quarta-feira, 31 de julho de 2019

Tudo óquêi em Casa de Mãe Joana


         
Tudo oquêi em casa de Mãe Joana

I – Preambulinho
Tudo, e oquêi também, tudo começou no fim. Não, no fim não, no meio de toda atrapalhada ali na casa dela. Descobri isso. Eu, Doutor Abobrinha, aparentado com os nobres usineiros Jerimuns, eu descobri antes a atrapalhada ali no pedaço; posteriormente descobri ainda que havia mais algo errado. ? Aqui. Aqui dentrão de mim. Seria algo desse tipo de algo que se pode dizer mostrar expor, exportar quem sabe, e quem sabe a embolsar um dinheirinho extra; pois a coisa anda dura, não é mole não pro lado de : carestia gastos desconhecimentos abusos e no fim o fim – a dívida. Mas não ando a racionar como o homem comum, meu desafeto de estimação, o qual e para o qual tudo vira dinheiro. Não. Raciocinando em termos de vantagens sim, ganho cultural; desse saber que as traças não roem. Cultura. Agora, ainda não pensei bem para que serve cultura; e não creio na besteira em mexer nessa caixa de marimbondos agora, depois: deixo pra depois, depois que terminar esta obra. Digo afirmo confirmo e garanto eu Doutor. De todo este tró-ló-ló fica o seguinte: eu existo, a Mãe existe, a Casa existe. Não existe, isto sim, um entendimento meu do anuviamento no lar vizinho. O destrinchar isto é meu intento.

II – O que procurar, será o oquêi?
Que tem, tem. Não sabendo minha sapiência o que tem. Tem alguma coisa errada nesse oquêi, ok? Prossigamos. Têm os familiares, assinzinho de comuns, portanto normais (fica ‘normaisaté os filósofos se contentarem se entenderem no desentender e conceituar comum e normal). Sim tem eles e em cada capítulo desta novela mostro, eu Abóbora, um deles, a poder configurar bem; bem aqui resvalando na mesma problemática da oposição comum-normal. Deixemos essa porcaria de pleno pra e vejamos um agora. Tomo a Mãe, a Casa não, esta é personagem do próximo capítulo. Ela é bonita e trabalhadeira, vive anos na labuta, sempre temerosa que nós literatos não avaliemos a contento não sabendo o quanto trabalha; por isso se esfalfa mais e mais e prova por a+b ser dura na queda, trabalhadeira sim ao extremo. Não fosse assim, com seu labor e o dinheiro que traz para casa, a Casa teria rolado despenhadeiro abaixo, em não sobrar pedra sobre pedra! Trabalha compõe põe repõem o necessário, igual o chefe de família. Isso – é o machão de casa. Porém cobra. Cobra... ah, Deus me livre. Investe boqueja fala discute vence. Todos se calam. Não sei se envergonhados enrubescidos destrambelhados no compor. Assim harmoniza elona seu pedaço. Elona é petitica. Metro e qualquer coisa todavia não é fina, meio rechonchuda e tem sua graça, senão beleza. É um tipo que grita brabo. Pega no dos membros familiais no olho por olho dente por dente. Apesar, de jeito nenhum fica a azucrinar os seus as vinte e quatro horas; não: trabalha dia inteiro fora e tem o costume de dormir também (dizem os vizinhos de , não os daqui, os doutro lado, que ronca; deve ser intriga da oposição). Não azucrina enquanto trabalha e dorme, não deve dormir no serviço ou tomaria a conta levando em conta a fome do desemprego, dormir aqui é aqui ao lado em casa dela, entendamo-nos. De fato, enquanto trabalhando ou a dormir não pega no de ninguém no lar, sim deve dar uns coices ou rosnar ao cobrador esposo, não afirmo ou inventaria. A verdade é falar muito e exigir muito mais dos seus; e lamentar bastante. Suponho deva ter sua razão como tenho eu Doutor a minha e ver ou sentir um errado em todo certo deles. Sim deve ter razão a ralhar, sai enfurecida, volta mais calma da cidade e retoma a revolta. Assim é esse personagem forte desta fraca novelinha. Por quê? imagino eu, Ela também deve semelhantemente fazer essa pergunta à Casa.

III – A Casa, em disputa no concurso de valor com Ela
Ela, não a casa, Ela é Joana. A Casa é um ‘Deus me acuda’ impossível detalhar, detalhar! quem se arriscaria pormenorizar a Casa e se candidatar a ficar no azar em escrever pelo resto da vida a respeito... Não. Tratemos por alto. Por alto digo, abobrando, que ainda não caiu. Por sólida construção? por isso entretanto isso seria o prédio e tratamos aqui da gente. A gente se não entende. Dir-me-iam: ora, Abóbra, que diacho, o mundo não se entende as famílias não se entendem os amigos não se entendem até na palavraamigoque a gente poria melhorconhecido’ e eu Abóbora acresceria ‘conhecido-desconhecido’ – não é assim! (eu: sim) então como quer que a Casa de Mãe Joana se entenda!? Não abusemos da linguagem: quis falar somente conviver. Ora bolas, na cadeia, fora os que se comem e se matam e os que fogem, no presídio não se convive? Claro, nas cidades e na sociedade e nas empresas e até nas famílias. Portanto... Bem. Convivem se esfolam brigam discutem e se riem também, a conviver. Em ponto final a se não mais discutir – estão vivos, são normais. O que (nadinha com ‘oquêi’) o que fere a compreensão é algo que paira no ar... Explico-me. Tem alguma coisa de podre nessa dinamarca de seis cômodos, um dos cômodos é apertadinho e ali puseram a reclamar em particular a mãe da Mãe. Dona Dita choraminga dia inteiro, para quando a filha da mãe volta do serviço. Não é isso que está no ar; estando envolto em bruma, em vozes baixas e quase inaudíveis (à jerimunzada vizinha). E isto a base em que gira esta novela safada. Deixo para o quarto, nada que ver com os compartimentos do prédio, veja-se bem. Digo o capítulo seguinte.

IV – Um membro para melhorar a tormenta joana
Um dos filhos delona, titica assim mas moralmente uma tantadona de grande, um deles chama-se Pedro. Alguém leu as peripécias do Malasartes? Quase assim. Seu trabalho é a desocupação. Entendamo-nos outra vez ou nos perdemos nas perdas da confusão. Em outras palavras, vive ocupado no desemprego; apenas desde que se plantou um de abóbora no quintal – passando pelos cuidados corriqueiros, colheita de cambuquira pra fazer afogadinho, crescimento das abobrinhas, fiscalização para impedir que os vizinhos afanem a abóbora nem deixando a pobre crescer vingar adultar, estando esses profissionais apenas de passagem em nosso quintalão a roubar galinha e arrancar mandioca ainda não no ponto pois em junho que se pode coletar as raízes; nessa dita passagem não podem os vizinhos levarem abóbora! Claro. Desde plantação floração crescimento e quase roubo da abóbora e até secar o pé (da abóbora, não se entende mais subentendidos!) até esse ponto que noto, eu Doutor Abobrinha, que o Malasartes artes pratica, não trabalha. Faz ficha, volta, discute com a genitora, volta ao emprego e não lhe dão o emprego. Tudo bem no Reino do Entendimento? Bem. Entra ano sai ano, desocupado, ou somente desempregado, a esperar o futuro a interrogação a exclamação, numa boa, ele a ficar nas reticências das ignorâncias. Contudo, tudo com... com Ela, Ela paga as contas, não contando com o Pedrinho, que nesta altura é de altura, grandalhão belo vistoso e desempregado. O que tem de novidade nessa novidade? se a novidade se espalha, se houver tal situação por todo País: a economia economiza engolindo vagas, as vagas não aparecem; se aparecem o Malasartes é um orgulhosão – não aceita qualquer; quando oferecem, ou melhor, quando imploram a eleum’ exige ‘dois’ se ofertam ‘doisquerquatro’ e assim fica ocupado tão só na desocupação o rapaz. Porém não tem nada não, Mamãe paga. Aliás paga com quê? com o trabalho delona pequenininha assim. Em quê? quer dizer: no que trabalha, que faz. Não sei, abobrinhamente correto não sei e não é aqui lugar a chatear-me; indago: por que não indagou no capítulo sobre a Mãe! se se perguntasse então ficava mais fácil responder com as coisas frescas na cachola. Responderia daí “não sei”; agora sei menos, sei que traz dinheiro pra casa àqueles safados passarem o dia inteiro a brincar falar em carros e outros concretos do imaginário; é assim com Malasartes, o qual tem muito assunto nessas faltas. Mamãe paga sustenta dá, dá bronca também, dá tudo o que precisam os seus. Todavia não é aqui que reside a dúvida abobrescamente correta. Não, é noutro quesito. Se houver paciência, sabência sei que tem, falo um pouco mais de paciênciaentão destrincharei.

V – Os demais de-menos
De mais, fica como antes no castelo de abrantes, o Malasartes daria a encher um capítulo inteiro, a mais? a menos, pois somente as discussões entre filho e mãe, a Mãe a dizer assim; o filho que entre mãe e filho, mas a ordem dos fatores... não tem um negócio nesse sentido? pois é, não é o Pedro o maior problema, eu abobrando em dar palpite que acho que sim é o maior dos dramas da Casa de Mãe Joana; Joana acha, ao menos faz supor quando sub-repticia aos outros suas reticências, acha ela que os outros tantos quantos lhe dão problema, dessinhos de provocar indigestão e doença corrosiva no estômago; e talvez tenha razão nesse particular. Tem o pequeno, grandão parecendo vareta na adolescência bem empregada (leia-se enchendo o saco dos vizinhos a contento, mesmo das vizinhas e eu abobóro não saber como) esse ainda não lhe descobri o nome, terá é claro, todos temos, desde a plantação a ramificação a floração e a colheitação da abóbora (não todas abóboras, o vizinho da galinha...) até à seca do , quer dizer até hoje, até hoje não sei o nome o apelidoPelado’ e isto não se justificando pois que o vejo vestido na rua, o povo chama assim e o povo tem razão, a voz do povo é a voz de Deus. Também desempregado, no entanto solta lindamente papagaio, que a tevê exige seja ‘pipa’. Ah, conversa belamente e grita o mais sensatamente possível. não berra com os outros irmãos, a saber: o mais velho que fugiu com a mulher do vizinho, não a minha mulher é visto (ou estaria a escrever esta novela e não a chorar!) o mano fugiu sumiu, levou a bela e levou as coisas dele, inclusive o nome e por isso eu Doutor não sei agora; com esse não grita, com o Pedro e o Malasartes grita mais alto, ganha no grito (da Mãe Joana não, fala mais que o menos que é mais pros vizinhos). E tem outros dois membros a pesar na cacunda da Mãe; um é a cadela, a qual nunca disse seu apelido a ninguém contudo é drama à macha da casa em vista comer por dez cadelas das médias e ladrar por umas vinte e , tem visita que resista. O outro membro que come às expensas Delona deixo pra outro capítulo, aqui cabendo apenas a amarrar a composição e o drama, que não é drama da Casa e mais sendo da Joana: é um drama meu, Doutor Abobrinha aparentado dos Jerimuns da nobreza parente. Como a letra está mui espichada, não trato do mesmo por faltar espaço agora; e doutra questão; disso deixo saber: a saber – o enigma da Casa de Mãe Joana, como dito tudo oquêi.

VI – Os outros de fora
Tem mais uma questãozinha pra Mãe resolver, ela não resolve coisa alguma, passa ano entra ano some ano, o seco arreganhado e serve a enroscar o da gente quando a gente vai ao fundo ver se não tem vizinho que leve a galinha, não crio mesmo galinha e nisso não me preocupo, e tem decerto ladrão sim e de dia ao sol não, somente de noite e de noite me tranco no meu tugúrio, violência, o bom mesmo é nós livres ficarmos presos e o vizinho que me afana a mandioca e o faria na abóbora se ainda houvesse, esse fica solto no seu trabalho. Tem sim uma questãozinha. A ‘parentaiáda’, Ela que usa essa expressão de gíria, aliás não versada em Herculano ou Camillo, a Joana fez as primeiras letras tão só. Os parentes vêm mansos desatolar na mesa da casa. A casa? não cai, cai a harmonia dela, mais Dela a qual deve pagar custos comissões comidas conversas, conversas porque parente adora falar. Ela paga com seu trabalho não sei onde, e interessando o dinheiro que é o recurso que traz não sei donde. Comem, farofafam as fofocas e (dá sim uns brigares mais) e tocam fundo, não: fundo não dá, dá de leve na ferida da Família, bagunçando a Casa de Mãe Joana. Tudo oquêi? não pra mim não, não abobóro direito ao fogo debaixo da brasa, esta que fica por baixo da cinza... Como não resolvo, no momento, entenda-se, como, deixo para outro capítulo.


VII – A brasa pra sua sardinha
Uma vez quis saber da sardinha, eu Abóbora a abobrar as coisas. De fato, fui curto e grosso: Mãe Joana, o que faz o... pus reticências pra não me complicar a vida, pois responder-me-ia “O Senhor que cuide de suas galinhas (no que eu retificaria na hora: abóboras ou jerimuns:) isso mesmo que o Senhor disse, cuide de sua vida”. Por isso não perguntei direto, dei direito ao uso das reticências usando eu antes as reticências. Ela me respondeu sim como toda mãe; apregunte à mãe do maior assassino entre os delinquentes presos, os soltos a mãe negará prontamente ser criminosos; e ela dirá que o filho tem uns lindos olhos, contará quando muito as peraltices em moleque. Mãe esconde o saber, ou por saber que não sabe, ou por supor não saber sabendo demais ou... ou por ser mãe. A Mãe afirmou respondendo perguntando: nãodifícil arranjar emprego! Mãe costuma em qualquer circunstâncias ter razão, dei-lhe razão. Porém, razão sobre razão, uma tonelada de razão não merazão nem diz onde a razão está. Argumento que anos a fio se foram plantio crescimento floração secamento, agora apanha da fruta, e nada de trabalhar; nem o Pedro nem os Malasartes da Casa! Entretanto... Não, esse entretanto é maldade de quantas abobrinhas existirem. Opto pela maldade: como ter os bens que o pessoal tem sem o trabalho digno! Não me importo com o maná, hoje não deve mais cair ou cai pouco do céu. Respondem-me as dúvidastudo vem do labor joânico. Será?

VIII Antes de pecar mais, um aliviozinho
Até aqui a abobrar as coisas, coisas como o poder da Mãe, os ainda não destroços da Casa, os membrosvários a malasartear as coisas, exigir e mais exigir, cobrar debater criar problema para a Joana a fazer virar a casa e a mãe a confusão da Casa de Mãe Joana, cheiinha de oquêis pra todos ladosenfim vimos os membros, foi isso que se viu, não vendo mas percebendo de entender das coisas. Faltou a bagunçar mais o coreto das abóboras com pedigrís na nobreza jerimúnica, faltou um elemento, que falta nessa novela cachorra (perdão oh vira-lata!) uma faltinha de nada, nada adiantando no atraso o pensar-se que darei, eu Doutor, o enigma, a razão primeira e virginal como pedra de toque ao escrito. Não. Sim, fica pro final a tornar o final mais gostoso. Credo! Trata-se dele. Ou haveria família! Antigamente quando qualquer abóbora era macha pra valer, se me dissessem o que digo agora, brigava. Digo, o homem é apenas um fertilizador e, depois, num tá nem aí, sobra à fêmea parir cuidar e às vezes, como ocorre com Mãe Joana, tadinha, a tratar da homarada pra que a homarada fique soltando papagaio, o qual a tevê xinga e exige seja pipa na rua; e brincar na rua, e conversar fiado na rua, a rua que sabemos é uma via pública e ninguém tem nada com isso, mesmo alardeando aboborices mais, com pedigrí e tudo. Os membros a poder brincar de adulto. Adulto quando não briga é porque não anda a conversar; da conversa vem a brincadeira, da brincadeira vem o disse que falaram e – a briga. Conversa vai conversa vem... e o agradozinho prometido!? péra lá, pô. Não que tinha, tem, tem macho nessa Casa? Pois tem, isto a razão de haver os filhos, ou se pensa que a Joana iria inventar uma partenogenesinha particular a povoar a Casa! Nem crê, deve crer até pode crer, nem crê no Espírito Santo, que a teria fertilizado na falta de homem; homem não faltava, não falta; e este o agrado prometido antes. O homem dela também tem o direito ao desemprego a conversa-fiada a ficar pela via pública pra baixo e pra cima (mentira, a rua da Casa é plana e horizontal) enfim, a nada fazer de útil (nova mentira deslavada, ele faz vez por outra a janta, ou esquenta o almoço que a esposa fez antes de ir trabalhar ou madrugou no fogão para tanto). Não fazer mas botecar, verbo que todas abobrinhas entendem como falar mole no bar da esquina. Não faz, a fazer tanto quanto o restante da Casa. Com um porém: todos comem se vestem se alegram, entristecem decerto a Mãe, doidinha a se esfolar no serviço da loja ou seja o que for, onde batuca a conseguir uns trocados para sustentar todos os seus. Todos. Sim, Elona, que é pequena e bela, também come, tem esse direito. E briga com todos direitos direito, direitinho. Até acabar.

IX – Acabar o que, o fim!
Não prometi um enigma? Coloquemos pingos nos ii – o enigma, não sua decifração. Visto dessa forma aboborescamente falando, correto digamos; partamos ao que me provoca, provocou certamente provocará, me provoca o ser. Mais pingos neles. Todos vivem todos comem todos se divertem todos brincam aproveitando-se a brigar também, pois ninguém é de ferro a viver no céu e no paraíso da Casa, às custas da Mãe Joana; até a mãe, que é mãe da Mãe, a qual não lamenta quando perto da filha que é a Mãe; e os de fora dentro a exigir como pensionistas com direito a voto. Todos com direito, não a falar em veículos: todos têm seus carros, um que outro zero-km e alguns têm os de empurrar na rua pra pegar no tranco. Bem. Todos. Não ela, a Mãe não tem, tem de ir de ônibus trabalhar aos machos da Casa poderem estrilar melhor, isso: ainda por cima no por baixo estrilam têm luxinhos e tudo o mais. Alguém tem bem a sustentar o lar; bem. E donde sai (aqui o enigma faz tempão prometido; não me cobrar soluções, soluções não tenho, eu Dr.Abóbora) sim, donde sai o numerário a receita para adquirir bens, o Malasartes então: este vai passear de noite volta ao sol doutro dia, a Mãeaquele negócio de mãe não ver as coisas e pôr panos quentes – a Joana falando em termos de ‘Fulaninho’ sai pra namorar uma ricaça e precisa combustível precisa dinheiro à gastança com a rica, se esta existir pois as abóboras temem situações mui encontradiças na sociedade e no submundo da sociedade. Enfim mamãe sustenta tudo, deste filhote e dos outros mais. Com um salário-mínimo... não: um e meio dizem os informes. Mas não tem nada não, tudo oquêi. Agora, não pedir mais aos doutores às abóboras aos jerimuns, ou enfureço-me: crio outro capítulo!
Marília   julho  2005



         



           

Confrontação


Confrontação

O homem olha o todo, percebe fragmentariamente e vive a parte em
parto sofrido; e ri e chora e briga e se descabela e lamenta e morre.
Depois renasce e olha e percebe em novos partos sofridos; e tenta despiorar.

1.Preâmbulo.
Encontrava-se num ponto que só se pode precisar nas indefinições da consciência das ignorâncias, mas distante com certeza na esteira do tempo, um menino mijando na areia duma estrada; a estrada, ela que tem duas interrogações em ambas extremidades. E vagava o seu ser a espreitar a si mesmo na arte que fazia. Fazia xixi a molhar o mundo, fragmentozinho do mundo, em beira do caminho; um fazer caminho com a torneira, mais com o jato d'água a cheirar amoníacos dormidos, fazia desenhos engraçados, parecendo-lhe engraçados, e isso ocorrendo até hoje, milênios depois, que sejam tão só séculos apenas, porque menino adora essa atividade ainda; e atirar pedra e correr e mexer com outrem. Com a ligação sentimental nos dois pontos – o ontem secular, o hoje do agora – com ligação em não pensar sequer andar praticando artes. Não tinha tamanho pois desconhecia a idade, idade é ideia subjetiva para o objetivo analisar. Contudo era um ser a vir a ser. Desconhecia o futuro, o qual até nestes dias os filósofos desconhecem in totum, pois que se baseiam no passado que já não é e no presente, fugaz, quase inexistente; os quais deixaram ser futuro, eram o futuro prometido.
O garoto não pensa nisso, não pensa. Gente desde pequena vive o presente que, a existir, não se pode interpretar. Ontem para si não passava dum dia ensolarado, o calor, um pássaro que perdeu não acertando o alvo ou quem sabe um medo qualquer; o temor aos mais velhos por exemplo, que não se cansam em desmandar e exigir.
Aí des-pensa o que a pensar, atrás de não se sabe o quê, mui importante a uma promessa de gente, ou gente pequena.
Terá nome terá família terá amiguinhos terá necessidades terá vida enfim. Dessa forma entra na noite da memória, ou da perda dela...
- - -
Queira ou não queira quem queira desde que o mundo é mundo, a limitação ou melhor: a linha divisória dum momento, a infância neste caso – a divisão do que foi e do que ainda vai ser (iria ser) nesse momento o menino se pega, embora na mesma pátria em que vivia (e considerando a ainda não invenção do vocábulo pátria) ele se pega não mais menino; adulta adultera mesmo os adultérios e mandos em desmandos: já se sente gente grande, talvez de baixa estatura. Com todos deveres do homem, o lar os negócios as trapaças. E o chamam Diego e tem certa Maria, a qual lhe trará certamente muitos e ótimos problemas; mulher de quem não pode falar por não saber bastante, em não ser naquele presente, sabidamente fugaz pra quem esteja longe no tempo. Luta vive vibra se cansa amolece definha morre. Morrem. Morrem!?

2.O Sono o Sonho o Sonho do Sono.
Tem a Maria entremeio, têm as coisas em volta, têm as cores, têm os sons, tem a ignorância. O que mais sabemos é a ignorância do que nos cerca; Diego tem muito de não saber mas por sorte pouco indaga para o muito do pouco. Alevantou-se em mal estar, faz o que faz – lava-se alimenta-se trabalha vive o dia a dia, não tira da cabeça o sonho da cabeça, a cabeça de pensar e de descansar no sono dos justos, a que supõe ter direito; no entanto não descansa, sonhou. A gravidade disto apenas por não estar acostumado a viver no mundo infernal em que consiste essa imaginação. Vezes mil ouvindo narração de sonhos, sobretudo dos jovens e mais das mulheres; nunca houvera ouvido sua própria narração; agora viveu esse irrealismo como ouvira outrem a contar. Assusta-se. Procura a interpretação, procura justificar aquela vida dentro de sua vida e não consegue. São nuvens, é o imaginário aproveitando o descuido em dormindo. Acorda, se levanta, assusta-se...
Sabe estar vivendo na imprecisão, descobre as coisas e as coisas dos sons e das ignorâncias, donde vêm quase todas sabedorias; precisa na imprecisão mesmo a área geográfica em que vive e vivem os que vivem com ele – nada obstante não sabe dar o nome dos nomes e os nomes das coisas. Imprecisa haver a Maria, sente a Maria vê a Maria conversa com a Maria, a Maria é o general, mandão e abusivo como são os generais; que seja não general, subalterno rigoroso e que manda, impõe mesmo, manda noutros sulbalternos, nele e nos outros mequetrefes. Sente-se como o boi na manada, não um agrupamento selvagem a arrebentar e destruir sim o manso medroso submisso. Não consegue distinguir os galões do Chefe, mas teme-lhe as reações e intempestividades mais. Sabe que se pressiona de fora para dentro... ouve o bravo e o bravatar da autoridade, a Maria! Pensa agora, desperto e mal humorado no fazer o quefazer – mas ela não é a jovem bonita que atrai seu coração e os corações dos outros homens? é um homem maduro, duro, impuro; grosseiro no seu ser e nos seus desmandos! Parece que o elegeu para apurar os próprios abusos – grita berra manda, manda prender e bater... está agora enjaulado e preso a um mourão, a gente se ri em volta, dois vinte trinta chibatadas, mais ainda, não sabe que fez por quê fez e onde assim mesmo sofre o látego; impropera ou pensa estar a falar e a se defender, no entanto vê seu corpo a sangrar inerte, enquanto Maria-General gargalha para que os comandados se riam também e Diego, porém interessante: não se chama ‘Diego’, ele sente ou sabe e não sabe que faleceu e só entende a terra a sufocá-lo, debalde quer convencer estar vivo, sepultado vivo! e quando acorda, acorda outro homem todavia o mesmo Diego; o mesmo que agora alevanta o balde de água a escorrer parte de volta ao fundo do poço e parte a espirrar-lhe na roupa!
Carrega, amolentado, parece que apanhou estando a doer o todo, carrega a vasilha à mulher, a levar desperdiçando respingos pelo caminho até à cozinha de sua casa, os filhos muitos deles pequenos ao redor dela, ela fala algo sobre Dona Maria, Diego se impressiona, ainda se lembra do sonho, ou o sono na realidade, quase irrealidade pois é um morrer todas noites; porém só aquela noite sofrendo o General-Maria, nunca ocorrido antes! Será que a esposa sabe que deseja conquistar a mulher do vizinho... Raspa a garganta, a fugir do flagrante, um flagrante apenas em sua cabeça. Ele foge, foge com os afazeres, surra um dos pequenos a amolar-lhe primeiro amolando a mãe, a mãe reclama o abuso do marido, bate na esposa para mostrar serviço de machuras; depois chibata um dos cavalos mais arredios e continua a tarefa diária. Temendo novamente ao dormir ou não dormir ou dormir e sonhar apanhar sofrer morrer o inferno do General.
Entretanto não sonha. Não dorme. Depois dias seguidos dorme mal. E trata mal os seus. Sequer tem coragem em sorrir à vizinha; ela o acolhe, ele sente como que no ar a autoridade da Maria. Olha a Maria, vê o General. Isso afeta o relacionamento conjugal, a esposa faz mil perguntas com os olhos;  os negócios vão mal, não vende, vende, vende mal e perde nos negócios reses, encrenca com os conhecidos e causa preocupação entre os amigos – não confia em ninguém.
Aí tem um segundo sonho, estando fora de casa: os seus não têm direito em participar no mundo do sonho, a Maria volta a azucrinar-lhe... Novamente é um homem poderoso, abusa da fraqueza de Diego, desconta seus infortúnios no mequetrefe; não se chama Maria contudo é ainda Maria. Do seu lado ele sente a impotência em seu estado e também duvida de sua capacidade como macho. Quando quer indagar, sem coragem a fazê-lo, a saber do Chefe os porquês de sua condição: já de novo sendo enterrado em agonia. Acorda em agonia.
Nunca mais sonhou. Trabalhou, viveu, abusou por sua vez dos outros muitos seus subalternos, fez sofrer familiares, assassinou embriagado a esposa, contraiu novas núpcias, amolentou, morreu.

3.Escalada do Poder. É um homem franzino e ao mesmo tempo taludo, com  braços fortes, desses que têm por capricho descontar nos menos fortes o forte dos menos fracos; mas não pensa nestes termos – age, vive, azucrina, perpetua até e cobra; cobra sempre, cobra primeiro à família, convicto no dito de que próximo é quem deve ser o mais  próximo; judia, este vocábulo sendo impróprio e ao mesmo tempo dessas palavras insubstituíveis, judia sim e faz sofrer, como se houvesse consciência disso e o fizesse por desejar de fato ferir... Consegue tornar-se aos seus o chefe dos martírios. Bate por qualquer. Não escapam os menores e inclusive o caçula dos filhos, pego a urinar primeiro na parede da casa, deixando nela aquele cheiro ácido que nem o tempo elimina; depois a fazer caminhinhos curiosos em obra de arte na areia do chão no trilho à porteira das vacas, elas a feder tal qual. Olha o seuzinho, acha antes um encanto e se lembra de si, um Dieguinho assim, e quem sabe anterior ao sonho terrível que teve com a Maria-Feroz... se lembra sim, aí acorda e acorda o menino, adverte grita corrigi exagera... quando vê vê feridas a sangrar no pequetito que ama, elinho a chorar! e aí se condena pelas mãos pesadas, porém não pode voltar atrás em suas machuras e orgulhos – sai, foge, não podendo fugir de si mesmo, foge ao flagrante para um longe possível: ralha subalternos, dá ordens, exige, inflexível, a fim de melhor ser odiado, pelo menos temido. O dia está definitivamente estragado.
Noutro dia doutra semana doutro mês doutro ano quem sabe, é o mesmo. Sempre somos os mesmos, mesmo não mais sejamos os mesmos. Entra dia sai mês, ano, vida, a vida é um todo – Diego amarga sua tibieza de antes vir a ser Diego a continuar Diego: só os nomes mudam, não mudamos, apenas modificamos (e é torcer para que seja no sentido positivo). Ele não sabe disso e menos pensa nestes termos, o que não modifica o pensar dos tempos dos tempos. Agora vê tão somente o agora.
Agora vai à Maria. Joana!? A Joana trata da filharada que tanto a enfeara ao parir, cuida dos pequenos, pega no pé dos grandes, estes se esparramam por aí, só atendem ao pai, o pai vira as costas a pensar na Maria.
Don José também é hacendado. Velho, fraco, forte nos haveres e mais nos desmandos, nisso se parecendo a Diego, igualmente abusa nos abusos, entretanto vira um garotinho medroso frente à esposa de espírito forte e marcante. Maria de las Gracias é bela e jovem, impetuosa, dura em suas exigências. Sacrifica as criadas e os criados, fá-los escravos, a escravidão é inerente aos costumes da época, nem se pensando no caso. Sequer ela, não pensa, exige; tem voz forte língua forte e ímã para atrair. Primeiro atraiu Don José e aumentou seus haveres de víuva rica; agora quer Diego, quem sabe não pense tomar-lhe a receber a herança dos filhos dele em consórcio com a feiosa e inexpressiva Joana. Sabe perfeitamente os efeitos da atração de amor, amor em mau sentido; como toda bela aprendeu fácil desde menina na escola do sexo. Olha, facilita, apanha o vizinho... ele vem feito um cão submisso, um carneiro, para seu lado; ela entende, ceva o homem, prende o homem e abusa do homem nos encantos dela. Jogam à noite cartas, conversam de negócios os machos, falam de amizades, Diego olha Don José vê Maria, Maria sorri enigmaticamente; e o vizinho volta de madrugada para a Joana; então não quer mais a esposa, não pensa nos seus, só existe Maria. Depois obedecerá cego Maria.
Agora mesmo vive o agora, se esqueceu do sonho com a Maria, só permanece a Maria de cabelos negros e pele trigueira; existe inclusive o perfume o cheiro da Maria, um cheiro que somente a Maria tem no planeta; sonha sim, sonha acordado. Acordado está a dormir na realidade e vai acumulando desentendimentos por aí e fracassos muitos; a perder muito do que tomou sem que houvesse perguntado o proprietário. Esse estado a se refletir nos seus.
Seu lar é o inferno. Os negócios da hacienda também são o inferno; não investe mais, investe somente no mau sentido e perde, enfraquece, sucumbe até. Enquanto age ao sabor das sugestões da amante, sacrilegia a família e sacrifica, um dia mais ébrio, a mulher: bate exagera mata a pobre. Mas a lei não tem lei e recebe inclusive as condolências, paira impávido na sociedade. Arranja nova esposa, mais ama-seca aos menores e para atritar os maiores, a casa continua o inferno a mando das ordens sub-reptícias da vizinha. Enquanto, a casa da Maria é o paraíso.
Don José dorme cedo, morre cedo a deixar logo as propriedades à viúva. Antes disso desconfia do amigo vizinho. Embosca o infeliz na estrada escura da madrugada por mãos dum profissional, bastante comum nesse tempo. A viúva torna-se viúva em dupla mão...
Apenas não abriu mão da riqueza de Diego e vai engolindo por formas diversas as terras do amante defunto. Para tanto precisou subornar primeiro com a beleza depois com o poder econômico os políticos e juízes a ganhar dos herdeiros que Diego plantara no lar e por aí na região. Engoliu sim a todos, para melhor ser detestada temida odiada. Enfim também ela envelhece, até os fortes envelhecem e sucumbem. Morre. Morre?

4.Os Fazendeiros  
O Doutorzinho agora é o Doutor Pedro, ainda em luto recente, toda a família cerimoniosa na capela da fazenda, o Padre João é velho e arreveza bem seu latim, ele não apreciava o latim e se saiu assim mesmo formado em Coimbra, fez depois estudos na França, voltou às suas herdades pra ver a cana e o engenho e a ficar na cabeça como o pai falecido. Olha João, nota-lhe a neve nos cabelos mas nem por isso pode esconder a aversão pelo religioso. Enquanto o silêncio e a reza, todos a acompanhar, lembra-se, irreverente, a ciumeira percebendo, lá noutro engenho, os olhares do pároco para os lados da Maria...                                                     
Pensava fazia tempo comprá-la ao seu proprietário-fazendeiro, o qual infelizmente curtia inimizade aos de sua casa. Ora, negócio é negócio. Chegou-se um dia por perto da negra bela, achou-a cativante, embora não mais que menina a emprumar. Poderia casar-se com a prima a satisfazer o costume, tolerar sua feiura e rabugice, e depois oferecer a negra de presente. Mas havia qualquer coisa esquisita na moçoila, seu olhar seu porte, um orgulho e algo mais que não podia ler-lhe no semblante. Arredia, isso: era arredia. Tinha fisicamente traços do velho fazendeiro inimigo, seria seu pai? poderia até jurar isso. Importava pouco, adquiriria a jovem, ofertaria à tonta e receberia o presente pra si. O diabo era a soberba da Maria: o tempo... O padre pôs fim à cerimônia, seguida das banalidades nos ditos sociais e deu com isso corda ao seu despertar.
Viveu Pedro, desfrutou sua riqueza e sua posição, desposou a prima, fê-la parir um montão, ofertou algumas escravas à esposa, comprou outros escravos para o eito, envelhotou, rabugiu, enfermou no físico franzino; e deixou uma viúva feia jovem rica para outrem.
Antes ampliou suas terras e haveres, fez progredir seu engenho; e definhou quando definhava a economia colonial açucareira. Sem contudo haver conseguido presentear e presentear-se com a compra da negra Maria. O que colaborou no insucesso foi principalmente a inimizade doentia dos amos da mulata para com família do Doutor Pedro.
Não obstante esteve vezes sem conta a contatá-la; pensou inclusive em conquista, cheia de aventuras espadachins e tudo, conforme se imbuíra na vivência europeia e mais nos romances em voga. Fracassou. Sentia nos momentos mais críticos a tomar decisões, não só amorosas e extraconjugais, ao precisar tomar decisões uma covardia, um medo não declarado, o qual escondia, nesse caso da jovem, com a diferença de classe: seu alto posto social e a falta de classe e direito de classe da escrava do engenho vizinho. Nos raros contatos que teve, sentiu atração imensa pela moça, agora mulher de beleza amulatada à disposição dos ricos adversários; nos parcos contatos percebia-lhe o ímã, sofria seu olhar de rainha e conscientizava um temor não revelado (não poderia em sua alta posição mostrar medo). Via nela o superior; pegou-se inclusive a sonhar com a negra; e não obstante era uma escrava. Uma vez não suportou saber a visita que o Padre João fizera à casa inimiga e mais o consolo que ofertou à Maria... O Padre foi atacado a foice no lombo do burrico de volta à Vila: o escravo enviado a assassinar o religioso a mando de Pedro foi por este morto no terreiro, a apagar vestígios de testemunho e para mostrar autoridade. Contudo não teve pra si Maria.
Somente em seus sonhos...                                                - - - - -         
A negra aparecia-lhe bela e orgulhosa, forte, travestida em General. Ordenava sua prisão, vergastava-lhe o lombo em surras ferinas, mandava amarrar Diego num tronco, batia primeiro para mostrar como fazer, ordenava a seguir as chibatadas a gargalhar; ele sentia falta de ar, notava a terra a cobri-lo e ia morrendo morrendo... Acordava neste ponto. Determinou por isso, assustado, outro escravo a matá-la para matar a realidade de seus sonhos. Não adiantou: ao definhar um tanto idoso e deixar a prima viúva mais rica do que era antes, ainda aí sonhava com o General. E morria e morria...
Uma noite não teve dia.

5.Confrontos e Atração .
Miguel, Miguel de Tal, doutor por costume e respeito, grande fazendeiro, ex-grande fazendeiro, má administração abusos ingerências outras, ataques políticos? O preço do café não poderia explicar Miguel nem Miguel esclarecer seus percalços: agora não passando dum sitiante melhorado, que é quase sempre um fazendeiro piorado. Debalde luta, luta inclusive contra a mão de obra; quer tornar imigrante em força de trabalho escrava, a fazenda se despovoa, a dívida aumenta, o sítio nasce do sítio dos credores. Na primeira década do Século Vinte já é um proprietário, ou náufrago? aquietado ao menos, mas revoltado contra o mundo. Faz água, seco o poço, os banqueiros sorriem, Miguel mais se revolta. E morre moço ainda, quarentão, em assassinato não explicado todavia anunciado pelos entendidos nos desentendimentos com vizinhos visionários e ambiciosos. Deixa prole, aí a sociedade intenta contra a moral da viúva, a pobre rica ex-rica luta bravamente como tigreza a defender sua cria e ela salva um resto e falece velha, gasta, desencantada. A filharada divide o já muitas vezes dividido com os credores e acaba de vez com a marca rural na família, sugada por fim pela cidade; espécie de vila com mandatários desde as fazendas de café nas imediações.
Miguel, íntegro para a sociedade de então, não trai a mulher com uma vizinha. Bonita, diga-se; casada ou viúva de não se sabe quem perdido no tempo, os olhos alheios não veem sob o mesmo prisma da família acostumada com padre a celebrar uniões e, muito mais tarde, com cartório. Cartório servindo na época mais a negócios de terra e encrencas com advogados ou apenas rábulas e entendidos curiosos. Não trai. E ela merecedora em não ser enganada no período gordo da riqueza, pois no tempo das vacas magras a perder a família a propriedade irá ser uma leoa a defender os seus, que o defunto só fez crescer e depois a engoliu com o despreparo para a civilização. Não trai com a fazendeira bonitona, ele achando-a linda embora orgulhosa, dura e forte de espírito. Trai somente com outras, sobretudo com as esposas dos sabalternos, alguns o patrão chega a sustentar para garantir a periferia moral. E ocosaionalmente em noitadas com gente de má reputação, ou na vila com nome de cidade em aparecendo alguma francesa nem sempre francesa. No lar o respeito. Ou o medo à autoridade. Contudo nunca sovou a consorte, aí seria sem sorte, como era comum fazer e se entender o machão da época. Só uma vez, mas encontrava-se embriagado e se esqueceu logo depois por quê batera.
Por essa ocasião já estando o barco à deriva...
Apesar da sub-economia do fazendeiro, ansiava em conquistar Maria do Rosário, fazendeira sólida que se dizia haver herdado do esposo, que não era realmente esposo, nada se provando, nada provando a língua do povo, especialmente em sua frente. Não que passasse Miguel para trás. Dava conselho ao homem sobre questões fundiárias, experiente e forte. O homem notava e sentia a fortaleza do seu espírito e tremia. Miguel nunca fora firme e forte, em não ser quando diante do fraco: daí abusava tripudiava até. No fundo se sabendo fracalhão e mesmo nada corajoso como determinava o discurso macho... Diante da beleza e da força daquela mulher, tremia. Nunca teve a coragem em dirigir uma conquista efetiva, quem sabe por todos afirmarem fosse amásia do Padre José, candidato a bispo ou monsenhor ou qualquer outra posição dignitária na Igreja. Recebia o religioso de bom grado, tida por mui devota de Nossa Senhora do Rosário; para confessá-la pelos muitos pecados, os pecados que somos por força das contingências, fraquejados, a praticar... Porém essa Maria era forte. Miguel temendo ao vê-la e sabedor não ser tão só por causa da atração de amor, talvez mais por sentir-lhe a superioridade nos olhos de lince. Tremia medos! Por fim parou de visitá-la, nada por insistência da cara-metade, a qual conforme a educação e a moral recebidas sequer alevantava os olhos para o marido; antes lhe pedindo autorização; para ter direito na posteridade lhe dar conselho, não chegando à fase em que a esposa dá quase ordens e orientação ao seu desorientado velhinho, o Miguel havendo sido morto aos quarenta e poucos, ainda no calor da capacidade briguenta. Não se deveu a pedidos da esposa o não tornar à fazendeira do Rosário: o Padre deu no pretendente e rival uma tunda com relho e cabo de relho. Aí desistiu. A última lembrança que teve das terras da bela Maria, antes das bravezas do Padre, o qual não aceitava interferências no confessionário ambulante, a última ficou-lhe gravado indelével: vira um meninozinho a mijar na estrada de terra batida, fazendo caminhos tortuosos artisticamente na areia com o jato de água cheirante a amoníaco. Parou, olhou, sorriu ao garoto, um de família colona da eleita de seu coração. Aí desistiu mesmo a voltar à propriedade. Voltou para a esposa. Voltou para a esposa, bêbado, mais embriagado que de costume, a curtir seus fracassos.
Antes de fracassar nos fracassos de antes e ainda iludido pudesse ter Maria do Rosário, a cada tentativa frustrada ou se embebedava ou brigava com os amigos, os quais viravam ex-conhecidos; ou então voltando mais cedo para casa; já de costume a dormir quando sóbrio com as galinhas, no dizer caboclo; aí se deitando bem antes do horário. Então sonhava, não sendo muito de sonhar, ou melhor: de lembrar-se dos sonhos, pois sabemos todos sonhamos frequente, é da definição humana. Isso, não se lembrava. Em não ser os marcantes. Do Rosário se vestia engalanada em General, gritava, tapava-lhe a boca, berrava feroz, chamava mequetrefes, ordenando correção em regra. Diego tombava, ainda amarrado ao madeiro, o sangue a escorrer, o General a gargalhar, os subalternos autorizados a se rir também; daí vinha o cerimonial sem cerimônia do enterramento ou soterramento, Diego a agonizar, tentando pedir socorro ou a implorar perdão! Noutro dia não era dia a Miguel – explodindo por quaisquer insignificâncias.
Não obstante o tormento acabou. Pensavam que acabara. E o enterraram no de costume com velório, mais os filhos e outros parentes de todos os graus, os quais haviam sofrido a decadência do ex-fazendeiro e já esperavam pudesse ser justiçado.
Nem Maria nem seu Companheiro estiveram no sepultamento. Ela por não desejar comprometer-se talvez ou pela já inexpressividade do vencido da sorte. Mas que é sorte! Nem o Padre, por razões óbvias.                                         
José podia não ser excelente pastor; era entretanto bom atleta, nunca se descuidara do físico desde o tempo no seminário; e apreciava ganhar dinheiro. De família da nobreza engraçada que era a do meio rural brasileiro, ampliou os bens e ambicionava numa ambição dupla a bela fazendeira e suas terras.A cartada falhou. Tornou-se importante em seu meio e líder político na Vila, ou no Executivo a título precário ou ainda a controlar o Executivo através de amigos e aliados. Enquanto isso crescia como proprietário de latifúndio a engolir sempre os fracos. Encontrava-se no ápice do mandonismo quando, dez anos após o assassinato inexplicado de Miguel, a quem apenas temia como rival no caso com a Maria – menos de dez anos até, foi envenenado.
Maria levou a culpa, a lei não era a lei dos poderosos, embora a vítima tivesse projeção e fosse igualmente poderosa. O povo falava inventava acrescentava e não provava; as autoridades acharam melhor calar. Os parentes do Padre bateram o pé e herdaram. A Companheira preferiu cuidar de suas terras e em acalmar seus subalternos alvoroçados nas desavenças. Nessa altura já periclitava sua saúde.
O tempo, a vida, ficaram com seus bens, a terra não foi decerto leve nem perdoou sua beleza, já carcomida pelas rugas. Não deixou herdeiros conhecidos nem pensou em testamento para tão volumosa riqueza; talvez em vista do desgaste psíquico, ou pela loucura consumada. De qualquer forma pereceu, certamente de consciência a pesar, e isto de foro íntimo ninguém ficou sabendo; de qualquer forma, encerrou sua vida, ou que seja uma existência, parte da vida.

6. O Êxodo Rural.
“Seu Diogo num tá?” tava, tava se arrumando com os seus, aí por uns sete ou oito filhos de todos os tamanhos, sem contar os mortinhos a sair de anjos vindos e enterrados entremeio aos vivos; a mulher cuidava dos menores, numa choradeira sem fim, tamanhinho assim o de colo sugando guloso, gulosa, era menina a chorar dia inteiro, “dor de barriga, comadre” e tome chás e tudo o mais da panaceia da farmacopeia de pés no chão cabocla, onde viceja muita crença, mais crendices que filosofias da ciência. E gritava gritava, Maria a mudar aflita de peito, sugava a pequerrucha a comida nova, o leite a derramar no rostinho inocente mas voltando a gritar, “a dor, comadre”. Na parte que tocava aos machos da espécie, ajudados por esquálidas, embora com boa vontade se diga, esquálidas meninazinhas – os machos ajeitavam carregavam se esbarravam a pôr as coisas na carroça, os burros, uma sendo mula coiceira “sai de perto Pedro!” o Pedrinho o mais enxerido e o que mais ajudava a empilhar os trecos na carroceria da carroça, esta a se mexer antes de se mexer na estrada por causa dos buracos e dos animais a se mexerem agora eles a espantar aqueles horríveis insetos famintos e os pobres também famintos atrelados horas  no varal, um no varal mesmo, a mula, o outro ligado por correntes e os arreios mais – ambos indóceis. As crianças indóceis igualmente, pois essa atividade que traz tantas preocupações aos grandes é uma verdadeira festa cheia de novidades a elas, embora os adultos Diogo e Maria em problemas profundos, nervosos. A mudança, ah a mudança.
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O homem era tido por homem. Às vezes e quase sempre a precisar provar ser homem; a mulher se submetia em vista o costume do costume, sem muito boa vontade, mais a aceitar o fato consumado, a se desdobrar valentemente por causa dos filhos, estes que enriqueciam a família a empobrecê-la na medida indireta do aparecimento sem cegonha e na razão direta da quantidade de boca vestuário e cuidados, as mais das vezes eram relegados – entre os pobres, o pequeno-grande trata do pequeno-mais-pequeno não lhe sobrando tempo em ser criança e brincar, assim mesmo num descuido da responsabilidade a surgir a ‘casinha’ sem boneca ou com a de palha de milho; e os moleques, ah o macho nem o macho pode com ele. Diogo cortava na cinta, fugia à capoeira a aguardar baixar a poeira, entrando noite em casa pela porta da cozinha, Maria às escondidas a tratar do filho arredio e malandro, um pito a rigor, o padre-nosso rezado ao comportadinho temporário; e o outro dia a ser o outro dia.
Agora era aproveitar todos braços – é visto que os bracinhos famintos naqueles seios não demais entumescidos dispensados – todos braços de toda grandura possível dos pequenos; os fardos pesados por conta do pai, os machozinhos dos menores a querer mostrar serviço a fungar a arrastar e a entregar de volta o fardo ou a matula pesada ao ombro paterno, franzino sim, grandalhão e forte demais na visão menina. As formigas. Têm no carreiro de todo tamanho e altura, todas a carregar as partes para que a mudança chegasse ao todo. Resta Mamãe, na roça sem as frescuras da educação e delicadezas urbanas baixinho “mãe” gritado “manhê”; e ninguém se entende naquele desentender. Ela ajeita como pode, passa ordens às ajudantes de Diogo a ajudá-la no põe isto leva aquilo, demorando-se no capítulo “não se esqueça”, onde o capiau come a partícula e não vê não escuta não percebe que fala errado no seu certo. E elinhas entendem. A carroça está prenhe, os animais se entrolham sem entender, entendem apenas que deve vir a ordem ardida gritada do homem, Diogo não sabendo falar manso, só a berrar, vez que outra quase sempre fustigando em relho; e aos seus com a cinta ou de mão mesmo, aí não escapando nem Maria, sempre revoltada contra a oposição no lar. Tocam. Andam. Engolem a estrada a estrada a engolir o comboio, vão fazendo caminho no caminho a marcar o caminho; ainda assim, quer dizer ao meio ao lentar do conjunto – um homem nervoso contra sua tropa, uma mulher zangada com criança no colo ao calor tendo uma sombrinha rasgada a cobrir a cria do sol inclemente; e a prole restante, forte por viva, em volta, um dos pequenos engastalhado em cima grudando-se aos trecos de mudança; um cão agitado e abobalhado; a carroça puxada pela mula forte e o burro velho fraco e teimoso a ajudá-la sem saber por quê – ainda assim uma das crianças se desprende, o Pedro, encontra tempo a parar, abrir sua torneirinha, esguichá-la na areia da beira de estrada; depois, andandinho: a fazer caminhos de amoníaco em zigue-zague qual artista do mundo no mundo. Diogo olha, ia ralhar, se lembra se transporta ao ontem num fazer mais de quarenta anos e não ralha: abalança a menear a cabeça de chapelão; e se ri por dentro, inventa um dizer qualquer só a dizer, um dizer do pouco que dizem dizendo esposo no padre à esposa mais mãe da penca que esposa, enquanto a menina continua a chorar, agora apenas choraminga, mamãe ajeita os paninhos. O comboio avança no retroage.            
O mundo é a interrogação. A família não interroga, sequer sabe o drama que agita regurgita o mundo em Guerra, que sendo a Segunda faz milênios que é mais uma e infelizmente não seria a última, os homens a se trucidar, a ter vencedores e vencidos, todos irmanados em perdedores. Não interroga em não ser nas coisas suas: a colheita que não chegou a termo ou não houve, a ‘a-meia’ que se não pagou engolida pela crise, a crise que espanta o roceiro e o obriga sempre a cair nos braços da interrogação ou das reticências e a afundar na Cidade, com estágio por aí e nas Vilas; até se despersonalizar.
Agora Diogo vai macambúzio, até se cansou gritar os moleques e assustar de cara feia as feminhas que gerou, as quais sempre e desde que o mundo é mundo garantem a gente no mundo a crescer o mundo. Os meninos já fugazes e mais perdidos em brincadeiras ocasionais, não brigam, só brigam entre si; então aproveitando a intrigar também com as irmãs, no intrincado familial. Maria ralha primeiro com elas depois com eles, sobra uns tabefes, quase derruba a nenê no movimento inesperado, a pequena defendida pela natureza que fá-la em instinto agarrar-se com as mãozinhas crispadas ao vestido materno; papai olha a cena, olha e não vê, vê longe, vê o mundo quase antes do mundo, vê menino sente a mãe; Maria rumina resmunga suas coisas, pra não perder o costume, ele não confia demais na companheira; quase sempre prefere comunicar o que comunicar (a decisão da mudança, mais uma mudança, por exemplo) prefere chegar e dizer sem perguntar opinião, pois teme a mulher, embora haja no provar machuras lhe aplicando algumas surras; numa fê-la abortar, perder a barrigada nos sete meses, o que deu anjinho pra chorarem desconsoladamente, a perda de filho, que seria um ganho com a falta de alimento e a colheita exígua, é uma perda e a emoção verte lágrimas, mesmo Diogo chorou às escondidas aquele anjinho disforme em cortejo fúnebre. Teme.
Teme, não diz mas teme a esposa. Ela é forte no seu ser, embora franzina e magra, tem uns olhares ferinos que lhe vai buscar as entranhas, a gelar seu heroísmo e sua valentia,  mui pouco demonstrada aliás, em não ser por força da aguardente e no baralho inflamado com os amigos, Diogo tem é muita facilidade a formar seu batalhão de bebuns em cada fazenda por que passaram; um dia chegou a comunicar os conhecidos que seria proprietário dumas terras; noutro dia foi de enxada a lavrar as dos outros, a fim de ganhar o alimento aos seus. Porém entre o casal, tirando o episódio do roubo da Maria de seus pais, num aventureirismo com cavalo durante e depois com tapera metidos no meio – enfim o casal não se entende e não se dá bem; todavia isso o corriqueiro na pobreza roceira, mesmo emigrando às estranjas urbanas permanecem os tratos e destratos conjugais; o amor puro parecendo raro. O homem a temer a mulher, esta dura no dizer, quanto mais velha no lar mais dura ainda, Maria fala, quase não fala, quando fala fala sem parar, para por aqueles desajeitos das mãos pesadas dele, franzino e pequeno mas de soco a nocautear a pobre; que aí não fala, resmunga baixinho e chora altão; a assustar os meninos e a assustar inclusive o algoz, este, sem graça, foge à roça ou para ver uma criação. Até o Peri viralateia sua conversa também, assustado, normalmente alegre de cauda ao lado dos irmãozinhos (ele se pensa mano das crianças, na viagem em mudança não os largava a temer perder-se e a ficar para trás). Ladra ladra. O ofensor se manda às suas coisas, como saída honrosa. Parece que foi ele a apanhar... A casa silencia, que é o barulhar nas atividades de sempre. À noite volta o esposo para a esposa, até sorri bobaginhas da nenê. O outro dia é o outro dia. Brigam. Se desentendem bem, às vezes alcançam o ótimo no assunto e na desavença dos assuntos. Ele a teme para que ela o tema, aí fala alto com os filhos, dá ordens; a vida continua.
Agora prossegue aquele cortejo, o cão late suas coisas, os pequenos se bicam, os grandes, ele macambúzio a pensar, mais a alembrar das coisas; ela meio como enfunada a ajeitar a pequetita, a dormir pequetita; logo terão de arranjar um improviso de berço nos cacarecos domésticos em passeio para a interrogação no andar lento das reticências. Ela é forte, tem um como que ímã a atrair todos, mesmo Diogo, mais a Diogo, Diogo a teme bastante, sabe na ruminação íntima ter medo da pobre, a mulher é um molambo a cheirar roupas dormidas, o cheiro que se acostuma com o cheiro do macho, porco no dizer de sua fêmea; e se toleraram se suportam ou não podem deixar de se aguentarem por lembrar as crianças... Teme seu olhar, teme a autoridade que sente em seu ser, que se equaciona benzinho com sua covardia teimosa; aquelas coisas que não temos a coragem em revelar mesmo ao nosso consciente por mais despertos estejamos. Ele é assim um homem corajoso que se treme quando Maria sorri enigmática, ou então ela cospe olhando em asco ao marido; sobretudo quando volta vencido pela crise econômica que abocanha o ganho e traduz a perda, seja da terra que nunca pôde possuir, sendo que entrega à interrogação esse direito; ou quando vem bêbado a cheirar cachaça da cidade, a qual não passa de vila com um cabo mandão se pensando delegado. Um dia ficou a dormir na hospedaria do militar. Ela? sorriu malignidade, não o consolou. Ele? ainda mais se borrando. Só pode ‘vencer’ o sentimento com paulada no adversário; e o inimigo ri-se assim mesmo, antes chora e resmunga, para ter o consolo ou a compreensão dos meninos. Agora era ontem.
Ontem, noutros dias que eram noites, a dormir cedo com as galinhas ou por bêbado ou por cansaço não dormiu. Dormiu entrecortado e sonhou. Não era homem de se lembrar de sonhos, menos a se impressionar com os sonhos; e não contava os sonhos. Ela gritou com ele, em sua voz fanhosa e rouca, fez-lhe calar-se, ordenou pegarem Diego, amarrarem-no ao tronco, chibatou o infeliz, passou a arma aos mequetrefes, fê-los exercitar os músculos – o sangue jorrou! Diego acordou quando as últimas porções de terra engoliam seu pouquíssimo ar e ele morria em vida... Levantou-se Diogo, olhou apavorado Maria, em roupa gasta de dormir, não no vistoso uniforme de General; saiu quase ‘afogado’ na falta de ar, sequer se prendeu aos berros da criancinha deitada a espernear no meio dos pais – saiu quase a correr espavorido, foi fumar lá fora, atirar fumaça na lua. O diabo, pensa ou fala baixinho com o coração apressado no bater, o diabo é que essa diaba me bate e me mata faz muitas noites. Aí pensa que a Maria tenha razão (sem nunca haver-lhe narrado o horror do sonho).          
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Assim manhãzinho vai ao ‘benzedô’ noutra fazenda, por insistência da mulher. Deve ter razão, tem qualquer coisa errada comigo, se diz.  No entanto a Maria é por demais carola, ele a acha carola, quase não vê padre na ciganagem da família faz anos, quase não vê, mas fica como sapo tomado por cobra frente a um! Logo com padre, ele tem aversão a padres. Ou é o padre o sapo... Para ele ela é uma cobra brava, terrível, a estar sempre preparada a boteá-lo. Ah, ele não é padre! Chega no curador, não sabe quase falar, gagueja as coisas, mais ainda sobre os sonhos contínuos. Depois dos conselhos traz à companheira preparar uns chás, traz certa garrafa que lhe disparará antes do meio os intestinos, quase morre, sem nunca se acostumar a morrer por apanhar tanto do General ou da Maria. Sarou. No que pode um pobre ser humano sarar, a cabeça prosseguiu enferma.
Agora prossegue. Prosseguem em comboio. Os filhos gritam e não sabem para onde se deslocam; o Peri ladra sem saber para que lugar; a mãe resmunga sem saber a quem; a criancinha acorda e dorme. Diogo olha para a frente. Vê a interrogação.

7.O Hoje do Ontem, agora.
Dona Maria anda numa braveza sem tamanho. Intriga decerto da oposição, falatório. As vizinhas falam, ela escuta por seu azar, tudo é geminado no cortiço, falam de língua solta, mas quem entre elas passou pelo padre, algumas poucas; cartório então! nem se fale. E a criançada dela não é melhor que as delas, nem pior; não se pensa nisso na igualação do Cafundéu, que é uma favela até boa; a sua não é melhor que as famílias das outras, igual, semelhante, próxima; o Padre José não fala que Jesus mandava ajudar o próximo? Estava fula, assim dizia, fula da vida. E a porcaria do Dioguinho não dava as caras fazia semanas. Água luz a venda, por sinal uma ‘ladrona’, tudo por conta dela. Fizera sozinha... falavam por aí que não, vários ajudaram, mentiam as línguas alheias. Dioguinho, um banana. Tinha bem uns seis, não contava mais os filhos perdidos, o mais velho não morrera, morrera para ela fugindo ao mundo, igual o pai. Quando Dioguinho voltar... vai ouvir muito. Vai ver o João anda com os maus elementos que viviam ao seu lado que nem moscas; vai que mataram ele. Já não chorava fazia tempo, a se apegar aos sobrantes; não sentia quase nem a falta do companheiro. No começo aquele nhenhe-nhem e beijos, meu benzinho, depois a enchê-la de filhos. Agora tem o Padre José... trouxe remédio, pílulas pra parar a fábrica; o Padre... Aí derruba uma panela, explode escandalosa em barulho, rola ao chão, derruba outro inadvertido, as crianças correm vindo ver em xeretude ou assustadas. Passa uns servicinhos a elas, manda outro ver televisão na vizinha e fica só de novo. Olha uma estampa de Nossa Senhora na parede com baratas atrás certamente, por que será elas gostam de se esconder lá, e fazem um barulhinho chiado irritante a lamber o papelão; Maria detesta fedor de barata, tem é medo e olha atenta e não vê nada é de dia ainda, tem medo; pior o Dioguinho que fala não ter e tem medo delas, foge, não fica em casa no dia de limpeza, homem é tudo preguiçoso mesmo, e porco; o Dioguinho...
O Dioguinho vive a pensar na Maria. Ele é mais escuro um pouco que ela. Lembra, não pensa nos filhos, os filhos não tão nem aí, pensa sim, pensa um pouco, menos nos já mortos; o caçula é engraçadinho e fala umas besteirinhas pra se rir, mas, ah credo! não quer nem pensar, ele tem a cara do Padre José. A vizinhança arde a língua de tanto falar mal, vai ver tem razão... Um dia ‘fará a pele’ do intrometido. Diz que passa lá em casa porque a Maria anda adoentada, o safado. Na verdade não tem coragem em assassinar ninguém, é um medroso, um fraco. Agora está de olho numa mulherinha mais nova que a Maria, um pouco mais escura e mais bonita que a Maria. A Maria é quem ele deveria matar; teria coragem! duvida, teme a mulher como ao diabo; o Padre disse que o diabo vive espreitando a favela inteirinha... Ela tem uns olhões grandes assim; e pior: lá dentro dos olhos remexem aqui dentro da cabeça. Deve ter parte com o demônio. Contudo ama ou se sente atraído a ela, não pode ficar longe mais que semana, agora faz mês. Assim mesmo continua a sonhar com a Maria. Sonha com ela e as crianças também de vez em quando; ela é quem aparece mais; sonhou que a mulher dormia com o Padre, aquele sem-vergonha. Mais vezes muitas vezes mesmo vê no sonho a Maria: se veste de General, dá-lhe murros doídos, bate até de relho e certa ocasião com a espada, é uma confusão incrível. Aí grita os subalternos, soldados rasos e ferozes. Bate um pouquinho a lhes mostrar como fazer, entrega a chibata a um dos mais fortes daqueles fracos e ele bate sem dó, bate fere sangra, em sangue tomba, aspira com dificuldade, expira! ainda percebe o soterramento, grita estar vivo, ninguém ouve, a terra pesada lhe imprensa o ser. Acorda. Olha abobalhado em volta, vê a Maria, agora não a vê no colchão improvisado, via em casa; vê a Maria em sua camisola, tem duas, uma ela não usa pela ciumeira do companheiro por ter sido presente do Padre; o Padre... não quer lembrar-se do Padre; um dia... Depois arrefece, pensa... “Um dia não volto mais para a carola” e cospe e escarra, pisa na sujeira, acende outro cigarro e mais outro, tenta sobreviver, ganha a rua.
A família faz tempo que vive de expedientes; por fim optou em catar papel na rua; depois garrafas e plásticos. Não dá nada, vão vivendo. E brigando. Ela é muito briguenta e exigente. Sim é trabalhadeira e olha bem quando em casa os meninos, os meninos descambam por aí, ninguém segura. Já pensaram voltar para a roça, o pai e a mãe dele quando Dioguinho era pequeno – e curioso, aí era Diogo, igual o avô; depois apelidaram o pobre como Dioguinho mas sem qualquer conotação de delicadeza e carinho, que demais não existe entre sua gente. Ternura então, só a mãe pra dar, mesmo assim Maria saindo madrugada a vencer na concorrência empurrando seu carrinho, a pegar mais restos que os outros; os maiores já trabalham ou ajudam a mãe, temendo mais ao pai.  O pai abusa, vem cheirando a caninha, briga com a Maria, bate às vezes e mais foge de casa que outra coisa. Ele tem um mérito: sabe ler e escrever, a mãe soletra com dificuldade, tem sempre de chamar o Padre a ler para ela os folhetos religiosos.
A Mãe não anda feliz; ao contrário, se irrita até com com o barulho dos meninos e ainda tem de aguentar as crianças das outras, dos vizinhos, pelo fato dos barracos serem grudados. Ouvir discussão deles também, mataram a Dona Maria, não a Mãe cruz-credo! ela gordona assim, o homem dela; e a polícia só veio buscar a morta, ele por aí nesse mundo, igual o Pai, o Pai também não para, quando para se desentende com a Mãe e bate nela. Os meninos igualmente não são flores que se cheirem. Do Padre também não gosto, pensa a menina maior pequena assim, ele passou a mão em mim; contei pra Mãe a Mãe me bateu. Pensei falar ao Pai que o Padre estava na cama da Mãe, desisti, ninguém presta, um dia vou pegar papel pra mim mesma e estudar, aprender. Se o Pai voltar...
Dioguinho vem pra casa, “veio visitar a família?” Aí brigaram, lavaram a roupa suja na mais alta baixaria, sobrou aos pequenos em gritaria a chorar, os grandes tentaram apartar e quase apanharam do Pai e da Mãe. O Pai não disse que nunca mais voltaria. Apenas não apareceu mais e puseram a culpa nos outros catadores e os catadores do centro culpando a polícia.
A Maria tratou seus esfolões, tratou como pôde as crianças, uma delas também sumiu. Alguns a dizer que Dioguinho raptou o filho. O Padre tornou a vir à casa, achou Maria sem graça, carinhou a seu jeito os meninos, deu-lhes santinhos em figuras lindas, fê-los beijar a imagem, tomou com asco um café fraco e doce da mãe; foi a primeira, e última, vez a provar, parecendo ao tomar temer o que a mulher lhe oferecia... Não voltou mais.
A Maria pôs coisas na cabeça. A rigor nunca aceitava sequer ter nascido mulher; não deveria ter encontrado seu verdadeiro amor neste mundo; deixou mesmo de sorrir, e gargalhava debochado. Foi se desfazendo, largando as responsabilidades, o juizado segurou algumas crianças, outra se perderam, nem a Estatística, muito menos as Estatística, as encontrou. O barraco se queimou num incêndio, devorou alimentos instrumentos contas vencidas, uma fogueira linda de se ver, medonha. O Planeta nem ficou sabendo disso, ocupado com as Guerras e os shows televisivos ou num ver as brigas nos campos de futebol, ou ainda a cegar-se com o intumescimento do Império das Drogas e demais violências. Ou seja apenas que a ótica se desumanizou. Pode ser; não pode?
Alguém, a sondar os escombros do cortiço, um que outro destroço dos destroços salvos apressadamente pela grita geral, alguém observa um garotinho, tem nas imediações outros pés no chão, ele a apagar tardiamente o incêndio à sua maneira com sua primitiva mangueirinha, ao fazer zigue-zague com o mijo, a escorrer à lama, para confundir amoníaco com outros fétidos no córrego em despejo público em ótima infra-estrutura. Urinou, saiu a correr com os outros; a infância não se preocupa com desastres comunitários; nem vê interrogação.

8.Conclusão. 
O futuro parece não ter futuro; ao menos à gente do povo. O povo não pensa, vive. Ou sobrevive, teimoso. Não tem nome, tem número e não sabe se distraindo em apelidos. Também não pensa, pensasse, que o futuro, a ser futuro, é o passado a distraí-lo mais que a distração dos nomes das coisas, com inexistência do presente, um que foi passado e ensaia ser, já deixando em ser presente, o presente fugaz para virar futuro. A gente do povo pensa que vive, se engana e não conscientiza a ideia do futuro. Mas gera cresce briga acerta o desacerto, adoece sofre morre; pensa, aí pensa, pensa que morre.
Marília   fevereiro  2005