PP, Pior
Pedida
(Esta
novelinha é uma tese ao pessimismo ou o negativar das coisas)
O sábio pensa e não fala
O homem comum fala e não pensa
Interrogatione
1°
- Introdução onomatopaica em faz de conta
O
João está contrito nessa aeronave taxiando a pista, a pista nunca termina ou
termina sim a segurança, segurança e pior o medo in-crescendo. Morre de
medo; aí vive não se vive tão só de expressão por isso vivo. Vivo no seu
entender é ficar em prontidão, vai que... Mas o comandante não bebeu. Hoje.
Agora. Ontem encheu a cara porém isto outra conversa. Conversa vai conversa
vem, ele não: quieto preso pregado no estofo, nem vê o estofo aquelas borrachas
de puf a afundar e nem vê o cheiro do avião dentro, vê só os outros a matracar
os problemas do mundo; todavia será que tem problema no mundo? não sabe, sabe
temer. Então a geringonça arrota mais alto treme todo comboio: se desloca
visivelmente, perceptivelmente desloca-se; aumenta o desloco e vai em carreira
correr e planar no levimento e por fim subir; desce ao seu medo, benze-se como
a velha mãe ensinou na roça longínqua o João. João Pessimista da Silva, Silva
do pai que Deus o tenha, Pessimista da mãe, a finada mãe, e assim se sente
protegido... por via das dúvidas assegura com as garras de unhas compridas sujas
talvez, pois se esqueceu de aparar com o canivete quando esticando a palha, “páia”
diz, quando a picar o fumo de corda, depois num achava mais do de corda passou
pros cigarros baratos tipo arrebenta-peito; contudo se esqueceu de apará-las:
afunda os dedos no macio do revestimento e segura bem, vai que não vá a coisa
cair, num pode cair – nem subiu. Porém arreganha arrebenta o ensurdecedor
motor, que são duas turbinas, ele só vê um de seu lado na janelinha e fora vê
longe também outros aviões e pessoas a se mexer e veículos esquisitos e escadas
e filas; mais filas de gente e não será que o mundo tenha ficado louco! pois
todos querem viajar acesos no Apagão Aéreo. Dentro os passageiros... ah o que
tem de executivos! só ele de caipira a amedrontar-se na coisa. E comentam as
últimas boas coisas. Teve os 99 do Focker da Tam que caiu e ainda hoje não
receberam indenização, as famílias; e tem o recente da Gol, um gol-de-placa
para 154 vítimas, vítimas! as vítimas as famílias sofrentes dando ibope pra televisão.
E o recentíssimo que foi o Air-Bus da Tam: 199 mortos. Todos comentam como foi
como não foi o que foi e o que poderia ter ocorrido: todos são como andam
sempre investidos em técnicos de futebol da Seleção e sabem mais que o técnico;
agora sabem mais de aeronáutica – uns que a culpa da pista molhada faltando antiderrapante,
outros que falha mecânica, outros mais que erro do piloto. Aí abrem as caixas pretas,
que são laranja, ‘laranja’ boa a disfarçar dólares na cueca e demais
corrupções, tadinho do povo inocente e puro e que só tem as corrupçõezinhas
puras e inocentes. Não param de tagarelar enquanto ele se implodindo, os nervos
os músculos comprimem seu ser por dentro para dentro para um centro indefinível
e ele pensa que vai fazer ali mesmo sentado na poltrona fofa daquelas fofuras
da civilização; e nisso vindo... de relance alembra um japonês vizinho na Boa a
repetir “tá vinvindo” então nisso vindo a aeromoça – uma gostosura!
certificou-se não estar perto dona Rosa – mas ele num tem coragem a indagar as
coisas prela ela sorri assim mesmo. A conversa continua animada, mais a
distrair e a distrair ligam a tevê, vê, vê o que não vê escuta: tem uma tal de
Condoliza Ráite e tá oferecendo armamento pesado ao Egito, sorri hienamente
correto ao Mubáraque; sorri porque está patrioticamente resolvendo o desemprego
em seu país criando mais vagas na indústria bélica. Mas ele, o João, não sabe
disso. Ainda fala o entrevistador que a Ráite ofertará o dobro desse armamento
ao lado de lá, Israel, e isso contrabalança as armas crescentes e o poderio
nuclear do Irã, aquele anti-democracia e anti-cristianismo. Sorri Ráite, “Rrráite”
diz a garganta do João, raspa barulha o catarro: a população executiva da aeronave
olha intrigada admirada civilizada globalizada o pobre capiau rico em pessimismo,
ele desconversa, rumina qualquer. Ocorre então que a aeronave ensaia subir e
vai voar, o João larga a tevê, se gruda e se gruda mais ainda e... acorda. Uf!
diz a esposa gordona, ocê tava com
pesadelo!? Tava.
2°
- Rua boa esperança
Pessimista,
da Silva diga-se a enriquecer complemento, ele tá na sua na rua Boa Esperança.
A rua Boa Esperança cheia de crianças, cheia de carros louquinhos, cheia de
barulhos mansos os ativados só de noitona na hora dos dorminhocos dormirem,
cheia de matracas, cheia de vendedores de tudo um pouco em horas indevidas,
cheia de cachorros num tem gato que resista inclusive o corso pra iludir suas
fêmeas comprometido, cheia de cucurucus mas tem galinhas ao galo também, cheia
de tudo, cheia de nada. O João viaja nela sua desocupação de execelente exemplar
urbanoide. Viaja pra lá e pra cá à procura do quefazer e assim se depara logo
com o não-fazer; fá-lo bem feito. A rigor cumprimenta todos, se preciso for
levanta mais cedo; esse tipo caipira madruga pra ter tempo para não fazer coisa
alguma; fá-lo bem feito. Ninguém mais quase sabe sua origem e desconhece seu
pedigrí e a formatação no computador do planeta. Um planeta roça. Aí os trabalhadores
– o pai trabalhava muito e tanto assim que fez mil filhos e bastante também na
mãe, a mãe que Deus a tenha – então eles foram expulsos do roçado pela lei do
mais forte, que era mais forte naquele tempo e hoje só é mais forte no esconder
sua fortura; então a lei pôs a família pra correr: se esconderam na cidade.
Impossibilitados em se tornar gente urbana por não ter pedigrí cidadania e
civilização, viraram urbanoides; ou seja procura-se o roceiro encontra-se o
homem da rua na cidade falando grosso a língua pátria do boteco; procura-se o
urbano polido instruído versado no vernáculo encontra-se o homem do campo em
excelentes nóis-vai e pra-mode. O João é o protótipo do urbanoide. Inclusive
pensou quem sabe pensando em ilustrar mais seu pedigrí e nobreza somar no seu
apelido o nome Urbanoide; todavia sem graça ficaria um João Urbanoide Pessimista
da Silva, não soando bem, sem graça. Sua graça, senhor... João, João seu
criado. Pode Sr.João informar-me onde... o Pessimista vai mais longe: leva o desconhecido
ao conhecido, prestativo. Assim vai no vem. E aproveita ao tagarelismo geral e
irrestrito da Boa e da Esperança. Cumprimenta bundia, ainda madrugada e até o
meio-dia, quando absolutamente ao meio-dia + um minuto é o batarde, o qual vai
até 18horas, se verão aí atrapalha um pouco e distende um pouquinho e estende
pras 19 ou 20; e então é banoite com direito garantido. Pior nesta pior pedida:
sabe e diz claramente só se enganando de vez em quando os nomes do cidadão
cidadã cidadãozinho, que é uma gracinha no seu nominho. Entretanto o João sabe
todinhos nomes de todos no pedaço. Mais mais: conta a cada amigo (isto esbanjo
apócrifo de ‘conhecido’; aliás, que é conhecido também se não nos conhecemos e
mesmo nem conhecemos a fundo nós a nós próprios como indivíduo!) mostra a cada
amigo encontrado supostas histórias da estória que conta. Bundia Fulano, não:
seu Fulano, é demais respeitoso e até formalista não obstante simples simplório
e popular (honesto até prova em contrário; bom, até formalização do termo;
prestativo com certeza absoluta, a certeza que é filha da dúvida, por sua vez
filha da dúvida anterior com o senhor incógnita; enfim com certeza; prossigamos
o João e seu cumprimento:) bundia, ah seu Fulano, viu o que aconteceu com dona
Beltrana! Aí narra se preciso for horas. Não tem relógio desconfiômetro nem tempo
no tempo. Tempo somente a fumar, não: acender outro cigarro ou o toco do anterior
apagado; acende chupa traga fumaceia assopra e retoma o contar, tim-tim por
tim-tim, os lances da estória. Mas fala baixinho, aí dando mais honradez e brio
ao fundo do acontecimento. Pois o normal (que seria normal! o comum?) o seu
normal é o gritar, falar alto. Digamos que o João esteja no início da Boa
Esperança e seu Pessimista atropele inclusive o da Silva e já estando no fim da
rua! de tão altão vozeirão. De forma que desconhecendo os segredos de Estado
tão caros e ótimos à boca pequena, desconhecendo apregoa no bom som o som do
que deva dizer e diz. Não obstante todos habitantes do planeta Boa Esperança o
têm por um homem bom, digno de respeito. E com graça, pois se sujeita às
brincadeiras e solta a risada mais gargalhosa, sem ferir a orelha ambiente. O
João.
3°
- A mulher do homem
Ou
o homem da mulher. Dona Rosa é o tipo sem tipo, ao menos se o tipo for o João.
Pois pouquinho pessimista, é Pessimista por marido, acrescendo ao nome do pai o
nome do marido, conquistado no cartório e no padre, naquele tempo em que era
uma belezura de jovem e o João menos horrendo que hoje. Não deveria haver
acrescido o da Silva em vez de Pessimista, embora fosse um pouco pessimista por
índole ou formação! não, no cartório os semiletrados pessimismaram a pobre
Rosinha, ela que fora arrebatada no baile da fazenda e coisa e tal. Hoje não
copiou a feiura do esposo porém sua velheira cansada e o diametrar opostamente
correto a engordar em deixando o infeliz mais bacalhau na sua magrura. Enfim
balofou enquanto a definição macha da espécie urbanoide encolheu murchou
encarquilhou secou. Contudo anda, tem esqueleto forte e corajoso; e como anda
na sua idade o homem. Poder-se-ia definir o casal como sendo o ‘magro da
gorda’! quem poderá com a língua humana? Bem. Por seu lado a fêmea da espécie
urbanoide não traz a característica fundamental, pois segundo as línguas de trapo
é a mulher falar mais, falar bem mais tempo, falar mais atingindo mais também;
o que não se dá, quietarrona. Estando inclinada para a bonomia e o mutismo a
senhora. O único vício – fosse o outro vício um vício e aí seria o mérito em
falar pelos cotovelos, falam faladores habituais habitantes do universo – o
único seu é o fumar, no que não leva vantagem ao cara-metade por este mais
fumar ainda que ela. Fuma a senhora às escondidas, o que é melhor, a rigor, pra
ser um vício: os vícios não amam mostrar-se. Ele mesmo compra na Venda leva a
marca de preferência da patroa, a esta fumaçar-lhe a cara( sem que se perturbe,
dito que fumaceia o macho mais mais). O único que se saiba esconda a mulher.
Demais engorda estufa balofa aumenta não estoura. Porém tudinho em segredo e
sobretudo segredo na língua; não se sabendo o que diga e menos o que pense. O
contrário do homem apresentado ao planeta como João; o João é o maior tagarela
do pedaço e não existindo pra si segredos. E isso não será contrassenso! pois o
certo senão certo comum não é ser a mulher faladeira? enquanto do homem se
espera prudência ser quieto quiçá mudo... o homem na sua versão Pessimista,
João Pessimista da Silva, esse é um falastrão. Supera o sexo frágil na sua
força da língua, onde a fêmea é forte ou costumeiramente forte. O sexo forte
não obstante tem seu fraco exato na fala... De forma que sobrará nestas linhas
realmente o chefe da casa; aquele que ganha o sustento do lar, pobre sim mas
honesto até prova em contrário e simples com certeza. Ai meu Deus, as certezas das dúvidas...
4°
- Pensão familiar
O
João anda sombrio no seu anda volta retoma retorna para vira olha espreita
breca enfim os passos mansos e sem cuidado. Cuidado só com o ibope, espreitando
umas orelhas disponíveis – hoje a rua tá chata ninguém no ver o sol que ele não
vê tão lindo e a poeirinha seca soprada desde nunseionde ele pronde for o vento
– até que acha uma. Não, duas, ninguém cortou a outra, e elas sorriem
contrafeitas a varrer a via pública, aí não sendo culpa da bagunça da molecada
a árvore se desfolha, ajunta. Faz fot-fot pra cá, a pazinha a vassoura...
Bundia seu Interrogação. Oi João. O senhor sabe que num saiu a bicha! Abre a boca
em interrogação Interrogação, isto com acréscimo de admiração e incompreensão e
sobretudo com reticências. O João: num falei pro senhor que tava tentando
aposentadoria! num saiu. O advogado é um ladrão o governo é um ladrão e a lei é
uma ladrona sem tamanho. Num falei pro senhor! tô cum 67... dois anos
trabaiando de graça presses putos e nada... já devia ter aposentado, num é com
65? Interrogação põe ponto final a prosseguir o perguntante. Dois anos seu
Interrogação, dois dos grandes e eu só na enxada, agora tô olhando uma chácara
do japonês e ganho um pouquinho. Aí o
João aproveita e conta do outro serviço do outro patrão, um turco, conta da
riqueza do turco e da riqueza dos parentes do turco, volta ao japonês que lhe
paga um pouquinho. É trabáio fácil, vou todos dias de bicicleta, ontem furou o
pneu da magrela, num fui e tem um cachorro e o coitado ficou com fome, fui foi
levar ela no conserto. Ganho um salário, já dá pra tomar uma cerveja no boteco
do João... não senhor: do João da dona Maria do boteco do João. O senhor viu o
que aconteceu no boteco com o Zé? (interrogação de Interrogação) ué, morreu,
bateu as botas. Bateu na muié, antes encheu a cara na Venda aquele pinguço, que
Deus o tenha (se benzeu) e bateu bateu pra valer, aí o homem dela, amante e ela
fala namorado, aí ele matou ele. Quem? ora, o amante bêbado assassinou o marido
bêbado, mas num foi no boteco foi na casa do Zé; e os meninos... Vai longe o
contar, irritando as folhas na pazinha de lixo pesada volumosa e o vento quer à
força arrancar as pobres dentro da pazinha a vassoura interfere, desinteressada
na conversa dos homens, não: do João. Ah sim senhor, a aposentadoria? o pai me
registrou com dois anos de atraso pra não pagar multa e tinha medo que os
homens do cartório prendessem ele então pôs como nascendo dois anos depois,
realmente dois anos e um mês. Agora perdi tempo de receber; porém se o ladrão
fizer certo esse errado ajunto o dinheiro e recebo uma bolada! No fim o João
Pessimista da Silva se aposentou por idade, perdeu o japonês e ficou zanzando
na Boa Esperança na esperança em prender boas orelhas, dessas pacientes não
impacientes nas folhas vassouras ventos e pás. Então, encontrando umas narrou
no timtim por tim-tim tudo que as interrogações conhecem e desconhecem; e daí a
continuar sua zanza.
4°
- Num tem jeito
Num
tem, Su! As orelhas da Su são de preferência porque o Pessimista não tem
preferência, aproveita-se como pode algumas, as dela destamanhão descansando na
Boa Esperança, a tricotar como fazem as mulheres pra não ver passar o tempo que
engorda a gente dá trabalho pra gente e mata no fim a gente. Ela sorri, como a
dizer “manda brasa!” Ele aquiece e diz que o vizinho... nem a vizinha
prestando, gordona ela assim, tá de sete meses Su? e ela nada faz na vida só
pra baixo e pra cima de carrão e nem varre sequer a casa a roupa semana lavada
dependurada empoeirando, num é Su? Sorri. Ele quase chora, tem cara de choro
ali no contar piada, não conta ouve descobriu ao menos esse mais do menos que
não sabe contar piada só estória vista com a vista que a terra há-de... e a vagabunda
(diz baixinho não quer que o mundo saiba disso: o mundo já sabe) quer que a Su
escute. Então e agora o vizinho arranjou um galo pra cucurucar acordar madrugada
a Boa inteirinha, e também uma dúzia de galinhas, num são índias? acho que são
pois magrelas igual minha magrela, sabe que a magrela furou o pneu! e os putos
querem cobrar cincão pra remendar. E as pobres vai ver que nem milho dão – o
safado e a nhe-nh-nhem da muié dele, ocê que me disse que ela num faz nada –
nem milho e isso num dá pena? dá é claro mas tem um sujeitinho ali, Su. Ele
não, ele é inocente, ela. Ela tá traindo ele com dois namorados, eu falo amante
como nos tempos antigos. Engana o rapaz e ele ainda me fala batarde quando sai
pro trabalho sem saber de nada. Este mundo tá perdido. Duas horas de perdição
depois, ainda tá perdido. Ela pretexta atender o telefone, ele se vai e inda
grita indo: a telefônica num é uma ladrona! quer dizer, eu não tenho linha e
praquê pra muié ficar conversando fiado com as filhas! Qualquer hora conto das
filhas... contudo já fala sozinho, numa boa.
5°
- ¡ Um de ponta-cabeça pra
variar !
Acontece
que foi afirmado nestas linhas atrás – isto santifica o dizer a dizer que o
passado não existe mais e portanto não vale, vale o presente – atrás sim mas no
presente aborda o João um vizinho na Boa Esperança a desdizer o dito, ou a
dizer-se o dito pelo não dito; porque sabemos o João ter memória afiada para
recordar todos nomes todas pessoas todos acontecimentos todas variações e
meandros possíveis deste impossível. Contudo ei-lo a abordar o vizinho: bundia,
isto não esquece nem batarde nem banoite, é o preâmbulo ao desfiar de sua
conversa quilométrica e mole – não é bem a conversa uma conversa mole porém a
moleza na conversa por ele falar amolentado rir amolentado quando ri, ri
raramente e fá-lo num he-he-he nunca ha-ha-ha civilizado. Então começa por
bundia. Bundia seu Exclamação... Ué, diz-se por dentro de si a si mesmo
Interrogação, o João Pessimista trocou-me o nome ou o sinal gráfico de meu
sinal pô! não fala externamente não diz nada Interrogação, nem sequer um ‘ué’ decente
em vista de o homem nunquinha ter sido
flagrado trocando nome dos outros; não fala Interrogação, fala sim: responde
“bom-dia João”. O João: o senhor nunsabe o que aconteceu!? Não, a menos que o
outro lhe diga o quê; daí sim poderá com capacidade falar que não sabe.
Nunsabe? pois seu moço (Interrogação é um caco ajuntado nos pedaços, um caco e
perdoemos expressões usuais) seu moço descobri ali na esquina um ponto de
drogas... De quê – indaga Indagação ou Perguntação ou em desespero de causa
Interrogação – e repete, de quê? de droga, seu Exclamação. Num falei pro
senhor? Este mundo tá perdido. Tá, a Véia
Gorda da esquina tá traficando... (nisso interrompe educadamente Interrogação:)
com armas? meu Deus que perigo, chamemos a segurança os secretas o exército as
forças ocultas as Forças Especiais quase sediadas no Rio, que as mesmas larguem
a Rocinha em paz e venham nos acudir! quem diria a Boa Esperança já sem esperança
etc. e tal. Calma, grita o João, num falei arma, a arma da língua é arma mais
feroz e não pode com a droga; num falei arma seu Exclamação: é droga, droga de
droga nem mais nem menos. Ah, responde Interrogação, pensei... O João, delicado
diplomata finório e original: de pensar morreu um burro. Num falei, falei foi
droga somente. Ou seja maconha pros pobres cocaína pros ricos; já viu como para
importadão aí na esquina... Péra lá, João, intervém Interrogação aflito, isso
não é droga meu caro, é o carro do namorado dela. Namorado? seu Exclamação,
qual namorado qual nada é amante, ela tem marido, um Bastião Qualquer da Silva,
mais num é meu parente, veja bem. Você tem certeza disso, Pessimista? Tenho seu
Exclamação, é droga e de rico pois que ele vem trazer, quando num tá detido e
solto vem trazer e/ou levar cocaína ou ‘exctase’, isto complicado falar; se eu
fosse narfabetizado num acertaria escrever também a palavra, não é assim seu Exclamação? “É”, responde o vizinho do vizinho João da
Silva. E têm mais uns banzé-zinhos ali todo fim de semana. Não, senhor Exclamação,
não é baile de gala, é batissaco mesmo e com música altona no estilo de
batistaca no ritmo estrangeiro de agora. E aí rola uns pó-zinhos umas
fumaça-zinhas o senhor num escuta, seu Exclamação. Não, João. Tá surdo então
além de caco. Num tem jeito eu digo, tá tudo perdido. Agora vô embora, seu homem.
Num vai dizer que falei o que falei, tá?
6°
- Pessimismemos o íntimo
Ele
chama o homem por Genéso mas não deve ser isso e continua vizinho assim mesmo.
Um vizinho chega, outro vencido, fica, educado, escuta, chateado decerto pois é
um túmulo; túmulo sabe-se não fala, certamente ouve, guarda segredo com unhas e
dentes. Pega-o de unhas e dentes com a língua o João, quem sabe hoje não tão
pessimista; e o larga apenas quando o pobre consegue receber outra visita e aí
o João vai caçar novas orelhas. Num contei pro senhor, seu Genéso. Então, meu
único filho não presta. As meninas não, não tenho queixa, só me queixo que elas
vão trabalhar e deixam os filhos pra bagunçar na minha casa; a véia tem de fazer almoço preles e
eu não aguento fujo pra rua conversar ver algum conhecido; sim não são
estranhos são meus netos, sem educação, sim, não aguento. Ele é uma porcaria.
Já tá na terceira ou quarta mulher, em cada uma fez mais de dois filhos pra
gente sustentar. Num pense que seja vagabundo não, trabalha sempre que tem
serviço e fica mais parado pelo desemprego que manda no país. Então vive
zanzando e arranjando mulher; e filhos... num disse que é tranqueira! Pois
olhe, seu homem, o filho fez um filho na filha não sei de quem e se ajuntou com
ela; aí arranjou de pedreiro longe e foi trabalhar e arranjou outra e perdeu o
serviço e vieram comer aqui em casa; a véia num quer nem que fale isso mas
digo: a outra foi no delegado e no juiz e o juiz mandou cobrar pensão pela criança.
Como tava desempregado não pagou pensão e teve que se esconder: vinha só comer
aqui na minha casa, a Véia escondia ele. A polícia achou ele; quer dizer, dedei
o sem-vergonha e cara-lavada e assim os polícias vieram e levaram o bruto.
Meses preso, tá solto trabalhando e pagando pensão pra um e deixando os outros
meus netos com fome. Parece que tá arrumando outra. Tá perdido, num tem mais
jeito. Olhe, homem, só contei procê. Mentiu o João, falou isso à toda Boa
Esperança.
7°
- A guarda-noturna diário
Todos
dias... não isto um abusinho literário. Durante uns oito ou nove anos o João
trabalhou por aí, o dedinho de prosa entre um cigarro e outro ou a cachaça (daí
parou de beber começou a beber cerveja) enfim uma parada no trabalho pra
conversar com ouvidos disponíveis. Chegou aos 67, aposentou e só então passando
à Boa no trabalho de vigia. De noite não, fica em casa dorme com as galinhas ou
no sofá que as filhas deram pra dona Rosa ver novela sossegada e o João dormir
sossegado; acorda e vai dormir definitivo na cama, a patroa se queixando dos
seus roncos. De noite não, noite é para dormir. De dia só cochila de vez em
quando e mais trabalha. Trabalha na vigília da rua Boa Esperança, o que é uma
boa porque o patrão não exige, nem paga o salário em compensação... Paga, paga
sim tendo em vista que o capiau quer como provento apenas ter direito a falar;
e fala em apurada língua urbanoide ao povo escutar. Diário assim. Começa madrugada
seu trabalho, porém não acorda moradores somente os de sono leve por causa de
falar altão; os de pé lhe respondendo o bundia no escuro... não, não no escuro,
tinha luz fraca e a prefeitura pôs as de magnésio claras claro. Entretanto pra
falar ou responder o bom-dia sai bem o som e é audível mesmo no escuro. Contudo
sempre o João acresce o nome das pessoas, nunca diz somente bundia; ocorre
também pronunciar apenas os nomes dos vizinhos machos, não os machos pra valer
que isto outra coisa; macho por determinação do cartório. Por quê. Porque as
mulheres não se levantam de madrugada no escuro, ou se levantam sim não se mostram
fora apenas os machos da espécie urbanoide, tanto urbanoides quanto o urbanoide
João; os quais devem ir ao trabalho já esquentando o motor ou em tectecando a
moto ou de bicicleta ou ainda "de a pé" como diz o João e neste caso
tendo que tomar o ônibus que cruza a Boa Esperança com destino ao centro. Se
houver oportunidade igualmente dá bundia ao coletivo, ao motorista dele. Quando
o sol toma coragem e vem ver como estão as coisas na esperança de estar Boa,
daí despenca o João a cumprimentar e mais cumprimentar; não, não arca não faz
salamaleques, não é capacho; só um pouco e se presta inclusive ouvir se alguém
desesperado pra falar seu coração; contudo cobra neste caso esse serviço tagarelando
suas coisas. Então vêm as hordas enfurecidas: vêm meninos à escola chutando
gritando gozando em arrastão; vêm os homens e aí muitas jovens gostosuras
também vêm vão ao trabalho; vêm a seguir as donas de casa as quais não têm para
onde (ele diz “pra dindonde”) não têm como fugir: varrem, conversam, fofocam,
se contam o não se contar quase sempre em segredo. O João quebra violentamente
o segredo, se mete entre elas e brinca (brincadeira de gente grande, ele
mediano ou de pequena estatura) brinca apenas de língua, relembra as coisas,
narra coisas novas – todas com uma só característica, pois o resto são as
características universais, em todas desfere o pessimismo. Não tem jeito, não
presta, não vale nada, não tem salvação, não tem! não: o mundo não tem
salvação; conta esmiúça os detalhes em minúcias nos pormenores os mais miúdos.
Elas gostam? ninguém perguntou isso. Nem seu Interrogação? quer que exclame!
Agora, ontem trasanteontem hoje amanhã possivelmente, sim o homem faz porém
Deus desfaz sabemos; então, agora tem o João Pessimista da Silva um ponto em
seu favor, até prova em contrário devemos admitir o ponto a favor; seguinte: o
caboclo é caidinho por crianças. Aqui entram nominhos que ele grita na passagem
de ida e volta na Boa. Oi branquela, oh coisinha fofa, olhe o menininho do tio (deveria
dizer do avô) e expressões assim. Tudo gritado. Com garotinhos não entra nos
pormenores nem conta as coisas – é um publiquinho que não responde apenas corresponde
sorrindo. Com as mães deles sim, narra a valer todos os podres do pedaço. Além
do mais tem um menos poderoso ao homem comum, no caso as mães delinhos. É o
fato dele entrar na saúde. Todos sabem que a saúde no país tá doente; isto um
prato cheio ao João e, por que não dizer, às orelhas do João. Nisso se
entusiasmam as criaturas ouvintes e contam e recontam também (aqui a melhorar e
enriquecer o arsenal do vigia da rua). Se contam, riem devendo chorar riem, se
receitam remédios e toda panaceia; daí o João se lembra dum remédio que tomou
ou sabe-se lá não terá sido um certo errado que comeu ele – uma dor aqui,
mostra a elas, faz careta a convencer as mulheres; nisto não brincam. E a conversa
não acaba, curiosamente não por culpa do urbanoide em vigília, o qual vez que
outra se despede delas, aí se despede; elas continuam em pôr suas coisas, as
coisas normais aos mortais na língua viva alta e educada; as anormais por
demais íntimas em voz baixa baixinha silenciosa... a aguçar os olhos das
orelhas de Interrogação. O qual aí pode exclamar: pô!
8°
- Termômetro da dor
Interessante
como os idosos sempre necessitam pretexto a passar as coisas a outrem. O João é
assim. Seu pretexto talvez sendo mesmo a causa ou que não encontre causa bastante
mas sinta. A dor. Aqui sim pode com vantagem desvantajosa dizer “ai”. Neste
item doloroso sequer a rua Boa Esperança tem igualmente esperança em ser a
única no Universo e menos a ótima para ouvi-lo. Todos se queixam nas vias públicas
do mundo. Todavia as conversas crônicas do caboclo com os vizinhos e passantes
eventuais têm sido trocadas pelo agudo. Agora, quer dizer nos últimos tempos,
vez que outra some o homem, mais seca o seco no homem menos homem no seco...
Outro novo já velho passatempo no tempo que não passa é o acréscimo das
despesas no seu lar; não porque a gorda engorde mas porque a canoa fura vasa
enche (afunda!) no peso dos filhos dos filhos. Mais pessimisma Pessimista porque
as filhas agora desfazem seus lares e voltam ao lar. Dona Rosa continua um
túmulo, o João aberto e diz algumas vezes as verdades somente para as orelhas
da rua. Contudo o dito, é flagrante que não possa sua rica aposentadoria de salário-mínimo
encher tanto tantas bocas... Assim se dispôs o João a catar papel e lixos
recicláveis pelas imediações, a empurrar uma geringonça em carro improvisado
com as rodas da magrela desmanchada; enche a mesma com todos restos sociais
atirados em boa educação nos terrenos baldios. Isto tudo para conseguir uns
trocados. Não obstante não tem consciência ecológica, a que dirije nossos dias.
É mais ganho da perda. Ou ganho na perda... Em razão deste estado de coisas o
João eliminou o bundia, sai madrugada; eliminou também o batarde anterior e
costumeiro. Apenas soçobrando no vendaval da luta na volta cansada o banoite;
um banoitinho franzino arisco, eventual quase, caso encontre alguém antes da
novela da mulher e do ronco; quem sabe do sono ou já da insônia...
9°
- O uf da gorda
O
João se assusta no mole do puf da borracha macia naquele cheiro de avião
tentando alçar voo, quiçá já voando num soprar as nuvens mais lerdas e
estrondando o céu lá em cima, a deixar aquele cordão comprido enorme de fumaça
no tempo do frio... embaixo via antigamente lembrando o Pessimista nunca poder
voar cortar estrelas de perto e vai que trombe na lua e naquele dia tava na
cheia boniteza de se ver e ótimo pra plantar e contar causos na terra. Mas ainda
na barriga da baleia a jato se remoe se renova o medo não às alturas pois que
se pensa sempre nunca suba e fica a aeronave a tremer, tremer no roncar seus
motores – o da banda de cá parecendo ir em vertigem e estourar explodir na cara
da gente: que iria contar, se, à esposa! a Rosa não para de engordar fumar e
silenciar porém a ouvir seus causos, aquele do aeroplano grandão a grunhir alto
para amedrontar mais ainda a gente. A gostosura vem ver se está bem, que diria,
não consegue articular nem a fala e se gruda com as garras e se prende mais às
fofuras – os outros passageiros ainda a tramelar suas hienas qual Ráite e ele,
o João, nem força tendo pra pôr pra fora sequer a gosma do catarro defumado
pela fumaça do arrebenta peito e dizem que num pode fumar dentro do avião mas o
avião... Rosna mais grita mais embraba mais chocalha mais e da Silva Pessimista
João não pode abrir a boca não pode respirar mais... “Uf!” diz a gorda do magro,
ocê tá pesadelando... num me responde, num tem Esperança Boa mais! Não responde
à viúva, responde fraquinho sem voz a voz a sumir num sopro, a sumir.
Marília agosto
2007
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