(novelinha)
O Grito
Grito
1
Quem sabe se um som um estertorar normal quiçá comum nos sopros dos ventos
naquele mundão, perdido no tempo e no espaço... Não um de arrepiar como costume
do medo ou do temor na ignorância das coisas. O fato é que se ouviu...
O caboclo – a roça andava então a se
acabar e ainda não acabara de todo, nem a Segunda Guerra Mundial – o caboclo
tinha por escopo interpor na dúvida de suas incertezas o medo e a história do
medo de assombrações; vai lá, pensou, ia lá que houvesse mesmo escutado. E a
lua, o sol já se pondo no poente semiescuro, a lua lerdeando chegar no prenúncio
do tempo do calor, esfriava, e esfriava ouvir contarem... Menino pode não crer
porém torna ao lar com mais cuidado e depois cai na cama cobre os olhos
atrevidos e a cabeça dele esquecer-alembrar as porcarias que os outros moleques
fazem ou diziam fazer; nessas oportunidades melhor esquecer que lembrar – o
cobertor até às pálpebras fechadas para tentar dormir gostoso mas não vem o
sono. E quando vê, vê os raios a penetrar pelas frestas; e aparece remexer com
a fome o cheiro do café que a mãe faz: hora de falar "bença mãe" e de
discutir com os manos e os demais, demais na casa apertada na roça
trabalhadora. No entanto seria verdade!
O quê? menino.
Com certeza é que ouviram Dona Maria
viva e sã gritar naquela casa abandonada pra lá do sítio de Seu João, naquela
naquele dia; não era noite não, muito menos noite fechada e escura, claro, nem
ventava ali conhecido por Bairro Ventania, tanto a uivar o vento e não ventava.
Juraram o grito. E justo por
despropósito na casa, casebre a se desfazer, na casa ao abandono dita pelos que
sabem ser assombrada.
Bobagem dos medrosos e/ou mentirosos.
Grito 2 Dona Maria olha, olha ao acaso a cozinha, sua
cozinha sente inclusive as exalações dos odores costumeiros... Avista a mesa
tosca feita de caixotes e tábuas em refugo, refulge então mesmo os grudes
habituais e em cima (não tem nada, agora:) uma xícara velha lascada acima do
cabo da vasilha e sabe, se lembra ser de propriedade e uso da Maria Preta,
mulher do Zé Preto e mãe do punhado de negrinhos, igual essa casa de gente
pobre... Não humilde não, até meio encrenqueira a família a família de pretos.
Ao lado dessa lembrança vai se desenvolvendo se desenrolando a história que
presenciara a mais das vezes de orelha, o povo mui falador. Porém não é nisso
que pensa agora naquele agora ao olhar em cima da mesa sua mesa na cozinha a
cozinha cheia de frestas a agradar o vento frio e atrevido no inverno a entrar.
Não. No que pensa na memória indevida ou até no contrário devida é o costume
anos do Zé. O Zé fora – não o Zé Preto trabalhador e briguento ao mesmo tempo,
não – o Zé seu esposo, moleirão e mais vidrado na bebida e que os anos exigiram
deixasse o que fazer e fazer o quê e falar sempre: isso faço depois. Seu marido
as linguarudas comadres e vizinhas ou somente comadres não vivendo ali mas
sempre ali xeretando as outras vizinhas; elas a afirmar, longe dela veja-se bem
– que José não era consorte coisa alguma, sem padre sem cartório no estanto
igualmente sem delegado unindo o casal à força; não: ajuntado amigado dela, e para
as bastardas e linguarudas: amante, pronto. Verdade que sempre trabalhando
embora nunca firme e era contrário ao xará negro, este que dava o sangue como
carroceiro da Fazenda Conquista. Pois o Zé dela (as comadres falavam, não
podendo contestar...) o Zé não consertando sequer uma perna da cadeira
descadeirada! que dirá arranjar a "casinha" como pronunciava ela,
Dona Maria, a casa da privada. Sim fedorenta e de buraco a criar baratas e
outras sujeiras além da sujeira natural de toda defecação. Então as crianças,
sobretudo as meninas, não tendo coragem fazer as necessidades e usando no lugar
as imediações dessa latrina, mais de noite; mesmo porque os homens são sempre
mui grosseiros e desavergonhados que as fêmeas da espécie e urinando e fazendo
outras porquices no chão, mesmo de dia. Elas temiam despencar com as madeiras podres
da casinha lá embaixo naquele fedor – tudo por causa do pai. O pai não
consertava nem a porta destrambelhada da fossa! Essa desdita o Zé Preto não
fazia às suas negrinhas, o Zé a responder "deixa pra lá, domingo eu
arranjo a porta". Domingo era o dia de pescar, não arrumava. Contudo
D.Maria relembra revê recorda com saudade o companheiro de tantos anos, agora o
falecido da viúva, ela. Foi bom companheiro. As mulheres nesse tempo? apanhavam
eram judiadas eram exploradas no cuidar a prole, algumas morriam de parto, a
deixar às madrinhas cuidar e adotar os menores da comadre morta. Enquanto o Zé
firme no compromisso com Maria. Nunca botara a mão nela; antes a deixava
falando sozinha nos desentendiumentos, sozinha até se cansar. Ele enquanto isso
a fumar sua palha como não fosse consigo. Além de não fugir do eito, não sendo
apenas firme no lugar e obrigando toda a casa ir pra outra fazenda outra
residência, não esta... Olha em boas lembranças aquela cozinha abandonada e
entregue ao trabalho do tempo inexorável na sua contagem. Olha, examina, agora
calma. Mas se espanta, grita! não berra não estertora como louca, ao gosto de
muitas mulherzinhas estúpidas, se espanta e a língua acompanha num grito de impressionar
quem ali perto fora da casa.
Grito 3 Dona Maria
está envolta com a xícara que aliás introduziu nesta estória a família negra
amiga; que vem a ser amigo, melhor conhecido e também isto insatisfatório; isso
e as lembranças acordadas; enfim andava no momento embevecida porém algo ocorre
surpreende e assusta (seria alguma alma penada! qual, que bobagem:) espanto
mesmo por um barulho quase aos seus pés, pés – Maria calça uma sandália gasta
mas confortável como qualquer sapato velho – a rigor na sua traseira, daí mais
razão em se espantar e então se vira num risco de ficar com dores nas
cadeiras... por que (ela fala no costume "pra mode de que") por que
seriam cadeiras se dores na espinha; no entanto se esquece disso a fim de
sofrer outro melhor susto: vê uma ratazana e se lembra do fato de temer mais ratos
que baratas a casa infestada e a dona temia horrores gritava, aí sim o Zé
corria acudi-la. Pois bem, devendo ser pois mal com rato enorme! parecendo bem
maior por ordem do medo. Imediato berrou o Zé esquecida ser sua viúva; ora, e
não seria oportunidade a atrair gente morta. Maria dizia não temer os mortos, na hora perpassou no cérebro mil casos de
assombrações inclusive aquele batido mau gosto de puxar os pés do vivo e daí se
cobrir. Foi isso tudo num átimo, já vendo de fato não seu morto marido nem
outra folgada alma porém o rato em pessoa... Não se explicou após como teve presença
a fugir do brutinho e já em cima da cadeira... a do Zé a viver consertando?
qual o quê. Aquela despencara de vez e virou combustível para com outras lenhas
servir numa festa de São João. Olhou fixa de lá de cima daquela fortaleza, velha
mas firme e notou o bichinho de bigodes. Um dia, uma noite, não foi que um camondongo
em briga com outro ratinho (não seria lá no telhado coisas de amor e não briga!
não se perguntou na hora:) e um deles caiu na cama deles Maria e José: até o
companheiro adstrito à coragem macha gritou também; claro naquele escuro sumiu
em a noite, madrugada quente. Desapareceu. Apareceu lá no chão de terra batida
da casa pobre, olhou pra cima onde Maria olha pra baixo, apavorada. Igualmente
sumindo. Ora não havia, baratas! deveria ter centenas nos milhares insufladas pelo
temor; ela não viu nenhuma, o rato viu, nem devera ali residir pois não havendo
restos de alimento na casa abandonada. Dona Maria pensa num relance tudo isso e
em toda probabilidade. Ficou a tremer. Se tivesse uma vela não tinha, uma
lamparina, porém nessa altura não lembrava onde guardara e se presente onde
querosene ela dizia "criosena" nem fósforos a acendê-la. Dizia
"fósso". Todos caboclos falavam nessa linguagem matuta; e se entendiam.
Examinando bem o terreno, desceu da
cadeira e achou melhor por via das dúvidas sair (sair pra fora não! e o medo da
escuridão; e decerto de almas de outro mundo, pensou o quarto). Nisso lembrou-se
do Peri, cachorro amigo ela sequer atinou que a onça havia comido ele. A
família tivera ao longo do tempo tido três Peris. Portanto achou de bom alvitre
não sair e sim entrar no seu quarto triste de viúva solitária.
Grito 4 Quando
se vê, vê-se no dormitório. Mas não se encontrava preste a dormir; mui pelo
contrário, de pé a examinar aquilo. Num triz num descuido da atenção torna ao
rato às baratas ao medo das baratas, as voadoras amarelinhas em noite quente no
tempo a mudar e chamar a tempestade e os ladrados de Peri. Nessa fuga da
realidade na qual aparecia a dona da casa em pé, a se beliscar sentir-se viva;
ai! aí relembra o rato e o terror que passara em cima da cadeira. E eu, ela, eu
não havia me lembrado dos cabelos. Os meus desciam até nas nádegas, bunda
realmente pronunciou, o Zé não aceita cortar nem aparar ao menos os longos fios.
O caso das meninas... (aqui encaixa as filhas e também o medo que mostravam a
tais roedores). Pois não é que elas cortaram sem permissão do pai delas o
cabelo; e o cabelo da Clara! (a pronúncia entre caipiras ali era
"Crára"). A Clarinha meu dodói, tadinha. Tadinha por quê? Falou e
falava sempre gritado a Maria. Por qual motivo? ora, a mais sofredora das
nossas filhas, as mulheres só serviam pra sofrer, se indignando a mãe. A pobre
tão dengosa pro meu lado e mais ainda a receber carinho paterno; essa pobre
criatura saiu do tempo de criança, entrou cedo menina ainda no mundo perverso e
explorador dos adultos: casou com aquela peste de Antônio, filho da comadre
Benedita; o qual humilhava a infeliz, fez nela um mundo de filhos e largou minha
garota a morrer às mínguas. Morta... ah por que motivo lembrar Crára? um dia
uma noite os pesteados ratos cortaram a linda cabeleira dela pra fazer ninho
aos ratos-filhos! Daí armamos ratoeira, não adiantou: comiam o queijo e a
arapuca ficando armada. Morta, sim novinha faleceu. E lembro disso agora porque
na cozinha veio o pensamento estar no primeiro impacto sob a força e presença
de alguma alma penada. Não, deveria ser o rato o qual fugiu apavorado de mim...
Ora, minha infeliz Crarinha apareceu por meses nos meus sonhos. Curioso, ela
falava comigo e eu não ouvindo o som. Triste. Uma vez chegou em lágrimas, não
viva, morta veio. Nisso Maria se depara com o comum na humanidade: conversa consigo
mesma.
A solitária dona Maria está no
dormitório do casal, já viúva de Zé, pobre, a filharada (claro pensou nos que
saíram de anjinhos mas relembra os adultos quase todos casados ou amigados e
que morreram ainda jovens e a sofrer anos moléstias comuns, as comuns que nos
atingem; porém teve o casal filhos que deixaram a Terra por ação violenta;
alguns crimes sofridos ou perpetrados por aqueles filhos, filhos-homens, as
meninas tão só foram objetos do crime, passivas... pensando melhor a Joana,
filha do meio, não era flor que se cheirasse... Oh sinto muito e mais pela
Clara, que foi abandonada. No final o Antônio voltou ver meus netos órfãos e os
deixou "por apenas três dias, Comadre" com a madrinha deles, nunca
mais apareceu e dizem que fugiu com outra mulher, jovem; e também do delegado
de polícia... Uma infeliz. A Clarinha.
Grito 5 Debalde Maria,
viúva do Zé, não do Zé Preto o José seu falecido; debalde tenta entender um
imbróglio com dados tão irreais à compreensão. Lembrou-se das aflições dos últimos
tempos que a envolvia. A propósito, se perguntou, que dia é hoje. Ora, ali no
que restara da sala e antes no tempo do casal a viver seus dramas (ele era mui
briguento; o Zé dizia o mesmo de Maria). É fato que apesar da condição e de
época em que a mulher subjugada e explorada, nos anos finais ela é quem mandava
no esposo, sobremaneira pilhado por moléstia até a crise da morte. Lembrou-se
de certo dia... e se pôs de novo à interrogação. Verdade se disse que tem a
folhinha, a folhinha a eles roceiros era o calendário com números e uma figura
europeia de ilustração e chamarisco, certa jovem bela e quase nua, um horror na
crítica mariana. Sim, ali no que sobrara da saleta haviam fixado perto da porta
o calendário. Mas isso enroscava no analfabetismo da patroa: não sabendo inclusive
número e hora (para gozo dos filhos mais irreverentes a irritar com tais
lembranças). Repetiu "mas que dia é hoje". Daí se recordou do
compadre Tião, Sebastião certamente, um caboclo sabido e considerado no seu
meio por saber ler e escrever, inclusive escrevia numa letra legível o que os
roceiros lhe ditavam, geralmente cartas às suas mães longe e namoradas. Lembra,
comádi, "daquele 25 de março!" Nessa data trataram algo que marcara
profundamente Dona Maria, que foi a gripe a qual atingira as populações de
vários países: a Gripe Asiática. Maria e outros da região falava "ciática!
O Compadre corrigindo, não Comádi é Asiática, vem das Coreia e matou muita
gente e... Ora, aí Maria fixou bem por ser 25 de março não, sim por ser o dia
dessa revelação. No momento narrou Maria a Tião e aos convivas que os cercavam,
seu padecimento, quase deixando Zé Viúvo... loguinho ela seria Viúva dele!
Nesse tempo espirrei, senti a cabeça estourando, dores, incômodos, mal-estar e
mais ainda sangramento – o sangue escorria não tinha pano que eu (ela) não
sujasse... então Cumpádi Tião, foi por causa dos mortos nessa guerra; é Coreia?
Era foi assim guardou a explicação do sábio ali e agora a folhinha arreganhada,
uma "numrera" e não distingo um de outro número não sei em qual dia
estou. Apenas sei que ando viva. E literalmente andava, andando desnorteada dum
lugar a outro na casa, se não a despencar ao menos imóvel o imóvel abandonado.
Grito 6 Às vezes a
gente não define o que anda a fazer onde não está de fato a fazer. Sapeando por
exemplo e isto o exemplo do Lito. Lito? Manuelito decerto o nome do moleque de
uns dez anos. Na cidade na zona rural, em qualquer lugar do mundo, não se cobra
a ação de um menino. Por vezes os adultos perto longe e não o veem por mais
fale gritado. Ali. A xeretar? a xeretar sim, andar fuçar achar (achar? o quê:)
o que não perdera nem ele mesmo sabendo. Fuçando remexendo, ah quem poderia
cobrar de garoto, pior se acompanhado... agora sozinho. E aí, lá numa quiçaça,
se depara com determinada casa abandonada. Parece que antes disso ousara pescar
mas a varinha a minhoquinha a prezinha de meia dúzia de lambaris a feder
horrores aqueles mosquitinhos andejos a voar no entorno – tudo no chão se não
esquecido deixado, agora sim encontra-se diante duma pouco mais que palhoça de
pau. A casa abandonada de Maria nem seu Zé lembrado, xô alma doutro mundo... a de
Maria.
Achega-se, sequer indaga os porquês,
vê, vê uma quase tapera, mato por todos lados, ele mais interessado num pio de
ave, sonda o estilingue enganchado no pescoço. Chegou sujo, sujo e suja a roupa
o pescoço; nada extraordinário. A 'residência' à sua frente não passa de casa
velha de madeira vencida quebrada
rachada, felicidade ao vento inclemente na região; infestada certamente por
bichos, o garoto não imagina tal coisa, se bem sinta lá dentro de si um
medinho, um arrepio, desses que se não divulga aos colegas a gente quer sempre
ser herói, mormente o machinho dessa sociedade machona machista. Não obstante
perpassa em baixo do boné, um quepe usadíssimo – perpassa o nome dos que ali
residiram, a Crára filha de Maria e outros filhos que despencaram pelo mundo do
esquecimento, lembrados pelos adultos conviventes, como agora gente morta. Parou.
Olhou.
Supôs estar só. Não abandonado, apenas
sozinho, sozinho entre os vivos e somente tendo temor aos que morreram, sendo
os vivos bem mais perigosos, não para a mente menina. Chegou-se.
Empurrou a porta, dessas que fazem uma
tragédia no abuso do treque-treque ao sopro do vento e que dão falta de coragem
aos adultos passantes de noite. Ah a noite inimiga da coragem!
Bem. A porta cede, não abre aceita a
força apenas. Maria, oi Dona Maria do seu Zé morto ali a ouvir doutro lado da
fechadura inexistente substituída por uma tira de barbante ou de arame; chave
inexiste, chave pra quê! não se arromba casa com utensílios quebrados velhos
sem valor algum e largados como desnecessários a qualquer. Não obstante a velha
(na roça de então alguém de 49 anos um velho; até sujeito a ter "doença
ruim" dizia-se assim do câncer). Então uma velhota desse jeito não era
temida... ah sim ladrão a gente deplora mas o profissional e seu bando optando
pelo valioso gado, mais o cavalo, num lugar de extrema pobreza e até rejeitado
pelos próprios latifundiários por causa do solo imprestável, a gente migrara à
cidade. Aonde chegar! ora, não tendo roupa no varal, já roubadas pelos vizinhos,
a roupa a gotejar apreciada pelo ladrão miúdo, sempre fora assim, não só na
área; e a área mais ou menos largada pela pressa pela insegurança e pela falta
de futuro; enfim Maria ouvira de fato o garotinho forçar a entrada dessa saída
e estremeceu (aproveitou-se na rapidez do pensamento a rememorar cenas de
choque entre facínoras e patrão e polícia e políticos interessados nos votos
urbanos) temera, aguçara a atenção. O moleque, desistira do intento, saíra e
examinava já nessa hora o exterior daquilo. Ela? prendera a respiração a fim de
não atrair o bandido, ladrão sempre um bandido ao ser sem defesa... E continuou
o que fazia e interrompera, ou não fazendo a se lembrar do rato feroz e doutros
bichos escondidos nos vãos; interessada na folhinha, e que dia aquele? não
respondeu lembrou-se apenas do Cumpádi Tião, morto anos antes de doença ruim
num grande sofrimento.
Assim o episódio posterior a levaria
ao quarto. Quase tossira de propósito a dizer ao intruso estranho "tem
gente aqui"; não precisou do expediente, o outro sumira andara fizera leve
barulhinho de passos. Aqui um drama diário nas moradas: por que motivo o Peri
não avisou a moradora da presença possivelmente perigosa do estranho! Que
safado, ruminou; não deveria haver feito um escarcéu e morder a perna do
passante!? Na verdade notou bem o moleque vizinho, não o reconhecendo pela sua
vista baça; de qualquer forma presença indesejável. E se fosse um assasssino
foragido da cadeia na cidade ali, no estradão passavam sempre desconhecidos temidos...
Mas também nesse episódio Lito, não
resolvera ela suas dúvidas. Quem sabe não resolveria com a presença indesejável
de Beatriz, uma vizinha mal falada... uma que logo depois lhe aparece na fresta
da porta, no vento a bater e os passos agora do peso adulto; aliás Bia não
passando de ser frágil não demais feia aos olhos marianos porém fraquinha
miúdinha... de linguinha poderosa. Enfim, o comum, as mulheres criticam bem as
outras mulheres, o caso da Bia. A moradora se pensa menos bela que essa antiga
e pichada vizinha, embora se achasse ainda
razoável, nos 49 enrugando e a mancar. Coisas do sofrimento na roça nos
seus últimos anos...
Grito 7:
conclusão Ao passar, olha e resmunga a Vizinha Beatriz, uma
encrencada. Maria chega a acenar com um bate-papo corriqueiro entre 'amigas'.
Para a tempo, pois já se encontra fora de sua casa. Perguntaria da vizinhança,
lembraria causos, a roça rica em casos, sobretudo os de assombração, ambas
temendo mui muitos anos almas que se foram... Num dado momento, rente à mulher,
não diria inimiga ou adversária mas pudesse, afirmando não confiar na
linguaruda... Nesse momento extravasa sua timidez a velha (a outra não jovem porém
pouco idosa, na opinião da própria Maria do Seu Zé) e tenta encetar um assunto,
por exemplo fulaninha a comadre tal, enfim o que vem na memória cansada. Aí, ah
aí o grito – Maria fala pensa estar a gritar e talvez estivesse de fato... Bia
não escuta, não a vê, balança a cabeça e prossegue, por de passagem.
São Paulo maio
2020