quarta-feira, 2 de outubro de 2019

O Carro


   
O Carro
                                                                          “Temos, todos que vivemos,
                                                                           uma vida que é vivida
                                                                           E outra que é pensada
                                                                           E a única vida que temos
                                                                           É essa que é dividida
                                                                            Entre a verdadeira e a errada...”
                                                                                                   Fernando Pessoa  

Introdução
Diz-nos o Mestre, se um cego guia outro cego, caem ambos no buraco; isso não o mesmo que um homem feito juiz (crítica de Tiago) a julgar outro errado ser e portanto os dois a se envergonhar mais tarde sob julgamento puro no ajuste de suas respectivas consciências!?
Daí o dó-zinho que sente o autor desta algaravia em linguagem popularesca do Zé, da Maria, dos filhos deles, do Cumpádi, não o Cumpádi malhando sua lataria velha cobrindo o esqueleto doutro velho carro; pena do Cumpádi falecido... A se salvar da consciência pesada tão só o Peri. E também suas pulgas.
Ué, não era pra serem estas linhas inciais Introdução! parecem Conclusão.

1° - A Casa
A casa não, temos o Zé; Senhor José é claro. Escuro pois este Zé gente do povo, da gente mestiça que se apresenta branca; desejaria ele ser caucásico louro dolicocéfalo primeiro-mundista a viver qual nababo poluindo o ambiente para cobrar em cima dos bilhões pobretões? talvez sim talvez não; não com certeza, a partir do fato de não saber o que seja caucásico e o resto dessas alturas; portanto em baixo e de cor. Mas não é preto, pobre sim, nem prostituta nem mulher, homem e na linguagem chã dos pês fica tão somente no item pobre, a ajudar pagar a conta do mundo. Pobre sem ser negro, um escuro ou baio de couro, de pele herdada na mistura de índio primeiro, africano segundo e em terceiro lugar umas nesgas brancas europeias decerto lusitanas e assim virando brasileiro na sua apresentação de homem comum. O comum: trabalhador, rasteiro numa sociedade onde os políticos ricos se xingam (não daquele nome, direito dado apenas ao povão aqui em baixo) se acertam seja na propina recebida escondida mordiscada pela imprensa, esta enxerida, seja se defendendo com espírito de classe sem classe. Onde o empresariado ganha horrores sem blasfemar. Onde o tempo dota o país – é o Brasil sim, com esse com zê – onde ele dota a irresolução com o presente da pizza. Uma festa.
Contudo Zé não participa da festa: trabalha.
Onde? na casa?
Às vezes até em casa, sob custódia da esposa ou da birra dela. Entretanto não poderia ficar sob a proteção de, ou protegendo a, não poderia (aguentaria esse forte!) não poderia permanecer a olhar pra Maria. Trabalha mais fora.
E a casa?
Ora a casa, a casa entra a atrapalhar o quesito futuro. Se tem futuro um homem uma família assim, não se responde, se aguarda...
A casa sim entra – no carro não, ainda não – entra a exemplificar uma solução ao futuro, futuro do Zé é justo pensar e justo saber. Porque fora exatamente nesse belíssimo caso da casa, caso se interesse entender este imbróglio; fora a casa... Atenção: aqui fora é fora, um antigo fora que fora fôra; não obstante, a Reforma Ortográfica tirou o chapéu do fôra, agora um fora careca; o Zé diria assim sem querer ofender o calvo careca. Em síntese, fora por causa da casa que o Zé entrou (entrará noutro capítulo:) entrou no carro. A casa era foi talvez ainda sendo do compadre dele, aquele que batizou ou crismou com a comadre o menino mais velho do Zé.
A casa deu-lhe excelente pensar, sem bem também pesar nas coisas, é desde já dito. Deu-lhe ótima oportunidade a imitar o outro...
Comprou igual casa?
Ah, não me deixam falar, boquejar que seja, sobre a conquista do Zé ou na beleza do exemplo do imóvel do compadre dando parâmetro ao compadre; Zé dito. Aliás bem lembrado o abocanhado da Interrogação porque igualmente ele Dito, visto ser José Benedito decerto da Silva ou Gonçalves ou Almeida ou Souza, aqui com zê no registro o souza do Zé mas a gente do povo não liga ao apelido oficial somente ao apelido popular Zé ou Dito, o dito aqui.
Contudo a servir ele, compadre, ela, casa no caso do Zé, como lastro ou comparação (a casa dele?!?) ora a dele... ao carro. Vai escutando. Também o povo pequeno não diz “escutando” fala “iscutanu” e se entende.
O compadre comprara residência a longo prazo num prazo de égua, bicam os do povão; enfim a demorar pagar quitar acabar com o sofrimento da dívida impagável terminada; aquele negócio da Caixa financiadora achar que não compensando fazer mais os papéis de cobrança de prestação no finzinho ao eterno devedor e assim considera pago e ainda dá base à escritura. Então aí, ai! o compadre velhinho caduco quase. Não isto: por sorte morreu antes da caduquice. Em suma a casa demorada na construção e mais ainda na quitação serviu – serviram os desentranhamentos a burocracia essas coisas – serviu a modelar o Zé. Não. Sim como modelo... em duas vias. Uma é o exemplo, outra não seguir o mesmo exemplo no caso não de sua casa porém a partir para o caso do seu carro.
O carro?
Sim o carro, o carro dele não foi comprado através do financiamento da Caixa nem se dispôs aos trâmites do banco oficial. Se pôs ele mesmo a montar o carro!
!?!
O outro lhe deu o exemplo.
Ele aprendeu com o exemplo – aliás sequer precisava do compadre e de outros conhecidos; desconhecidos, advoga-se que ninguém conhece ninguém nem a si mesmo e portanto todos somos desconhecidos; conhecidos são aqui as pessoas que a gente vê conversa fiadamente com elas o vai chover tá quente dói aqui ah e como dói ouvir! Aprendeu mais mesmo consigo mesmo porque nós individualmente analisados somos nossos senhores melhores professores. Aprendera construindo, nisto igual o compadre, fazendo aos poucos nos fins de semana (e a par do automóvel) sua própria residência, a Maria ajudou com a língua... não: fez lá suas economias e puxando as rédeas dos meninos; deu também palpites sim; quando do carro não deu muito, homem não suporta fala fina quando engrossa um não saber encaixar um parafuso se na roda da frente se na de trás. Enfim já tendo dois exemplares em exemplo – a casa do outro a casa dele.
E o carro?
O carro vem aí e a partir daí pra frente, é pra frente que se anda: Deus não pôs os pés da gente com direção na frente; não pôs os olhos na frente para se ver a frente?!  – agora sim a Interrogação teria razão mas esta é do filosofar do Zé portanto mais bem caracterizada interrogação; até reforçada pelo sinal de exclamar. Vem o carro no segundo capítulo.
2° - O Carro
O Zé olha aquele magnífico exemplar de casa pobre ainda a acabar assim como a sorte da pobreza é o nunca acabar; olha o exemplar da construção do compadre na outra rua, rua de baixo donde a vê tendo subido ao seu telhado descobrir a goteira, claríssimo não ser telha no telhado do compadre sim no telhado dele sob fustigação do vento vendavando na periferia de ambos não só deles, dos outros moradores no arrabalde urbano. Vê a construção do outro pensa na sua, sua porém da Maria maismente e melhor dizendo pois a casa é da mulher, a mulher é de fato dona por dito “dona da casa”, a que construiu seu macho... o macho não sabe tudinho do falatório mas ela credita-debita o pensamento à comadre não a comadre ainda a outra que batizou o mais novo – eles têm dois filhos apenas a imitar na época os burgueses, pequeno-burgueses que só faziam duas crianças e hoje em dia nenhuma: a mulher não quer estragar seu belo corpo ah põe belo nisso e falta à exclamação completar... A imitar ou sendo que Maria fechou a fábrica por conta da crise. Em conclusão, é ideia da digna comadre de lá, na versão da comadre de cá, lá de baixo, rua de baixo ou doutra comadre – a de que o macho não dá no couro! Ela transpõe isto ao Zé. Sim a casa é mais dela, ele sofreu, com ajuda da língua dela da economia nos gastos dela sim sofreu mas pra pôr a casa morável... Ah sim, esqueciam nossos pontos e vírgulas, pontos e exclamações dirigindo-se à Interrogação, esqueciam que na hipótese (válida à linguagem coloquial) de não haver uma palavra no dicionário, que eles (ponto, ponto e vírgula e sinal exclamativo) inventarão para acertar este escrito; são e foram e serão vocábulos originados nos sons ditos ouvidos criados. Esclarecida a coisa, fechemos nossos olhos à língua padrão e fechemos o longo parágrafo.
O Zé olha isso – isso não é aqui isto: invento sonado da língua popular. Não. – isso é aquilo por baixo dele em cima do telhado e ah... precisará ir ao depósito, chamam ‘depósito’ simplesmente à loja de material de construção a servir a construção civil, de preferência a do pobre na periferia sempre consertando para concerto e harmonia e beleza; que seja sim beleza os monstrengos nos vilarejos, beleza de segunda grandeza ou última categoria. Xi, diz a si mesmo o Zé: terei que comprar uma, duas, três ah compro logo quatro porque quebrará mais, trago quatro telhas a acabar com a farra da goteira e a reclamação da Maria; aí olha se ela não olha e não olha, olham os meninos embaixo ao pai lá no pico da casa.
O Zé olha a casa do outro no casario examinando o conjunto onde sua própria residência e pensa...
Pensa o cerne deste segundo capítulo: o carro.
O carro, pode ser um importado último tipo da última geração! Não. Isto impensável. Impensável também não porque todos temos direito a sonhar. Pensa no que mais viável, no que possa ter um dia. Dia a dia, todos dias a cansar-se já cansado antes de partir de casa e mais depois a tornar, já cansado andar e na melhor hipótese se dependurando a fugir de dentro do aperto nos coletivos e por isso pendurado como enfeite horroroso na porta do veículo pra fora do veículo. Porque cansa e a gente chega arriado ouvir a queixa da mulher, justa queixa embora, na volta. Se influi no rolar no colchão à noite escura? claro. E a dar razão à razão dela ele não dar mais no couro, a prova é haver tão só dois meninos, menino-homem ou seria se fosse menina-mulher, a periferia fala desse jeito.
Então se decide – compro um carro.
O carro ao homem do povo é mais que um bem material, é um deus. Deus me livre ficar sem condução própria diz o burguês, pequeno-burguês. O carro entra em todos lugares em todos cantos em que penetra o homem; o pobretão ou sonha com esse sonho ou se submete ao objeto do sonho, com o mesmo direito do rico do remediado, dos que têm a periferia exportável e para mostra a outrem (periferia aqui não é um dado geográfico e sim a aparência do ser). Em suma o carro é algo que dá status, grandefica o grande e ao pequeno. Este, o outro um pouco porém com veículo de maior valor no mercado; este guarda caso tenha um espaço no terreno ao lado da casa (e até nas choupanas se veria dando na espremeção lugar a um veículo de luxo... daqueles antigões tipo banheiras repudiados pelas décadas) ou se coloca na rua mesmo.  E observa e alisa e limpa e lava e enxuga e encera e brilha e se irrita que se encoste na lataria daquele ser divino – expõe ao mundo seu deus!
O Zé anda cansado disso, ou seja de ainda não ter isso; tem o sonho para ter um dia quem sabe o pesadelo, tem sim o sonho – e planeja adquirir um deus pra si, para eventualmente levar as crianças e pra exibir a Maria aos parentes; para cantar de galo em terreiros mais pobres que o seu. Ou não. Sim, pode somente estar querendo fugir do sofrimento de anos a fio em que no emprego ou no subemprego do sem-emprego do trabalho informal e sem qualquer vínculo garantia nem registro em carteira – precisa depender de condução pagar condução sofrer condução na condução ao lar; doce lar... Contudo é relativamente feliz na casa, apesar das discussões entre cônjuges e nas quais foge à discussão indo ao trabalho ou à venda, não à compra sim a bebericar ou a conversar; e aqui, ali, no boteco, coitada da Maria, chocalha a Maria, fala alto à Maria, grita por fim qual galo de crista alta no terreiro e se isso não bastante (fala aos outros no bar:) ou seja não bastando gritar então surra ela, dá-lhe um soco, nocauteia a infeliz tagarela, lona juiz apupos acorda não conta a sineta avisando, acorda e é pela chuva que faz um barulhão a despencar e deixa o Zé sem os aplausos da plateia com sumiço das orelhas dos companheiros e daí não tendo pra quem falar, recolhe no saco a bravata, vai ver também o fuá da tempestade e como é que a gente irá voltar agora pra casa!
O dilúvio não está, está sim também lá, não no boteco mas na casa. Já são horas passadas de se ir ao trabalho ganhar o pão dos meninos, o feijão lá nas alturas o arroz... bem, não para a chuva e toma o guarda-chuva vai pra rua a pé. Ele os outros todos matutos urbanizados a sonar “di-a-pé”. Sai na amainação com chuviscos a ir chegar atrasado, horas e horas de caminhada e aí é que mais aparece aquela vontadinha ter um carro; poderia até ser usado usadíssimo, desses que a gente empurra com ajuda dos outros na rua, todo mundo acostumado com tal situação, todos confraternizados a auxiliar ou a apenas ver o empurrar embalar e pegar no tranco a funcionar um automóvel. Um fusca por exemplo; já se viu isto mil vezes. Isto sim é um chover no molhado. Molhado o Zé com guarda-chuva, este não guarda bem e repensa e repensa e repensa aquela velha hipótese ter uma condução própria, mesmo com a chateação (e a incapacidade financeira pra honrar o nome na oficina mecânica) a chateação de consertar carro velho mui usado. Pondera o dia inteiro a respeito de algum dia poder adquirir um.
Não obstante nunca teve não tem nem terá (a isto sentiu calafrio, a realidade é fria gelada e concreta, chuta sonhos põe no lugar às vezes o pesadelo ou mata de vez o sonhador) nunca comprará enfim um carro! se pergunta. O dinheiro não é suficiente – os gastos sempre permeiam gastos, brigam entre si os gastos após discussão acalorada e um gasto substitui o outro na despesa na velha luta entre ganhinho-contra-gastão. Não sobra. O Zé, não para evitar sonâncias na frase inadequada não e sim porque é assim que o povo miúdo sona emitindo e estragando o próprio som, o não Zé diz realmente “num” e não “não”. O Zé diz alto gritado lá dentro da cachola num tem jeito, num sobra dinheiro e assim nunca terei meu deus para que eu qual certo pequeno-burguês o adore: guarde, limpe, assopre, lave, seque, lustre,  brilhe o deus... Nunca.
Daí o Zé cai do cavalo!
Não se assuste a Interrogação que lê este texto, assim falam os do povo quando a gente recebe um banho de água fria da realidade e conclua não dar para fazer o que fazer proposto na proposta do sonho em plano ‘exequível’. Mesmo porque o sonho tem passos largos em chão falho só às vezes firme – e a realidade é um nojo no acúmulo de afirmações; afirmações ingratas ao sonhador.
Nunca.
Porém se envereda, no sonhar que seja, se encaminha a suprir o sonho de comprar carro sem numerário na sobra que falta – com um outro caminho. Ou o mesmíssimo caminho sim mas sob novo viés. Pensou comprá-lo à prestação.
Não, aqui mais complicado. Não é se embananar com financeiras num mundo afundado no poder dos banqueiros. Não. Não é ficar cansar abaixar a cabeça às injunções das prestações acumuladas não pagas... Não isso, isto: o Zé pensou e daí não parou mais a imaginar comprar um carro sem interferência dos banqueiros. Avantajou-se a todas ‘vantagens’-desvantagens optando em fazer aos poucos seu próprio carro!
Oh, isto não é a loucura?
É. No entanto quem não concordaria com a loucura quando ela já se põe imediato ao pensamento num provar ser loucura em loucura consumada, interroga afirmando não a Interrogação que questiona, sim o ponto, o ponto e vírgula e o sinal de exclamação. É. Tem toda razão a sem-razão.
Não importa. Importa que o Zé no dia seguinte se pondo ao trabalho, à parte do trabalho no ganha-pão dos garotos, se colocando ao trabalho de construção a montar peça por peça o carro.

3° - Montadora de veículo?
Sempre os mesmos mesmo aqueles que passam aí em frente da casa do Zé, veem a Maria a estender a roupa no varal, tadinha da Maria frequente ela na labuta, os meninos foram pra escola ou estão molequeando na rua, ah esse tempo de papagaio ao vento a tevê obriga elinhos a dizer “pipas” e eles e todos na rua repetem assim, assim devem estar eles perdidos correndo na via pública com os molecões e molequinhos. São quase sempre os mesmos a passar ali na frente, passar e notarem na quase hora certa até podendo acertar o relógio na hora do Zé, no trabalho em prol do seu carrão. Não. Contenta-se a bater martelo, usar chaves a chave-fixa por exemplo, a remexer fios, se perder na mecânica com grande entusiasmo amadorista na oficina a céu aberto que montou pra montar a geringonça, ao estrilo e à perturbação da mulher (ranheta, a concordar com o dizer do marido da mulher); contenta-se ter o trabalho para ter um carro, um que não seja das joias importadas do Primeiro Mundo, ao custo do olho da cara e caro inclusive aos ricaços, contenta-lhe um comum popular fusca. Todo mundo então (até os que não entendem:) todos entendem de fusca, de mecânica simples e com muita peça ou adaptável ou praticamente original de fábrica graças aos mil desmanches por aí, inclusive e sobretudo os ilegais. De maneira que fácil conseguir comprar partes das partes mecânicas. Comprar por vezes meio a prestação pois a gente dá como entrada uma tantadinha da sobra na falta da gente e depois, com a paciência e a amizade feita de tanto se comprar e a propaganda por nossa passagem amiudada na loja ou depósito clandestino, muimente conhecido, e logo a gente vira freguesa honrada por honrar o pagamento da compra. Então paga-se por um eixo parte do preço (já elevado antes de exposto ao freguês) e depois paga em mais uma ou duas vezes o resto. Até nova passagem no beco e/ou nova compra. Ah sim, o Zé soube sempre jogar com a concorrência na concorrência entre comerciantes, visando abaixar um pouco o valor de mercado a conseguir diminuir ou, conquistando em lugar de espremer o preço, pôr o pagamento em vários pagamentozinhos, parcelas então honradamente quitadas, é um homem de bem, decente; isto válido para todo homem comum, até prova em contrário...
Contudo o Zé, ao lado a par ao mesmo tempo enfim em que trabalha na firma do momento ou num serviço de quebra-galho (o pão dos meninos a esperar o dinheiro sagrado) a par disso bate seu martelo para montar seu carro no quintal de casa; até as galinhas poucas muito se acostumaram com o barulho na bateção do dono no auto na montagem; e olham, olhavam antes ariscas por vezes curiosas, agora já acostumadas olham meio tortinho por costume e veem ou não veem será que veem! veem um deus a cuidar do deus, o homem é um deus na visão dos bichos; e o bicho-homem reflete tenta põe tira às vezes xinga o erro e por fim sempre sem o final continua no tentar acertar para finalizar sua obra um dia, seu deus, o carro é o deus dum popular como o Zé. Todos os que passam olham veem isso veem assim o trabalho dum sujeitinho bem teimoso, embora sonhador e direito. A Maria faz a isso muxoxo desacreditando porque, se não existem heróis aos criados de quarto como afirmam pensadores, é de se pensar e lícito garantir apesar das coisas, que a mulher da gente não veja de fato grande heroísmo no maluco marido da gente, sonhando construir o próprio veículo pra não mais se cansar ir chegar ao trabalho, com pouco com muito serviço e com certeza pouquíssimo recebimento visto que haver aquela ladroagem do patrão a culpar o governo, aquele ladrão, descontando no pagamento da gente e eu acho, acha o Zé, que tão é tirando de mais o de menos que recebo... nunca se entendem empregado-patrão; não a mocinha que vem trazer a conta pros peões na obra e ela, eles dizem fala o Zé, até que é boazinha (porém este “boazinha” tem outra conotação e queda à sensualidade, o que é bem bom a Maria só desconfiar e de fato não saber in totum...) Assim o dinheiro chega às mãos do Zé já depurado, curtinho pequenininho assim. Assim não dá, deve na venda onde compram, a vendeira que manda no botequineiro registra no pindura ensebado o quanto quer ninguém poderia conferir, o Zé não confere, não por suas parcas letras porém porque é tabu: não se fala nem da escrituração nem da dívida, paga-se e pronto; ou se não paga; eles teimam que pagam até quitam tudinho, eles a Maria e o Zé; eles dizem que não e que sim a faltar ainda umas notas de cem e uma de cinquenta, eles os vendeiros. Agora, os que vendem as peças pra aquilo que será um carrão último tipo quando estiver pronto, tais negociantes recebem sagradamente tudo; um que outro nega. Todavia o Zé vem sempre para casa, já quase noite por vezes bem dentro da noite, um dia foi noite mesmo e até avançada, vem sempre trazendo peças que são serão (seriam quando adquiriu uma que não entrou direito onde colocar...) serão um dia um automóvel.
Outro dia ou outra noitinha na boca da noite lá vem ele com dois vidros; grossos pesados iminentemente quebráveis, sujos também e a Maria tendo que ajudar a recuperar a transparência da coisa – trouxe dois vidros da janela das portas do seu fusca. Não era hora da hora dos vidros ainda, as portas meses antes chegaram mais ou menos à prestação conforme as encontrando no ferro velho, porém sem vidro, com uma tendo sim não inteiro e trincado, não: quebrado mesmo e daí pra quê? Conseguira dois vidros agora, pagou um o segundo ficou a dever para pagar noutra semana, já pensando e não dizendo por não ser bobo ao comerciante mês não semana... Enfim trouxe, vem trazendo.
Encontrou as peças num ferro-velho como dito, ditos vidros. Longe, perto da obra onde ocupado com carriola com cimento com tijolos. Todavia teve foi mais trabalho que no dia de serviço, o trabalho agora com registro (e descontos, o que grave a um joão-ninguém). Mais porque o chofer do coletivo não lhe permitiu a entrada na condução, aqui ajudado pela torcida não uniformizada espremida no ônibus e mais na entrada entrando, não pelo volume dos vidros que carregava e vidro corta manhosamente teimosamente curiosamente perigosamente, não pelo volume pelo bodum. Ué, vidro que se preze cheira! não, não cheira não exala em não ser emelecado e daí cheira a sujeira com meleca impregnada. Não. O cê-cê era o exagerado do Zé. Inclusive até a Maria iria chiar e talvez dar razão ao motorista: não senhor, rapaz – aqui não, desce. Desceu. Ou seria descer após haver entrado, entrado ele no corredor apinhado da condução! seriam os passageiros a fugir da catinga em sobrecarrego visto o Zé já cheirar bem, bem mal, por costume e natureza na exalação do trabalho depois do trabalho, quer dizer o horário de serviço. Agora está mui mais malcheiroso, cheiroso no mal sentido. O condutor usa de educação, uma que raspa um pouco embora, e assim abaixou o ferir para “com vidro desse tamanho, não entra!” iria dizê-lo por demais fedegoso espantando a freguesia passageira!? Não.
Sim, o Zé partiu lento vagaroso no tipo de aguardo dum barranco na estrada pra encostar; partiu a pé e chegou a pé em casa. Vim diapé, e a Maria creu dado o estado lastimável do esposo, as crianças há muito já a dormir e ela cansada ver propaganda na tevê à espera do companheiro. Entretanto ali estando o homem com os trecos de vidro, inteiros, para melhorar – não completar ainda, ainda demoraria meses anos a ficar o fusca inteirinho e com cara de carro mesmo – para enfim melhorar fazendo crescer seu automóvel. Ah, ela exigiu um banho, o consorte da sem-sorte se defendeu alegou não ser sábado, dia sagrado a qualquer matuto se limpar, e não era era quinta-feira, não demovendo a ordem o veredicto da senhora: foi para o chuveiro. Depois dormiu como pedra, perdeu hora ao trabalho da sexta.

4° - Um carro inda no chão
Não é ‘indo’ é ‘inda’ no chão, ou esperava a Interrogação empolgado o carro de tal maneira voasse planasse... Não. Todos vizinhos a passar na rua do Zé da Maria dos meninos – e do Peri ah o Peri – tais vizinhos vendo a geringonça do vizinho Zé no chão, chão puro. Não. Não assim: o esqueleto e mais exatamente a parte de baixo do esqueleto daquilo que um dia se Deus quiser... e se benze o Zé e mais a Maria ela um pouco menos sem religião e antes a mulher faz pra lá pra cá de cabeça não acreditando no que diário o marido a afirmar, essa coisa de virar mesmo aquilo um dia um fusca completo e pior, no sonho, um carro  bem acabado; não negando ela possibilidade de as divindades estarem se benzendo mais ainda que ela-e-ele... o esqueleto? Que esqueleto! sim também o homem um esqueleto, o Zé miúdo magro meio homem por pequeno; tem ele sim esqueleto e pouca carne a cobrir o próprio esqueleto. Aqui e agora trata-se do esqueleto do carro. Pois é, o esqueleto ainda no chão, claro, numa parte escura na sombra da casa – e não daria um matrimônio pra valer a senhora casa com compadre carro! um negócio a pensar pensa Zé se rindo por ter achado linda a sua tirada de imaginação – estão as partes de baixo do veículo não no chão frio feio coruquento aquelas pedras e terra a chuva doutro dia levou parte dela para a baixada do terreno vizinho em forma de areia carreada lavada se se quiser; não no chão duro socado e daí mui mais duro, não: preso o esqueleto nuns cavaletes. O Zé improvisa magnificamente profissionalmente um pouco amadoristicamente essas coisas de pedreiro, porque todo pobre de periferia abastada, na falta a bem dizer, todos pobretões viram de vez em quando pedreiros; a casa, esposa do carro se se forçar um pouquinho, ela fora feita, inacabada igual a existência que se pensa vida, fora aos pedaços no pouco a pouco dos fins de semana, ‘acabada’ pelas mãos do Zé (com palpites de Maria numa ajuda). O carro, seu legítimo esposo, o carro também por sua vez promete ao mundo ser um dia acabado completo embelezado a virar definitivamente deus do Zé, promete nas mesmas condições ser montado nos fins de semana, velhos... Sim. Velhos os dois no casal carro-casa ao final se houver final, não haverá filial; não filial mas filhos, por acabados casa que dá à luz e carro, este a imitar o Zé fugindo ao bar beber bater não na sua bela casa, bêbado e portanto só batendo a bravatar de língua. A Maria tem mais sorte que a casa (seria Comadre Casa!) porque sabe como mestra com PhD e tudo o mais no assunto encostar o Zé na parede e falar-lhe braba umas verdades, ainda a fazê-lo abaixar a cabeça ou fugir ou para o local de trabalho ou para o bar ou... agora tem que acertar os pneus.
É hora dos pneus?
Hora.
O Zé, não o Zé mas o cumpádi, o compadre Antônio que é Tonho na vila da periferia pobre; cumpádi Tonho no dizer do compadre, ajuda a gente que é uma beleza. Pois que me trouxe ao meu fusca (melhor: para-fusca) antes um para-lama e agora os pneus. Deus me livre, até me arrepia só em pensar que dirá executar, Deus me livre encarar aquele cara curioso crivando a gente com aqueles olhões aquela boca dura a acusar a gente apenas por uns vidros bem resguardados, não furariam ninguém nenhum passageiro: o bruto chofer não me deixou entrar me ferrei cansei quilômetros a pé – e hoje nem fale me deixar entrar no ônibus lotado com os pneus do carro! O que o rabugento falaria: alugue uma carroça de pneus a transportar seus pneus... ainda por cima nesse por baixo, o motorista palpitaria palpiteiro e a gente tendo que engolir cada uma! ainda por cima pneus gastos sem estrias e vai por mim, diria não disse não enfrentei o bicho, vai e saiba que a guarda de trânsito segurará o carro (é fusca? perguntaria; não é da sua conta responderia ao bruto; não, não assim, sou pobre porém educado cristão etc. e tal, ao tal responderia mesmo “sim, senhor, é um fusca lindo de morrer!”) Olhe, até que é bem-intencionado o condutor porque teria mesmo... terei, corrige-se Zé, terei encrenca das grossas com os polícias por causa do pneu liso, multa na certa e incerto recolhimento do veículo no pátio do Detran. Aí o Zé olha aquele esqueleto, parte debaixo do carro, olha com pena dele, tão jovem, tão criança ainda, preso em cima de quatro cavaletes improvisados de madeira que usara feito a martelo como ‘exímio’ pedreiro, segundo a língua da Maria será que ela falara a sério? Até que assentei bem os blocos. Olha outra vez o fusca descansando sobre os cavaletes no aguardo dos seus pneus, tem dois que dão pra notar ainda os sinais as marcas a ferir bonito o chão quando rodar deixando aí os sinais da passagem. Não deixaria aquele bobalhão meus pneus entrarem naquele ônibus imundo dele, porém quem tem um compadre como Cumpádi precisa de ônibus? não.
Não chega, chega depois da paciência própria da paciência da gente o Tonho. O compadre tem uma carrocinha – tem bem entendido de um amigo dele, de longe e assim longe do Zé e amigo do Tonho – essa carroça é uma daquelas de pneus, estes sim velhos gastos sem perigo ser barrados pelo guarda metido do trânsito, ao parar mesmo o carroceiro e multá-lo e talvez guinchar o veículo. Com a carroça emprestada o Cumpádi busca a encomenda e lhe traz, após horas nas encrencas do trânsito no centro urbano até chegar aqui na periferia pobre, a carga ou sejam os quatro pneus usados comprados quase dados fornecidos por um desmache legalmente clandestino; o desmanche se veste de lava-jato (sem corrupção e lavagem de dinheiro do empresário) isso na frente atrás guarda peças, os pneus nunca dariam lucro gastos, então quase dados; ou presente de grego num futuro próximo, próximo coisa alguma pois levaria levando já anos a montagem do carrão... Agora ainda no chão descansando nos quatro cavaletes. Aí chega.
O fusca?
Ora bolas o fusca, se inda não anda.
O Tonho depõe a carga pesada, uma por uma as peças mesmo porque o compadre também miúdo igual o Zé, mais um pouco mais ou menos fortinho não fortalhão. Pneu por pneu. Aproveita a examinar cada um na mercadoria chegada; enquanto o cavalo, não cavalo: égua nos varais da carroça indócil (a égua, a carroça nem se mexe se mexendo quando o animal se coça pelo suor e espanta tenta espantar eles voltam, os mosquitos as moscas famintas).
Examinam, o Zé reexamina verificando a coisa e diz achar um dos pneus uma verdadeira joia rara porque – e é aqui o absurdo – até tem cheirinho de original de fábrica, uma multinacional com bandeira brasileira hasteada a tremular patrioticamente em sete de setembro na frente do escritório onde se fala a língua franca, o inglês. ‘Vê’ o cheiro da borracha e... ah não adianta (ele fona “nundianta”) nundianta comentar isso com a Maria, mulher não sabe dessas coisas, aí pensa não diz.. diz sim falando ao compadre. Cumpádi concorda.
Então ambos se olham se entreolhando se não vem vindo gente, a poder ambos num comum acordo comentar lembrancinhas de alto coturno, dessas que a gente escuta na rua mas não podendo falar perto das mulheres... Contudo ela vem vindo ver valentemente curiosa a carga trazida baratinho pelo compadre dela ao homem dela poder ter ingrediente ao seu martelo, ah o martelo e outras ferramentas a ensurdecer a gente tanto tanto a ficar tonta surda até. E fará altão os comentários pertinentes no seu impertinente megafone de carne lábio língua sopro e voz. Pior o Peri, este já chegara pelo cheiro antes do cheiro bom de amigo a trazer pneus no nhec-nhec da carrocinha. Gritara seus ladrados contente e... aí credo em cruz! faz feio: defeca em público, os homens olham aquela porcaria do porcaria, a porcaria se alivia, com dificuldade, e depois se arrasta arrastando a traseira no chão, o chão seu papel higiênico – enfim cena que o sol já viu milhares de vezes desde que o mundo é mundo. Então vem ele, não o mundo não o sol o Peri lamber cheirar o dono e o chegante chegado a aguardar comadre Maria e não sabem eles: o ponto o ponto e vírgula e a exclamação, irreverentes, não sabem os Irreverentes o que indagará Maria ao compadre; decerto como vai a comadre, e a pequena sarou da... ui como mulher adora nenê e se preocupa com a saúde da família dos outros. Exato.
Exatamente assim procede Maria. E os homens os dois homens, o cachorro se manifesta e não palpita, eles se embaraçam pejados como houvessem já perpetrado o crime, ou seja tratado em voz baixa mansa pura inocente daquela nojeira da moral alheia duma tal... deixa pra lá isso e a consciência macha pesada. Até brincam com as palavras agora a três, o cachorro ainda não entra no papo. Então são salvos os machos da espécie compadre pelos gritos duma vizinha, vizinhas falam da cerca mesmo e o Zé nem cerca tendo nem posto ainda uma improvisada e assim elas se proseiam as prosas; não que o sol não tenha visto ainda isso, ele nunca ouvira.
Eles se põem no guardar os pneumáticos empoeirados marcados de dedos inábeis que fazem risquinhos e sinais indeléveis nas peças de borracha seca, põem as peças no lugar, na posição descansar. Claro, Zé vai ocupar-se bem nesse sábado com outras partes do fusca em partes ou de início a conversar (e pagar o carreto?) conversar com o compadre. Depois de se ir o Tonho (quiçá de bolsos cheios...) antes de ir para sua casa o cumpádi irá levar a carroça, não uma de rodas de ferro daquelas grandonas antigonas e sim adaptada com pneus usados de carro, irá ele entregá-la limpinha bonitinho ao dono dela como praxe de quem tenha vergonha na cara.
Agora o Zé está livre e desempedido para sua labuta mecânica, tendo já know-how obtido em anos e anos como seu próprio pedreiro não precisando pagar pedreiro pra fazer a casa. Portanto pronto a virar (continuar?) mecânico, o fusca exige sua presença. Observa os estragos... puxa e não é que remexeram no carro! iria no momento se pôr observar a fim de planejar o como do como fazer e aí se assustou, não sendo para menos, condenando veementemente os bárbaros bastardos bagunceiros que lhe ofenderam e ainda ofendem sua perfeição tirada do sério! Não é possível (pronuncia de fato “disimpussive’ assim como grafado pela irreverência dos Irreverentes destas pobres linhas:) Não é possível, já cansou até a cabeçorra o Zé petitico e com cabeça grande, não dura como afirma a Maria e ele faz de cabeça pra lá pra cá negando e comprovando negar ao ver o estrago. Maria! não é do seu feitio gritar a mulher, o contrário: ela às vezes picha ele em altos brados sem salve salve. No entanto não aguenta e berra a presença da esposa, a arranjar testemunha à possível ocorrência sem boletim do crime: Maria, os putos me mexeram na porta do carro, eu deixei uma porta de pé encostado no canto e inclusive gritei o Peri não urinar nela, enferruja apodrece compro outra? querem me afundar e ainda nem tinha posto a porta no lugar da porta. (Neste ponto os Irreverentes não acusam Zé por compreender sua ignorância de pai e mãe, contudo abrem as orelhas a saber minúcias em pormenores do que diz com detalhes à cara-metade). Olhe aqui – fala como fora a pobre senhora quem dera uma bolada amassando levemente a lata velha de ferro-velho do que ele apelida minha porta... direita? Não tá direito, dizem Irreverentes e importa aqui é a porta, machucada tadinha! O Zé tá uma fera, a Maria quer falar rebater defender (não é defender-se, ela não joga futebol só os doisinhos e sua trempe, os moleques de perto agora longe dali e seriam bestas aguardar a ira paterna!) Quer a senhora defender é sua cria e cria dele: não deixa. Depois se calam. Claro iria o casal brigar em hora inadequada, a ele hora santa a experimentar se uma chave de boca que tomara emprestada era exatinho a cabeça do parafuso. Ora, a hora de briga conjugal são todas horas mormente no almoço por qualquer pretexto, sem causa sincera justa absoluta impoluta grandiosa. Então não param as línguas, as muito machas e as suficientemente femininas da Maria. Entretanto nisso apenas ameaça de guerra não passando de batalha campal quase inexpressiva; isto porque leu bem o estado psicológico do consorte, deixou que ele desabafasse e após, vendo a pouca ou nenhuma munição na oposição sem solução, então em poucas palavras resumindo que a prole se uniu aos bandoleirinhos das imediações, os quais vieram fiscalizar o serviço mecânico do mecânico ausente, e aí – pra não perder o esforço e a pernada – aí jogaram numa disputa com mui xingos e também com gols a valer. Além disso ela, ela a mãe quase matriarca ex-princesa na juventude e rainha do lar agora, pregara já um sermão na equipe inteira, os jogadores nessa altura saíram de fininho mansinhos uma gracinha para outro canto mais próprio à perturbação. Ah sim, tem aqui um porenzinho que é ela, esperta e em guarda, ela haver incluído um ‘já’, partícula que defende as bundas dos moleques contra as pesadas mãos de homem, que são violentas pra valer segundo a oposição. O  ‘já’  já diz tudo o que uma boa mãe usa para evitar broncas posteriores do irascível ajuste e reajuste do macho. Contudo o estrago bem um estrago; embora sem esfolão de monta, um raspado a entortar afundar a lata se não a estourar a bola. O dia ainda não andava estragado.
Mas o dia estava era definitivamente estragado, não pelo estrago – pela visita.
Visitante é coisa séria, às vezes o Zé se expressando como  coisa mandada o tal. As mulheres correm (escondem? isso, esconder, pronto) correm ver se lá dentro não tem coisa fora de lugar algo bagunçado enfim dados básicos em não escapar duns olhinhos experientes da verruma de alguém de fora, claro: visita.
Os homens ficam por vezes constrangidos especialmente se falta assunto e a gente não sabe como encaixar as coisas à gente de fora. Não.
São vizinhos de perto, de longe conhecidos. Com um fator importante que foi não trazerem suas companheiras e piormente seria fosse trazer a meninada e daí como chamar a atenção para não mexer no carro!
Tais especulações em vista dos dramas ligados à necessidade da gente precisar parar o serviço (básico, urgente, ou acabaria o carro noutro século ou até noutro milênio). Entretanto não bem assim porque apenas outros machos da espécie amigos, que não passam de conhecidos à busca de um bom par de orelhas para despejar seus próprios problemas. E com amigos a gente não se preocupa: eles falam falam falam, e a gente vai experimentando as chaves se adequadas se prestam se movem não montanhas porém a cabeça dura teimosa duma porca, tem porca com cabeça gasta fica redondo e daí não tem chave que se adéque e que gire a ingrata e solte toda a engenhoca. Então sobram, sobram de fato, ter trabalho extra e despesa extra num lugar sempre longe de encontrar e no qual se aprende sim com um profissional que explique de boamente ou faça o serviço pra gente corrigindo nosso desacerto; é nova solda é refazer quase a peça, pecinha ninguém louco bastante a andar com uma porta inteira nas costas à procura de médico ou enfermeiro ou hospital de partes dum carro, um fusca por exemplo.
Todavia o mais comum nisso é aparecerem visitantes parados no fim de semana expulsos por suas mulheres, a chegar cumprimentar agachar olhar curiosar as coisas, as coisas dum futuro fusca sem ou com futuro ali estendido no chão, não no chão nos cavaletes quem no chão de verdade o Peri, o qual fica em guarda e que dorme embaixo do veículo e dos cavaletes na sombra gostoso. Enfim são curiosos e o Zé assopra ao cumpádi: cambada de sapos.
Chega um, um é pouco; depois dois, dois não é bom, é bom sim porque conversam suas bobagens enquanto a gente vai batendo martelo e até ocorre de alguém dar uma mão, nada de fruta: ajuda, e melhor ainda quando a levantar um peso que o macaco (macaco aprecia banana e não mamão) que o brutinho não pode erguer a brutona peça pesada; daí ajuda sim, pois há confraternização também no fazer força. Porém três já sendo demais à nossa paciência... Mais um pouco e aparecerá a vila inteira do bairro pobre que não gosta ser apelidado periferia, tem a rica com asfalto água encanada esgoto ipeteú, Maria fala rangendo dentes “piteú”, o Zé também porém sem ranger já caloso calosa a língua. E assim estão não os três sim o magote de mais de meia dúzia de capiaus ali acocorados, uns sentados no chão ou em blocos sobrados da casa, agachados qual índios, que são como foram os ancestrais; e falam se gozam e brincam – gente grande, tem um só vareta o resto é de baixa estatura e não tem barrigudo – brincam mas aqui seria preciso convocar a cátedra dos meninos a ensinarem dentro do rigor da norma o como brincar; isto porque o menino quando vira adulto desaprende brincar e é sem graça. Sim têm os com gênio e arte nas artimanhas e trapaças da arte de contar, sobretudo mentiras de causas verdadeiras. Em síntese não é uma brincadeira séria como seria, é, a do menino. A jogar bola por exemplo, não quebrando por falta de sorte do azar ao que se objetiva na brincadeira, não partindo e estilhaçando vidros porém amassando e deformando um pouco a lata duma das portas, direita? esquerda? ora... bolas livres soltas dum bum na porta, para estragar com um amassadinho de nada um dia dedicado à mecânica improvisada.
Têm uns, uns visitantes ou sapos caso se aceite a pichação; têm uns que aparecem, cumprimentam (não chegam a dar a mão ao dono da casa e aos que já estando ali; como é o hábito arraigado no povão) enfim cumprimentam dando os ares da presença, só de cabeça e quando muito gemem uns sonzinhos fanhosos mais pra dentro que pra fora e imediato se agacham se acocoram a ficar riscando com gravetos o solo arenoso; no fim não tem no chão qualquer desenho digno desse nome pois não passam de garatujas de garatuja sinalizadas na terra, onde também se cospe se escarra no meio da conversa, dos outros, aqueles tímidos quietos vendo no que dão os contares. Nisso por vezes ao olhar-pedir-implorar mudo quase o dono da casa (a Maria deixa um pouquinho o Zé ser também proprietário) enfim após imploração do homem, aqueles homens se vão, ou por fugir do pesado, se vão e saem num andarzinho moroso vagaroso lento contra todos sulcos da rua, à qual se promete a veste negra do asfalto, promete a prefeitura em tempo de eleição, aquela ladrona. No entanto não tropeçam e somem: não exige o sumiço que tropeções fujam também da berlinda.
Os homens continuam ali. Uns dão palpite outros lembram coisas, coisas chatas como ter que voltar amanhã na obra e coisas bem mais chatas como o desemprego. Daí se fala de tudo, sobremaneira mal de todos, todos estando longe. Sem que isso seja em disputa num concurso com as mulheres. Eles, muito machos pra valer ou se imaginando assim, dizem que elas na língua estão no pódio. Por que será que apenas outrem saiba fazer errado as coisas!? Se vão, fica sozinho o mecânico.
As horas passam, expulsam o sol, o sol fica num meio claro a escurecer, e o cansaço dá a palavra final, impondo a parada do Zé.

5° - Casamento da casa com o carro
Que horror admitir tamanho absurdo. Eles, casa-carro, se casaram tão só no exemplo da gente ou para fazer melhor ou nem fazer, se desgastando. Não. Sim, o casamento de fato fora o do Zé com a Maria, ou Maria com Zé? porque nesse tempo talvez não mas antes o matrimônio considerado um ofício; assim uma solteirona era tida desempregada... A mulher sendo já a base da união e daí se afirmar que a Maria quem se casou com o noivo, não ele com ela.
Contudo, tem nessa proposta união casa-carro alguns laivos de verdade, daquelas verdades verdadeiras. Ora, o Zé um dia ao coçar a cabeça, a coçá-la num tique de preocupação, daí notara algo de logicidade nos dois outros ali presentes, ou seja casa e carro. Isto a levar ao caminho comparativo; sabendo-se de sobra guardar a casa com a mulher, o carro com o homem, alguma semelhança – ela, elas são firmes e fixas (quer dizer diz o Zé: a Maria se mexe demais em contrário...) ele, eles são andejos e... o Zé não conhece a extensão a compreensão e a penetração interior dos vocábulos, inclusive os que usa diário e os dos outros homens comuns nem se fale; assim por andejos toma a inconstância a inconfiabilidade a ansiosidade, enfim procura-se o macho? procurá-lo onde não possa estar e aí é possível esteja. O homem é assim, assim o carro. A mulher daquele jeito, paradona (ai! essa Maria me desmente a três por dois) a mulher e a casa assim. Nisso...
Nisso o Zé examina o fusca, o esqueleto da parte inferior do fusca, vê a longarina os eixos obtidos em anos de trabalho mas já postos no lugar – examina o baita (“baita” pronuncia a engrandecer aquele amontoado de ossos feiosos, ele os acha lindos de morrer; em suma ossos de ferro sem fios, mesmo porque tá atrasado o serviço e ainda só tem ferros pesados medonhos que ele vê belos) examina isso, parado, claro, ora! Daí resvala o olhar para a noiva. A casa mais parada ainda que o noivo, o noivo um dia na crença do Zé terá mil movimentações; e pior: inconstâncias mais, quem já não viu um automóvel doente na bateção de ferramentas numa oficina! Bem, parado agora, mexer-se-á. Ela, tadinha! o Zé tem um coração deste tamanho e diz “tadinha” ao vê-la, revê-la não: revê o carro a casa não vê olha só não se fixa nela e vai que a Maria apareça na janela e dê suas broncas tomando-lhe mais tempo que é do carro. Todavia examina a construção, vê uma janela que não vê, não enxerga por fechada; e outra janela não é olho escancarado ao escândalo público porém meio fechada meio aberta. Aí sonha... sonha e imediato acredita e fala, o homem comum não sabe pensar mudo: grita esbanja o que na mente às vezes sem ele mesmo se ouvir (a mulher não estaria atenta ouvindo...) Puxa, diz, e não é que essa belezinha anda no flerte com o brutão aqui. Daí pisca concupiscência ao parceiro, parceiro por ser do mesmo sexo, veja-se lá onde os abusos do pensamento levam. Completa. “Ocê... o que anda fazendo com a boba aí... Ela tá gamada nocê”.  O fusca não responde à provocação, não faz qualquer observação, não se mete, prudente, na loucura alheia alheio ele como não fosse consigo; enquanto ela, de orelha atenta, entretanto muda. Claro. Óbvio. Sim, não fala não falaria então... ih a Maria fala pelas duas, minha sorte, diz a sorte do Zé, longe o azar, a minha é que ela deve haver ido levar a trouxa à trouxa patroa... Não, sou injusto porque a patroa é correta paga direitinho a roupa que a Maria leva antes lava... lava esfrega cheira! cheira mesmo as peças se não têm cheiro em resíduo pelo excesso de sabão; põe a secar no varal, passa... passa, Peri, ele fica só na saia da gente, nas barras de minhas calças saias da Maria, passa seu... (xinga manso, têm uns xingos violentos pra valer este é manso com amor ao cão) passa tudo a ferro, e implica com os meninos passando, implica com a gente quando no ferro de passar na mesa da cozinha. Aí dobra (o caboclo parece que de propósito inverte letras; o Zé diz, diz o cumpádi e também os outros, “droba”). Aí, repete aí aqui desgastando orelhas, aí leva a roupa traz o dinheirinho e ainda mostra a grana me faz fusquinha (num é o filho do fusca não e será que essa bruta casa não dará cria a um fusquinha!? aguardemos). Mostra ela as cédulas recebidas aos meus bolsos vazios; noutro dia arrecebo na obra e mostrarei pra ela quem é mais macho no ganhar... Bem, agora, graças a Deus, não está aí pelo visto e vocês dois, olha alternadamente o esqueleto e a janela meio aberta, vocês agora aproveitem...
No entanto tanta bobagem no mundo absurdo do absurdo, não é que o Zé lembra o casório!? Não esse sim o outro, que nada teve de absurdo; o absurdo é ele se lembrar pois esquece sempre e sempre a esposa o repreende pelo esquecimento de data tão importante; se casara ele homem comum jovem belo forte trabalhador, um primor na opinião de Genoveva sua mãe; quem sabe também opinião da família da Maria quiçá no juízo da própria Maria. Enfim se casara com a menina (treze anos é menina! na roça não:) ou que os adjetivos masculinos convenceram ou levaram a família da menina a aceitá-lo. Recorda a festa simples na roça. Não bem na lavoura porque a gente então expulsa do campo. Trataram do enlace e promoveram esse tipo de festa meio particular aos familiares e amigos – tudo já na periferia pobre, a continuar pobre; não portanto na roça pobre. Assim o jovem casal (nada de carro-e-casa) assim morando como possível, vivendo a nascente familinha no mesmo terreno onde o tempo mostraria depois uma construção nos moldes de se fazer à prestação, pra virar casa; o carro seria um concreto absurdo bem após; mui embora candidato à eternidade.
Cobra data a Maria, sempre a Maria de memória de elefante, elefante dizem nunca se esquece esquecendo o Zé donde e de quem veio tal pensamento; ela nunca deixa de lembrar a data.
Andava parado o Zé nessa comparação, rugindo ainda ali na cabeçorra as datas desalembradas pela teimosia da mente masculina – quando parou mais ou menos numa surpresa por quase trombar (ele não, ela sim com memória paquidérmica) quase, quase com a cena de sua obra.
Mas o que mesmo uma obra? A Interrogação se imiscui nos meandros dessa cabeça dura e vazia, isto na intriga da oposição. Sem que também pontos e pontos e vírgulas e exclamações ingênuos possam esclarecer, pois não sabem. Ela insiste, ela não a Maria. Obra? qual! admira ela. Um joão-ninguém, até o povinho pode ter a sua. A rigor, que seria obra. A obra de um homem são pedaços afins que, embora possam estar em retalhos, unidos e no todo configuram a obra. Então Zé tem obra entretanto agora se espanta, estando distraído acorda, ela ali arreganhada pra ser vista, visto visto ser um carro macho pra valer diria a casa (nada fala a esconder-se de janelas a fechar...)
 Não pode ser obra um ajuntamento do que o Zé realizou até hoje, ontem desde anteontem trasanteontem? O fusca na sua fuça um enorme retalho feito com os retalhos trazidos da rua de volta da rua onde a farejar um desmanche ou quando da passagem por este após largar na obra; a obra onde carrega gemendo material de construção e onde come meio escondido a marmita que a patroa preparara.
Volta-se de vez para a sua obra; aliás arregaçada em cima dos cavaletes, tal qual um corpo morto aos vivos técnicos tentar descobrir a causa mortis ou já definido o crime... ah coitado do Chico, dia desses tava trabalhando com a gente e... Todo mundo comentou lá no serviço, se condoendo e se condoendo não só dele mas das crianças órfãs e da amásia dele. Olha aquele corpo estendido não mais que longarina e outras partes de baixo básicas ao equilíbrio do carro. Puxa, pensou, como ando parado e bem atrasado... pensou realmente não ele, sim sua preguiça. Não tem dia que a gente imagina ser segunda-feira de preguiça e nada disso, pois há vários dias da semana que se sente gosto de segunda na boca. Também, justifica e se justifica, também (pronuncia “tamém”): que diabo, quanta interferência e não posso à vontade montar meu fusca! Sim, teve além da sapaiada de fora a me atrapalhar, teve aquele dia em que eu tava doente, fiquei um dia inteiro de cama e outro a recupaerar-me da cama; num outro foi o Zezinho, Zezinho o mais velho do casal: febre correria pronto-socorro e constatação primeiro que os médicos não sabem nada, segundo que não era segunda e os funcionários menos sabendo ainda e têm má vontade sem ser na segunda de preguiça, e terceiro que o menino sarou sozinho porque não existe melhor remédio e tratamento que um bom jogo de futebol. A Maria chiara gritara o doentinho por causa do sol do vento da chuva do... ora um escarcéu e é assim num ambiente de ‘paz’ que se constrói um automóvel? pergunta-se o Zé, não pergunta à Interrogação.
Todavia a obra inacabada, não é segunda, comi demais arroz e feijão, almocei muito um pouco e não dá sempre moleza?
Enfim a gente não é dono do tempo; não será o tempo o dono da gente?
Vasculhou mais o pensamento se falando indagando respondendo, sem nisso muito trabalho visto o pensamento não dar trabalho. Permaneceu na indecisão e olhe – se olhou não se viu – olhe que a Maria nem anda em casa para atrapalhar a gente; se aqui, a gritar as crianças ou a pegar no pé dos outros, poria a culpa nela dizendo baixinho ao esqueleto: nem você pode com sua casa-namorada, eu não posso com a Maria. Não pode mesmo, porém não precisa precisar porque ela lá na comadre tomando umas aulas de intrigas com a outra, ah coitado de Cumpádi. Então culpa a preguiça pela boa vontade da má vontade por não estar com disposição a se mexer. Entra na cozinha, a cozinha limpinha organizadinha organizada a patroa, faladeira mas ordeira trabalhadeira, agora fora também a ajudar a comadre por conta da nenê enferma. Toma café, repete a dose e qual menino proibido nas artes perto da genitora braba, braba e longe agora, repete agora a engolir direto pelo bico do bule. Infelizmente não foi feliz no abuso e deixou pingar gotas da infusão, por sinal fria e com falta de açúcar, açúcar de menos gosta mais; limpou como pôde a base do bule com a base da mão fechada; depois com um pano de prato ali dependurado – tudo limpinho lavado corado ao sol e até passado pela prestimosa criatura – aí mancha o pano e não desmacha a mancha na toalhinha por baixo do bule. Repõe como possível, tal qualinho andava antes de penetrar na oficina da mulher, a cozinha é a oficina da mulher. Grita, mente culpada, grita o Peri ali embaixo nos seus pés, como se fosse o animal quem sujara o limpo; ou porque o bicho se negando a testemunhar do lado macho em detrimento da verdade ou a favor do lado feminino. Grita, espanta, para a cauda, alevanta orelha, abaixa fuça o cão amedrontado e sai de fininho aos seus ossos decerto. O homem olha se não olham (quem, os meninos na escola a mulher na comadre o cachorro lá fora agora). Sai, volta à cozinha à panela, come qualquer se esquecendo fechar com tampa a vasilha e finalmente... não, não torna ao serviço na função do cargo mecânico, sabe que é segunda-feira em repetição no sábado. Lamenta, ih tô com uma gata!
Tinha um italiano ( o Zé diz “intalianu”) seu Bepo, falava “gata” quando na sonolência da preguiça. Andava na gata...
Parece, parecia então, que hoje em pleno sábado de descanso não sai a trabalho a planejar-criar-tratar-montar-acabar! num acabo nunca pô! não termino esse belo carro? Não. Belo apenas quando acabado e no sonho da realidade do sonho: um carrão lustroso refletido pelo sol da manhã, perdoou até as cotoveladas da Maria nele só porque estava roncando; perdoou a ladração infernal noite toda do Peri e seus comparsas-inimigos e não seria algum ladrão ali no pedaço! aí pensou fusca no prejuízo em forma de fusca e... ai ai ai ter que refazer anos de pesquisa nos ferro-velhos e desmanches no centro urbano perigoso (uh onde estamos... se a periferia agora a temer o centro violento, agourento o Zé) – enfim eu, ele, o Zé, eu precisar sofrer humilhação de descer de novo do coletivo e nem dar um soco no insulto do lunático chofer ou é que quebraria na cabeça dele de vez os vidros da porta do agora novo fusca velho usado usável! Não. Não isso, ou outro prejuízo de pequena monta a refazer, não: fazer construindo outro carro no lugar do carro! Melhor já partir direto ao doutor delegado, bonitinho, não bonito aquela feiura horrenda de autoridade incompreensível e então sempre lhe dava tremedeira diante dela... não não não a enfrentá-la para... “Senhor Doutor, o ladrão me roubou um fusca zero-quilômetro enquanto eu dormia e...” chega, mequetrefe fedido sujo porcaria, ocê tava era roncando pesadelos a assustar a pobre Maria, bem feito. É, nuntenjeito, levou, pronto, refaço compro partes monto o todo outro carro mas que diabo! já posso partir a outra marca mais importada desta vez, viu? não sonhe, acorde. Acorda! roncador, não me deixa dormir, grita a Maria e antes me cutuca com aqueles ossos dela em pontas e cotovelos e assim como é que a gente pode dormir em paz e pesadelar em paz? Por desencargo da consciência o Zé da Maria deixou a Maria a ressonar foi ver não o ladrão nem a gritar o escândalo do Peri mas para ver se ainda ali o fusca. Ainda.
Agora o Zé reolha examinando o todo de sua obra automotiva, sempre em grande estilo quando a montar. Descobre estar com preguiça remontada, fosse mesmo possível somar todas as segundas-feiras da terça em diante até sábado. E acresce a noite mal dormida, embora com ganho tamanho no amanho quando fabricava um fusca, pois olhe aí o carro estendido no chão, no chão mesmo os pés dos cavaletes; enfim estava ali inteirinho, apesar de os pedaços grudados encaixados a se mostrar não garboso sim vistoso vaidoso o veículo – parte debaixo dele. Agora entretanto tem mais uma sominha na soma de preguiças para justificar (para quem?) justificar-se não ‘poder’ operar nesse fim de semana; e ainda um a pensar: não deveria preparar-se poupando energias para retornar à obra depois de manhã? a obra um edifício lá nas alturas sendo construída no centro urbano, a carriola o tijolo a areia o cimento.

- Sono sonho pesadelo do outro
Cumpádi devia estar com sonolência retardada ao falar com ele, o Zé que pensa o que pensa a pensar na relação deles. Ao rigor das conotações nas questões básicas somos seres à disposição do trato entre três entidades distintas mas entrelaçadas – a vontade a coragem a ilusão – as quais determinam empurram ou empacam os atos humanos. A vontade pode ser impulsionada pela coragem e, mais e antes, pela ilusão. Esta mata aquelas, quando morta. Porque morta a ilusão morre o homem. E a quem tratará a ilusão? 
Punha o Zé as coisas nestes termos, primeiro a analisar seu não-fazer naquele mês prenhe de preguiças enguiços nas premissas do que fazer. Fazer fusca por exemplo. Faltava-lhe a vontade até pondo de lado (por pouco tempo, feliz ou infelizmente) até descartando a ilusão que o descartava (por pouco, insistem os Irreverentes). Não, não adianta, ele dizendo textualmente “nundianta”, não adianta levar para frente esse negócio de construir um carro palmo a palmo ponto a ponto a ponto endoidar. Não. Esta possibilidade não existindo não existindo de fato a coragem até a levá-lo à loucura; se bem, mal, que o plano que executara até aí por meses anos, já no papel configurando certa loucura. Ah como vivemos condicionados: o Zé nem escrever quase sabendo, iria planejar riscar esboçar ao menos na prancheta! quem sabe a resposta... Contudo algo saltava aos olhos que era o não ter mais vontade, minada pela preguiça, a preguiça de autoria das segundas-feiras últimas.
Então decidiu – entrar na cozinha, tomar café, manchar a brancura da toalhinha onde o bule, xingar primeiro o governo e depois o cachorro o escambau? – decidiu não decidir tão prontamente, deixar para outra semana a fim de continuar o carro. Daí se pôr a pensar o que pensou. Nisso algo assustou-lhe as entranhas: lembrou o Cumpádi.
Tonho – o Zé viu no cineminha da mente a coisa de preguiçosamente não lembrar datas mas até bem lembrar pessoas a si mais chegadas como exemplo o Cumpádi – Tonho não sendo tagarela junto dos iguais, igual o Zé, o Zé não sendo palrador perante estranhos como o Doutor-engenheiro-patrão na obra; não sendo sim falador o Cumpádi tanto quanto o compadre e não mudo, parecia mudo naqueles dias. Voltou o rolo do filme de celuloides arrebentadores ao horror do público na matinê cinematográfica, tornou repassou reviu o amigo-compadre de boca fechada. Fechada sempre, quer dizer toda vez que as câmeras o focalizando, só aparecendo a voz fanhosa e tendente ao agudo a imitar a Maria, tem homem que fala fino nervoso sobretudo, enfim a voz dele mesmo não a do Cumpádi. Falaria então a um boneco, desses sem vida como os do ventríloquo naquele dia a levar os meninos no circo? Parecia. Ao menos com sonolência, dessas sem se abrir a boca sem querer. Mudo. Distraído.
Abordado num encontro, um em casa do outro e à suposição sub-reptícia dum problema no outro, teve Compadre coragem indagar ao Cumpádi. Tonho preso nas tramas do drama, conjugal saltava isso aos olhos... e não podendo inclusive ser mais grave, será que podia! Bem, desembuchou o companheiro do Zé seus problemas, longe da comadre perto da rua e por via das dúvidas baixinho... Foram longas horas nesse despejo, a tanto arder coçar as orelhas do produtor de fuscas, em férias.
Gente, homem comum, estimando embora o outro, Zé a cada lance da narração-desabafo de Cumpádi, via despertada a semelhança na semelhança de suas diferenças com Maria. Quase se podendo darem as mãos de oposição incompreendida as duas esposas dos dois compadres, também incompreendidos. Em suma eram quatro vítimas segundo seu próprio ver. A cada lance, brotavam fetas em fatias tal qual mortadela no meio das partes do pão, ah sanduíche caboclo a enfeitar uma feiura... A cada, vindo à lembrança suas lembranças: a Comadre virava Maria, os meninos do outro seus meninos, a casa a casa sua e de janelas espertalhonas pros lados dum carro; o carro – ah tadinho do Cumpádi: sem a loucura de construir o seu, nem cavaletes à dissecação de cadáveres automotivos tendo para comparação daquele incompleto fusca. O Tonho punha e dispunha no contar seus profundos males, despejando qual vitrola após o mote da confissão íntima, nada próprio dum ser mudo; e isso punha recordações e cutucava com vara curta os males do próprio Zé.
Serviu para tal aquela ida ao domínio do outro, leia-se domínio da Comadre; esta embora mais mansa na língua que a boca da Maria. E serviu para safar-se... não da preguiça: a justificar o não-fazer.
E o fusca?
O fusca não deu palpite, ora.
Deu sim, deu, sendo o que se pode esperar de melhor num carro a se pensar puro santo anjo...
Na medida em que se expunha a narração do outro, do Cumpádi enfim, o Zé ia revivendo (recordar é sofrer duas vezes?) a reviver seus fatos. Aqui novamente se encaixa a relação das famílias. Naquele dia, a se repetir toda semana, naquele no qual Maria longe no perto do marido indo à comadre dela, ela trouxe na volta um presente e tanto àquele passado recente, que foi o cheiro. O cheiro não, não apenas o cheiro o uso. Trouxera a mulher, ganho doutra mulher, um frasco de perfume...
O Zé sempre e desde pequeno, quer dizer menino pequeno ainda grande-pequeno como adulto; sempre teve uma certa resistência ao odor do enxofre. Na meninice lá na velha roça era comum se contar causos, os de assombração e outros mais, em que no final assoprava ao mundo o estouro do enxofre na pessoa do diabo. O garoto tinha horror unindo o cheiro forte ao forte poder do cão. Fugia também do estouro-e-cheiro pelo enxofre da espingarda, arma comum no sítio e isso tudo ficou indelével no seu ser. Agora, hoje, ontem desse passado anteontem, a mulher presenteia seu homem e a casa inteira com perfume. Mostrou feliz o ganho (na perda) ao marido e aos meninos, como fora uma conquista. Porém imediato o Zé sentiu o ataque e a imaginação correu à sua frente avisar a eternidade do uso, a si abuso... Em tudo durando o acabar o vidrinho, não mais que minúsculo recipiente pois nos menores frascos onde os melhores (ou piores!) perfumes; tudo tudinho se contaminava ao toque daquele horrível cheiro (opinião do homem, dele e do seu menino mais velho também). Eu – diz o chefe da casa para... ora bolas, não tendo ninguém e assim desabafou-se com o fusca mesmo – eu tive que dormir com o diabo toda noite todas noites... e olhe que durante o dia ainda sentia! As orelhas do esqueleto dum futuro carro não responde não comenta. Olhe (o Zé fala “óia”) e olhe que foi um bem. Tinha um dizer popular na época “há males que vêm para o bem”, porque na fuga ao cheiro lá em casa o construtor de fusca retoma sua montagem, parada então. A fugir do diabo, a oficina com seus cavaletes era ao ar livre, onde satanás não tem vez; ou mesmo desperto ao trabalho.
Foram daí várias semanas seguintes a pesquisar qual investigador policial os ferros-velhos das periferias pobres e os desconhecidos desmanches do centro urbano, à procura de novas peças ao carro; e à parte o drama, sempre um drama aos de poucas posses, o da falta de numerário. A obra não contratava, antes que isso despedia gente. O Zé na iminência andar na lista, a faca no pescoço a corte... Restava na manutenção do lar a esposa e ela de maneira alguma lhe passaria umas cédulas ganhas na lavagem de roupa, a comprar pedaços de carro para o carro inteiro. O Zé ingênuo demais, demais esperto a saber esse não-contar. Nunca dispôs a senhora dona de casa, mais dona que o dono por sinal, nunca a auxiliar o marido nisso; era encrenca exclusiva do homem. Ou não, porque refletiam os gastos com a mania dele nas necessidades da família toda; e nas de suas relações, visto Cumpádi colaborar tanto. As pesadas partes debaixo por exemplo, nunca pôde Zé trazê-las para seu terreno sem auxílio do compadre; aquela questão da carrocinha do Tonho, que não era de fato do Tonho. As peças miúdas como bobina carburador, até uma roda, aqui menos miúda, uma velha enferrujada e sem pneu, o Zé adquiriu e trouxe com as próprias mãos. Sim teve sempre alguns choques com a gente passageira e mais com os cobradores na catraca do coletivo; os motoristas, eles conforme o volume volumoso sequer permitindo entrar no veículo lotado. Também houve as porções obtidas ganhas ou compradas às vezes nas imediações, seja na periferia pobre mesmo e mesmo na periferia rica não tão longe de casa; nas proximidades conseguiu muita coisa; e mais ainda a colaboração de mãos irmãs das dele, porque o pobre necessitado quase sempre encontra noutro a compreensão e até ajuda direta, como dividir a força para arrastar algo pesado. Já no seu sítio, quer dizer na sua improvisada garagem, ou atelier? enfim na sua casa, aí o Zé não fora sempre bem-vindo (expressão mui mal empregada: ele morador). Decerto pelo barulho a bigornar ouvidos da vizinhança... Além dos choques quase naturais da gente simples (ou pobre?) por outras razões: cachorro criança comadre e/ou por invenções nem sempre criações, em suma o falatório barato e talvez necessário nas relações humanas. Aborrecimentos vindos pelo fazer o carro; além do caso Peri e sua malta.
O Peri ladrava a contento.
Por qualquer coisa. Fora o ladrão... Era um vira-lata igual os outros: latem tudo a infernizar a gente; quando a gente manda espantar uma galinha, ele não atende não pega o bicho ao almoço da gente; quando não se manda, então o cachorro avança e vem vaidoso mostrar as penas no dente. Contudo o cão do Zé não é diverso dos outros da espécie. Está contido no grupo barulhento do dia e da noite, noite inteira espantando o sono, o sonho, o pesadelo não afugenta; e quem depois a retomar o sono! Entretanto quando um ladrão de galinha que leva os trapos esquecidos pela Maria no varal ao sereno, leva e deixa ainda rastros no chão de terra – aí esse defensor da casa dorme o sono a sonhar anjos não escuta; poderia até levar o ladrão um carro importado do primeiro mundo o Peri não acordando. Costumeiramente ladra horrores, a Maria grita o Zé para gritar o Peri; o Peri para um pouquinho logo retoma o trabalho. Entretanto não é diverso dos cães de periferia: ladram livres nas casas desde a casa ao mundo, ou ao mundo desde a rua; uns uivam, o Peri não se lembra lobo. Diferente dos da periferia rica. Estes, presos, gradeados, chaveados, acordam sim os amos porém não saem: olham gritam na prisão VIP, não superlotada e mundana; têm direito a latir e ajudar os outros livres a barulhar o mundo. O mundo, isso – barulham seja o da periferia pobre seja o da rica a assustar ao seu redor o redor do planeta.
De dia, mais especificamente nos fins de semana, o Peri se enrola feito biscoito debaixo do fusca; a tomar conta dos bens do amo. Esteja o cão acordado...
Agora o Zé nervoso na briga com o barulho do cachorro. Noutra vez, um dia, parecendo à esposa do Zé ele estar com o diabo no couro, pois brigara com ela e se desentendera com o vizinho, um ranzinza desses que não vão com a cara da gente, a troco de porcaria e malentendidos; brigara com o patrão decerto e decerto com isso a reforçar o patrão incluí-lo na lista de dispensa... brigara com dois colegas de trabalho no trabalho por um macetãozinho de nada no pé e deveria ter brigado com o tijolo violento não com os companheiros. Nesse dia encrenca com o Peri por latir e mijar e defecar no chão do seu ‘lindo’ carro (carrega a Maria a ofender melhor no ofender). Brigara com o Cumpádi, apregunta ainda a lhe dirigir ofensa a mulher. Não. Nem que o Zé quisesse, o Tonho um pobre diabo, sonso. Quantas vezes estão a falar, alto, brabo, violento mesmo – ele manso mudo quieto na espreita quase com medo de assoprar o que dizer. A Maria tem essa impressão, vê assim o Cumpádi. Ah, cum Cumpádi o Zé num briga. Farinha do mesmo saco se falam as esposas dos respectivos esposos, a sujar ambos. O nervosismo do Zé passa logo.
Logo que esteja a bater martelo a apertar porca com a chave. Tem uma inglesa, o Zé pronuncia “ingrêza” têm as de boca, fixas; tem a chave de fenda, das de fenda tem três inclusive, duas, uma um dos moleques levou a dar emprestado aos coleguinhas; e o próprio Zé tem mais algumas outras ferramentas, umas deu como empréstimo a amigos e nunca teve de volta, a se lembrar e lamentar na hora agá do uso. Outras mais estão com ele mas que trouxe por sua vez tomadas emprestadas e pretende, pretende sim e não poderá com a cabeça (dura, grita a Maria) garantir devolução! algumas dessas nem sabe direito de quem a propriedade... O homem comum age assim, é assim, Zé assim.
No trabalho, então já expulsa a preguiça teimosa, aí renasce o sonhador. O fusca ofusca outras tarefas, um dia faltou ao serviço a serviço de juntar por horas a tampa do motor do carro onde o motor, na traseira todo mundo sabe. Perdeu um dia a colocar a tampa, ele diz “cofre”, sem sentido isto, e outros ‘capô’, ele não vê sentido. O interessante é ter tido tanto trabalho porém a parte oca – estava ali um fusca sem coração! – pois encaixou a dita tampa não havendo ainda o motor... noutra vez teve foi grande gasto de energia a transportar um radiador usado ganho de alguém ao seu carro, entretanto um fusca não precisando tal peça, refrigerado a ar...  São tais ganhos nas perdas. Noutra trouxe correia dentada, sem sequer achar onde encaixe na engrenagem do motor. Felizmente, a si, a Maria não sabendo tais sabedorias para ter razão para criticá-lo melhor.

- Olhe o ladrão... 
Agora, agora que ele retomou sua coragem e que a coragem haja ela mesma interrompido a preguiça e se descontaminando outros mais empecilhos – agora retoma de vez aquela fabriquinha particular de fazer carro, carro ainda in skeletón esqueleto visto, visto não ser visto e sendo não mais que uma carcaça de fusca deitada sobre uns cavaletes na área feito caragem e oficina do Zé. Bate seu martelo, derruba chaves (e curiosamente não chia não xinga, agacha apanha alevanta a ferramenta, retoma:) nada impede aquele mecânico intrépido e sujo... A Maria sim irá chiar falar falar ao esfrego da sujeira de graxa na roupa dele, o Zé já estragou muitíssimo pano; e além da meleca de oficina tem ele o péssimo hábito desde menino – e isto ela não sabe não viu não conviveu com ele pequeno a sogra lhe contando a arte... – no seu costume antes de enxugar ou só limpar por alto as mãos sujas de lado nas calças curtas de menino ao nível dos bolsos. Agora, como esposa, ela flagra o crime ou apenas arte em contravenção tal qual moleque distraído absorto centrado nos seus altos afazeres mecânicos mas homem feito já (quer dizer adulto embora baixinho).
Agora sim quando já tendo o ladrão entrado carregado pesado a sair com o roubo fruto do seu trabalho de profissional honrado ou só discreto ou só capacitado. Quando o ladrão entra, aí o brasileiro em geral fecha tranca cadeadeia e se não der resultado, estando ali à disposição da sorte (de um lado:) o azar e no caso azar do ladrão um Peri! um perigo à vista, senhor profissional! Qual nada. Diz o popular apenas se fecha a porta quando já roubado; e deixando de lado a ‘ferocidade’ do vira-lata, de fato simbolicamente entrara o ladrão no claro e às barbas do Zé! Em verdade, a segunda sendo não ter barba no estilo europeu de pelos fechados, o mecânico é um caboclo de poucos fios, o comum de se ver; a primeira entre verdades é que não sendo o gatuno comum aqui sim a chuva. A tempestade? O chuvisco? Não importa:
O Zé tá a serviço do seu serviço em pleno fim de semana, bate aqui ajeita lá, fala, resmunga resmungão porém sozinho; não iria requisitar as orelhas da Maria; as dos meninos, ficam um pouquinho os filhos logo chamados pelos outros colegas às suas altas razões do brinquedo: o Zé portanto fala a si mesmo, na tarefa de montar um fusca inteirinho ainda em partes. Daí ocorre a primeira grande verdade, sem se esperar pois estamos numa seca brava dessas de precisar levar correndo pela insuficiente respiração as crianças ao pronto-socorro, dessas dos agricultores lamentarem vegetais crestados; dessas do homem comum reclamar pois se espanta com a chuva e com a falta de chuva e nisso, de repente a quem forçando entrar um parafuso teimoso em não encaixar, nisso relampeia-troveja-despenca, antes nuns pingos grossos a espantar a poeira acumulada e logo desce lá de cima a torrente, um dilúvio! O Zé aspira aquele cheiro molhado coça a cabeça, se esconde rápido em casa, o Peri ficou debaixo do carro, até que o líquido encontra as fendas e esborrifa o morador contumaz da oficina. O Zé olha pela janela o estrago... Não. O carro ainda inteiro nos seus pedaços mas e a ferrugem que virá um errado na certa. Ele, não o carro não o Peri, o dono do fusca torce lá dentro que pare, que pare a chuva de estragar seu veículo e ainda mais proibindo-lhe ela a continuação do serviço (altamente especializado em se tratando de mecânica!) e somente pode olhar ver a enxurrada depois, antes a água enxugada sugada engolida pelo solo seco na seca agora úmido na torrente braba. Olha. Olhar não é resolver problemas... Todavia resolve pois a chuva lhe dá azo a pensar imaginar como que só após a entrada do ladrão é que o patrício ali posto como mecânico reconhece haver necessidade fechar a porta. Não. Não tem porta, falta e falta também inclusive cobertura.
Ah meu Deus, reclama o interessado vendo o dilúvio a se aproximar destruir papar seu carro; ah meu Deus, preciso urgente cobrir a oficina, a qual se tem ar à beça e disto ela não pode reclamar, agora reclama, ele reclama por ela (não a Maria decerto tomando banho na rua no inesperado, indo com a trouxa de roupa na cabeça a entregar, receber... à patroa; mesmo porque iria contar no serviço de entrega com os meninos que só sabem é brincar e responder, o mais velho agora está ficando respondão; não a Maria:) O Zé reclama por sua própria culpa.
Aí, no outro dia, dia de domingo após a enchente, aqui um exagerinho poético tal qual o dilúvio, aí já estando a pregar umas tábuas à guisa de telhado na falta de telhado na sua oficina. Sonegaria exploraria roubaria os meios do carro a usar o tempo e tais meios de comprar algumas peças velhas em depósitos legais e/ou ilegais, para com esse dinheiro liberado adquirir igualmente usadas umas telhonas a cobrir o teto da garagem. Não a defender a saúde do Peri, a do fusca.
É assim a retomada da caminhada em largada ao pódio de um dia (oh será não tão distante!) um dia ter o automóvel completo, pleno; ao menos não podendo, grita a verdade, não podendo ser novinho em folha e com cheiro de agência...

8° - Um ‘viva-morra’ à prisão da liberdade
O compadre é mudo toda gente sabe disso, sabe melhor o compadre José, Zé aos próximos; mudo por falar manso baixo escondido quase, quase se não ouvindo, menos ainda diante da sabedoria do Zé, o Zé sim falando alto nas conversas em que ambos ciciam os problemas lá em casa ou seja na casa do Cumpádi. Já o Zé fala – não manso, isto dito tido absurdo – fala alto porém manso no sentido da Maria dizer o que dizer dizendo nas alturas incomensuráveis e até assim na madrugada antes das seis quando grita o esposo pular da cama os meninos pularem brigarem e ninguém quer fazer depois antes no banheiro, que serve também ao banho aos sábados ao Zé após bater no fusca e após no depois de carinhá-lo pra ser no futuro aquele carrão vistoso. Grita Maria a todos dela, no entanto ela fala manso à patroa, patroas agora inventou por conta da falta a sobra de serviço o serviço com faxina em várias patroas, nas casas delas, não iria escovar a sujeira acumulada como faz sempre com os filhos no lar, no serviço se presta ao serviço de limpar (com queixas das madames, ela diz “as madamas” mundanas pensando maldosamente...) limpar sim as residências. Aí fala baixo educado tímido, tímida perante a autoridade pagante. Bem, ele é mudo, tadinho do Cumpádi lembra o Zé, a Cumádi é quem canta de galo; galinha seria rebaixá-la demais, demais séria e até não falando mui alto ambas comadres nas visitas que se fazem a se desopilar... a comadre de lá lá vem com as suas, eu, ela diz ao Zé quando ela mesma de boa veneta, eu é quem me lembro melhor da burrice das patroas e sei contar como ninguém com graça, me rio antes da Cumádi rir por contaminação do que falei. Falo menos baixo que ela, abaixa Maria o tom. Não o Cumpádi.
Tadinho, quieto, quieto agora que não arranja um bico e toca a mulher dele andar mais nas casas das ricaças (às vezes famílias pouco mais que as chamadas pés-de-chinelo, milionárias entretanto aos pobres) ricaças sempre munhecas, algumas embrulham não pagam. A mulher do compadre é mais saída que ele. Quando os dois homens juntos, diferente a postura: Zé diz elevado as coisas já de entrada entrando no papo dos compadres, baixo se segredos de Estado mas alto e assim mesmo de poucos sons se de domínio público o assunto ali na feiura da periferia.
Contudo onde mais existe liberdade a ambos não é em casa e sim no bar. O bar é ponto de encontro, sem vírgulas sem exclamações, talvez com alguma Interrogação irrespondível no atual estágio da ignorância dos homens. Por exemplo por que o vendeiro – ele fora igual a gente, roceiro fugira e se metera no comércio de cachaça enricara no limiar das periferias, rica e pobre – por que ele abaixa a cabeça quando ela alevanta a voz! Não sabem, sabem os dois que a vendeira d.Maria não é tão bela, o Zé irreverencia a dizer “gostosa”, quanto aquela uma... Uma coisa adstrita aos dois compadres e assunto velho além de segredo, verdade ou mentira que não se comenta, comenta-se à boca pequena, mansinho os dois... Ali, lá na gostosa? ora que interrogação idiota de Interrogação, vulgo interrupção, ali mesmo é claro ser o bar.
No bar por conta da aguardente na conta ou por conta do lugar pleno de liberdade (leia-se as patroas em casa nas respectivas cozinhas ou tanques de lavar roupa ou mesmo nas patroas delas) – então se soltam, todos entre amigos; a vendeira não mostra tanto assim, mais contam os sorrisos do João Vendeiro. Quanto mais dose mais língua mais fala menos claro. Claro, um pouco anuviados; não apenas os dois compadres Cumpádi é até mais forte nisso que compadre Zé, este falante destravado enquanto que ele mais solta é o interior no exterior se rindo à toa, aparentemente sóbrio. O Zé, estando já do meio para o fim, porque tudo sempre tendo um fim e com final nem sempre feliz, no estilo casaram e foram mui felizes mente a mente de carocha. O Zé tagarela por natureza quando se pensa ele mesmo sendo outro, tagarela muito suas coisas: dá um desbrônquio lá na obra, não lhe dão as contas ele pede a conta, conta reconta reconta reconta bravata as exigências que fez (no fundo, na frente no claro na verdade: desempregado ato consumado, pronto, conta:) dá outro desbrônquio no lar amargo lar, bate na Maria, fá-la, fala, fá-la falar baixo primeiro depois calar-se de vez e abaixar vencida a cabeça e aí, cabeça abaixada descobre haver a companheira pintado os cabelos, “nunsei” comenta ao compadre e para outrem além escutando a prosa, não sabe a nova cor a esconder a cor-de-velha, assim os fios já em mechas anevoadas; ela abaixa, alevanta outra vez e daí... daí perde a paciência aquele paciente esposo – dá nela um murro, mostra o punho ao Cumpádi... cadê o Cumpádi! Vê o Vendeiro, o vendeiro decerto meio bêbado a tremer na visão, vem d.Maria falar grosso imperando levarem embora aquela corja de vagabundos, vagabundos além de maus pagadores pois o pindura cresce não agradecem não pagam. Diz ela mais, ou seria ele, o homem da mulher e têm outras pessoas estranhas. O Cumpádi já havendo tempo sumido, o Zé acorda em casa e vê embaralhado já não estranhos, estranha só uma senhora nova vizinha curiosa ali e nada estranho a Maria a falar, braba, umas verdades. Dessas que nenhum macho da espécie quer ouvir. Sobra até ao fusca ofuscado pranchado em cavaletes a dormir qual santo morto.

9° - O fusca! vai bem, obrigado
O mecânico não, o outro mecânico que veio viu o véio e arrumou ao velho o novo; o fusca não cheirava agência se se perguntar porém andava novo agora após a passagem do mecânico, andava novo mas não andava ainda e quase se podendo afirmar não ter vindo ainda à luz embora em estado de gestação adiantada (ao menos o Zé pensando assim quando estivesse o carro novo de novo e agora em velho, véio pensou não disse não diria por gente de fora o mecânico ali a ajudar o mecânico da casa); agora o Zé se apresenta cabeludo sim já pintando não como a Maria artificialmente a tingir os fios, achando o marido ser os recentes cabelos cor ruiva ele a afirmar na pronúncia cabocla “vremeio” ao Cumpádi. O Cumpádi sim com os seus prateados pela idade no pé do cabelo na orelha e atrás onde ainda tendo “cabelo ruim” diziam dele e de outros a puxar o pixaim de mulato – ocê viu como tá careca o Cumpádi, Maria! Tadinho dele: velho mulato calvo desempregado e doente... Se queixa muito de dores aqui, a barriga inchando, anda sem coragem. Eu? Maria, não devendo o Zé tratá-la meu bem meu amorzinho, isto não acontecendo sequer nos primeiros dias de casados, caboclo e mais ainda um ser contido igual era é o Zé nunca usara melífluas palavras – era a si a Maria, Maria e pronto; pronto ela a devolver a ofensa ao Zé; nunca nem a estranhos o chamou amor e nem José. Se entendiam. Ou não se entendiam... Ora, quando aquele moço bonito, devia ser às mulheres bonito, feio ao Zé; quando apareceu o mecânico cheio de graça e cheio de graxa também a untar as juntas do carro, mesmo aí em vendo que olhava a Maria que por sua vez olhava o rapazinho estranho ali chegado, não sentiu qualquer coisa assim próximo dos ciúmes. Isto não se deu apenas porque a cara-metade já estragada pelo tempo não: nunca teve sentimento de ciúme. No entanto fora um pouco embaraçoso a presença desse homem estranho ao chegar na latideira do Peri, ali em guarda ao esqueleto do carro. Não. O fusca parecendo mais gente que antes meses anos antes desfigurado e agora não: um veículo quase inteiro, o mecânico-proprietário dele sim que não possuindo dinheiro a acabar sua obra. Não ia o dono daquilo além de obra, não sabia de obra-prima soubesse sabia não ser. Entretanto podendo garantir mais ou menos acabado; não o dinheiro acabando acabado anos antes, a deixar a dívida no lugar... o carro. A esposa sempre a criticar o marido: enfiara o tesouro da família no automóvel e no bar do João. Enfim no fim. O tal mecânico fora um acordo com o dono para explicar ajudar mostrar, ensinar de fato seria melhor dizer, ensinar o Zé umas coisas complicadas aos amadores e curiosos que não sabem mas se dizem entendidos e se metem a fazer algo, o carro por exemplo. Viera a ensinar com que se concatenassem as partes do veículo, ajustar peças lambuzadas sobrando melecas... inclusive embaixo onde residência quase oficial do Peri poças riozinhos escorridos de líquidos oleosos fazendo parecer o chão um estande de pintor a praticar suas artes. Nisto, quer dizer as artes o Zé não levando jeito, o jeito seria apelar à Maria para criticar ou ver bem o que ver; ou que fosse, sob os critérios femininos, o flagrar a sujeira medonha no solo... então logo ela, a Maria realmente, ela daria por causa disso cria, nervosa! Não. Nunca passando pelo miolo da senhora ficar ali pajeando pai-e-filho engraxados demais sujos, demais o filho, o fusca, talvez menos emporcalhado que o pai-criador. O Zé traz o profissional aos ajustes necessários ou até como seu mestre, com força moral e com bastante experiência no métier a fim de passar alguma coisa ao ‘novato’ véio, ele. E assim se procedeu um adianto no atraso da montagem, tendo recebido o proprietário aulas por uns três dias; a custo quase zero. Aquela velha questão de os pobres se entenderem se suportarem e ter algo assim como solidariedade, sabendo o jovem que o velho era rico apenas em dívidas.
O fusca cresceu. Tomou feições de gente, ou seja ficara apresentável. Com o banco da frente posto, o de trás ainda não, com tanque de gasolina no lugar; a lataria externa quase completamente armada – fugia já ser um mero esqueleto, era um carro! Bem, não tinha ainda motor, todavia sobravam peças avulsas miúdas sem lugar (pra ficar depositadas sem serventia! não, o Peri podendo ceder parte do seu quarto-abrigo a elas) sem o local de encaixe, quase todas ligadas ao motor desligado, inexistente ainda. O mecânico sugeriu inclusive que as deixasse em prontidão ou mesmo que as jogasse fora ou a ser dadas a colegas atingidos pela mesma loucura. Sugerindo também melhor apertar o cinto, cinta dizem na periferia e ninguém se ofende com isso; que fizesse lá uns meses (anos pensou imediato o Zé) fizesse umas economias (pra brigar com a mulher! lembrou-se o marido) em suma ter umas reservas, forçadas que fossem – valeria a pena insiste o profissional ao boquiaberto amador – que juntasse bom dinheiro, pois “é caro!” enfatizou... Aí ocê compra o motor inteiro já montado, sem problemas mecânicos. Têm uns recondicionados garantidos pela Wolksvagen, pode adquirir sem (sem dinheiro! se adiantou o veloz pensamento, o pensamento costuma sempre voar:) sem perigo, pode adquirir sem perigo.
Então se apertaram nas despedidas as mãos, tal o costume matuto, antes a Maria trouxe um cafezinho com duas xícaras, os meninos não presentes na despedida e por isso ficaram sem café; batiam perna, expressão da mãe sobre os filhos, andavam com os outros colegas pelas ruas. Ruas fossem traçadas na velha periferia, a rica sim até com asfalto.
Assim somaram-se mais uns dados negativos, de pagamento atrasado, aos débitos nas dívidas do Zé por causa da intervenção profissional no carro, visto precisar comprar mais peças antes nem sabidas pelo curioso até a intervenção do profissional. O rapaz retornou às lides em sua própria oficina. E decerto o jovem mecânico nunca receberia por ajuda ao Zé seus honorários ou horas extras.
Ensinou o jovem como fazer para fazer e inclusive colocara o próprio mecânico fios e mangueiras, ou conduítes como chamam nas construções. Por dentro.
Por fora o fusca tendo daí em diante certa presença. O Zé muitos meses sem numerário para comprar o resto, mesmo usado mas em condições; e em vista disso grande tempo só ficando a limpar, lavar, ralhar com os meninos e em falta deles com o Peri, por riscar grosseiramente nos dedos sujos a lataria limpa.
O “malhadinho” no escacho da Maria, realmente parecendo mais uma colcha de retalhos nos retalhos de lata de várias origens e cores. Claro, um dia o proprietário do veículo submeteria a geringonça a um trato com o lateiro com o pintor com a fiscalização... ficando novinho e belo! A fiscalização... ih teria que ajeitar as coisas, regulamentar, registrar, emplacar, como se faz no cartório com um filho – não prevendo batizar o carro – aliás era mesmo seu filho. Maria apelidou assim a gozá-lo, o Zé nunca  nomeou o malhadinho se não “fusca” e “carro”.
Um dia, distraído, se pegou a tratá-lo Cumpádi...

10° - Cumpádi & Cumpádi
O Zé pensa... impossível saber no absoluto no total no pleno das coisas, as coisas que pensa um matuto, agregado à cidade ou absorvido e transformado pela urbe; tornado em pobre que já era no campo, para virar um pobre embora em novo-velho núcleo social um ser com gostos e visão diversa da roça, e virar enfim urbanoide. É exato o caso do Zé da Maria do Cumpádi da Cumádi e dos outros habitantes da periferia velha, pra eles véia e feia e além do mais lembrada pouco no correr dos anos pela prefeitura – a qual sofre da lamentável ideia assim como os outros setores do Estado burguês ferrenho financista consumista enganador; assim como todos que revelem governo, assim a prefeitura – lembrada quase nada como “prefeitura ladrona”, dizem as comadres... Estivessem não na pobre as comadres sim na periferia rica, diriam com certeza isso dito tido não provado no profundo porém garantido na mente do povo simples (simples no sentido de ignorância) ou seja, estariam da mesma forma as comadres afirmando ladrona a prefeitura e regando a vida alheia enquanto a regar com a ‘borracha’ da mangueira de plástico a rua a poeira a sujeira acumulada, aos gritos ora sim ora não e aqui no segredo da voz baixa, a falar dos outros vizinhos e muito (nisto em voz normal) sobre a ladrona. Bem, mal a dizer melhor, a Maria esguicha o quanto pode, o quanto pode esbanjar de água, agora que a pobre virou rica em canos na rua fechando poços abertos nada profundos mas num perigo cair meninos lá em baixo em cima elinhos dali a atirar pedra e outros objetos para brincar de fazer tigum! na tona. Agora molha olha prova haver rua – ah e que brincadeira e tanto tanto moleque vendo a patrola mecânica a sulcar a terra fazendo a terra virar via pública decente e... ih muita poeira fica depois da passagem do trator – a Maria guia sadia o esguicho da mangueira feito pênis mui comprido que ela não tem, nem curto, tem o do Zé mas o Zé... ora, a senhora diz à senhora comadre somente, pois iria confiar na boca nada pequena nada contida nada educada das outras vizinhas perto! não, é claro; e tem uma grandona o marido dela sabe-se lá se marido de verdade vai ver amásio, o marido dela mais vareta que ela; entretanto não é comadre, comadre apenas para falar coisas mundanas nunca intimidades como o faz à Cumádi. Tadinha da Cumádi: o Cumpádi tá é mui doente, não de cama, de cama apenas seria no fim ao fim mesmo. E a prova garante ser por causa de doença ruim, ele novo ainda, porque só dando isso em velhinho nessa época que se saiba e o caboclo sabendo quase nada de tudo, só no véio ele pouco velho e morre! não de morte morrida no dizer da gente, deu o tumor foi na barriga e daí levado ao hospital; ficando o infeliz depositado sem recursos na ala paciente mui paciente e mui impaciente dos pacientes paupérrimos. A Cumádi e a filharada e os parentes e a Maria, mais a Maria, e o Zé, este quase não verteu lágrimas por fora, por dentro chorou sangue pela amizade intimidade e idade no relacionamento com o vivo morto!
Aqui principia um pedaço em que o sofrer a falta não elimina, qual o câncer qual a terra qual o verme cadavérico, não acaba com o Cumpádi. Longe disso: mais perto ele do Zé agora porque as amizades sinceras não se encerram na vida, a morte é um lapso e continua a vida, a morte apenas um sofrer que o tempo sabe como enterrar assim como o coveiro na pá no choro no túmulo na lembrança que no comum se apaga. Revive o Cumpádi ali aqui sempre no falar e no coração amigo do amigo. Porém tem bem mais desdobramentos.
Curiosa e engraçadamente Cumpádi revive nos minutos nas horas quase nos segundos quase nos anos que se seguiriam ao horror da dor e da extinção; ah a extinção... o Zé, todos os seus e quem sabe os que ficaram junto à Cumádi, o Zé tem um terror no horror do passamento. Contudo o Cumpádi tava ali aqui a seu lado a todo momento, agora num viés interessante e só conhecido dos do compadre, dos de sua familinha a mulher e os meninos um pouco, visto estes não serem vistos ali em casa a casa deles mais na rua e isto com certa gravidade; e logicamente o Zé ele mesmo ter ciência por ser o centro da casa (não obstante temer a língua dela; não a da casa: a da Maria). A questão fundamental, além claro da amizade sempre solidificada com o passar dos anos, a dita questão enfim era fora e é o carro.
Nisto entram as confusões. E qual o ser humano que não tem o seu exemplar confuso desmanchado por superposição dos exemplares de confusões doutrem!?
A mais importante delas é que o Zé deu ao fusca além de chamá-lo fusca mesmo e carro, deu ao veículo batismo de Cumpádi; não registrou no cartório no templo, lógico.
Sim, esta uma confusão na confusão e foi dessa forma o renascimento da continuação de uma figura querida pelo Zé: a volta do Compadre Tonho. De maneira que o carro passou desde então e até na prosa caseira a se chamar Cumpádi. Quase, só quase, enterrou a memória do morto em vivo a viver a seu lado, a conversar consigo diário lá no Cumpádi lá no João aqui na casa; e agora maismente na oficina improvisada onde a repousar um belo importado (até prova em contrário) novíssimo e ainda com cheiro de agência (segundo a imaginação do Zé).
Cumpádi & Cumpádi.
Curioso também agora o novo feitio, a nova apresentação do mecânico amador a cuidar de Cumpádi.Traz sempre consigo na volta do serviço lá da cidade alguma ferramenta por onde passa, uma chave qualquer; e no bolso traseiro, onde deveria o lenço e a Maria a dizer que o marido perde derruba por aí o dito e agora inexistente lenço, não tem nesse bolso mais um lenço, tem estopa; ah, e quando não meio úmida a mecha melada de graxa, é claro pois serve a remover graxa naturalmente; a estopa molhada com gasolina, a cheirar (e aqui no fazer o dono também cheiroso, mais uma vez reclama a esposa) a terem estopa e homem ‘perfume’ de gasolina! Todavia as coisas usuais perdem cheiro e forma originais, desmanchado tudo pelo tempo; se incorporando à gente. Ao Zé por exemplo.
O Zé pensa... Naquele dia, distraído ou consumido pelo acúmulo de preocupações e a estourar por elas, num lapso bobo se dirige ao carro como fosse o Cumpádi. Depois morto o vivo, vive a reviver na lembrança o amigo, e o amigo do amigo resolve, aí conscientemente e acordado, trocar o que mais amava; então se assustou e assustaria a cara-metade pondo bem mais de metade do apego ao compadre que à esposa; passando a denominar aqueles olhos do seu ser como Cumpádi. E se apelido, Zé por exemplo, pega fácil na rua na boca dos outros, a alcunha pegou. Assim todos do círculo estreito a entender que Cumpádi não é mais Cumpádi, Cumpádi o carro, o qual não mais é carro. E daí não deduzimos precisar escrever, não “Cumpádi mas cumpádi”? infere a Interrogação. Sem que nisso dito possa haver ofensa ao fusca; porque medidas as coisas vai ver, diz o Zé, vai ver que até gostou, gostaram ambos. Aliás Cumpádi de antes e Cumpádi de agora tinham já também mútua simpatia. Na verdade não poderia o agora Cumpádi-filho (filho em parte; a parte de uma verdade não é também verdade? os pontos e vírgulas as exclamações que o digam) em suma o agora Cumpádi não poderia inclusive tomar a bênção, que o caboclo desfigura por “bença”, ao velho-morto-Cumpádi! A origem dessa ligação sentimental podendo estar no esforço do compadre de Zé trazendo sempre peças pesadas na carroça de pneus ao compadre, à oficina-dormitório do cãozinho Peri.
Cumpádi já responde por um vistoso automóvel – retalho, “malhadinho” na ferina língua da Maria. Lustrado, ilustrado seria dose afirmar... apresentável enfim. Mas ainda sem forças em cima dos cavaletes, por faltar muito nesse muito, ou muito pouco ao desejo do Zé. O Zé elogiando: Cumpádi tem hoje uns olhos lindos! Cintilantes? Isto exagero da Interrogação; mesmo porque um dos faróis um tanto fosco e sendo de outro tipo de carro; claro tudo ser de outros, aqui de um veículo doutro ano de fabricação. Considerando-se que a cada ano existe um lançamento novo e mais apetecível ao público consumidor, e como consome! a tal veículo ser ‘novo’, basta uma protuberância diferente doutra doutro ano anterior ao ano de exposição, pronto: novíssimo modelo. Isto próprio do consumismo devorador de ingenuidades, com pouquíssimo ganho ao progresso tecnológico. Ora, o que menos interessava a Zé, por desconhecimento embora, era exato as conquistas tecnológicas. O que desejando o homenzinho já a nevar o cabelo era apenas ter um carro rodando devagar, pela preguiça e lerdeza e desastrosa corrente do centro urbano engasgado no excesso de trânsito. Queria um veículo tão somente a se livrar do espremer no corredor de passagem e mais ainda se livrar daquele engraçadinho chofer a lhe impedir entrar com uns santos vidros da porta de carro, ah e que carro! lindo de morrer. Morrera Cumpádi, Cumpádi ativinho da silva.

11° - Cumpádi vai à luta
Não o carro – Cumpádi sim anda a andar no trânsito caótico por aí, se firmando como um carro inteiro ligeiro maneiro no seu peso comparado às jamantas de mil rodinhas e sequer o trânsito permite movimentação em trânsito no trânsito do centro urbano aos veículos leves ágeis imprudentes como motocicletas, estas que passam ao lado de automóveis por cima por baixo enquanto o auto emperrado no trânsito; porém isso tudo se passando na cabeça (“dura!” do Zé grita Maria) tudinho na sua cabeça mas não o carro, o cavalo...
Ao ser comum, desses seres que tudo veem por alto por cima por pele externa em superfície tudo é cavalo, mas não é. O muar mais presente nos que deixaram, forçadamente ou de livre e espontânea vontade a roça para virar roceiro urbano ou seja um urbanoide rico no comum dizer “nóis vai” e melhores discordâncias na concordância – ele tem mais contato com o muar e não com o cavalo que pasta tranquilo nas imediações de Cumpádi, ali estatelado nuns cavaletes e ainda a sonhar um dia circular a azucrinar o guarda no trânsito capenga e caótico de nossos dias. Não também o burro, “o burro do Zé” diz ela à Cumádi, arranjou foi a mula... desses negócios enrolados que o Zé fez e faz e vai ver trocará a diaba coiceira por uma porta de carro pra carro... não Cumádi num é ‘porca’ porca é que não é porca, dessas de gemer e gritar comida e engordar e dar toucinho torresmo não: os homens (fala “us ômi”) esses burros chamam de porca a cabecinha do parafuso, falei foi ‘porta’, o Zé comprou porta num desmanchador de carro e a coisa não encaixa pela ferrugem e quer outra porta, outra agora que o fusca tá pronto, quase pronto e vai que trocará a mula por outra parte ou porta mesmo ao malhadinho, cada parte da lataria é de um carro diferente de cor diferente. A mula.
A mula o Zé sonha estar nela – já que o seu automóvel último tipo ainda não completo pra rodar após anos batendo martelo – sonha bem arreada confrontando no desfile lá na avenida em meio a trinados nervosos do grilo de trânsito e buzinas proibidas acionadas no desespero da gente; e a gente montada garbosamente na mula último tipo (“num falei que é louco!” diz a Maria e qualquer um que leia estas linhas a afirmar o mesmo do mesmo caboclo). Contudo vem um problema; os problemas são solucionáveis, este insolucionado: o veículo empaca! os pontos e vírgulas as exclamações não pretenderam o verbo emplacar; aliás nunca seriam doidos os funcionários no fazer a vistoria aceitarem emplacar mula. Empaca. Parara ela em baixo o Zé garboso vaidoso em cima na frente do sinaleiro. A mula educada, não é mula de terceiro mundo não, educada parara no vermelho; um mundo de tempo século milênio a abrir para amarelo atencioso e verde no “deixa que eu passo primeiro” todavia isso não surte efeito e não anda. A mula empaca, teimosa, não engata primeira marcha não marcha. Todos passam olham xingam uns gozam outros ela firme. O Zé coça a cabeça, ou chateado na qualidade de chofer ou por sabê-la mula, portanto teimosa, teimosa desde os idos na roça e até ali lá em casa pastando semelhante cavalo pertinho do fusca enganchado nos cavaletes – quando teima, não anda olha, olha só. O Peri ladra horrores nela, ela quando muito dá-lhe uns coices não acertando a boca canina disparada e daí vindo a canzarra a auxiliar ladrar ao dono da casa, chamado Peri. Nundianta, diz o marido da Maria: ela não anda teima ficar onde ficar. O onde agora é aquela ensurdecedora migração de carros indo aos seus respectivos paraísos fiscais... ele no inferno, ele o Zé, ela não arreda pé. O Zé xinga-lhe a mãe e a mula num tá nem aí lá no centro e o farol já mudara mil vezes suas cores em rotina e sequência vermelho-amarelo-verde-vermelho ela muda nos pés não muda passo. Aí vem o guarda; azedo azeda o caldo daquele matuto-cidadão e, aí, agora é que não chegaria à obra aguentar o engenheiro e assim lhe dando mais razões para demissão por justa causa. Chega o grilo, não grilo grilo não tem mais, agora é o servidor fardado se pensando no alto escalão da autoridade; traz consigo a terrível arma do talonário de multas e a caneta portanto armado até aos dentes, embora elinha esferográfica estivesse antes encavalada (emburrada teimaria igual mula a desencaixar do orelhão do guarda) encavada na cava da orelha esquerda, tira a arminha esférica sextavada, rosna importância e vai multá-lo deveria ser ‘lá’ não ‘lo’, ela a teimosa infratora...
Contudo e enquanto não desembucha a mula, à espera da abertura do verde (da esperança!) enquanto, o Zé ela nem vendo veria violeta roxo preto o verde? bem, o Zé sonha andar em trote ou passos marciais lentos compassados medidos puros, gratos, gratos à vaidade do condutor um homenzinho proprietário dum fusca chamado Cumpádi agora a dirigir a mula que o dirige, anda ela a desfilar a provocar ciúmes nos inimigos do Zé: faz careta ao mestre de obra, sorri vitorioso diante daquele legalíssimo profissional do desmanche que não lhe permite adquirir um motor de arranque por não baixar o preço sendo que o trabalhador tinha miúdos não graúdos na carteira de dinheiro sem dinheiro quase; o motorista teimoso, mais teimoso que a mula, a lhe impedir entrada na entrada a si saída porque o Zé teve que descer do ônibus no degrau de subir: fez-lhe fusquinha, expressão a dizer gozação e ao mesmo tempo rebaixar o adversário gratuito ao volante. Faz mais agora o Zé: mostra-lhe um vidrão de porta de fusca, do tipo certo do certo ao certo ano do seu fusca; exibe o vidro ao outro a lhe dizer sub-repticiamente “este de transparência 100% de Primeiro Mundo, oh mequetrefe!” Aproveitou o Zé ainda em cima da montaria, teimosa sim porém montaria se andasse... Se andasse exibiria importâncias mais aos outros empecilhos ou seja demais contrários à boa circulação de peças que o Zé comprara a duras penas e com muita negociação de comerciantes sempre atentos às leis ao recolhimento ao fisco faminto a injetar alimento ao custo-brasil. Não. O cumpridor das normas de trânsito, a rabiscar pedido de propinas no talão de multa não permitiu tais devaneneios ou desvarios, quer dizer: lembrar tantas mães de tantos (contrários à boa vontade do Zé) num mostrar sua vitória como cavaleiro, embora em mula. Entretanto tudo foi facilitado ali naquela hora do teimoso semáforo impedindo a mula andar: o guardão recolheu a eguinha a burrinha a mulinha a teimozinha ao pátio do Detran. Por essa razão o Zé acordou.
Acordou ainda ao lado do fusca quase completo ainda nos cavaletes. O Peri xeretava a seus pés em agrado; a mula pastava seu capim tocava seus insetos voejantes com o rabo pra lá pra cá. O Zé meneou condenando a bruta, não a Maria a Maria chegava com o pequeno vindo da comadre.
Tem vez que a gente é semelhante à mula. O Zé não queria (queria sim, não se dispunha mexer-se) mas não saía do lugar. Andava parado nos seus pensamentos, via não vendo a mulher e o chorãozinho a chegarem, via outras coisas. Ao lado do Cumpádi ali abrigado na oficina improvisada do Peri, ao lado, como vivo fosse fosse vivo fora sempre meio tímido contido o compadre, lembrava com saudade o Cumpádi mesmo.
Interessante, Zé, Zé diz a Zé, interessante que por mais reveja o Cumpádi onde sempre estivemos ambos nunca o vi rindo... Não. Aí o Zé pega uma vez Cumpádi em calças curtas: o homenzinho rindo, rindo apenas não gargalharia e decerto não soubesse gargalhar: ria-se do Peri. O Peri defecara ali encostado e após se limpava raspando a sujeira no chão sujo! Os dois compadres acharam graça. Aí a Maria chega e estraga o momento cumprimenta o compadre, pergunta dos seus e emenda uns esquecimentos do Zé, o Zé promete trazer a encomenda na outra segunda-feira, dia de preguiça, preguiça até da memória, isso foi outra coisa das coisas corriqueiras do viver nas faltas da periferia, onde não tinha se não o João pra fornecer caríssimo ou precisava andar buscar as coisas na periferia rica, pobre também em fornecedores honestos. Coisa de se não rir.

12° - O centro urbano visita a periferia
Por mais que se queira... queria decerto o João vender no boteco do tipo boteco de um tudo, vender sim dentro dos padrões de honestidade, suas curtas letras impedindo registrar a dívida e a dúvida e assim a mulher ativa dele era quem o esperto no fazer crescer o pindura dos caboclos da periferia pobre, como o Zé por exemplo; o casal botequineiro tendo perdoado certamente uns biquinhos que o Cumpádi deixara apressado ao cemitério, não em visita. Em visita ali à pobreza poderia ser agora a vez da periferia rica, rica em ruas decentes canalização asfalto IPTU e comadres. Não isso, vinha sem intermediações o centro urbano. Porque numa comparação mais ou menos correta, a periferia vivia largada à sorte do azar do Zé, da Maria, dos vizinhos pingados – largada a periferia pobre, pobre também em moradores embora já velha: todos os poucos melhorzinhos chegavam mudavam-se logo à rica onde mais recursos, não enfrentariam lógico o centrão comercial e administrativo caríssimo no seu metro quadrado sempre lá nas alturas a impedir; essa periferia velhíssima mas pobre ainda e com poucos pobres; o absurdo seria que houvesse um louco ou fanático endinheirado a residir se entrincheirando nessa periferia pobretona! Pobre sobretudo nos benefícios que uma cidade oferece; e oferece também imediato o lançamento e mais imediato a cobrança financeira; aqui a porca torce o rabo, diz o Zé a criticar os vizinhos, “nundianta, us vizinho num paga” não pagam os moradores; a justiça não executa na dívida ativa (e que tomar! choupanas? casebres feitos por anos?) Assim a pobre permaneceu não só pobre mas mais pobre por abandonada.
No entanto um dia acordou, sonhasse a periferia da meninada do Zé e a do Cumpádi então sua herdeira – e herdeira de quê! não tem aquele negócio do ladrão não levar de casa pobre só o esqueleto de fusca também não: não levar mais que susto... Enfim a todos moradores restava pobreza como um todo na periferia; oh, acordou. Não se trata de o Zé acordar de uma ‘viagem’ por exemplo, ao lustrar um carro importado e isto não importa: um dia acordou com máquinas lindas, opinião da molecada, máquinas de terraplanagem de fazer não apenas barulho porém montanhas com a terra vermelha a cheirar exalando o machucado que elas produziam na terra sulcada. E cavaram a rua, a rua sem nome ou com nome sim no papel e muito desconhecimento do morador também nisso. Então virou via pública viva, ah viva! aplaudiram. O Zé fez mais que os outros vizinhos, os vizinhos então no trabalho na cidade: não fora ele ao trabalho. Esqueceu momentaneamente até o fusca por nome Cumpádi, como seu Cumpádi; esqueceu a tarefa mecânica que executava por logo se lembrar do benefício enorme daquilo que via ao seu carro, o carro a correr ao menos se movimentar no asfalto cheiroso ao sol fumegante no fumegante piche pichado em negro no solo! e objetou assim: que importa grudasse um pouquinho nos pneus, se isto já ocorre na passagem no centro urbano, este que agora faz uma visita beneficiando a periferia (a qual não feria Peri, gozou-se na graça sem-graça o próprio Zé, este um fabricante de automóvel). Ora, não se vê todos dias remendos e recapagens nas avenidas centrais da metrópole? e os veículos iriam parar apenas a se defenderem de pedrículos e tintas pretas do solo? não, é claro. Aí Zé olha o Cumpádi ver se Cumpádi também olhando curioso as máquinas a escarafunchar a terra ali perto; e assim Cumpádi logo... – estas reticências não querem confrontar os dois pontos os pontos e vírgulas as exclamações, não querem, querem mostrar que depois de muitos anos, isso deixaria ser rua nua de terra com placa indicativa de nome sim e o Zé arriscaria pôr uma para lembrar o pai ou o avô dele mesmo e não: a ladrona pôs de fato placa com nome do genitor dum político, pai e filho desconhecidos na agora conhecida rua “Rua Desconhecida”; deu até indicação registro de nascimento e feitos do desconhecido e, claro, seu escuro passado como presente ao futuro de toda população passante e moradora da periferia pobre. Não tem importância, justifica o Zé, um dia... Um dia demorou anos e virou asfalto com luz de mercúrio arregalada à noite para as mariposas brincarem livres em cima, em baixo a passar veículos motorizados, como por exemplo Cumpádi lindo de morrer, “malhadinho” grita a teima da teimosa Maria. E mais nesse mais mesmo: por baixo primeiro canalização de água limpa, suja sujavam as falas populares e lembravam a ladrona; e bem mais tarde, dizem os cabelos brancos do Zé a narrar e recontar aos netos, bem mais tarde os canos de água suja. Fedorenta lamenta à parenta a Maria ao falar sobre o esgoto.
Ah a periferia sentiu, devagar mas sentiu, a passagem do centro por ela. Agora também mais populosa com as benesses da urbanização.
Enquanto durou a pobreza, a par da construção dum carro de primeiro mundo, aqui exagerando um pouquinho; enquanto, foi o inferno o paraíso aos meninos.
Por via de dúvidas, não a da melhora da periferia mas pelas modificações havidas com suas consequências sim ou não naturais – ocorreu um prejuízo considerável... aqui tão devagar as mudanças e a par da lentidão das mudanças a rapidez das cobranças pela atualização dos tributos (“num falei que é ladrona!” gritam Zé e Maria assustados a duas vozes as quais não se acostumavam casar-se e agora em dueto negando o governo como bons cidadãos brasileiros) sim um prejuízo não só pela nova taxação porém havendo o pior: a oficina. Diz a advocacia mancomunada à justiça, esse terreno é legalmente pertencente ao doutor... Assim encolheu a propriedade do Zé; deveria estar fora de uso o uso-capião! ela encolheu a somente ficar a casa dele e uma tirinha de terra de cinco metros de largura na frente até à frente da Rua Desconhecida, pomposo topônimo de galardões históricos do grandão bem situado com os seus na História do país, ambos desconhecidos tal qual o nome da placa da rua que nem os filhos do casal sabendo; e moleque costuma saber de tudo.
Tal problema desnecessário realmente saber, pois de fato a ficar tudinho como antes e antes dos abrantes inclusive. Porque o imbróglio ficara abrigado na papelama (esta a discutir bravamente com suas entranhas, uma litigante a dizer garantir provar a prova ser do doutor; a outra parte não provando nada mas vivendo in loco desde milênio e após milênio mais um mileninho simples habitando ali, leia-se Zé e Maria). Contudo permanece o Cumpádi, o Cumpadi! e permanecem o Peri ali com suas pulgas, os cavaletes cansados visto pesar tanto um fusca na cacunda da gente! (assim reclamam os paus dos ferros e até chiando pelas bravatas do feliz proprietário desse carro cheio de dedos, bravateando por cima dos choferes de ônibus e desmanches enganadores). Sim, Cumpádi permaneceria na mesma área com galpão construído ao improviso a balangar ao vento à chuva para defender um carro, lindo de morrer a repetir acertando desacertos de linguagem. Permaneceu e já não precisando tal artifício, o dos cavaletes: o fusca pronto a rodar por cima do negro asfalto!
Nem os moleques da casa tomando conhecimento dessas desgraças da família, se desgraças, ou conquistas caso vitórias; e toda vitória que se preze deve e tem que mostrar a cobra e o pau de esmigalhar a cobra. Não tomaram conhecimento também destas linhas sobre os fatos expostos. Porque menino não tá nem aí. Os pais falam – a Maria enchia o saco, não só do Zé, a falar dia inteiro deles pra eles, eles num tavam e nem estavam mais tendo ido à baderna, ela mãe a reclamar sozinha, eles já longe perto na rua... rua sim, agora no depois virando rua mesmo – os pais esbravejam e acabam a falar dentro do casal na casa do casal, a casa de janela aberta abertamente então enamorada dum Cumpádi lindo de morrer, a viver com ela um caso de amor e daí a viver completos enfim. Falam, disparam a tempestade na temporada de caça aos filhos, os moleques molequeiam na rua...
A periferia pobre oferecendo mil áreas livres não ocupadas por construções, havendo poucas residências inteiras, a viver tal qual o carro iria viver! mas paradas e nem solidamente plantadas no terreno; eram poucas residências, embora bem poucas choupanas, as mais das vezes havendo tal qual a do Zé e da Maria um prédio frágil, assentado tijolo por tijolo ano por ano anos seguidos em construção, num bater e barulhar pedreiros no fim de semana, pois durante a semana o trabalhador sendo da obra na cidade, se empregado. Frágeis e feias todas, o que enfeia e caracteriza a periferia, onde não se toca o puro em arquitetura e o belo na apresentação. A periferia enfim não passando de uma ‘malhadinha’ tal qual o ‘malhadinho’ carro no estaleiro do Zé no dizer mariano. Feias e casas poucas, muitas áreas vagas à brincadeira (sadia até prova em contrário) e então o mais velho com o mais novo da prole do Zé a viver correr gritar brincar fugir sumir por entre outros do bando a molequear sem peias...
Sem peias?
O que deseja a Interrogação que se faça num bairro paupérrimo e na extensão do mato que já não existia quase antes e agora não mais existindo! A mãe trabalha o pai trabalha. Sim ele anda acha compra deve traz encaixa conserta acopla emeleca lustra limpa acerta e ufa ah uf! oh que beleza de Cumpádi me saiu o Cumpádi e sonha o trânsito – não iria sonhar com engarrafamento com guarda com xingo entre carros os motoristas uns anjos nesse drama, ou seria pesadelo não sonho, ah o que fazer dos poetastros bobos soltos por aí no mundo! – sonha o movimento garboso dum garboso carro. Conquanto possa andar no sonho, trabalha nas horas vagas não dedicadas ao sonho, trabalha ele fora, ora! trabalha na obra na cidade quando não desempregado. E a mãe! puxa Maria não trabalha somente de língua não: ela se despedaça se exaure na luta se desprende se deslava no lavar e levar roupa, se entrega à labuta ou então a casa não come, come sim as ‘economias’ da casa o carro, comendo o esforço do Zé; e a família precisa alimento remédio roupa; e luxo? um luxinho dum sorvete de vez em quando ou a compra dum cosmético que Maria viu quando veio da faxina no centro à periferia e que as outras mulheres compram e daí comprou. E tevê. Quem vive sem tevê? – uh que sorte não terem ainda vicejado à época os aparelhos eletrônicos, velhinho já o casal nunca soubera celular nem outro qualquer abuso da sofisticação tecnológica – sim quem vive sem show e novela e propaganda e tudo, nada sem gastar dinheiro? gastar por exemplo comprando televisão. E o que discutir então com as vizinhas se não o que deu na tevê, enquanto o esguicho esguicha a rua e o caldo negro da sujeira indo em rio pra baixo à rua debaixo, tadinha da Cumádi... tadinho do Cumpádi agora só a Cumádi, tadinho dele que morreu e não viu tanto benefício na periferia de agora; agora têm também correndo uns loucos nos seus carros na rua e ele, o Cumpádi, não teve tevê nem essa benfeitoria, morrendo! Eles não.
Não os meninos, sequer imaginam tais sofrimentos tais conquistas.
Os meninos cresceram, talvez não tão rápido e semelhante Cumpádi anos no estaleiro por sobre uns cavaletes; cresceram pulando, largaram as calças curtas que se usava nesse tempo por outra doutra época: calças compridas a encompridar menino se pensando homem já (isto os adultos lendo onomatopaicamente “mijá” e não homem já, na deturpação cabocla) e depois ainda a usar shortões com barra até à canela. Em toda indumentária sempre mas sempre de fato as sujeiras. Maria: “ocêis num tira us bachêro!” Moleque tem o dom de sujar imediato, imediato e nem sabe quando onde e quando muito quem, que é sempre outrem o culpado, quem enfim fez a arte: imediato rasga o pano, ela conserta ao concerto com remendo do tecido velho tietéc-tietéc na máquina de costura que o Zé comprara por descuido no gasto primordial com o carro; tietéc-tietéc a coser a roupa e eles furam o remendo também. Não apenas isso, o mais grave é a sujeira mesmo. Um dia o menor com o maior, vindo sem camisa de volta ao estágio do lar ‘doce lar’, pois mais morando fora de casa, não parando em casa, sua casa a rua sem nome com nome embora e depois com placa de figurão e rua de terra solta; soltos e quem segura criança! Criança? molecões sem a alta posição da baixa educação no ensino oficial frágil e pela distorção da família sem recursos. Molequeavam por aí; e em casa caso a turma na bola que rola a bater na lataria do fusca e aos gritos primeiro deles entre eles e depois grito do Peri e, por fim, sumiam de novo com os colegas, amigos se se possa forçar, indo para onde ir. Capoeiras e esconderijos de personagens de cinema, heróis com capas de saco de estopa velho e sujo; e que isso importa a moleque no clube que viria a se chamar do bolinha!? Aprendendo nessa escola. A escola propriamente, a do governo, essa seria sem continuidade e de frequência sempre a desejar (menos ainda com ensino de fato); a escola ficando na periferia rica; e não é que depois a ladrona construiu uma na pobre! o que não adiantou aos de Zé por já formados na escola da rua, sendo então adolescentes grandalhões; portanto irrecuperáveis mesmo à época... Se bem que isto bastante discutível.
 Nem sendo um belo tema. Sequer pretensão duns pobrinhos pontinhos e virgulazinhas tratar do tema; só para constatar.
A família do Zé não se entende mais, mais não: nunca se entendera, não apenas nas coisas conjugais: agora são quatro e quatro é maior que dois, sem ter isso de onde um não falar dois não brigarem. E como se desentendia a família, sobretudo quando forçados ou por livre iniciativa os jovens à procura de emprego, na crise contínua que sempre viveu e vive a camada pobre da população. Nem o emprego nem o futuro interessam agora naquele agora.
Deixemos essas prováveis distorções, se puderam as distorções distorcerem fatos, para vermos tão só Cumpádi.

13° - Considerações mal consideradas
Nós plebinha ignorantinha podemos nos calar... a Interrogação afoita e Eu? ela pergunta; nós Irreverentes pontos podemos, diante do Zé vendo o que vê! vê a periferia rica – a pobre enriquecera pelos cuidados da ladrona pichando ruas com asfalto, pondo água a secar agora nas gotas da torneira e sem força forçar o líquido subir lá na altura da caixa escondida no teto de telha velha e valha! valha-nos Deus: até laje a casa tem, laje e água fresquinha com cheiro forte de cloro na caixa. Vendo isso tudo mas aqui é dose o Zé ver, não vê, sabe apenas dos tubos de plástico de esgoto a atirar, eles indo inda no solo em subterrâneo, atirar o esgoto sujo e fedorento do Zé e da família do Zé lá no itaimbé; ele pronuncia e todos moradores assim “buracão” ao vale do rio, o rio que comeu mais ainda que o fusca o dinheiro do Zé, o rio engolindo por milênios pedras pedrículos e areia e daí (seria em vingança do homem!) daí o homem atira as porcarias do vaso sanitário lá embaixo. Não. Não foi bem o homem pobre a urbanizar a periferia, a pobre ladrona quem fez o serviço. Agora, agora de hoje, o Zé acorda surpreso à realidade que vê e vê diante de si uma periferia rica acoplada na periferia pobre de antes, de abrantes? é, deve ser; a Interrogação não será tão bastarda, porém se não for versada em caipirês puro não entenderá isso nem a linguagem disso.
O Zé olha assim o por fora. Dentro dele ele se pensa bom, um bom homem como demais pensam os demais seres humanos puros certos, deuses! e aí José Benedito decerto da Silva ou Gonçalves ou Almeida ou Souza (aqui já dito com zê no registro o souza do Zé) aí o José vendo tudo ao seu redor nesse domingo, no sábado não teve ânimo teve tevê, assistindo o jogo e a preguiça descartou o remorso por deixar Cumpádi ao Peri e às moscas, enquanto assistindo seu time de futebol perdendo e quase a descer para a segundona – sem coragem, não a equipe o Zé – e se volta pra si, não iria somente viver o carro, o Zé existe, o Zé então se pensa bom. Especialmente comparado com o vizinho arreliento enfeando a Rua Desconhecida e a periferia pobre, por mais rica seja sendo abandonada pela ladrona, a qual só pensa taxar roubar tomar casa e terreno dos pobres bons... maus não pagando atrasos. O sujeito é brigão (não é por se mudar que um briguento desvira pra ser ‘era’ e não mais ser) sim é brigão, briga com a mulher, é claro: quem não briga! briga com os filhos dele (dizem comadres que não são dele...) briga com os filhos dos outros vizinhos; o mais novo grandãozinho marrudinho respondãozinho do Zé se desentendera primeiro com os filhos dos outros e depois levou “chapoletada” do homem; bem entendido, figuradamente, se de fato batesse, o Zé viraria fera fá-lo-ia picadinho, não fosse o morador vizinho grande gigante brigão e com tal gente a gente não se mete e não se mede se afasta; daí bateu o Zé no próprio filho que apanhara antes do vizinho. Felizmente se mudou ontem e a casa nem era dele; deixou o imóvel, fugindo do proprietário louquinho por receber aluguéis, fugiu na madrugada, e assim fora um alívio ir-se embora, deixando poucos badulaques imprestáveis e muitas baratas e cheiro ardido de baratas, as baratas tontas perdidas nas sujeiras poeiras ligeiras elas ao chinelo e aos gritos da Maria – e se elas, ela diz, se fugirem pra nossa casa empesteando tudo! – e com gritos e sem gritos paira agora o silêncio; nem sequer ouvem o som das vozes das outras vizinhas, isto porque já se não davam elas com a Maria e muito menos dona Neguinha; Neguinha? que importam nomes na gente a gente tendo mais e melhor piores atos? O Zé se pensa sim bom certo correto no que faz, e a se descontar e se considerar os seus deslizes, mesmo assim superior ao pitecantropo grosseiro qual o vizinho, ex-vizinho, uf!
Se se visse – que azar seu a Maria enxergar bem... – se, ver-se-ia um autêntico trabalhador, fora agora despedido tendo já em vista outra colocação... aquele negócio do fazer intelectualmente perfeito o zé-povinho imperfeito e quase analfabeto, e talvez nesse novo emprego recebendo menos que o mais do anterior e menos ainda que um desempregado, enfim é um trabalhador; trabalhador velho ou gasto, cabelos brancos, brancos os poucos fios cobertos pelo boné ou boina ou chapéu; enquanto que não sendo o caso da Maria, ela tinge cabelos, tinge até na frente do esposo sem temer gozação dele nem dos meninos, não deles eles sempre longe na rua; o Zé vê a esposa se renovar remoçando aparências na velhice bem conservada por fora; vê ele por dentro e faz que não vê o tingimento (fingimento também não: o costume a rotina camuflam o fingimento e se não vê quando vendo). Todavia a mulher e o homem ambos mais ou menos idosos, ou desgastados pelo tempo. Já o Peri não pinta.
A gente diz “pinta” no sentido de parecer, de estar presente, aqui é de pintar mesmo, quer dizer tingir o branco em preto. O outro, outro Peri, agora um novo cachorro, velho na vivência; o outro malhado e ficou esbranquiçado envelhecendo, não do óleo das porções de graxa recebidas por estar sempre debaixo do Cumpádi dia e noite enrolado, a preocupar decerto ladrões de veículos. Este Peri de agora ainda novo branco no pelo na pele e certamente terá a sina do velho cão: o antigo perdendo a visão a audição e o que mais grave na raça canina, o focinho... seu olfato já não funcionava e a Maria precisando dar-lhe mamadeira tal qual criancinha; então não fora o carro maluco a passar ali na rua que o atropelara, quem atropelara o amigo fora a idade. O novo é novo e vivo nos pés do amo velho.
Não chega a ser deslumbrante a paisagem do ambiente que o Zé vê em seu entorno.
Tem ao seu lado uma construção então à prestação sem conclusão, acabada parcialmente acabado o dinheiro, e no caso da casa do Zé o dinheiro nos últimos anos direcionado ao carro. Ai o carro.
Tem o Cumpádi ali ao lado também, oh que lindo e até já pôs (caso falasse falando a outrem diria no puro caipirês “ponhô” o pôs:) pôs pneus... cheios, cheios de ar como é lógico dizer, as rodas de ferro enferrujadas enferrujando ao batismo antes pelo outro Peri, o Peri novo mija bem nelas também. Enfim um carro que se preze, preza o dono proprietário artífice mecânico construtor e – sobretudo – conservador do bem, um mal, interfere a Maria. Ela olha o malhadinho, enquanto o esposo vê agora a perfeição na feição de máquina automotiva.
 Em suma vê a casa e o ambiente em volta, e xô vizinho! mas vê mais o automóvel; curiosamente ainda não móvel e menos por força não do destino e sim do motor; sim, tem sim motor além das rodas de borracha no chão – ah a coisa um descanso aos cavaletes cansados, podres também quem resistirá ao tempo, lamentam ou se defendem as trempes de madeira que seguravam o esqueleto dum veículo costurado no estilo frankestein. Vê isso.
Isso e mais, muito mais ele teimando no muito, o menos ficando por conta do Cumpádi. As ruas, não só a Rua Desconhecida, conhecida do fisco, ai a ladrona... Elas são asfaltadas, apesar de já no primeiro apagar velinhas velhinhas porque a camada fina de piche com poeira de pedra se soltando; e nas ruas mais pra baixo nem isso, por estarem elas a olhar sem vertigem o buracão engolidor de enxurrada e havendo uma bica eternamente mijando lá embaixo cocô e fedô – estão ainda descalças tais ruas esburacadas intransitáveis. Olha próximo a sua, conhecida por Desconhecida mas conhecidíssima do Zé por morar ali. Então o Zé examina a sua e poucas outras ruas mais. Observa terrenos vagos, locais próprios a despejos e onde os meninos escarafuncham à procura do encontro de tesouros, estes nos badulaques atirados, e outros tesouros da imaginação deles. Ah sim, tem carniça; ratos etc. etc.. ‘Vê’ até o cheiro que se alevanta no calor. Contudo é sim novo ambiente a periferia velha, pois salpicada aqui ali de casas de blocos inacabadas; tem bem mais construções que antes, antes dela ser guindada à rica. E, ah, oh, ih, uh como hoje tem... carros – não cumpádis louquinhos a disparar nos buracos do asfalto não; trafegam carros que não sendo embora com cheiro de agência de veículos primeiro-mundistas, são veículos usados usáveis, ou por outra: não desmancháveis se desintegrando e se desfazendo em circulação (que importa caso documentação vencida imposto atrasado, importa à ladrona e mais ao governo estadual pelo Detran). Esses tais barulham seus motores e seus respectivos sons, como fossem não só os de Zé e sim o restante da humanidade surdas criaturas e daí berrar alto gritos ‘musicais’, a ponto fazer tremelicar bibelôs da Maria, a Maria não possuindo bibelôs a exibir ao gosto da visita burguesa. Vê isso. Isso o preocupa, olha pra lá pra cá temeroso e comenta lá dentro da cachola “cadê os meninos?!” dizendo sim aqui dentro mas pronunciando fora, labialmente, porque o homem comum não sabe falar silenciosamente o pensamento. Aí a Maria escuta. E solta os cachorros (expressão a dizer o falatório quase inconsequente) solta por cima dos filhos; ausentes.
O presente é estarem não de cabeça nevando, claro escura ainda, e não serem mais moleques porém jovens se pensando adultos pra valer e não valem sequer como homens medianos, que dirá probos e normais; normais! que seria normal no comum dos seres?

14° - Carro em agência de carro
O Zé tira a muda de roupa azeda põe nova limpa passada cheirosa (ah, a Maria como é prestimosa: lava passa perfuma guarda todas peças de casa) se põe novo para nova viagem... Antes apenas se enfeitara assim, cuidadoso, em duas oportunidades esse homem do povo. Primeira, indo pagar atrasado vencido o imposto e aí, enfrentar altos funcionários advogados com roupa esfrangalhada... Segunda e mais doída e doida quem sabe, chamado pela escola, a diretora braba por faltas e problemas com o mais novo do Zé. Não iria enfrentar a fera bem vestida mal vestido... Passara vexames nos dois episódios; o normal (que seria ‘normal’?) normalmente sempre o trabalhador na indumentária de todos dias, mesmo em seu caso a Maria lhe pegando no pé a ‘elogiá-lo’ porcalhão. Agora no dizer do tempo ‘é mais cruzeiros’, o cruzeiro a moeda da época. Mais, menos a consorte diria se dissesse. Bem mais: porque irá em desfile mostrar ao mundo Cumpádi!
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Pré-Viagem. O Zé se prepara à grande viagem. Antes disso a se dispersar no sonho. O sonho encontra por vezes o pesadelo, sempre inesperado aos poetas ele não um poeta um trabalhador; se bem a Maria coloque no sonho algumas pedrinhas de senões; por que gastara anos sem fim tanto num calhambeque próprio aos desmanches e mais adequado ao ferro-velho, a apodrecer na poeira no sol no sereno na ferrugem no tempo: e não a andar por aí feito bói com óculos escuros e a tentar aparentar rico. Diz-lhe na cara, direto, não é indiretamente a afirmar à Cumádi julgando e tencionando que um dia chegue às orelhas do cabeça dura não, direto mesmo ao interessado. Não concorda o interessado... interessado e não interessados, pois os meninos não estando nem aí com o pai e com o monstrengo que por anos a fio construiu o pai; talvez interessado mais que eles o Peri, o Peri morreu, adotaram outro e deram em casa o mesmo nome Peri, isso não mudando a opinião porque o cachorro concorda concordaria em número gênero e grau com seu amo. Com a dona não concorda, teme apenas.
Contudo a Maria não está armada até aos dentes de vassoura em punho, varre pacificamente a residência, quem sabe a enxergar o carro ali de soslaio visto da janela aberta de olho ela sim não olhando a ama mas voltada a seu namorado. A Maria nem percebe a preocupação de Peri, anda inclusive longe. Não tem vez que a gente vê e não vê! ‘vê’ o como receber das patroas e mais como quitar a conta no João (não vai muito com a cara da botequineira, embora se beijem ambas se falem se compreendam não se compreendem não se têm mútua confiança); tem uns bicos por fora também no mercadinho da periferia mais rica que esta rica, pobre por abandonada pela ladrona; tem com a ladrona igualmente acertos de atrasos que não adianta lembrar; pois nisso contar com Zé... O Zé desempregado aguardando o rábula entrar com a papelama da aposentadoria. Enquanto isso gasta ele horrores do que eventualmente consegue ganhar num serviço extra, visto nenhuma obra mais pegar ao trabalho o trabalho de um velho. Velho e um pouco lunático também, a mulher defende apesar a honra do homem diante vizinhos e conhecidos porém soltando-lhe os cachorros entre as quatro paredes... Não. Investe também no Zé ali fora de casa no terreno do doutor onde mantém sua oficina a lustrar o carro. O Peri? esse põe o rabo entre pernas e cumpre a ordem da gente: “vai deitar! Peri”
Agora mudou – a ficar tudo no mesmo? – engulamos a provocação; mudou agora com Cumpádi andando...
O Zé ficara semanas a testar o motor posto no lugar. Mexeu mil vezes no carburador na bobina, exímio lidador mecânico e elétrico. Elétrico? ora, até o contrário disso porque é lento demais; orgulhar-se-ia do seu amadorismo? amador e lento em tudo que faça, mesmo fora do uso do martelo de chaves e de todas ferramentas, a ferramentaria lhe custando o olho da cara e aqui interfere Maria, Maria interfere sempre nisso por isso; ou seja o desvio de verbas básicas ao básico no lar a enfiar (nesta altura perde a classe, tivesse classe, a xingar desabridamente com nome feio desses corriqueiros já quase santificados, contra o mecânico do carro gastão). Enfim o Zé ficou semanas ensurdecendo enfumaçando irritando a vizinhança, inclusive ofendendo quem sabe os mais simpáticos entretanto os amigos não falam nestes termos, ensurdecendo até aqueles com quem ela ainda considera da situação, os demais vizinhos de sua oposição. Resumindo, um barulhão tentando o funcionamento do motor. Então sobe o cheiro do combustível. Lamenta ela, a gente não ganha pra comprar gasolina a esse trouxa experimentar o funcionamento e não funciona.
Funciona, funciona sim. O Zé pratica agora uma pré-viagem. Experimenta experimenta... Aqui os meninos e seus colegas de nada fazer de útil e rapagões malvistos, aqui ajudam a empurrar o fusca pra pegar no tranco ou desenguiçar enguiços. Toda rua ou torce por eles ou apenas os vê nessa atividade, todo o bairro. Até chegar ao ponto de o Zé não precisar mais empurrar seu automóvel à oficina na periferia rica, pois consegue ignição e anda sozinho que é uma beleza, afirma entusiasmado o condutor daquele que o conduz.
Agora de fato pode mostrar a cobra e o pau de esmigalhar a cobra, cobra ou língua e isto não mais importa porque o Zé já se considera deflorado e apto como dono dum carro que fizera com as próprias mãos, mostra as mãos, a esposa caçoa pra lá pra cá de cabeça. Carrega gente naquele tipo de jardineira ordinária mas com presença (malhada, remendada grita a oposição conjugal). Sim parece um ônibus antigo cheio de passageiros, caronistas, a olhar curiosos os curiosos lá fora, indo o carro não apenas a se expor porém a conduzir a gente. Gastou o Zé um tanque – não estaria furado por velho já quando ainda no desmanche! supõe assim por não saber calcular; no entanto bota um pouco a culpa por esse desperdício no carburador desregulado a levar o carro beber muito, o dono já quase não bebe: o João nega cachaça com o pindura da botequineira a estourar números. Quem bebe desregradamente agora é o Cumpádi; Cumpádi morreu. Sim, mas Cumpádi se mostra garboso, novinho estando ainda com cheiro de agência, se mostra pelas ruas da periferia. Leva Zé todo mundo amigo passear de carro, com e sem pretexto. E, valha-nos mais um pouco Deus! uma vez aceita a Maria entrar naquele estofado a exalar perfume de agência – para ir visitar a Cumádi na rua de baixo... Não estaria gozando o Zé!? Ainda o marido a levou em visita aos parentes noutro bairro. Parente é tão bom... que melhor ficar lonjão; longinho um risco grande... Trouxe de volta a esposa; decerto mais alimentada com argumentos pró e contra o consorte. Retornaram, chegaram aplaudidos pela língua do Peri e pelos sorrisos e muxoxos da vizinhança.
No entanto tais esdruxulices ocorreram acobertadas pela boca pequena no conluiu contra a legalidade. Dizem essas coisas a gente, a gente não sabe e afirma do mesmo jeito; dizem que sequer o chofer tem carta, falam “carta” à carteira de habilitação de motorista. Nos arredores não há perigo algum por isso, visto não haver fiscalização nem guarda de trânsito; nem carros em trânsito, se bem que uns loucos aparecem correm barbaridade pondo em risco as crianças soltas na rua; já o Zé nunca usou de velocidade: enquanto nos cavaletes Cumpádi, explicável; depois também como velho motorista novo na direção não abusando do pedal do acelerador e até dando freadas bruscas e mostrando alguma barbeiragem... aqui nem sendo por prudência mas temência; e além disso dirige aos trancos, duro qual estátua de pedra no volante; falam que quem aprende a choferar velho não pega marcha, igual burro velho no varal; ele duro, tenso na direção. Tudo se perdoa, no bairro; ou se não vê ou não se conhece sequer a criticar um ‘profissional’ também amador na prática de conduzir veículo. Todavia Zé tapa a boca de todo mundo falador, conseguindo carteira de habilitação, embora na condição de motorista amador. E mostra o pau, não a cobra, a cobra é realmente Cumpádi ali alumiando bonito a pintura, pinturas levando a crer na lataria cada peça ser de outros carros e de diversas cores; daí a pichação mariana como malhadinho. Tapa, mostra, exibe, quase exige que se veja onde seu registro no rol oficial dos motoristas; a foto ficara linda no documento. Nunca também exibira aos de fora a certidão de casamento, só a Maria a uns compadres. No entanto a oficialização da papelada do condutor pronta, não pronta a do carro; o que lhe daria muita dor de cabeça a legalizar. Foi um pouco mais complicado e o desfecho não merecendo talvez prêmio... Contudo o Zé um dia se achou pronto a se pôr em exposição, exposição mais do carro que do chofer.
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A Viagem. Enfim o Zé deixa todos os outros do seu meio comportados puros e bons em casa e sai à Viagem. Veste cheiroso a cheirosa indumentária passada a ferro pela Maria – sim, o que é que os outros falariam vendo pra ver um Zé amarrotado! passou camisa passou calça passou cueca e até passou as meias dele; gravata não, não havia; fê-lo engraxar os sapatos; exigiu que pusesse boné que antigamente se usava como chofer e o dele a cobrir cabelos brancos – e, feito isso, quer dizer o apronto, liberou seu homem ao volante. Ih, sim, o Peri fora atrás do carro mas parou sem fôlego por aquela corrida automobilística do Cumpádi com o Zé ao volante rumo aos píncaros da fama (; ! ?). Logo entrou no trânsito, barulhento lento brusco imprevisível. E aqui a primeira machucadura desse bravo piloto de fórmula um. Teve que parar; e novamente funcionar, não seria refuncionar... andar acompanhar outros motoristas irritados todos querendo chegar antes; porém antes do quê? Até que nessa onda suja ele parasse parassem todos de vez. O que teria havido, o que lá na ponta no centro urbano ou além do ponto da ponta a impedir o fluxo! Ninguém sabia, ninguém nunca sabe de nada; mormente quando precisar fornecer testemunho. Menos o Zé sabendo, a si tudo novidade pois quando anteriormente preso no trânsito engessado, dentro do ônibus como passageiro. O motorista que impedira seus vidros já desaparecera, havendo outro chofer no lugar e outros curiosos a examinar Cumpádi todinho malhado fumaçando barulhando aquele inferno de seus respectivos paraísos. Aí chegou ele. O Zé? o Cumpádi? o guarda.
O grilo de trânsito não explicou quem abalroara quem, quem com razão, razão talvez melhor a da vítima, antes de se ir ao céu aparecera na mídia a vítima, o Zé apenas vê-la-ia na tevê, então lamentando o caso no sofá da esposa; ou a lamentar pelo seu automóvel.
Não fez por menos o alto funcionário e exigiu documentação dele e a do carro, guinchou o carro até o pátio do Detran. Nem propina aceitando, visto mui visto ali por todos olhos das câmaras enxeridas de televisão. Somente por causa dum numerozinho errado ou fora de lugar ou no lugar inadequado ou que fosse a falta de placa ou falta de vistoria hábil; ou ainda por caduquice nada precoce de Cumpádi, malhando o congestionamento.
Coisas da burocracia, não respeitosa para com tantos anos naquela montagem de um carro. Contudo o carro não se encontrava decepcionado, decepcionado apenas o Zé.
Marília   setembro  2015