Zé
Neologístico
1.Fim
no começo
Agora
abrem o caixão antes do mal final tradicional do ver o defunto a ser enterrado
de vez no provisório definitivo que se conhece mas não se entende. Abrem? abre
realmente um dos coveiros magro mais magro que seu objeto de trabalho ali
pranchado esticado prostrado na caixa a pregos; é um sujeito, não o sujeito
morto o vivo, desajeitado um pouco o outro coveiro sendo mais saído vivido
experiente nisso porém guindado a chefe e chefe sempre põe melhor no pior seu
subordinado, no caso o subordinado magérrimo desdentado descorado mal vestido,
isto se perdoa porém não às pessoas acompanhantes naquele séquito fúnebre em
cemitério cansado velho com superlotação parecendo presídio nos dias de hoje;
hoje é sexta-feira sábado é de baile domingo de missa segunda de preguiça,
pensa nestes termos um desses acompanhantes nessa festa quase desnecessária à
decomposição e importante à rotina social. A madeira da urna exala um cheiro
suspeito e esquisito por ser canela em contato com o ar úmido e a garoa que a
cerração esparge nos convidados nos coveiros nos parentes e justo por primazia
no cadáver; contudo ele, o Zé, não cheira o cheiro da madeira, seria outro
cheiro fosse cedro ou pinho ou pinus mais barato e habitual a esse mister na
indústria ligada à funerária; desnecessário saber e ser ao morto, morto ali
estendido. Entendido entretanto que os convidados, alguns mais forçados pela
circunstâncias de velório e enterro que de fato em momento folgazão, entendido
que alguns presentes sintam a par do hálito alheio de desodorante e de gente
não felizmente suando ao calor e sim no frio do chuvisco e sentindo o ardor em
suas narinas por causa da canela, não advindo da canela do herói-morto mas do
caixão a cheirar mal. Um menininho, honesto puro justo e sem meias palavras
grita baixo suficiente a audição geral, o geral sorrirá contrafeito decerto,
grita o que cheirando ‘aquilo’ (é positivo a pronunciar com todas letras o nome
daquilo) e seria que seu Zé houvesse... Que absurdo, mamãe repreende tapa boquinha,
que absurdo da pureza inocente pois o Zé Neologístico falecido, morto pranchado
ali à frente perto embora. Fecha o mequetrefe o caixão que abrira aos curiosos
verem e também fecha a pedidos este capitulo inicial.
2.O
começo no início
Não
propriamente início em que se berra gritado o nascer o andar o partir à viagem
da existência. O José já anda grande e anda pra lá pra cá andando ao léu. Não
propriamente a esmo, por ter profissão, experimentado em várias profissões à profusão
– era desse tipo que faz tudo, tudo no mais ou menos se diga não havendo o
hábito da perfeição, tudinho apareça tenta em boa vontade erra erra acerta;
tudinho que se peça e daí ser um ser querido, ao menos conhecido. Até se
enredou no meio escolar, fora claro aluno e nunca mestre, em não ser na escola
da vida como se diz na qual mais aprendemos e ainda aprendemos mais quando
pensamos ensinar. Aí, aqui, obteve menções vermelhas à beça uma que outra azul.
Não casou, quer dizer em seu tempo de vivo, vimo-lo morto enterrado no enterro,
em seu tempo não chegou a unir-se a nenhuma vítima, visto ser barrado na fase
do namoro (impensável a conquista!) barrado ao obter apenas vermelho. Enfim um
sujeito comum incomum apenas por ser mui mais tímido que os demais
pretendentes. De maneira que casou-se solidamente tão só no sonho; nunca
chegando ao pesadelo do matrimônio. Assim não teve na hora da canela e do
cheiro o cheiro de sua gente de sangue herdeira. Aliás o que herdaria o filho
dum pobretão! Não teve filhos e preciso fora que os parentes e outros amigos ou
só conhecidos emprestassem ao prestar condolência condolências para gente de
fora ver, esses parentes de segunda geração; enquanto os amigos e conhecidos ficando
sem qualquer agrado. Em suma viveu como vive um solteirão; tio? as solteironas
tias portanto ele morreu tio. Morreu entretanto viveu o comum. O que seria ao
homem comum o comum? Pagar contas, espirrar, lamentar, culpar o tempo culpar o
governo eventualmente o vizinho e o patrão nunca ele tendo emprego fixo por
mais de mês; criticar os deslizes morais segundo sua moral sobre moral dos
conviventes, como o pároco novo e os confrades velhos na época de maior ligação
religiosa, pois que nos últimos tempos já nem indo ao templo um pouco relaxado;
ou melhor nesse pior: acompanhara a igreja enquanto a mãe morta viva e após se
entregara às folganças da preguiça, ou é que todo dia virara segunda-feira,
valendo-se nisso do costume de não ter compromisso. Tinha, relacionava sempre
repetindo em lamento o compromisso com a dor; aquele negócio que a velhice
aprecia tanto dói aqui dói ali e ainda relacionando medicamentos tomados a
tomar e a experimentar conforme sugestão-ordem da mestra televisão, antes era o
rádio o mentor que ouvia e obedecia. Enfim nada que o mundo não houvesse vivido
nas outras existências de outrem porque o homem se repete e repete e repete.
Num dado no entanto se distinguia se distinguindo o Zé, aqui a tentar ser um
intelectualoide. Este dado era a palavra.
3.Com
a palavra a palavra
A
palavra é um vocábulo com seguimento de sons convencionados em sinais gráficos
válidos a um povo ou parcela deste e pretende que enfeixe pensamento. Natural
que a gama de sons e de pensamentos vá do quase nada até ao inexplicável do
abuso da sabedoria ou orgulho vaidoso dum sábio que se supõe estratosférico
vendo lá embaixo a ignorância. Ignoram isto uns, isto uns exageram por outro
lado saber. José Neologístico, Neologístico por parte materna não sabendo nunca
o pai, José podendo encontrar-se numa e nas duas extremidades dependendo da
ótica de quem vê, sem ter importância a afirmativa dado ele não pensar no
visto; e preferir se preferindo viver. Não obstante sua característica mais
notável em toda existência fora irritar-se com palavras ditas ouvidas usadas
abusadas empregadas habitualmente. Em outras palavras se insurgindo com a forma
usual dos sons vestindo pensamento possível, insurgindo-se diante dos sinais
gráficos variando ao infinito por boca expondo. Isto quer dizer – escrito o
vocábulo – em mil formas a expor o mesmo pensamento, passando do nativo que
embroma sons, o caboclo de sua terra que deforma sons se lendo e lendo mal, o
urbanoide que junta matrizes sonantes rurais de origem e urbanas adotadas
criando outra e nova linguagem, o cidadão eventualmente intelectual a supor a
forma pura da língua, o gringo ou estrangeiro estranho ao meio e assoprando os
sons a seu bel prazer ou preso na armadura da ignorância dessa sabedoria –
todos mas todos mesmo segundo Zé errando, se não errando na base pecando não
sabendo a base. Ora, aqui a esbarrar-se no choque dum homem do povo com outro,
este intelectual ou se pensando assim. Neologístico com todos caracteres do
homem do povo, nada mais claro que se houvesse tão só pensado e não exposto
suas dúvidas e assim ninguém vindo a saber. Tinha entretanto uns pares de
orelhas a ouvi-lo; e é nisto que se fundamentam as próximas linhas.
4.Rol
da sabedoria segundo a ignorância
Não
tem disso? disso de sempre haver quem nos ouça – nas besteiras ou ignorâncias
das sabedorias! – ouça concorde e às vezes ainda dando corda, ou seja sugerindo
desejar mais e mais. Não se trata aqui da gente fofoqueira, a se referir às dignas
senhoras do 44 e do 33 e um pouquinho a do 55 esta ingerida por olhos vulgares
da vizinhança irreverente. São orelhas amigas, diriam inocentes e bobinhas os
inimigos trajados de adversários. Não e não mas sim sinceridade entre cartilagens
feiuras e ceras, isto porque não poderá existir nenhuma beleza na orelha mesmo
na orelha da miss... isso Neologístico
deplorava e pichando gringuesa essa palavra. Aqui sim nos deparamos com
centenas e milhares de vocábulos, se não inventados e usados pelo hábito, ao
menos os tais a imitar sons que orelhas e lábios (estes do Zé) possam ouvir e
pronunciar. Outra coisa válida a estas linhas do capitulinho é não se usar nele
itálico daqui por diante, recurso não só a chamar atenção à palavra como a
pichá-la por estrangeira estranha aos cânones, enfim gringa no dizer do Zé
Neologístico. O que bem lembrado por não existir itálicos aspas ou sinais do
apóstrofo a distinguir expressão simplesmente oral. Adelante, diria um
portunhol em visita a vender não sei o que para o Zé. Prossigamos. Natural que
o gringo-irmão, quer dizer de fala parecida com a da gente mas a gente não
entende quase nada; pior o gringo de cabelos loiros olhos azuis naquela altura
de sua alturona, pensa Zé, que enrola a língua e a gente não sabe mesmo nada,
nem o quase... Foi até natural o gringo não entender o porquê do freguês
dispensá-lo com um malemá. Sim, responde textualmente “não compro porque malemá
ganho pra comê”.
Contudo,
a relação dos nomes usados e criticados por ele a sumir de vista, quem sabe até
da compreensão. Assim usando grandura pra dizer o que maior que o menor, num
caso de despique em vizinho chato a falar falando abobrinhas borrachas conversa
mole; e outros senões coloquialistas. A do 44? uma gostosura a do 33 uma
pequenurona, miúda e baixa sim mas grande enorme de língua ferina. A do 55,
encardida, ou seja teimosa. Ora, orelha, isso tudo não é óbvio! pois digo, diz,
é obviodóbvio. Doutra vizinha, desvizinha afirmava, essa uma exposa do bobo, com xis por não
ser de fato esposa sim amigada...
Bem,
embora tímido em excesso, fora um dia metralhar as duas orelhas do mesmo
ouvinte amigo – até que ponto iria um amigo, quando ultrapassando amizade
virando certo inimigo! não sabia – embora, usando de sobra recursos onomatopaicos,
no que o homem comum é pródigo, usando dessa forma e abusando como sempre com
outros seres menos amigos e mais conhecidos, como um fulano que o Zé dizia
andar blablablando política, ou o caso do galo cucurucando seu cucurucar no
quintal próximo, ou ainda a ouvir um tataratá tataratando longe; um dia saiu
com certa tirada curiosa a pedir tangerina pompona por poncã, costumava
deturpar palavras como o caipira, ele urbanoide da gema; seria ruim de orelha?
não a sua orelha ouvinte, a orelha falante (ele próprio). Mil outras ouviu,
agora ouvindo não falando a orelha, mil expressões cuja existência os
dicionários reprovam e repudiam: inroubável, miss-ona miss-inha, burrocracia,
desmolhar, regritar e duas formas mui utilizadas por ele: um sem-formazinho e o
substantivo referente à tevê de se ver futebol, os telecosespeculadores.
Demais, igual os capiaus conversando na rua a cortar erres e esses e outras
letras, sem tocar no drama da concordância quase sempre discordante; assim geladêra
dinhêro prová comê. Em suma deformando o vernáculo a usar formas esdrúxulas ou
anormais como farmacista em lugar de farmacêutico, questã por questão, cardaço
largato e coisas desse jaez. Seu João, diz seu Zé: o circular hoje desatrasado
como sempre! ou adiantado tantadinha de nada.
Apesar
de tão criativo, Neologístico não criou a eternidade e cerrou olhos, já
arcaicos...
5.No
fim o fim mesmo em arcaísmo
Agora,
no final, não cheira mais. José Neologístico, o inventor de novos fonemas? Nem
as orelhas igualmente surdas qual o Zé agora enterrado. Isto é, defunto
encerrado na sua morada definitiva que sabemos provisória, visto haver o poço e
a desapropriação do terreno para novos cadáveres; além do fato que muitos não
aceitam de o morto vivo na alma apenas desprendida – as orelhas ouvintes
falaram uma vez, à boca do Zé: seu Zé, morreu? morreu e pronto; isto a
propósito da morte do esposo da do 55. Agora Neologístico encerradinho e
pronto. Com uma vantagem: não mais sentiria a rua o fedor do seu cigarro o
pigarrro o escarro a fumaça do seu arrebenta peito; nem ele agora o cheiro de
morto apodrecendo nas pacueras e muito menos o pau das pranchas de canela
malcheirosa do caixão. Supõe o povo que a terra enterra seus mortos, apaga a
voz dos mortos, não mais permite a criação de termos a afrontar puristas.
Fatalmente no desuso também as palavras morrem. Ou são lembradas arcaicas no
museu que é um dicionário desses antigos pesadões a figurar na poeira da
biblioteca pública à mosca, com tanta informática à frente. Ora, nessas
condições até Neologístico se vivo, morto, mudaria a melhorar seu pior em José
Arcaico. Seu criado, obrigado.
Marília abril 2012
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