terça-feira, 24 de novembro de 2020

O tem-tem do Trem

 

 O tem-tem do Trem

 

cap. UM

          Iniciemos o texto do zero, zero à direita à esquerda não importa ao tratar vender a ideia da existência do Tonho, Tonho como mamãe o chamava gritava toda hora que é hora de antes, ela: comadre, esse veio para eu pagar os pecados, um capeta. O Tonho os outros desconhecendo o tema do 'capetismo' o tratariam mais tarde Sr. Antônio, outros e até o Chefe da Estação assim se referindo a Ele em sua frente por ser estranho. Não agora. Ninguém, não se achando ninguém a levar a mercadoria... Nem mesmo o carroceiro da fazenda, Fazenda Santa Clara, alegando compromissos outros e mais o tempo da colheita do café com ordens expressas dos patrões, expressas e desconhecidas mesmo dos mais íntimos dele, carroceiro ocupadíssimo, assim alardeando a fugir da responsabilidade. Sobrou ao Tonho, ninguém todos ali alegando outros compromissos como o ter de se levantar cedo noutro dia ou qualquer – a fugir da encrenca suposta. Restou ao Tonho, moço dos seus 30 anos bem vividos (sem sem-vergonhice, esclareço:) quem esclarece! ora bolas o autor destas linhas, visto eu existir, não fugirei à responsabilidade; Você também, se bem que possa não existir ou mencionar de sua parte poder fugir à responsabilidade examinar as linhas, Você Leitor; ou, aí nos entendemos às mil maravilhas: dizer não existir. Já no caso do autor ele é o sine qua non: tem que existir. Existindo afirmo o Tonho.

          O Sr. Antônio, apelido mui comum em nossa sociedade, assim como José João etc. e tal – o Tonho, dito caboclo de seus 30 janeiros, fazia aniversário em outubro não importa não havendo a si nem aos irmãos dele esse negócio de aniversariar e bolo e festa e parabéns; quando muito o coração materno preparando um bife acebolado no almoço como  preferência desse filho trintão... Importante ter 30!? veremos que sim porque aí maduro, inclusive pra se casar, morreria solteirão não pela beleza macha discutível porém por doença: era doentiamente tímido! nunca um conquistador.

          Porém ao ser encarregado a transportar a mercadoria à cidade, cidade no entanto mais patrimônio acanhado com estação de trem, isto vantagem pelo escoamento da produção agrícola, era mais um vilarejo que município digno desse nome. Aliás várias aldeias como Alto Cafezal e Vila Barbosa lutavam para ser cidade e antes disso ter estação de estrada de ferro; posteriormente juntados como município, no município de Marília. Para onde agora e depois de muito lenga-lenga o Tonho dirige a besta que os dirige ou os leva à cidade. Era para ser um cavalo ou égua entre os varais da carroça, ficou um burro! Nesse tempo os cavalos e éguas eram o motor das charretes urbanas. Puseram um burro a puxar, melhor no pior: mula teimosa e coiceira. O que grave ao rapaz que não tinha traquejo nem formação de carroceiro não sabendo as vozes de comando a contento se não  'ohôoo' e 'eia'! também desconhecendo a besta ou por burrice ou por surda, não atendia ao improvisado carroceiro.

          O importante nisso tudo é que marcham (quer dizer homem carroça mercadoria) marcham lento sem tempo para chegar rumo à urbe e mais pensando na estação de embarque da caixa...

          Antes outra coisa importante a entender este capítulo. Seguinte. Estamos, eu autor e o Leitor possível, Você, a desenvolver a estória do Tonho e seus percalços para despachar certa mercadoria bem acondicionada, a tampa leve se encaixando à base pesada e feitas ambas de madeira com a mercadoria bem protegida dentro; em destino a outra cidade mais longe mas primeiro que isso, chegar e despachar na estação ferroviária de Marília... caso a teimosa mula aceitasse e não negasse fogo... ao jovem de 30 anos? ao jovem de trinta.

          Postos os termos e insistindo nesses trinta anos, necessário esclarecer que na época – inícios do século 20 até meados dele – com essa idade um homem já maduro e logo seria idoso beirando os 50, quando se sujeitava ter a chamada doença ruim, o terrível câncer. O Tonho maduro portanto. Pouco mais tarde pleitearia aprender mais que sabendo no meio rural. Então o que aprender para ter por exemplo um eventual matrimônio, ele incapacitado ao mister por doente, dito a enfermidade da timidez. Contudo casado ou solteiro não interessando e sim o fato de carregar uma carroça emprestada da fazenda para levar a carga, aqui supostamente valiosa.

          O outro dado importante à nossa fala, é que não pretendo escrever obra literária e longe ser de gabarito. O tratamento a combinarmos será o da linguagem coloquial próxima do povão em que me insiro, e Você também, caso exista...

          Em frente.

          Por estarmos numa ligeira confusão é que será difícil entender a explosão mais tarde do Chefe ao atendê-lo.

          O Chefe: Senhor... afinal de contas é Antônio José Arlindo ou João! (a um mequetrefe disse: durma-se com um barulho desses! ou melhor, com uma loucura dessas!!!)                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  

 

Cap. DOIS

          O Zé, sr. José ao chefe da estação, olhou. Sim, devia ser aquele o trem a transportar o tão pouco à muita mercadoria... E não estamos numa cidade do interior de São Paulo e portanto não bastaria apenas indagar a qualquer um – 'um' aqui necessário ser um macho da espécie porque nossas fêmeas arredias desconfiadas ou que o moço trintão fosse nada do tipo saído e menos ainda conquistador; e posto isto não se dirigiria mesmo a uma beldade, mais apetite houvesse e havia pois que os tímidos despendem mais tempo mais horas século milênio a se dispor falar; conquistar já outro programa e impossível aos medrosos; era seria a indagação a uma pessoa macha, para a gente perder o embaraço – de fato bastando indagar a um sujeito dessas dezenas que se ajuntam na estação de estrada de ferro da Companhia Paulista em Marília, ali propriamente Alto Cafezal, tinha a Vila Barbosa e outros ajuntamentos a pleitear estágio de município e mais aí no começo de 1930 ainda sob o impacto da Crise de 1929; mas ficaria apenas Marília como cidade digna desse nome, juntando a ela os outros povoados, ou patrimônios como se dizia. A Companhia Paulista dera o nome tomado ao "Marília de Dirceu", importante na literatura nesse tempo. Fincara o poste ao assentamento da estação: o restante ocorreria por acréscimo a fazer o município crescer, até despencar hoje, século 21, como um polo administrativo do Estado. Não era assim contudo nesse momento, uma tarde morna à população aguardar o trem das 5 horas da tarde em direção à Capital e a chegar a ela quase noutro dia... Não era no momento em que José se dirigindo aos funcionários, os quais o levaram até à chefia, o trem preste aparecer.

          Para quê o rapaz ali!

          Para tratar daquela mercadoria a despachar – realmente não mero despacho porque o Zé iria junto e tendo passagem comprada às mãos como acompanhante da dita encomenda embalada (e que mercadoria!) Todavia o Chefe ocupado nos trâmites burocráticos tendo responsabilidade em aceitar o pedido daquele capiau de uns 30 anos, gastos na enxada ou fosse lá no que fosse que fazendo ao pão de cada dia. De pronto não atendeu o jovem; o chefe um senhor grisalho daí o registro 'jovem' ao Zé; entretanto sendo já velho nessa época, maduro enfim; hoje um homem de 30 é considerado novo, a população aumentou seu degrau de vida; melhor à verdade afirmar existência, pois vida pode ser até milenar, enquanto a existência para um indivíduo com 30 já podendo ser festejada (o verbo mal empregado, envolve a festa fúnebre do velório e o da sepultura) no caso poderia José encontrar-se no cemitério da Avenida Saudade e... ah, não fugirei aos temas: o trem e a constrangedora mercadoria.

          Ela bem pregada na caixa retangular simples e bem feita por um artesão da roça; melhor dizendo, não pregada, amarrada presa as duas partes móveis, a de cima leve como tampa e a debaixo pesada grossa para sustentar tal despacho, de fato gente.

          Assim descrito assusta ou só espanta um pouquinho quem interessado saber; no caso a autoridade da estação naquela hora ocupadíssima com papéis, aquilo de ordenar papéis numerar papéis assinar papéis, a despachar os papéis e as mercadorias é lógico. Por isso retardava atendimento ao caipira, caipira mal trajado decerto ou não porque a gente da roça quando vai à cidade às compras por exemplo e não era o caso, em quaisquer casos, se arruma com ajuda da mulher, visto mulher de maior gosto a isso; dessa forma certamente deu-lhe (ao Zé) o palpite na roupa e portanto bem trajado no entender do roceiro. Mas não, o Zé, sr.José desde aí tratado pelo chefe a se apresentar pela chegada iminente da composição da Paulista, o 'Trem de Luxo', entraria já ou daí minutos na plataforma. Porém o  homem graduado não atendendo, a 'mercadoria' então separada num canto e a numeração ainda não posta oficialmente, portanto em atraso (ou lerdeza dizia o pensamento do matuto pleiteante ao despacho...) O homem não atendia.

- - -

          Enfim, como as coisas estão, em que pé o 'jovem' com descontos... à espera da palavra final do Chefe; e aquele aflito da enxada na espera da solução do seu negócio... seu por envolver toda sua família, não só parentes até outras famílias envolvidas, entre compadres aparentados amigos e inclusive estranhos interessados na solução do problema porque um problema, nem se conhecendo ou ao menos se se soubessem das raízes e consequências, das ramificações necessárias ou desnecessárias embora inevitáveis; inevitáveis para quem sem experiência ou não podendo se furtar a isso.

          Entretanto sim um problemaço ao pobre, pobre por suas limitações naquele meio e mais pela doença da timidez ser além daquela no se dirigir a qualquer beldade e portanto não se dirigiria a mulher e sim um qualquer homem desconhecido. O Chefe da Estação por exemplo. A gente da roça sempre embaraçada frente às autoridades ou apenas estranhos graduados. Em razão disso, sem razão diz a lógica do ser, em razão disso primeiro tarda o quanto possa para procurar e se dirigindo ao funcionário; aí ainda espera o prêmio de não estar na berlinda chamado ao atendimento primeiro que outrem; e, não tendo jeito ao drama, o coitado dá passos à frente e fala, expõe seu recado gaguejando sobre a mercadoria estranha, embora fechada, seria lacrada porém não: apenas acondicionada a despacho – relembremos, com duas partes, a tampa leve em cima e a debaixo pesada, a conter o peso. Chefe de nenhum trem nem estações nem repartições aceitaria a mesma exalando cheiro; ver-se-á não cheirava...

          Até que foi atendido, primeiro os outros despachos registrados adredemente e examinados pelos subalternos e sujeitos ao Chefe e agora aguardariam o Trem de Luxo chegar.

          Qual mercadoria? claro a do Zé, a do despacho pleiteado pelo sr.José e daí o Chefe logicamente chamando um atendente para levar o monstrengo até ao ponto na plataforma de embarque aos passageiros e às mercardorias; para facilitar não perder tempo, visto o trem ter hora. Teria que ser naquele tempo absoluto pois a locomotiva na iminência da passagem puxando a composição azul prateada, vista por moradores no aterro onde a linha de ferro, eles com seus cronômetros – uns tiravam os patacões do bolso de níquel, destampavam o relógio, olhavam conferiam: para ver se a composição certa, e acertando os 'roskoffs' que portavam – então quase que absolutamente conferiam ser 17 horas do dia, o sol a se esconder cedo nesse inverno ou indo assim mesmo ao horizonte também no verão e isto agora não interessando ao Chefe do comboio, sequer ao Chefe da Estação, já prestada sua parcela na condução e deslocação do Trem.

          Ia me esquecendo dum dado interessante do moço de trinta anos. Ao chegar na cidade ele procurara um barbeiro da rua São Luís. Então um pequeno desastre... o oficial lhe tirara um 'bife' da cara com a navalha afiadíssima. Susto, sangue, curativo rápido. E lá prosseguiu o roceiro, agora envergonhado por portar esparadrapo no rosto. Sim, devia ter sua vaidade diante do povo.

          Ah espera aí, tem mais esclarecimento.

          Qual trem? se não existe mais trem; sendo que no restante do mundo é encontradiço alguém morto na linha pelo trem. Aqui neste país então do Terceiro Mundo como se falava em meados do século 20, aqui foi o homem quem matou o trem. Sim. Não tem trem.

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          Voltemos ao Trem à Estação ao Chefe à mercadoria a se despachar e àquele homem do meio rural doentiamente tímido. Ao despacho, visto como necessário despachar. Inclusive palpiteiros poderiam dizer "por que não manda noutro horário sua encomenda? " podendo insistir inclusive num outro trem, o de quase meia-noite que tentava sempre chegar na Estação da Luz na Capital quase ao meio dia. No entanto que interessa é o que aconteceu. Para tanto vejamos a mercadoria, que até nesta parte trouxe tanto drama, não apenas a um 'morador' da Fazenda Santa Clara, encostada nos limites de Marília; Vejamos o Zé. E a mercadoria.

 

Cap. TRÊS

          A passagem do Trem de Luxo ou citação dele foi mera lembrança do fulgor das linhas férreas no país, pelo menos no Estado de São Paulo – todavia o que interessa para nós são as linhas férreas já em crise nos meados do século 20; e o que de fato interessando ao Zé, ao sr.José, e decerto ao próprio Chefe daquela estação ferroviária era naquele momento o embarque e as ocorrências gerais, tal como os horários além do das 17 horas, donde o acerto dos relógios dos velhos curiosos à passagem daquela belezura de composição, a máquina puxante a buzinar no cruzamento da rua 9 de julho à saída da Estação, rumo à Capital. Pois bem; e que o Leitor me dirá se afirmar agora que o Zé não era Zé mas Arlindo!

          Responderá estar louco o autor e até ele mesmo.

          Pois é isso. Arlindo não caberia ao moço de seus 30 anos, forte e dado aos íntimos não aos estranhos visto ser tímido, doentiamente tímido, inclusive a se dirigir a um macho da espécie, desconhecido, desse tipo que o caboclo no hábito de indagar-perguntando "se malapregunto como é que o senhor se chama" eu sou Arlindo, Arlindo Armani, Armagni em italiano. Ah esse Arlindo devendo se chamar Arfeio, pois horroroso (na apreciação ou depreciação macha, podem as mulheres assim não pensar). Usei o Zé no costume literário useiro e vezeiro que a gente pega por aí apenas a rabiscar um texto. Arlindo, grosseiro capiau, forte honesto presto ao trabalho porém vergonhoso pra danar (expressão dele mesmo) feio já disse e talvez pela oposição à sua irmã de sangue, bela e inteligente Anésia. O Arlindo, moço sem instrução e tímido, repito. Ando agora a relembrar certa passagem ligada a ele: o chulé. Ao tirar o sapatão que os trabalhadores usavam na área, ao tirá-lo à tarde na volta do serviço, ah valha-me Deus: fedia tanto a ninguém ficar nas imediações. E ele lento mole no falar no agir, em vista também do cansaço da jornada – ele descalçava-se devagar. Bem, esse o mal. Valia pelo coração e sua correção. Contudo agora enfrenta o Chefe da Estação, numa espera milenar, milenar ao apressado ou cansado ou só tímido como afirmei. Por fim o Chefe o atende.

          O Chefe: Senhor... afinal de contas é Antônio José Arlindo ou João! (baixinho fala a um mequetrefe: durma-se com um barulho desses! ou melhor, com uma loucura dessas!!! :) então o outro responde eu sou João, Senhor João da Silva Chefe emérito autoridade desta egrégia repartição da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, veja sou também xará do Senhor... Ou nada disso disse repetisse tal roceiro extremamente tímido ainda nos seus trinta anos de vida e sem instrução formal. Falou de fato simplesmente "mas eu sô João", pondo quase a nocaute o Chefe irascível no limiar da explosão e daí o homem graduado olha bem o matuto à sua frente – nada mais pleiteando que enviar um despacho. O despacho: certo incerto caixote mal feito a defunto nada exigente, como aliás se dá com todos cadáveres (ah! isto anda tétrico demais).

          Bem, o Chefe da Estação do nascente burgo chamado Marília, esse olha bem examina a peça ali encostada, a tremer na voz e no corpo, corpo forte fraco no enfrentamento psicológico por ser uma autoridade desse naipe, ela completa estentórica porém acalmada um pouquinho "desembucha..." (usou linguagem popular que todos entendem).

          O João. Fui encarregado lá na Fazenda Santa Clara a levar-trazer aqui nesta Estação a encomenda (antes disso no meio disso, ao gosto caipira e já destramelado, minuciou o como – a crise cafeeira de 29 e a opção regional na agricultura a qual traria então imigrantes sobretudo nipônicos a plantar algodão depois amoreira ao bicho da seda; e nesse tró-ló-ló quase a matar de raiva o nervoso e ainda desconfiado alto funcionário. Enfim se entenderam no mais ou menos, o Chefe determinado chama dois subalternos e manda levarem à plataforma no local destinado às cargas e bagagens, longe do espaço aos passageiros, espaço onde deveria exibir o João os documentos; a autoridade com olho na estranha mercadoria.

          Pronto, arrastado o volume; mas eis que o homenzarrão dentro de sua grande posição embora pequeno no porte; eis que grita o outro João. E determina abrir destampar levantar liberar olhar finalmente a mercadoria, se de acordo com os dizeres da etiqueta de embarque, pagos antes do envio para em conclusão seguir. Abram! ordenou peremptório. Abriram, quase estourando a tampa.

          Então o Chefão arregala estremece meio emudecido. Isso! Isto!...

 

Cap. QUATRO    

          A caixa retangular o mais bem feita possível por gente longe do ofício; já esclarecido haverem pego e até implorado a um dos roceiros curiosos na arte carpinteira fazer uma caixa; contudo a dita caixa passara por besta teimosa, pela inexperiência do carroceiro João, Senhor João nos mundos educados da Chefia da Estação ferroviária; nisso João nada perplexo foi concorde haver ali um homem morto. E daí... não falou pensou.

          O Chefe agora embravecido Não Não Não! e Não. Não embarco essa coisa no trem.

          Antes que isso isto: ué, afirma interrompendo o Leitor, Você, como se refere ao trem se não mais tem Trem!? e menos ainda por não haver o tem-tem (usa onomatopeia a gozar o autor, eu, euzinho da silva, que garanto existir); e completa: uns abusivos diriam que o Trem fazia quando se deslocando tum-tum e não tem-tem. Ri-me por dentro, por fora também o quanto possível a explicar, e pensei: ah essa gente burra à qual, se não se explica no tim-tim por tim-tim não entende bulufas. Digo insisto tum-tum é quando devagarinho as rodas no trilho de ferro, chocando-se ao rejuntamento doutro trilho e aqui sim 'tum'. No entanto meu tem-tem tem razão de ser pois o movimento rápido e até aloucado do comboio, das rodas dele em conflito com os tuns, leva ao som tem-tem. Caso mui depressa a viagem, o tem fica meio fino e menos tem mais tim. Viu? olha agora o autor o Leitor e para o feitor feito Chefe e para o João feito bobo. Prossigamos.

          Os empregados alevantam a tampa, o morto quase a sorrir dos desajeitados rapazes e imediato se fixam todos na voz potente grossa fanhosa imperante da Chefia. Isto não deixo seguir nem embarcar sequer despachar. É coisa de funerária não de mercadoria comum.

          As pessoas em volta abrem a boca espantadas. João, trinta anos de experiência nunca passara por uma situação dessa; aí chega e parte ao apito estrilado do Chefe de Estação e ao apito do próprio trem, toda composição de vagões barulhentos na cidade pacata. João fica a tremular sua passagem de embarque, decepcionado.

          Mais tarde, esfriados os ânimos, o caboclo procura o Chefe – quem sabe a pensar despacho posterior e embarque dele mesmo noutro horário, o de quase meia-noite a chegar possivelmente ao meio-dia doutro dia, por azar uma segunda de preguiça e má vontade, a completar seu trajeto na Estação da Luz já na Capital paulista. Falam-se. O Chefe fala fala, fala agora manso e sensato; também o João sensato, até demais para um roceiro excessivamente tímido. E o que ele faria não fazendo! levar de volta o cadáver na caixa tosca na carroça, a mula se coçando brava das moscas enxeridas durante a espera? Fora assim o João conversar quiçá tentar convencer o Chefe a aceitar o envio noutro trem, trem com tem-tem ou seja o tum-tum devagar a sair da estação e depois sim tem-tem pela rapidez (nunca chegariam ao barulho dos vagões do Trem de Luxo, que de tão rápido o som subia como tim-tim e...

          O Chefe. Tem razão agora você (curioso não usar tratamento Senhor ao xará João – enfim ficaram um pouco camaradas) pois o defunto não passado a cheirar, a exalar apenas flores secas selvagens. Todavia como autoridade e representante duma Companhia de nome, não aceito, não segue. Procure mesmo os serviços funerários, a Funerária São Vicente foi inaugurada outro dia; ela fará tudo nos trâmites legais. Nisso virou a cara noutra direção.

          Mas João, insistente persistente, vai de novo atrás do Chefe. Debalde. Permaneceu na plataforma, jururu, sem saber o rumo a tomar. Fazer o quê?.

           Lá pelas tantas, nessa altura o Trem da meia-noite encostado e alvoroço de passageiros malas gritos em meio ao barulho normal de um trem do tipo maria-fumaça, nessa altura o Chefe berra a ser ouvido pelo interessado, aceitando o despacho (aqui comenta aos colegas subalternos baixinho "o morto não estava mesmo fedendo...") Embarcam correndo a caixa, caixão, e no último lerdo vagão se movimentando, sobe o matuto. Dá com a mão ao Chefe o Chefe não vê.

          Claro estar  que o passageiro de uns trinta janeiros, ele de outubro, claro sim teve pela frente mil problemas com um desembarque forçado no meio da viagem, lá por Brotas ou noutro ponto de parada, embarque-desembarque da gente e o sufoco a procurar entrar nos vagões. Mil, mil e um,  nos atritos com funcionários funerária polícia ah a polícia. Como foi que safou-se disso não é objeto do texto.

          No entanto vale lembrar relembrar o como uma viagem de Trem, com seus tem-tem.

 

Cap. QUINTO

          Afirmam apressados que moleque não sonha, sonha. Moleques, pensam e falam, apenas fazem artes: roubam fruta no vizinho, atiçam o cachorro, atiram pedra na caixa de abelha, quebram vidraça alheia, tocam campainha nas casas etc. com etc. a valer noutras artes. Afirmo que moleque sonha. O moleque Chico, Chico de Francisco (nisto berra o Chefe, agora me aparece um Chico, não tinha eu razão ser uma loucura!) o Chico antes dos seus trinta janeiros, 'festejava' natalício em outubro e isto não vai ao caso, antes bem antes de se encrencar levar despachar viajar com o caixão de defunto cadáver ainda não ultrapassando o limite cheiro-fedor e inclusive elogiado pelo rabugento  Chefe João da Silva na Estação de Marília, o qual sentira ao abrir a tampa perfume de flores silvestres gratas aos velórios da gente pobre a exalar odor de flor já seca; antes em menino o Chico viajara no trem de quase meia-noite a chegar quem sabe quase ao meio-dia doutro dia na Luz e a viagem com a família lhe fora um sonho bem definido, na alegria e curiosidade meninas. Fechou os olhos ainda ouvindo a campainha no cruzamento imediato ao sair da Estação passando pela Rua 9 de Julho e tendo aquela fila congestionada de fordecos e carroças a esperar a porteira do trem na via pública se abrir a passar: e aí já andava o garoto a sonhar. Aliás, é fato conhecido sonhar-se de olhos abertos ou fechados bem como a entrega em fuga aos problemas da noite de luar ou de dia de sol. Ah um lembrete antecipado: a poesia nunca resolveu nenhuma questão a nível mundial. Continuemos. Sonha. O que mais faz é sonhar. Tal como o poeta o menino cria e acredita no que inventou. Inventaram. O Trem se deslocava louco no escuro em a noite morna de verão. Ouviu nitidamentee o tum-tum ao sair lerdo da composição parecendo uma fileira de gomos de linguiça; e se firmou quase imediato no tem-tem, os trilhos frios de ferro e rodas também de ferro lá embaixo se atritando e olhe, Leitor matreiro, num ponto do trajeto inclusive arriscando correr expondo o som tim-tim por abuso na pressa porém não continuou pois que não era o Trem de Luxo de tempos depois; infelizmente, lembro, tempos idos para nós hoje... Não era o de Luxo, apenas Trem. Abriu olhos.

          Notou o tiem-tiem no choque entre vagões a balançar, o seu de Segunda Classe. Havia o de segunda aos pobres qual sua família, sua mãe preocupada com abusos dos filhos nos momentos de chamariscos na passagem de vendedores de tudo um pouco e a infernar bolsos soltos fracos "olhem as coxinhas" "chocolates" "Revistas e Jornais" aí repetiam as mentiras dos títulos para atrair; e paravam por perto a açular necessidades nos viajantes, com ou sem dinheiro para gastar no carro de segunda, os da primeira classe tendo inclusive autorização visitar o carro-restaurante. "Manheeê eu quero" respondia "cala a boca fulano" aqui despencava a mulher a relação enorme masculina Antônio José Arlindo João Francisco e a relação feminina grande mas pequena como Maria Josefa Teresa etc.. Igualmente enorme a bolsos curtos. Além do fato de os filhos se insultarem brigarem na viagem, com  correção por safanões a orelha vermelha e os gritos altos em adversão, gritos antes baixo e na surdina; então a explosão da senhora. Até que um funcionário do Trem aparecesse a anunciar os bilhetes de viagem, a bater com o perfurador na quina dos bancos de madeira – para acordar dorminhocos adultos, os garotos então a roncar ou a brigar acordados. Ai, pobrezinhas das mães a precisar lembrar igual a do moleque "vou contar tudo ao seu pai quando de volta à Marília" (os de sangue indo aos parentes paulistanos). Depois se esquecia da promessa.

           Lá entre junção de vagões os sanitários a servir viandantes os pequenos toda hora querendo ir ao banheiro... e adultos a levá-los e trazê-los em meio aos atravancos de malas que o porta-malas não suportando; e matutos roncando na viagem atravancando a passagem no corredor, pés dos dorminhocos e cansados entregues, aqueles intrépidos viajores pobretões. Viu, notou muito sem muito explicar o moleque.

          Por exemplo a cor no sonho. O Trem de madeira pintado há tempo de amarelo e marrom a imitar o som tom-tom na passagem da rodas nos trilhos por bueiros e espaços ocos mais ali à sua frente e nos lados em todas medidas, um sonho acordado inteirinho de Trem, mesmo com o cerimonial desse tempo: e a formalidade britânica, foram ingleses os primeiros engenheiros ferroviários no planeta; os quais deram ensinaram exigiram a formulação e o padrão que suas enormes empresas instalaram no mundo. Não, isto o moleque desconhecia. Seus olhos curiosos, ora arregalados ora fechados, viam até que o comboio passara e ultrapassando se distanciou dum túnel. Daí grânulos de carvão e fogo do fogo que a maria- fumaça lhes atirava, sim, não somente no menino. Janelas intempestivamente fechadas (o brasileiro cerra a porta e tranca e teme – quando o ladrão já levou seu tesouro). Imediato veem a claridade de postes urbanos fincados e sons da nova estação, a qual corre rápida contra a velocidade do trem, este cada vez menos rápido até à parada a bufar vapores da locomotiva. Então os jovens descem-sobem nos vagões, erram seu lugar seu carro e sua gente. Contudo veem as meninas bonitas do lugar em passeio na plataforma da cidadezinha (se esquecendo que anteriormente o trem em movimento eles, os jovens, passeando ao balanço dentro do trem. O Leitor, Você, mas não é madrugada já!) Abre. Fecha. Pisca. Alembra o moleque as mil viagens em que participou... e por que só viajaria sempre no da Meia-Noite a aguardar chegada na Capital ao Meio-Dia, as ruas entre apitos e movimentos e barulhos no Bairro da Luz!? Ele a indagar.

          Outra lembrança de Frederico foram os companheiros nessa viagem. Então ele narrando sempre a mesma estória até o outro dormir... Cansou de repetir as coisas aos estranhos.

          Num momento relembra sua mãe, ela: fica quieto... e desanda a recitar relacionar Antônio José Arlindo João Francisco, a se enganar e se corrigir no errar nome dos filhos todos, uns caipiras a investigar sonolentos a loucura de São Paulo.

 

Cap. SEXTO

          Tonho Zé Arfeio João Chico, Frederico este apelidado Fred a imitar a colônia a Metrópole do Planeta, sendo que os autócnes desta terra inventaram outros sons ao mesmo Frederico; tudo isso nada disso – agora está enrolado. Ah pobre matuto vindo lá da Fazenda Santa Clara embarcado na estação ferroviária de Marília rumo ao desconhecido, desconhecido a ele tadinho, nessa viagem ignorada e é o que tenta explicar ao Delegado, um doutor menos ou tanto quanto neurótico semelhando o Chefe João da Silva na Estação. Fuma chupa traga o charuto inacabável inacabado fedido a fumaçar o ambiente da Delegacia; seu ventre pronunciado a arfar no peso dos anos e nesse ponto indaga mais uma vez ao capiau sentado à sua frente, o Doutor a 'nhec-nhecar' irritante na poltrona giratória, "como é que entra aí na sua narração Fazenda Santa Clara se morador da Fazenda Flor Roxa no município de Marília. Fred gagueja repete ter ido à Santa Clara por causa duma linda jovem mas a timidez... ora sim senhor, isso não interessa; então levanta a voz o Delegado, prossiga: Fred, no entanto foi daí me pegarem a fim de levar a caixa para embarcar, o carroceiro José não aceitando carregar a coisa nem outros colonos da Fazenda, sobrou pro João pro Antônio pro Arfeio carrocear e ainda a mula mui teimosa, eu não sabia os sons que ela sabia e assim foi difícil e demorado chegar na Estação de Trem. Conta reconta o Trem de Luxo e o embarque final no horário de Meia-Noite. Chega! Continue! explode o Delegado sob olhar assustado do polícia em sentinela, um ordenança da repartição. Continue donde paramos hoje cedo: a abertura da tampa leve do caixão pesado com um defunto dentro, se bem não mais a cheirar passado. Então explique-se pois não anda me convencendo. Frederico também se assustou como o guarda.

          Eu não sei, Senhor Doutor Delegado, não sei como... Não conhecia o defunto vivo, ainda na caixa morto, apenas me prontifiquei levar a encomenda porque ninguém aceitara o serviço... Então cansado dormi sonhei com a viagem na viagem, acordei o Doutor me intimando depor esclarecer e ainda o Senhor quer me incriminar! Nisso coçou o esparadrapo no rosto, objeto de interesse da Autoridade, bem como fora de todas pessoas com quem se relacionara Fred, por culpa do barbeiro. Não querendo parecer mais medonho que era o caboclo trintão, fora fazer a barba de semana na rua São Luís, sim Senhor em Marília, o profissional desses tipos roceiros que migram à cidade e na cidade trabalham um dia como auxiliar de pedreiro e noutro pegam obra se apresentando grande conhecedor; o barbeiro bem barbeiro, meia-colher na tesoura e na navalha, a navalha lhe tirara um bife... sangue e curativo com esparadrapo e daí por onde passara o matuto tendo narrar o acidente já bem desastre ao seu gosto. Explica então o barbeiro barbeiro ao Delegado nervoso, como ene-vezes narrara ao Chefe da Estação. Prossiga, intima nos gritos o graduado a charutar.

          Mas explicar o quê! Nada sei. O ordenança ali então chocalha as chaves da prisão e mostra as algemas, de propósito... o Delegado nisso sorri safadezas. Ah chega de narrativas de sofrimento dum roceiro inocente (inocente até prova em contrário).

- - -

          O fato essencial é que lá pelas tantas da madrugada, o trem parado, um funcionário foi remover encomendas no vagão das bagagens... O interessante da coisa é haverem antes feito baldeação em Bauru, então deixavam a bitola estreita a trocar por trem na bitola larga e assim deveriam ter notado irregularidades, partiu o Trem de Fred... inclusive nos vagões de passageiro de Segunda Classe fora uma correria na dita baldeação para marcar lugares em o novo comboio, Fred fizera o favor pela janela de seu assento em pôr embrulho dum desconhecido. Entretanto o trecho a se iniciar eletrificado com locomotiva silenciosa e mais rápida, a maria-fumaça ficou bufando seu vapor. Continuaram no caminho. Até ao ponto no qual o funcionário xereta descobrira algo de podre naquele bagageiro, mais bem dito caixa-caixão do roceiro morto, a trazer problema ao roceiro vivo, mormente perante o do charuto a fumaçar, perante enfim ao irritável irritado Delegado de Polícia...

          O funcionário a remexer volumes no vagão ouviu ou pensou ouvir barulho estranho dentro da urna funerária aos cuidados do tímido trabalhador trintão, a dormir num banco de pau num dos carros da Segunda Classe.

          Destampado o caixão de defunto, o morto-vivo acorda de vez do torpor num ataque...

          Ah daí por diante ninguém, nem o trem, tem mais sossego, não se afirma paz, sossego mesmo. O Trem parou, já andasse, vieram altos funcionários da linha férrea, a polícia local acionada, um caboclo doentiamente tímido ainda nos seus trinta, trinta e um anos pra ser exato, em maus lençóis e...

          Aqui entra o enxerido Leitor, Você, e lasca seu vozeirão a acusar o autor, a me acusar: "Viu, diz, quanto usou no texto inteiro o tempo verbal no passado para seu Trem !? Portanto não tem Trem. Muito menos o tem-tem."

          O que posso responder?

São Paulo   novembro  2020

                                                                                                                                                                                                                                                                                                  

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Zecatinga

 

Zecatinga

 

Introdução

Nesta econômica introdução à novelinha usaremos recursos corriqueiros aos escritores porém a ressaltar um que é o uso da linguagem coloquial moldada ao roceiro da época Entre Guerras; pretendemos encaixar tal linguagem na forma culta atual, o quanto nos permite o engenho a arte e a ignorância. Com isso pondo melhor, pensamos, o Leitor, Você, no mundo do personagem; o mundinho a iniciar aí embaixo.

 

1º cap. Voz do Velório

          Agora neste instante nesta parcela do tempo no limiar do tempo Zecatinga encontra-se imóvel, anda parado a se constatar de fato sem nenhuma forcinha para arredar o pé; o pé! o todo o corpo o ser, o ser exposto no lugar em que nunca desejara estar; a rigor antes nunca houvera imaginado estar – no velório! não num velório mas no seu próprio velório...

          Se se exigir mais dados a compor o quadro da verdade, não chega ao clássico velório burguês, mesmo levando em conta uma cidade de sua época, a época? à beira da Segunda Guerra Mundial. Porque velado pelo seu povo na roça na aldeia na zona rural enfim então existente; mais adiante os roceiros seriam enxotados com suas enxadas e suas famílias do mato para a zona urbana nascente crescente exuberante, embora a região tivesse tão só vilarejos a pleitear câmara municipal e prefeitura. A burguesia dava também primeiros passos rumo ao poder futuro, o futuro é hoje e o Zé não pode comprovar pois num velório, no seu próprio velório. Depois, claro neste escuro, o enterro o túmulo arreganhado à espera e o sepultamento. Agora Zecatinga no centro, e seria a sala? o comum que se via numa casa pobre – nada tendo com velório solene do meio urbano com suas exigências legais e o povo... ah o povo sempre foi é e será o povo na habitual reação humana.

          Caso fosse na cidade, como por exemplo Vila Alta, se nesse meio e não no meio rural; então a gente a chegar circunspecta silenciosa embora sempre hajam engraçadinhos igual numa festa. Bem, é uma festa no entanto festa fúnebre para despachar o morto do mundo dos vivos, ou assim admitido. Seria, fosse na cidade o espaço onde o cadáver a mesa ou o 'pleiteante' já no caixão tendo adorno de flores velas a aguardar os paramentos as autoridades; e o fundo, no fundo bolachinhas cafezinhos gracinhas e negocinhos pois se aproveita a oportunidade pôr em dia as relações sociais. Na área do falecido, a parte central da festa ou ajuntamento, bancos cadeiras aos cansados entre fofoquinhas a passar o tempo.

          Mas não – o tempo é agora no então e longe da civilização com sua parafernália, visto acontecer no sítio, desta forma se referiam à roça. E o velório dá-se numa casa pobre; poderia ser numa miserável palhoça e não sendo o caso porque de madeira o imóvel e usadíssimo pelos anos; o comum de se ver. Pobre e no costume roceiro: a sala, flores selvagens o quanto possa uma flor de embelezar o mundo ser grosseira, trazidas de boa vontade por vizinhas comadres e parentas. Ouvem-se ladainhas, os cantos puxados pelos fiéis católicos, semelhante ao que vez por outra surgem nos terços, nunca padres aparecem nas colônias das fazendas; ali os mais versados na crença dirigem tal culto simples.

          No centro do velório encontra-se certa mesa grosseira onde o caixão, uma encomenda de última hora ao habitual vizinho com pendores aos serviços carpinteiros. Em volta nesse espaço espremido a gente visitante, a calar como possível as crianças; aí as orações repetidas e repetidas mil vezes de geração a geração. Um que outro a falar preços e tarefas lavradoras sob olhares condenatórios dos mais conspícuos na tradição divina. E, lógico, o choro dos parentes e mais achegados.

          Por que os do sangue em lágrimas ou apenas respeitosas criaturas?

          Em geral pelas saudades antecipadas na falta de agora, a prantear o morto.

          Por fim no quase início um esclarecimento. Neste texto a gente vai entremeando a fala caipira de entre guerras na fala presumidamente culta. Mas quem o personagem.

 

2º cap. Quem Zecatinga 

          Naturalmente um homem, um ser humano, um homem comum e semelhando os outros tendo sua história, seu romance, num planeta de bilhões de romances. O do Zé teve início com os rabiscos de nascimento. E claro, do registro de nascimento, a praxe no mercado geral. Então seu Tonho, compadre Tonho aos seus iguais dessemelhantes, Antônio teria (aqui início duma invenção da imaginação visto não ter sido visto a entrar no cartório na cidade-Vila importante na região); teria atrelado seu cavalo num poste ou pau fincado em frente da repartição; (aqui poremos no presente:) se dirige no balcão ao funcionário, na hora a tomar um cafezinho e sequer oferecendo ao capiau desconhecido e cheirando a égua do suor de seu cavalo, estando o desconhecido ainda inseguro e na timidez que a insegurança dá tanto à inocência quanto à ignorância nessas horas a um caipira diante da autoridade. A mulher da autoridade leva o bule a xícara a bandeja para dentro nos fundos, a casa do funcionário; este se levanta ver o que 'manda' o roceiro. Eís que se entabula um diálogo, realmente triálogo ou mesmo tetrálogo caso se conte os curiosos a se achegar à novidade.

          Eu quero, senhor doutor... e fala a respeito da cria, uma criança nascida pra ser qualquer coisa importante no mundo, qual toda família deseja aos seus e sendo, seria seu primogênito. Sim porque frequente a mulher dar à luz um filho que vingara como o primeiro porém antes, doente subalimentada e maltratada nas condições roceiras e na pobreza rondando a miserabilidade que era a riqueza do povão na enxada; em razão disso perdia, perdera Maria várias crianças ainda no bucho. Enfim salva-se o Zecatinga tido primogênito...

          Diz querer registrar seu menino. O nome!? puxa, não havia pensado na coisa nem a esposa citara qualquer... Zé, ora. "Não", responde o alto  e único  funcionário e proprietário do cartório; Zé não existe. Insiste então Compadre Tonho ao escrevente em Zeca. Também não existe, isso apelido; registrá-lo-ei (fala registrarei) como José. Entretanto José de quê? Daí complicou... O pai, o pai do filho, com certeza o pai pois dona Maria íntegra digna honesta e mandada pelo marido; depois ao fim dos tempos Antônio velhinho fraquinho perdidinho no mundo seria será de fato mandado e então se pode afiançar desde já que Maria mandando em Antônio, sem fugir à verdade nos costumes das massas.

          Por final, cansado o funcionário a defender-se das prerrogativas de Antônio e ouvindo a teimosia matuta, aceita escrever no livrão cheirando a museu hoje e usando uma caneta dura de pau molhada na tinta preta do tinteiro grafando o assento como José Katinga, ficava vexatório e quase pecaminosa a sonância daí o registro com a letra k; neste ponto a convencer o trabalhador da roça propôs com K a dar uma importância enorme parecendo estrangeiro como o escritor Kafka por exemplo. Tinga devia ser o nome da família do compadre Tonho, mas eis aqui o primeiro imprevisto: fê-lo de fato com o K, aquela letra atrevida junta com as manas W e Y que na época contavam no abecedário pátrio; depois sumamente suprimidas as três do alfabeto por uma reforma e readmitido hoje, por força (contra o povo, ora o povão nem toma por ignoranante conhecimento) por força doutra reforma, esta a Ortográfica que entrou em vigor em 2009. Pronto, José Katinga; no entanto à gente da rua de sonância como o C, daí virar José Catinga e após uns anos Zecatinga. Pronto, diz a gente.

          Contudo aqui o segundo susto ou imprevisto e que no caso anula o imprevisto de mais respeito por velho que foi agorinha explicado.

          Porque o pai contou no registro do menino apenas com aquele rabiscado na igreja pelo padre na cidade-Vila do batizado. Mesmo porque Vila Alta não tinha ainda cartório nem prefeito nem câmara. Invalida também a cena anterior quase a virar briga entre o pleiteante roceiro e o funcionário que não havia ainda sido indicado ao cargo.

          O Padre escreveu certo no documento de batizado Zecatinga com o C de casa não com K de Kafka; então complicou outra vez: "Zeca de quê, indaga o religioso, e o sobrenome o nome de família?" O pai da criança ainda novo e mui tímido, fica sem resposta e de boca aberta mais uma vez. O pároco conserta "Filho, diz do filho a chorar aguinhas salgadas, por que não põe os nomes dos Santos? não vê quantas imagens aqui na igreja a abençoar o nenê!"

          Ora, a voz do povo não costuma ser a voz de Deus!?

          O povo, vizinhos amigos conhecidos compadres parentes, parentes adoram intrometer-se por serem íntimos; e assim igual os meninos colegas de brinquedo e também os companheiros de enxada, o trabalho na pobreza acaba sempre a começar cedo e o menino vira lavradorzinho no roçado... No entanto nisto conta muito mais as comadres – todos pronunciavam cumádis às comadres e cumpádis aos compadres se bem não se aventurassem os machos machões nas conversas das comadres – e assim, assim se torna por força do tempo José Katinga em Zé Catinga ou como o compromisso de escrita Zecatinga. Está dito.

 

3º cap. Um Cheiro de Zé no Ar   

          Há um cheiro de Zé e não será em virtude da desvirtude do Zeca andar parado cadáver imóvel pranchado no seu velório! Tornemos ao Capítulo 1º. As pessoas bem vestidas de domingo, é uma segunda braba, comentam o morto no já gasto "parece que está dormindo"; um outro alguém "é incrível, ainda ontem conversei com o Zé etc. e tal" muitos etc. em cochichos. Ora não, não estamos no Velório Municipal de Vila Alta, hoje de fato zona urbana e o burgo pontifica lá em cima do penhasco, uma vista linda de morrer, expressão nada feita para soar bem em velórios; porém acontece numa sala pobre de casa pobre de moradores pobres, emprestada ao serviço visto o despacho do José Tinga à sua última morada (e aqui deu um cacófato horrível) a última, o povo pensa assim e assim fala. Há flores silvestres e uma que outra cultivada tratada por mãos santas, além daquelas arrancadas das latinhas – ui as latinhas nas mudanças de pobres... são plantinhas medicinais da medicina caipira com nomes nada científicos mas batizadas pelos caboclos, aqui nunca sabemos origem; são vegetais coloridos pela pródiga natureza. Tem no velório em volta do caixão exposto na mesa umas cadeiras, uma despencando insegura e daí sempre alguma boa alma avisando do perigo aos pretendentes cansados. Então há muita conversa, conversa de roça e de casa de roça, falam de preços de chuva de falta de chuva a geada o vendaval e o vendaval de prejuízos; lembram indisposições com vizinhos ou com patrões; e claríssimo lembrar e repisar sofrimentos e mortes dos mortos antigos, num sofrer de novo, bem masoquista ou próprio do sentimentalismo latino; enfim coisas e assuntos fora de hora justo na hora do velório, onde se requer silêncio e respeito; todavia respeito e cuidados não tem a meninada de língua solta lá fora a festejar na festa fúnebre com suas brincadeiras e brigas, e nisto alguenzinho corre contar tudo e todo malfeito à mamãe lá dentro e se esta enfunada por nada ou por muito sobram as orelhas paternas como as do compadre Tonho... ué mas ele não morreu no ano passado!? não, o outro Tonho, o que veio da Fazendinha; um sujeito bom e trabalhador, inclusive fizeram ele e o morto vivo amizade, num papo a começar contando o filho do pai no tim-tim por tim-tim da morte sofrida do pai do filho, este ali jazendo esticado trajado com um terno que teria chegado a si no matrimônio oficial (aquele antes no padre não conta) com dona Maria, ainda jovem Maria, ela também de vestido de noiva emprestado. Depois... não devolveram ao dono as roupas! Não. Decerto o Zé, honesto que era na devolução contudo o morador foi embora, na roça se revezam muito os trabalhadores e certamente não deu tempo pagar o empréstimo das vestes na vizinhança. O tempo fora passando passando e olhem agora Zecatinga vestindo paletó escuro até limpo e passado a cheirar horrivelmente naftalina afugentadora de baratas no guarda-roupa a nhec-nhecar rangendo ao abrir ao fechar rápido pelas mãos medrosas de Maria...

          Sim tem um cheiro de Zé. Dele, coitado, por algumas podridões brotando pelos orifícios saindo das pacueras. Igualmente lembram-se o cheiro de velas desagradáveis acesas derretendo; e das flores, estas a tentar harmonizar os hálitos pesteados ali. No povo em visita tem sempre uns a se perfumar, mesmo os machos da espécie, entretanto como fazer evitar...

          Ih tem muito mais cheiros ligados ao homem ali e fora dali nos anos que passaram. Vejamos, reportemo-nos aos que tenham origem... Enfim são cheiros que soam como póstumos no tempo póstumo.

          Sim, temos na área e no tempo até ao tempo cheiros dele com outras origens mais ou menos explicáveis não explicados. O  Tinga de Zeca ou Tinga de família do velho Tonho Tinga tinha característico de todo lavrador (do operário do servidor do funcionário também lá longe no burgo nascente) que era o cê-cê, o cheiro de corpo humano suado, agravado e bem nítido no costume roceiro, aquilo que já quase não mais sente ou se conscientiza do tardar o banho, de fato o banho porque o hábito secular quiçá milenar é a água no sábado apenas, bem dito: não estando frio o tempo... do contrário têm mais três sábados à espera no mês. Assim não se espera e por essa razão não há maior cobrança, deita-se dorme-se levanta-se fedendo como antes nos castelos de abrantes e fim de papo. Não. Prossigamos nesta discussão muda.

          O Zé cheirava como todos os iguais dessemelhantes ou semelhantes porém não iguais – enfim ninguém a reclamar disso por isso. No entanto cheirava mal, tudo impregnado nas vestes, a roupa não se troca toda hora e... ah deixa pra lá. Não, dona Maria por razão de proximidade reclamava, ficando a falar sozinha e aí tem sempre um filhote a necessitar amparo cortando início dum bate-boca conjugal, sobre o porco do seu pai... Não, menino, num é o porco vermelho não  é vermelho e sim branco com pelos sujos a fuçar por aí, esse é porco mesmo, falei o porco que é seu pai! e ocê tá tamém sujo seu porcalhão.

          Um cheiro que grudava nas calças na camisa na cueca samba-canção e por fim lençol colcha cobertor e ih até na gente noite toda... e não é de sua conta, vai agora dar o recado da cumádi, descarta ao filho a mãe mulher do Zecatinga. Acabou? Não, num acabou: o Zé por preconceito quem sabe não usava água de cheiro, nenhum barato perfume (a trabalhar é claro que não se espera tal) quando a andar por aí ou a pescar ou a ver aquela porcaria de jogo de bola: não pondo perfume a abater ou diminuir o cê-cê brabo, dos que as glândulas assopram pra fora; uns homens sem perder a macheza punham perfume a neutralizar um pouquinho e federem ao menos menos um pouquinho... Nunca o Zé. Além dos acréscimos; acréscimos? ora, o de resto de minhoca e de peixe na beira do riacho e dos galhos verdes: vivia quebrando e triturando nos polegares partes de certas ervas aromáticas bem cheirosas quando de volta ao lar, lar doce lar. Já Maria sequer notava mais pelos anos. O sumo de frutas, a laranja a mexerica tangerina, mas isso nos outros da família e vizinhança igual acontecendo em troca e mistura de hálitos em hábito. Ora, bolas, isso tudo seria novidade no mundo!

 

4º cap. Apelido e Cheiro Pegam...

          Ká ah como moleque é e sempre foi desabrido desavergonhado na irreverência mundana que grassa por aí – ele, eles que o apelido pegara, ele o tratava KÁ e escrevia nos muros o colega de brinquedo e insulto assim; a gozar? a gozar. O Zequinha o que fazia no que se fazer! chorava. Cá querendo afirmar a propagar que Zezinho fedia. Contudo fedia mesmo, de feder, de se fugir de perto? claro que não, pois o próprio ofensor cheirava, mal. Enfim essa a problemática: a gente não enxerga com o nariz os próprios odores...

          Então o ofendido e lógico o ofensor igualmeente tornando à casa imediato aos seus para brigar corriqueirices com os manos na penca que havia em cada família pobre da época – não, sim, os ricos eram prolíficos mas sem tanta gentalhinha da gentalha; além do bem das babás, mamãe no cabeleireiro; e os pimpolhos endinheirados não fediam, fediam aperfumados – os pobres brigavam até à intervenção da língua de mamãe e depois o chinelo de mamãe ou da irmã mais velha dos infratores, se esta com iniciativa ou brava por gênio. Calavam-se contendores. Não se calava o cheiro.

          E se Ká quisesse antemão não dizer fedido moleque sujo essas coisas; porém ofendido e colegas de brinquedo em brincadeira ou vivendo seriamente sabiam o que 'ká' propunha. O Zequinha chorava. Aí se pega grande.

          Nunca fora grande, menino espichado esticado vareta entre crianças, antes mediano. E será  mediano; aqui grande quer dizer adulto. Pronto. Daí cheira; além do cheiro de gente, cheiro de gente só tolerado pelos cães; ele cheira um pouco mais que outrem por não amar demais o chuveiro.

          Todavia ficara para trás no texto explicação sobre odores mais ou menos marcantes, uns explicáveis, outros chato explicar. Por exemplo em vida toda (aqui vida-existência) cheirava a fumo, a fumante inveterado. Impregna na pessoa, certas mulherinhas do povo também fumavam, inclusive as da família de Zecatinga; já as ricas chupando ricos cigarretes, não escachariam...

          O tabaco marcou esse, este que tá ali de barriga pra cima no caixão no velório, seu velório. Como no tempo tantos assim (por mais tende a medicina e os pregadores lutando contra o vício:) que inclusive não sendo positivo não mas tolerável nele e noutros. Aliás este não um ganho notável que é o combate ao fumar nesta sociedade mais ou menos podre, embora interessada em se melhorar?

          O fumo.

          Outro cheiro deselegante – parece que tudo seja deselegante; sabe-se lá. Outro fora nele o álcool. Se bebia? ué, não tem o dizer a dizer "come com farinha!" em tudo se mete a bebida. Desde que o mundo é mundo. Não: desde que os antigos descobriram por conotação religiosa a decerto 'gostosura' de algumas bebidas para relaxar relaxados. Nele.

          Vejamos o corolário do pobre beber inveteradamente. Ah, pra que ir tão longe – perto, aquizinho jaz o Zeca estufado no seu velório, o clínico falou "pare ou morre". Morreu.

          As bebidas alcoólicas entraram tanto nesse seu bucho estufado aí, que seu cheiro misturou-se ao cheiro do próprio Zé, se impregnando se confundindo com o hálito de suor e restos de comida mal deglutida pelo organismo do homem branco, branco se se quiser no entanto queimado do sol se se quiser e exalando o cheiro do tabaco e do álcool se se quiser; enfim o cheiro 'natural' do bebum.

          Daí, daqui as referências familiais e de amigos próximos a criticá-lo pelos desandos do então cachaceiro... Se houve tentativas dos do sangue ao parente a superar o vício!

          Isso atrasou uns dias de estar esticado neste velório. Contudo expunha outros odores ou mais nobres ou mais aceitos por ordem da tolerância social. Um sendo ligado aos temperos domésticos e então não se percebe mesmo. Ou se nota mais ainda...

          Assim o ligado à cebola. Tem inclusive uma estória gozativa de se levar, trazer, ao velório dos outros para mostrar se não sentimento profundo lágrimas soltas; quem nunca entrou dar palpite na cozinha, não saberá como arde as rodelas de cebola nos olhos... Nele, sem pensar diminuir o peso doméstico em sua Maria, nele se incorporara desde menino até descansar aí no centro do velório o cheiro de cebola, por viver no seu viver a trincar nos dentes a dita cuja... Sim, fica um bafo do vegetal no animal (leia-se Zecatinga) a catinga da cebola.

          Pior nesse pior o caso do alho. Tem gente que não dispensa o alho na comida, têm os que não aceitam substituem o condimento por outros vegetais. Além de ser usado como medicamento roceiro, o chá de alho cura resfriado e gripe, dizem. Sabe-se que ele é antibiótico natural, não os roceiros mas os estudiosos no assunto. O grosso da massa adora o dente, dente de alho em condimento. E permanece no odor da pessoa naturalmente. O caso do Zé. Não obstante, este adora mastigá-lo. Ah a Maria, d.Maria o criticava muito por isso como sua íntima (de estimação) "ocê tá temperado! nóis já pode comê!" Todavia e os de fora – quase todos são de fora inclusive os de dentro do lar... – sim e os de fora pensavam disso o quê?

          Porém exalando outros desagradáveis e Ela, a esposa, "ocê tá cheirando a peixe podre, homi". Apreciava bem as pescarias no riacho; e claro comer peixinhos fritos.

          Tem entretanto a bafejar em meio ao Zé 'Temperado' a pimenta mais ardida, a dedo de moça por exemplo, o pimentão, menos picante e deixando presença no bafo do Zeca, pra depois a mulher ralhar. "Qui diacho esse homi só pensa em comê e adispois arrotar na gente!" E havia a carne, carnívora a família à beça. Sem bife, quando trazendo do açougue da Vila, então não era ainda município a possuir açougue armazém e bar pra se enxer a cara. Aí o esposo tornando a trançar pernas ( por vezes inclusive a perder derrubado da mula velha usada como cavalo algo na estrada, bebunzinho... Em vista disso, quer dizer do uso da carne em casa, o bife atraente na cozinha. Não perdoava, comia de boca aberta igual qualquer capiau. Aliás como não comer não abrindo a boca e mostrar seus dentes podres! Nisto o mastigar barulhentamente qual porco. Ela assim o apelidava. Oh, tem pior. O pior? deitava-se quase sempre após almoço dominical e fazia roncando xixi na cama. Por isso desentendimentos. A propósito, lembramos aqui o da urina e do cocô, as fezes enfim; as quais às vezes mal limpas faziam a esposa desse homem enrugar o nariz...

          Em razão dessa alimentação atabalhoada embora necessária dentro do costume roceiro – o bodum. Isto é, explicamos por condições e imposições de sua própria natureza mas forçado ainda mais pelo desregramento comilão. Certos alimentos se impregnam  e entram no ser. O caso.

          Este bodum no trato de agora levou esse homem a ter a característica que o marcou. Condicionou até no seu nome e no de família.

 

5º Cap. O Santo Nome

          O nome, que realmente é o de família e que o brasileiro inverte após o apelido – era desde tempos imemoriais, curtíssimos no País, o nome foi sempre Tinga, certamente vindo do apelido popular dalgum parente atrás. Ao Zé surgindo do Tonho, velho Tonho morto no ano passado; aqui referência ao seu velório agora, o do Zé, filho do Tonho, seria então por ordem da lógica José Tinga. Os conviventes chamando o já idoso de uns 45 anos para a época em que se morria velho-novo ainda, sim referindo-se a Ele Zeca; então virando Zecatinga. Partiu o costume a unir seu chamativo bodum ao nome: catinga, fedor, no caso dormido e azedo exalantemente ofensivo ao olfato alheio, o fedor que os matutos chamavam catinga; virou nele Zé-Katinga (o K do funcionário do cartório, está o leitor lembrando?)

          O interessante nisto tudo fora o tudo certo ao Zeca, o qual terá se acostumado, não conformado e aceitante porém ao correr do tempo, porque em geral o caboclo não filosofa seu nome. Não quer isso dizer não exista tradição na preservação do apelido dos nossos a da gente rude; ou sendo nuança apenas, desinteressada nesse mister, pelo menos semelhando em comparação do homem urbano e atrelado ao mando do mundo europeu e ocidental até as Guerras Mundiais. Ah não nos lembremos das crises com reflexos até hoje, séc.21, as quais corrompem o restante do Planeta.

 

6º Cap. Roupa Suja...

          Roupa suja se lava em casa, isto dizer popular consagrado em nosso povo, sobre as intimidades e/ou defeitos faltas abusos que não devem sair a se mostrar na rua. Têm certos acontecimentos e fatos concretos ou não divulgados ou na melhor hipótese não se devem propagar por aí. Aí sim muito a guardar na família Tinga, os diz que disseram e até invenções, sempre desnecessárias aos e dos parente amigos conhecidos compadres. Seria para gente, se se propusesse a isso, fastidioso. Não cabe aqui; aqui, por alto apenas algo como fosse pego pela câmera da tevê (que aliás não se via, não existindo na roça da época da Segunda Guerra; hoje qualquer sobrante casa roceira já tem já pode ter telas e inclusive abusar nos abusos que a mídia pratica sobre a população indefesa ou 'indefesa'. Não tinha:) tanto assim que funcionava ah e como funcionava... o bate-boca. Mas tomemos um foco de errados ou tortos: o costume da Família numa simples lavagem de roupa da casa. Primeiro que se não trocavam peças de vestuário; nem aquilo por baixo com as de cima à vista, calças camisas. Além de alguma coisa próxima do tema, o cheiro. Bom? ruim? nenhum porém os de Maria acostumados na troca e portanto neutro e não tem sentido se se alegrando no bom e se irritando no ruim. Contudo deve-se falar e até insistir no fato de a Maria lavar mal a roupa caseira; d.Maria? d.Maria. Dona Maria a oposição ao Zecatinga? este essa. A senhora, limpíssima inclusive ao ponto de criticar o marido (no padre? no padre e depois também no cartório; essa:) Acontece, aconteceu muitas vezes assim; acontece não ter por decerto não ter aprendido com a mãe, mãe dela, a cuidar bem o suficientemente as peças, até as suas próprias mesmo. Ou seja, levava (ia à mina de todos moradores todas comadres a cuidar cada qual de suas) levava lavava corava esfregava, estendia a pingar no varal de quase todas comadres – uma delas transportava na cabeça roupa molhada a pendurar no varal de sua residência ou tapera; não a maioria, a maioria comadre. Maria fazia o que fazia estendia nesse arame farpado mais ou menos comunitário, em meio à conversa infindável e mesmo a deixar vazar intimidades dessas de sete chaves ou deixando roupa suja em meio às limpas para ser desnuda e discutida em casa, no aconchego do lar doce lar... E em meio dos gritos delas comadres, e à gritaria das crianças. Entretanto não cumpria nessa celebração o compromisso de lavar bem os panos... Expliquemos a coisa.

          Na cidade, posteriormente visto algumas populações  permanecerem rurais e portanto de costumes roceiros mesmo sendo cidade não vila; essas nem se conta na explicação da oposição. Seguinte, Ela, a Maria! a Maria lavava esfregava; torcia o pescoço da peça levada lavada mas não a contento. Explica-se melhor a explicação:

          No começo da cidade se limpava a roupa com sabão em pedra, isto é pedaço sólido; o normal ou comum, nada demais. Daí apareceu por ordem da tecnologia e da propaganda o consumo e antes a invenção do sabão em pó.

          E aqui entrar a coisa.

          Pois nas primeiras caixas do saponáceo em pó, este fedia. Fedia! fedia sim. O fedor tão caro a estas linhas, então aparecendo... Como? simples – d.Maria e seria Maria Tinga não era não seguira a Katinga do esposo; mas sim a Maria. Ela não tirava direito os fragmentos do pó do sabão da roupa que lavara, estes à luz solar e ao tempo se transformavam quimicamente noutra substância, aqui carregada a enxofre, nisto sim o concentrado fedor!

          Assim a roupa lavada já seca e novamente suja embebida no suor forte e contínuo do Zecatinga, fedia horrores e também as pecinhas dos filhinhos umas gracinhas.

          No entanto isto tudo na comparação em limpeza da sujeira do tecido entre campo e meio urbano no início da tecnologia insuficiente porque hoje em dia se bota líquidos perfumados, tipo amaciantes, havendo perfumantes especiais ou embutidos no pó ou no líquido a se adicionar na máquina lavadora; inexistente nessa época na zona urbana e claro menos na moradia da roça.

          A exploração deveu-se ao fato de nesse tempo e depois desse tempo à mesma d. Maria; de Ela não tirar direitinho resíduos enxofrados de cada peça. Não sendo para economizar água não, isto que é fato nem sempre cumprido, mesmo na cidade onde se esbanja o líquido precioso e básico em falta nos muitíssimos lares.

          Em corolário dessa falta de preparo da senhora, o Zecatinga, além da catinga que fora quem sabe vindo de Ká, o Ká gozado pelos gozadores com tal mau gosto e talvez eles a dar origem aos pichadores atuais (séc.21). Então o pobre (pobre de fato, nunca passaria disso até chegar aqui, aqui velório aqui seu próprio velório. Essa pobre criatura com méritos ser trabalhadora e digna – fedia horrores, dito já dito e repetido, exalava seu fedor, seu bodum e a Maria acresceria sempre acrescera o cheiro da roupa mal repassada na bacia de água limpa, agora então suja. Preguiça? quem saberia se não isso! mas certamente falhando na técnica cabocla de limpeza. Não teria na conversa comadre, nessa falação solta em que se perdia a pichar cumádi X e então se esquecido de limpar bem!?

          Lavemos pilaticamente nossas mãos.

 

Cap. 7º Informes Curiosos

          Se cheiro não se descreve ou apenas tentando fazê-lo a dar ideia ainda que imprecisa; não é assim com seu físico. Como foi o Zé. Ora, como qualquer matuto, inclusive trajava-se o comum o encontradiço. Uma pessoa desse jeito na cidade, logo os outros sabem ser um caipira. Não obstante, absurdo tentar ver o pobre como se pinta um roceiro a se apresentar ridiculamente nas festas juninas: o sujeito rasgado remendado pintado abobeado! se envergonhado, ainda seria passível. Talvez coubesse nele o gosto discutível à camisa xadrez. De resto resta o ridículo como dito, a fantasia o humorístico. Ah, o homem da roça era como qualquer outro de outra área. Inclusive sim podendo até ter televisão em casa, não tinha no tempo das Guerras; inclusive algum possível abastado sitiante, não um trabalhador, tivesse então energia elétrica, quando a propriedade perto do meio urbano; o que não sendo o caso de nosso Zecatinga. Alguns poucos roceiros tendo rádio mas de pilha, aquelas grandonas a durar mil horas gastas numas quinhentas. E uns entre eles possuindo carregadores de baterias de automóvel, para alimentar a roça. Ainda aqui, não o caso do Zeca. A questão do rádio, que a Maria nunca pôde ter em casa, ajudou muito os ouvintes a desenvolver a imaginação; enquanto comparado à tevê, esta já mostra a imagem como as empresas querem que se veja. É um mundo diferente, longe do mundo roceiro de fato. Depois... Bem, ele usava simples vestimenta estando no campo a trabalhar ou na cidade a passear e mais fazer compras; isto se podia notar nele e noutros.

          Por outro lado podemos mostrar o Zé no que mais fazia: pescar e puxar a enxada. Foi trabalhador. (Agora aí descansando...) Claro, na roça suado cansado, ainda aqui teve lá seu privilégio, que é o de ser cuidado pela esposa; a Maria se esmerava... quer dizer, cuidava do seu homem porém mais voltada às necessidades dos filhos do casal, da roupa por exemplo. Aliás não exagerando a casa  como todo no banho e aqui tornando ao tema, o cheirro, o do fedor do cheiro se se pode tratar desse jeito pois têm os cheiros bons e atrativos. No conjunto a gente cheira muito mal. Sim, verdade que gambá cheira pior e mais forte. Entretanto gente cheira fedorentamente. O gambá, pobrezinho, exala o natural como defesa. Gente não se encaminha a esse tipo de defesa; antes que isso isto: esconde seu odor com cosméticos e perfumes há séculos; e tais perfumes às mais das vezes acabam vencidos ou afetando negativamente mais ainda outrem... Parece não ter solução a essa intenção de solução.

          Quer dizer, cheira mal imaginando cheirar bem e decerto sim a si; e outrem que se acomode...

          Outra característica dessa gente roceira – tão ou mais curiosa que demais características – é a fala propriamente. Estas linhas haviam antes avisado entremear a pronúncia e o som ouvidos na época e no lugar, fato que é mui marcante quiçá ridículo e claro: isto a depender de quem ouça ou observe os matutos. Por exemplo Maria não diz nunca vamos, "bâmu" a trocar vê pelo bê; ela e os outros vizinhos compadres etc., usam a miúdo a expressão "pra mode", o comum; não diz 'desde' mas "desna" e em toda palavra onde o LH caboclos simplificam o L e o H a usar "famía" em lugar de família e "míu", o grão de milho. Ah,  com isso todo mundo entende e se entende. Outra forma curiosa de nossos roceiros é a expressão 'malapregunto', quer dizer não desejar ofender o ouvinte mas tendo intenção saber mais algum podre... Tanto ele e mais ela no casal a usar o expediente; sem ferir, ou exatamente ferindo as orelhas do outro... Enfim perguntar sim, porém no mal sentido e quiçá autorizado.

          Neste ponto da narrativa o Leitor a nos indagar: onde o cheiro nisso!

          Tem razão, não fujamos qual criminoso a se  esconder covarde ou medroso. Mea culpa. Contudo o que ora foi dito tem cheiro. Sim. Entrando o comentário acima como atrevido e espevitado, na verdade sem fugir do Zecatinga e seu cheiro, marca registrada. Pusemos os esclarecimentos tão só como pano de fundo da problemática... As vestes usadas usadíssimas pelo nosso personagem lembram ou acordam para o fato de que tecido mui usado sem troca diária ocasiona uma exalação medonha, do tipo 'saia de perto...' E quando Maria reclama ou apenas lembra ou mais que isso goza na sua linguagem cabocla seu parceiro, na reclamação ou adversão embutido aquela assopração fedida do mesmo. Então Você pergunta e ela aguentava! Respondemos: Ela encontra-se no velório dele e ainda porta no dedo a aliança do casório. A gente ou não sente (mais) ou não conscientiza o cheiro dos nossos. Provável que nem os gambazinhos reclamam dos adultos de sua tribo e ou espécie. Outra vertente nisso – e aqui não estamos seguros não estarmos a ser submetidos às lambadas da crítica, visto hoje, século 21, se tenham acirrado o choque e a crítica sobre as diferenças entre sexos (daí a figuração lambadas...) – um porém nisso somos lembrados da afirmativa não comum mas ouvida algumas vezes de que a nossa fêmea sinta certo atrativo no cheiro do suor do macho. Não. Não nos force explicar; aqui somos mais pendentes à usada expressão "segredo levado e escondido no túmulo". Do Zé? Até que sim. Não. Em nosso túmulo e sepultado a sete-chaves. Xô curiosidade. Prossigamos.

          Uma verdade entre pescadores, também pecadores porque todos habitantes deste Orbe são pecadores. Se insistirem nisto também, também levaremos às sete chaves da sepultura. A verdade: Sim, a Esposa não se conformava com o Zeca no retorno da volta do riacho; tinha uma volta com barranco preferida dele onde vez que outra atirava restos de comida azedada no caldeirãozinho em marmita levado ao rio, pensando fosse ceva e daí pegar mais peixinhos. No retorno ao lar doce lar a matracação da companheira, sobretudo pelo cheiro de peixe estragado no cheiro do seu homem. E se brigavam por isso!? claro, aqui escuro pois tendo o casal mil outras razões a se desentender.

          Ah e havia a miúdo outras mil de entendimento. Mais ainda quando a causa a ter a casa num exalar cheiro de fritura ou de remédio da botica careira na Vila; o 'perfume' de remédio às crianças. Então mesmo para falar o faziam baixo. Quer dizer, Zecatinga não sabia o baixo nas coisas. Troquemos por menos gritado, pronto.

          A pescaria dava à famía alguns bate-bocas. Não só pela situação rotineira mas pela situação financeira da coisa, coisa de não se laborar nos domingo feriado dia santo e/ou preguiça ao dia que devera ser produtivo segundo o fiscal do patrão. Uma vez por essa razão até fora demitido (aqui nunca cabia direitos trabalhistas, mesmo à gente da cidade eram falhos).

          Havia o cheiro do peixe sim ou não podres ao sol e às horas na beira do corgo. E outros cheiros como o da roupa o do arroto de alimento e... ah isso chato dizer: o do pum. Sabemos que se convencionou esse nome à descarga da prisão de ventre, que todos têm. A "famiâje" do pum dizia e assim todos roceiros nas grosserias de linguagem com muita gíria, quase dialeto na roça. A gíria  em que o brasileiro é rico, milionário... A gente não quer ferir ouvidos puristas.

           Depois nos últimos tempos e então o Zecatinga já não mais trabalhava, trabalhava a família, incluindo Maria no cabo da enxada – sim já beirando o Velório tão presente. Ele só pescava, sob obediência da esposa, a qual deixava que os filhos solteiros em casa fossem junto do pai, os casados tinham suas companheiras a brigar ou obedecer... então ia o Zé acompanhado dos meninos, um ficaria pra titio sem casar. Eram bons companheiros. O morto, vivo, dizia destes "bons pirangueiros". Olhe, daria um romance massudo os fatos das pescarias (doutro lado daria muita mentira... de pescador). Enfim isso a criatura, ela malcheirosa sim e sim teimosa.

 

8º Cap. Retalhos Finais de Zé

          Nossa rota com o Zecatinga mostra inclusive lances curiosos referindo-se a outras pessoas outros conviventes, porém não pode fugir de sua presença ou furtar-se ao seu conhecido cheiro. Poríamos hálito, que ele tendo de montão nos seus mal-educados arrotos e relações outras inesperadas. Aliás ao olfato alheio é sempre inesperado sentir outrem, outrem mormente sendo o Zé. Misturemos tudo nessas indicações (sem aprovar relaxo do personagem mui registrado nas páginas anteriores). Primeiro vejamos como tratado na intimidade. Havia um compadre, desses chegados e de confiança, o qual, longe o apelidava Catingudo, pelo óbvio; também óbvio que perto frente ao cumpádi Zé não feriria assim. Inclusive criticara o amigo Zé por andar sempre com um ramo de arruda na orelha a afastar mal-olhado. Quase o dito compadre ofende o compadre a chamá-lo Catingudo, freado em tempo (é quando muita vez a gente não completa a frase já na língua...)

          De repente, ora de repente se todos dias e várias vezes no dia entra com seu mando na área o cheirinho do café! Maria se esmerava ao torrar ao moer no moinho ao passar no coador a infusão e sobretudo ao servir certas visitas. Claro, nem todo visitante com esse tratamento e a deferência. Agora, nisso, uma coisa chata era que Ela pegava diário seu marido a beber café direto no bule! Pra si demais o abuso do homem; e aqui início de discussão; sem solução: nunca o Zé deixou esse condenável hábito. Ou que fosse a boa senhora a registrar sua (dela não dele) atitude noutro flagrante, aqui bom e produtivo, que era o fazer e oferecer pão de casa. O caboclo em geral gosta do de padaria trazido nos dias de compra na Vila. Em geral consome-se o feito no lar. Então o dela, Ela ofertava com graça ao visitante aquele que ela mesma fazia; antes já avisando o forno de assá-lo com o cheiro gostoso do alimento. Outro aspecto da vida na família,  na intimidade a mulher ralhando os filhos e o pai dos filhos por já com mão suja e tudo o mais partir o pão ainda quente...

          Esses são cheiros atrativos. Contudo numa casa de roça, velha ainda por cima nesse por baixo, aí sobravam outros desagradáveis como o irritante cheiro mau de percevejo por exemplo. E lá vai dona Maria nunca o Zé a pingar querosene fedido no estrado envelhecido estragado com larvas entremeio.

          Havia, houve muitas vezes, os cheiros de compadrio ou de vizinhos. Será aqui haver nos expressado insuficiente! Bem, é o seguinte. Quando na casa uma dúvida sobre cheiro qualquer e preocupação pelo tal cheiro, não o cheiro do tal Zé, não; um outro aspecto da coisa. Tem gente, uma minoria estatística, que não sente cheiro algum. O caso da vizinha dona Carmen, uma espanhola, com essa deficiência física. Uma vez Maria levou-lhe, para comprovar e confirmar suspeita terrível, uns nacos de carne de porco supostamente estragados, a fim de ficar ciente com a outra moradora se o alimento ainda bom para consumo ou se de fato avariado. Ela foi e uns filhos foram também, curiosos como toda criança, presenciar. Dona Carmen inspirou aquilo e respondeu "parece que cheira bem, a comida está boa" Daí Maria caiu na real pelo engano e se lembrou que a mulher da casa vizinha não percebia cheiro! Ora, dona Carmen... Comum uma vizinha pedir auxílio doutra em momentos desses. O mais encontradiço era levar como presente doces cheirosos em oferta de amizade; dias depois quase sempre a receber em paga do gesto bonito e fraterno outra guloseima. Lógico depois com os íntimos comentar a 'troca' em favor do relacionamento. Numa das vezes quase o Zé fala alto contra o pão azedo trazido à sua família por dona Assunta. A Maria tapou-lhe a boca com aviso, mais sinal que fala, em ofender o presente...

           Esses os demais cheiros dos demais, o Zecatinga sendo o primeirão no assunto...

          Todavia tornemos às costumeiras exalações. Uma é bem frequente – o cheiro de cachorro molhado. O Peri do Zecatinga ficava sempre encostado ao amo, no rio no trabalho na casa; não molhado e 'fedegoso'; porém molhado saindo da água a se chocalhar chocalhando os pingos no dono. Companheiro nas jornadas ao rio, o Zé tinha muita afeição ao animal, um vira-lata autêntico e inclusive certa vez esse mesmo Zé se envolveu desnecessariamente num pensar sobre o sumiço do Peri. Desaparecera coincidentemente quando da mudança dum compadre; desaparecera de perto da família do Zé e este julgou haver sido roubado pelo compadre, Compádi Tonho (o mesmo que lhe dera emprestado o terno que veste ali no centro do Velório; isso já dito aqui apenas relembrado). Supôs... Isto lhe rendeu preocupação e inclusive uma insônia, ele que não era de grandes filosofias, sofreu. Insoniar, a contar as horas da noite, em que umas passam normais outras se encompridam... Até chegar o dia o sol a 'vida' rotina – com sabor a cabo de guarda-chuva. O que viu-sentiu nessa noite: o roncar da Maria (mentirosa, pensou ele, ela diz não roncar e me critica sempre) o choramingo de algum dos seus meninos, um cachorro a ladrar lá fora perto-longe e então se volta à lembrança do Tonho; já tem certeza haver o compadre roubado Peri. Noutro dia o gosto de cabo guarda-chuva a puxar enxada; de manhã mal-humorado nem o cafezinho de praxe quis embora insistência da esposa. No entanto uma tarde, a seguir lá no alto os negros urubus – e onde urubu é certeza carne podre a feder – loguinho encontrou os restos do seu pobre cão, portanto não levado em mau gosto pelo compadre, o qual fora de mudança da fazenda.

          Para melhor finalizar isto, que tal um cheiro barato por muito existir, sendo geral em gente? O chulé. Isso, o xulé que o Zecatinga tinha de montão, a assustar e afungentar seus próprios filhos – quando a tirar os pés do botinão caipira que usava. Aqueles de elástico no tornozelo e de couro e solado quase sempre de borracha de pneu, mui encontrado na roça de antanho. A Maria a lhe gritar, os filhos se não a falar disso comentar entre si ou apenas se distanciando do pai nessa ingrata hora.

          O pai? Esse que está ali, aí espichado...

          Na conclusão até poderíamos deixar o gasto uso da palavra cheiro; trocando em bafio por demais cheiros (não dele...). Num tempo na época das Guerras usou-se, as autoridade usavam e também os roceiros na roça, o BHC, um inseticida que depois provado ser perigoso à saúde. Então se aplicava nas casas a fim de acabar com as baratas e demais insetos. O cheiro permanecia semanas; inclusive contaminando gente! Outro, esse benéfico era é ainda o cheiro a subir da terra após chuva, cheiro de terra molhada. São aromas amenos. Também a exalação de vegetais, como que a erva esfregada a deixar sua marca no ar.

          Um lembrete a tempo de encerrar a narrativa. Quisemos não pudemos mostrar como o Zeca se arrumava; claro não sendo um primor... Se vestindo se perfumando... Ora, se a Maria não lhe pegasse no pé sairia a feder peixe da pesca ou suado da enxada – aí indo a se relacionar com outrem, mesmo fosse roceiro e emparelhado ao seu pensamento. Aliás ele não se via não se sentia; ao menos diferente.

          Mas terminemos enfim. Esse o Zecatinga, um sujeito que nossa boa intenção registra cheirar à mentira de verdade.