Corpo
Eterno
ALICE Ela chegou-me, não a esperando ou sim...
Sentou-se à vontade como dona da casa, a dona da casa ali morta em morta viva
parada prostrada estática perene no seu corpo eterno a driblar até as leis da
física por sua natureza não se decompondo; então ela, ela não a morta a viva,
viva mas igualmente velha, “usada” diz sua expressão a me gozar; eu sim, porque
também existia existindo naquele instante em que ela chegara se aboletando numa
cadeira grosseira tosca que pegara, íntima, ali mesmo na sala de visita que era
agora um quarto fúnebre onde se guardava e se resguardava o corpo eterno a viver
sua morte. Sentou-se fungou um pouco seu cansaço e me olhou indagativa; e a
gente nesse tempo da gente só pode afirmar da gente que a gente olha andar
(parada) ainda na rotina, a dizer como a dizer em resposta, que aqui permanece
tudo no mesmo e mais não se acrescenta para quem já sabendo o saber. Me olha,
não estranha por não-estranha porém incompreensível embora não incompreensiva,
isto para quem deseja estudar ler os outros presentes.
O
corpo eterno idem a fungar na sua respiração como se dizendo vivo ou a se dizer
morto, eterno sempre, e assim para toda possibilidade de resposta. Eu, eu
existindo porque também existente, eu me dispus anotar isto que anotando em registro
do momento; sobejo que atendia ao mesmo tempo aquela visita não bem visita por
íntima quase íntima, a Alice, para ela respondendo aos poucos e por vezes
sincopado claudicante gaguejante e intermitentemente à abordagem da moça... ah
sim fora moça me lembro, fora moça bela viva ‘machucante’ aqui no meu coração
ainda em sentimento jovem igualmente a disparar quando em vê-la no balcão de
atendimento da farmácia, se bem me recordo a “Farmácia do Povo”; haviam
descartado a forma botica e até recente a palavra pharmacia e por isso a nova placa frontal berrava a educar o povo
da urbe com a novidade, hoje aceito o equilíbrio imposto pelo costume visto
ninguém se insurgir menos e mais se espantar com o letreiro, lá em cima,
embaixo as portas alevantadas já, elas em aço de enrolar e barulhar no abrir
empurrada pra cima com uma haste e um gancho que as mãozinhas de Alice empunhavam
para virar já agora nesse ontem como uma atendente no balcão a vender remédios
aos fregueses, enquanto seu Henrique não chegava, pois ele sim o farmacêutico
credenciado apesar de o povo chamá-lo ainda boticário, uns italianos se
dirigindo ao profissional como “farmacista”. Entretanto mais a avistava no
almoço e não no início do trabalho dela, no almoço do chefe e do outro balconista
traquejado e entendido semelhantemente nas coisas do ofício; então ela ficava
ali a pajear a loja cheirando medicamentos e nisso eu passava – passava como
alguém nada querendo, querendo sim tão só vê-la não dizendo nem desejando demonstrar
querer o que queria, queria de fato vê-la – passava, desapeava da bicicleta
inglesa pesadona Hercules, encostava
meu veículo para comprar (como comprar se vivia sem dinheiro!) para adquirir
qualquer impossível, exatamente por ser imposível, a possível contato com
aquela flor recendendo ainda a jardim florido aberto pouco antes e a cheirar
exalando ao mundo, que eu na minha juventude egoísta imaginando fosse somente
pra mim... Contudo eu prosseguia, ela ficava, ficava no seu sorriso por
descoberta do sexto sentido a paixão daquele homem ou apenas projeto de homem,
e então sorria sim mas permanecendo minha esfinge... nunca nos declaramos.
Assim
o tempo passou, célere aos que não veem, lerdo aos que têm pressa.
Agora,
hoje, neste instante, Alice ali sentada quase escarrapachada, escarrapachada
fosse um ser sem compostura ela comportada civilizada quieta não por timidez
sim no constranger do momento ou apenas contida – sempre fora assim se bem me
alembro; e por isso quem sabe nunca haver-me chegado a ela, menos ainda permitindo
minha própria timidez, timidez doentia, para daí declarar-me.
Todavia
coexistindo nela hoje a moça ainda mulher em formação, se configurando nas
ânsias talvez e nas limitações do seu físico – tudinho então a prometer
muito... enquanto pouco o companheiro na sua proximidade tendo a oferecer.
Veio-me
Alice não do país das maravilhas, embora ao pobre rapaz caboclo que eu era e
ela já a maravilha consumada. Acho devera andar apaixonado, o que não destoante
da verdade em vista nessa fase um homem saindo da puberdade, a um desses, todas
mulheres sua conquista e quase se apaaixonando por todas. Ah as mulheres que se
cuidassem porque... Na época corria um dito, por sinal machista, consistindo no
dizer: prendam suas cadelas que nosso cachorro está solto! Mais ou menos isso.
Veio-me pelas mãos conhecidas, as das parentas casadoiras a querer empurrar
todos jovens próximos ao despenhadeiro da responsabilidade, o qual se vestia de
juiz e padre; ah sim e de festa com seus cerimoniais. Algumas dessas tias se
aperfeiçoavam na função e até na sofisticação na arte, hoje meio em desuso; ou
que o matrimônio formal é que sumindo do mapa. Ela me veio a aparecer dessa
forma, portanto um pouco aparentada por uns laivos de sangue distante com as
próximas parentas suas e minhas. Nesse tempo quase todos com parentesco e o
costume fazia inclusive afilhados beijarem a mão do padrinho, não se fale nem
dos pais e parentes adultos, sobretudo na roça onde se exigia tomar a bênção;
pronunciavam “bença”. Ninguém a imaginar nestas tergiversações que Alice e seu
pretenso namorado (este vocábulo desfigurado hoje em dia) que precisassem da
bênção formal a se achegarem. Aliás veio-me a jovem mais por atração que eu
sentia pelas louras de olhos verdes provocantes e por ela mesma em vista sua
voz mansa no timbre que me penetrava o ser; o que não mudou agora quando desta
visita ao corpo eterno – ou seria a visita pra mim! – vendo nela mudança só dos
fios na cabeça que de natural louros passaram modificando à neve; piormente
neve tingida; neste momento deixo meus olhos enxeridos constatar um vermelho
afogueado artificial, que mesmo os ruivos não mais aceitam e nela dá até ares
grotescos; sim posso afiançar o descabimento dessa operação feita no
cabeleireiro, decerto efeminado me gritam lá nos fundos de minha mente, a qual
deu de uma cabeleira loira penteada com simplicidade num toque genial a me
atrair pra si: a virar uma velha enrugada com novos toques, estes ridículos
pelo vermelho ou apenas sendo fora de ordem por ser um artifício da moda se moda.
Não
dato o surgimento dessa flor na minha existência, não posso ser aí preciso; no
entanto lembro um dado bem marcante, se não do nosso contato primeiro ao menos
o quê me ficou na memória, aqui determinado por uma atitude que me atingia
muito o ser jovem, mais parecendo próprio do velho que do novo ou ao novo sim e
também ao idoso, celerados... Na ocasião e por anos espichados havia perdido a
confiança em mim mesmo, ou que desconfiasse demais da memória flagrada fraca.
Por exemplo, examinava não haver deixado acesa a lâmpada de fora; se havia dado
descarga; se não estava no avesso... em mil oportunidades tinha saído à rua com
a meia uma duma cor outra doutra, não perfazendo com isto um inteiro correto de
meias... Não quis nisto fazer gracinha nem trocadilhar barato; é que andava com
miolos desmiolados me falavam os íntimos; debalde a mãe me pegando no pé por
essa razão. Ora, um sujeito assim andar em pretensão arranjar namorada, ainda
mais uma loura de olhos verdes tentadores! Em suma era desse jeito o par que
para Alice se oferecia (certamente ofereciam as comadres).
Oh,
ela terá sabido desse interessado!
TIAS Uma fora irmã. Confuso? Ora bolas, irmã mais
velha da mais nova, entre as dúzias que a menina Alice herdara como herança de
pobre. Os pobres dessa época comentavam que os outros na pobreza, ao morrer
genitores, ficavam apenas com as dívidas e dúvidas – e a mais das vezes um pecúlio
porventura a duras penas ajuntado para deixar aos filhos como herança, nisso
havendo sempre também a desconfiança da lisura dos apócrifos... estes, genros
noras cunhados e outros bedelhos a se infiltrarem (interessados em quê! indagavam
conservadores) a entrarem enfim na família. A dela a mesma de Teocrácia,
Cracinha aos miúdos do lar, mesmo porque cresceu casou brigou enredou e até
casou outrem e ficando baixinha chatoquinha gorduchinha e após, na velhice nada
precoce, magrinha enrugadinha chatinha chateando os outros porém casadoirona...
Aqui entra a velha sempre velha nunca a conhecemos jovem, decerto um dia fora,
haja vista haver arranjado casamento pra si mesma “com aquele sem vergonha”
insistia no dizer. Velha do tipo que, nada tendo de mais útil fazer, vive a
sugerir matrimônios. Não seria, me apregunto, não seria por não tolerar solteiros!
O meu caso, um fato não realizado até hoje, hoje não bem isso: ontem, semana
passada por exemplo – pois até hoje não me consorciei com a jovem loura verde
sorrisos ânsias e agora uva, uva passa ali espreitando o que eu nada tenho a
lhe dizer, entremeio nós um corpo eterno.
Dona
Graça – ela instando insistindo impondo quase o nome verdadeiro deturpado dela,
o povão embirrando e o apelido pega mais que mal olhado, pegou; Graça não tinha
graça mas graçolas sem trocadilhos, quando no mister do seu mister de tia
casadoura, a empurrar por exemplo aquela futura tia grudada no solteirismo para
os lados dum caboclo fora de centro ou demais caipira ou só doente incurável na
moléstia da timidez.
Contudo
o quê vale é a intenção, mormente quando não há intenção e a intenção fica só
velada por mãos bem diplomáticas. Aqui a gente a se indagar donde vêm tantos
fios a trançar para traçar enredando enliando um jovem a uma jovem no processo
do amor. E tendo outro senão, se não vejamos como o povo no povo abusa do amor;
não do amor, inarredável sólido absoluto, no abuso à palavra amor. Em suma o
amor retratado na possível querência mundana entre pretendentes. Sim, porque
por vezes nem os pretendentes sabem desejar, não conscientizam tal desejo.
Então entra a confraria das casamenteiras... Ora, as tias nem sempre precisam,
depois da “burrada” o homem da rua afirma burrada, não precisam justificar o
esforço feito a casar quem casaram; na época no meio o padre às vezes
descartando o juiz havendo padre e festa ou recepção simples e quase formal
quase igual cartório; porém sacerdote sempre. Em resumo, casam e lavam as mãos.
Pilatos,
digo Graça, bem que me tentou enredar pra cima dela, da irmã dela bem
entendamos absurdos pois a achava feia de doer velha pra danar e chata de matar
enquanto a loirinha me esverdeando o ser interessado. Bem tentara, tentara
anos; a corda arrebentou do lado fraco: eu. Aí está ela doutro lado e eu deste
lado do corpo eterno, sem qualquer declaração de amor; ou que fossem intenções
formais de responsabilidade. Para permanecermos – até trasanteontem ou semana
passada reafirmo – a ficarmos tão só amigos, menos que isso: conhecidos.
Dona
Teo lutou, lutou bravamente, passou grude tentando nos unir, falhou, falhamos a
três. E tem mais um derivativo desagradável no contexto que é existir apenas o
passado, um sem futuro como adiantei no atraso. É que a velha se não morreu,
morreu aos vivos morta à sociedade comportada. Certo nesse errado que não virando
um corpo eterno. Enquanto dona Graça, tia e minha tia e também tia dela, a bela
a jovem a verde a sorrisos; dona Graça encolheu por fora – todos veem o fora
não o dentro – encolheu quase visivelmente no seu interior; ao menos no
interior de exportação, visto mostrar quando oportunidade em nivelar, um
descompasso que o vulgo apelida caduquice (e aí como esperar agora que sugira matrimônio
a dois ex-pretendentes!) Tomo a revelia um encontro como prova.
Bom-dia
tia maria diria gozador quando antes dizia não disse. Peguei apenas aquelas
mãos encarquilhadas beijei-as em tomar a bença caipira junto da senhora gasta e
com um histórico notável nas riquezas de fatos, entre estes casando criaturas
inocentes pretendentes decentes entrementes até parentes, este seria o nosso
caso. Me identifiquei à autoridade, o costume costuma dar autoridade aos idosos
conviventes. É o que pensei. Não: não me reconheceu a tia. Mais ainda nessa falta
ou engano – me contou o apreço que tem e sempre teve pelo sobrinho; nisto
misturou seu desejo em casá-lo com a irmã, irmã dela mais precisamente a caçula
da produção dos pais delas; misturou introduzindo a mentira na verdade ou
engano no desengano: casando-me realmente no seu imaginário com Alice.
Gelei-me. Mais frio fiquei quando se dispôs em narrar sobre um sobrinho dela,
contou descreveu pormenorizou a residência dele, o trajeto do ônibus circular
até à dita casa e mais detalhando uma conversa entre ambos tia-sobrinho; então
minuciou detalhes nos pormenores físicos do sobrinho dela amado – eu!
Espanto-me. Primeiro que não sabia ser tão pobre no retrato bisonho que me fez
de mim mesmo... e segundo que a narração fora ao próprio fantasma ruína enfim a
quem se dirigindo; isto é, ao próprio, que sou eu!
De
maneira que por essas e mais aquelas vi destruída de vez a possibilidade dum
casório nos conformes com meu amor, a jovem loura de olhos verdes, embutido
aqui a tentação que urge existir num homem também jovem a descer de sua Hercules
inglesa a xeretar uma bela num balcão da Botica do Povo, dístico que perdura no
letreiro custado tanto ao seu Henrique, pois a botica ganhara pharmacia antes e
Farmácia depois, inclusive com prêmio de consolação o acento agudo da
proparoxítona. Estava portanto encerrada para mim a temporada de caça, a qual
das jovens louras ficara somente nas bruxas sem Salem...
Diria,
consumatum est.
CAMINHO Todos levam a Roma? O fato é que o meu não me
conduziu, antes, talvez, o tenha levado nos desmandos ditados pela juventude
sem norte. Ou por haver muitas vias. Os jovens se perdem às vezes pela
diversidade na escolha dos inúmeros caminhos... Uns imaginam um trilho mero
carreador, outros um asfalto negro rachado embora, embora isso firme duro
infindável e congestionado pelas viaturas do tempo, inclusive com mostra de
viaturas policiais a desbrumar enrolos de trânsito: apitos grilos gritos,
movimentos desastres acidentes incidentes antecedentes procedentes e indecentes;
ou então caminhos de abertura enormes para o ar a árvore a condução na condição
nos bulevares e demais vias ricas com ricos jardins no bairro dos jardins,
local milionário na milionária metrópole, necrópole com visão com poluição com
perdição. Não.
O
meu caminho, que passa necessariamente pela bela pelos olhos pelos pelos na
sensação que sentia um caboclo jovem a caminho, o caminho vem duma baixada pobre;
ele sua e sua igual sua Hercules pesada empurrada cansada quem sabe e quem sabe
sua mais ainda o homem se pensando namorado mas só enamorado embora apenas
menino indo ao trabalho. O caminho tem por leito pedras, paralelepípedos, que
nem ela bela tagarela quase nem ele acerta falar pronunciando errado; são peças
assentadas na areia da área carroçável e importadas doutra região e a chegar ao
apito do trem, da maria fumaça; são pedras lisas ao gosto do chuvisco a
escorregar frias; quentes no calor na secura do tempo – e não facilitam o
escorrer da bicicleta leve aos deslizes e frágil apesar de pesadona, a roncar
seco suas correntes dentadas para impulsionar as rodas os pneus os aros o
quadro o selim, onde descansa das fricções o homem feito moleque, a passar ver
Alice ali no balcão ou somente o sorriso verde, o verde é a licença a passar...
No vermelho duma vergonha o moço tão só passa para desce oferece sua timidez e
propõe à futura consorte comprar algo que não existe numa farmácia, na farmácia
tem em esbanjo beleza verde sorriso nada no amarelo de atenção igualmente
esverdeado. Pior, ele sabe de sobra disso; contudo não se anima; se anima sim:
sobe outra vez no veículo negro como o espanto e sem cor na sem voz, sobe
equilibra pedala bufa assopra se esforça roda entra no trânsito, desvia do trânsito
e do trágico, sonha caminha para o serviço no escritório, nem vê o patrão de
cara feia mesmo porque feio segundo oposições e assim o empregadinho vai
automático como autômato fazer o afazer porém num sonho. Sonha ela.
O
caminho só é triste quando do retorno em que ela mero sonho e boa lembrança com
as portas do povo na farmácia na saudade da botica fechadas; e assim o
mistério, com sorrateiras e leves lembranças boas a se intrometer, o mistério
prossegue – quase nem vê, quando vê está no chão e sente as dores dos esfolados
e mais de vergonha do povo curioso a passar repassar ajuntar e ver uma queda um
acidentado... Ah que acontecimento grandioso, ao menos gracioso, é uma queda em
público com a bicicleta e da bicicleta...
No
impacto e nem noutro dia sequer poderia imaginar existir um corpo eterno.
Noutro
dia, e aqui entra o absurdo, noutro possibilitando oportunidade a encontrar a
roçar a conviver com o amor!
Sim
porque nesse caminho sem começo sem fim ela se encaixa como que a mão numa
luva.
Em
casa a febre o sonho o pesadelo a preocupação materna com o doentinho,
esfoladinho que seja; o estado preocupante do rapaz obriga a procurar recursos,
se não em clínicas e na hospitalização que a urbe interiorana não oferece ao
pobre pobre ela também, pelo menos há uma passagem na farmácia do seu Henrique
(ele ouve nitidamente “Alice”, muito bem pronunciado nos lábios da mãe) e aí
sorri por aquela tristeza, que são as dores e esfolões expostos. Manquitola
pela calçada desnivelada abandonada pela prefeitura, agora mero transeunte sem
carro sem motocicleta sem bicicleta grandona pesadona encostada e sem uso.
Chega; não passa e por acaso havendo uma declaração de amor insatisfatória ou
presa na garganta como um novelo nada corajoso.
Seu
Henrique já chegou? A bela se apressa responder que não: deve aparecer às oito
às oito e dez às vezes mais tarde; ela quem levanta o rolo desenrolando a porta
comercial de aço e... “Ah graças a Deus!” E aí costura: não, não quis falar
sobre o atraso do farmacêutico, sim por estar aqui num local de recurso. Ela
sorri. Iria chorar vendo os estragos e inchaços tiras e esparadrapos mal
enfeitados próprio da gente inculta. Ele agradece em pensamento o sorriso, sua
timidez sequer dá permissão para ir além; então aguarda e ficaria período inteiro
ali a doer na espera, vendo o quê vê; inclusive no íntimo torce por uma
retenção a qualquer preço do boticário, o que além do mais retardaria mexer-lhe
ataduras improvisadas – visto a gente do povo improvisar nisso e no resto com
perfeição, assustando profissionais. Chega o rapagão ajudante do chefe, quer
mexer remexer no machucado faz mil perguntas chatas sem respostas que não
recontar como a roda da bicicleta escorregou escorregaram caíram se esfolou
porém não dói quase nada; o que afirmativa manhosa e bravateira dum machão pra
valer. Aliás depois dos carinhos do proprietário e daquele abrutalhado auxiliar
desmancha-prazeres, depois chorou se esquecendo duro brabo forte macho.
Felizmente, se disse, felizmente a bela saíra pagar no banco algo do patrão;
portanto podendo verter rios lagos dilúvios sem preocupação em manchar a honra.
Oh
enquanto a presença durou, durou delícias inclusive pelos cuidados da amada,
então em mostrar preocupações com o namorado enfermo a lustrar o banco de pau
da farmácia.
Não
foi ao trabalho, tomou o caminho de volta sem ida, desceu pra casa narrar aos
familiares e mostrar faixas limpas postas profissionalmente a embelezá-lo e a
exibir os medicamentos e o papel da dívida aumentada na Farmácia do Povo.
BANCO Levantei meu olhar no olhar dela, seus olhos
na minha direção, levantei-o para ver o que diziam eles pra mim, em falar quem
sabe coisas de amor, pensava abusivo meu desejo de quase adolescente se
pensando adulto e me sentava então no banco da farmácia dela; ela agora tal
qual a vi nesses anos me olha furtivamente ou temerosa como a gente querendo
dizer tanto a tantos sem poder, que a mordaça da mudez abjeta objeta impõe
depõe impede. Assim me olha olhando vendo do alto, porque sua tosca cadeira que
tomara antes ao entrar na sala de visitas, esse móvel mais alto que meu baixo,
pois estou sentado desajeitado embodocado quase a riscar neste rabiscar e
portanto mais baixo que seu alto – ela olha, quer indagar puxar conversa ao
menos e desiste, leio na sua expressão a desistência, igual ou semelhante
quando de pé encostada no balcão, eu sentado pajeando minhas feridas ainda
recentes, desejando no pensamento abraçá-la quem sabe e quem sabe falar coisas
de namorados, embora as bordoadas da realidade no cheiro pérfido de farmácia em
mistura com o leve perfume dela, este aceito aquele deplorado enjoado. Mantiveram-se
os pisos, ela agora sentada no alto duma cadeira, o corpo eterno ali
espreitando sem dar palpite; e por fim o baixo do meu piso mole na cama onde me
assento e apoio este caderno velho ensebado nas cores do tempo e que é papel de
rabiscos de verdades de mentiras de desejos de sonhos de pesadelos que se
intrometeram nos ditos sonhos na noite dum dia de existência.
Um
dia no até que enfim cheguei no meu trabalho, o chefe me olha de pé ao seu costume
– penso rezar-me-á um padre-nosso dos brabos, ou é conta na conta antes do
previsto (o empregado jovem nunca tem previsão) enquanto eu amuado, não
surpreso isso não, no aguardo das decisões patronais; mesmo porque a
consciência me cobra antes do patrão os dias em folga, pois não se costuma
esfolar cair da bicicleta seguidamente todos sabem. Contudo não choro (e me
grito, puxa sou um homem e homem dizem lá em casa não chora) não lastimo
exteriormente, mostro, trêmulo, a nota da farmácia com assinatura do sr.
Henrique, ele, não o boticário o meu chefe, ele coça o bigode, o que leio em
boa leitura haver problemas, anos assim o homem com tal sestro nervoso e aí...
bem, à força espero a forca. Não: menino, diz finalmente, passe no João
primeiro no bar depois e mais tarde no cartório na polícia e... aí insiste
“preste atenção se assinaram e carimbaram todas as guias”. Sorrio na vitória do
retardo na demissão, saio meio correndo manquitolando em direção da cadeia, não
vou preso vou levar o livro de protocolo e cobrar funcionários na devolução das
guias adredemente entregues na repartição; enquanto ando, quase posso ver na
memória a bela de cabelos louros e olhos verdes que faiscavam pros meus lados;
e na memória volto das guias, no entanto não pegara cadeia, sim cadeira.
Cadeira
no banco sujo da cadeia, imunda repartição. E pegava sempre horas cadeira no
banco duro do serviço em serviço.
Sim,
ficara horas incontáveis, que é a forma mais comum dos devedores, horas sentado
na cadeira do escritório à espera, agora no retorno do patrão no meu retorno ao
serviço. Em verdade não cadeira propriamente e sim banco tosco sem pintura,
apenas lustrado pelo uso anos dos fregueses e de nós empregados ali, ou no
aguardo de ordens ou em espera de fregueses que o chefe denominava clientes ou
então desconhecidos pedindo informes.
Já
o da farmácia dela sendo bem acabado envernizado limpo, tão limpo como os
remédios vendidos vindos ou do laboratório lá no fundo e das prateleiras onde
depositados e resguardados por vidros transparentes a deixar em mostra um verdadeiro
carnaval de caixinhas e vidrinhos coloridos e sobretudo exalando qual casa de
secos & molhados a cheirar fumo e mortadela a farmácia a cheirar
medicamentos. Sem ferir o manso perfume de Alice...
Ali
no banco de madeira da botica sentavam-se diário o próprio dono os empregados
quando não empregados nas tarefas e é claro os fregueses tratados por clientes
e pacientes. Nisso causos dos desocupados e amigos e conhecidos da gente na
farmácia. Ou um que outro acidentado como... digamos os imprudentes porventura
a cair da bicicleta ou com a bicicleta...
CASA A dela bela amarela falaram nunca vi. Ali
Alice ali o corpo eterno no meio de nós dois, ali me sento me sinto nem santo
de boca fechada aberta orelha a ouvi-la, se tendo algo a me comunicar aqui
nesta minha casa. De propósito ou sem propósito me fecho nos meus rabiscos, que
é por onde falo mudo olho de olho tagarela pra ela da casa dela amarela segundo
disseram, insisto não vi.
Interessante
como nunca sabemos certo dos incertos das outras pessoas. Pois um dia me
garantiram – eu veladamente diplomaticamente cuidadosamente matreiramente e até
perfidamente me escondendo com palavras outras mas desejando como jovem
garanhão à caça saber donde ela saindo – garantiram mesmo ser da periferia daquela insignificância
de urbe do interior, onde normalmente é comum se residir em volta do quase nada
que é o centro urbano acanhado; afirmando quem afirmara ser na periferia leste,
leste o nascer do sol e daí desde o tal dia, o da tal afirmativa, o jovem
conquistador a olhar o nascer do sol para ver a lua; ah a lua, a lua tinha cabelos
louros ajeitados por um pente extraído da bolsinha e esta saída do interior da
bolsona, já não entendia então como cabendo tantos badulaques numa bolsa
feminina; e além dos fios loiros uns olhos esverdeados e uma graça em trejeitos
num sem-tamanho de imenso. Ali morando a bela, bolas e eu nunca vira! Pois é,
disse quem me disse, disse residir numa casa amarela de madeira, rachada aberta
pobre; a rica beleza morando pobre me esculhambou a mente que mentiu assegurando
e descrevendo o local da vinda da moça que amava, amava eu... Não importa,
virei quase em propósito minha Hercules pesada na direção do sol a fim ver a
lua.
A
residência aqui, o prédio não anda rachado nas tábuas velhas a secar nem quase
a urbe já velha tendo como quando nova casas de madeira, aqui é de alvenaria
carunchada... Não, isto expressão da inexpressão de linguagem pois o que se vê
são blocos furados não carunchados, por não haver bichos miúdos comendo tijolos
graúdos; a parede como um todo sim rachada tal qual a dela amarela com frestas
de entrar o vento curioso soprar os cabelos loiros na sua hora manhãzinho a se
preparar ir à farmácia abrir a farmácia para seu Henrique chegar atrasado,
visto patrão não ter horário para bater ponto na fábrica. Então estão os dela
na casa amarela brigando – será existir alguém ainda que nunca presenciou as
rusgas e os desentendimentos nada fraternais dos irmãos numa casa pobre rica em
filhos! Daí a Graça por ser mais velha não cheia de graças porém de
admoestações aos pequenos, a mais velha repreende até a própria mãe em discussões
memoráveis... Ela não: penteia-se e se prepara ao próximo voo no aeroporto da
rotina, quase sempre sem dizer sem lamentar por fora, ansia ter de correr
andando apressado a fim de chegar pronta no ponto na loja, ou seja antes de chegar
o chefe, que poderá estar de pá-virada (isto dito pronto macho do povo, em
crítica aos nervosos contrariados) e neste estado não poderia sobrar algo para
ela! Não poderá, brigado na sua metade com a cara-metade, o patrão aparecer
mais tarde do que no seu costumeiro tarde... ou na pior mais cedo por causa
exato disso e flagrando Alice ainda azucrinada na briga dos seus vindo para a
farmácia abrir antes dele a loja e não haver chegado... Graça aproveita-se a
pichar a mulher dele, que ela sabe (e como será saber! ah os meandros das
comadres que conhecem tudo) ela sabe e diz “a mulherinha é uma boa bisca”;
todavia a caçula não sabe da coisa, somente se irritando no falatório dos irmãos
e por isso em quase sestro abalança a cabeça loira pra lá pra cá aos reflexos
do sol matinal, mostrando a cara no leste onde se vê o macho entretanto que o
namorado de Alice consegue ver a fêmea da espécie; agora apertando passo em passos
rápidos chega tarde, se bem que mais cedo que o tardar do seu chefe. Não, não é
minha casa tal como.
Como
é aqui em casa. De
blocos com rachaduras verticais umas poucas horizontais e por isso é onde anda
o perigo! sim, com paredes rachadas inclusive no interior do lar... ih mas não
passa duma casa velha de velhos tendo uma velha em se decompor eternamente sem
se desmanchar; não é bem um lar e que para ser normal tem de existir papai
mamãe filhinhos. Contudo tem cor, não sendo amarela como a dela ali agora na
cadeira sentada enrugada uva passa passada; tem a cor do tempo e o tempo custa
a acabar a apagar o reboco trincado que nunca recebeu tinta – entretanto não
poderia ter sido igualmente amarela igual a dela?
Finca
– isto uma forma caipira de olhar as coisas e dizer das coisas que olha – finca
ela a vista numa dessas rachaduras em indeterminados desenhos que a velhice de
paredes tem no exibir para quem quer ver, finca olhos num rachado horizontal
desejando e conseguindo se encontrar se encostar noutro vertical mas inclinado
a formar linda forma talvez, original desenho de figura infringindo leis da
equidade e da harmonia, porém ainda assim gracioso, ou ridículo ou abusivo à
originalidade e então... Então urge que fale que critique que mostre a graça sim
e o perigo às estruturas também, que fale ao macho aqui riscando seus rabiscos
nesta cama dos seus baixos para os altos em que ela se encontra na cadeira
tosca ali posta à sua chegada. Ameaça – puxa que força tem esta forma verbal na
situação em que nos encontramos ambos, apenas separados por um corpo eterno no
meio – ameaça falar ao outro, que sou eu já tão velho quanto a velha inacabável
e após esta aquela que me dirige a pergunta. A pergunta fica no ar em ameaça
tão só, que sente tenta ameaça colocar no colóquio que de fato não existe.
A
casa não é amarela..
A
casa amarela é a dela, bela, agora murcha.
A
casa é de blocos podres com rachados onde moram insetos mil, sobretudo na fase
de correição, o povo diz mesmo “correção”, na mudança por mudança de tempo, o
tempo essa coisa que os meteorologistas ou não acertam ou apenas erram
confiando nos seus instrumentais satélites visores computadores entendedores do
saber, invalidado pela mera observação cabocla cheia de ignorância. E poeira
acumulada e mil outros objetinhos que se fixam por entremeio do rachado, dificultando
a entrada a passagem da ventania, tão opostamente mentira quanto a verdade do
tufão a atingir os fios louros dela na casa de madeira na periferia na posição
leste sim e sim pintada de amarelo, numa tinta que a brocha impingiu à madeira,
o vento secou, o tempo talhou, o amarelo quase branqueou.
ANDAR Olho vendo o hoje ontem me lembrando, me esqueço
já quase pelo andar da carruagem nos destinos do mundo o meu mundo de jovem,
ontem mesmo passava e mais passava – mas que diabo, dizia lamentando, todas
vezes que passo por aqui, não para alegrar-me com o letreiro da Farmácia do
Povo sim para vê-la, tomar um flagrante na objetiva da memória com muito
esforço de meu zum a retratá-la com todo seu charme e encantamento e beleza;
toda vez ocupada com fregueses do sr. Henrique, ora mostra um batom novo para a
velha velha querendo vaidosa remoçar com pós e vermelho demais por seus rouges ou sabe-se lá o quê. E tem mais:
nunca a pego a andar – andasse por aí, aí minha conquista... – ah qual o quê:
atende, atendente. Apenas uma única vez pôde o jovem ver a jovem integralmente
e livre de todas abordagens da farmácia. Ela ia decerto mostrar seus fios louros
ou enxergar verde a vegetação da praça São Bento em frente da Farmácia do Povo
– a andar despreocupada, preocupada somente, suponho, que o namorado a
estivesse apreciando nas imediações; e estava mesmo... Observava eu o andar
jogado das pontas do vestido (aqui rendo-me à realidade à verdade sem
imaginação não saber descrever as vestes feminis; ah, há mais ainda pois não
sabendo também a roupa macha). Seja lá como for, andando lerdo lento livre logo
ali metros tão só e a barra do vestido roçava suas pernas torneadas e roçava
meu coração não demais distante, distante! ali juntinho dela. Enquanto a menina
olhava como que vendo plantas flores olhava ao mesmo tempo de soslaio ver o quê
ver, ver-me qual cordeirinho manso atrás de si e... bem, imaginei, aqui só
imaginação porque não vi de fato: sorrindo num sorrisinho verde, o meu sim
amarelo de vergonha por não ter coragem à conquista fácil, fácil!? e não me
daria uma resposta dessas desmontadoras a desmanchar ímpetos da timidez. Aí? aí
teria que procurar na fuga um lugar escondido a curtir meu fracasso, um lugarzinho
quiçá fora do planeta. Não se concretizou o ataque das forças inimigas nessa
guerra contra a oposição, oposição diga-se em passagem loura bela verde e de
andar machucante. Nunca mais a vi não sendo a trabalho no trabalho árduo no
balcão, árduo ou só exigente e desgastante à pobre. Tocava-lhe nisso também
fazer as tarefas ingratas do caixa, como troco pagamento vale falta nos trocos
errados e a chatice que era na conta o chefe tirar dinheiro do caixa e esquecer
registrar, dando assim um quebra-cabeça no fechamento do tesouro ao final do
dia, quando lhe tocava com aquele gancho e a haste de ferro enganchar lá em
cima as bordas da porta de aço a desenrolar o que havia ela enrolado cedo pra
cima, fazendo então um barulho escandaloso, escandaloso a uma belíssima criatura
de olhos verdes cabelo louros e mansa no trato.
Mas
agora, do outro lado, do lado doutra extremidade dessa fase da vida que é o
ocaso da existência – vi-a vindo pra cá, eu sem graça desconcertado por sua
presença inesperada, num átimo abre fecha a porta da casa nesta sala de visitas
transformada em quarto ou pronto-socorro ou hospital de precário atendimento,
vem se deslocando em nossa direção, nossa mesmo porque o corpo eterno também
conta, vem vindo e a observo: Alice ainda tem aquele andar cadenciado como que
medido compassado leve parecendo temer tocar ferir o chão, que agora neste
recinto tem tacos soltos e talvez nunca encerado limpo cuidado, com cuidado ela
pisa o piso de madeira em direção do canto onde estamos e constando o mesmo cadenciado
a mesma forma concreta como que transparente e quase imaginária nesta realidade
doída e doida que vivo; arrasta pra cá uma cadeira e parece ter escolhido a
mais mal posta e de conservação discutível como demais todo móvel nesta
moradia; e, qual íntima que é da família, trá-la meio a arrastar no peso de
chumbo desse objeto de quase museu até junto do corpo eterno, ao lado dele, e
junto de meu corpo que está sentado após o estático, em que me movo, movendo-me
quase imediato a pegar este caderno em formato brochura cheirando a papel velho
cansado ‘desmanchável’ desmanchando e onde um lápis de ponta fraca se quebra muito
em seu grafite grosso, temendo eu inclusive afiná-lo com o canivete pesado nas
minhas mãos grosseiras. Por esta razão invisto numa caneta esferográfica atual
disponível de cor azul promissor que falha folhas e folhas nos rabiscos malfeitos
ou apressados. Então comparo o andar dela, desta senhora de agora do fora de
hora ora a me olhar também e indagar com os olhos fracos mas francos; fracos
provado na lente grossa do tipo fundo de garrafa que usa a tapar obstruindo o
lindo verde de Alice jovem. Noto no andar desde a porta onde não aporta
prossegue toma a cadeira tosca arrastando no peso até aqui e... ah, será a
mesma! me pergunto sabendo desde já a resposta; pois não tem mais vestido (ih
não guardei a cor, a cor dos olhos verdes eram verdes entretanto as lentes dos
óculos querem obstruir inclusive a esmeralda que resta...) esta mulher não tem
roupa de mulher, de homem que a maioria hoje veste despe torna na rotina a
vestir; e nem cor no tecido grosseiro estandardizado em jeans ou qualquer parecido que ela pôs pra ficar igual todos os
consumistas. Oh o andar permanece o mesmo do jardim; anda e se senta com algum
cuidado e agora, agora sim me olha me observa me lê me investiga me cruza em
mil perguntas que não faz visto quem sabe já a resposta não dirigir a pergunta;
fá-lo nos olhos verdes aos meus tristes ou indignados olhos no porquê do inesperado
e no como entrou andou sentou-se na cadeira rente ao corpo eterno, a vigiar o
meu? Também ela não responde minha pergunta de surpresa. E nisto tudo não há
som, no som que devera vir de lá do lado dela bela ex-bela, nem do meu porque
escrevo num rabisco em grito em risco que a caneta obedece paciente e paciente
até com os impacientes, o jovem da bicicleta inglesa preta por exemplo. Impaciente
e indignado talvez diante do quadro que vê, devendo sê-lo duma jovem baixa
magra de vestido remexente e com olhos verdes e a graça dos cabelos claros
louros que chocalhavam ao céu ao sol ao vento ao leste preste a me ver, sem
olhar veja-se bem. E agora tenho um desmonte de criatura dentro dumas calças
azuis desbotadas ou coisa assim e ainda por cima no por baixo com fiapos dos
farrapos que hoje não caracterizam mais os miseráveis só o miserável conceito:
vejo um destroço humano a soçobrar no mar tenebroso das existências e dos
fracassos da perenidade na beleza e na saúde. Sentada me vendo me indagando
interrogações.
Eu
não tenho respostas.
SAUDADE Agora observando ela que me observa por sua
vez, numa espreita já quase sem espanto mas ainda válida a nós ambos – o corpo
eterno em meio nós outros não consta por sem consciência e ainda mais por não
se comunicar e menos falar, restando nós dois apenas – agora me apego num aspecto
de todos seres decerto, eu sendo uma exceção espantosa aos que se espantam até
com a chuva que despencou nesta madrugada na seca que marcava este inverno sem
se alegrar nas futuras flores da vindoura primavera, incertas creio estação e
jardim; me apego na saudade.
Ora
ora, não sinto saudade, antes sinto conscientizado a saudade que sentia quando
sentia... Esse sentimento ou só manifestação comum à gente e mais à gente
pequena – nisso creio alguns se não muitos, estes então por isso se aproximando
de meus sentimentos ou falta deles; creio haver pessoas secas duras talvez
desalentadas e descrentes em não sentir coisa alguma, a saudade por exemplo.
Mas esse aspecto sentimental corriqueiro que a sociedade conhece por saudade,
não possuo; ou despojado nas agruras da existência ou amortecido amortecendo
morrendo findando assim como encolhem secam se decompõem e acabam as outras
coisas, semelhante também a saudade. Assim minha saudade.
E
ela, Alice de cabelos dourados aos raios de sol da manhã indo à Farmácia do
Povo para ler verde diário o letreiro frontal do serviço dela, ela terá
saudade; pelo menos saudade da menina bonita ágil corajosa e expectante das
alegrias do presente nesse passado então futuro!
Me
indago (não, não indago sobre a colocação pronominal visto escrever neste
caderno conscientemente e desperto bastante a errar direito; não:) me pergunto
se tem saudade. Não me responde. Vejo-a neste instante a ajeitar os cabelos,
tem certa mecha a lhe roçar coçar a fronte quase à frente dessa fronte indo se
enroscar nos óculos que a enfeiam ou a deturpam escondendo os louros verdes em
vermelho de fogo, num fogo morto... E essa manifestação não poderá ou desejará
dizer que pensa ela em ter saudade ou querendo saber se tenho saudade. Então
fujo finjo faço de conta estar (e estou mesmo) rabiscando nas folhas e daí me
arco me firmo firme na caneta o rabisco e rabisco; o que pode ser em mim
escamoteação apenas... pode tão só ser isso. Não me satisfaço não me satisfaz:
tem ela saudade! sabendo, claro, que não sinto mais saudade. O que não anula eu
ter tido um dia essa manifestação do homem comum.
Na
saudade que tenho em sentir a saudade que sentia – vejo nas minhas lentes
corretivas da mente como deploro agora não ter apego ao apego que eu tinha por
ela. Acompanho seu andar pela rua e ruelas no jardim São Bento perto da farmácia
e suponho não tendo assistido in loco
seu andar no trajeto da periferia bastarda e quase miserável desde a casa
amarela de tábuas rachadas, desde aí até chegar no serviço. Não posso opinar.
Nem posso opinar de suas andanças supostas nas compras na zona central também
perto de sua farmácia, a adquirir objetos e quinquilharias não existentes na
farmácia do seu Henrique, fora batom que a vi mostrar para uma freguesa, dessas
sequer chegando aos pés de sua beleza a mim marcante; podendo, me advirto,
podendo não ser coisa vendida comprada na drogaria (o nome se instalava então e
muitas lojas alardeavam na propaganda em ser “farmácia e drogaria”). Sim, não
pode que o quê vi vi mal: ela mostrando e não oferecendo para venda como boa
balconista o batom que adquirira numa daquelas compras aludidas nas quais não a
pude vislumbrar?
Enfim
quis registrar que não poderia agora ter a saudade que já não sinto e que
sentia quando sentia, pelo fato de não tê-la visto andando em compras no centro
urbano. Simplesmente eu mesmo por aí com a bicicleta preta inglesa da marca Hercules
atrás dos meus fregueses, ou seja os fregueses do escritório em que trabalhava,
os quais meu patrão feio tratava ‘clientes’; isto a levar para eles livros
fiscais e além do mais longe nas outras periferias onde os estabelecimentos
comerciais ficavam; sem ficar na periferia dela e da casa amarela, primeiro
porque a pobreza de sua periferia não comportava casas de comércio não sendo
uma vendinha careira, somente casebres e casas pobres, semelhante à dela com
tábuas rachadas; e em segundo lugar porque quando de meu horário trabalhando
gastando os pneus de minha Hercules, ela também no horário de trabalho, ouvindo
as picuinhas do chefe, o meu cria menos chato que o farmacêutico, mormente
quando este brigado com a esposa, “uma bisca” pichava Graça sem qualquer graça
mas no simples intuito em dar prosseguimento ao tró-ló-ló de comadres e tias.
Nessas
condições não poderia ter e sentir integralmente, se acaso sentisse e sentia
sim, saudade. E como vou saber no olhar dela agora a remexer suas mechas se
sente hoje saudade dela mesma e de mim ontem.
É,
não tenho condições; não tem ela decerto. Especialmente no meu caso em que
fiquei vazio de saudade e nada possuindo equivalente em pôr no lugar do que
perdi.
CORPO ETERNO Lá fora, nós aqui dentro nesta sala de
visitas transformada em quarto numa residência quase fugindo da pichação de
casa operária afundada e plantada precariamente entremeio as periferias e a
zona residencial não rica mas decente; nós ela se lembrando de olhos verdes Alice
dum lado, eu doutro lado do corpo eterno a rabiscar rabiscos e me lembrando
dela moça bela no balcão do serviço – lá fora a alegria enquanto aqui dentro a
tristeza das incertezas e das constatações, lá fora o viver. Os carros gritam
seus roncos e suas buzinas, apressadas, os moleques gritam seus impropérios e
suas gozações, inocentes, os adultos a se cruzar falar entre si gritando ou
gritando no celular, a loucura; os sons (inventaram na sociedade inventar ‘os
sons’, que vêm a ser tudo aquilo que sirva a cantar estrilar estourar por mil
decibéis possíveis os ouvidos que possam almejar a paz, esta costumeiramente
sinônimo do silêncio do harmonioso do antiviolento. São os sons). Na vizinhança
os sons gritam se gritam se insultam se acertam desacertos no caos do mundo da
alegria, que chamam viver. Isso lá fora, no exterior; em contrapartida o
interior. No interior desta casa, casa que poderia ser um lar houvesse papai
mamãe filhinhos harmonia com um que outro desentender para existir após a felicidade
do acerto. Ou fica mesmo casa. No interior dela um despojo de vida ou apenas o
fictício no factício para tão só haver.
Nesse
interior reza existir uma visitante, a qual ao entrar por íntima sem anúncio e
no abrir fechar e deixar meio bater a porta no fechá-la, deixando fresta de
sobra a fim de o vento entrão entrar mover chocar pela regularidade quase indecente
num toc-toc sem parar mas intermitente, para ferir a paz suposta e fazer barulhinho
educado, desses que não têm pretensão interferir no colóquio alheio; e a
seguir, para durar enquanto dure, ela a tomar uma tosca entre poucas cadeiras e
se sentar dum lado ao lado do corpo eterno, a fim de examinar, crê-se, a outra
íntima criatura, a criatura por seu lado a se supor da mesma espécie da visita
porém do gênero masculino; este ficando no oposto do outro lado do corpo eterno
e a rabiscar o quê vê, se vê, o que sente, se sente o sentir e já adredemente
garantindo haver perdido (e portanto andar despojado dos prejuízos advindos em
ter o sentimento que teve um dia, se teve realmente) haver enfim ficado sem o
sentimento da saudade. Em resumo a rabiscar seus rabiscos numas folhas gastas
de tempo e com cheiro de tempo numa brochura das antigonas com pauta em linhas
azuis descoradas, descoradas também as folhas falhas de papel com cheiro velho
de velho em lembrar registrar a moça, moça ali doutro lado do corpo eterno,
íntimo este se supõe dos dois íntimos. Vê, registra, o que era Alice e constata
ao mesmo tempo o que é Alice hoje. Em suma é isso.
Enquanto
o corpo que se eterniza ali entre as duas extremidades, os opostos a saber ela
e ele, ele sendo eu – dois presentes decerto a pensar a sentir a viver a
relembrar o seu tempo passado; perdido!? Sim, talvez, todavia e o corpo ali.
O
corpo em definição afronta quaisquer definições hajam sobre um ser. Sem tamanho
sem vida sem curiosidade sem sentir sem ver sem concluir sem optar sem entender
sem contestar sem protestar sem apreciar sem criticar sem olhar em volta ao
menos – inativo. Prostrado parado entregue dependente, qual boneco feito do que
feito, de pau de cera de barro ou de borracha ou de matéria plástica como tudo
hoje em dia e assim para conseguir ser mais morto.
Seus
sacerdotes – os que porventura em má-ventura a servi-lo, são servidores
indormidos nas vinte e quatro horas dum dia e noite completos, os sacerdotes
sabem a sobejo disso; ou não poderiam oficiar sacramentos e cerimoniais quase
em liturgia.
A
rotina, que sabe ser a mais amiga dum ser imóvel e sujeito às paixões dos
ventos ou ao marasmo das brisas, a rotina conhece a fundo o corpo eterno.
Ela
estabeleceu – quando? onde? por quê? – o quem e o como, isto apanágio dos
sacerdotes servidores; forneceu as coordenadas no dia a dia horas minutos e
precisos segundos até, no que e como fazer o afazer.
Como
ponto de partida, não se conhecendo a partida e seu segundo inicial mas tão
somente o andar da carruagem e o carro já em movimento rumo à interrogação e ao
interminável o qual se entende como o inacabável e sem fim; ao menos o fim nos
moldes dos que se têm tangíveis ‘movimentáveis’ não maleáveis apenas; apenas
aqui como ponto de partida, simbolizado no fiat
lux, o início é de manhã. O sol, preguiçoso ainda com agradinho à lua ou ao
vento à brisa ao frio ao calor que irá derreter quem sabe o planeta descuidado,
o ponto enfim é às seis horas. O galo se nega então a cantar mais uma vez e aí
surge o dia. Chega o primeiro servidor – elemento aqui rabiscado por não ser
ser, ou por outra é um ser apenas pois não tem sexo definido e assim demais
servidores – o primeiro lhe abana o frescor da manhã, diz-lhe bom-dia sem
esperar, ninguém espera, resposta; descobre parcialmente o corpo eterno, lhe
atira mais uns carinhos e palavras de conforto a fim de que o mesmo tenha
coragem enfrentar o dia; dia aos normais ou comuns que imaginam a luta pela
frente, ele não responde e sequer se diz presente. Vem o segundo e aí
sucessivos terceiro quarto quinto, os quintos! e daí por diante. Dá-lhe o café
matinal, antes escova-lhe os poucos dentes presentes resistentes existentes
mormente na frente. Limpa de escova e espumas neutras a língua de não falar e
assim remove detritos e o mau cheiro do hálito dormido. Chocalha, bochecha,
fá-lo soprar esguichar fora o entulho da noite e aí, aí sim ministra a refeição;
quente, esfria; fria, esquenta; tempera acresce tira, põe leite mistura pão
e... Lá vem o terceiro com a pílula; depois, no horário certo ou acertado o
quarto com a drágea; o quinto trazendo comprimido; o sexto a cápsula; o sétimo
vem com líquidos, amargo? acresce açúcar especial; demais adocicado? acresce
mais leite a neutralizar e remexe o leite da sopa, a casa acostumou-se com o
termo “sopinha”, tudo tem que ser no diminutivo ao corpo eterno em não feri-lo
nos brios e nos hábitos. Daí vem outro sacerdote, na sua hora, o corpo eterno
desconhece hora e os porquês: o servidor é quem precisa saber a fundo o que em
termos o homem comum não conhece nem de cor nem salteado. E mais outro e outro
mais até acabar, não o fim mas o dia a fim de passarem os do dia aos ministros
da noite o quefazer próprio de cada servidor: infindáveis inesgotáveis
intermináveis medicamentos ou alimentos ou comportamentos que se exige que
exija o corpo eterno para continuar eterno. O almoço o jantar a refeição do
meio e do meio do meio e alternâncias em poder energético, cada um pensa e
trata da sua dose na sua pausa ou sem meditação no fazer automático e
intermitentemente por serem especialistas de sua hora; ora o corpo eterno
desconhece até o desconhecimento e bem mais o que deveria saber – tocando ao
sábio ou técnico ou especialista conhecer dentro do seu métier. Assim por entremeio fases e aplicações injeções aberrações
inclusive, vive o corpo eterno sua morte. Importante a fase da higienização:
banhos troca de fraldas limpeza da sujeira no seu excesso, visto tudo equivaler
à quantidade ingerida. E têm os técnicos da limpeza externa como lavagem de
roupa ou só cuidar que a máquina lavadora cumpra com sua obrigação; e os que
varrem ajuntam descartam detritos e entulhos gerados no tratamento do corpo
eterno ou que seja o que se pensa possa um corpo sendo eterno exigir. Também há
um capítulo desmembrado em capitulinhos o quanto preciso for, como cada peça de
roupa a vestir, aplicação dos cheiros e perfumes adequados a cada parte do
vestuário do corpo proprietário de tanta necessidade, ou acrescidos cuidados
que a rotina exige para ele. São ao todo um exército de sacerdotes a oficiar
com suas velas veladas ou ostensivas os cerimoniais que o cerimonial precisa!
Não
se pergunta não se critica sequer se traz à tona o gasto e o orçamento. Tudo o
que deseja ou impõe a rotina se obedece; mesmo porque a obediência é cega ou
não seria obediência. Movimenta-se necessário por um mundo a satisfazer a
eternidade de um corpo.
E
aqui se nos depara uma questão enorme: de um lado a eternidade da alma ou
espírito encarnado, que seja no corpo eterno; doutro a defesa por estes
rabiscos em riscos e gritos sem boca impostos ao papel gasto envelhecido pelo
tempo, que é o corpo ser eterno. Isto o novo pois a perenidade da alma a
maioria defende no globo; no entanto a dum corpo!?
Essa
indagação esdrúxula já na sua criação e seria mais esquisito colocada em
discussão, interminável e mesmo eterna conforme elementos que se puserem a
tratar o caso – essa indagação é posta no calhamaço rabiscado pelo então jovem
agora velho da bicicleta inglesa, a viver morrer de paixão por uns laivos
louros encimando olhos verdes sem necessidade de óculos. E pode muito bem sê-lo
igualmente objeto não só dele mas inclusive dela pra lá do corpo eterno, vendo
curiosa desse lado do corpo que nos entremeia, o lado que rabisca rabiscos.
ALICE-II Ela chegou-me um dia apresentando... ora,
quem poderia em sã consciência apresentar o rival ao rival!? Nem sequer se
pondo fazer as apresentações e... bem, nesse pior é que acompanhei a namorada
presuntiva quase de braços dados com ele, ele meu rival, desconhecido, e assim
ela se descartava dum casamento certo comigo. Quer dizer, agora, neste agora de
hoje, ela pra lá do corpo eterno eu pra cá do corpo eterno, eu ainda continuo
solteirão, velho e solteiro; decerto dois males num só indivíduo segundo
pensamento de Teocrácia tida por Graça, a Graça e seu clube de tias louquinhas
para fazer um homem solteiro casado, casado com qualquer mulher, digamos uma de
olhos verdes cabelos louros compridos a vir lá da periferia, a periferia
relegada aos caprichos da prefeitura “aquela ladrona” na língua de Graça, a
prefeitura que apreciava bastante o centro e a zona residencial burguesa em
detrimento das classes pobres. Contudo não deu. A melhoria da casa amarela e
vizinhança com água encanada e esgoto, tendo já rede elétrica? Não, não deu
casamento entre Alice jovem bela e o atual rabiscador de rabiscos nos rabiscos
da brochura; desse um em sua juventude.
Todavia,
nisso tem outra questão em ganho de causa ao rabiscador. Ou seja, embora ela
tenha “andado de bonde” (falar da sociedade na época a tratar de alguém indo
passear colado no seu par:) embora com meu rival e mesmo entrado no escuro do
Cine Teatro São Luís com esse homem estranho horroroso e decerto forasteiro –
ah que maluquice não faz a mulher enamorada... – o forasteiro que é um perigo
em potencial pois podendo passar aos olhos dos outros como sem compromisso,
tendo na sua terra esposa e filhos, “oh o cachorro!” exclamaria o rival, eu
jovem atarantado presenciando aquela conquista espúria de minha namorada em horário
de almoço no trabalho dela. Ia ver, pensei então, melhor que estivesse
espinafrada na farmácia do sr. Henrique quebrando o miolo em acertar o caixa.
Do que ao lado dum pilantra.
Nesse
dia não almocei direito – ou poria fora arroz feijão bife e uma rodela de
tomate com folhas de alface. Pior, precisei inventar um invento bem feito a
convencer mamãe estar outra vez doentinho,
apesar não ter esfolado nem sangramento nem esparadrapo. Não dá para me
orgulhar haver mentido em casa para compensar a rua que me havia antes
mentido...
Uma
vez, por vários dias na semana, urdi um plano diabólico a ferir eliminar, diria
hoje deletar, o rival; pra ferir melhor a ingrata transgressora traiçoeira
traidora, pois já nesse tempo não se fazia mais namorada como antigamente. O plano
na parte que competia ao despique na jovem era hediondo.
Porém
o pobre namorado traído, como bom descendente de peninsulares italianos, os
quais esbravejam e logo perdem força perdoam (não esquecem ofensas...) e tudo
quem sabe a poder virar pizza – o
pobre logo passaria por cima de tão grande problema e, feito cachorrinho,
voltar vê-la cobiçá-la conquistá-la com os olhos. Mas por tempo indeterminado,
esta uma figura para espichar a falta de coragem, por um tempo deixou de
cortejar a bela de olhar clamante em verde e cabelos longos alourados; fez mais
nessa vingança o rapaz: suprimiu sua própria presença, para como que deixar a
moça morrer à míngua por falta dos seus beijos abraços e demais carinhos...
Falhou o plano. Aos poucos tornava como que abanando rabo ou de rabo entre as
pernas olhos espertos a namorá-la, paqueirá-la na língua do homem da rua hoje,
só de longe. De longe até um fatídico acidente: derrubou inadvertidamente a
bicicleta pesadona, por embebido embriagado com o andar da jovem da farmácia em
sua direção perto indo ao jardim São Bento. O plá plum no estrondo do veículo
em choque com a calçada na rua causou nele tal impacto, impacto maior o da
vergonha certamente, ficando então vermelho como um peru; peru será vermelho?
não importa, importa que não havia este lance no plano diretor de vingança.
Mesmo assim ficou dias sem passar na frente do letreiro novo já velho e
desgastado da Farmácia do Povo.
Hoje,
neste agora, agora olha meio ressabiado para além do corpo eterno em vê-la. E perguntaria se
ela ficara sabendo de sua vingança e da queda de sua Hercules... ora que diabo,
por que os gringos não põem acento numa proparoxítona bem configurada?
Ela?
ela apenas me olha deste lado, não sabendo eu se a me ver, se pra flechar com
olhos verdes por baixo dos óculos, pelo fiasco no barulho da bicicleta, quem
sabe se não a assustar seu sossego.
TIAS-II Teocrácia cheia de graça agora descansando do
trabalho insano e cansadiço em convencer jovens a se enrolar no matrimônio; sem
lhe dar crédito (seria débito) o fato de, após, os membros do consórcio
brigarem se ferirem se apartarem. Ela tão só do setor dessa confraria das tias
à união, a desunião já outro papo. Contudo até nos dias da morte, justificando
aqui não ser como o corpo eterno eterna enquanto durasse; mas até ao
falecimento ainda usava argumentos e ardis para juntar jovens. Morreu. Porém
não a confraria. Algumas tias inventaram outras mais tarefas dentro da mesma
profissão – e seria profissão? – se pondo a manobrar informar preparar
completar no iludir fazer cumprir matrimônios, agora voltadas a casais de
meia-idade ou ainda noutra e pior hipótese pessoas passadas velhas com cheiro
de caixão e túmulo. Esse negócio que dá muito nos tempos de hoje: anos
dourados, melhor idade, terceira idade e outras tapeações desse tipo. E aí?
Aí
tocou a vez ao namorado, ex-namorado ou seja o conquistador de Alice, esta que
vez por outra vem entra e ao bater insistente da porta deixada levemente
aberta, aberta fica ao diálogo, se sentando numa cadeira de madeira em quebradeira
ao lado do lado de lá junto ao corpo eterno; a olhar-me deste lado a rabiscar
meus rabiscos afundado um pouco na cama e por isso a permanecer mais baixo que
ela na cadeira – de pé sou, digo vaidosa e orgulhosamente, um centímetro maior
que ela, nós ambos baixos na estatura semelhando outros milhões neste país.
Olha-me indagativamente, rabisco indagativamente também no riscar o que possa
ela pensar que penso e risco garranchos na mão contrária, quer dizer gravo em
registro o que penso que ela pensa e sente por mim, ao mesmo tempo o que acho
dela; essa que me foi tão atraente com seu loiro e seu verde em andar provocante
pelas ruas da cidade pequena do interior, mais fixado no trajeto de casa ao
serviço e deste à casa e lá um pouquinho indo ela tomar os ares ver pássaros e
flores no jardim, onde pregou-me a peça da traição. Ora, nunca nada e nenhuma
ação me causou em toda vida, ou apenas nesta existência, tantos estragos como a
traição. Não apenas o que pesando sobre minha pessoa sim sobre quaisquer conhecido
ou desconhecido e aí me firo no ferir alheio. Em suma não tolero traição; e ela
me traiu, exatamente num momento de exaltação poética do namorado apreciando (a
oposição diria “seguindo”) observando e preso no amor, no seu amor...
Onde
é que estas linhas estão nos levando? No trabalho quase de parto em fazer
nascer um novo casal a obedecer o “crescei-vos e multiplicai-vos” dito redito
insistindo milênios os pensadores religiosos; em nosso caso, frustrado; porém
as tias não nos largaram, mesmo fosse a esquecer a luta nesse sentido exercido
pela finada Graça irmã mais velha da gracinha em que me saíra Alice. Sim porque
desandaram as mesmas a querer juntar no cerimonial do casamento os já idosos!
Se
conseguiram bom efeito com outras pessoas mais permeáveis, tento à confraria.
No caso dela e meu fracassaram, pois sou anos empedernido solteirão, a viver
solitário e mal acompanhado visto escrever também mal.
Não
seria o caso de meus rabiscos indagarem aos planos da vida pelas olhadelas
fortuitas que flagro nela desde a outra margem desse rio tenebroso mas
prostrado negativo inativo que é o corpo eterno; voltadas aqui para o meu lado
a rabiscar? Sim, esclareço, não estaria Alice desejando saber de mim se o
trabalho das tias ao casal já em cacos podendo levar-nos ao matrimônio? Diria
ela, dissesse, você aceita me aceitando!
Que
faço então, então atiro abrutalhado grosseiro a caneta – a caneta sem culpa no
cartório – atiro pra longe e saio resmungando: vou comprar na venda uma outra
caneta que escreva e seja mais obediente...
CAMINHO-II Todos levam a Alice... Para o jovem enamorado
dela sim, não pensava noutro ser noutra coisa noutro caminho. No entanto após
aquele golpe traiçoeiro... dela não, não seria tão indigna me pisar o coração,
o órgão mais frágil, eu um jovem que vivia morrendo de paixão a passar e mais
passar na frente do trabalho da menina, somente a flagrá-la em se mostrar e num
quem sabe descuido da falta de coragem viesse ter arrojo e fizesse uma
declaração àquela jovem magra baixa loura verde nos olhos, magra e pequena
ainda nesta altura do calendário, mas na juventude... Com o infausto acontecimento,
ou seja o flagrante dum namoro com outro, a coisa mudou.
Então
o jovem, sob pretexto (a si mesmo ninguém vindo a saber disso...) enfim a
pretextar pneus furados, corrente larga, selim escapando, guidão torto – essas
coisas que inventamos quando nenhum errado dá certo no que planejamos e aí dá
errado o certo – a pretextar isso mudou de caminho, não passando mais em frente
à Farmácia do Povo com sua Hércules, aqui já acentuando a palavra, não
para se vingar dos fabricantes ingleses de bicicletas, a fim de vingar-se da
jovem e isto dentro da estratégia de sua vindita contra aquela criminosa!
Exato, a si traição crime de lesa-majestade.
Assim
deixou frustrada a ânsia da garota em vê-lo, daí por diante não mais o veria,
claro, vendo antes diário o pretendente. Esse o objetivo principal na sua
cabeça “de corno”, gritava a baixaria na expressão que a gente do povo miúdo
usando nesse tempo; o objetivo era fazê-la, enciumada decerto, fazê-la imaginar
que ele havia arranjado novo par, um outro melhor par.
Ora
bolas, agora hora de indagar, asserenados ímpetos passado tempo baixada a
poeira esfriadas as cinzas, indagar quase no tête-à-tête (o corpo eterno ali no meio de ambos não dando palpite,
como intromissão ao menos) o que Alice pensou da coisa, o quanto terá sofrido.
A
mulher não fala, não falam participantes, falam em silêncio seus respectivos
olhos em olhares tolhidos pela vergonha ou só timidez; nele em altas doses,
nela em doses homeopáticas cheias de mansidão e cuidados...
Todavia
esse caminho em contrário ou às avessas do trilhar meses anteriores até a
desdita no flagrante criminoso – durou pouquíssimo.
Dessa
forma voltei lambeta semana após, tornei a passar desde os baixos onde residia
pela farmácia, rumo ao meu trabalho no escritório em pleno centro urbano. No primeiro
dia dessa renovação cansativa ou desnecessária, levei o maior susto de minha
pobre e simples existência: outra funcionária no balcão! Teria sido despachada
por causa do ato criminoso de lesar o rei? eu. Cada bobagem consta haver na
cabeça tresloucada dum rapaz enamorado. Não, Alice fora em férias, embora
sequer estivesse registrada, que demais quase ninguém do último escalão no
trabalho remunerado tendo registro em carteira e pior nisso: a receber bem
menos que o mínimo na urbe a crescer. Um dia, outro dia, o desânimo do rapazote
recebeu um alento, pois a namorada regressou às obrigações. Sem aqui imaginar
que viesse chorando aos braços dele, quiçá a implorar perdão por quase se casar
com um homem de fora. Claro nunca passar pela mente da lourinha que o
forasteiro fosse compromissado e com filhos. Quer dizer, tudo voltou como era
antes no castelo de abrantes; não é assim o dizer?
BANCO-II Havia, decerto sempre houve desde que o mundo
é mundo, havia muitíssimos bancos e incontáveis cadeiras; claro num planeta em
que já nascemos cansados... havia vários bancos à espera que alguém se
aboletasse se sentasse a esperar ou só para descansar mesmo na cidade – dois
marcaram mais, em vista básicos nesta estória de amor com um desamor vivo morto
no meio. A saber o da farmácia dela e o do escritório dele.
Enquanto
se aguardava ou seu Henrique chegar medicar ou se sentando ele mesmo para
conversa com os fregueses, aqui clientes ou pacientes uns até impacientes na
demora da chegada do proprietário da farmácia; enquanto isso era o banco ponto
obrigatório, não só aos funcionários Alice no meio e que não sentiam coisa alguma,
acostumados com a fragrância dos remédios mas sentindo os de fora, fregueses ou
eventuais pessoas a procurar medicamentos ou drogas (lícitas, não pensemos bobagens)
esses tais a se ferir com o cheiro próprio de hospitais; para o jovem namorado
da namorada, enjoativo repugnante. E assim o banco de pau no estabelecimento podendo
ser tomado como castigo ou prêmio; ela estando presente a gastar cotovelos no
balcão e mostrando sua graça de mulher nova e bela, um prêmio, claro. Mesmo seu
hálito, que poucas vezes pudera sentir, isso um presente dos deuses a pobre mortal;
mas o que o atingia eram o cheiro de mulher e a leve fragrância dum perfume que
dela exalava e aqui não entenderia se francês se mera água de cheiro. Isto
mudou!
Dezenas
de anos após mudou acentuadamente, agora na situação em que está aí imediato
sentada após o corpo eterno, pelo cheiro de corpo que o corpo dela tem, felizmente
nada eterno...
O
outro e segundo banco de espera, no trabalho dele. Então aí ficava parolando
suas bobagens de molecão na companhia dos colegas do mesmo nível cultural e
social o jovem namorado de Alice. Eventualmente como dito sentavam-se fregueses.
Esse banco também de madeira também de espera como o da farmácia, se desgastou
na semana quase inteira em que o jovem viveu divorciado da namorada. Virou
local dum pensar macambúzio. Decerto não era o modo no ver dos outros não
brigados com suas respectivas outras metades. Uma semana chata, em que o
trabalho era chato a refeição era chata; enfim sem quaisquer possibilidades à
laborterapia praticar suas teses.
Contudo
haveria – o tempo provou tempos depois – haveria outro banco de espera, este
aqui. Dum lado do lado de lá do corpo eterno eterno sem mudança, a cadeira
cambaia e estragada que ela tomara ao entrar inesperadamente e em que se senta
voltada pra cá a me ver talvez, talvez a aguardar não sei o quê. E deste lado,
novo assento sem assento pois afundado em que o colchão de minha cama cede, acabando
por ficar meu desnível abaixo do nível de sua cadeira.
Volto
a rabiscar que todos três seres são íntimos, sem que isso seja de consciência
do corpo eterno apenas de nós ambos. A grosso modo, minha cama é meu banco e a
distância dele ao banco duro de sua cadeira (sua porém pertence à casa realmente)
é mínima e aqui o novo problema, a mim gravíssimo.
É
o fato do aspirar, por próximo e sem desejar, seu ‘perfume’. Os garranchos dos
riscos nos rabiscos apostrofaram a palavra porque pra mim não chega a ser perfume...
Sim,
não me agrada. Vou além – e isto não seria pelo desgaste dum ser idoso! – vou
mais longe: é um fedor. Exatamente como grafado pois me repugna o cheiro agora
de Alice, aqui tão pertinho para meu desgosto...
Existe,
creem meus rabiscos nesta brochura barata, há um elemento químico na composição
do ‘perfume’ e de todos perfumes que é o enxofre. Tudo é sulfurado ou
sulfuroso. Pensar comum ou reconhecimento de todo mundo. No entanto nesse que
ela agora usa (ou abusa?) tem mais enxofre e portanto me atinge e fere meu
olfato, me arrasando. De tal forma que torce o antigo jovem da Hércules que se
disponha logo a visitante ir embora. Ou ficaria nas horas das horas de
permanência dela com esta irritação que sinto nas fossas nasais em contato com
essa ofensa...
Que
faço? coço-me no meu banco, que não é banco de pau mas colchão mole, sem poder
ao menos gritar; falar que seja e nisto a ser tomado por um sujeito mal educado.
CASA-II A casa ainda não caiu, caiu sim no sentido figurado
visto o jovem haver ficado velho e descoberto diverso mil coisas tidas na
juventude como conquistas quiçá vitórias garantidas. Isto podendo ter ocorrido
à jovem de olhos verdes, ainda agora verdes na velhice – sim pois convenhamos que hoje Alice não
passa de passa de uva ou um destroço, destroço quem sabe não apenas orgânico...
A minha casa, as duas casas caíram. A dela, se quem tenha me passado informes antigamente
não errando, a dela literalmente caiu sumiu do mapa. Era amarela, eram tábuas
rachadas e com frestas que tanto apreciam baratas como o vento; era na
periferia leste da urbe a nascer depois crescer e após a se poluir decerto –
não é mais, sendo ainda sito na zona leste apenas um terreno vago solto largado
e com monturos de vegetais daninhos crescidos a quase cobrir monturos outros de
tijolos e cacos de tijolos espalhados, restos dos tijolos que serviam de base
na construção, embora de alvenaria em baixo em cima de madeira pintada,
acreditei, de amarelo já descorado pelo sol a chuva o vento enfim as
intempéries. Um vão de terra abandonada onde a antiga residência bela talvez
dura talvez, da jovem bela com certeza morando.
Fui
ver o lugar, curioso eu curioso; e constatei realmente esse desastre que o
tempo prega na gente, por mais contente por mais tente por mais intente não se
pode com o tempo em tempo algum da história da gente. Então senti vendo aquilo
quase uma sensação de deserto decerto assim um deserto; contudo só no local da
casa dela, o lote como se fala, o lote dela sem edificação e mais um outro
perto vazio, porque a cidade pequena ficou grande e até a periferia as
periferias se expandindo. As residências vizinhas se remodelaram, outras foram
ao chão – hoje comum vermos caçambas com restos desmanchados aguardando remoção
e, imediato e próximo pilhas de material novo às novas construções quase reconstruções.
Enfim o novo no velho ambiente. Assim a urbe e a vila se refazendo, se
refazendo também a casa de Alice na periferia no leste urbano? Não.
A
casa não existe. A moradora mudou-se, sabem a sobejo os íntimos que andou por
vários outros pontos da cidade; um ano inclusive longe daqui da urbe, voltou.
Tornou
para me ver! ou para ver o corpo eterno...
Parece-nos,
parece aos parentes, que o corpo eterno anda relegado por eles, por ela, parente
(o povo tem disso a falar que parente é língua e dente, este quando pode morde
a desprevenida língua...) Assim teria voltado à terra para “matar saudades”,
dito igualmente popular que minha agrura afirma ser sem sentido. Então isso
explicaria haver-me espantado, por a ‘entrona’ entrado pela porta exposta,
trazido a cadeira a despencar despencando seu cansaço nessa cadeira que pôs ao
lado como em guarda do corpo eterno e... ai! aí exalando seu ‘perfume’ pro meu
lado; o lado que para fugir dela, delas, e do cheiro da primeira delas, forte
em substância sulfurosa; e quem sabe se não a fugir por isso este lado de cá da
saudade. Seria então da saudade que me daria da saudade que me consumia o ser
por tê-la sem possuí-la com seus fios louros e seus olhos verdes!? Não sei, sei
em hipótese, sei provado apenas haver embarcado numa brochura velha e gasta e
em gastas folhas nuns rabiscos em rabiscos.
Agora,
e esta casa.
A
minha, antiga nas baixadas donde empurrava pra cima a bicicleta Hércules, feito
um hércules de segunda categoria por sem força e coragem a pedalar nos
paralelepípedos lisos soltos pontudos machucadores, sem disposição a pedalar
passar, aqui já pedalando normal (o quê seria normal?) passando lendo o
letreiro em letras garrafais “Farmácia do Povo” e embaixo, no balcão,
percebendo uma fada loira de olhos esmeraldinos a me olhar quem sabe; e daí
indo finalmente (quê seria final!) indo para meu serviço.
Oh
tal casa anda ainda parada firme fixa no lugar em que fora edificada anos antes
até do meu nascimento, com suas madeiras, então repostas onde estouradas e
ainda não pintada nunca fora pintada só pintada com a tinta lerda perene
teimosa do tempo. Está na baixada, para quem se dispuser conferir. Mais não digo.
Digo
desta casa onde agora estamos nós três. A saber Alice doutro lado, o corpo
eterno eternamente inativo passivo qual boneco no meio, e o outro lado que sou
eu rabiscador de rabiscos, registrando as mentiras desta verdade.
Esta
está estando, por estar em condições...
Não.
Isto posto, posto mal porque em péssimas condições. Os rabiscos arriscam ir
além: fosse propriedade da família, a família alugaria outra noutra zona, mesmo
em zona de nova velha periferia sempre escanteada pelos poderes públicos (o de
sempre no país quiçá no planeta). Porque o senhorio, a rigor a senhoria visto a
mulher ranheta mandar no consorte sem sorte, o trocadilho bem-vindo aqui, ele,
ela, não quer gastar tostão sequer pondo o imóvel em condições para morar. Os
trincos em desenhos sui generis
mostram o perigo; até Alice vindo vendo me puxando orelhas no lembrar indagando
com olhares se o prédio não sujeito despencar com as rachaduras – eu, duro,
caso perguntasse com lábios e não nas segundas intenções de olhos, eu duro
grosso mal educado responderia “o que é que você tem com isso!?” enquanto ela
prontamente fosse deseducada equivalentemente “ora ora, eu não sou parente!” eu
de novo, ‘bocudo’: parenta. Ora que bobagem, nenhum nem outra falando, a
olhar tão só. O fato é que teria ela razão porque é possível desmoronar esta
verdadeira peça de museu ou do patrimônio histório de nossa urbe. Aí? aí nessa
altura do tempo ela não: Alice suponho tenha já ido para sua casa, e minha
brochura com suas folhas falhas velhas gastas bastas de informes, não morreriam
no ‘desabo’? Não, o corpo eterno não corre tal risco, eterno e portanto
‘indesmanchável’.
ANDAR-II A maneira, os passos, as formas, o sentido
dela é o mesmo. Não sei se possível a alguém que filosofe as coisas banais do
mundo, das importantes não se fala, fala-se das chãs ¡¿
será haver ‘visto’ o desenho em linhas móveis perfeitas, como pessoa a ir em
direção de um lugar ou em todas direções; às sinuosidades às intermitências ao
ziguezaguear igual um ser se deslocando para onde ir !? Assim via quando via o
jovem, quando jovem a jovem Alice nos poucos passeios flagrados; e mesmo – aqui
necessário carga poética ou ajuda da loucura a obter êxito, porque poeta e criança
têm um poder enorme a enxergar o quê pobres tresloucados adultos não veem vendo
o chão, não o quê chão e a saltar ao imaginário inocente e puro – e mesmo no
andar dela como balconista mas aqui a correr tomar o que tomar lá no
laboratório a trazer para o balcão de venda da venda de remédios; ou a
ir-voltar da prateleira e mostrar sorrindo e indagativa a mercadoria ao freguês
cliente paciente. Nesse trajeto eventual ou regular, num mostrar seu andar
atrativo a dois olhões enfeitiçados do rapaz enamorado dela observando da
rua... Sim, vale um esforço a entender poética ou doidamente. Era assim seu andar.
Agora,
hoje, seja chegando passando pela porta seja indo a passar pela mesma porta
para fora desta ruína sem arquitetura e com tempo ótimo a dignificar museu –
agora é assim ainda ela anda. Porém anda diverso porque a mancar um pouco...
Ah
pobre mulher dos meus sonhos, a pobre neste ocaso puxa sem o desejar a perna
esquerda, que arrasta para os membros arrastá-la nada por acaso...
E
isto não é excepcional, o comum do ver no ser a perecer.
SAUDADE-II Estes riscos nos rabiscos descobriram, a analisar
um todo no sentimento da saudade, que o ser humano quando diz ou sente de fato
o que diz, enfim uma pessoa ao afirmar ter o sentimento, apenas vê o quadro de
si mesma; as outras figuras inseridas nesse contexto quase estão aí por acaso.
Em síntese, alguém com saudade tem é saudade de si; e dessa forma o resto é o
que satelizou-se em volta da própria pessoa. Porque mesmo num quesito de
sentimento teoricamente externo ou exteriorizado pelo que vindo do interior, do
coração em exemplo; assim sendo, não passa a saudade de uma lembrança de si,
nada mais. Isto porque o humano é egocêntrico; vez por outra também egoísta, o
que uma distorção do seu destino ou caminho a trilhar. Não vê outrem, vê a si;
outrem existe em função da sua existência como centro, como indivíduo excluindo
outros seres.
Assim
a saudade registrada numas pobres folhas velhas machucadas talvez, gastas com
certeza, pode ser duma jovem agora acabada (isto expressão demais forte da
realidade na realidade alheia, onde temos vetado o trânsito por incapazes todos
nós). De que esses papéis envelhecidos até em suas linhas azuis quase já
transparentes e invisíveis têm saudade? – é realmente um ser idoso se lembrando
das coisas do seu eu jovem perante aquela jovem namorada.
Esta
namorada, decerto sem qualquer pretensão enamorada mas parecendo ser apenas uma
vivente e portanto coadjuvante, esta que agora se levanta em uis não audíveis
da cadeira (e aí lhe pego no pé, mentalmente: como é dona, a senhora vai me
deixar o móvel imóvel onde não estava estando em sua entrada na entrada! uma
pessoa com educação recolocaria no lugar do lugar a cadeira, ora...) levanta-se
e caminha no seu andar leve em direção da porta. Não dá a mão, não dá com a mão
sequer no se despedir; chega ao portal, deixa a porta aberta (a quê!) e some
fora. Dentro nós.
-
- -
O
velho observa triste uma brochura. Ficará com saudade de si mesmo e das folhas;
não juntará um dia o caderno ao que juntou nos badulaques do sentimento a
pensar futuro, futuro para quem só tenha passado; não acrescerá inclusive o
cheiro da Alice de hoje, o do seu perfume discutível!?
E
o corpo eterno, onde habitara um ser feminino rico na miséria do sofrimento,
esse com certeza não porá tais dúvidas. Sólido, duro na queda, certo que a
conhecida lei de Lavoisier em seu caso não deu certo.
Marília setembro
2012