sexta-feira, 30 de agosto de 2019

O Inerte


O Inerte

- Ouviu mal falei não verme, inerte. Aquele sujeito sujeito às injunções do movimento, embora parado pranchado (relaxado!?) esticado na cama; de solteiro. De solteiro ou teríamos, ou não teríamos nada pra ver vendo o sujeito; aqui nesse então sujeito à companheira... ah a companheira... Seria de ouvirmos nós e conosco todo um planeta na surpresa dela um berreiro quiçá espalhafatosamente grande, ensurdecedor. Coisa assim de  "mataram meu marido Mário!" ou João ou José, este que pronunciavam na vizinhança Zé, seu Zé, forma bem mais curta mais popular mais condizente com hábitos arraigados em nossa civilização. Aqui não toda civilização, apenas a particular caipira sem roça, pois mataram-na, deixaram também a roça inerme.
Não. Sim, andava feito morto ou absorto apenas no leito pobre.
Pobre. Quando a gente diz pobre não imagina, ao menos no imediato das coisas, o sujeito a viver miseravelmente; e isto é uma aberração no mundo rico desgastado usado abusado pelos ricos, esbanjado dito melhor; os quais têm vasta ajuda (negativa) da parcela pobre imensa espalhada de oceano a oceano a igualmente usar gastando esbanjando como nada tivesse um fim... Não se fala aqui desse pobre.
O inerte.
Particularidade da situação dum sujeito inerte – pranchado ou não na cama de solteiro, no caso solteirão empedernido e sem temor temer ouvir nesse infausto momento a gritaria assustada de sua senhora (senhora dele, essa que teria feito ou não faz mais, dada a condição de não existir; porque ela faria um berreiro pelo fatozinho de encontrar o companheiro morto, inanimado... e nisso chegam uns desaforados parênteses, não 'parentes' parente é ainda mais desaforado metido intrometido e neste caso não daria satisfação à Maria, sim não passa de hipótese e podendo chamar-se Josefa Teresa Joana; não existindo não se  chama nem chamou a atenção do prédio inteiro naquele vozeirão; e chega:) Continuemos.
É um prédio sem andares. Quer dizer sem preocupações aqui embaixo a olhar muito lá pra cima os andares a meter sua cara nas nuvens com pavimentos sobre pavimentos, uns 50 ou 100 andares. Não.
Sim, um modesto desses que pululam nas megalópoles apesar de superiores às inferiores edificações plantadas no solo sem ser favela nem mesmo casas de alvenaria pobres e tendo como o prédio pobre a condição de aluguel. Aquele negócio de placa com letreiro "aluga-se" ou "vende-se". Não, apenas pobre com poucos pavimentos em cima doutros pavimentos a escorar abrigar apartamentos sem luxo ou até a comum quitinete ou seja quarto emendado à cozinha, tudo exíguo tudo medido contido espremido. Ainda assim os moradores a temer apropriações indébitas e portanto a se fechar dentro ou a sair fora fechando bem com bem uma dúzia de chaves (pra exagerar o exagero) e daí, na hipótese anterior se fechando presos a se enfurnar e ninguém tem o bem de saber o que a gente faz dentro de casa. Ou na segunda saindo fugindo ao sofrimento lá fora – e antes que isso a esperar o elevador, não o ascensorista, isto não existe pois a empresa que controla o edifício despachou todo mundo trabalhador em favor do contra que é a crise e assim só permanecendo a manter o estabelecimento um funcionário para atender possíveis futuros e presumíveis interessados à locação das vagas; tão só existe o serviçal à limpeza para recolher lixo e a conversar com seu celular no descanso da jornada, além das atrapalhações como entrega da correspondência de um inquilino a outro morador... e da encrenca do tapete: cada vez que limpa o andar deixa o de um vizinho na porta do outro, outra piormente se for a do 55 briguenta. Em virtude dessa desvirtude foge-se usando elevador barulhento e por vezes encrencado, a ter na volta ao lar que subir pela escada até ao sétimo. Mas o 7 é número da mentira.
Partamos à verdade, confirmada: um homem encontra-se inerme na sua cama simples.
A cama... o colchão (diriam as bocas dos olhos alheios cheios de curiosidade na visita da curiosidade ao antro – um apartamento de prédio sem recursos equivale a um antro como dito e aqui repetido. Olham analisam e piormente comentam, porque o homem comum não sabe ver-ouvir quer até manusear e sobretudo expressar opinião quase sem contradita e daí: O colchão mui remexido velho usado ih que cheiro... Não, o que remexido o lençol, esse assim bem sovado, afirmam sherlocks em plantão; amarrotado num mostrar o quanto o Sr.José (não falaram Zé!? disseram Mário, ah o Mário da Maria!) o quanto ele se mexera se remexera a se contorcer na sua dor e... espera lá, quem garante enfermidade atroz? Claro, as pessoas idosas, comenta lembra uma das intrusas (gente de fora sempre intrusa nas intimidades da gente) sim gente velha necessariamente vive a morrer nas suas dores; e mais: nas lamentações pelas dores. Eu conheci um velho (pronuncia "véio") que... E vai aí afora o(a) de fora dentro.
O travesseiro, vejam, observa um da equipe sem salvamento e de investigação (não oficial nem mesmo oficiosa) esse travesseiro meio atravessado e por demais alto, prefiro um baixo conforme o dr. Otacílio recomendou e nisso conta médico hospital diagnóstico remédios exercícios e o que viu sobre o assunto na televisão ou a consultar no Google, tudo todo andamento neste particular, o particular um exemplo de quem examina o ambiente em que gente inerme cadavericamente estirada no leito. Pois é, o travesseiro mostra anos no uso – vejam o afundamento mais à direita no abuso ao dormir – o travesseiro exibe uma falha gritante, e daí esse (nunca o comum do ser sabendo não sabe de gramática, quando 'este' e 'esse', por mais perto se encontre do objeto sujeito). O sujeito visto deitado na cama revirada, já um indício de sofrimento por que o infeliz passou, se morto.
Morto!
A gente entra observa analisa o quê vê e vê assim um morto... Ora, o quê a gente não vê não existe todos sabem disso; o que escancarado à nossa frente, a gente até pode pegar tocar bulir a conferir e por isso existe. Creio na existência desse (outra vez é esse ou este?) enfim do corpo.

- O corpo dum sujeito já gasto já fraco já no ponto de partir... ao paraíso ao inferno, não contente em ter o seu inferno nas crises da gente e seus prognósticos suas estatísticas suas 'feiquinius' e seus inventos saídas e explicações e (chatamente absurdo mas escancarado no noticiário da tevê:) e as soluções. Todavia nisto um caminho a sair por bem por mal do inferno e tê-lo depois do trespasse, não esperando decerto a esperança dos racionais e as tolerâncias imerecidas do céu. Sim, o corpo inerte dum ser desconhecido (embora toda fala humana é de a pessoa ser conhecida e pior: aceita como "amiga") esse ser pode ser visto numa cama quase enxerga barata vinda do brechó. Pode. Inanimado.
Será, indaga o curioso, alheio, será que um inanimado como aí exposto não tem vida interior; quer dizer estando por fora morto porém por dentro pleno de vida. Contudo não se mexe – garante uma das visitas nem um pouco convidada, a curiosidade não tem cerimônia nem etiqueta.
A polícia e o tempo.
A lei (ora a lei) a lei fora chamada, o servidor de plantão explicara pelo celular o que ocorrendo no prédio, todavia demorava um tanto a chegar. Encostara a porta, a porta nunca fora entrave aos abelhudos, estes a comentar com moradores mais velhos do edifício no apresentar o fato palpitante do dia ou seja aquele velho diariamente descendo-subindo no elevador, não se sabendo o que possa fazer um aposentado solitário nem o quanto ganha nem o que faz da fortuna além de não se ver os parentes e aí alguém categórico: "não tinha parente (aqui matando o ser inerte esticado porém com uma das pernas encolhida, sabidamente agora parado:) terá parente filho sobrinho tia, qualquer! ninguém vira nunca alguém próximo entrar o 73 em não ser o entregador de água um que outro de supermercado com as compras; ninguém vendo nenhum indivíduo a entrar lá que não o próprio inquilino, ora de carrinho de feira ora de sacola plástica de supermercado; e até a penetrar no recinto de mãos abanando. Portanto sem ninguém. Daí se comenta o homem, é Zé? Era, respondem, sim seu Zé um tipo estranho, não cumprimentava, ao menos desse com a mão sinal de vida nunca deu as graças da existência; decerto pagando correto à empresa proprietária ou só administradora do prédio; quem sabe? não falam existir uns maus pagadores, a imobiliária anda a fazer levantamento, tem gente que deve aluguel condomínio imposto água luz telefone e por isso estão processando pra pôr na rua e não seria esse tal Zé! Outros defendem o desconhecido a dizer que ele não ofendendo nenhum morador... isso mesmo, não ofendia.
Antes do disse me disse e no descuido do faxineiro que fora levar sacos pretos de lixo comum misturando com os sacos à reciclagem; nesse entremeio forçam a entrada, entram. "Tafuiam" pronuncia um interiorano apegado nos seus costumes e agora se junta como oportunidade para um 'estrangeiro' na megalópole aos outros mais acerbados inquilinos curiosos a penetrar aquele isolamento, no quarto (a cozinha da quitinete olha aquela gente espevitada e perturbadora num espanto e não faz nada, igual um gato de estimação – não tem gato cachorro qualquer bicho de estimação antes a acompanhar ali aquele viver ou desviver e agora a cozinha só pode olhar a baderna.) Ou por outra, não tem baderna, o grupo fiscalizador ou apenas enxerido de vizinhos em ver o que não deveria se meter em ver; esse entra de vez e de mansinho pra não dar no que falar nem despertar quem sabe a fúria do empregado lá embaixo; nem despertar possíveis inquilinos ainda no seu apartamento. Inclusive pisam em ovos para não causar na meia dúzia acordada desnecessária crítica e até não cutucar com vara curta a lei, a lei que tarda sim mas não falha... Não, quem não falha dizem ser a justiça, quanto à polícia ela justifica entretanto aparece, poderá de 'surpresa' aparecer. E como explicar o bedelho da curiosidade em coisas melindrosas como exemplo um defunto fresquinho!? Será que faz tempo que morreu? um do grupo, por espírita, retifica para "desencarnou". Não importa.
Agora encontram o morto morto. Estático pelo menos, não se mexe.
Daí comenta-se o que falara o mequetrefe em serviço, o como das coisas. O senhor gasto residindo ali, aqui neste quarto, não se comunicava com pessoa alguma, se é que bom-dia boa-tarde e obrigado não pertençam à fala dos vivos. Morto achado no ato da limpeza do pavimento, quieto – sempre se ouvia antes algum barulho educado, uma tampa de panela ao chão, o cabo da vassoura a chocar em queda no piso; som televisivo não, o sujeito não ouvia, por surdo quem sabe, pra ver tevê; sim havia lá dentro uma tosse seca teimosa renitente. Ah, de fato, ouvia-se o barulho da descarga e da água no lavar roupa e a louça é lógico, não consta mais nada da vida do morto quando vivo (e como saberiam não vivendo no interior daquela prisão que é um apartamento num edifício pobre e também no do milionário, num de rico) não consta provocasse qualquer barulho nessa casa (com possibilidade vir a ser mal-assombrada, credo!) Portanto nenhum vizinho e até servidores antigos a poder informar da vida pregressa íntima desse (não é 'deste'?) enfim do morador. Tão só que já por mais de ano ocupando o 73. Afirmara um antigo entre funcionários a umas orelhas que o mesmo pleiteava numa hipotética vacância outra quitinete longe duns barulhentos vizinhos... o que se não concretizara até aqui. Aqui urgindo o tempo de hoje – desaparecer do quarto onde agora se vê parado pranchado (relaxado!?) esticado um homem.
Agora aqui o homem não se mexe. Às vezes a gente no olhar fixo firme um objeto parado crê andar vendo um movimentinho quase imperceptível e supondo ilusão ótica; o fato é que o homem em questão não se mexe.
Nessa altura uma senhora nos seus cabelos brancos e de muita sabedoria entre eles se arrisca dizer – analisando o cadáver... (cadáver não é abuso dos olhos da boca? prossigamos:) Na analise do ser ali visto na cama, acho que ele sem dúvida alguma se encontra morto.

- Temos a extrapolar até na visão do próprio abuso um grupo, grupelho a ser exato, um amontoado de sujeitos sujeito à curiosidade, sempre indevida, de vizinhos (desocupados é claro e claro agora ocupados) ocupados em examinar seu Zé inanimado, demais dizer inconsciente. Entre eles, eles componentes aleatoriamente reunidos nesse quarto feito casa (ou velório!?) a comentar o que veem. Enquanto comentam dentro do grupo dentro do quarto, fecharam antes disso a porta, encostaram-na de leve para melhor não chamar a atenção; falam, baixinho, a tanto que algumas das orelhas penam ouvir o discurso do falante da hora e então se achegam mais perto da boca ativa ativada. Não obstante ficam de espreita num vai que surja o Zé não o Zé-morto o Zé-vivo, uns sequer sabem o nome do novato servidor porém temem que suba; ouvem atentamente o estardalhaço descaridoso do elevador velho gasto no entanto não velho gasto qual o inanimado senhor José, e falam: parece que o novato homenzinho ranzinza não é José é João, amanhã a gente indaga a esclarecer na portaria, porque o servidor também agora de porteiro. Enfim tem Zé vivo na limpeza do prédio e Zé morto na sujeira do quarto o qual por fechado muito tempo exala odor de mofo e alimentos em decomposição, lá na cozinha certamente. Ele, o faxineiro, disse que abrira a porta do velho com a velha chave reserva que requisitara da empresa. Isso porque não se ouvindo dias mais de semana quaisquer sons no aposento. Daí, falou o rapaz encrenqueirozinho, que penetrou aqui e se deparou com a cena do velho aí, um corpo como vemos estatelado na cama. Chamou. Gritou. Nada. Deduziu... e temeu possível encrenca ao seu emprego, ninguém hoje tem segurança e então lavou as mãos a passar o caso aos patrões e o celular dele não queria funcionar ainda por cima nesse por baixo. Até que conseguiu e passaram ordens estritas como não deixar ninguém se intrometer (inclusive recomendaram prudência e não ventilar qualquer pormenor, verdadeiro ou a ser comprovado) para não complicar e mesmo comentaram lá no escritório que iria na semana vencer o aluguel. Bem, com isso trancou a saída. Contudo não se sabe como chegaram a saber, além de ficarem a cobrar-lhe melhores e talvez mais picantes informações, ele desconhecendo até o mínimo, além do tratado. Ah, lembrou-se o rapaz, a firma insistiu não mexer nadinha no aposento enquanto não chegassem as autoridades.
É isso. Foi isso soubemos.
Pouco mais. Por exemplo, teve inquilino enxerido a reclamar do cheiro forte como de putrefação de carne; o que estranhado porque havendo a hipótese do mau cheiro vir da geladeira do velho, um fedor de podridão, insistiram, nauseabundo, decerto sim do refrigerador desligado pois também morto igual o dono e a casa.
De maneira que os comentários bem como a investigação daqueles sherlocks de primeira viagem precisando ser breve tanto quanto os indevidos toques naquilo que possivelmente fora um ser humano. Assim mesmo puderam constatar ausência de calor, menos uma febre; e a respiração inexistente. Inclusive certa moradora jovem chegou a tirar de sua bolsa um pequeno espelho para examinar se ar de vida no nariz do morador; aliás um nariz horrivelmente grande torto arcado e vermelho (quando vivo um pimentão as fossas nasais, a caracterizar o velhote na fala vizinha). Apalparam apalparam, tocaram o travesseiro de anteriormente (e isto não tendo importância agora) provocar aquelas incríveis dores no pescoço.

- Assim o pequeno grupo de grande curiosidade e quem sabe um bocado abusivo sai sorrateiramente para mostrar ou para fazer crer: não sabemos de nada, nada vimos, quem? onde? como? por quê! No entanto, mal fecharam a porta vizinha (morto ou vivo não continua vizinho?) mal cerraram o fecho sem deixar o dedoduro trinco trincar barulhinho chato de cheguei; mal acabando de deixar preso o prisioneiro inerte – já se lembraram de algo menos no mais da curiosidade, a curiosidade um direito da gente neste sofrido planeta; inclusive se despediam com recomendações sobretudo na boca fechada, é óbvio, e entravam ou só abriam as portas, agora de seus respectivos apartamentos – quando a se lembrar doutro necessário nesse mundo escuro escuso da curiosidade. Não haviam os membros na oportunidade tudo visto – visto sim porém não o total apenas o necessário que fora o corpo inanimado do homem do 73. Seria preciso, recomendou aquele pruridinho lá de dentro da curiosidade sim, não examinamos o resto da quitinete! embebidos só no defunto. Tornemos.
Pé ante pé voltam (e tinha um morador que subira do 3º andar e então já no limiar da escada, não iria despertar o mundo no uso do elevador barulhento...) Se reencontraram ou se refez o grupo, ainda reforçado por uma senhora gorda e toda maquiada do 5º que acorrera saber e decerto a fugir dos olhares do Zé, não do Zé morto, do vivo lá embaixo e numa conversa alta com alguém chegante e não seria a lei! Esperaram um pouco de mileninho de impaciência acalmar a coisa, reentraram na clausura da infausta quitinete.
Daí fala-se mais baixo possível, próximo do baixo de um silêncio absoluto, possível visto anteriormente já se falasse em mínimos decibéis. Ainda por cima no mais por baixo necessário fora perder tempo a sintetizar à moradora acrescida as informações e sua injunção como penetra antes do depois de descerrarem quando haviam cerrado definitivo a porta fúnebre. Além do que, nesse particular, dona Madalena apreciando e exigindo os quês no tim-tim por tim-tim, tem gente que precisa ter tudinho em pratos limpos, minuciosamente, como não havendo entendido os passos as partes. Isso levou os expositores a retardar uns minutos preciosos, roubados à faina tão grata para a verdade.
Por fim, estamos donde saímos a haver encontrado, rencontrado, no quarto na cama o ser inerte, estamos por extensão de novo no velório mal enquadrado.
Reexaminam; uma integrante na primeira e virginal oportunidade. Abrem bem seus ouvidos a escutar qualquer ruído estranho vindo debaixo do edifício, mormente prestando atenção no elevador, naquela hora a trabalhar de bandido com os aventureiros, ao andar parado silencioso; assim aguçando orelhas na vigília... aqui outra questiúncula que foi o igual interesse desses improvisados guardas, por examinar (a alguns foi bem esquadrinhar) partes do quarto passadas por cima quando então deram mais valor ao morto, se morto, que ao dormitório propriamente; depois visto a cozinha o banheiro, tudo grudado como exige a economia aos bolsos construtores. Sobretudo a senhora santa de cabelos brancos encontrando, mas também os demais componentes, acharam mil coisas, 1001, bem umas 999 erradas e abusivas ao padrão da convivência cidadã. Os membros femininos do grupo descobriram mais de 1001 sujeiras, trens de cozinha usados amontoados amassados atirados a esmo; o fogão.... ai meu Deus, quase lhes deu infarto! Deixaram os grudes do fogão às pressas na cozinha (o exíguo tempo urgia...) a pilhar o banheiro gotejante (quase o único som vivo no alojamento morto) o lavatório... peças de roupa encardidas ou sujas de sujeira melhor comportada, limpas mal limpas misturadas num carnaval entre si e...
Ai! rever o dormitório, precisavam ao menos examinar o guarda-roupa. O diabo é, foi, que as portas não abriam, uma aberta escancarada parecendo após carinhos de ladrões. Não obstante precisavam imediato desocupar sair fugir, não serem notados se complicando naquele meio fora da lei como um fora da lei – e então o elevador barulhando horrores a subir subir subir, sabe-se lá com o peso de quem!?
Fecharam rápido, escorreram igual água pelas escadas pra baixo pra cima. Chegaram ao cúmulo de abafar totalmente os passos. Esqueceram até de não deixar impressões digitais...

- Quinto do sétimo. Sétimo? 7º andar, onde um senhor idoso gasto passado parado pranchado (relaxado!?) esticado em cama de solteiro se encontra. Alguns indagariam "melhor não seria mesmo em lugar da cama dizer na lápide!?" Aí eles chegam, por fim.
Eles? a polícia a oficialização o bê-ó; e os curiosos nas proximidades deles, eles que meio oficiosamente se infiltraram antes dessa presença na cena do crime.
Crime!!!
Justificam o atraso ao mequetrefe na entrada lá embaixo, aqui em cima agora aguardam acontecimentos. Subiram os dois de farda, os quais pondo a culpa pelo atraso na viatura que se quebrara; culpando também a transmissão pelo rádio que falhara – afinal ei-los no trabalho ingrato de registrar infaustos. O Zé acompanha os polícias até ao 73, abre fecha sai torna às lides da vassoura e... ah a porta da portaria ficara arreganhada; enfim quase tudo estava contribuindo para avisar a temida imprensa em sábado sem notícias; os populares já esperando nessa entrada a aguardar o Zé-vivo tornar do Zé-morto. Em baixo.
Em cima eles trabalham fuçam porém não querem ter demais trabalho: anotam no boletim a ocorrência barata e inclusive meio banal, a dum morador num leito, uma porta de guarda-roupa escancarada e pertences no chão, um vidro trincado na janela fechada; o conjunto parece... Não sabem, pedem auxílio à Central. Respondem ordem de ficarem no plantão até chegar um médico; já ligaram ao SAMU.
O povo naquela habitação coletiva pobre alugada ao homem comum pobre e por vezes aposentado ou fazendo bicos a se safar da crise e um que outro num empreguinho. Assim mesmo alguns comentam o fato, enfim comenta-se a banalidade das coisas, tão palpitantes naquele agora. Falam falam (até exageradamente desperdiçando tempo, importante ao homem da rua; falam:) falam também os recantos do mundo em volta. Grita uma construção ainda em esqueleto lá nas alturas; grita um rádio ou aparelho celular a imitá-lo nos gritos de rock em inglês; falam adultos gritados e tem os gritos de poucas crianças (as fábricas delas estão fechando, as proprietárias preferem aprender profissão à maternidade); grita ali encostado um lava-rápido, hoje se vulgarizando em lava-jato pela difusão na mídia, esse posto de serviço grita a desperdiçar água óleo e barulho.
Contudo o prédio de quitinetes e Zés anda em silêncio, medido. Sim porque apenas se comenta baixinho os que sabem e lógico desconhecem os demais moradores encurralados nos seus apartamentos ou presos nos empregos lá longe. O grupo curioso vive naturalmente curioso. Ainda.
A senhora sábia de fios brancos velha ativa, na língua, comenta com outra mulher entre os efetivos no grupo que se infiltrara antes naquilo não sendo do seu direito; não, achando demais no seu direito em saber. A senhora diz "ah, aqueles moleirões", felizmente os policiais não ouvem, fechados no antro onde o senhor Mário ou João ou José, este que pronunciavam na vizinhança Zé, seu Zé; seu Zé decerto da dona Maria – em suma onde seu Zé dorme. O sono dos justos.
Enquanto na espera, fazem os profissionais a matar o tempo que mata alguma coisa, conversa-fiada por exemplo. Um deles esquecera a viatura funcionando corre desligar. Por último – e não seria último pois o último sequer existe no encadeamento dos fatos – sim por último aparece o SAMU na porta.

- Tem um médico recém-formado e imberbe na equipe de saúde e certa moça (as curiosas do grupo curioso vendo a chegada acham que não é moça, e pior: abrem a caixa de ferramenta contra – é velha rebocada solteirona largada feia! e nisto concordam na expressão, insistem ser "horrorosa":) vestida a moça funcionária no seu macacão (achariam olhares apócrifos tal veste roupa de mecânico de oficina de carro, embora nas costas a cruz os dísticos da instituição; senão sem importância:) entram ambos, ele na frente ela imediato atrás, cumprimentam os policiais; o profissional da medicina examina o corpo inerte e espichado ali; sequer percebe a perna meio encolhida; põe a funcionar o estetoscópio, "será aquilo um estetoscópio!" fala baixo um dos servidores da polícia vendo de longe na porta. Apalpa apalpa, olha o travesseiro que se encontra de lado atravessado; resmunga qualquer num assopro; faz pra lá pra cá, a enfermeira abre os ouvidos desejando palpitar a língua ou a relevar os atos errados do outro ou mesmo a consolar. O causídico da medicina resolve passar a coisa pelo celular, liga à Central; escuta responde concorda no dito lá longe: "pode pôr falência múltipla dos órgãos!"
Saem.
Agora aguardam os policiais vir a PolíciaTécnica.
Depois, decerto, resmungam ambos, a Técnica porá na entrada aquelas fitas coloridas a impedir curiosos e entrões que dificultam oficiais trabalharem.
Olham aquilo tudo nas proximidades; olham pelo olho-de-vidro ou olho-mágico de suas portas trancadas a chave as chaves a chocalhar trililicar banalizar a segurança. Olham. Acionam seus celulares uns aos outros mais viciados em smartphones porém não se contentam com o pouco por bastante curiosos e resolvem sair à sorrelfa a fim de um encontro em diálogo franco, fraco baixo no silêncio do prédio pelos corredores e escadas – não iriam sair do esconderijo, chamar o elevador estardalhaçante e inimigo da paz – então 'bobageiam' suas coisas mundanas, pondo sobretudo o assunto do dia: o infortúnio em que está metido seu Zé lá do 73. Não podem sequer se defender caso descobertos e até provar seu ponto de vista; muito menos aos agora calados polícias, pois antes havia a dupla matracado entre si seus quês, a casa a mulher os meninos os vizinhos a condução e o temor que a farda ocasiona por causa dos bandidos de plantão, estes sorrateiramente disfarçados e dispostos a uma vingancinha no terreno eterno e oposto ou seja a lei e o fora da lei; e daí o temor mas agora andam os militares silenciosos naquele silêncio de velório, onde há gritaria ao redor, a quase encobrir a existência da invasão no aposento de um homem deitado quieto estático na paz do quarto do leito no ambiente.
Chegam finalmente. Após horas dia todo porém chegam. Adentram três servidores da Polícia Civil, um dispensado imediato pelo chefe da equipe. Desce some ficam ambos, os policiais menos graduados permanecem além da fita proibitiva e isolante lá fora, aqui dentro do prédio. Dos servidores em sentinela um olha nesgas pelo vitrô do corredor o movimento lá embaixo na via pública: gritos sirenes trânsito buzinas no rum-rum do asfalto.
No interior do prédio especificamente no aposento trabalham supõem os supostos, examinam e relacionam pertences. Parece, comenta um dos oficiais, parece-me ser ladrãozinho vulgar, o vagabundo levou até os chinelos... não tem celular não tem dinheiro não tem cartões não tem sequer documentos comuns... dizem ser José a vítima... de quê!? O outro lembra: o vidro trincado na vidraça da janela não seria tentativa de escape frustrado! ora, retruca o colega, qual meliante iria se arriscar ao chão lá embaixo pela janela? logicamente abriu a porta recheou antes sacos sacolas e a mochila nas costas, saindo tranquilamente deste cemitério... Quem a saber, isto aqui é apenas silêncio e um morto – o médico falou estar sem vida; depois o legista completará e não nos interessa. Olham detalham melhor o ambiente, especificando as coisas e havendo recolhido na maçaneta de entrada vestígios e impressões digitais (seria do criminoso e até podia ser vários bandidos, deduzindo-se das pegadas, não souberam:) registram e sobretudo no escrever enchem folhas e mais folhas como relatório. Optando no tal relatório por latrocínio e daí...
Daí? se vão tendo mil outras ocorrências a cumprir e se fazendo necessárias as presenças técnicas nos demais recantos. Aliás o 'recanto' se não sombrio não dispondo de nenhum encanto em não ser o banal encontradiço na megalópole. Um local na zona central estendida da cidade grande com cheiro de periferia.

- Mas isso agora não se dando no prédio velho de moradores pobres, uns até com aluguéis atrasados e em processo de despejo; lá onde tendo uns poucos inquilinos unidos vencidos na curiosidade a penetrar no recinto onde um corpo inerte parado estático pranchado esticado na cama de solteiro, para ver o que ver e viram: o guarda-roupa seminovo com peças no chão espalhadas, peças usadas limpas (ou só lavadas, mal-lavadas um concorda com outra, a deixar se arregalar os olhos de Madalena ali, mais arregalados que os dos outros membros tarimbados na arte de fazer arte no ferir a linha do abuso no grupo curioso).
Não sendo agora portanto na periferia do centro estendido da Grande Cidade, nesse local onde a se gritar inglês e demais barulhos no entorno. O prédio? o prédio a janela o vidro trincado sem escape aos amigos decentes do alheio. Não.
Agora é dona Francisca vindo do interior longe a reconhecer às instâncias da diretoria da empresa locadora o parente; a senhora pronta a identificar o corpo (ora, se gelado tirado da gaveta podia ainda estar vivo ou ressuscitar!) enfim aquele soma frio do primo do outro primo da tia Zulmira, esta infeliz velhinha inconformável inconformada. O primo?
Não senhor, idoso sim e fazia bons anos não nos comunicávamos; apesar de velho e lógico cansado tinha saúde. Apenas umas três vezes em moço ficara no estado de estátua ou boneco sem movimento; no entanto insisto isso na juventude. Uma vez saiba o senhor que um médico de nossa cidade queria enterrá-lo, os do sangue interferindo não deixaram...
Esse (não seria o dizer dizer 'este'?:) é sim o primo Francisco... não não, senhor: Mário não. É ele, tenho certeza pelo nariz e a marca na bochecha. (E daí desandou a fazer o histórico daquela estória tão rica em sinais e cicatrizes).
São Paulo   abril  2019

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Palavras inacabáveis de páginas inacabadas


Palavras inacabáveis de páginas inacabadas

PRIMEIRO
Andava no exercício físico diário e à procura de ervas medicinais embora canseiras habituais na cidade grande, rumo ao Parque Buenos Aires, quando achei achando o que não buscava, certo incerto acidente de trânsito, na altura do cruzamento da Avenida Angélica... Nunca houvera testemunhado tal apesar do tempo vivido na Grande Cidade, tida pela tevê como um centro de violência e líder de ocorrências policiais no movimento nas ruas... O trânsito era, na manhã, de congestionamento (inimigo inseparável da pressa...) Contudo nada percebi de mais grave, acostumado. No entanto ao desembocar na Praça eis que flagro o acidente!
Um motoqueiro pranchado no solo, a quase confundir suas vestes pretas com o negro do asfalto sujo; imediato supondo meu olhar manchado o escuro com seu vermelho a escorrer...
Isto foi um marco e é nisto que estas linhas centram, aqui e além.
Como sempre por mui acontecer tomando por banal, prossegui, mas ascultei veículos a cruzar dita avenida no aguardo do sinal verde acender. O desastre ou assim parecido dava-se doutro lado na margem que desce; o sinaleiro desconhecendo cego e automático a abrir a fechar ordem aos passantes. No meu verde andei em direção ao portão do Parque ali no limiar. Notara, esquisito a mim, que os transeuntes sequer comentavam sobre a motocicleta e o condutor no solo, nem comentava um publiquinho de meia dúzia de curiosos, na sua faina doentia na curiosidade prejudicial às autoridades a examinar e lidar com o estrago. Esta observação vindo em razão do fato do caminheiro ser interiorano, o interior rico em conversas de comadre e equivalentemente preocupações sentimentais de apego (um sentir interiorano na megalópole indiferente...)
Bem, prossegui. Entre a população do bairro rico a guiar ou ser guiada pelos cuidados canis; e servidores municipais ocupados na limpeza das ruas da área; e a mata exuberante a combater a poluição, prossegui na marcha – e a pesquisar onde a erva a mim santa, trato assim a quebra-pedra que nós caipiras usamos para soltar a urina presa – marchei, não indiferente pois lembrava a vítima estatelada próximo; não entrara na indiferença aos problemas humanos qual via nos habitantes no meu bairro pobre, onde 'viceja' ultrajada nos passeios públicos gente largada de rua na rua à vista da gente em passeio...
Bem, mal acabara a pesquisa e encontro da erva rasteira no Parque – saí, voltei pensando tornar às baixadas da Angélica à minha quitinete; então empunhando o saco cheio (nadinha que ver com chateação e excesso da tristeza) enfim um saco de supermercado prenhe de quebra-pedra; contente portanto. Nisso me deparei de novo o mesmo desastre, ainda com restos no trânsito e os guardas e a ambulância e claro a vítima. O que será uma vítima, substantivo equivalente ao algoz e sua vítima, nunca se sabe quem de fato a vítima quem o algoz... Isto visto insisto passante ali, podendo a vítima ser uma imprudente pessoa a abusar da velocidade que atrai e que mata e estando ali por ordem da pressa, estas amigas ou inimigas do horário e do emprego na plena vigência do desemprego do desespero nas crises nacional e mundial.
Isso importa pouco o mais sendo o fato da ocorrência e dela se alongar muito (o 'corredor' e pesquisador de ervas descia já no retorno após bem uns quinze minutos na Praça). Ainda incompleta a fotografia do acidente, se feita: aumentara a pequena plateia de curiosos a atrapalhar funcionários a levar nos cuidados o moço vitimado ou abusante para o hospital. Assim, resvalei, não indiferente e até a lamentar, apenas resvalei olhares para o local e desci.
Desci, não me conformei, de coração capiau, sofrendo o drama flagrado; antes que isso isto: fiquei a curtir (no mal sentido) as dores daquele congestionamento indesejável. Ficaria encucado dia todo, toda semana, resto do mês, quiçá mais.
Embora a desconhecer nomes e nomes técnicos naquela já distante tragédia. Porque sim uma tragédia; que se abate na gente (a gente não creio pense na gente frequente no aparente indiferente; ou me engano!?)
Versará em torno da tragédia, o resto deste texto mambembe dum mero escrevedor.

SEGUNDO
Segundo a curiosidade da curiosa ali em estada rápida – por que rápida! ora, tendo hora de entrar no serviço elinha assinzinho de pequena e olhos atentos; e afeitos vamos lá também; segundo ela não era ele, ah valha-me Deus se fosse estaríamos perdidas. Porque o senhor (eu) não sabe a miséria lá em casa na casa de minha filha... fosse o Miguel. O Miguel tem barba mais fechada chega parecer azul de preta, não é como esse aí (aí aponta a vítima no chão o negro do asfalto o vermelho do sangue a escorrer). O Miguel, meu genro, diz, o meu genro tem motoca preta igual essa e entra no trabalho às oito horas em ponto e sai de casa correndo atrasado, não senhor não tem nada de beijinho na esposa e quando muito fala tchau aos netos, meus netos. Um louco, uma loucura! um dia estará escarrapachado no solo igual... A vítima rumina um ai, o guarda faz sinal impreciso à ambulância próximo, a turma aumenta fecha o círculo abafa a área; em verdade era um publiquinho de meia dúzia e me espantara por isso esperando a violência da curiosidade no povo e agora aumentara um pouco a gente pra ver o estrago no chão frio, a comentar e a atrapalhar o andamento do resgaste, enfim retardando o socorro e não adianta falar ralhar com gente, gente faz que ouve se distancia um tantinho abre a roda logo fecha aperta o cerco – todos querem ver mais saber mais do que não sabem e mais para ter comentário no lar no serviço na rua entre conhecidos quase sempre desconhecidos ou atraídos por um bom-dia boa-tarde nem sabendo o nome da gente; e assim fecha e se fecha e espreme em volta do pessoal técnico, os carros não buzinam é claro nessa situação quase inusitada, os condutores afeitos com o congestionamento e dessa forma passam param espremidos também, e olham curiosos e mordiscam com outrem no veículo a querer saber e mais saber do nada saber daquele flagelo na esquina da Angélica, num quase aumento na tragédia por quase um dos veículos esbarrar na mulherinha magra morena e de chinelo de dedos de borracha ali encostada que escapole e comentara por sorte não sendo o Miguel. Sabe? olho pra ela pra sua voz rouquenha mais rouca agora na aflição, sabe que o Miguel da minha Maria é demais bruto! um selvagem, bate nela bate nos meninos xinga vizinhos – e me xinga como se a sogra fosse a culpada nos dramas do serviço dele – e sai louco pra esta avenida, nós vivemos na periferia lá embaixo e motoqueiro adora ziguezaguear nas ruas congestionadas vai cortando todo mundo. No fim de semana, em vez de ver tevê com a mulher, fica é alisando a motocicleta, limpa lava assopra encera enxuga como fosse ela um deus; não permite nem que os filhos toquem na roda e na lataria daquilo. De semana aquela loucura a sair desfeitear sair correr sumir voltar com raiva do mundo e a gente que se dane, assim mesmo digo que sorte não ser o Miguel, ele dispara e passa por este cruzamento perigoso todos dias e volta noite, bêbado. Minha filha disso reclama, apanha!
Agora – se o senhor me der licença (e por que teria que lhe dar ou não licença sendo ninguém no povo aqui a examinar o desastre; já ia longe, curioso embora, tornei pra ver melhor:) me dá licença passa das oito e a patroa... é no 45 lá em cima... ela me puxará as orelhas e a crise tá braba, se perder o lugar onde acharei emprego!
A mulherinha xispou, olhei de soslaio nesta margem da Avenida, vi quase também atropelada a ansiosa criatura, indo para a outra margem. Nisto chega um carro oficial com novos técnicos. E já começam a afugentar curiosos alizinho em concorrência pra ver o rapaz e daí a gente do povo indaga baixo será que morreu?

TERCEIRO
Tornei àquela esquina movimentada e fatídica, encontrando embora poucas horas depois, a rigor já no outro dia, encontrando a junção em cruzamento é claro mas mui pouco na lembrança do mui triste que ocorrera. Não mais que sangue lavado levado e mal limpo por esguicho numa área seca quente e nada especial a representar... o tempo fizera seu papel direitinho de apagar as coisas, verdadeiras ou imaginadas ou tão só para se registrar aleatoriamente. Alguns possíveis entre curiosos de ontem, com memória viva ainda dum acidente desastroso. Lá ficaram as marcas, sinais quase não tendo voz, perdida pelo acaso.
Não me dei por satisfeito.
Fui então visitar, curioso também e também teimoso, o pronto-socorro não distante, pra ver se via; melhor, ver se obtinha informes sobre o acontecimento. Apenas soube que vários desvarios de acidentados passaram por lá e que foram reenviados (no caso parece que de imediato) aos hospitais. A região, por rica creio, detém os melhores e os maiores estabelecimentos do gênero.
Fui visitar, curiosamente sem ser de minha conta, procurei tais atendimentos. Até que me concentrei por semelhança no caso no serviço da Santa Casa, verdadeira cidade pequena dentro da cidade grande, esta uma megalópole. Aliás passaram por esses condutos sociais de tristes lembranças mil motoqueiros, uns estraçalhados outros refazíveis alguns senão a maioria remendados medicados e reentregues ao movimento das ruas e de suas famílias. Não o caso do caso.
Meu motoqueiro – e doutros curiosos que subiam desciam a Av. Angélica quando do acidente – esse não achou seu destino. Ou por outra, o destino veio procurá-lo não o encontrando decerto, mesmo fosse (não era) o genro da senhora magrinha temerosa pela sorte da filha e dos filhos da filha seus netos. O pronto-socorro enviara aqueles pedaços dum corpo por fora meio inteiro à Santa Casa. Esta me exibiu papéis sobre, imaginando-me um familiar ou responsável a quem passar a bola e errou por ser-me e a outrem a vítima um mero desconhecido. Enfim o preço que desembolsam os enxeridos...
Os curiosos de ontem ouviram e me passaram os gemidos do pobre; a conversa dos homens do resgate e a do público mui inventivo em torno. Aos poucos, disseram os que viram-ouviram, puseram-no em maca e esta na ambulância, porém a criatura mais inconsciente que gente desperta. Saíram, sumiram técnicos a vítima e a viatura. Ficara ao sol da manhã ainda restos sangrentos vermelhos no asfalto negro; à limpeza de alguém. Só vestígios secos do desastre agora na rua apressada e/ou desmemoriada.
Aqui entro com a ânsia em saber até ao ponto de chegar à urbezinha da Santa Casa.
Como não provei ser parente, conhecido que fosse; tive de me contentar com algo do pouco vazado por funcionários, nem sempre atentos à verdade dos fatos, mais conscientes na realidade da burocracia; esta que é doença contraída a mais de cem anos no planeta; mas bem reproduzida ali onde local de fato às doenças... Contudo recebi o alimento necessário à fome abelhuda.
O homem, rapaz duns vinte anos, sem documento. Pior, a queda o baque na cabeça no asfalto afetara-lhe mais ainda que os ferimentos e a perda do sangue, atingindo os miolos. De maneira que desconhecendo inclusive quem sendo...

QUARTO
Debalde as linhas legais encontrando a família, família o infeliz tendo; nem fonte a saber profissão emprego e até a identificação do veículo de duas rodas, aliás escangalhadas no desastre. Então optando-se por aquilo comum ao homem comum: cozinhar em banho-maria; e antes tratar dos casos mais urgentes. No entremeio a polícia e a técnica não descobrem dados da motocicleta, supostamente por isso tida como roubada e coisa alguma sobre o 'ladrão' sem poderem aferir; no contrário buscariam algo a identificar.
Ficaram vítima e veículo ao sabor da burocracia e do tempo sem tempo dela.
Um belo dia, dia de sol e beleza lá fora, dentro daquele nosocômio o clínico resmunga qualquer àquele estranho em recuperação na cama da indigência. O paciente, tivesse alguma consciência saberia desde aí nessa dependência ser persona non grata pelo prazo vencido; e precisando novo rumo (a porta aberta ali...) Com um pior: Diria o médico "nada mais pode esta instituição fazer por você" e a vítima retrucaria ou imploraria "meu caso é grave!?" não retrucou, não pôde sequer balbuciar; então o profissional verbalizando imediato uma sentença: seu resto de vida será numa cadeira de rodas e a imobilidade, um imprestável. Lamento. Não disse pensou, não falaram ambos nada. O clínico, apressado, preenche mil fichas e as entrega à enfermeira, a empurrar o caso ao serviço social, um de horas e dias de espera sem fim. Por fim – tudo tem seu final até o fim sem epílogos brilhantes – por fim puseram-no em cadeira emprestada a rolar (pra fora é lógico) para findar o caso.
No aguardo aos familiares e conhecidos, desconhecidos todos; à espera do destino da gente de rua, até sem rua fixa para ser ponto do coração do povo; sobrando no povo na pressa apressada da indiferença de nossa civilização, ocupada a digitar nas redes sociais por seus celulares de última geração.
São Paulo   janeiro  2019



         



             

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Corpo Eterno


Corpo Eterno

ALICE   Ela chegou-me, não a esperando ou sim... Sentou-se à vontade como dona da casa, a dona da casa ali morta em morta viva parada prostrada estática perene no seu corpo eterno a driblar até as leis da física por sua natureza não se decompondo; então ela, ela não a morta a viva, viva mas igualmente velha, “usada” diz sua expressão a me gozar; eu sim, porque também existia existindo naquele instante em que ela chegara se aboletando numa cadeira grosseira tosca que pegara, íntima, ali mesmo na sala de visita que era agora um quarto fúnebre onde se guardava e se resguardava o corpo eterno a viver sua morte. Sentou-se fungou um pouco seu cansaço e me olhou indagativa; e a gente nesse tempo da gente só pode afirmar da gente que a gente olha andar (parada) ainda na rotina, a dizer como a dizer em resposta, que aqui permanece tudo no mesmo e mais não se acrescenta para quem já sabendo o saber. Me olha, não estranha por não-estranha porém incompreensível embora não incompreensiva, isto para quem deseja estudar ler os outros presentes.
O corpo eterno idem a fungar na sua respiração como se dizendo vivo ou a se dizer morto, eterno sempre, e assim para toda possibilidade de resposta. Eu, eu existindo porque também existente, eu me dispus anotar isto que anotando em registro do momento; sobejo que atendia ao mesmo tempo aquela visita não bem visita por íntima quase íntima, a Alice, para ela respondendo aos poucos e por vezes sincopado claudicante gaguejante e intermitentemente à abordagem da moça... ah sim fora moça me lembro, fora moça bela viva ‘machucante’ aqui no meu coração ainda em sentimento jovem igualmente a disparar quando em vê-la no balcão de atendimento da farmácia, se bem me recordo a “Farmácia do Povo”; haviam descartado a forma botica e até recente a palavra pharmacia e por isso a nova placa frontal berrava a educar o povo da urbe com a novidade, hoje aceito o equilíbrio imposto pelo costume visto ninguém se insurgir menos e mais se espantar com o letreiro, lá em cima, embaixo as portas alevantadas já, elas em aço de enrolar e barulhar no abrir empurrada pra cima com uma haste e um gancho que as mãozinhas de Alice empunhavam para virar já agora nesse ontem como uma atendente no balcão a vender remédios aos fregueses, enquanto seu Henrique não chegava, pois ele sim o farmacêutico credenciado apesar de o povo chamá-lo ainda boticário, uns italianos se dirigindo ao profissional como “farmacista”. Entretanto mais a avistava no almoço e não no início do trabalho dela, no almoço do chefe e do outro balconista traquejado e entendido semelhantemente nas coisas do ofício; então ela ficava ali a pajear a loja cheirando medicamentos e nisso eu passava – passava como alguém nada querendo, querendo sim tão só vê-la não dizendo nem desejando demonstrar querer o que queria, queria de fato vê-la – passava, desapeava da bicicleta inglesa pesadona Hercules, encostava meu veículo para comprar (como comprar se vivia sem dinheiro!) para adquirir qualquer impossível, exatamente por ser imposível, a possível contato com aquela flor recendendo ainda a jardim florido aberto pouco antes e a cheirar exalando ao mundo, que eu na minha juventude egoísta imaginando fosse somente pra mim... Contudo eu prosseguia, ela ficava, ficava no seu sorriso por descoberta do sexto sentido a paixão daquele homem ou apenas projeto de homem, e então sorria sim mas permanecendo minha esfinge... nunca nos declaramos.
Assim o tempo passou, célere aos que não veem, lerdo aos que têm pressa.
Agora, hoje, neste instante, Alice ali sentada quase escarrapachada, escarrapachada fosse um ser sem compostura ela comportada civilizada quieta não por timidez sim no constranger do momento ou apenas contida – sempre fora assim se bem me alembro; e por isso quem sabe nunca haver-me chegado a ela, menos ainda permitindo minha própria timidez, timidez doentia, para daí declarar-me.
Todavia coexistindo nela hoje a moça ainda mulher em formação, se configurando nas ânsias talvez e nas limitações do seu físico – tudinho então a prometer muito... enquanto pouco o companheiro na sua proximidade tendo a oferecer.
Veio-me Alice não do país das maravilhas, embora ao pobre rapaz caboclo que eu era e ela já a maravilha consumada. Acho devera andar apaixonado, o que não destoante da verdade em vista nessa fase um homem saindo da puberdade, a um desses, todas mulheres sua conquista e quase se apaaixonando por todas. Ah as mulheres que se cuidassem porque... Na época corria um dito, por sinal machista, consistindo no dizer: prendam suas cadelas que nosso cachorro está solto! Mais ou menos isso. Veio-me pelas mãos conhecidas, as das parentas casadoiras a querer empurrar todos jovens próximos ao despenhadeiro da responsabilidade, o qual se vestia de juiz e padre; ah sim e de festa com seus cerimoniais. Algumas dessas tias se aperfeiçoavam na função e até na sofisticação na arte, hoje meio em desuso; ou que o matrimônio formal é que sumindo do mapa. Ela me veio a aparecer dessa forma, portanto um pouco aparentada por uns laivos de sangue distante com as próximas parentas suas e minhas. Nesse tempo quase todos com parentesco e o costume fazia inclusive afilhados beijarem a mão do padrinho, não se fale nem dos pais e parentes adultos, sobretudo na roça onde se exigia tomar a bênção; pronunciavam “bença”. Ninguém a imaginar nestas tergiversações que Alice e seu pretenso namorado (este vocábulo desfigurado hoje em dia) que precisassem da bênção formal a se achegarem. Aliás veio-me a jovem mais por atração que eu sentia pelas louras de olhos verdes provocantes e por ela mesma em vista sua voz mansa no timbre que me penetrava o ser; o que não mudou agora quando desta visita ao corpo eterno – ou seria a visita pra mim! – vendo nela mudança só dos fios na cabeça que de natural louros passaram modificando à neve; piormente neve tingida; neste momento deixo meus olhos enxeridos constatar um vermelho afogueado artificial, que mesmo os ruivos não mais aceitam e nela dá até ares grotescos; sim posso afiançar o descabimento dessa operação feita no cabeleireiro, decerto efeminado me gritam lá nos fundos de minha mente, a qual deu de uma cabeleira loira penteada com simplicidade num toque genial a me atrair pra si: a virar uma velha enrugada com novos toques, estes ridículos pelo vermelho ou apenas sendo fora de ordem por ser um artifício da moda se moda.
Não dato o surgimento dessa flor na minha existência, não posso ser aí preciso; no entanto lembro um dado bem marcante, se não do nosso contato primeiro ao menos o quê me ficou na memória, aqui determinado por uma atitude que me atingia muito o ser jovem, mais parecendo próprio do velho que do novo ou ao novo sim e também ao idoso, celerados... Na ocasião e por anos espichados havia perdido a confiança em mim mesmo, ou que desconfiasse demais da memória flagrada fraca. Por exemplo, examinava não haver deixado acesa a lâmpada de fora; se havia dado descarga; se não estava no avesso... em mil oportunidades tinha saído à rua com a meia uma duma cor outra doutra, não perfazendo com isto um inteiro correto de meias... Não quis nisto fazer gracinha nem trocadilhar barato; é que andava com miolos desmiolados me falavam os íntimos; debalde a mãe me pegando no pé por essa razão. Ora, um sujeito assim andar em pretensão arranjar namorada, ainda mais uma loura de olhos verdes tentadores! Em suma era desse jeito o par que para Alice se oferecia (certamente ofereciam as comadres).
Oh, ela terá sabido desse interessado!

TIAS   Uma fora irmã. Confuso? Ora bolas, irmã mais velha da mais nova, entre as dúzias que a menina Alice herdara como herança de pobre. Os pobres dessa época comentavam que os outros na pobreza, ao morrer genitores, ficavam apenas com as dívidas e dúvidas – e a mais das vezes um pecúlio porventura a duras penas ajuntado para deixar aos filhos como herança, nisso havendo sempre também a desconfiança da lisura dos apócrifos... estes, genros noras cunhados e outros bedelhos a se infiltrarem (interessados em quê! indagavam conservadores) a entrarem enfim na família. A dela a mesma de Teocrácia, Cracinha aos miúdos do lar, mesmo porque cresceu casou brigou enredou e até casou outrem e ficando baixinha chatoquinha gorduchinha e após, na velhice nada precoce, magrinha enrugadinha chatinha chateando os outros porém casadoirona... Aqui entra a velha sempre velha nunca a conhecemos jovem, decerto um dia fora, haja vista haver arranjado casamento pra si mesma “com aquele sem vergonha” insistia no dizer. Velha do tipo que, nada tendo de mais útil fazer, vive a sugerir matrimônios. Não seria, me apregunto, não seria por não tolerar solteiros! O meu caso, um fato não realizado até hoje, hoje não bem isso: ontem, semana passada por exemplo – pois até hoje não me consorciei com a jovem loura verde sorrisos ânsias e agora uva, uva passa ali espreitando o que eu nada tenho a lhe dizer, entremeio nós um corpo eterno.
Dona Graça – ela instando insistindo impondo quase o nome verdadeiro deturpado dela, o povão embirrando e o apelido pega mais que mal olhado, pegou; Graça não tinha graça mas graçolas sem trocadilhos, quando no mister do seu mister de tia casadoura, a empurrar por exemplo aquela futura tia grudada no solteirismo para os lados dum caboclo fora de centro ou demais caipira ou só doente incurável na moléstia da timidez.
Contudo o quê vale é a intenção, mormente quando não há intenção e a intenção fica só velada por mãos bem diplomáticas. Aqui a gente a se indagar donde vêm tantos fios a trançar para traçar enredando enliando um jovem a uma jovem no processo do amor. E tendo outro senão, se não vejamos como o povo no povo abusa do amor; não do amor, inarredável sólido absoluto, no abuso à palavra amor. Em suma o amor retratado na possível querência mundana entre pretendentes. Sim, porque por vezes nem os pretendentes sabem desejar, não conscientizam tal desejo. Então entra a confraria das casamenteiras... Ora, as tias nem sempre precisam, depois da “burrada” o homem da rua afirma burrada, não precisam justificar o esforço feito a casar quem casaram; na época no meio o padre às vezes descartando o juiz havendo padre e festa ou recepção simples e quase formal quase igual cartório; porém sacerdote sempre. Em resumo, casam e lavam as mãos.
Pilatos, digo Graça, bem que me tentou enredar pra cima dela, da irmã dela bem entendamos absurdos pois a achava feia de doer velha pra danar e chata de matar enquanto a loirinha me esverdeando o ser interessado. Bem tentara, tentara anos; a corda arrebentou do lado fraco: eu. Aí está ela doutro lado e eu deste lado do corpo eterno, sem qualquer declaração de amor; ou que fossem intenções formais de responsabilidade. Para permanecermos – até trasanteontem ou semana passada reafirmo – a ficarmos tão só amigos, menos que isso: conhecidos.
Dona Teo lutou, lutou bravamente, passou grude tentando nos unir, falhou, falhamos a três. E tem mais um derivativo desagradável no contexto que é existir apenas o passado, um sem futuro como adiantei no atraso. É que a velha se não morreu, morreu aos vivos morta à sociedade comportada. Certo nesse errado que não virando um corpo eterno. Enquanto dona Graça, tia e minha tia e também tia dela, a bela a jovem a verde a sorrisos; dona Graça encolheu por fora – todos veem o fora não o dentro – encolheu quase visivelmente no seu interior; ao menos no interior de exportação, visto mostrar quando oportunidade em nivelar, um descompasso que o vulgo apelida caduquice (e aí como esperar agora que sugira matrimônio a dois ex-pretendentes!) Tomo a revelia um encontro como prova.
Bom-dia tia maria diria gozador quando antes dizia não disse. Peguei apenas aquelas mãos encarquilhadas beijei-as em tomar a bença caipira junto da senhora gasta e com um histórico notável nas riquezas de fatos, entre estes casando criaturas inocentes pretendentes decentes entrementes até parentes, este seria o nosso caso. Me identifiquei à autoridade, o costume costuma dar autoridade aos idosos conviventes. É o que pensei. Não: não me reconheceu a tia. Mais ainda nessa falta ou engano – me contou o apreço que tem e sempre teve pelo sobrinho; nisto misturou seu desejo em casá-lo com a irmã, irmã dela mais precisamente a caçula da produção dos pais delas; misturou introduzindo a mentira na verdade ou engano no desengano: casando-me realmente no seu imaginário com Alice. Gelei-me. Mais frio fiquei quando se dispôs em narrar sobre um sobrinho dela, contou descreveu pormenorizou a residência dele, o trajeto do ônibus circular até à dita casa e mais detalhando uma conversa entre ambos tia-sobrinho; então minuciou detalhes nos pormenores físicos do sobrinho dela amado – eu! Espanto-me. Primeiro que não sabia ser tão pobre no retrato bisonho que me fez de mim mesmo... e segundo que a narração fora ao próprio fantasma ruína enfim a quem se dirigindo; isto é, ao próprio, que sou eu!
De maneira que por essas e mais aquelas vi destruída de vez a possibilidade dum casório nos conformes com meu amor, a jovem loura de olhos verdes, embutido aqui a tentação que urge existir num homem também jovem a descer de sua Hercules inglesa a xeretar uma bela num balcão da Botica do Povo, dístico que perdura no letreiro custado tanto ao seu Henrique, pois a botica ganhara pharmacia antes e Farmácia depois, inclusive com prêmio de consolação o acento agudo da proparoxítona. Estava portanto encerrada para mim a temporada de caça, a qual das jovens louras ficara somente nas bruxas sem Salem...
Diria, consumatum est.

CAMINHO  Todos levam a Roma? O fato é que o meu não me conduziu, antes, talvez, o tenha levado nos desmandos ditados pela juventude sem norte. Ou por haver muitas vias. Os jovens se perdem às vezes pela diversidade na escolha dos inúmeros caminhos... Uns imaginam um trilho mero carreador, outros um asfalto negro rachado embora, embora isso firme duro infindável e congestionado pelas viaturas do tempo, inclusive com mostra de viaturas policiais a desbrumar enrolos de trânsito: apitos grilos gritos, movimentos desastres acidentes incidentes antecedentes procedentes e indecentes; ou então caminhos de abertura enormes para o ar a árvore a condução na condição nos bulevares e demais vias ricas com ricos jardins no bairro dos jardins, local milionário na milionária metrópole, necrópole com visão com poluição com perdição. Não.
O meu caminho, que passa necessariamente pela bela pelos olhos pelos pelos na sensação que sentia um caboclo jovem a caminho, o caminho vem duma baixada pobre; ele sua e sua igual sua Hercules pesada empurrada cansada quem sabe e quem sabe sua mais ainda o homem se pensando namorado mas só enamorado embora apenas menino indo ao trabalho. O caminho tem por leito pedras, paralelepípedos, que nem ela bela tagarela quase nem ele acerta falar pronunciando errado; são peças assentadas na areia da área carroçável e importadas doutra região e a chegar ao apito do trem, da maria fumaça; são pedras lisas ao gosto do chuvisco a escorregar frias; quentes no calor na secura do tempo – e não facilitam o escorrer da bicicleta leve aos deslizes e frágil apesar de pesadona, a roncar seco suas correntes dentadas para impulsionar as rodas os pneus os aros o quadro o selim, onde descansa das fricções o homem feito moleque, a passar ver Alice ali no balcão ou somente o sorriso verde, o verde é a licença a passar... No vermelho duma vergonha o moço tão só passa para desce oferece sua timidez e propõe à futura consorte comprar algo que não existe numa farmácia, na farmácia tem em esbanjo beleza verde sorriso nada no amarelo de atenção igualmente esverdeado. Pior, ele sabe de sobra disso; contudo não se anima; se anima sim: sobe outra vez no veículo negro como o espanto e sem cor na sem voz, sobe equilibra pedala bufa assopra se esforça roda entra no trânsito, desvia do trânsito e do trágico, sonha caminha para o serviço no escritório, nem vê o patrão de cara feia mesmo porque feio segundo oposições e assim o empregadinho vai automático como autômato fazer o afazer porém num sonho. Sonha ela.
O caminho só é triste quando do retorno em que ela mero sonho e boa lembrança com as portas do povo na farmácia na saudade da botica fechadas; e assim o mistério, com sorrateiras e leves lembranças boas a se intrometer, o mistério prossegue – quase nem vê, quando vê está no chão e sente as dores dos esfolados e mais de vergonha do povo curioso a passar repassar ajuntar e ver uma queda um acidentado... Ah que acontecimento grandioso, ao menos gracioso, é uma queda em público com a bicicleta e da bicicleta...
No impacto e nem noutro dia sequer poderia imaginar existir um corpo eterno.
Noutro dia, e aqui entra o absurdo, noutro possibilitando oportunidade a encontrar a roçar a conviver com o amor!
Sim porque nesse caminho sem começo sem fim ela se encaixa como que a mão numa luva.
Em casa a febre o sonho o pesadelo a preocupação materna com o doentinho, esfoladinho que seja; o estado preocupante do rapaz obriga a procurar recursos, se não em clínicas e na hospitalização que a urbe interiorana não oferece ao pobre pobre ela também, pelo menos há uma passagem na farmácia do seu Henrique (ele ouve nitidamente “Alice”, muito bem pronunciado nos lábios da mãe) e aí sorri por aquela tristeza, que são as dores e esfolões expostos. Manquitola pela calçada desnivelada abandonada pela prefeitura, agora mero transeunte sem carro sem motocicleta sem bicicleta grandona pesadona encostada e sem uso. Chega; não passa e por acaso havendo uma declaração de amor insatisfatória ou presa na garganta como um novelo nada corajoso.
Seu Henrique já chegou? A bela se apressa responder que não: deve aparecer às oito às oito e dez às vezes mais tarde; ela quem levanta o rolo desenrolando a porta comercial de aço e... “Ah graças a Deus!” E aí costura: não, não quis falar sobre o atraso do farmacêutico, sim por estar aqui num local de recurso. Ela sorri. Iria chorar vendo os estragos e inchaços tiras e esparadrapos mal enfeitados próprio da gente inculta. Ele agradece em pensamento o sorriso, sua timidez sequer dá permissão para ir além; então aguarda e ficaria período inteiro ali a doer na espera, vendo o quê vê; inclusive no íntimo torce por uma retenção a qualquer preço do boticário, o que além do mais retardaria mexer-lhe ataduras improvisadas – visto a gente do povo improvisar nisso e no resto com perfeição, assustando profissionais. Chega o rapagão ajudante do chefe, quer mexer remexer no machucado faz mil perguntas chatas sem respostas que não recontar como a roda da bicicleta escorregou escorregaram caíram se esfolou porém não dói quase nada; o que afirmativa manhosa e bravateira dum machão pra valer. Aliás depois dos carinhos do proprietário e daquele abrutalhado auxiliar desmancha-prazeres, depois chorou se esquecendo duro brabo forte macho. Felizmente, se disse, felizmente a bela saíra pagar no banco algo do patrão; portanto podendo verter rios lagos dilúvios sem preocupação em manchar a honra.
Oh enquanto a presença durou, durou delícias inclusive pelos cuidados da amada, então em mostrar preocupações com o namorado enfermo a lustrar o banco de pau da farmácia.
Não foi ao trabalho, tomou o caminho de volta sem ida, desceu pra casa narrar aos familiares e mostrar faixas limpas postas profissionalmente a embelezá-lo e a exibir os medicamentos e o papel da dívida aumentada na Farmácia do Povo.

BANCO   Levantei meu olhar no olhar dela, seus olhos na minha direção, levantei-o para ver o que diziam eles pra mim, em falar quem sabe coisas de amor, pensava abusivo meu desejo de quase adolescente se pensando adulto e me sentava então no banco da farmácia dela; ela agora tal qual a vi nesses anos me olha furtivamente ou temerosa como a gente querendo dizer tanto a tantos sem poder, que a mordaça da mudez abjeta objeta impõe depõe impede. Assim me olha olhando vendo do alto, porque sua tosca cadeira que tomara antes ao entrar na sala de visitas, esse móvel mais alto que meu baixo, pois estou sentado desajeitado embodocado quase a riscar neste rabiscar e portanto mais baixo que seu alto – ela olha, quer indagar puxar conversa ao menos e desiste, leio na sua expressão a desistência, igual ou semelhante quando de pé encostada no balcão, eu sentado pajeando minhas feridas ainda recentes, desejando no pensamento abraçá-la quem sabe e quem sabe falar coisas de namorados, embora as bordoadas da realidade no cheiro pérfido de farmácia em mistura com o leve perfume dela, este aceito aquele deplorado enjoado. Mantiveram-se os pisos, ela agora sentada no alto duma cadeira, o corpo eterno ali espreitando sem dar palpite; e por fim o baixo do meu piso mole na cama onde me assento e apoio este caderno velho ensebado nas cores do tempo e que é papel de rabiscos de verdades de mentiras de desejos de sonhos de pesadelos que se intrometeram nos ditos sonhos na noite dum dia de existência.
Um dia no até que enfim cheguei no meu trabalho, o chefe me olha de pé ao seu costume – penso rezar-me-á um padre-nosso dos brabos, ou é conta na conta antes do previsto (o empregado jovem nunca tem previsão) enquanto eu amuado, não surpreso isso não, no aguardo das decisões patronais; mesmo porque a consciência me cobra antes do patrão os dias em folga, pois não se costuma esfolar cair da bicicleta seguidamente todos sabem. Contudo não choro (e me grito, puxa sou um homem e homem dizem lá em casa não chora) não lastimo exteriormente, mostro, trêmulo, a nota da farmácia com assinatura do sr. Henrique, ele, não o boticário o meu chefe, ele coça o bigode, o que leio em boa leitura haver problemas, anos assim o homem com tal sestro nervoso e aí... bem, à força espero a forca. Não: menino, diz finalmente, passe no João primeiro no bar depois e mais tarde no cartório na polícia e... aí insiste “preste atenção se assinaram e carimbaram todas as guias”. Sorrio na vitória do retardo na demissão, saio meio correndo manquitolando em direção da cadeia, não vou preso vou levar o livro de protocolo e cobrar funcionários na devolução das guias adredemente entregues na repartição; enquanto ando, quase posso ver na memória a bela de cabelos louros e olhos verdes que faiscavam pros meus lados; e na memória volto das guias, no entanto não pegara cadeia, sim cadeira.
Cadeira no banco sujo da cadeia, imunda repartição. E pegava sempre horas cadeira no banco duro do serviço em serviço.
Sim, ficara horas incontáveis, que é a forma mais comum dos devedores, horas sentado na cadeira do escritório à espera, agora no retorno do patrão no meu retorno ao serviço. Em verdade não cadeira propriamente e sim banco tosco sem pintura, apenas lustrado pelo uso anos dos fregueses e de nós empregados ali, ou no aguardo de ordens ou em espera de fregueses que o chefe denominava clientes ou então desconhecidos pedindo informes.
Já o da farmácia dela sendo bem acabado envernizado limpo, tão limpo como os remédios vendidos vindos ou do laboratório lá no fundo e das prateleiras onde depositados e resguardados por vidros transparentes a deixar em mostra um verdadeiro carnaval de caixinhas e vidrinhos coloridos e sobretudo exalando qual casa de secos & molhados a cheirar fumo e mortadela a farmácia a cheirar medicamentos. Sem ferir o manso perfume de Alice...
Ali no banco de madeira da botica sentavam-se diário o próprio dono os empregados quando não empregados nas tarefas e é claro os fregueses tratados por clientes e pacientes. Nisso causos dos desocupados e amigos e conhecidos da gente na farmácia. Ou um que outro acidentado como... digamos os imprudentes porventura a cair da bicicleta ou com a bicicleta...

CASA  A dela bela amarela falaram nunca vi. Ali Alice ali o corpo eterno no meio de nós dois, ali me sento me sinto nem santo de boca fechada aberta orelha a ouvi-la, se tendo algo a me comunicar aqui nesta minha casa. De propósito ou sem propósito me fecho nos meus rabiscos, que é por onde falo mudo olho de olho tagarela pra ela da casa dela amarela segundo disseram, insisto não vi.
Interessante como nunca sabemos certo dos incertos das outras pessoas. Pois um dia me garantiram – eu veladamente diplomaticamente cuidadosamente matreiramente e até perfidamente me escondendo com palavras outras mas desejando como jovem garanhão à caça saber donde ela saindo –  garantiram mesmo ser da periferia daquela insignificância de urbe do interior, onde normalmente é comum se residir em volta do quase nada que é o centro urbano acanhado; afirmando quem afirmara ser na periferia leste, leste o nascer do sol e daí desde o tal dia, o da tal afirmativa, o jovem conquistador a olhar o nascer do sol para ver a lua; ah a lua, a lua tinha cabelos louros ajeitados por um pente extraído da bolsinha e esta saída do interior da bolsona, já não entendia então como cabendo tantos badulaques numa bolsa feminina; e além dos fios loiros uns olhos esverdeados e uma graça em trejeitos num sem-tamanho de imenso. Ali morando a bela, bolas e eu nunca vira! Pois é, disse quem me disse, disse residir numa casa amarela de madeira, rachada aberta pobre; a rica beleza morando pobre me esculhambou a mente que mentiu assegurando e descrevendo o local da vinda da moça que amava, amava eu... Não importa, virei quase em propósito minha Hercules pesada na direção do sol a fim ver a lua.
A residência aqui, o prédio não anda rachado nas tábuas velhas a secar nem quase a urbe já velha tendo como quando nova casas de madeira, aqui é de alvenaria carunchada... Não, isto expressão da inexpressão de linguagem pois o que se vê são blocos furados não carunchados, por não haver bichos miúdos comendo tijolos graúdos; a parede como um todo sim rachada tal qual a dela amarela com frestas de entrar o vento curioso soprar os cabelos loiros na sua hora manhãzinho a se preparar ir à farmácia abrir a farmácia para seu Henrique chegar atrasado, visto patrão não ter horário para bater ponto na fábrica. Então estão os dela na casa amarela brigando – será existir alguém ainda que nunca presenciou as rusgas e os desentendimentos nada fraternais dos irmãos numa casa pobre rica em filhos! Daí a Graça por ser mais velha não cheia de graças porém de admoestações aos pequenos, a mais velha repreende até a própria mãe em discussões memoráveis... Ela não: penteia-se e se prepara ao próximo voo no aeroporto da rotina, quase sempre sem dizer sem lamentar por fora, ansia ter de correr andando apressado a fim de chegar pronta no ponto na loja, ou seja antes de chegar o chefe, que poderá estar de pá-virada (isto dito pronto macho do povo, em crítica aos nervosos contrariados) e neste estado não poderia sobrar algo para ela! Não poderá, brigado na sua metade com a cara-metade, o patrão aparecer mais tarde do que no seu costumeiro tarde... ou na pior mais cedo por causa exato disso e flagrando Alice ainda azucrinada na briga dos seus vindo para a farmácia abrir antes dele a loja e não haver chegado... Graça aproveita-se a pichar a mulher dele, que ela sabe (e como será saber! ah os meandros das comadres que conhecem tudo) ela sabe e diz “a mulherinha é uma boa bisca”; todavia a caçula não sabe da coisa, somente se irritando no falatório dos irmãos e por isso em quase sestro abalança a cabeça loira pra lá pra cá aos reflexos do sol matinal, mostrando a cara no leste onde se vê o macho entretanto que o namorado de Alice consegue ver a fêmea da espécie; agora apertando passo em passos rápidos chega tarde, se bem que mais cedo que o tardar do seu chefe. Não, não é minha casa tal como.
Como é aqui em casa. De blocos com rachaduras verticais umas poucas horizontais e por isso é onde anda o perigo! sim, com paredes rachadas inclusive no interior do lar... ih mas não passa duma casa velha de velhos tendo uma velha em se decompor eternamente sem se desmanchar; não é bem um lar e que para ser normal tem de existir papai mamãe filhinhos. Contudo tem cor, não sendo amarela como a dela ali agora na cadeira sentada enrugada uva passa passada; tem a cor do tempo e o tempo custa a acabar a apagar o reboco trincado que nunca recebeu tinta – entretanto não poderia ter sido igualmente amarela igual a dela?
Finca – isto uma forma caipira de olhar as coisas e dizer das coisas que olha – finca ela a vista numa dessas rachaduras em indeterminados desenhos que a velhice de paredes tem no exibir para quem quer ver, finca olhos num rachado horizontal desejando e conseguindo se encontrar se encostar noutro vertical mas inclinado a formar linda forma talvez, original desenho de figura infringindo leis da equidade e da harmonia, porém ainda assim gracioso, ou ridículo ou abusivo à originalidade e então... Então urge que fale que critique que mostre a graça sim e o perigo às estruturas também, que fale ao macho aqui riscando seus rabiscos nesta cama dos seus baixos para os altos em que ela se encontra na cadeira tosca ali posta à sua chegada. Ameaça – puxa que força tem esta forma verbal na situação em que nos encontramos ambos, apenas separados por um corpo eterno no meio – ameaça falar ao outro, que sou eu já tão velho quanto a velha inacabável e após esta aquela que me dirige a pergunta. A pergunta fica no ar em ameaça tão só, que sente tenta ameaça colocar no colóquio que de fato não existe.
A casa não é amarela..
A casa amarela é a dela, bela, agora murcha.
A casa é de blocos podres com rachados onde moram insetos mil, sobretudo na fase de correição, o povo diz mesmo “correção”, na mudança por mudança de tempo, o tempo essa coisa que os meteorologistas ou não acertam ou apenas erram confiando nos seus instrumentais satélites visores computadores entendedores do saber, invalidado pela mera observação cabocla cheia de ignorância. E poeira acumulada e mil outros objetinhos que se fixam por entremeio do rachado, dificultando a entrada a passagem da ventania, tão opostamente mentira quanto a verdade do tufão a atingir os fios louros dela na casa de madeira na periferia na posição leste sim e sim pintada de amarelo, numa tinta que a brocha impingiu à madeira, o vento secou, o tempo talhou, o amarelo quase branqueou.

ANDAR  Olho vendo o hoje ontem me lembrando, me esqueço já quase pelo andar da carruagem nos destinos do mundo o meu mundo de jovem, ontem mesmo passava e mais passava – mas que diabo, dizia lamentando, todas vezes que passo por aqui, não para alegrar-me com o letreiro da Farmácia do Povo sim para vê-la, tomar um flagrante na objetiva da memória com muito esforço de meu zum a retratá-la com todo seu charme e encantamento e beleza; toda vez ocupada com fregueses do sr. Henrique, ora mostra um batom novo para a velha velha querendo vaidosa remoçar com pós e vermelho demais por seus rouges ou sabe-se lá o quê. E tem mais: nunca a pego a andar – andasse por aí, aí minha conquista... – ah qual o quê: atende, atendente. Apenas uma única vez pôde o jovem ver a jovem integralmente e livre de todas abordagens da farmácia. Ela ia decerto mostrar seus fios louros ou enxergar verde a vegetação da praça São Bento em frente da Farmácia do Povo – a andar despreocupada, preocupada somente, suponho, que o namorado a estivesse apreciando nas imediações; e estava mesmo... Observava eu o andar jogado das pontas do vestido (aqui rendo-me à realidade à verdade sem imaginação não saber descrever as vestes feminis; ah, há mais ainda pois não sabendo também a roupa macha). Seja lá como for, andando lerdo lento livre logo ali metros tão só e a barra do vestido roçava suas pernas torneadas e roçava meu coração não demais distante, distante! ali juntinho dela. Enquanto a menina olhava como que vendo plantas flores olhava ao mesmo tempo de soslaio ver o quê ver, ver-me qual cordeirinho manso atrás de si e... bem, imaginei, aqui só imaginação porque não vi de fato: sorrindo num sorrisinho verde, o meu sim amarelo de vergonha por não ter coragem à conquista fácil, fácil!? e não me daria uma resposta dessas desmontadoras a desmanchar ímpetos da timidez. Aí? aí teria que procurar na fuga um lugar escondido a curtir meu fracasso, um lugarzinho quiçá fora do planeta. Não se concretizou o ataque das forças inimigas nessa guerra contra a oposição, oposição diga-se em passagem loura bela verde e de andar machucante. Nunca mais a vi não sendo a trabalho no trabalho árduo no balcão, árduo ou só exigente e desgastante à pobre. Tocava-lhe nisso também fazer as tarefas ingratas do caixa, como troco pagamento vale falta nos trocos errados e a chatice que era na conta o chefe tirar dinheiro do caixa e esquecer registrar, dando assim um quebra-cabeça no fechamento do tesouro ao final do dia, quando lhe tocava com aquele gancho e a haste de ferro enganchar lá em cima as bordas da porta de aço a desenrolar o que havia ela enrolado cedo pra cima, fazendo então um barulho escandaloso, escandaloso a uma belíssima criatura de olhos verdes cabelo louros e mansa no trato.
Mas agora, do outro lado, do lado doutra extremidade dessa fase da vida que é o ocaso da existência – vi-a vindo pra cá, eu sem graça desconcertado por sua presença inesperada, num átimo abre fecha a porta da casa nesta sala de visitas transformada em quarto ou pronto-socorro ou hospital de precário atendimento, vem se deslocando em nossa direção, nossa mesmo porque o corpo eterno também conta, vem vindo e a observo: Alice ainda tem aquele andar cadenciado como que medido compassado leve parecendo temer tocar ferir o chão, que agora neste recinto tem tacos soltos e talvez nunca encerado limpo cuidado, com cuidado ela pisa o piso de madeira em direção do canto onde estamos e constando o mesmo cadenciado a mesma forma concreta como que transparente e quase imaginária nesta realidade doída e doida que vivo; arrasta pra cá uma cadeira e parece ter escolhido a mais mal posta e de conservação discutível como demais todo móvel nesta moradia; e, qual íntima que é da família, trá-la meio a arrastar no peso de chumbo desse objeto de quase museu até junto do corpo eterno, ao lado dele, e junto de meu corpo que está sentado após o estático, em que me movo, movendo-me quase imediato a pegar este caderno em formato brochura cheirando a papel velho cansado ‘desmanchável’ desmanchando e onde um lápis de ponta fraca se quebra muito em seu grafite grosso, temendo eu inclusive afiná-lo com o canivete pesado nas minhas mãos grosseiras. Por esta razão invisto numa caneta esferográfica atual disponível de cor azul promissor que falha folhas e folhas nos rabiscos malfeitos ou apressados. Então comparo o andar dela, desta senhora de agora do fora de hora ora a me olhar também e indagar com os olhos fracos mas francos; fracos provado na lente grossa do tipo fundo de garrafa que usa a tapar obstruindo o lindo verde de Alice jovem. Noto no andar desde a porta onde não aporta prossegue toma a cadeira tosca arrastando no peso até aqui e... ah, será a mesma! me pergunto sabendo desde já a resposta; pois não tem mais vestido (ih não guardei a cor, a cor dos olhos verdes eram verdes entretanto as lentes dos óculos querem obstruir inclusive a esmeralda que resta...) esta mulher não tem roupa de mulher, de homem que a maioria hoje veste despe torna na rotina a vestir; e nem cor no tecido grosseiro estandardizado em jeans ou qualquer parecido que ela pôs pra ficar igual todos os consumistas. Oh o andar permanece o mesmo do jardim; anda e se senta com algum cuidado e agora, agora sim me olha me observa me lê me investiga me cruza em mil perguntas que não faz visto quem sabe já a resposta não dirigir a pergunta; fá-lo nos olhos verdes aos meus tristes ou indignados olhos no porquê do inesperado e no como entrou andou sentou-se na cadeira rente ao corpo eterno, a vigiar o meu? Também ela não responde minha pergunta de surpresa. E nisto tudo não há som, no som que devera vir de lá do lado dela bela ex-bela, nem do meu porque escrevo num rabisco em grito em risco que a caneta obedece paciente e paciente até com os impacientes, o jovem da bicicleta inglesa preta por exemplo. Impaciente e indignado talvez diante do quadro que vê, devendo sê-lo duma jovem baixa magra de vestido remexente e com olhos verdes e a graça dos cabelos claros louros que chocalhavam ao céu ao sol ao vento ao leste preste a me ver, sem olhar veja-se bem. E agora tenho um desmonte de criatura dentro dumas calças azuis desbotadas ou coisa assim e ainda por cima no por baixo com fiapos dos farrapos que hoje não caracterizam mais os miseráveis só o miserável conceito: vejo um destroço humano a soçobrar no mar tenebroso das existências e dos fracassos da perenidade na beleza e na saúde. Sentada me vendo me indagando interrogações.
Eu não tenho respostas.

SAUDADE  Agora observando ela que me observa por sua vez, numa espreita já quase sem espanto mas ainda válida a nós ambos – o corpo eterno em meio nós outros não consta por sem consciência e ainda mais por não se comunicar e menos falar, restando nós dois apenas – agora me apego num aspecto de todos seres decerto, eu sendo uma exceção espantosa aos que se espantam até com a chuva que despencou nesta madrugada na seca que marcava este inverno sem se alegrar nas futuras flores da vindoura primavera, incertas creio estação e jardim; me apego na saudade.
Ora ora, não sinto saudade, antes sinto conscientizado a saudade que sentia quando sentia... Esse sentimento ou só manifestação comum à gente e mais à gente pequena – nisso creio alguns se não muitos, estes então por isso se aproximando de meus sentimentos ou falta deles; creio haver pessoas secas duras talvez desalentadas e descrentes em não sentir coisa alguma, a saudade por exemplo. Mas esse aspecto sentimental corriqueiro que a sociedade conhece por saudade, não possuo; ou despojado nas agruras da existência ou amortecido amortecendo morrendo findando assim como encolhem secam se decompõem e acabam as outras coisas, semelhante também a saudade. Assim minha saudade.
E ela, Alice de cabelos dourados aos raios de sol da manhã indo à Farmácia do Povo para ler verde diário o letreiro frontal do serviço dela, ela terá saudade; pelo menos saudade da menina bonita ágil corajosa e expectante das alegrias do presente nesse passado então futuro!
Me indago (não, não indago sobre a colocação pronominal visto escrever neste caderno conscientemente e desperto bastante a errar direito; não:) me pergunto se tem saudade. Não me responde. Vejo-a neste instante a ajeitar os cabelos, tem certa mecha a lhe roçar coçar a fronte quase à frente dessa fronte indo se enroscar nos óculos que a enfeiam ou a deturpam escondendo os louros verdes em vermelho de fogo, num fogo morto... E essa manifestação não poderá ou desejará dizer que pensa ela em ter saudade ou querendo saber se tenho saudade. Então fujo finjo faço de conta estar (e estou mesmo) rabiscando nas folhas e daí me arco me firmo firme na caneta o rabisco e rabisco; o que pode ser em mim escamoteação apenas... pode tão só ser isso. Não me satisfaço não me satisfaz: tem ela saudade! sabendo, claro, que não sinto mais saudade. O que não anula eu ter tido um dia essa manifestação do homem comum.
Na saudade que tenho em sentir a saudade que sentia – vejo nas minhas lentes corretivas da mente como deploro agora não ter apego ao apego que eu tinha por ela. Acompanho seu andar pela rua e ruelas no jardim São Bento perto da farmácia e suponho não tendo assistido in loco seu andar no trajeto da periferia bastarda e quase miserável desde a casa amarela de tábuas rachadas, desde aí até chegar no serviço. Não posso opinar. Nem posso opinar de suas andanças supostas nas compras na zona central também perto de sua farmácia, a adquirir objetos e quinquilharias não existentes na farmácia do seu Henrique, fora batom que a vi mostrar para uma freguesa, dessas sequer chegando aos pés de sua beleza a mim marcante; podendo, me advirto, podendo não ser coisa vendida comprada na drogaria (o nome se instalava então e muitas lojas alardeavam na propaganda em ser “farmácia e drogaria”). Sim, não pode que o quê vi vi mal: ela mostrando e não oferecendo para venda como boa balconista o batom que adquirira numa daquelas compras aludidas nas quais não a pude vislumbrar?
Enfim quis registrar que não poderia agora ter a saudade que já não sinto e que sentia quando sentia, pelo fato de não tê-la visto andando em compras no centro urbano. Simplesmente eu mesmo por aí com a bicicleta preta inglesa da marca Hercules atrás dos meus fregueses, ou seja os fregueses do escritório em que trabalhava, os quais meu patrão feio tratava ‘clientes’; isto a levar para eles livros fiscais e além do mais longe nas outras periferias onde os estabelecimentos comerciais ficavam; sem ficar na periferia dela e da casa amarela, primeiro porque a pobreza de sua periferia não comportava casas de comércio não sendo uma vendinha careira, somente casebres e casas pobres, semelhante à dela com tábuas rachadas; e em segundo lugar porque quando de meu horário trabalhando gastando os pneus de minha Hercules, ela também no horário de trabalho, ouvindo as picuinhas do chefe, o meu cria menos chato que o farmacêutico, mormente quando este brigado com a esposa, “uma bisca” pichava Graça sem qualquer graça mas no simples intuito em dar prosseguimento ao tró-ló-ló de comadres e tias.
Nessas condições não poderia ter e sentir integralmente, se acaso sentisse e sentia sim, saudade. E como vou saber no olhar dela agora a remexer suas mechas se sente hoje saudade dela mesma e de mim ontem.
É, não tenho condições; não tem ela decerto. Especialmente no meu caso em que fiquei vazio de saudade e nada possuindo equivalente em pôr no lugar do que perdi.

CORPO ETERNO  Lá fora, nós aqui dentro nesta sala de visitas transformada em quarto numa residência quase fugindo da pichação de casa operária afundada e plantada precariamente entremeio as periferias e a zona residencial não rica mas decente; nós ela se lembrando de olhos verdes Alice dum lado, eu doutro lado do corpo eterno a rabiscar rabiscos e me lembrando dela moça bela no balcão do serviço – lá fora a alegria enquanto aqui dentro a tristeza das incertezas e das constatações, lá fora o viver. Os carros gritam seus roncos e suas buzinas, apressadas, os moleques gritam seus impropérios e suas gozações, inocentes, os adultos a se cruzar falar entre si gritando ou gritando no celular, a loucura; os sons (inventaram na sociedade inventar ‘os sons’, que vêm a ser tudo aquilo que sirva a cantar estrilar estourar por mil decibéis possíveis os ouvidos que possam almejar a paz, esta costumeiramente sinônimo do silêncio do harmonioso do antiviolento. São os sons). Na vizinhança os sons gritam se gritam se insultam se acertam desacertos no caos do mundo da alegria, que chamam viver. Isso lá fora, no exterior; em contrapartida o interior. No interior desta casa, casa que poderia ser um lar houvesse papai mamãe filhinhos harmonia com um que outro desentender para existir após a felicidade do acerto. Ou fica mesmo casa. No interior dela um despojo de vida ou apenas o fictício no factício para tão só haver.
Nesse interior reza existir uma visitante, a qual ao entrar por íntima sem anúncio e no abrir fechar e deixar meio bater a porta no fechá-la, deixando fresta de sobra a fim de o vento entrão entrar mover chocar pela regularidade quase indecente num toc-toc sem parar mas intermitente, para ferir a paz suposta e fazer barulhinho educado, desses que não têm pretensão interferir no colóquio alheio; e a seguir, para durar enquanto dure, ela a tomar uma tosca entre poucas cadeiras e se sentar dum lado ao lado do corpo eterno, a fim de examinar, crê-se, a outra íntima criatura, a criatura por seu lado a se supor da mesma espécie da visita porém do gênero masculino; este ficando no oposto do outro lado do corpo eterno e a rabiscar o quê vê, se vê, o que sente, se sente o sentir e já adredemente garantindo haver perdido (e portanto andar despojado dos prejuízos advindos em ter o sentimento que teve um dia, se teve realmente) haver enfim ficado sem o sentimento da saudade. Em resumo a rabiscar seus rabiscos numas folhas gastas de tempo e com cheiro de tempo numa brochura das antigonas com pauta em linhas azuis descoradas, descoradas também as folhas falhas de papel com cheiro velho de velho em lembrar registrar a moça, moça ali doutro lado do corpo eterno, íntimo este se supõe dos dois íntimos. Vê, registra, o que era Alice e constata ao mesmo tempo o que é Alice hoje. Em suma é isso.
Enquanto o corpo que se eterniza ali entre as duas extremidades, os opostos a saber ela e ele, ele sendo eu – dois presentes decerto a pensar a sentir a viver a relembrar o seu tempo passado; perdido!? Sim, talvez, todavia e o corpo ali.
O corpo em definição afronta quaisquer definições hajam sobre um ser. Sem tamanho sem vida sem curiosidade sem sentir sem ver sem concluir sem optar sem entender sem contestar sem protestar sem apreciar sem criticar sem olhar em volta ao menos – inativo. Prostrado parado entregue dependente, qual boneco feito do que feito, de pau de cera de barro ou de borracha ou de matéria plástica como tudo hoje em dia e assim para conseguir ser mais morto.
Seus sacerdotes – os que porventura em má-ventura a servi-lo, são servidores indormidos nas vinte e quatro horas dum dia e noite completos, os sacerdotes sabem a sobejo disso; ou não poderiam oficiar sacramentos e cerimoniais quase em liturgia.
A rotina, que sabe ser a mais amiga dum ser imóvel e sujeito às paixões dos ventos ou ao marasmo das brisas, a rotina conhece a fundo o corpo eterno.
Ela estabeleceu – quando? onde? por quê? – o quem e o como, isto apanágio dos sacerdotes servidores; forneceu as coordenadas no dia a dia horas minutos e precisos segundos até, no que e como fazer o afazer.
Como ponto de partida, não se conhecendo a partida e seu segundo inicial mas tão somente o andar da carruagem e o carro já em movimento rumo à interrogação e ao interminável o qual se entende como o inacabável e sem fim; ao menos o fim nos moldes dos que se têm tangíveis ‘movimentáveis’ não maleáveis apenas; apenas aqui como ponto de partida, simbolizado no fiat lux, o início é de manhã. O sol, preguiçoso ainda com agradinho à lua ou ao vento à brisa ao frio ao calor que irá derreter quem sabe o planeta descuidado, o ponto enfim é às seis horas. O galo se nega então a cantar mais uma vez e aí surge o dia. Chega o primeiro servidor – elemento aqui rabiscado por não ser ser, ou por outra é um ser apenas pois não tem sexo definido e assim demais servidores – o primeiro lhe abana o frescor da manhã, diz-lhe bom-dia sem esperar, ninguém espera, resposta; descobre parcialmente o corpo eterno, lhe atira mais uns carinhos e palavras de conforto a fim de que o mesmo tenha coragem enfrentar o dia; dia aos normais ou comuns que imaginam a luta pela frente, ele não responde e sequer se diz presente. Vem o segundo e aí sucessivos terceiro quarto quinto, os quintos! e daí por diante. Dá-lhe o café matinal, antes escova-lhe os poucos dentes presentes resistentes existentes mormente na frente. Limpa de escova e espumas neutras a língua de não falar e assim remove detritos e o mau cheiro do hálito dormido. Chocalha, bochecha, fá-lo soprar esguichar fora o entulho da noite e aí, aí sim ministra a refeição; quente, esfria; fria, esquenta; tempera acresce tira, põe leite mistura pão e... Lá vem o terceiro com a pílula; depois, no horário certo ou acertado o quarto com a drágea; o quinto trazendo comprimido; o sexto a cápsula; o sétimo vem com líquidos, amargo? acresce açúcar especial; demais adocicado? acresce mais leite a neutralizar e remexe o leite da sopa, a casa acostumou-se com o termo “sopinha”, tudo tem que ser no diminutivo ao corpo eterno em não feri-lo nos brios e nos hábitos. Daí vem outro sacerdote, na sua hora, o corpo eterno desconhece hora e os porquês: o servidor é quem precisa saber a fundo o que em termos o homem comum não conhece nem de cor nem salteado. E mais outro e outro mais até acabar, não o fim mas o dia a fim de passarem os do dia aos ministros da noite o quefazer próprio de cada servidor: infindáveis inesgotáveis intermináveis medicamentos ou alimentos ou comportamentos que se exige que exija o corpo eterno para continuar eterno. O almoço o jantar a refeição do meio e do meio do meio e alternâncias em poder energético, cada um pensa e trata da sua dose na sua pausa ou sem meditação no fazer automático e intermitentemente por serem especialistas de sua hora; ora o corpo eterno desconhece até o desconhecimento e bem mais o que deveria saber – tocando ao sábio ou técnico ou especialista conhecer dentro do seu métier. Assim por entremeio fases e aplicações injeções aberrações inclusive, vive o corpo eterno sua morte. Importante a fase da higienização: banhos troca de fraldas limpeza da sujeira no seu excesso, visto tudo equivaler à quantidade ingerida. E têm os técnicos da limpeza externa como lavagem de roupa ou só cuidar que a máquina lavadora cumpra com sua obrigação; e os que varrem ajuntam descartam detritos e entulhos gerados no tratamento do corpo eterno ou que seja o que se pensa possa um corpo sendo eterno exigir. Também há um capítulo desmembrado em capitulinhos o quanto preciso for, como cada peça de roupa a vestir, aplicação dos cheiros e perfumes adequados a cada parte do vestuário do corpo proprietário de tanta necessidade, ou acrescidos cuidados que a rotina exige para ele. São ao todo um exército de sacerdotes a oficiar com suas velas veladas ou ostensivas os cerimoniais que o cerimonial precisa!
Não se pergunta não se critica sequer se traz à tona o gasto e o orçamento. Tudo o que deseja ou impõe a rotina se obedece; mesmo porque a obediência é cega ou não seria obediência. Movimenta-se necessário por um mundo a satisfazer a eternidade de um corpo.
E aqui se nos depara uma questão enorme: de um lado a eternidade da alma ou espírito encarnado, que seja no corpo eterno; doutro a defesa por estes rabiscos em riscos e gritos sem boca impostos ao papel gasto envelhecido pelo tempo, que é o corpo ser eterno. Isto o novo pois a perenidade da alma a maioria defende no globo; no entanto a dum corpo!?
Essa indagação esdrúxula já na sua criação e seria mais esquisito colocada em discussão, interminável e mesmo eterna conforme elementos que se puserem a tratar o caso – essa indagação é posta no calhamaço rabiscado pelo então jovem agora velho da bicicleta inglesa, a viver morrer de paixão por uns laivos louros encimando olhos verdes sem necessidade de óculos. E pode muito bem sê-lo igualmente objeto não só dele mas inclusive dela pra lá do corpo eterno, vendo curiosa desse lado do corpo que nos entremeia, o lado que rabisca rabiscos.

ALICE-II  Ela chegou-me um dia apresentando... ora, quem poderia em sã consciência apresentar o rival ao rival!? Nem sequer se pondo fazer as apresentações e... bem, nesse pior é que acompanhei a namorada presuntiva quase de braços dados com ele, ele meu rival, desconhecido, e assim ela se descartava dum casamento certo comigo. Quer dizer, agora, neste agora de hoje, ela pra lá do corpo eterno eu pra cá do corpo eterno, eu ainda continuo solteirão, velho e solteiro; decerto dois males num só indivíduo segundo pensamento de Teocrácia tida por Graça, a Graça e seu clube de tias louquinhas para fazer um homem solteiro casado, casado com qualquer mulher, digamos uma de olhos verdes cabelos louros compridos a vir lá da periferia, a periferia relegada aos caprichos da prefeitura “aquela ladrona” na língua de Graça, a prefeitura que apreciava bastante o centro e a zona residencial burguesa em detrimento das classes pobres. Contudo não deu. A melhoria da casa amarela e vizinhança com água encanada e esgoto, tendo já rede elétrica? Não, não deu casamento entre Alice jovem bela e o atual rabiscador de rabiscos nos rabiscos da brochura; desse um em sua juventude.
Todavia, nisso tem outra questão em ganho de causa ao rabiscador. Ou seja, embora ela tenha “andado de bonde” (falar da sociedade na época a tratar de alguém indo passear colado no seu par:) embora com meu rival e mesmo entrado no escuro do Cine Teatro São Luís com esse homem estranho horroroso e decerto forasteiro – ah que maluquice não faz a mulher enamorada... – o forasteiro que é um perigo em potencial pois podendo passar aos olhos dos outros como sem compromisso, tendo na sua terra esposa e filhos, “oh o cachorro!” exclamaria o rival, eu jovem atarantado presenciando aquela conquista espúria de minha namorada em horário de almoço no trabalho dela. Ia ver, pensei então, melhor que estivesse espinafrada na farmácia do sr. Henrique quebrando o miolo em acertar o caixa. Do que ao lado dum pilantra.
Nesse dia não almocei direito – ou poria fora arroz feijão bife e uma rodela de tomate com folhas de alface. Pior, precisei inventar um invento bem feito a convencer mamãe estar outra vez doentinho,  apesar não ter esfolado nem sangramento nem esparadrapo. Não dá para me orgulhar haver mentido em casa para compensar a rua que me havia antes mentido...
Uma vez, por vários dias na semana, urdi um plano diabólico a ferir eliminar, diria hoje deletar, o rival; pra ferir melhor a ingrata transgressora traiçoeira traidora, pois já nesse tempo não se fazia mais namorada como antigamente. O plano na parte que competia ao despique na jovem era hediondo.
Porém o pobre namorado traído, como bom descendente de peninsulares italianos, os quais esbravejam e logo perdem força perdoam (não esquecem ofensas...) e tudo quem sabe a poder virar pizza – o pobre logo passaria por cima de tão grande problema e, feito cachorrinho, voltar vê-la cobiçá-la conquistá-la com os olhos. Mas por tempo indeterminado, esta uma figura para espichar a falta de coragem, por um tempo deixou de cortejar a bela de olhar clamante em verde e cabelos longos alourados; fez mais nessa vingança o rapaz: suprimiu sua própria presença, para como que deixar a moça morrer à míngua por falta dos seus beijos abraços e demais carinhos... Falhou o plano. Aos poucos tornava como que abanando rabo ou de rabo entre as pernas olhos espertos a namorá-la, paqueirá-la na língua do homem da rua hoje, só de longe. De longe até um fatídico acidente: derrubou inadvertidamente a bicicleta pesadona, por embebido embriagado com o andar da jovem da farmácia em sua direção perto indo ao jardim São Bento. O plá plum no estrondo do veículo em choque com a calçada na rua causou nele tal impacto, impacto maior o da vergonha certamente, ficando então vermelho como um peru; peru será vermelho? não importa, importa que não havia este lance no plano diretor de vingança. Mesmo assim ficou dias sem passar na frente do letreiro novo já velho e desgastado da Farmácia do Povo.
Hoje, neste agora, agora olha meio ressabiado para além do corpo eterno em vê-la. E perguntaria se ela ficara sabendo de sua vingança e da queda de sua Hercules... ora que diabo, por que os gringos não põem acento numa proparoxítona bem configurada?
Ela? ela apenas me olha deste lado, não sabendo eu se a me ver, se pra flechar com olhos verdes por baixo dos óculos, pelo fiasco no barulho da bicicleta, quem sabe se não a assustar seu sossego.
         
TIAS-II  Teocrácia cheia de graça agora descansando do trabalho insano e cansadiço em convencer jovens a se enrolar no matrimônio; sem lhe dar crédito (seria débito) o fato de, após, os membros do consórcio brigarem se ferirem se apartarem. Ela tão só do setor dessa confraria das tias à união, a desunião já outro papo. Contudo até nos dias da morte, justificando aqui não ser como o corpo eterno eterna enquanto durasse; mas até ao falecimento ainda usava argumentos e ardis para juntar jovens. Morreu. Porém não a confraria. Algumas tias inventaram outras mais tarefas dentro da mesma profissão – e seria profissão? – se pondo a manobrar informar preparar completar no iludir fazer cumprir matrimônios, agora voltadas a casais de meia-idade ou ainda noutra e pior hipótese pessoas passadas velhas com cheiro de caixão e túmulo. Esse negócio que dá muito nos tempos de hoje: anos dourados, melhor idade, terceira idade e outras tapeações desse tipo. E aí?
Aí tocou a vez ao namorado, ex-namorado ou seja o conquistador de Alice, esta que vez por outra vem entra e ao bater insistente da porta deixada levemente aberta, aberta fica ao diálogo, se sentando numa cadeira de madeira em quebradeira ao lado do lado de lá junto ao corpo eterno; a olhar-me deste lado a rabiscar meus rabiscos afundado um pouco na cama e por isso a permanecer mais baixo que ela na cadeira – de pé sou, digo vaidosa e orgulhosamente, um centímetro maior que ela, nós ambos baixos na estatura semelhando outros milhões neste país. Olha-me indagativamente, rabisco indagativamente também no riscar o que possa ela pensar que penso e risco garranchos na mão contrária, quer dizer gravo em registro o que penso que ela pensa e sente por mim, ao mesmo tempo o que acho dela; essa que me foi tão atraente com seu loiro e seu verde em andar provocante pelas ruas da cidade pequena do interior, mais fixado no trajeto de casa ao serviço e deste à casa e lá um pouquinho indo ela tomar os ares ver pássaros e flores no jardim, onde pregou-me a peça da traição. Ora, nunca nada e nenhuma ação me causou em toda vida, ou apenas nesta existência, tantos estragos como a traição. Não apenas o que pesando sobre minha pessoa sim sobre quaisquer conhecido ou desconhecido e aí me firo no ferir alheio. Em suma não tolero traição; e ela me traiu, exatamente num momento de exaltação poética do namorado apreciando (a oposição diria “seguindo”) observando e preso no amor, no seu amor...
Onde é que estas linhas estão nos levando? No trabalho quase de parto em fazer nascer um novo casal a obedecer o “crescei-vos e multiplicai-vos” dito redito insistindo milênios os pensadores religiosos; em nosso caso, frustrado; porém as tias não nos largaram, mesmo fosse a esquecer a luta nesse sentido exercido pela finada Graça irmã mais velha da gracinha em que me saíra Alice. Sim porque desandaram as mesmas a querer juntar no cerimonial do casamento os já idosos!
Se conseguiram bom efeito com outras pessoas mais permeáveis, tento à confraria. No caso dela e meu fracassaram, pois sou anos empedernido solteirão, a viver solitário e mal acompanhado visto escrever também mal.
Não seria o caso de meus rabiscos indagarem aos planos da vida pelas olhadelas fortuitas que flagro nela desde a outra margem desse rio tenebroso mas prostrado negativo inativo que é o corpo eterno; voltadas aqui para o meu lado a rabiscar? Sim, esclareço, não estaria Alice desejando saber de mim se o trabalho das tias ao casal já em cacos podendo levar-nos ao matrimônio? Diria ela, dissesse, você aceita me aceitando!
Que faço então, então atiro abrutalhado grosseiro a caneta – a caneta sem culpa no cartório – atiro pra longe e saio resmungando: vou comprar na venda uma outra caneta que escreva e seja mais obediente...

CAMINHO-II  Todos levam a Alice... Para o jovem enamorado dela sim, não pensava noutro ser noutra coisa noutro caminho. No entanto após aquele golpe traiçoeiro... dela não, não seria tão indigna me pisar o coração, o órgão mais frágil, eu um jovem que vivia morrendo de paixão a passar e mais passar na frente do trabalho da menina, somente a flagrá-la em se mostrar e num quem sabe descuido da falta de coragem viesse ter arrojo e fizesse uma declaração àquela jovem magra baixa loura verde nos olhos, magra e pequena ainda nesta altura do calendário, mas na juventude... Com o infausto acontecimento, ou seja o flagrante dum namoro com outro, a coisa mudou.
Então o jovem, sob pretexto (a si mesmo ninguém vindo a saber disso...) enfim a pretextar pneus furados, corrente larga, selim escapando, guidão torto – essas coisas que inventamos quando nenhum errado dá certo no que planejamos e aí dá errado o certo – a pretextar isso mudou de caminho, não passando mais em frente à Farmácia do Povo com sua Hércules, aqui já acentuando a palavra, não para se vingar dos fabricantes ingleses de bicicletas, a fim de vingar-se da jovem e isto dentro da estratégia de sua vindita contra aquela criminosa! Exato, a si traição crime de lesa-majestade.
Assim deixou frustrada a ânsia da garota em vê-lo, daí por diante não mais o veria, claro, vendo antes diário o pretendente. Esse o objetivo principal na sua cabeça “de corno”, gritava a baixaria na expressão que a gente do povo miúdo usando nesse tempo; o objetivo era fazê-la, enciumada decerto, fazê-la imaginar que ele havia arranjado novo par, um outro melhor par.
Ora bolas, agora hora de indagar, asserenados ímpetos passado tempo baixada a poeira esfriadas as cinzas, indagar quase no tête-à-tête (o corpo eterno ali no meio de ambos não dando palpite, como intromissão ao menos) o que Alice pensou da coisa, o quanto terá sofrido.
A mulher não fala, não falam participantes, falam em silêncio seus respectivos olhos em olhares tolhidos pela vergonha ou só timidez; nele em altas doses, nela em doses homeopáticas cheias de mansidão e cuidados...
Todavia esse caminho em contrário ou às avessas do trilhar meses anteriores até a desdita no flagrante criminoso – durou pouquíssimo.
Dessa forma voltei lambeta semana após, tornei a passar desde os baixos onde residia pela farmácia, rumo ao meu trabalho no escritório em pleno centro urbano. No primeiro dia dessa renovação cansativa ou desnecessária, levei o maior susto de minha pobre e simples existência: outra funcionária no balcão! Teria sido despachada por causa do ato criminoso de lesar o rei? eu. Cada bobagem consta haver na cabeça tresloucada dum rapaz enamorado. Não, Alice fora em férias, embora sequer estivesse registrada, que demais quase ninguém do último escalão no trabalho remunerado tendo registro em carteira e pior nisso: a receber bem menos que o mínimo na urbe a crescer. Um dia, outro dia, o desânimo do rapazote recebeu um alento, pois a namorada regressou às obrigações. Sem aqui imaginar que viesse chorando aos braços dele, quiçá a implorar perdão por quase se casar com um homem de fora. Claro nunca passar pela mente da lourinha que o forasteiro fosse compromissado e com filhos. Quer dizer, tudo voltou como era antes no castelo de abrantes; não é assim o dizer?

BANCO-II  Havia, decerto sempre houve desde que o mundo é mundo, havia muitíssimos bancos e incontáveis cadeiras; claro num planeta em que já nascemos cansados... havia vários bancos à espera que alguém se aboletasse se sentasse a esperar ou só para descansar mesmo na cidade – dois marcaram mais, em vista básicos nesta estória de amor com um desamor vivo morto no meio. A saber o da farmácia dela e o do escritório dele.
Enquanto se aguardava ou seu Henrique chegar medicar ou se sentando ele mesmo para conversa com os fregueses, aqui clientes ou pacientes uns até impacientes na demora da chegada do proprietário da farmácia; enquanto isso era o banco ponto obrigatório, não só aos funcionários Alice no meio e que não sentiam coisa alguma, acostumados com a fragrância dos remédios mas sentindo os de fora, fregueses ou eventuais pessoas a procurar medicamentos ou drogas (lícitas, não pensemos bobagens) esses tais a se ferir com o cheiro próprio de hospitais; para o jovem namorado da namorada, enjoativo repugnante. E assim o banco de pau no estabelecimento podendo ser tomado como castigo ou prêmio; ela estando presente a gastar cotovelos no balcão e mostrando sua graça de mulher nova e bela, um prêmio, claro. Mesmo seu hálito, que poucas vezes pudera sentir, isso um presente dos deuses a pobre mortal; mas o que o atingia eram o cheiro de mulher e a leve fragrância dum perfume que dela exalava e aqui não entenderia se francês se mera água de cheiro. Isto mudou!
Dezenas de anos após mudou acentuadamente, agora na situação em que está aí imediato sentada após o corpo eterno, pelo cheiro de corpo que o corpo dela tem, felizmente nada eterno...
O outro e segundo banco de espera, no trabalho dele. Então aí ficava parolando suas bobagens de molecão na companhia dos colegas do mesmo nível cultural e social o jovem namorado de Alice. Eventualmente como dito sentavam-se fregueses. Esse banco também de madeira também de espera como o da farmácia, se desgastou na semana quase inteira em que o jovem viveu divorciado da namorada. Virou local dum pensar macambúzio. Decerto não era o modo no ver dos outros não brigados com suas respectivas outras metades. Uma semana chata, em que o trabalho era chato a refeição era chata; enfim sem quaisquer possibilidades à laborterapia praticar suas teses.
Contudo haveria – o tempo provou tempos depois – haveria outro banco de espera, este aqui. Dum lado do lado de lá do corpo eterno eterno sem mudança, a cadeira cambaia e estragada que ela tomara ao entrar inesperadamente e em que se senta voltada pra cá a me ver talvez, talvez a aguardar não sei o quê. E deste lado, novo assento sem assento pois afundado em que o colchão de minha cama cede, acabando por ficar meu desnível abaixo do nível de sua cadeira.
Volto a rabiscar que todos três seres são íntimos, sem que isso seja de consciência do corpo eterno apenas de nós ambos. A grosso modo, minha cama é meu banco e a distância dele ao banco duro de sua cadeira (sua porém pertence à casa realmente) é mínima e aqui o novo problema, a mim gravíssimo.
É o fato do aspirar, por próximo e sem desejar, seu ‘perfume’. Os garranchos dos riscos nos rabiscos apostrofaram a palavra porque pra mim não chega a ser perfume...
Sim, não me agrada. Vou além – e isto não seria pelo desgaste dum ser idoso! – vou mais longe: é um fedor. Exatamente como grafado pois me repugna o cheiro agora de Alice, aqui tão pertinho para meu desgosto...
Existe, creem meus rabiscos nesta brochura barata, há um elemento químico na composição do ‘perfume’ e de todos perfumes que é o enxofre. Tudo é sulfurado ou sulfuroso. Pensar comum ou reconhecimento de todo mundo. No entanto nesse que ela agora usa (ou abusa?) tem mais enxofre e portanto me atinge e fere meu olfato, me arrasando. De tal forma que torce o antigo jovem da Hércules que se disponha logo a visitante ir embora. Ou ficaria nas horas das horas de permanência dela com esta irritação que sinto nas fossas nasais em contato com essa ofensa...
Que faço? coço-me no meu banco, que não é banco de pau mas colchão mole, sem poder ao menos gritar; falar que seja e nisto a ser tomado por um sujeito mal educado.

CASA-II  A casa ainda não caiu, caiu sim no sentido figurado visto o jovem haver ficado velho e descoberto diverso mil coisas tidas na juventude como conquistas quiçá vitórias garantidas. Isto podendo ter ocorrido à jovem de olhos verdes, ainda agora verdes na velhice  – sim pois convenhamos que hoje Alice não passa de passa de uva ou um destroço, destroço quem sabe não apenas orgânico... A minha casa, as duas casas caíram. A dela, se quem tenha me passado informes antigamente não errando, a dela literalmente caiu sumiu do mapa. Era amarela, eram tábuas rachadas e com frestas que tanto apreciam baratas como o vento; era na periferia leste da urbe a nascer depois crescer e após a se poluir decerto – não é mais, sendo ainda sito na zona leste apenas um terreno vago solto largado e com monturos de vegetais daninhos crescidos a quase cobrir monturos outros de tijolos e cacos de tijolos espalhados, restos dos tijolos que serviam de base na construção, embora de alvenaria em baixo em cima de madeira pintada, acreditei, de amarelo já descorado pelo sol a chuva o vento enfim as intempéries. Um vão de terra abandonada onde a antiga residência bela talvez dura talvez, da jovem bela com certeza morando.
Fui ver o lugar, curioso eu curioso; e constatei realmente esse desastre que o tempo prega na gente, por mais contente por mais tente por mais intente não se pode com o tempo em tempo algum da história da gente. Então senti vendo aquilo quase uma sensação de deserto decerto assim um deserto; contudo só no local da casa dela, o lote como se fala, o lote dela sem edificação e mais um outro perto vazio, porque a cidade pequena ficou grande e até a periferia as periferias se expandindo. As residências vizinhas se remodelaram, outras foram ao chão – hoje comum vermos caçambas com restos desmanchados aguardando remoção e, imediato e próximo pilhas de material novo às novas construções quase reconstruções. Enfim o novo no velho ambiente. Assim a urbe e a vila se refazendo, se refazendo também a casa de Alice na periferia no leste urbano? Não.
A casa não existe. A moradora mudou-se, sabem a sobejo os íntimos que andou por vários outros pontos da cidade; um ano inclusive longe daqui da urbe, voltou.
Tornou para me ver! ou para ver o corpo eterno...
Parece-nos, parece aos parentes, que o corpo eterno anda relegado por eles, por ela, parente (o povo tem disso a falar que parente é língua e dente, este quando pode morde a desprevenida língua...) Assim teria voltado à terra para “matar saudades”, dito igualmente popular que minha agrura afirma ser sem sentido. Então isso explicaria haver-me espantado, por a ‘entrona’ entrado pela porta exposta, trazido a cadeira a despencar despencando seu cansaço nessa cadeira que pôs ao lado como em guarda do corpo eterno e... ai! aí exalando seu ‘perfume’ pro meu lado; o lado que para fugir dela, delas, e do cheiro da primeira delas, forte em substância sulfurosa; e quem sabe se não a fugir por isso este lado de cá da saudade. Seria então da saudade que me daria da saudade que me consumia o ser por tê-la sem possuí-la com seus fios louros e seus olhos verdes!? Não sei, sei em hipótese, sei provado apenas haver embarcado numa brochura velha e gasta e em gastas folhas nuns rabiscos em rabiscos.
Agora, e esta casa.    
A minha, antiga nas baixadas donde empurrava pra cima a bicicleta Hércules, feito um hércules de segunda categoria por sem força e coragem a pedalar nos paralelepípedos lisos soltos pontudos machucadores, sem disposição a pedalar passar, aqui já pedalando normal (o quê seria normal?) passando lendo o letreiro em letras garrafais “Farmácia do Povo” e embaixo, no balcão, percebendo uma fada loira de olhos esmeraldinos a me olhar quem sabe; e daí indo finalmente (quê seria final!) indo para meu serviço.
Oh tal casa anda ainda parada firme fixa no lugar em que fora edificada anos antes até do meu nascimento, com suas madeiras, então repostas onde estouradas e ainda não pintada nunca fora pintada só pintada com a tinta lerda perene teimosa do tempo. Está na baixada, para quem se dispuser conferir. Mais não digo.
Digo desta casa onde agora estamos nós três. A saber Alice doutro lado, o corpo eterno eternamente inativo passivo qual boneco no meio, e o outro lado que sou eu rabiscador de rabiscos, registrando as mentiras desta verdade.
Esta está estando, por estar em condições...
Não. Isto posto, posto mal porque em péssimas condições. Os rabiscos arriscam ir além: fosse propriedade da família, a família alugaria outra noutra zona, mesmo em zona de nova velha periferia sempre escanteada pelos poderes públicos (o de sempre no país quiçá no planeta). Porque o senhorio, a rigor a senhoria visto a mulher ranheta mandar no consorte sem sorte, o trocadilho bem-vindo aqui, ele, ela, não quer gastar tostão sequer pondo o imóvel em condições para morar. Os trincos em desenhos sui generis mostram o perigo; até Alice vindo vendo me puxando orelhas no lembrar indagando com olhares se o prédio não sujeito despencar com as rachaduras – eu, duro, caso perguntasse com lábios e não nas segundas intenções de olhos, eu duro grosso mal educado responderia “o que é que você tem com isso!?” enquanto ela prontamente fosse deseducada equivalentemente “ora ora, eu não sou parente!” eu de novo, ‘bocudo’: parenta. Ora que bobagem, nenhum nem outra falando, a olhar tão só. O fato é que teria ela razão porque é possível desmoronar esta verdadeira peça de museu ou do patrimônio histório de nossa urbe. Aí? aí nessa altura do tempo ela não: Alice suponho tenha já ido para sua casa, e minha brochura com suas folhas falhas velhas gastas bastas de informes, não morreriam no ‘desabo’? Não, o corpo eterno não corre tal risco, eterno e portanto ‘indesmanchável’.

ANDAR-II  A maneira, os passos, as formas, o sentido dela é o mesmo. Não sei se possível a alguém que filosofe as coisas banais do mundo, das importantes não se fala, fala-se das chãs  ¡¿ será haver ‘visto’ o desenho em linhas móveis perfeitas, como pessoa a ir em direção de um lugar ou em todas direções; às sinuosidades às intermitências ao ziguezaguear igual um ser se deslocando para onde ir !?  Assim via quando via o jovem, quando jovem a jovem Alice nos poucos passeios flagrados; e mesmo – aqui necessário carga poética ou ajuda da loucura a obter êxito, porque poeta e criança têm um poder enorme a enxergar o quê pobres tresloucados adultos não veem vendo o chão, não o quê chão e a saltar ao imaginário inocente e puro – e mesmo no andar dela como balconista mas aqui a correr tomar o que tomar lá no laboratório a trazer para o balcão de venda da venda de remédios; ou a ir-voltar da prateleira e mostrar sorrindo e indagativa a mercadoria ao freguês cliente paciente. Nesse trajeto eventual ou regular, num mostrar seu andar atrativo a dois olhões enfeitiçados do rapaz enamorado dela observando da rua... Sim, vale um esforço a entender poética ou doidamente. Era assim seu andar.
Agora, hoje, seja chegando passando pela porta seja indo a passar pela mesma porta para fora desta ruína sem arquitetura e com tempo ótimo a dignificar museu – agora é assim ainda ela anda. Porém anda diverso porque a mancar um pouco...
Ah pobre mulher dos meus sonhos, a pobre neste ocaso puxa sem o desejar a perna esquerda, que arrasta para os membros arrastá-la nada por acaso...
E isto não é excepcional, o comum do ver no ser a perecer.

SAUDADE-II  Estes riscos nos rabiscos descobriram, a analisar um todo no sentimento da saudade, que o ser humano quando diz ou sente de fato o que diz, enfim uma pessoa ao afirmar ter o sentimento, apenas vê o quadro de si mesma; as outras figuras inseridas nesse contexto quase estão aí por acaso. Em síntese, alguém com saudade tem é saudade de si; e dessa forma o resto é o que satelizou-se em volta da própria pessoa. Porque mesmo num quesito de sentimento teoricamente externo ou exteriorizado pelo que vindo do interior, do coração em exemplo; assim sendo, não passa a saudade de uma lembrança de si, nada mais. Isto porque o humano é egocêntrico; vez por outra também egoísta, o que uma distorção do seu destino ou caminho a trilhar. Não vê outrem, vê a si; outrem existe em função da sua existência como centro, como indivíduo excluindo outros seres.
Assim a saudade registrada numas pobres folhas velhas machucadas talvez, gastas com certeza, pode ser duma jovem agora acabada (isto expressão demais forte da realidade na realidade alheia, onde temos vetado o trânsito por incapazes todos nós). De que esses papéis envelhecidos até em suas linhas azuis quase já transparentes e invisíveis têm saudade? – é realmente um ser idoso se lembrando das coisas do seu eu jovem perante aquela jovem namorada.
Esta namorada, decerto sem qualquer pretensão enamorada mas parecendo ser apenas uma vivente e portanto coadjuvante, esta que agora se levanta em uis não audíveis da cadeira (e aí lhe pego no pé, mentalmente: como é dona, a senhora vai me deixar o móvel imóvel onde não estava estando em sua entrada na entrada! uma pessoa com educação recolocaria no lugar do lugar a cadeira, ora...) levanta-se e caminha no seu andar leve em direção da porta. Não dá a mão, não dá com a mão sequer no se despedir; chega ao portal, deixa a porta aberta (a quê!) e some fora. Dentro nós.
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O velho observa triste uma brochura. Ficará com saudade de si mesmo e das folhas; não juntará um dia o caderno ao que juntou nos badulaques do sentimento a pensar futuro, futuro para quem só tenha passado; não acrescerá inclusive o cheiro da Alice de hoje, o do seu perfume discutível!?
E o corpo eterno, onde habitara um ser feminino rico na miséria do sofrimento, esse com certeza não porá tais dúvidas. Sólido, duro na queda, certo que a conhecida lei de Lavoisier em seu caso não deu certo.
Marília   setembro  2012