sexta-feira, 9 de agosto de 2019

PP pior pedida


PP, Pior Pedida
(Esta novelinha é uma tese ao pessimismo ou o negativar das coisas)
         
O sábio pensa e não fala
O homem comum fala e não pensa

Interrogatione


1° - Introdução onomatopaica em  faz de conta
O João está contrito nessa aeronave taxiando a pista, a pista nunca termina ou termina sim a segurança, segurança e pior o medo in-crescendo. Morre de medo; aí vive não se vive tão só de expressão por isso vivo. Vivo no seu entender é ficar em prontidão, vai que... Mas o comandante não bebeu. Hoje. Agora. Ontem encheu a cara porém isto outra conversa. Conversa vai conversa vem, ele não: quieto preso pregado no estofo, nem vê o estofo aquelas borrachas de puf a afundar e nem vê o cheiro do avião dentro, vê só os outros a matracar os problemas do mundo; todavia será que tem problema no mundo? não sabe, sabe temer. Então a geringonça arrota mais alto treme todo comboio: se desloca visivelmente, perceptivelmente desloca-se; aumenta o desloco e vai em carreira correr e planar no levimento e por fim subir; desce ao seu medo, benze-se como a velha mãe ensinou na roça longínqua o João. João Pessimista da Silva, Silva do pai que Deus o tenha, Pessimista da mãe, a finada mãe, e assim se sente protegido... por via das dúvidas assegura com as garras de unhas compridas sujas talvez, pois se esqueceu de aparar com o canivete quando esticando a palha, “páia” diz, quando a picar o fumo de corda, depois num achava mais do de corda passou pros cigarros baratos tipo arrebenta-peito; contudo se esqueceu de apará-las: afunda os dedos no macio do revestimento e segura bem, vai que não vá a coisa cair, num pode cair – nem subiu. Porém arreganha arrebenta o ensurdecedor motor, que são duas turbinas, ele só vê um de seu lado na janelinha e fora vê longe também outros aviões e pessoas a se mexer e veículos esquisitos e escadas e filas; mais filas de gente e não será que o mundo tenha ficado louco! pois todos querem viajar acesos no Apagão Aéreo. Dentro os passageiros... ah o que tem de executivos! só ele de caipira a amedrontar-se na coisa. E comentam as últimas boas coisas. Teve os 99 do Focker da Tam que caiu e ainda hoje não receberam indenização, as famílias; e tem o recente da Gol, um gol-de-placa para 154 vítimas, vítimas! as vítimas as famílias sofrentes dando ibope pra televisão. E o recentíssimo que foi o Air-Bus da Tam: 199 mortos. Todos comentam como foi como não foi o que foi e o que poderia ter ocorrido: todos são como andam sempre investidos em técnicos de futebol da Seleção e sabem mais que o técnico; agora sabem mais de aeronáutica – uns que a culpa da pista molhada faltando antiderrapante, outros que falha mecânica, outros mais que erro do piloto. Aí abrem as caixas pretas, que são laranja, ‘laranja’ boa a disfarçar dólares na cueca e demais corrupções, tadinho do povo inocente e puro e que só tem as corrupçõezinhas puras e inocentes. Não param de tagarelar enquanto ele se implodindo, os nervos os músculos comprimem seu ser por dentro para dentro para um centro indefinível e ele pensa que vai fazer ali mesmo sentado na poltrona fofa daquelas fofuras da civilização; e nisso vindo... de relance alembra um japonês vizinho na Boa a repetir “tá vinvindo” então nisso vindo a aeromoça – uma gostosura! certificou-se não estar perto dona Rosa – mas ele num tem coragem a indagar as coisas prela ela sorri assim mesmo. A conversa continua animada, mais a distrair e a distrair ligam a tevê, vê, vê o que não vê escuta: tem uma tal de Condoliza Ráite e tá oferecendo armamento pesado ao Egito, sorri hienamente correto ao Mubáraque; sorri porque está patrioticamente resolvendo o desemprego em seu país criando mais vagas na indústria bélica. Mas ele, o João, não sabe disso. Ainda fala o entrevistador que a Ráite ofertará o dobro desse armamento ao lado de lá, Israel, e isso contrabalança as armas crescentes e o poderio nuclear do Irã, aquele anti-democracia e anti-cristianismo. Sorri Ráite, “Rrráite” diz a garganta do João, raspa barulha o catarro: a população executiva da aeronave olha intrigada admirada civilizada globalizada o pobre capiau rico em pessimismo, ele desconversa, rumina qualquer. Ocorre então que a aeronave ensaia subir e vai voar, o João larga a tevê, se gruda e se gruda mais ainda e... acorda. Uf! diz a esposa gordona, ocê tava  com pesadelo!? Tava.

2° - Rua boa esperança
Pessimista, da Silva diga-se a enriquecer complemento, ele tá na sua na rua Boa Esperança. A rua Boa Esperança cheia de crianças, cheia de carros louquinhos, cheia de barulhos mansos os ativados só de noitona na hora dos dorminhocos dormirem, cheia de matracas, cheia de vendedores de tudo um pouco em horas indevidas, cheia de cachorros num tem gato que resista inclusive o corso pra iludir suas fêmeas comprometido, cheia de cucurucus mas tem galinhas ao galo também, cheia de tudo, cheia de nada. O João viaja nela sua desocupação de execelente exemplar urbanoide. Viaja pra lá e pra cá à procura do quefazer e assim se depara logo com o não-fazer; fá-lo bem feito. A rigor cumprimenta todos, se preciso for levanta mais cedo; esse tipo caipira madruga pra ter tempo para não fazer coisa alguma; fá-lo bem feito. Ninguém mais quase sabe sua origem e desconhece seu pedigrí e a formatação no computador do planeta. Um planeta roça. Aí os trabalhadores – o pai trabalhava muito e tanto assim que fez mil filhos e bastante também na mãe, a mãe que Deus a tenha – então eles foram expulsos do roçado pela lei do mais forte, que era mais forte naquele tempo e hoje só é mais forte no esconder sua fortura; então a lei pôs a família pra correr: se esconderam na cidade. Impossibilitados em se tornar gente urbana por não ter pedigrí cidadania e civilização, viraram urbanoides; ou seja procura-se o roceiro encontra-se o homem da rua na cidade falando grosso a língua pátria do boteco; procura-se o urbano polido instruído versado no vernáculo encontra-se o homem do campo em excelentes nóis-vai e pra-mode. O João é o protótipo do urbanoide. Inclusive pensou quem sabe pensando em ilustrar mais seu pedigrí e nobreza somar no seu apelido o nome Urbanoide; todavia sem graça ficaria um João Urbanoide Pessimista da Silva, não soando bem, sem graça. Sua graça, senhor... João, João seu criado. Pode Sr.João informar-me onde... o Pessimista vai mais longe: leva o desconhecido ao conhecido, prestativo. Assim vai no vem. E aproveita ao tagarelismo geral e irrestrito da Boa e da Esperança. Cumprimenta bundia, ainda madrugada e até o meio-dia, quando absolutamente ao meio-dia + um minuto é o batarde, o qual vai até 18horas, se verão aí atrapalha um pouco e distende um pouquinho e estende pras 19 ou 20; e então é banoite com direito garantido. Pior nesta pior pedida: sabe e diz claramente só se enganando de vez em quando os nomes do cidadão cidadã cidadãozinho, que é uma gracinha no seu nominho. Entretanto o João sabe todinhos nomes de todos no pedaço. Mais mais: conta a cada amigo (isto esbanjo apócrifo de ‘conhecido’; aliás, que é conhecido também se não nos conhecemos e mesmo nem conhecemos a fundo nós a nós próprios como indivíduo!) mostra a cada amigo encontrado supostas histórias da estória que conta. Bundia Fulano, não: seu Fulano, é demais respeitoso e até formalista não obstante simples simplório e popular (honesto até prova em contrário; bom, até formalização do termo; prestativo com certeza absoluta, a certeza que é filha da dúvida, por sua vez filha da dúvida anterior com o senhor incógnita; enfim com certeza; prossigamos o João e seu cumprimento:) bundia, ah seu Fulano, viu o que aconteceu com dona Beltrana! Aí narra se preciso for horas. Não tem relógio desconfiômetro nem tempo no tempo. Tempo somente a fumar, não: acender outro cigarro ou o toco do anterior apagado; acende chupa traga fumaceia assopra e retoma o contar, tim-tim por tim-tim, os lances da estória. Mas fala baixinho, aí dando mais honradez e brio ao fundo do acontecimento. Pois o normal (que seria normal! o comum?) o seu normal é o gritar, falar alto. Digamos que o João esteja no início da Boa Esperança e seu Pessimista atropele inclusive o da Silva e já estando no fim da rua! de tão altão vozeirão. De forma que desconhecendo os segredos de Estado tão caros e ótimos à boca pequena, desconhecendo apregoa no bom som o som do que deva dizer e diz. Não obstante todos habitantes do planeta Boa Esperança o têm por um homem bom, digno de respeito. E com graça, pois se sujeita às brincadeiras e solta a risada mais gargalhosa, sem ferir a orelha ambiente. O João.

3° - A mulher do homem
Ou o homem da mulher. Dona Rosa é o tipo sem tipo, ao menos se o tipo for o João. Pois pouquinho pessimista, é Pessimista por marido, acrescendo ao nome do pai o nome do marido, conquistado no cartório e no padre, naquele tempo em que era uma belezura de jovem e o João menos horrendo que hoje. Não deveria haver acrescido o da Silva em vez de Pessimista, embora fosse um pouco pessimista por índole ou formação! não, no cartório os semiletrados pessimismaram a pobre Rosinha, ela que fora arrebatada no baile da fazenda e coisa e tal. Hoje não copiou a feiura do esposo porém sua velheira cansada e o diametrar opostamente correto a engordar em deixando o infeliz mais bacalhau na sua magrura. Enfim balofou enquanto a definição macha da espécie urbanoide encolheu murchou encarquilhou secou. Contudo anda, tem esqueleto forte e corajoso; e como anda na sua idade o homem. Poder-se-ia definir o casal como sendo o ‘magro da gorda’! quem poderá com a língua humana? Bem. Por seu lado a fêmea da espécie urbanoide não traz a característica fundamental, pois segundo as línguas de trapo é a mulher falar mais, falar bem mais tempo, falar mais atingindo mais também; o que não se dá, quietarrona. Estando inclinada para a bonomia e o mutismo a senhora. O único vício – fosse o outro vício um vício e aí seria o mérito em falar pelos cotovelos, falam faladores habituais habitantes do universo – o único seu é o fumar, no que não leva vantagem ao cara-metade por este mais fumar ainda que ela. Fuma a senhora às escondidas, o que é melhor, a rigor, pra ser um vício: os vícios não amam mostrar-se. Ele mesmo compra na Venda leva a marca de preferência da patroa, a esta fumaçar-lhe a cara( sem que se perturbe, dito que fumaceia o macho mais mais). O único que se saiba esconda a mulher. Demais engorda estufa balofa aumenta não estoura. Porém tudinho em segredo e sobretudo segredo na língua; não se sabendo o que diga e menos o que pense. O contrário do homem apresentado ao planeta como João; o João é o maior tagarela do pedaço e não existindo pra si segredos. E isso não será contrassenso! pois o certo senão certo comum não é ser a mulher faladeira? enquanto do homem se espera prudência ser quieto quiçá mudo... o homem na sua versão Pessimista, João Pessimista da Silva, esse é um falastrão. Supera o sexo frágil na sua força da língua, onde a fêmea é forte ou costumeiramente forte. O sexo forte não obstante tem seu fraco exato na fala... De forma que sobrará nestas linhas realmente o chefe da casa; aquele que ganha o sustento do lar, pobre sim mas honesto até prova em contrário e simples com certeza. Ai meu Deus,  as certezas das dúvidas...

4° - Pensão familiar
O João anda sombrio no seu anda volta retoma retorna para vira olha espreita breca enfim os passos mansos e sem cuidado. Cuidado só com o ibope, espreitando umas orelhas disponíveis – hoje a rua tá chata ninguém no ver o sol que ele não vê tão lindo e a poeirinha seca soprada desde nunseionde ele pronde for o vento – até que acha uma. Não, duas, ninguém cortou a outra, e elas sorriem contrafeitas a varrer a via pública, aí não sendo culpa da bagunça da molecada a árvore se desfolha, ajunta. Faz fot-fot pra cá, a pazinha a vassoura... Bundia seu Interrogação. Oi João. O senhor sabe que num saiu a bicha! Abre a boca em interrogação Interrogação, isto com acréscimo de admiração e incompreensão e sobretudo com reticências. O João: num falei pro senhor que tava tentando aposentadoria! num saiu. O advogado é um ladrão o governo é um ladrão e a lei é uma ladrona sem tamanho. Num falei pro senhor! tô cum 67... dois anos trabaiando de graça presses putos e nada... já devia ter aposentado, num é com 65? Interrogação põe ponto final a prosseguir o perguntante. Dois anos seu Interrogação, dois dos grandes e eu só na enxada, agora tô olhando uma chácara do japonês e ganho um pouquinho.  Aí o João aproveita e conta do outro serviço do outro patrão, um turco, conta da riqueza do turco e da riqueza dos parentes do turco, volta ao japonês que lhe paga um pouquinho. É trabáio fácil, vou todos dias de bicicleta, ontem furou o pneu da magrela, num fui e tem um cachorro e o coitado ficou com fome, fui foi levar ela no conserto. Ganho um salário, já dá pra tomar uma cerveja no boteco do João... não senhor: do João da dona Maria do boteco do João. O senhor viu o que aconteceu no boteco com o Zé? (interrogação de Interrogação) ué, morreu, bateu as botas. Bateu na muié, antes encheu a cara na Venda aquele pinguço, que Deus o tenha (se benzeu) e bateu bateu pra valer, aí o homem dela, amante e ela fala namorado, aí ele matou ele. Quem? ora, o amante bêbado assassinou o marido bêbado, mas num foi no boteco foi na casa do Zé; e os meninos... Vai longe o contar, irritando as folhas na pazinha de lixo pesada volumosa e o vento quer à força arrancar as pobres dentro da pazinha a vassoura interfere, desinteressada na conversa dos homens, não: do João. Ah sim senhor, a aposentadoria? o pai me registrou com dois anos de atraso pra não pagar multa e tinha medo que os homens do cartório prendessem ele então pôs como nascendo dois anos depois, realmente dois anos e um mês. Agora perdi tempo de receber; porém se o ladrão fizer certo esse errado ajunto o dinheiro e recebo uma bolada! No fim o João Pessimista da Silva se aposentou por idade, perdeu o japonês e ficou zanzando na Boa Esperança na esperança em prender boas orelhas, dessas pacientes não impacientes nas folhas vassouras ventos e pás. Então, encontrando umas narrou no timtim por tim-tim tudo que as interrogações conhecem e desconhecem; e daí a continuar sua zanza.

4° - Num tem jeito
Num tem, Su! As orelhas da Su são de preferência porque o Pessimista não tem preferência, aproveita-se como pode algumas, as dela destamanhão descansando na Boa Esperança, a tricotar como fazem as mulheres pra não ver passar o tempo que engorda a gente dá trabalho pra gente e mata no fim a gente. Ela sorri, como a dizer “manda brasa!” Ele aquiece e diz que o vizinho... nem a vizinha prestando, gordona ela assim, tá de sete meses Su? e ela nada faz na vida só pra baixo e pra cima de carrão e nem varre sequer a casa a roupa semana lavada dependurada empoeirando, num é Su? Sorri. Ele quase chora, tem cara de choro ali no contar piada, não conta ouve descobriu ao menos esse mais do menos que não sabe contar piada só estória vista com a vista que a terra há-de... e a vagabunda (diz baixinho não quer que o mundo saiba disso: o mundo já sabe) quer que a Su escute. Então e agora o vizinho arranjou um galo pra cucurucar acordar madrugada a Boa inteirinha, e também uma dúzia de galinhas, num são índias? acho que são pois magrelas igual minha magrela, sabe que a magrela furou o pneu! e os putos querem cobrar cincão pra remendar. E as pobres vai ver que nem milho dão – o safado e a nhe-nh-nhem da muié dele, ocê que me disse que ela num faz nada – nem milho e isso num dá pena? dá é claro mas tem um sujeitinho ali, Su. Ele não, ele é inocente, ela. Ela tá traindo ele com dois namorados, eu falo amante como nos tempos antigos. Engana o rapaz e ele ainda me fala batarde quando sai pro trabalho sem saber de nada. Este mundo tá perdido. Duas horas de perdição depois, ainda tá perdido. Ela pretexta atender o telefone, ele se vai e inda grita indo: a telefônica num é uma ladrona! quer dizer, eu não tenho linha e praquê pra muié ficar conversando fiado com as filhas! Qualquer hora conto das filhas... contudo já fala sozinho, numa boa.

5° -  ¡ Um de ponta-cabeça pra variar !
Acontece que foi afirmado nestas linhas atrás – isto santifica o dizer a dizer que o passado não existe mais e portanto não vale, vale o presente – atrás sim mas no presente aborda o João um vizinho na Boa Esperança a desdizer o dito, ou a dizer-se o dito pelo não dito; porque sabemos o João ter memória afiada para recordar todos nomes todas pessoas todos acontecimentos todas variações e meandros possíveis deste impossível. Contudo ei-lo a abordar o vizinho: bundia, isto não esquece nem batarde nem banoite, é o preâmbulo ao desfiar de sua conversa quilométrica e mole – não é bem a conversa uma conversa mole porém a moleza na conversa por ele falar amolentado rir amolentado quando ri, ri raramente e fá-lo num he-he-he nunca ha-ha-ha civilizado. Então começa por bundia. Bundia seu Exclamação... Ué, diz-se por dentro de si a si mesmo Interrogação, o João Pessimista trocou-me o nome ou o sinal gráfico de meu sinal pô! não fala externamente não diz nada Interrogação, nem sequer um ‘ué’ decente em vista de o homem  nunquinha ter sido flagrado trocando nome dos outros; não fala Interrogação, fala sim: responde “bom-dia João”. O João: o senhor nunsabe o que aconteceu!? Não, a menos que o outro lhe diga o quê; daí sim poderá com capacidade falar que não sabe. Nunsabe? pois seu moço (Interrogação é um caco ajuntado nos pedaços, um caco e perdoemos expressões usuais) seu moço descobri ali na esquina um ponto de drogas... De quê – indaga Indagação ou Perguntação ou em desespero de causa Interrogação – e repete, de quê? de droga, seu Exclamação. Num falei pro senhor? Este mundo tá perdido. Tá, a Véia Gorda da esquina tá traficando... (nisso interrompe educadamente Interrogação:) com armas? meu Deus que perigo, chamemos a segurança os secretas o exército as forças ocultas as Forças Especiais quase sediadas no Rio, que as mesmas larguem a Rocinha em paz e venham nos acudir! quem diria a Boa Esperança já sem esperança etc. e tal. Calma, grita o João, num falei arma, a arma da língua é arma mais feroz e não pode com a droga; num falei arma seu Exclamação: é droga, droga de droga nem mais nem menos. Ah, responde Interrogação, pensei... O João, delicado diplomata finório e original: de pensar morreu um burro. Num falei, falei foi droga somente. Ou seja maconha pros pobres cocaína pros ricos; já viu como para importadão aí na esquina... Péra lá, João, intervém Interrogação aflito, isso não é droga meu caro, é o carro do namorado dela. Namorado? seu Exclamação, qual namorado qual nada é amante, ela tem marido, um Bastião Qualquer da Silva, mais num é meu parente, veja bem. Você tem certeza disso, Pessimista? Tenho seu Exclamação, é droga e de rico pois que ele vem trazer, quando num tá detido e solto vem trazer e/ou levar cocaína ou ‘exctase’, isto complicado falar; se eu fosse narfabetizado num acertaria escrever também a palavra, não é assim seu Exclamação?  “É”, responde o vizinho do vizinho João da Silva. E têm mais uns banzé-zinhos ali todo fim de semana. Não, senhor Exclamação, não é baile de gala, é batissaco mesmo e com música altona no estilo de batistaca no ritmo estrangeiro de agora. E aí rola uns pó-zinhos umas fumaça-zinhas o senhor num escuta, seu Exclamação. Não, João. Tá surdo então além de caco. Num tem jeito eu digo, tá tudo perdido. Agora vô embora, seu homem. Num vai dizer que falei o que falei, tá?

6° - Pessimismemos o íntimo
Ele chama o homem por Genéso mas não deve ser isso e continua vizinho assim mesmo. Um vizinho chega, outro vencido, fica, educado, escuta, chateado decerto pois é um túmulo; túmulo sabe-se não fala, certamente ouve, guarda segredo com unhas e dentes. Pega-o de unhas e dentes com a língua o João, quem sabe hoje não tão pessimista; e o larga apenas quando o pobre consegue receber outra visita e aí o João vai caçar novas orelhas. Num contei pro senhor, seu Genéso. Então, meu único filho não presta. As meninas não, não tenho queixa, só me queixo que elas vão trabalhar e deixam os filhos pra bagunçar na minha casa; a véia tem de fazer almoço preles e eu não aguento fujo pra rua conversar ver algum conhecido; sim não são estranhos são meus netos, sem educação, sim, não aguento. Ele é uma porcaria. Já tá na terceira ou quarta mulher, em cada uma fez mais de dois filhos pra gente sustentar. Num pense que seja vagabundo não, trabalha sempre que tem serviço e fica mais parado pelo desemprego que manda no país. Então vive zanzando e arranjando mulher; e filhos... num disse que é tranqueira! Pois olhe, seu homem, o filho fez um filho na filha não sei de quem e se ajuntou com ela; aí arranjou de pedreiro longe e foi trabalhar e arranjou outra e perdeu o serviço e vieram comer aqui em casa; a véia num quer nem que fale isso mas digo: a outra foi no delegado e no juiz e o juiz mandou cobrar pensão pela criança. Como tava desempregado não pagou pensão e teve que se esconder: vinha só comer aqui na minha casa, a Véia escondia ele. A polícia achou ele; quer dizer, dedei o sem-vergonha e cara-lavada e assim os polícias vieram e levaram o bruto. Meses preso, tá solto trabalhando e pagando pensão pra um e deixando os outros meus netos com fome. Parece que tá arrumando outra. Tá perdido, num tem mais jeito. Olhe, homem, só contei procê. Mentiu o João, falou isso à toda Boa Esperança.

7° - A guarda-noturna diário
Todos dias... não isto um abusinho literário. Durante uns oito ou nove anos o João trabalhou por aí, o dedinho de prosa entre um cigarro e outro ou a cachaça (daí parou de beber começou a beber cerveja) enfim uma parada no trabalho pra conversar com ouvidos disponíveis. Chegou aos 67, aposentou e só então passando à Boa no trabalho de vigia. De noite não, fica em casa dorme com as galinhas ou no sofá que as filhas deram pra dona Rosa ver novela sossegada e o João dormir sossegado; acorda e vai dormir definitivo na cama, a patroa se queixando dos seus roncos. De noite não, noite é para dormir. De dia só cochila de vez em quando e mais trabalha. Trabalha na vigília da rua Boa Esperança, o que é uma boa porque o patrão não exige, nem paga o salário em compensação... Paga, paga sim tendo em vista que o capiau quer como provento apenas ter direito a falar; e fala em apurada língua urbanoide ao povo escutar. Diário assim. Começa madrugada seu trabalho, porém não acorda moradores somente os de sono leve por causa de falar altão; os de pé lhe respondendo o bundia no escuro... não, não no escuro, tinha luz fraca e a prefeitura pôs as de magnésio claras claro. Entretanto pra falar ou responder o bom-dia sai bem o som e é audível mesmo no escuro. Contudo sempre o João acresce o nome das pessoas, nunca diz somente bundia; ocorre também pronunciar apenas os nomes dos vizinhos machos, não os machos pra valer que isto outra coisa; macho por determinação do cartório. Por quê. Porque as mulheres não se levantam de madrugada no escuro, ou se levantam sim não se mostram fora apenas os machos da espécie urbanoide, tanto urbanoides quanto o urbanoide João; os quais devem ir ao trabalho já esquentando o motor ou em tectecando a moto ou de bicicleta ou ainda "de a pé" como diz o João e neste caso tendo que tomar o ônibus que cruza a Boa Esperança com destino ao centro. Se houver oportunidade igualmente dá bundia ao coletivo, ao motorista dele. Quando o sol toma coragem e vem ver como estão as coisas na esperança de estar Boa, daí despenca o João a cumprimentar e mais cumprimentar; não, não arca não faz salamaleques, não é capacho; só um pouco e se presta inclusive ouvir se alguém desesperado pra falar seu coração; contudo cobra neste caso esse serviço tagarelando suas coisas. Então vêm as hordas enfurecidas: vêm meninos à escola chutando gritando gozando em arrastão; vêm os homens e aí muitas jovens gostosuras também vêm vão ao trabalho; vêm a seguir as donas de casa as quais não têm para onde (ele diz “pra dindonde”) não têm como fugir: varrem, conversam, fofocam, se contam o não se contar quase sempre em segredo. O João quebra violentamente o segredo, se mete entre elas e brinca (brincadeira de gente grande, ele mediano ou de pequena estatura) brinca apenas de língua, relembra as coisas, narra coisas novas – todas com uma só característica, pois o resto são as características universais, em todas desfere o pessimismo. Não tem jeito, não presta, não vale nada, não tem salvação, não tem! não: o mundo não tem salvação; conta esmiúça os detalhes em minúcias nos pormenores os mais miúdos. Elas gostam? ninguém perguntou isso. Nem seu Interrogação? quer que exclame! Agora, ontem trasanteontem hoje amanhã possivelmente, sim o homem faz porém Deus desfaz sabemos; então, agora tem o João Pessimista da Silva um ponto em seu favor, até prova em contrário devemos admitir o ponto a favor; seguinte: o caboclo é caidinho por crianças. Aqui entram nominhos que ele grita na passagem de ida e volta na Boa. Oi branquela, oh coisinha fofa, olhe o menininho do tio (deveria dizer do avô) e expressões assim. Tudo gritado. Com garotinhos não entra nos pormenores nem conta as coisas – é um publiquinho que não responde apenas corresponde sorrindo. Com as mães deles sim, narra a valer todos os podres do pedaço. Além do mais tem um menos poderoso ao homem comum, no caso as mães delinhos. É o fato dele entrar na saúde. Todos sabem que a saúde no país tá doente; isto um prato cheio ao João e, por que não dizer, às orelhas do João. Nisso se entusiasmam as criaturas ouvintes e contam e recontam também (aqui a melhorar e enriquecer o arsenal do vigia da rua). Se contam, riem devendo chorar riem, se receitam remédios e toda panaceia; daí o João se lembra dum remédio que tomou ou sabe-se lá não terá sido um certo errado que comeu ele – uma dor aqui, mostra a elas, faz careta a convencer as mulheres; nisto não brincam. E a conversa não acaba, curiosamente não por culpa do urbanoide em vigília, o qual vez que outra se despede delas, aí se despede; elas continuam em pôr suas coisas, as coisas normais aos mortais na língua viva alta e educada; as anormais por demais íntimas em voz baixa baixinha silenciosa... a aguçar os olhos das orelhas de Interrogação. O qual aí pode exclamar: pô!

8° - Termômetro da dor
Interessante como os idosos sempre necessitam pretexto a passar as coisas a outrem. O João é assim. Seu pretexto talvez sendo mesmo a causa ou que não encontre causa bastante mas sinta. A dor. Aqui sim pode com vantagem desvantajosa dizer “ai”. Neste item doloroso sequer a rua Boa Esperança tem igualmente esperança em ser a única no Universo e menos a ótima para ouvi-lo. Todos se queixam nas vias públicas do mundo. Todavia as conversas crônicas do caboclo com os vizinhos e passantes eventuais têm sido trocadas pelo agudo. Agora, quer dizer nos últimos tempos, vez que outra some o homem, mais seca o seco no homem menos homem no seco... Outro novo já velho passatempo no tempo que não passa é o acréscimo das despesas no seu lar; não porque a gorda engorde mas porque a canoa fura vasa enche (afunda!) no peso dos filhos dos filhos. Mais pessimisma Pessimista porque as filhas agora desfazem seus lares e voltam ao lar. Dona Rosa continua um túmulo, o João aberto e diz algumas vezes as verdades somente para as orelhas da rua. Contudo o dito, é flagrante que não possa sua rica aposentadoria de salário-mínimo encher tanto tantas bocas... Assim se dispôs o João a catar papel e lixos recicláveis pelas imediações, a empurrar uma geringonça em carro improvisado com as rodas da magrela desmanchada; enche a mesma com todos restos sociais atirados em boa educação nos terrenos baldios. Isto tudo para conseguir uns trocados. Não obstante não tem consciência ecológica, a que dirije nossos dias. É mais ganho da perda. Ou ganho na perda... Em razão deste estado de coisas o João eliminou o bundia, sai madrugada; eliminou também o batarde anterior e costumeiro. Apenas soçobrando no vendaval da luta na volta cansada o banoite; um banoitinho franzino arisco, eventual quase, caso encontre alguém antes da novela da mulher e do ronco; quem sabe do sono ou já da insônia...

9° -  O uf da gorda
O João se assusta no mole do puf da borracha macia naquele cheiro de avião tentando alçar voo, quiçá já voando num soprar as nuvens mais lerdas e estrondando o céu lá em cima, a deixar aquele cordão comprido enorme de fumaça no tempo do frio... embaixo via antigamente lembrando o Pessimista nunca poder voar cortar estrelas de perto e vai que trombe na lua e naquele dia tava na cheia boniteza de se ver e ótimo pra plantar e contar causos na terra. Mas ainda na barriga da baleia a jato se remoe se renova o medo não às alturas pois que se pensa sempre nunca suba e fica a aeronave a tremer, tremer no roncar seus motores – o da banda de cá parecendo ir em vertigem e estourar explodir na cara da gente: que iria contar, se, à esposa! a Rosa não para de engordar fumar e silenciar porém a ouvir seus causos, aquele do aeroplano grandão a grunhir alto para amedrontar mais ainda a gente. A gostosura vem ver se está bem, que diria, não consegue articular nem a fala e se gruda com as garras e se prende mais às fofuras – os outros passageiros ainda a tramelar suas hienas qual Ráite e ele, o João, nem força tendo pra pôr pra fora sequer a gosma do catarro defumado pela fumaça do arrebenta peito e dizem que num pode fumar dentro do avião mas o avião... Rosna mais grita mais embraba mais chocalha mais e da Silva Pessimista João não pode abrir a boca não pode respirar mais... “Uf!” diz a gorda do magro, ocê tá pesadelando... num me responde, num tem Esperança Boa mais! Não responde à viúva, responde fraquinho sem voz a voz a sumir num sopro, a sumir.
Marília   agosto  2007

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