,
olhou. Sim, devia ser aquele o trem a transportar o tão pouco à muita mercadoria...
E não estamos numa cidade do interior de São Paulo e portanto não bastaria
apenas indagar a qualquer um – 'um' aqui necessário ser um macho da espécie
porque nossas fêmeas arredias desconfiadas ou que o moço trintão fosse nada do
tipo saído e menos ainda conquistador; e posto isto não se dirigiria mesmo a
uma beldade, mais apetite houvesse e havia pois que os tímidos despendem mais
tempo mais horas século milênio a se dispor falar; conquistar já outro programa
e impossível aos medrosos; era seria a indagação a uma pessoa macha, para a
gente perder o embaraço – de fato bastando indagar a um sujeito dessas dezenas
que se ajuntam na estação de estrada de ferro da Companhia Paulista em Marília,
ali propriamente Alto Cafezal, tinha a Vila Barbosa e outros ajuntamentos a
pleitear estágio de município e mais aí no começo de 1930 ainda sob o impacto
da Crise de 1929; mas ficaria apenas Marília como cidade digna desse nome,
juntando a ela os outros povoados, ou patrimônios como se dizia. A Companhia
Paulista dera o nome tomado ao "Marília de Dirceu", importante na
literatura nesse tempo. Fincara o poste ao assentamento da estação: o restante
ocorreria por acréscimo a fazer o município crescer, até despencar hoje, século
21, como um polo administrativo do Estado. Não era assim contudo nesse momento,
uma tarde morna à população aguardar o trem das 5 horas da tarde em direção à
Capital e a chegar a ela quase noutro dia... Não era no momento em que José se
dirigindo aos funcionários, os quais o levaram até à chefia, o trem preste
aparecer.
Para quê o rapaz ali!
Para tratar daquela mercadoria a
despachar – realmente não mero despacho porque o Zé iria junto e tendo passagem
comprada às mãos como acompanhante da dita encomenda embalada (e que
mercadoria!) Todavia o Chefe ocupado nos trâmites burocráticos tendo
responsabilidade em aceitar o pedido daquele capiau de uns 30 anos, gastos na
enxada ou fosse lá no que fosse que fazendo ao pão de cada dia. De pronto não
atendeu o jovem; o chefe um senhor grisalho daí o registro 'jovem' ao Zé;
entretanto sendo já velho nessa época, maduro enfim; hoje um homem de 30 é
considerado novo, a população aumentou seu degrau de vida; melhor à verdade afirmar
existência, pois vida pode ser até milenar, enquanto a existência para um
indivíduo com 30 já podendo ser festejada (o verbo mal empregado, envolve a festa
fúnebre do velório e o da sepultura) no caso poderia José encontrar-se no cemitério
da Avenida Saudade e... ah, não fugirei aos temas: o trem e a constrangedora
mercadoria.
Ela bem pregada na caixa retangular
simples e bem feita por um artesão da roça; melhor dizendo, não pregada,
amarrada presa as duas partes móveis, a de cima leve como tampa e a debaixo
pesada grossa para sustentar tal despacho, de fato gente.
Assim descrito assusta ou só espanta
um pouquinho quem interessado saber; no caso a autoridade da estação naquela
hora ocupadíssima com papéis, aquilo de ordenar papéis numerar papéis assinar
papéis, a despachar os papéis e as mercadorias é lógico. Por isso retardava
atendimento ao caipira, caipira mal trajado decerto ou não porque a gente da roça
quando vai à cidade às compras por exemplo e não era o caso, em quaisquer casos,
se arruma com ajuda da mulher, visto mulher de maior gosto a isso; dessa forma
certamente deu-lhe (ao Zé) o palpite na roupa e portanto bem trajado no entender
do roceiro. Mas não, o Zé, sr.José desde aí tratado pelo chefe a se apresentar
pela chegada iminente da composição da Paulista, o 'Trem de Luxo', entraria já
ou daí minutos na plataforma. Porém o homem graduado não atendendo, a 'mercadoria'
então separada num canto e a numeração ainda não posta oficialmente, portanto
em atraso (ou lerdeza dizia o pensamento do matuto pleiteante ao despacho...) O
homem não atendia.
-
- -
Enfim, como as coisas estão, em que pé
o 'jovem' com descontos... à espera da palavra final do Chefe; e aquele aflito
da enxada na espera da solução do seu negócio... seu por envolver toda sua
família, não só parentes até outras famílias envolvidas, entre compadres
aparentados amigos e inclusive estranhos interessados na solução do problema
porque um problema, nem se conhecendo ou ao menos se se soubessem das raízes e
consequências, das ramificações necessárias ou desnecessárias embora
inevitáveis; inevitáveis para quem sem experiência ou não podendo se furtar a
isso.
Entretanto sim um problemaço ao pobre,
pobre por suas limitações naquele meio e mais pela doença da timidez ser além
daquela no se dirigir a qualquer beldade e portanto não se dirigiria a mulher e
sim um qualquer homem desconhecido. O Chefe da Estação por exemplo. A gente da
roça sempre embaraçada frente às autoridades ou apenas estranhos graduados. Em
razão disso, sem razão diz a lógica do ser, em razão disso primeiro tarda o
quanto possa para procurar e se dirigindo ao funcionário; aí ainda espera o
prêmio de não estar na berlinda chamado ao atendimento primeiro que outrem; e,
não tendo jeito ao drama, o coitado dá passos à frente e fala, expõe seu recado
gaguejando sobre a mercadoria estranha, embora fechada, seria lacrada porém
não: apenas acondicionada a despacho – relembremos, com duas partes, a tampa
leve em cima e a debaixo pesada, a conter o peso. Chefe de nenhum trem nem
estações nem repartições aceitaria a mesma exalando cheiro; ver-se-á não cheirava...
Até que foi atendido, primeiro os
outros despachos registrados adredemente e examinados pelos subalternos e
sujeitos ao Chefe e agora aguardariam o Trem de Luxo chegar.
Qual mercadoria? claro a do Zé, a do
despacho pleiteado pelo sr.José e daí o Chefe logicamente chamando um atendente
para levar o monstrengo até ao ponto na plataforma de embarque aos passageiros
e às mercardorias; para facilitar não perder tempo, visto o trem ter hora.
Teria que ser naquele tempo absoluto pois a locomotiva na iminência da passagem
puxando a composição azul prateada, vista por moradores no aterro onde a linha
de ferro, eles com seus cronômetros – uns tiravam os patacões do bolso de
níquel, destampavam o relógio, olhavam conferiam: para ver se a composição
certa, e acertando os 'roskoffs' que portavam – então quase que absolutamente
conferiam ser 17 horas do dia, o sol a se esconder cedo nesse inverno ou indo
assim mesmo ao horizonte também no verão e isto agora não interessando ao Chefe
do comboio, sequer ao Chefe da Estação, já prestada sua parcela na condução e
deslocação do Trem.
Ia me esquecendo dum dado interessante
do moço de trinta anos. Ao chegar na cidade ele procurara um barbeiro da rua
São Luís. Então um pequeno desastre... o oficial lhe tirara um 'bife' da cara
com a navalha afiadíssima. Susto, sangue, curativo rápido. E lá prosseguiu o roceiro,
agora envergonhado por portar esparadrapo no rosto. Sim, devia ter sua vaidade
diante do povo.
Ah espera aí, tem mais esclarecimento.
Qual trem? se não existe mais trem;
sendo que no restante do mundo é encontradiço alguém morto na linha pelo trem.
Aqui neste país então do Terceiro Mundo como se falava em meados do século 20,
aqui foi o homem quem matou o trem. Sim. Não tem trem.
-
- -
Voltemos ao Trem à Estação ao Chefe à
mercadoria a se despachar e àquele homem do meio rural doentiamente tímido. Ao
despacho, visto como necessário despachar. Inclusive palpiteiros poderiam dizer
"por que não manda noutro horário sua encomenda? " podendo insistir inclusive
num outro trem, o de quase meia-noite que tentava sempre chegar na Estação da
Luz na Capital quase ao meio dia. No entanto que interessa é o que aconteceu. Para
tanto vejamos a mercadoria, que até nesta parte trouxe tanto drama, não apenas
a um 'morador' da Fazenda Santa Clara, encostada nos limites de Marília; Vejamos
o Zé. E a mercadoria.
Cap.
TRÊS
A passagem do Trem de Luxo ou citação
dele foi mera lembrança do fulgor das linhas férreas no país, pelo menos no
Estado de São Paulo – todavia o que interessa para nós são as linhas férreas já
em crise nos meados do século 20; e o que de fato interessando ao Zé, ao
sr.José, e decerto ao próprio Chefe daquela estação ferroviária era naquele
momento o embarque e as ocorrências gerais, tal como os horários além do das 17
horas, donde o acerto dos relógios dos velhos curiosos à passagem daquela
belezura de composição, a máquina puxante a buzinar no cruzamento da rua 9 de
julho à saída da Estação, rumo à Capital. Pois bem; e que o Leitor me dirá se
afirmar agora que o Zé não era Zé mas Arlindo!
Responderá estar louco o autor e até ele
mesmo.
Pois é isso. Arlindo não caberia ao
moço de seus 30 anos, forte e dado aos íntimos não aos estranhos visto ser tímido,
doentiamente tímido, inclusive a se dirigir a um macho da espécie, desconhecido,
desse tipo que o caboclo no hábito de indagar-perguntando "se malapregunto
como é que o senhor se chama" eu sou Arlindo, Arlindo Armani, Armagni em
italiano. Ah esse Arlindo devendo se chamar Arfeio, pois horroroso (na
apreciação ou depreciação macha, podem as mulheres assim não pensar). Usei o Zé
no costume literário useiro e vezeiro que a gente pega por aí apenas a rabiscar
um texto. Arlindo, grosseiro capiau, forte honesto presto ao trabalho porém vergonhoso
pra danar (expressão dele mesmo) feio já disse e talvez pela oposição à sua
irmã de sangue, bela e inteligente Anésia. O Arlindo, moço sem instrução e
tímido, repito. Ando agora a relembrar certa passagem ligada a ele: o chulé. Ao
tirar o sapatão que os trabalhadores usavam na área, ao tirá-lo à tarde na
volta do serviço, ah valha-me Deus: fedia tanto a ninguém ficar nas imediações.
E ele lento mole no falar no agir, em vista também do cansaço da jornada – ele descalçava-se
devagar. Bem, esse o mal. Valia pelo coração e sua correção. Contudo agora
enfrenta o Chefe da Estação, numa espera milenar, milenar ao apressado ou
cansado ou só tímido como afirmei. Por fim o Chefe o atende.
O Chefe: Senhor... afinal de contas é
Antônio José Arlindo ou João! (baixinho fala a um mequetrefe: durma-se com um barulho
desses! ou melhor, com uma loucura dessas!!! :) então o outro responde eu sou
João, Senhor João da Silva Chefe emérito autoridade desta egrégia repartição da
Companhia Paulista de Estrada de Ferro, veja sou também xará do Senhor... Ou
nada disso disse repetisse tal roceiro extremamente tímido ainda nos seus trinta
anos de vida e sem instrução formal. Falou de fato simplesmente "mas eu sô
João", pondo quase a nocaute o Chefe irascível no limiar da explosão e daí
o homem graduado olha bem o matuto à sua frente – nada mais pleiteando que
enviar um despacho. O despacho: certo incerto caixote mal feito a defunto nada
exigente, como aliás se dá com todos cadáveres (ah! isto anda tétrico demais).
Bem, o Chefe da Estação do nascente
burgo chamado Marília, esse olha bem examina a peça ali encostada, a tremer na
voz e no corpo, corpo forte fraco no enfrentamento psicológico por ser uma autoridade
desse naipe, ela completa estentórica porém acalmada um pouquinho
"desembucha..." (usou linguagem popular que todos entendem).
O João. Fui encarregado lá na Fazenda
Santa Clara a levar-trazer aqui nesta Estação a encomenda (antes disso no meio
disso, ao gosto caipira e já destramelado, minuciou o como – a crise cafeeira
de 29 e a opção regional na agricultura a qual traria então imigrantes
sobretudo nipônicos a plantar algodão depois amoreira ao bicho da seda; e nesse
tró-ló-ló quase a matar de raiva o nervoso e ainda desconfiado alto funcionário.
Enfim se entenderam no mais ou menos, o Chefe determinado chama dois subalternos
e manda levarem à plataforma no local destinado às cargas e bagagens, longe do
espaço aos passageiros, espaço onde deveria exibir o João os documentos; a
autoridade com olho na estranha mercadoria.
Pronto, arrastado o volume; mas eis
que o homenzarrão dentro de sua grande posição embora pequeno no porte; eis que
grita o outro João. E determina abrir destampar levantar liberar olhar
finalmente a mercadoria, se de acordo com os dizeres da etiqueta de embarque,
pagos antes do envio para em conclusão seguir. Abram! ordenou peremptório. Abriram,
quase estourando a tampa.
Então o Chefão arregala estremece meio
emudecido. Isso! Isto!...
Cap.
QUATRO
A caixa retangular o mais bem feita
possível por gente longe do ofício; já esclarecido haverem pego e até implorado
a um dos roceiros curiosos na arte carpinteira fazer uma caixa; contudo a dita
caixa passara por besta teimosa, pela inexperiência do carroceiro João, Senhor
João nos mundos educados da Chefia da Estação ferroviária; nisso João nada
perplexo foi concorde haver ali um homem morto. E daí... não falou pensou.
O Chefe agora embravecido Não Não Não!
e Não. Não embarco essa coisa no trem.
Antes que isso isto: ué, afirma interrompendo
o Leitor, Você, como se refere ao trem se não mais tem Trem!? e menos ainda por
não haver o tem-tem (usa onomatopeia a gozar o autor, eu, euzinho da silva, que
garanto existir); e completa: uns abusivos diriam que o Trem fazia quando se
deslocando tum-tum e não tem-tem. Ri-me por dentro, por fora também o quanto
possível a explicar, e pensei: ah essa gente burra à qual, se não se explica no
tim-tim por tim-tim não entende bulufas. Digo insisto tum-tum é quando
devagarinho as rodas no trilho de ferro, chocando-se ao rejuntamento doutro
trilho e aqui sim 'tum'. No entanto meu tem-tem tem razão de ser pois o
movimento rápido e até aloucado do comboio, das rodas dele em conflito com os
tuns, leva ao som tem-tem. Caso mui depressa a viagem, o tem fica meio fino e
menos tem mais tim. Viu? olha agora o autor o
Leitor e para o feitor feito Chefe e para o João feito bobo. Prossigamos.
Os empregados alevantam a tampa, o
morto quase a sorrir dos desajeitados rapazes e imediato se fixam todos na voz
potente grossa fanhosa imperante da Chefia. Isto não deixo seguir nem embarcar
sequer despachar. É coisa de funerária não de mercadoria comum.
As pessoas em volta abrem a boca
espantadas. João, trinta anos de experiência nunca passara por uma situação dessa;
aí chega e parte ao apito estrilado do Chefe de Estação e ao apito do próprio
trem, toda composição de vagões barulhentos na cidade pacata. João fica a tremular
sua passagem de embarque, decepcionado.
Mais tarde, esfriados os ânimos, o
caboclo procura o Chefe – quem sabe a pensar despacho posterior e embarque dele
mesmo noutro horário, o de quase meia-noite a chegar possivelmente ao meio-dia
doutro dia, por azar uma segunda de preguiça e má vontade, a completar seu
trajeto na Estação da Luz já na Capital paulista. Falam-se. O Chefe fala fala,
fala agora manso e sensato; também o João sensato, até demais para um roceiro
excessivamente tímido. E o que ele faria não fazendo! levar de volta o cadáver
na caixa tosca na carroça, a mula se coçando brava das moscas enxeridas durante
a espera? Fora assim o João conversar quiçá tentar convencer o Chefe a aceitar
o envio noutro trem, trem com tem-tem ou seja o tum-tum devagar a sair da
estação e depois sim tem-tem pela rapidez (nunca chegariam ao barulho dos
vagões do Trem de Luxo, que de tão rápido o som subia como tim-tim e...
O Chefe. Tem razão agora você (curioso
não usar tratamento Senhor ao xará João – enfim ficaram um pouco camaradas)
pois o defunto não passado a cheirar, a exalar apenas flores secas selvagens.
Todavia como autoridade e representante duma Companhia de nome, não aceito, não
segue. Procure mesmo os serviços funerários, a Funerária São Vicente foi
inaugurada outro dia; ela fará tudo nos trâmites legais. Nisso virou a cara
noutra direção.
Mas João, insistente persistente, vai
de novo atrás do Chefe. Debalde. Permaneceu na plataforma, jururu, sem saber o
rumo a tomar. Fazer o quê?.
Lá pelas tantas, nessa altura o Trem da
meia-noite encostado e alvoroço de passageiros malas gritos em meio ao barulho
normal de um trem do tipo maria-fumaça, nessa altura o Chefe berra a ser ouvido
pelo interessado, aceitando o despacho (aqui comenta aos colegas subalternos
baixinho "o morto não estava mesmo fedendo...") Embarcam correndo a
caixa, caixão, e no último lerdo vagão se movimentando, sobe o matuto. Dá com a
mão ao Chefe o Chefe não vê.
Claro estar que o passageiro de uns trinta janeiros, ele
de outubro, claro sim teve pela frente mil problemas com um desembarque forçado
no meio da viagem, lá por Brotas ou noutro ponto de parada,
embarque-desembarque da gente e o sufoco a procurar entrar nos vagões. Mil, mil
e um, nos atritos com funcionários
funerária polícia ah a polícia. Como foi que safou-se disso não é objeto do
texto.
No entanto vale lembrar relembrar o
como uma viagem de Trem, com seus tem-tem.
Cap.
QUINTO
Afirmam apressados que moleque não
sonha, sonha. Moleques, pensam e falam, apenas fazem artes: roubam fruta no
vizinho, atiçam o cachorro, atiram pedra na caixa de abelha, quebram vidraça
alheia, tocam campainha nas casas etc. com etc. a valer noutras artes. Afirmo
que moleque sonha. O moleque Chico, Chico de Francisco (nisto berra o Chefe, agora
me aparece um Chico, não tinha eu razão ser uma loucura!) o Chico antes dos
seus trinta janeiros, 'festejava' natalício em outubro e isto não vai ao caso,
antes bem antes de se encrencar levar despachar viajar com o caixão de defunto
cadáver ainda não ultrapassando o limite cheiro-fedor e inclusive elogiado pelo
rabugento Chefe João da Silva na Estação
de Marília, o qual sentira ao abrir a tampa perfume de flores silvestres gratas
aos velórios da gente pobre a exalar odor de flor já seca; antes em menino o Chico
viajara no trem de quase meia-noite a chegar quem sabe quase ao meio-dia doutro
dia na Luz e a viagem com a família lhe fora um sonho bem definido, na alegria
e curiosidade meninas. Fechou os olhos ainda ouvindo a campainha no cruzamento
imediato ao sair da Estação passando pela Rua 9 de Julho e tendo aquela fila congestionada
de fordecos e carroças a esperar a porteira do trem na via pública se abrir a
passar: e aí já andava o garoto a sonhar. Aliás, é fato conhecido sonhar-se de
olhos abertos ou fechados bem como a entrega em fuga aos problemas da noite de
luar ou de dia de sol. Ah um lembrete antecipado: a poesia nunca resolveu
nenhuma questão a nível mundial. Continuemos. Sonha. O que mais faz é sonhar.
Tal como o poeta o menino cria e acredita no que inventou. Inventaram. O Trem
se deslocava louco no escuro em a noite morna de verão. Ouviu nitidamentee o
tum-tum ao sair lerdo da composição parecendo uma fileira de gomos de linguiça;
e se firmou quase imediato no tem-tem, os trilhos frios de ferro e rodas também
de ferro lá embaixo se atritando e olhe, Leitor matreiro, num ponto do trajeto
inclusive arriscando correr expondo o som tim-tim por abuso na pressa porém não
continuou pois que não era o Trem de Luxo de tempos depois; infelizmente,
lembro, tempos idos para nós hoje... Não era o de Luxo, apenas Trem. Abriu
olhos.
Notou o tiem-tiem no choque entre
vagões a balançar, o seu de Segunda Classe. Havia o de segunda aos pobres qual
sua família, sua mãe preocupada com abusos dos filhos nos momentos de
chamariscos na passagem de vendedores de tudo um pouco e a infernar bolsos
soltos fracos "olhem as coxinhas" "chocolates"
"Revistas e Jornais" aí repetiam as mentiras dos títulos para atrair;
e paravam por perto a açular necessidades nos viajantes, com ou sem dinheiro
para gastar no carro de segunda, os da primeira classe tendo inclusive
autorização visitar o carro-restaurante. "Manheeê eu quero" respondia
"cala a boca fulano" aqui despencava a mulher a relação enorme
masculina Antônio José Arlindo João Francisco e a relação feminina grande mas
pequena como Maria Josefa Teresa etc.. Igualmente enorme a bolsos curtos. Além
do fato de os filhos se insultarem brigarem na viagem, com correção por safanões a orelha vermelha e os
gritos altos em adversão, gritos antes baixo e na surdina; então a explosão da
senhora. Até que um funcionário do Trem aparecesse a anunciar os bilhetes de
viagem, a bater com o perfurador na quina dos bancos de madeira – para acordar
dorminhocos adultos, os garotos então a roncar ou a brigar acordados. Ai,
pobrezinhas das mães a precisar lembrar igual a do moleque "vou contar
tudo ao seu pai quando de volta à Marília" (os de sangue indo aos parentes
paulistanos). Depois se esquecia da promessa.
Lá entre junção de vagões os sanitários a
servir viandantes os pequenos toda hora querendo ir ao banheiro... e adultos a
levá-los e trazê-los em meio aos atravancos de malas que o porta-malas não
suportando; e matutos roncando na viagem atravancando a passagem no corredor,
pés dos dorminhocos e cansados entregues, aqueles intrépidos viajores
pobretões. Viu, notou muito sem muito explicar o moleque.
Por exemplo a cor no sonho. O Trem de
madeira pintado há tempo de amarelo e marrom a imitar o som tom-tom na passagem
da rodas nos trilhos por bueiros e espaços ocos mais ali à sua frente e nos
lados em todas medidas, um sonho acordado inteirinho de Trem, mesmo com o
cerimonial desse tempo: e a formalidade britânica, foram ingleses os primeiros
engenheiros ferroviários no planeta; os quais deram ensinaram exigiram a
formulação e o padrão que suas enormes empresas instalaram no mundo. Não, isto
o moleque desconhecia. Seus olhos curiosos, ora arregalados ora fechados, viam
até que o comboio passara e ultrapassando se distanciou dum túnel. Daí grânulos
de carvão e fogo do fogo que a maria- fumaça lhes atirava, sim, não somente no
menino. Janelas intempestivamente fechadas (o brasileiro cerra a porta e tranca
e teme – quando o ladrão já levou seu tesouro). Imediato veem a claridade de
postes urbanos fincados e sons da nova estação, a qual corre rápida contra a
velocidade do trem, este cada vez menos rápido até à parada a bufar vapores da
locomotiva. Então os jovens descem-sobem nos vagões, erram seu lugar seu carro
e sua gente. Contudo veem as meninas bonitas do lugar em passeio na plataforma
da cidadezinha (se esquecendo que anteriormente o trem em movimento eles, os
jovens, passeando ao balanço dentro do trem. O Leitor, Você, mas não é madrugada
já!) Abre. Fecha. Pisca. Alembra o moleque as mil viagens em que participou...
e por que só viajaria sempre no da Meia-Noite a aguardar chegada na Capital ao
Meio-Dia, as ruas entre apitos e movimentos e barulhos no Bairro da Luz!? Ele a
indagar.
Outra lembrança de Frederico foram os
companheiros nessa viagem. Então ele narrando sempre a mesma estória até o
outro dormir... Cansou de repetir as coisas aos estranhos.
Num momento relembra sua mãe, ela: fica
quieto... e desanda a recitar relacionar Antônio José Arlindo João Francisco, a
se enganar e se corrigir no errar nome dos filhos todos, uns caipiras a
investigar sonolentos a loucura de São Paulo.
Cap.
SEXTO
Tonho Zé Arfeio João Chico, Frederico este
apelidado Fred a imitar a colônia a Metrópole do Planeta, sendo que os autócnes
desta terra inventaram outros sons ao mesmo Frederico; tudo isso nada disso –
agora está enrolado. Ah pobre matuto vindo lá da Fazenda Santa Clara embarcado
na estação ferroviária de Marília rumo ao desconhecido, desconhecido a ele tadinho,
nessa viagem ignorada e é o que tenta explicar ao Delegado, um doutor menos ou
tanto quanto neurótico semelhando o Chefe João da Silva na Estação. Fuma chupa
traga o charuto inacabável inacabado fedido a fumaçar o ambiente da Delegacia;
seu ventre pronunciado a arfar no peso dos anos e nesse ponto indaga mais uma
vez ao capiau sentado à sua frente, o Doutor a 'nhec-nhecar' irritante na poltrona
giratória, "como é que entra aí na sua narração Fazenda Santa Clara se
morador da Fazenda Flor Roxa no município de Marília. Fred gagueja repete ter
ido à Santa Clara por causa duma linda jovem mas a timidez... ora sim senhor, isso
não interessa; então levanta a voz o Delegado, prossiga: Fred, no entanto foi
daí me pegarem a fim de levar a caixa para embarcar, o carroceiro José não
aceitando carregar a coisa nem outros colonos da Fazenda, sobrou pro João pro Antônio
pro Arfeio carrocear e ainda a mula mui teimosa, eu não sabia os sons que ela
sabia e assim foi difícil e demorado chegar na Estação de Trem. Conta reconta o
Trem de Luxo e o embarque final no horário de Meia-Noite. Chega! Continue!
explode o Delegado sob olhar assustado do polícia em sentinela, um ordenança da
repartição. Continue donde paramos hoje cedo: a abertura da tampa leve do
caixão pesado com um defunto dentro, se bem não mais a cheirar passado. Então
explique-se pois não anda me convencendo. Frederico também se assustou como o
guarda.
Eu não sei, Senhor Doutor Delegado,
não sei como... Não conhecia o defunto vivo, ainda na caixa morto, apenas me
prontifiquei levar a encomenda porque ninguém aceitara o serviço... Então
cansado dormi sonhei com a viagem na viagem, acordei o Doutor me intimando
depor esclarecer e ainda o Senhor quer me incriminar! Nisso coçou o esparadrapo
no rosto, objeto de interesse da Autoridade, bem como fora de todas pessoas com
quem se relacionara Fred, por culpa do barbeiro. Não querendo parecer mais
medonho que era o caboclo trintão, fora fazer a barba de semana na rua São
Luís, sim Senhor em Marília, o profissional desses tipos roceiros que migram à
cidade e na cidade trabalham um dia como auxiliar de pedreiro e noutro pegam
obra se apresentando grande conhecedor; o barbeiro bem barbeiro, meia-colher na
tesoura e na navalha, a navalha lhe tirara um bife... sangue e curativo com
esparadrapo e daí por onde passara o matuto tendo narrar o acidente já bem
desastre ao seu gosto. Explica então o barbeiro barbeiro ao Delegado nervoso,
como ene-vezes narrara ao Chefe da Estação. Prossiga, intima nos gritos o graduado
a charutar.
Mas explicar o quê! Nada sei. O
ordenança ali então chocalha as chaves da prisão e mostra as algemas, de propósito...
o Delegado nisso sorri safadezas. Ah chega de narrativas de sofrimento dum
roceiro inocente (inocente até prova em contrário).
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O fato essencial é que lá pelas tantas
da madrugada, o trem parado, um funcionário foi remover encomendas no vagão das
bagagens... O interessante da coisa é haverem antes feito baldeação em Bauru,
então deixavam a bitola estreita a trocar por trem na bitola larga e assim
deveriam ter notado irregularidades, partiu o Trem de Fred... inclusive nos
vagões de passageiro de Segunda Classe fora uma correria na dita baldeação para
marcar lugares em o novo comboio, Fred fizera o favor pela janela de seu
assento em pôr embrulho dum desconhecido. Entretanto o trecho a se iniciar
eletrificado com locomotiva silenciosa e mais rápida, a maria-fumaça ficou
bufando seu vapor. Continuaram no caminho. Até ao ponto no qual o funcionário
xereta descobrira algo de podre naquele bagageiro, mais bem dito caixa-caixão
do roceiro morto, a trazer problema ao roceiro vivo, mormente perante o do
charuto a fumaçar, perante enfim ao irritável irritado Delegado de Polícia...
O funcionário a remexer volumes no
vagão ouviu ou pensou ouvir barulho estranho dentro da urna funerária aos
cuidados do tímido trabalhador trintão, a dormir num banco de pau num dos
carros da Segunda Classe.
Destampado o caixão de defunto, o morto-vivo
acorda de vez do torpor num ataque...
Ah daí por diante ninguém, nem o trem,
tem mais sossego, não se afirma paz, sossego mesmo. O Trem parou, já andasse, vieram
altos funcionários da linha férrea, a polícia local acionada, um caboclo
doentiamente tímido ainda nos seus trinta, trinta e um anos pra ser exato, em
maus lençóis e...
Aqui entra o enxerido Leitor, Você, e
lasca seu vozeirão a acusar o autor, a me acusar: "Viu, diz, quanto usou
no texto inteiro o tempo verbal no passado para seu Trem !? Portanto não tem
Trem. Muito menos o tem-tem."
O que posso responder?
São Paulo novembro
2020