sábado, 3 de agosto de 2019

As Muitas Mortes da Morte e a Vida


As Muitas Mortes da Morte e a Vida

“Somos uma invenção dos outros. Vivemos do conceito que
 fazem de nós precisamente os que não nos conhecem.”     Lêdo Ivo
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 “(...)nosso nascimento é fruto de um momento de fraqueza de nossos
  pais. Vivemos por displicência e morremos por exaustão(...)”    Fernando Sabino
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“Quem ganha o logo
 Perde o sempre
 O deserto é eterno
 Vale a pena pregar nele.”    Artur da Távola
                                                                      

Prelúdio à Sinfonia Inacabada

Ou inacabável?
O autor destas linhas defende sempre teses sobre algo em tudo que escreva. Aqui não fujo aos princípios, sustento numa forma holística a Vida com vê maiúsculo, não vejo como possa a insignificância humana ter criado a Vida; bem ao contrário ela opta com facilidade a criar a morte, sem saber que a morte como supõe não existe. Por isso faço profissão de fé nessa criação por um ser gigantescamente puro e inteligente, ao qual chamo Deus; outrem poderá dar nome diverso e mesmo negá-Lo, supondo que o nada possa criar tudo; enquanto o autor achando que esse nada sequer consiga se criar; mesmo porque o nada é nada: não existe. Não vou perder mais meu tempo em provar o contrário do pensar comum dos seres – fi-lo por dezenas de anos, tempo em que só provei a mim mesmo que o nada não existia; hoje afirmo tão só: continua não existindo. Mas e a Morte.
A Morte seria interrupção da Vida!? Porém esta não se interrompe. Aqui desejo defender a tese de como o homem da rua pensa a morte; e a vida. Ele, a meu ver, não vê se não uma partícula da Vida: a existência. Cuja porção raramente ultrapassa (sem qualquer vantagem pessoal; ou só em provar a grandeza da Vida na grandeza da vida) sim raro ultrapassando os 100 anos. Ora, que são cem anos, longos na visão de uns breves na visão de outros. Se compararmos a invisível Terra desde ponto longíquo do Universo, com os 100 aninhos... mesmo se fossem os 100 dos grandes e bem aproveitados anões; se compararmos os tais 100 com os milhões e bilhões de anos, os próprios astrônomos e físicos admitindo ainda serem mais o tempo de vida do nosso Planeta – que seriam então os 100 de um lonjevo se metendo a matusalém e louquinho a conceder entrevista à televisão! Somente não são nada por serem pouco mais que nada...
Então ela (o final da existência) seria não a conclusão da Vida, porém duma vida, apenas duma existência (sem discutir aqui a sustância centenar).
E que dizer se ‘morremos’ às vezes aos 25, desprezando os outros três quartos, no cruzamento da esquina; em pôr a culpa noutra pessoa ou no álcool ou no trânsito ou na ferocidade de Deus, faminto por velhinhos e criancinhas ao molho pardo, aqui vermelho a dar mais ‘ibope’ e vídeo. Sem falar na assustadora mortalidade infantil e na fome geradora de eliminações por tabela.
Daí nossos pobres matusaléns, não estando caducos totalmente, lamentariam quem sabe a sorte do restante humano ou, sendo vaidosos, se engrandeceriam por serem mais-mais e ganhar o prêmio do Guinness Book.
Ah pobre homem comum, meu objeto neste texto. Ele imagina que a vida seja os cem aninhos, faz planos para tanto, com muita sombra e água fresca; ao fim já revendo os planos, talvez a medir os paus, aqueles de compor canoas; mais interessado no como fugir dos ais! ou de como fazer para segurar a fortuna que aquele cachorro companheiro 2° 3° ou 4° da filha pretende abocanhar após o velório e as piadas do velório. E aí, aí acabou mesmo.
Quantos pensaram assim desde que o mundo é mundo!?
Ora ora, morremos todos os dias. Renascemos todos os dias.
Deixemos isso agora, para de agora em diante falar só nisso.
No textozinho devo mostrar exemplos numerados em capítulos, embora a realidade não seja estanque e compartilhada mas um todo; devo enfim mostrar vidinhas como as vi senti sofri noutrem, pessoas simples, simplórias às vezes, às vezes pretensiosas e orgulhosas em seu saber e entender a vida.
Como pensará o homem comum a vida igual supõe? Objetarão que nem todos nós pensamos assim vemos assim sofremos assim. Respondo que no pensamento dominante, na religião dominante, na filosofia dominante – é o aqui, agora. Alguns chegam a manifestar não existir prova além do além: só se prova aquém. A Vida se reduz à vida. Que realmente dever-se-ia chamar morte; pois não valeria à pena, assim pensada, viver. O homem pequeno, por mais gigante em volume e volume de bens que seja, esse homem só vê curto o curto período de 100 anos, os quais se reduzem a 70 ou 70-e-pouco segundo o gosto da estatística. Mesmo esta ideia é impensável ou impossível noutros povos, não obstante a avalanche globalizada; a qual não consegue mudar ainda a qualidade, o intrínseco da mente humana. Pois imaginamos que o que imaginamos imaginam outros seres noutras geografias e cooordenadas. Imaginamos que o pensamento seja mensurável em todas longitudes-latitudes. Ora, o homem é ainda um desconhecido; mesmo para si mesmo! que dirá para avaliação de outras mentes. Isto quer dizer que a verdade é a mentira, que a mentira é a verdade.
O quê pensará? devo tratar disto junto aos meus personagens. (Repito o que vi senti sofri nos mesmos; apenas criei, sem ter demais certeza haver criado, apenas criei de fato a linguagem, seja a minha linguagem ou seja a linguagem que personagens usarão para provar minha prova).
Eles, embora Ele: o Homem Comum, não terão um só nome, nem a mesma configuração, nem a mesma idade, quiçá a mesma experiência mundana. Não é a via-sacra de um ser e suas correlações e conexões. Não se pretende acarinhar a mocinha casar o jovenzinho jogar-lhes desenganos; e, pior: provar as maldades do mundo sobre seres tão puros. Trata-se de um conjunto em soma de vidas (vidinhas, existencinhas) de gente que sequer pensa (ou quando muito admite) na vida ou a vida ir além da morte. Em outras palavras: creem na vida e na morte; não acreditam na Vida.
Em vista disso esta obra não se liga às partes pelas partes – a amarra será sempre o final, este que não se costuma pensar em termos de reinício de viagem; que pode e frequentemente assim é uma viagem (‘reindago’: inacabável!?) igual à do trem, o qual para em cada estação sem que o passageiro tenha ideia completa da extensão, o antes o depois. Nem se a composição perfará todo caminho, se chegará... Alguns chamam a isto Destino, o qual se confunde com Determinismo; seríamos então máquinas sem pensamento e sem influência no objetivo final, uns bobalhões. Oh Santa Ignorância.

- Ela era formosa. Talvez não muito, muito se quer quando nada possuindo; amor por exemplo. Bonita ao menos na opinião dos rapazes. Seu Zé Varredor no corredor à espreita, ela chegava, chegava não: passava, essa gente nem vê ‘véio’ vai volta, volta aos amigos; nem discute o que um amigo podendo ser apenas colega, ah com que facilidade o jovem trata ‘amigo’ àquele que possa não tornar no próximo ano letivo, desaparecer. Ela dizia meus amigos com espontaneidade, dificuldade nas outras expressões da língua; mas a pronunciar corretamente portunhol, talvez falando mal sua língua pátria. “Mi gusto ser Meg” diz Margarita, Megue pra todos outros colegas argentinos e chilenos e mais ainda aos da terra. Em que ano? em que série ou semestre ou crédito seu Zé não indagaria, nunca indagou, apenas a sentir aqueles perfumes da mulher... Ela indo e vindo toda hora; quis o faxineiro se enganar que fosse pura: nunca mesmo estaria entre aquelas perdidas a se balançar nos carros dos moços folgados na beira do Buracão ali perto da faculdade. Nunca. Então eles deixavam restos de amor espalhados no fim do caminho. Que se saiba Megue era cuidadosa, exigia preservativos ao companheiro do dia na noite madrugando. Só um dia se esqueceu de pegar uma unidade na bolsa ou se esqueceu exigir dele o uso ou mesmo com os cuidados todos não tendo qualquer a dormir nos braços do rapaz no banco do auto. Aí, dizem sem provar, aguardava um filho estrangeiro e como iria apresentá-lo aos familiares em Buenos Aires ou Valparaíso! Nem ela a saber, sequer pensando, pior: sequer sabendo-se grávida. O legista afirmando que sim, sem falar à imprensa faminta em sábado sem notícias. Contudo terá lembrado ao seccionar o bife mal passado em casa no almoço aqueles pedaços cortados do cadáver. Megue era uma gostosura, mesmo sendo agora apenas o corpo frio  e mais frio ainda retirado da geladeira ao trabalho profissional à perícia e liberar tanta beleza aos gringos em lágrimas. Assim não voltará no próximo ano letivo nem experimentará experimentos nem precisará findar outra vez aos 27 por overdose.

- Naquele dia não, na outra noite a família chegou picado; isto é, veio trazendo a mudança aos poucos, no próprio carro, nos carros de parentes e amigos, crendo-se muito mais em amigos, os parentes com aquelas rixas antigas, os amigos e irmãos da igreja, deduzindo as orelhas pela conversa um tanto exaltada na alegria chegante. As crianças sim é que brigaram um pouco, alegres também na novidade e depois tristes e ranzinzas nas suas razões e lágrimas – enquanto os adultos, ela a cantarolar rouco hinos só suspendendo o canto e as atividades na colocação de objetos e limpeza e lavagem a gritar com os pequenos.  Na outra noite, no até que enfim, chegaram os volumosos móveis. Aí de fato foi o arrastar e mais arrastar os pesadões por conta da musculatura macha de casa e da emprestada. Isso até às duas horas; da madrugada, quando perceberam os poucos íntimos ainda a ajudar estarem arriados cansados ‘ensonolentados’ (isto se percebe fácil quando a parar um minutinho para tomar quem sabe uma limonada e fazer uf!)  ¡Então começou a reza brava!
Na opinião vizinha circunstante e ouvinte não havia sido uma noite de realizações: os católicos carismáticos puxaram até às 23h seu terço e ladainhas monótonas; mas se foram das imediações, mesmo porque ninguém é de ferro nem eles. Daí a vizinhança ouviu ‘desouviu’ irem-se e apreciou. Dormiu? não, com o arrastar móveis ali pertinho e a conversa da mudança... Aí pelas 2 horas o despertador, travado ou iria barulhar a insônia da casa! ele marcava, inflexível, 2:05h logo o galo cantaria num barulho que a madrugada já se acostumou a engolir. Pois bem, mal olhou que olhou o mostrador e desandou a família ‘mudante’, sem ser mutante acreditamos nós outros nas imediações, desandou no ofício religioso, decerto a agradecer Deus pelo fim do trabalho da mudança ou porque as crianças não mais se desentendiam, dormindo. Daí, no estilo pentecostal, berraram exclamações e aclamações pertinentes, impertinentes aos ateus ali ao lado a teimar não dormir. Glória a isto a aquilo vozes se alternando ou glorificando ao mesmo tempo, em se distinguindo a fina-rouca da senhora Maria, a grossa embora modulada do Seu José, José ou Samuel ou Jacó ou Abraão, Sara ou Judite ou Míriam – pois o barulho é o mesmo independendo dos nomes. ¡Será, indagamos, que o nome não apareceu somente para não se confundir as coisas mas exatamente a estabelecer a confusão no caos! E aqui não se responde. Responde-se apenas que é lembrança do ontem. Hoje d.Maria não rouquenha mais, seu corpo belo, era ainda mais quando o pastor abençoou em nome do Senhor o matrimônio, seu corpo ainda belo na sala três do Velório Municipal sem adereços e luxos. Todavia os parentes, o esposo inconsolável, os irmãos entoam uma prece na voz mais alta possível, a convencer, a espantar os defuntos pranchados nas salas um e quatro e os outros valentes velantes. O pastor, não: certo irmão mais experiente e mais velho na congregação, termina a prece, afugenta Satanás, o lambido e enxerido ali farejando; aí começam irmãos o hino, sob impaciência pelo adiantado da hora dos funcionários desejando se livrar logo daquela urna onde estão o belo corpo e sua voz rouca de clamar contra as sombras. Às sombras.

- Sétimo sexo. Antigamente no sem-tempo havia apenas dois sexos, claro o homem em privilégio de mando força e poder, a mulher que não dava as cartas e sempre perdia no jogo salva no amor aos filhos e isto havia bastante. O tempo no imemorial registrando vez que outra um terceiro sexo perdido em escondidas e escapulidas; alguns povos sem quaisquer preconceitos nesse setor, os gregos por exemplo na sua elite, porque o povão sempre mais conservador; o povo como sempre em todos os lugares do planeta fazendo coisas sem consultar letrados, nem estes sabendo direito o pensar da arraia-miúda ‘os livres’ e a escravaria. Em direção aos nossos tempos o terceiro se ‘impõe’, sendo, e agora não se discute mais a existência, às vezes somente grita-se à passagem do animal: “bicha!” outros epítetos desgraciosos perduram como ‘veado’. A atualidade já admite outro sexo – o lésbico. A questão posta é tão só a conceder ou não os direitos aos terceiro e quarto sexos, ao menos discutindo o casamento a adoção de filhos por essas possíveis uniões, ou seja a do bicha-com-bicha a da lésbica-com-lésbica; aqui não é fórum para isso. Uns poucos pensadores, ou não-sábios ou sábios de segunda categoria (em que se insere o autor deste seriado de palavras) estes já põem o quinto ou mandam aos quintos o velho. Tá-bom, dissimuladamente mais bonito dizer digamos ‘idoso’. Idoso não precisa de sexo, não sendo no caso em faltar de que morrer – como a falta de um dos três quês: catarro queda e destempero – e aí morre melhor tentando ser machão em cima duma usadíssima fêmea do baixo mundo. Entre idosos ou quinto sexo, ele, ex-ele, coça; ela, ex-ela, coça também, mas não tendo o órgão próprio a se coçar, coça ela sua língua. Ai que língua a do autor... A seguir tem o sexto sexo. Este é bem compreensível: trata-se do abstêmio, talvez sendo difícil admitir sua existência ou se pensando existir somente na cabeça dos malucos, por exemplo o autor. Ora, por que não poderia, poderá, haver gente a quem sexo seja apenas um vocábulo para reforçar o clube do gênero masculino no dicionário! Não cito o caso do padre, os exemplo me envergonhariam... É o sexto portanto. Partamos agora ao sétimo, lembrando aqui numa preguiçosa segunda-feira que o sete é o número verdadeiro da mentira. Verdade minha gente que a pessoa o indivíduo não tinha na ocasião preocupações nessa área tão saudada pelos pornográficos de plantão em todos tempos. Não tinha. Não tinha! quer dizer que você, bruto escriba iletrado amém, você já o matou de cara, estando o texto em início! Sim. Não. Calma, pô. ‘O’ ‘a’ não pensando nisso nem naquilo. É do tipo folclórico, toda cidade tem um ou dois desse a enriquecer a lembrança da boca do povo a acumular assunto para as orelhas ouvintes e sobretudo ter material recriativo a fim de alimentar causos. Na cidade-médio-porte se perdia no festival que é o povo em compras. No Terminal Urbano então muito, ói ele-ela-ou-qualquer a barulhar. Sim, trazendo um apito desses de árbitro futebolístico (sem mãe no meio da gente) a trilar em pequenos espaços de tempo e geografia, a assustar uns a acordar outros a fazer rir a todos; e novamente trií (não é assim que fazem os  estrilos em parar o trânsito, ou a interromper aquele chute em canela e o a seguir “não tive a intenção” a torcida de um lado concordando na geral ou somente despertando a mãe do pobre juiz com apelido e tome mais cascas de laranja e mais pedras, na melhor educação e na mais santa intenção). A roupa. Confesso minha incapacidade a descrever trajes mas é fácil: pensar numa fantasia carnavalesca rica em adereços e penduricalhos. Pronto. Cores, ah a profusão, sobretudo nas berrantes. E o ser, o ser comum de tez dessas que existem por toda Latinoamérica, seja índia nativa ou africana ou mesmo em ótima miscigenação, em sorriso. Sorriso sempre a ofertar ao público, não estando comprimidos os lábios no apito a dizer “estou aqui, oh mundo!” E o sexo. Pra quê? Essa gente não tem. Olhe que atrapalhada o pobre pesquisador do censo, constrangido após aquelas banalidades de  “faz quantos anos no desemprego?” casa própria ou alugada? quantas pessoas residem etc. etc. enfim o constranger ao pobre ter de indagar não quantos anos a pessoa tem às vezes sem saber a mesma e sem registro civil. Não: o constranger no esperar que o indivíduo diga “sou deste ou doutro sexo...” porque não se distingue! Sexo ignorado. Quantas vezes estamos sentados num banco público, o único em que o zé-povinho tem vez e pode até abusar, pois os outros são privados dos banqueiros em seu paraíso de terceiro-mundo; estamos sentados e próximo a fungar a fazer lá suas coisas ou só a pensar, um ser ‘ininterpretável’. Então se pergunta é homem, fala fino; é mulher, fala grosso; veste-se como todo mundo; e possui outros atributos ou é a falta-de: seios cabelos compridos musculatura grosseria; quem sabe até abrindo a boca para dizer besteiras tão de costume ao homem comum, ainda aí não se descobre e depois o ser vai embora e a interrogação fica, apenas ela fica; ou você teria coragem de perguntar: “o(a) ilustríssimo(a) é o quê!?” Pois eu não tenho tanta coragem. Por isso ponho tudo no sétimo, inclusive a folclórica criatura que... sim, não o matei de começo com um ‘tinhazinho’ qualquer; veja quanta porcaria registrei até aqui; é certo que matei. E aqui lembro uma axiomática verdade filosófica: o homem é mortal, José é homem, portanto José é mortal. Onde a surpresa num matarzinho de nada! Só que essa gentalha cai na rua ou é encontrada nos becos onde nem o pesquisador do censo encontra, aí rabisca pra satisfazer a Santa Mentirosa uns números a mais no menos e devolve a ficha ao chefe a fim de receber o salário. De fato num muquifo é achado o cadáver – o povo: de morte morrida; a polícia tem lá suas dúvidas e pronto – eis um corpo à faculdade de medicina. Ah, esse põe na gaveta esquerda ao lado doutros indigentes. Sim senhor, diz um funcionário iletrado mas não-escriba, e indaga “que escrevo no campo do sexo?” O doutor responde já saindo da repartição: qualquer um. O escrivão de carreira anota em letra quase ilegível, tremida, ora pra cima da linha ora pra baixo dela: ‘qualquer um’.

- De repente virou herói. Ah mas há quanto tempo desejando aparecer na televisão e querer ver sua linda cara na reprodução em videoteipe... qual! não tinha sorte. Um belo dia, não aprecio esta expressão idiota, troco por ‘um certo dia’ tentou fugir ao Paraíso, desde uma vila perto duma urbe mineira, se Valadares não sei não afirmo não vi não estou aqui. Porém certo esse errado, foi pego como se pega de vez em quando contrabando indo do México ao Paraíso; devolvido como mercadoria de segunda qualidade sem qualidade; foi a primeira vez em que viajou de aeroplano supersônico com outros deportados de volta ao inferno da ilusão. Todavia sequer desistiu, mesmo porque o desemprego na ilusão do inferno já tendo inúmeros concorrentes a pleitear seu lugar; assim ficou ao deus-dará. Daí surgiu belíssima oportunidade, era taludo musculoso forte à beça, uma vaga em treinamento com armas privativas do exército de terceiro-mundo através dum certo instrutor italiano versado em ensinar estrangeiros a virar mercenários para o mercado do Médio Oriente, em franco progresso e absorvidor de material bélico humano. Treinou, aprovado, seguiu alegre atrás do emprego e seus dólares prometidos. Um mês dois, antes do terceiro... não havia sequer contado quantos eram no visor da arma os inimigos (de quem! não sabia, sabia atirar espetar sangrar os estrebuchos de outrem): acertaram sua perna; depois a bomba ou seus estilhaços direcionados aos irmãos da mesma raça mas doutro pensar o mesmo deus, eles o mataram. Toque de recolher, toque de silêncio, pedaços juntados arrolados enrolados guardados contados como da pátria amada não idolatrada. Cobriram o seu e demais caixões com a bandeira do Paraíso, cheia de estrelas. Oh quanta glória.

- Isto é por demais surrelista. Bem. Não discuto nem opiniões nem direitos dos outros. Só porque não sendo um ser humano com observação das fases comuns nascimento e ‘besteirar’ e morte! Pois ela fora plantada ainda em semente, um caroço de manga; quer mais? manga espada, uma que se introduziu aqui vinda da Ásia lá por 1700; essa. Aguardou o sujeito, sujeito a mais loucuras porque não é mais fácil comprar no supermercado manga regada ano todo com as águas ‘sanfranciscanas’! Não, teimoso o sujeito. Enterrou o caroço, regou, olhou, espreitou, esperou, esperou bem uns dois meses amando diário o lugar em vir a furo um pé de manga, espada dito. Fez mais: coçou a cabeça, desistiu – não nasce mesmo. Fez pesquisa por aí a saber soube o que já sabia, o fato de provavelmente haver apodrecido seu estimado caroço e aí ficando ao encargo da loja de supermercado e pronto. Não, não se conformou, aproveitou o tempo em fim de ano que é o tempo da fruta e comprou mais manga, espada re-dito, plantou uma segunda uma terceira uma quarta em marcha a ré quem sabe. Nem esperou, experiente. De repente, não mais que de repente, ói ela no pôr pra fora a vida submersa em nível do solo! Transplantou donde plantara a manga à cova anteriormente aberta para a ‘ex’ natimorta. E fez, refez, tudo de novo: enterrou, regou, olhou, espreitou, esperou menos de dois meses, bem menos, agora não o surgimento de uma hastezinha frágil de uma futura e vetusta árvore produtora de manga – porém o crescimento do caroço já brotado e transplantado. Crescendo a olhos vistos, descolorando do roxo para colorando ao verde, uma beleza. Todavia eis que numa manhã, ao ver a arvorezinha futura vetusta prenhe em mangas, re-redito espadas – brota a morta anterior! num verdadeiro ‘reencarne’!? não, não serve o termo mas explica. Agora temos duas árvores a produzir no quintalinhão mangas, espadas cheias de re-re-re. Onde o surrealismo disto? Péra lá dona Pressa. De repente flagrou-se uma conversa inusitada na língua vegetal, afirmando-se não ser inglês viva nem latim língua morta. Morta!! pelo contrário. Tem mais? tem mais: a jovem-velha a dar conselhos à jovem-nascitura na condução da vida mui dificilmente conseguida. Mais ainda: a pequena jovem-jovem a capengar feito pinto. Isso, o autor da loucura e outros surrealismos não se enganou; nunca viu o titubeio dum pinto recém-nascido a sair moleirão do ovo!? Pois a falar a ‘choca adotiva’ cheia de cuidados com a ‘mana filha’ trôpega e fraca no caminhar rumo ao futuro. Não me indague o que respondeu a magrela-nascitura à velha-jovem de folhas verdes e fortes. Não ouvi. Contudo sei que fazem planos às futuras produções em anos vindouros. Deixemos as jovens planejar, não atiremos a água fria da dor do secamento do fim... não ao menos em vala do Cemitério Municipal. Deixemo-las sonhar, ou choro.

- O caso da Jandira. Quer dizer, me disse ela que a outra era a Jandira. Mais que isso: forçou-me a ouvir a repetição do nome, como fora mestra na escola eu aluninho rebelde a desejar fugir; fugir da Jandira ou da professora da Jandira? fugir para ver uma boa que nos sentou à frente naquele ônibus em circular a circular na cidade pequena em se sentindo grande. Grande coisa ela disse ou só pensou que disse ou só pensei que ela pensou que disse. Disse em sobra o nome da Jandira; aprendi naquela didática atrapalhada da velha atrapalhada. Fez mais ainda: impingiu-me um diálogo. A bem da verdade à pobre Jandira, rica só em beleza um pouco menos, diz meu olho na nuca, que à boa da frente. Ah a boa perfumava a dianteira, à traseira nem a Jandira nem a Velha tendo fragrâncias que não as de gente suada, estas felizmente não bem suada.
Bem. As duas vivas. Adianto-me neste atraso a afirmar porque nos quesitos anteriores fui acusado, defendendo uma tese sobre o que pensa a gente comum, fui então acusado de matar matar matar indiscriminadamente. Estas duas bem vivas!
Quero agora, a passar a quem passar, passar o mais ou menos do diálogo escutado, enquanto o chofer lá na cara do veículo assustava nosso cobrador de passagens com suas talvez barbeiragens ou era que o trânsito também se pensasse grande na pequena urbe.
Ela-Velha a Ela-Nova (dita redita tresdita Jandira) dizendo que o sujeito não prestava. Ele? toda a gente dele. Ela pichou a Ela eles; me parecendo um pouquinho aqueles concursos amorosos em favela ou cortiço. “Você, afirmou Ela à Jandira que dito a ele, você pensa que vai ‘frojá’ comigo como aquele dia! tá enganado.” Ora, o dicionário não me quis responder o que é ‘frojá’, suponho seja do verbo ‘frojar’ não existente. Mas isto sem importância, pois pretendia ofender o sujeito, o sujeito saiu de fininho, o que prova o acerto do erro. Fugiu ‘frojado’ e isso é o bastante para nós. Fez mais a Velha, disse que fez, fez a Jandira gargalhar pelo entrevero e rir até fazendo soquinho uc-uc para a narradora. A Velha para todos ouvidos no ônibus a sacolejar: “depois, ó, depois falei pro delegado – nóis chama adevogado e põe ele na cadeia!” O doutor, decerto a iniciar carreira, iria se pôr com a lei e se indispor com ela (a lei, leia-se) o doutorzinho examinou a carteira profissional do meliante e/ou encrencante e redarguiu: senhora, não posso prender este cidadão da pátria amada idolatrada, salve-se quem puder, não posso – veja o registro mostrar ser trabalhador... Ela não se fez de rogada nessa provocação da lei e soca no delegado a expressão “um dia nóis vai pedi indenização!”
A Jandira? ‘quá-quá-quou’ gostoso a imaginar estar assistindo a cena na delegacia com os milicos em volta do doutor titubeante; riu mais ainda em ver a outra saindo nos passos duros qual generala que não entrega os pontos nem o ouro ao bandido.
A ‘Véia’ ainda nos disse outros pormenores em seus detalhes das minúcias, as mais miúdas, veja bem. Jandira se esborrachou no rir a cansar o fígado de tanta risada, decerto a barriga doendo até, até pôs a mão na boca a dizer: “cala-te, boca!”
Foi nesse estado em que elas nos deixaram, a todos passageiros ao motorista nervoso ao ajudante cobrador e às minhas orelhas.
A pensar tais abanos – pois engraçadas as dialogantes; enquanto em sopetão o chofer freava o circular e elas desciam. Uf, falei, sequer precisei eliminá-las como fi-lo com outros personagens de antes; ora, teria coragem suficiente com uma Jandira tão bonita... Olhei ver se ainda via, vi ouvi um acidente a fugir na janela traseira de nosso coletivo. Sirenes pronto-socorro e o mais não sabendo. Quem sabe o final de uma ou duas vidas com morte sem ser à la carte. Não inventemos.

- A vida é uma droga. Opinião dela. Aliás tendo razão, em razão de não descrer da vida mas por desconhecê-la. A razão principal, o porquê: o caco, por seu caco havê-la deixado. Com razão também o homem usado, pois a Maria tão bocuda – dessas que, disparada a praga inicial feito mola, a praga se destramela e fala um dia todo; não, noite inteira, ele já a roncar ela ainda falando falando. Aí se foi. Com razão foi dito, não trocando como costume a Maria por duas de vinte, a menina, uma apenas, tinha na ocasião vinte e um aninhos e cabelos pretos e a graça da mulher promissora. É uma droga, disse à comadre, quem terá mandado a comadre perguntar! respondeu pela droga de abandonada; acresceu; me deixou com três filhos! aquele ‘fiadap.’, lembrou a sogra ela que já não suportava a sogra, a sogra quem morreu, ela temendo pensasse que pudesse a velha puxar seus pés no escuro agora só sem o José, Zé aos íntimos. Foi com a sirigaita aí do lado. Antes haviam trocado insultos santos entre vizinhos por causa dos ciúmes que sentia daquele sem-vergonha. Hoje, comadre, hoje me arranjo sozinha. Mentira, a outra sabendo: logo arranjou como namorado um traficante, talvez desejando ferir a esposa do amásio, perdão: namorado. Por isso droga. A vida, comadre, prenderam o João. Depois prenderiam também em seu lar, doce lar, uns companheiros do companheiro escondidos na residência. A polícia! uma cambada, xingou até à quarta geração policial. Antes sozinha que mal acompanhada, não me lembra mais o Zé, o viver com ele era insuportável. A mais velha? essa está engordando e mais parecendo a mãe robustinha; tem mais, um amigo de meu namorado emprenhou a menina e agora virei avó, o genro-emprestado também no xilindró – mais boca pra comer! porém é uma gracinha a neta, comadre.
Aí a frequência aumentou. O menino atraindo moleques, gritaria dia todo; gritaria dela também, a Maria berrando a reclamar da pândega. Pior é... ou melhor? nem sabendo. A frequência dos amiguinhos dos namorados. Quase que sua casa virando central de comércio clandestino. Era um tal de chegar e sair apressadamente as motos a chispar desembestadas toda noite e mais de madrugada, desde um aviso com foguete estourado lá longe a dizer: “aqui, mano, tudo livre!” ah como é bom a liberdade. E nisso igualmente os exaltados na turma, exagero nas doses, choques, brigas entre amiguinhos. Sem esperar, aconteceu, mesmo porque ninguém fica pra semente; um embirrou com outros dois concorrentes na venda ou no ponto de distribuição... noutro dia, aí na esquina, deram um tiro na cara do desafeto; acabou assim com o desentendimento.
Contudo a polícia não aceitou velório, não liberando o corpo do rapaz com dezessete janeiros em dezembro; nem a família dele quis se implicar nem explicar ao jornal o choque das gangues; sequer quis aparecer em entrevista na tevê quem sabe temerosa de futuras retaliações...
Ela a comentar, baixinho agora, sem extertores e rugidos, com a comadre: o dia dele, teria de morrer mesmo, a vida é realmente curta; uma droga. Cruz-credo, comadre.
Ninguém pôs luto. Ninguém mais coloca tarja preta em nosso tempo.

- O Zé de Tal sentiu umas intuições engraçadas, sem conscientizar bem, após atender o Benevides. O Benevides suspendeu o telefonema para receber um cliente do filho, ele disse “oh Zedetal, que tal nós batermos um papinho ao vivo outro dia, tem um freguês aqui no balcão...” Prometeu ir ver, rever, o Benevides. Caso interessante o do amigo: ficaram isolados, ao menos um longe doutro, bem uns cinquenta anos. Iam se rever, contar o ínterim desconhecido, relembrar os velhos tempos. Você tá magricela e alto ainda? tem aquele sestro de tocar o dedo na testa antes de iniciar a frase? ah e sua letra continua deitada, o efe ih menino seu efe parecendo de cócoras! riram. Não cara, sim tô da mesma altura, tem razão sim: velho enruga encolhe mas não estou jabá carne-seca essas coisas, seu bruto; pois não é que criei barriguinha! E você. Zedetal despencou a se automartirizar no se descrever; descobriu então em surpresa triste e curiosa ao mesmo tempo que não se conhecia bem, não se avaliava. Aí invejou o espelho, aquele trouxa mentiroso a devolver um sujeito calvo enrugado e extremamente feio, horrendo horroso como dizia o espelho, em exagerando. Era insuspeitável; o espelho o retratava melhor que o interessado. Enroscou. Respondeu num mostrar displicência “Benê, ocê vai vê um amigo lindo de morrê, pode crê!” Daí riu da besteira.
Combinaram encontrar-se. É claro não iriam despejar seus respectivos romances ou somente a dolorida autobiografia um ao outro pendurados num fio de telefone, não é mesmo? mesmo assim soube que o amigo (olhe aqui a gente a abusar do vocábulo!) soube-o aposentado e auxiliando os filhos na loja de peças – peças de quê; esquecera indagar, isto somenos pois logo se avistariam.
Logo? que é logo, pressa, paciência, um dia, a semana que vem, a um ser humano! Daí se interpuseram a gripe, a dívida safada, a dúvida cruel, o parente em visita, uma viagem viaginha apressada e outros empecilhos amigos do amanhã a envergonhar o ontem. Enfim um até breve pra ninguém botar defeito; digo assim a ser original. Diria mais ainda dissesse que os colegas esperaram semanas meses quase ano. Bem. Contudo tudo tem seu fim, até o fim. De forma que eis Zedetal a descer do ônibus circular nas imediações da loja, fosse como nos tempos de meninos, ele um moleque espevitado o Benevides mocinho cheio de ilusões como escriturário – fosse iria de bicicleta até ao amigo; agora...
Desceu, olhou, olhou amparado com as mãos em cone a se defender do solão naquela manhã perto da hora do almoço. Isso mesmo, brilhante ideia: chamaria o outro à refeição num restaurante popular, comeriam e se fartariam com as notícias recíprocas, inéditas ou nebulosas pelo tempo. Fartar-se-iam mais ainda no contar os fatos comuns do seu tempo no escritório. O fulano? o siclano? lembra daquele dia?
Pensava nesse gozo antecipado, consultou, reconsultou, o endereço que lhe dera o Benevides no telefone. Certo?
Errado. Os filhos com semblante triste e constrangidos. Imagine, o Sr. era amigo dele? o pai morreu mês passado, enfarto. Não viu no jornal?

- Aqui lá chegou o paciente, impaciente. Primeiro no atendimento emergencial do pronto-socorro e disse chamar-se Gustavo, a muito custo deu nome e demais dados, reclamando muito. A fila enorme, naquele domingo parecia o fim do mundo, precisando mais serviço os embriagados e acidentados. Por fim passara na triagem chegando ao Dr.Roberto, todo vida e alegria naquelas tristezas de sangue e morte. Sentou-se o médico, o paciente menos impaciente já sentado à espera. Escreveu remexeu se ajeitou o esculápio, tentou sorrir a passar coragem ao outro. Mas o homenzarrão sofria e mostrava em resmungos os ais. Por fim o Doutor indagou o nome e o de praxe. Examinou apalpou apertou concluiu e sentenciou: não temos lugar. Ou por outra, as vagas são para casos mais graves, temos aqui os quase mortos e você anda muito vivo; embora estragadinho, brincou, entretanto bem vivo... O que foi o que não foi, abriu-se o doente. Doutor, não me crerá mas isto é resultado duma surra... Surra! É... minha esposa me bateu...
Assim travaram os dois homens certa camaradagem por causa do inusitado, próprio de quem faz e ouve confissões. No como, o Gugu abreviou confiando naquele jovem profissional tão humano e disposto. Quer dizer, disse – disse meio embrulhado em vista dos cortes e sangramentos na boca também ‘esparadrapada’ – disse ter voltado bêbado, brigado com ela e ela “deste tamanhão minha nega Doutor”; então me bateu com não sei quê. A perna... ah Doutor, fui correr dela, como possível cheia de cachaça a cabeça e aí atropelado na rua; foi que me trouxeram pra cá.
Era demais jocoso, o médico demais brincalhão e gozador por temperamento, riu, o outro agora sóbrio. Enfim pediu este que o internassem; insistiu. O de branco cochichou com a atendente enquanto assinava uns papéis, ela também sorriu olhando o paciente. Voltaram ao diálogo, a receita já pronta, pronto o profissional a despedir o doente, o serviço público não permite demora. Aí Gugu pediu insistindo, implorou depois como se faz com um amigo; acabou por convencer: internado.
Instruções à auxiliar: Elisa, encaminhe ao Dr.Adolfo estas guias, desaloje alguém menos mal, tem aquele da extrema-unção... este aqui anda estragadinho...
Partiu a jovem de pisar macio, levando os papéis. Uns minutos em conversa.
Sabe, disse Roberto, apanhei também um dia da esposa, mas por outra razão (falou baixinho ao doente, este sorriu não podendo rir por causa da dor). Aliás, meu caro, apanho de língua todos os dias... Agora, você, fortalhão assim e jovem... 39? pois eu tenho 45 e ainda aguardo vida até 90 ou 100 anos, desejando que sejam sem levar mais nenhuma surra da patroa... falou em risota o médico; aí completou: vai ultrapassar meus cem anos! A que o Gugu respondeu com o som enrolado da boca machucada no todo ferido, negando tanto otimismo.
Foi para o quarto três, enfermaria, encontrava-se defendido contra a esposa ao menos...  Ainda o Dr.Roberto apareceu antes de completar seu período a rever o paciente; brincou, a seu jeito: Maria, se a mulherona dele aqui vier – dá nela umas porretadas, igual você faz com seu namorado. Os três riram.
O Doutor dirige seguro, lembra-se desse caso curioso e até engraçado, enquanto se aproxima do lar, já pensando após seguir ao consultório particular. Nisso se descuida e no cruzamento é colhido em cheio por caminhão!
Trabalho aos bombeiros, necessário maçarico a cortar a lataria do carro imprensado para tirar o cadáver. Um de 45 anos, não: 44 e 10 meses.

10° - Não gostaria de ficar lembrando em coveiro desde cedo, o que é de péssimo gosto e inclusive trágico. Vão alertar-me por até aqui tudo desembocar na morte; sou obrigado a concordar, e que existe de mais trágico ao homem da rua que a morte! não desejo também assassinar o personagem, de saída – já alembrei isso ser presente do futuro quando acaba o capítulo a se fazer passado. Contudo dona Zefa não poderia furtar-se a recordar desde manhãzinho o coveiro: era mulher do Zé Coveiro, mui apreciado no boteco, às vezes desprezando o café com pão e manteiga que ela preparava ao esposo e às crianças; sim deixava de ingerir o amargoso (interessante, gente de periferia adoça muito o café a compensar o pouco pó de café no preço em que se encontra hoje em dia a rubiácea e também a cana; Zefa economizando açúcar e amargando a infusão) deixava o fumegar em casa para tomar uns tragos em conversa na venda com amigos. Aí falavam o de sempre – assunto profundo e profuso ao ser comum – o de sempre e sobre defuntos, os amigos lembrando igualmente coisas de seus serviços uns pedreiros outros só de enxada; defuntos, especialidade do Zé. Tinha uma ‘muié’ barriguda nem cabia no caixão; a garotinha no caixãozinho de anjinho; o desmaio duma parente no enterro, eles esperando de pá nas mãos a sepultar. O de sempre além do de-sempre na vizinhança: um pular cerca, roubo de galinha ou mandioca, as brigas diárias “o Gugu, dizem, levou uma surra da mulherona dele!” Enfim, esgotados os assuntos, todos escravos do relógio às suas correrias e o Zé particularmente a se apressar à necrópole municipal, ah o salário atrasado uma semana, vai ver que o dos vereadores, aqueles corruptos, tudo em dia; onde arrebenta a corda!? no pobre, já vou indo gente, que tô atrasado.
Chegava, assinava o ponto feito barnabé, um dedinho de prosa com os colegas, um cigarrinho a alimentar o costume e vamos pro batente. Furava o solo noutro lugar, o chefe deles meio ranzinza no mostrar o serviço e tudo o mais. Suor cansaço; no fim da tarde o acúmulo, quase ninguém querendo enterrar seu morto de manhã; só  um cadáver a se desfazer e a fazer cheiro nauseabundo às pressas nas 8 horas. Depois cavar e mais cavar e entremeio serviços menores sob olhar perseguidor do chefete. Rotina.
 Assim o Zé, já pensando em antecipar aposentadoria com uns vinte e cinco anos assinando ponto, a alegar insalubridade; não iria culpar cachaça e tabaco demais. Chegou a dar entrada na papelama; a burocracia ‘molentava’ sem pressa ou vomitando números indevidos ou mal postos. Não obstante parecendo, parecendo à torcida organizada dos colegas, parecendo sim que iria descansar (da pá e amolações nos enterros) nos próximos meses. Dona Zefa na torcida também, quem sabe não pensando encaixar após o marido noutro ganho, carpinar terrenos baldios por exemplo – a reforçar a magra aposentadoria... Ah como a pobreza sonha fácil com o ovo ainda na galinha!
Não obstante sequer precisou do expediente: naquela outra manhã o Zé caiu na Vendinha do seu Pedro. E não era encenação nem embriaguez ou a festejar a publicação da aposentadoria no diário oficial. A viúva e os meninos choraram.

11° - Em a noite daquele dia esperou por nada, frustração. Na outra aguardou na picada do mato daquela floresta de cimento, onde os viventes se enfrentam se trucidam se matam. Anteriormente o Tide era tão só uma criança mas já na rabeira paterna, o velho caçador e um pouco mentiroso – caracterizado aqui em pescador. Ia a turma, dormia acordada no trilho ou só em estaleiro montado à vigília. Os outros e sobretudo o menino. Relembrava naqueles minutos em espera, frustrada está esclarecido, relembrava a sensação do aguardo, os mil barulhinhos da noite alta e da madrugada fria no mataréu; ele firme no carreiro onde vir o animal. Daí seguiam-se o impacto, a surpresa quase, o gatilho, o estrondo, o cheiro da pólvora a se misturar na fragrância vegetal pisada, a presa a rolar a esvair em sangue! e o prazer. Estórias a repetir e repetir na vila.
Agora espera perplexo, em ânsia, um pouco agitado por largo tempo sem usar arma. Comprara como garantia aos seus, mais pensando na mulher jovem e bonita e nos netinhos do pai, que Deus o tivesse. Isto é bem caboclo, o caboclo nunca tem lá certeza o onde, em confusas palavras diria “céu”. Para o mister houvera limpado engraxado lustrado mesmo o revólver, quase o experimentara num toco da árvore que cortara para a esposa não reclamar varrer folhas diário; não ficando bem o experimento na zona urbana; contudo confiando no funcionamento dele. Se ajeitou melhor na posição em que se encontrava, encontrava-se num canto da casa escondido o quanto necessário para ver e flagrar a caça, atingi-la matá-la prendê-la, prender seu cadáver.
A caça se apresentava há meses no boteco do Tide. Conversa mole, vaziismo e mais vazio cheio de caninha o ventre... Na última semana, sabedor da profissão do sujeito, diziam ser ladrão, nos últimos dias espreitou como quem nada desejando os olhares da fera. E tais vistas apreciando bem a caixa-quase-registradora, apenas um gavetão feito casa bancária de bar pobre. Mas o vendeiro não dava demonstração perceber os interesses daquele zé-qualquer no tesouro familial e também pertencente ao fisco faminto, este melhor e mais resguardado ladrão (pensamento do vendeiro Tide). A intuição intimou o comerciante a ficar de plantão, a testar se a arma ainda funcionando...
Na primeira noite falharam caça e caçador, mais o bicho na selva cimentada de periferia urbana. Na segunda, horas após início da vigília uns passos no telhado, a seguir a remoção cuidadosa de algumas telhas. Ficou em prontidão, a respiração sob controle porém querendo afogar, o sangue a pulsar desde o coração apressado, a latejar em expectativa.
Mais um pouco e a lua conseguiu passar no vão aberto, ferir o escuro do botequim, refletir nos metais. Daí avistou perfeitamente o trabalhador no seu eito às avessas... O profissional semiamador desceu com atenção, auscultou o ambiente, cheirou, ouviu o silêncio já no chão de ladrilhos frios; e se encaminhou ao tesouro do vendeiro.
Foi nesse momento o gatilho a dor o grito o tombo o rombo o sangue. Sim, a arma funcionava!
Então a correria vizinha; depois o medo circunstante, as lágrimas da patroa, as crianças a chegar assustadas. Alguém acionando a polícia e logo o boletim de ocorrência.
Preso o caçador confesso na floresta de concreto. Falatório na vizinhança. O corpo jovem em gaveta do IML. O tempo.
O Tide esteve quase ano nas grades, o advogado provou a legítima defesa do lar ameaçado, a acusação não tinha interesse em segurar o comerciante ainda moço. A soltura condicional; depois o santificador esquecimento.
Agora o vendeiro retorna ao local do crime, reforma o salão abandonado; a família vive como pode, o Tide com netos a carinhar, barba branca nenhum fio na cabeça e muito ventre, qual burguês. Lembrar-se-á do trilho do carreiro da mira e do episódio! Ninguém a saber, ninguém a recordar o drama. São todos moradores recentes em cidade antiga.

12° - Andavam reunidos os amigos; alguns até abusavam da palavra ‘amigo’ outros apenas confundiam as coisas. Ninguém disciplinara a conversa e os assuntos vinham com liberdade ou só liberados pelos tragos ou é que a cerveja andava muito fria e alguns passavam por resfriados; a fumaça tossia bastante; todos indistintamente a se olhar nem todos se vendo. Ele é quem mais falava, por falante ou por mais etilizado no meio sem elite. Entravam e saíam esporádicas criaturas no boteco, eles, meia dúzia, permaneciam espichavam o bate-papo informal, redundante pois todo bate-papo é por si informal. Ele em vista ter talvez a fala mais alta por educação ou por falta dela ou mesmo por não pensar nisso. Fincou pé num ponto.
Acho que não tem outra vida, morreu, morreu. Uns concordando outros aceitando outros mais só ouvindo a temer opinar sem argumento ou a ficar na berlinda. Parece que a maior parte da gente é a gente tímida ou insegura na sua segurança.
Ele. Ninguém prova. Após reticências: Ninguém voltou ainda do caixão a nos contar como lá se ‘vive’ (riu olhando o efeito). Alguém prova em contrário!
Tem gente que crê em sonho, pensa que o símbolo de um indigesto pepino com pimenta e outros desarranjos estomacais e mais uma noite mal dormida seja o concreto. Ora, até os cachorros sonham. Nunca observaram isso?
Cada um conta seu cão e o do vizinho. Lembram que as mulheres sonham com mais facilidade, mais imaginosas, cheias de poesias e romances do tipo ‘água com açúcar’.
Mas em concreto, que sobra!?
Não souberam responder.
Pagaram o vendeiro, o vendeiro registrou em conta como ‘pindura’ as doses de alguns, todos se foram.
Ele se fora de vez. Noutro dia comentavam amigos no velório. Imagine, um sujeito ainda tão moço...
Nunca voltou do caixão a contar outro lado. Mesmo porque não seria besta em se desdizer.

13° - Agora ela geme, intumescida além do comum e o médico ao lado suspendera momentaneamente o consolo e o preparo à coragem que o ato exige... O médico ou enfermeiro ou curandeiro ou qualquer e tem um qualquer ali consigo a beber naquele poço de sabedoria. Diz desejar o bom desempenho da paciente impaciente parturiente constante cortante a dor intermitente a agudizar nela daí a pouco. O outro indaga se pode ser mais de uma criança naquele ventre enorme. Pode. Não, mais de uma? três, duas com certeza, não sabendo se menino se menina ou gêmeos fraternos e aí podendo que seja um garoto com uma garota, mas que fazer a saber melhor se o instrumental é precário e inadequado. Tentaria salvar os três, ao menos a mãe... O pai? O pai ninguém conhece nem ele muito menos ele a saber, sequer sabendo o pai porém a mãe dos filhos com certeza; com certeza fosse em hospital público nem ela a ter certeza ser a mãe, pelas trocas comuns... Corre perigo! Sim, responde o esculápio ou barbeiro ou trabalhador comum em ajuda ao trabalho de parto. Ocorre não termos ultrassom nem mesa cirúrgica; mesa! não temos maca, caso necessário, sem falar na higienização desinfecção sequer ainda pensadas. Isto é, diz o clínico ou bruxo ou feiticeiro, isto é gravidez de alto risco e parto a partir quem sabe à morte... ah pobre de nossas mulheres: centenas e milhares morrem dando à vida. Mas a morte, meu caro, ela é um acerto de contas do viver. Nas guerras... (foi interrompido por Qualquer – “guerras!?”) sim guerra, guerra é um artifício dos fortes e ricos, dos poderosos e em poder político, para acertar a estatística (“estatística!” novamente Qualquer) estatística é certa mentira cheia de números dentro, já sei me indagará ‘número’, mentira sabe de sobra vivendo nesta sociedade rudimentar em que se apressam os homens a aprender como enganar outrem; todavia número... Vejamos um exemplo: o javali que a tribo caçou assou comeu defecou hoje malcheiroso. É um; portanto número um; amanhã ou por seguidos dias a caçar, se puder abater outro javali, ao menos matá-lo daqui a uma semana: então dois javalis, esse outro é portanto número dois, porém um dos javalis é futuro possível, e o possível é a mentira que é por sua vez o retardamento da verdade até que a verdade se conclua ou se complete e se imponha. Deixemos isto para não complicar mais, a estatística é mui complicada e a matemática e a soma e a divisão e a subtração e a multiplicação a uma cabecinha incipiente igual a sua, jovem Qualquer. Digo jovem em função de eu ter 44 anos e já ser considerado matusalém nesta grosseira sociedade. Enfim conte o javali anterior, sim tava gostoso embora sem sal alho cebola que ainda desconhecemos; o anterior é um; mais o que caçaremos, que é também um, são dois. Qualquer ficou a sonhar olhar pensar contar nos dedos; e por fim concordou e acordou; acordaram: ela gemeu mais contundente ainda!
Gemeu, consolada, dormiu de dor na dor insuportável. O Médico ou qualquer a Qualquer:
Deixemo-la dormir desmaiada sonhar talvez enquanto aguardamos; em aguardo retomemos nossa conversa informal, o futuro inventará a informalidade e a formalidade da educação da escrita e da lei, a fim de serem descumpridas, se necessário a alguém. Falávamos sobre o acerto estatístico das contas pela guerra. Ora, quando sobram as pessoas – ou por muito javali e outras caças ou a lavoura bastante, lavoura sendo outro termo igual agricultura além de aquém Qualquer e não explico porque não foram inventadas ainda – enfim quando muita comida nascem mais homens, ou porque haja comida ou porque os machos da espécie tenham espécie de fome a emprenhar suas fêmeas, portanto sobrando gente; então a guerra acerta os números para a estatística ficar alegre. Têm as pestes e os cataclismas naturais também a auxiliar dona estatística, contudo nada supera a guerra. O saldo é sempre feliz à estatística: conta os dois lados, ganhadores e perdedores, deduz acertando a sobra de gente a estufar o planeta; e inventa as grandezas que não pôde apurar. Uma felicidade na contagem e apuração da ‘verdade’. Aí, Qualquer, aí, na hipótese (“hipótese!” gritou reticenciando Qualquer) – hipótese é uma falsa tese em afirmação, afirmação não comprovada suficientemente. Aí, como eu falava, falou o Pajé, aí surgem os malthusianos a quererem dar baixa nesse excesso humano, ajudados pelos políticos, estes uns atentados celerados corruptos que desejam eleger-se a qualquer custo e quando não conseguem mandar sem travas põem fogo ou no circo ou em Roma.  Por fim a guerra acerta o erro e equaliza a estatística, abarrotada de números até o nariz!
Atente nisto agora, Qualquer: nossa irmã parturiente, que fora bela e alegria da rapaziada, arrastada pelos cabelos ora a uma caverna ora a outra; que ficou menos bela por força do estufamento grávido; nossa irmã irá de agora em diante berrar as suas dores e corre perigo de vida! Digo enquanto dorme e não pode ouvir o vaticínio da feitiçaria da bruxaria ou da medicina, esta apenas tropegamente engatinhando.
Qualquer intervém: mas não poderemos salvá-la! quero dizer seus sortilégios e meus olhares em torcida organizada nesta mera segunda-divisão!?
Poderemos. Um dia. Poderíamos houvesse já sido tentados métodos ultras em hospitais super com instrumental hiper – todos a vir ser criados – poderíamos tentar uma cesariana mas...
Cesariana, Doutor!
Uma prática, Qualquer, uma prática a ser abusada posteriormente a fim de os comerciantes em jalecos brancos ganharem muito dinheiro e fama e mais dinheiro por fama a arriscar a vida de cobaias humanas (mãe e filho) – quando deveriam as genitoras dar à luz como a cabrita a elefoa ou a javali, se quiser mais preciosidade linguística direi javalina, esta sendo objeto de nossa fome e de nossa caça e o javalizinho também ao molho pardo ou assadinho, numa festa no terreiro, enquanto a gente nossa a ouvir nosso presidente de gravata na sua bravata. Entretanto não temos nem teoria nem prática, se bem a teoria na prática seja outra teoria para outra prática; não temo-las e em virtude dessa desvirtude a jovem usadíssima deixará, creio, ser usada pelos famintos machos da espécie e...
Qualquer: mas assim e o crescimento demográfico e populacional e os malthusianos e a globalização e a santa guerra e a santa estatística!? como ficam.
Um caso,  diz o Bruxo,  ele é apenas um casinho de parto negativo; sequer aparecerá nos números tabulados.
Qualquer, despertado quem sabe na sabedoria da ignorância pelo poço de sabedoria: como fica o aumento enfim?
Como? Vocês jovens, eu sou velho de 44 anos já ótimo estatisticamente a desaparecer, vocês resolverão fazendo guerra, tomarão propriedades bens javalis mulheres doutra tribo e o mundo prosseguirá na sua loucura. Cruzar-se-ão com a outra tribo; e pronto.
Ai! – diz enojado Qualquer, enquanto, parece, ela retoma o gemer... – ai, cruzar com eles; uh, se os outros são macacos!
Vocês, nós todos, diz o Médico, já fomos macacos.
???
No futuro de nosso presente virado passado, em futuro haverá entre os deuses um certo Darwin que provará a tese: todos viemos do macaco, somos símios ad aeternum aceitemos ou não.
Quer dizer, Dr.Bruxo ou Adivinho ou qualquer, que não devemos ter preconceitos com a outra tribo por sermos da mesma origem, mesma espécie, apenas melhorada...
Ou piorada, ri o Clínico enquanto se entristece na expectativa de morte-vida-morte da parturiente. Assim completa:
Preconceito para quê? sim, o preconceito, se hoje não existe quando existe a fome e falta javali, então se come também assado o inimigo símio da outra tribo...
Daí ficaram ambos o Médico e Qualquer com algo entalado na garganta ainda muito a falar – pois berrava a moça, mui moça, surgia a cria, as crias... porém entaladas as três, uma já a gritar antes as duas depois não chegaram sequer a chorar; uma, a macaca mais velha, então falecendo com os filhos.
Nem a Estatística nem a História a registrar. Mesmo porque isto é uma estória; trágica.

14° - Tinha um discurso marcante, a palavra fácil; além de não perder oportunidade, mesmo num cerimonial fúnebre-religioso. Agora se despedia dum amigo; aqui se forçando um pouco, pouco vira em vida o morto; talvez um conhecido com certa projeção, já valendo a pena a fala.
Anteriormente fizera uso, bom uso, das palavras certas; aproveitara até improvisos a ganhar horas impróprias; a sobressair-se. Verdade que sempre sendo um ganho: pensava alto – vereança quiçá negócios políticos de maior envergadura. Enfim aproveitando os instantes azados, sem haver necessidade em subir num banquinho ou cadeira desprevenida aos talentos oratórios da vida. Contudo isso demonstrando sua tendência e vocação. Não desperdiçara casamentos batizados aniversários reuniões informais – a formalizar seu recado e mostrar-se.
Aliás já aparecia bem, antes dos 30 anos. Em outras palavras, prometia. Não obstante não fora feliz nas primeiras tentativas a vender sua imagem e não se elegera (isto mais por questões financeiras que por talento comunicativo). Porém não desistia nunca.
Agora demonstra o defunto estar ainda mais vivo em seu coração pela sua boca privilegiada; faz os parentes sentir mais a perda, provoca lágrimas nos demais, explora sentimentos, leva à comoção! Recebe não apenas cumprimentos mas agradecimentos dos amigos do amigo ali abaixo do nível do chão; faz mais: quer ser o primeiro a atirar os três montículos de terra no caixão fechado e fá-lo com olhos molhados; a ponto de igualmente receber consolo na saída da necrópole.
Em casa encontra-se se não comovido ainda ao menos entristecido. Além do mais pesa-lhe meses já uma dorzinha nas costas; às vezes mesmo num simples discurso, não dos mais inflamados, ressente e se preocupa. Para uns poucos dias a peroração costumeira e a via-sacra das visitas feitas para angariar amizades e possibilidades, quem sabe apoios políticos visando o futuro, o futuro que é sempre incerto.
Nos poucos dias presentes nesse futuro alargou os fundamentos da tristeza e da dor. Internado mais ou menos às pressas pelos próximos, falece sem que os clínicos pudessem interpor sua ciência e boa vontade.
É ele por fim no fim no caixão na terra. Não existe ali entretanto ninguém inflamado para um discurso necrológico.

15° - O tio num tá nem aí. De fato, o velho não quer saber do mundo aí de fora, se o mundo gira – mas péra-lá, seria mesmo que gira e assim por que a gente não fica zonza, embora admitindo hajam muitos bobões em estado normal – se o planeta anda cheio de violências e contradições, se o povo vive atrapalhado, ele pronuncia “trapaiádo”. Um dia pegaram o tio para criar. Igual cachorrinho gatinho menininho abandonados? igual; não, semelhante. Encontraram o velho numa tapera; de jeito nenhum largado pelos filhos dele, nunca teve menino nunca casou; uma vez quiseram amigar com ele ele achou a velha feia e se lembrou da mãe, mamãe batia na gente e xingava bastante; aí ficou com medo da véia. Contudo um dia ói ele velho também e só e doente e... não morto de fome, seria isto invenção de linguagem, não tinha fome tomava caninha pelo gargalo e ela eliminando a fome. Então, num porre sem tamanho e prostrado. Fizera mais a vida além disso com o tio: a ventania desmoronou essa vida a desmoronar derrubando o sapé em arremedo de cobertura do casebre em cima do corpo dele. Foi encontrado por uns parentes longe morando perto desse longe; tratavam-se duns sobrinhos com sua filharada a visitar a vila onde nasceram e viveram. O casal sobrinho condoeu-se, juntou os trecos do bebum e o bebum, a pô-los no caminhão, e trouxeram à urbe abastada. Abastada a urbe, a família tendo que comer o pão que o diabo amassou ou qualquer coisa assim de dito popular.
Dessa forma que o tio não tá nem aí com a vida; já não tava na miséria em que vivia; agora no conforto possível que a nova família lhe dá – ainda assim não liga pra nada.
Vive como vive por viver. Em vão os outros tentam interessá-lo nas coisas. Televisão! pra quê? o radinho de pilha falou uns dias, cantou umas modas de viola, fez anúncios demais, enfraqueceu, estourou as pilhas, emudeceu. Vamos passear, tio – insistem. Qual, não adianta. Vamos tomar um banhinho... é sábado, tio, dia sagrado pra caboclo de caneca e bacia, água quentinha, toalha (ele diz “tuáia”) roupa limpa, tá passadinha cheirosinha e tudo. Não! Faz questionamento no ponto exclamativo, muito mais negação que um nãozinho desses porcarias de linguagem. “O senhor”, sempre se apegam ao formalismo e respeito de tratamento, o senhor tá fedendo dois anos sem água. Não, isso não disseram, pensaram. Está bem: tudo se encontra no banheiro com chuveiro de água quente sabonete toalha, é só ir à hora que desejar. Nunca achou a hora certa e não teve desejo. Senta-se dia todo na cama, a cadeira ali posta fica de plantão, mais depósito de roupa usada malcheirosa ou limpa a demonstrar que não quer mudar as vestes; sobra a cama, tem inclusive um afundado a facilitar as nádegas magras; além é claro do afundado do corpo deitado a pressionar diário o colchão simples. Tudo cheira igual: cheiro de tio; e não é fragrância nova. Recebe o alimento, revira o prato, escolhe a carne engole um pouco de arroz e feijão, raramente toca noutras porções de mistura; ao caboclo a comida é composta de duas partes: a comida que é arroz com feijão e a mistura a carne e na pobreza extrema abobrinha ou chuchu; vêm as rodelas de tomate, a folha de alface – ele quando muito come toda a carne, o resto oferece ao cachorro da família, o qual nunca cheirou o tio. Enfim fica preso como prisioneiro por livre escolha, pois a família não tem força a levá-lo à força para ver sequer o sol lá fora; na chuva fecha a janelinha, até as frestas não deseja.
Que mais quer do seu nada-serve o velho?
Nada. Nada mas com muito cigarro, tendo queimado vezes roupa e colchão com a ponta acesa; e bastante cachaça; esta podem trazer em tonéis, aceita...
Se insistirem um pouco, se tranca por dentro no quartinho, a fim de que ninguém meta o bedelho na sua vida nem empurre essas drogas de modernices.
Vai ao menos ao médico! À força na força que dá a moleza da prostração, a febre, os virus – garante nunca ter visto nenhum e portanto é mentira e invenção da visitadora sanitária. Deplora vacina e hospital.
Aliás deplora a luz e tudo que possa não ser o ar viciado cheirando a aguardente e fumo do seu tugúrio encostado à residência parente. Nega-se a sair e até a aspirar o vento de fora!
Dentro não aceita e sequer se interessa por notícias do mundo. Morreu? quem, quem ficou doente, quem mudou, quem veio visitar, quem brigou com quem. Bastando seu eu de dentro daquele fora limitado à cama o isqueiro o copo ou garrafa, tudinho adquirido com magra aposentadoria, da qual não se queixa como o comum queixar. Não se dispõe nem a recebê-la, deixa ao encargo da procuração.
Terá, teria algum interesse além do sem-interesse? Por exemplo até quando (não se exige o pensar viver melhor mas:) até quando viver. Teria tido?
Teve quem sabe, não manifestou, num tava nem aí lá.
Um corpo magérrimo de pouco mais de setenta anos já frio na entrega do café da manhã, aquele que ia servir como boca de pito. Aí sim deixou entrar o médico a constatar ocorrência para oficializar o atestado.

16° - Ela era incapaz insatisfatória ingênua – sempre vida toda vivendo ingenuamente – e de pouca inteligência (a oposição atenta: nenhuma!) de burrice comprovada. Não obstante fazia as coisas como lavar passar esfregar alisar sentir refletir compelir ver entrever percorrer espairecer e espairecia cansada, é claro. Fazia. A bem da verdade fazia fazendo sem fazer bem feito; não viera ao mundo dotada de dotes especiais, talentos notáveis, nem os poucos possíveis a se desenvolver. A rigor tudo fazia, fazia tudo (não pelas metades segundo o falar da outra, esta ativa vaidosa no dizer fazer perfeito) fazendo no mais ou menos não pretendendo os píncaros da glória a pobre. Digamos fazendo que fosse imperfeito, isto sem sombra de dúvidas não chegando a pensar-se perfeita, sim que fosse imperfeitamente porém procedendo como possível. Claríssimo ninguém sequer a outra muito menos a outra um pouco envaidecida, ninguém a exigir demais. Os outros, outras partes melhor dizendo, essas partes sabiam a sobejo que ela não faria mesmo bem no sentido do ótimo tudo do quefazer; “arremeda, a porca e burra” elogiava o(a) desafeto tida se não por sábia quem sabe bela ou abusivamente perfeita. Coisas chãs que qualquer menino faz – olhar a hora e saber a hora sem ter de falar o ponteirinho tá no sete o ponteirão... isso não, não tinha olhos para ver – ver não todavia quaisquer outras simples tarefas como amarrar o cadarço do sapato, tomar o garfo em seu caso para não derrubar de volta no prato com sobras na mesa onde alimentar formigas ali paquerando restos; então a usar colher... Outras coisiquitas: abrir a torneira, empunhar a caneca cheia sem derramar, abotoar botõesinhos na roupa – credo! dava impaciência raiva e explosão até vê-la tentando e gastando minutos preciosos desses que perfazem horas e milênios perdidos; só tentando na mor das vezes não conseguindo fazer o botãozinho olhar (ele curioso em saber o que havendo doutro lado, o pobre) enfim em ver o lado de fora da cava da roupa. Bem... A oposição, dita por si mesma bela linda de morrer correta perfeita, essa gozava  o(a) desafeto lerdona e atrapalhada – a burralda não sabe nem limpar! Triste verdade. Rasgava mal o papel, desenrolava além o rolo, tomando ora maior ora aquém o pedaço; dobrava em dois em quatro a seu jeito sem-jeito e aí limpava... Limpava!? tentava. Partes das fezes a lamecar os dedos, furando inadvertida e frequentemente o papel sobretudo aqueles rolos baratinhos às vezes já vindo furados. Sujeira nojeira ‘fedozeira’. Ah a pobrezinha imperfeita tão gozada pela perfeita bela e linda mais mais! Sem pretensão, veja-se bem, sem qualquer pretensão em ser ao menos bonita e normal e o que seria normal estando o mundo perdido entre o comum. O pior, ah tinha ainda pior? o pior o homem achando tudo isso a concordar com o(a) desafeto dela, a(o) desafeto linda de morrer. Contudo foi útil, utilíssima num episódio que envolveu (sua)seu desafeto, belíssima perfeitíssima. Esta se machucou inchou imobilizou-se quase, quase perecendo ou pelo menos a ficar cheia de ‘ais’ e, envelhecendo o homem aí por uns sessenta anos e lá vai fumaça (que são anos pra danar) aí o ai virou ou se acresceu em ‘ui’, que a bela dizia a mostrar grande sofrimento e isto é um belo exemplo de fracasso. Pois bem: nessa época ela, torta mole burra, ela deu as cartas. Tadinha, fez o que fez como pôde pôde pouco mas fez e... não, não salvou o homem e por extensão a mão direita (aquela que diz a roda tem uma roseira que dá flor na primavera) sim a mão direita perfeita e seleta.
Contudo, no menos no mais do ‘lá vai fumaça’ morreu a pobre mão esquerda, abobalhada sim porém de boa vontade – morrendo com a bela e o resto do homem. Inclusive foi constrangida a ouvir muitíssima besteira, mesmo do padre no cerimonial de corpo presente, as besteiras que se põem em velório. E depois? depois vermes satisfeitos, sequer se importando que a esquerda fosse burra e feia e a outra não tão burra mas bela. Ex-bela.

17° - Aquele matusalém aguardava não sabia o quê. Não era por estar nos 98, antes pouquinho dos 99 não deixaram prosseguir nesse desconhecimento: desligaram os médicos os instrumentos e daí as fúnebres solenidades.
Até aí fora um gozador do viver, a viver a seu bel prazer. Em moço farreara bastante, exercitara suas capacidades bastante, namorara bastante, casara bastante, descasara bastante ou por meios legais enterrando as viúvas (o comum é a fêmea da espécie Homo communis virar viúva antes do viúvo); enfim bagunçando bem em lugares escusos, um líder na bagunça, por conta da herança robusta. Robusta compleição física ótima, aqui em abuso pleonástico; um verdadeiro atleta. Desdenhou moléstia morte e o mais que não resulta imediato no fim porém em continuação. Aos 60 aos 70 ainda arruaçava semeava amizades e filhos; no entanto mui querido. “Papai é um durão”, dizia a mais nova não se sabe de qual mãe. Andar caminhar correr até; montar, navegar, dirigir, dirigir os bens e a vida. Ah a vida interminável. A vida é para se viver! exclamando a reusar vezes sua frase preferida, após alguma bebedeira. Acordos formais com autoridades, boa vontade com centenas de amigos semeados por esse mundo; muitos com nomes desconhecidos e apelidos conhecidos. Nos idos.
Agora aos 94 não quer andar, amolentado, e aos 98 não aceita andar ou não pode sair da cadeira de rodas. Os amigos, que sejam assim chamados, desapareceram. Aquele negócio após a fogosidade mundana: no princípio visitas, depois as ralas, a seguir as raras a vir recordar tanta vitória. Uma derrota! Não quer comer não quer amor (ou não pode e o orgulho muito ferido não concordando) beber não quer, quer sim mas o médico proibiu beber...
Enquanto,  sonha como qualquer mequetrefe do planeta com o paraíso. Um deus bonzinho irá dar-lhe o sossego o descanso e quem sabe, se pergunta, as alegrias que pensou haver alcançado nos anos intensamente vividos. O deus ficar-lhe-á velando através de seus anjos pacientes ali, lá, à disposição dele. A dor... quer se livrar dela e da prisão em que se encerra (e isso é vida! indaga).
Desligam. O féretro. Antes a mais nova lamenta no velório a um estranho, com tantos desconhecidos a farejar em volta e que ela nunca vira e se dizentes do sangue; lamenta: “Papai era tão cheio de vida! e agora, se consola a jovem, agora está com Deus.”

18° - Dona Muié era teimosa a teimar vida inteira em não morrer preferindo descerto resguardar-se nas teimosias para ficar velha passadinha e portanto teimosa, porque não tem fase mais teimadora que a velhice. Mas não é isso que importa, importa que além da teimosice foi uma fêmea digna do homem comum. Como? fazendo quem sabe às avessas o certo macho pra ser certa a teimar. Em criança apanhou por isso, em moça apanhou no período por isso, e aí sendo um encanto aos rapazes casadoiros ou só ‘fugidoiros’ tendo em vista que o homem comum foge quanto pode do altar às vezes obrigado pelo delegado, muito obrigado; depois, como senhora respeitável apanhou por causa disso do primeiro marido e teimou não deixando o segundo bater; então ela quem batia nas crianças por causa da teimosia, teimosa em salvar o mundo e a educar todo mundo. Assim virou viúva e teimou em não mais se casar; facilitado aqui em virtude ter-se tornado feia e véia dona Muié, tendo uns comentado: horrorosa como um homem. Não é disso que se trata, trata-se mais doutra coisa, embora até no enterro houvesse teimado a teimosa: quis ser enterrada com aquele vestido guardado anos para esse fim; fazendo-se sua última vontade, já a beirar 80 dezembros ex-janeiros.
Não é disso tudo dito e redito. Não, não é tudo disso. O problema principal é que Muié fora sonâmbula e pensavam fosse louca; ao menos se espantavam pelo fenômeno. Mais pra diante largou a fé católica por falta de fé, não deixou do ver coisas. Dava um trabalhão aos seus com os inexplicáveis; na época havia, sobretudo no escurão, medo e terror em vista de fantasmas. Aí Muié desandou na via-sacra aos terreiros feiticeiros e adivinhos, na tentativa a explicar suas visões. Enquanto, formou-se em torno dela crença-fama de carregar o sobrenatural e viver essa morte. Inclusive as amizades encurtaram ou fugiram temerosas. Todavia ela era de teimar. Agora teima em ser velha encarquilhada; carinha sim os netos, embora quase todos filhos – e ela fizera bastante com os ex-maridos; abortara uma porção com poção e houve um bocado ainda na ceifa tenra de dona morte, rainha da eliminação dos excessos – sim quase todos sobrantes filhos fugiram, sequer usando os fugintes o correio a mandar lembranças meros esquecimentos e as hipócritas saudades. Ela não se apavora por isso, teima em viver a sua morte plena de solidão. Solidão! Como assim se tendo como ilha por todos lados à sua volta as almas, a rigor almas penadas; no que ela acreditava à vista e de olhos fechados. Elas a ‘importunavam’ no seu gostar em ver, sentir, por sua hipersensibilidade ou talento ou imposição da natureza. Sobra nisso que via, dizia ver, afirmando vê-las. Uma semana antes ainda via. Olhem – e aqui os circunstantes poucos já crendo na descrença pela caduquice própria da velhice, uma chatice – olhem os espíritos! Olharam, viram ouvindo um helicóptero da polícia em caça na periferia cheia de drogados e malfeitores. Pois garantiu, teimou teimosa estar vendo os espíritos espavoridos com medo da metralha policial!
Teimou em dizer que os bandidos morrem e nem percebem, se violenta a passagem, a sua passagem ao ‘lado de lá’ (expressão repetida e teimosa de Muié). Durante semana teimou em pés juntos que os fora da lei continuavam pensando-se ‘vivos’ e a correr para esconder-se dos milicos. Andava nessa crença. Aí, teimando mais em não fechar os olhos da existência, aceitou fechá-los uma só vez. Nunca mais descerrou os mesmos.

19° - “Eram duas caveiras que se amavam...” reza dessa forma a cantiga do poeta caipira no século passado e o sujeito lembrando assim olhava para ela, ela naquele estado em que se encontrava; encontrava-se em plena viagem ao nunca, nunca a gente sabendo direito. O outro jornalista também observando o movimentar. Mas ela tendo já um guarda-costas ferrenho. Do tipo gorila, guarda-roupa, leão de chácara? não importa, importa sim ela.
Ela possuindo lindas órbitas, um andar cadenciado e bem feminil graças suas juntas, a atirar molemente o esqueleto para cá para lá, num quê estudado como faz toda mulher consciente da própria beleza. Consciente sim, faz supor.
O outro igualmente jornalista ou enxerido ou dissimulado não fosse outra coisa. Da espécie periodística mercosulista a se chocar consigo nos interesses. Os seus interesses, é visto, eram sobretudo a moça. Moça de fato, teria menos de 70 60 ou 50 ainda em forma. O velho acompanhante não.
O matusalém era matusalém, aí por algumas centenas de idade, quem sabe achado arqueologicamente nos sítios astecas maias ou dos incas, a cheirar ouro e prata e mais tesouros ainda não roubados escondidos pelos museus de primeiro-mundo, imundo. E, posto que idoso, a manter severa vigilância em guarda e defesa daquele patrimônio, a bela.
A bela, ela todinha recatada aos olhares exteriores concupiscentes da macharia e demais mundanices em volta, ela se resguardava; a boca era múmia; a múmia, segredo. Segredo e a dupla interessada isso não desejando.
Antes a dupla investigadora ou tão só xereta de olho, observando, contando (aqui em voz inaudível) anotando (nisto em particular cada um pra si, quiçá a esconder as verdades em meio mentiras mais...) Ele sendo da terra (da terra de ninguém?) a trabalhar por sua empresa via notava anotava, que fosse não em frente flagrante para o amigo, inimigo adversário concorrente ou só qualquer coisa. Anotava, guardava, guardando talvez à posteridade qual fotografia a amarelar e a revelar o que não se podendo ver. O outro, o mesmo: ao contrário do contrário; mais ou menos matreiro com mil malícias no olhar, aqui não ganhando do amigo jornalista, ou (para ele:) um dissimulado, não sendo que fosse isso tudo e também outra coisa que se não diz; é claro. Ambos registravam, vez que outra a confrontar rabiscos e impressões, veladas e defendidas por razão de estado ou razão profissional. Viam.
Viam o quê. A mulher ciosa de seu valor e beleza, a se remexer tentar ocultar o que ocultar, a fazer as tarefas simples no seu complexo feminil. Guardava tirava cuidava limpava coisas nas suas coisas (coisas que a dupla xeretava farejante em olhar, enquanto tudo xeretava também as órbitas defensoras do pai ou guarda-costas) coisas importantes como o espelhinho. O espelhinho todo momento retirado da bolsinha retirada a mesminha da bolsona em cima da mala antigona da viajante; retirado manuseado carinhado quase – a se ver. Via revia via o espelho a dona de belíssimo esqueleto e órbitas atraentes e dentição perfeita em chamarisco. O todo era chamarisco aos homens no geral em trânsito mas mais aos dois, que a seguiam no ir e vir horas na viagem. Olhava reolhava guardava retomava olhava de novo; a guardar a retirar a guardar outra vez ene-vezes para aguçar decerto curiosidades de quatro olhos atentos. E assim sucessivamente, apenas se interrompendo para outras atividades, como a inatividade por exemplo. De fato o avião aterrissou na capital, coisas de fiscalização alfandegária, troca de aeronave, pane, apagão saudável de aeroporto em nossos dias e isso tudo excelente inatividade com parada obrigatória. Aí a espera e cansaço e descontrole de nervos observando-se o retirar olhar guardar o espelhinho a se ver bonita (oh por que tal preocupação feminina se todas bonitas!) Todos em atenção.
Agora é a loucura geral – espera reclamação filas horas dias apenas não chegando a semana – para retomar a viagem! O matusalém de olho, órbitas a observar a movimentação da gente e a possível trapaça dos estranhos; ele chega-se mais ao esqueleto elegante, ainda a se ver no espelho suas vaidades; chega-se, conversa com a jovem na língua antiga que ninguém entende (dando certa aflição nos jornalistas, amigos sem demais) o velho não satisfeito, senta-se ele na mala dela, a defender o tesouro, de olho nela tida por maior patrimônio enfim. As vistas exteriores, estrangeiras com certeza, a pensar as coisas: maconha inocente, cocaína, armas desde o 38 o 44 até a AR-15 não cabendo tanque, apenas cabendo ainda algumas garrafas de uísque e mil e um contrabandinhos eletrônicos de informática e uns pacotes de cigarro etc.. Contudo o matusalém não consegue dormir é claro, no apagão escuro, aí deita-se cobrindo a mala da jovem de lindas órbitas espantadas...
Os dois tramam qualquer, quase que imperceptivelmente vão ao sanitário. Lá se flagram abrindo cadernetas anotando às pressas aquelas verdades das mentiras, em segredo; descobertos mutuamente rindo malícias, dizem a salvar aparência haver trazido talão na possibilidade não haver papel no vaso do banheiro fedorento dos homens por causa do relaxo aeroportuário e, para provar: urinam; após chocalham; o mercosulista se lava se higieniza se enxuga a sair como quem não quer nada mas antes anota de costas mais umas coisiquinhas; e o jornalista da casa, como bom caboclo, só chocalha e imediato sai sem pensar pensando nela, anota rapidinho uns rabiscos sobre aquele fenômeno de mulher ali, lá, no sagão guardada pelo leão de chácara e vai que houvessem fugido... sai correndo quase chega no seu ponto observatório primeiro que o segundo!
Retomam o ver.
Ela se vê no espelho... curioso não passar pós batons e outras melecas comuns nelas. Pensamento deles, adversários concorrentes amigos até prova em contrário. Todavia prosseguem na observação. Então – quer dizer horas e dias em dias de apagão aéreo com sua simpática burocracia – então sim conseguem retomar de vez a longa viagem.
Chegam.
É a sala número três, a única primeiro-mundista de luxo no velório municipal. Ela está linda de morrer, está lindamente vestida de flores se bem tenha ficado  por descuido do serviço funerário um artelho, o dedão do pé de fora! um senãozinho. A praxe da praxe. O féretro em consumatum est.
Daí um diz para o outro, ela já coberta agora por terra, o matusalém certamente tornado às suas catacumbas nas pirâmides de centroamérica ou sudamérica, sumiu;  daí um diz em excelente portunhol ao companheiro hermano veamos unos estranhos barulhitos... o da casa concorda com o gringo amigo adversário concorrente ou coisa assim, concorda de cabeça; olham ouvem, ouvem bem o diálogo dos vermes lá embaixão em festa:
Mas que decepcionante, verme irmão número dois, que decepção! este belo esqueleto vindo já sem carne, não tem caldinho algum...
O número dois – calma irmão verme número um, tem sim nas juntas ou como iria andar o lindo esqueleto cinquentão. E ainda tem mais uma coisa: no caixão mortuário há um espelhinho bom pra fazer a barba.
Tinha de fato, o serviço funerário não teria decerto percebido-afanado o objeto.
Os adversários ao mesmo tempo se olham surrealistamente atarantados.

20° - Gostaria imensamente não precisar acusar crer admitir indispor julgando um escriba – e na definição incluir-me sendo mequetrefe das letras – a condená-lo ao crime participando como carrasco juiz árbitro ditador planejador e executor contra a pobre vítima! Mas qual vítima?
Bem pensado, não havendo vítima não há crime e não há menos ainda processo – o que um ganho fantástico ao planeta pelo fato de economizarmos burocracia pastas prateleiras e poeiras nos longos anos do dito processo. Quer dizer, aqui também um prejuízo desde já a esse mesmo planeta, empregando-se menos, mais vagas de funcionários eliminadas; carimbos a descansar; almofadas e tinta e dedos sujos; tudo a menos.
Lembrando em tempo que a vítima dum literato (também o leitor, sim, mas sobretudo:) é o personagem.
Por que a acusação ou tão fortes e desaforados vocábulos em palavrório.
Seguinte. Sabemos que esta obra termina, ou mais bem dito: suas partes acabam (em pizza não, protesto!) terminam sempre (em pancadaria também não, noutro negativo:) acabam no cemitério. É velório é flor é piada é pinga; em enterro, três montinhos,  choros,  velas;  exumação!? quem sabe, se a lei não tiver serviço melhor a ocupar o legista... Porém finaliza com morte.
O porquê disto é uma estória originada na verdade. Aliás não existe melhor mentira que a erguida sobre a verdade.
O homem da rua nesta pátria anda preocupado com a violência e mais com a crueldade na violência. Com os absurdos, pois vemos tais absurdos na televisão no jornal e mesmo na rua do homem.
Agora ocorrendo toda vez que o sangue é maior é maior e contundente o ato criminoso, agora fala-se em termos de pena de morte contra os favoráveis à morte. Contra o bandido é claro, o abusante dos direitos e liberdades do regime ocidental. Mataram um garotinho arrastando-o pendurado num automóvel por 7 quilômetros! Então grita-se, berra-se o conserto da lei ao concerto. A lei é projeto é promessa e gaveta burocrática a fim de o congresso poder feriar e se corromper. Querem tirá-la da gaveta. Uns contra outros a favor da redução de pena e a maioria ignara ignorando em santa inocência. Bem, quê fazer.
Um homem comum mais tagarela que outros dava seu veredicto aos quatro ou cinco ouvintes no ponto de ônibus e a todos criminosos em potencial, criminosos de crimes bárbaros e hediondos: a morte! Dizia ao público pequeno que na Espanha antiga sua família fazia assim e assado, os acusados presos e o povo fazendo a justiça com próprias mãos, sem burocracia. Que ele, aposentado há vinte anos da polícia brasileira, eles (a corporação? não indaguei apenas ouvi) tomavam o ladrão o criminoso e batiam tanto que o sujeito nunca mais voltava à cadeia, ou tornava faltando pedaços.
Creio – eu carrasco juiz árbitro ditador planejador e executor, sendo mequetrefe da literatura – creio sim que possa, se não resolver o drama social pelo menos o desta obra, a qual leva todos indistintamente ao cadafalso importando pouco a idade. Ajudando assim o homem comum a eliminar criminosos e devedores; isto sem exigir julgamento e principalmente provas do delito! O povão alvoroçado, seja falando ou ouvindo em aceite flagrante à tese, ele quer matar, quer sempre. O como o porquê ficam para outro dia. Assim alcançaremos certa matança que será uma festa mundial. Matou? será morto! A chegar um dia em que restando meia dúzia que pudesse atirar a primeira pedra... O planeta acaba limpo! porém tendo apenas 5 ou 6 com direito à vida.
Bem, pode ser teoricamente bonito. Não sei entretanto se o orador de rua citado aceitaria mexer na família nos filhos netos amigos conhecidos. Mesmo porque os desconhecidos teriam sido em estrebucho na corda ou no som do fuzil riscados do mapa. Ora, não seria chato um paraíso de 5 ou 6 pessoas!
Acho que sim. Não perguntei ao grande tagarelador justiceiro vingador se era, é, cristão; indagaria após se encontrou nos Evangelhos apoio à sua tese. Perdi essa oportunidade.
Contudo essa ceifa de pecadores, dos que mataram e roubaram no peso e no contar mentira aqui embaixo da pirâmide até chegar lá em cima aos cruéis imperadores que assustam um mundo como o Bush e seus semelhantes, tal ceifa, ou, antes: a ideia dela, me sugere uma solução para meu difícil drama de matar personagens, após tanto carinho e graça graciosamente ofertados aos mesmos, ao fim de cada capítulo.
Estou pensando em matá-los no coletivo, poupando quem sabe a goela do orador supra citado. E que farei com a meia dúzia em sobra por força dessa nova lei! talvez receite a tais esdruxulices restantes viventes beijinhos flores caixão velório vermes.

21° - A senhora parou no arremedo de rua daquele arremedo residencial em meio ao arremedo urbano insano favelar cheio de arremedo de gente. Por prudência fechou o vidro abriu alarme tomou todos cuidados pertinentes ao cidadão definido em nossos dias como burguês ou seja o quê tem muito ou pensa ter demais a perder – olhou os lados de sua ilha, fez menção sair do carro; saiu bateu a porta ainda com temor e por imprudência deixou o som, não abusivamente alto mas audível apenas, ligado. Fechou a sair fazer o quê fazer, trancou. Eles chegaram, foram se aproximando aproximando e por fim chegaram perto dela. Os meninos. Alguns lambuzados outrinhos inclusive limpos – todos pirralhos aptos aos expedientes e oportunidades que a vida oferece. Gritavam quase em uníssono embora com escalonado de vozes “esse é meu”, meu de todos e ela a se assustar se pensando objeto ou visada para roubos violências quiçá sequestros aí temeu... Todavia logo percebeu serem (moleques sim mas:) garotinhos, pivetinhos se quisermos abusar um pouco na linguagem; e ninguém teme a brincadeira. O mais saído – “posso olhá o carro da senhora?” Sorriu.
Sorriu a mulher, terá respondido qualquer e os meninos ficaram qual cães de guarda em volta do automóvel. Sorriu e se foi ao que veio.
Era mulher sim. Gasta velha, não se diz imprestável apenas velha, não enrugada. As aparências... Em verdade o Dr.Pitangui operara milagres nas vezes que interveio; puxou aqui esticou acolá suprimiu acresceu, renovou! Numa das cirurgias o procedimento ocorrera em clínica no exterior (somenos à riqueza do burguês) o resultado foi a miss a deusa, a engrandecer o charme e a presença social. Entretanto não operara todos os milagres... A dama deslocou-se até ao casebre em meio aos casebres daquele cortiço imundo; viu cães vira-latas a ladrar, igualmente em espanto talvez pelo cheiro que se impregna em nós ao contato de outros cachorros, no caso certo mimo com muito pedigree; e observou um que outro animal: a galinha, o menino a engatinhar, o gato espantadiço. E muitíssimo barulho do vozerio da gente pobre adulta mais pobre na pobreza e no desvario moral a ofender aquelas vistas nobres de ricaça.
Enquanto os meninos in-guarda a olhar rodear o carrão da ‘moça’, criança nunca vê bem as diferenças; ouve bem e não interpreta não compreende a entender as coisas. Nada obstante a fita de som lá dentro dos vidros fumés do auto expunha Saint-Saëns no “Carnaval dos Animais”, especificamente o trecho de extremo bom gosto no solo de violoncelo no final da peça, a ferir profundamente o coração – elinhos apenas ouviam, escutavam também música pop a gritar ardido nas malocas em torno; e se distraíam ainda mais com suas próprias conversas. Contudo examinavam em curiosidade bastante o veículo de luxo, flagrante sofisticação em confronto no passar de motos barulhentas e carros velhos desmancháveis nas imediações. Os petizes trabalhavam brincando...
A mulher gasta de pedigree joias adereços perfumes prossegue a tentar achar em meio à miséria habitacional o casebre de outra. Aquela! deve ser aquela, pergunta embaraçada a algumas orelhas e por fim encontra. A outra mulher é velha, velha bem menos mais gasta pois o tempo o trabalho a luta a família o desentendimento não perdoam; ainda assim a pobretona se faz semelhável à antiga patroa. Sorriem as duas ao reencontro, a nova cosmetizada reciclada, aqui abusando no vocábulo também, olha para a miserável, não tão pobre de afeto e filhos e dignidade quanto a rica, esta um poço das misérias sociais e de dramas da sociedade epidérmica que o submundo desconhece embora supondo... Se olham, a visita se achega à porta, seria porta de uma cozinha remendada com restos de construção!? se aproxima, quer (mas): não oscula a outra porém os cheiros se cruzam se contatam – dum lado o perfume francês doutro o cheiro de fêmea a arder com sua versão de homem comum suado e cansado (poder-se-ia incluir ‘relaxado’!) Se falam, a paupérrima espantada com a visita e já supondo quem sabe oportunidade de trabalho ou um serviço de ganho; a ricaça a encontrar seu homem. Um homem grego a filosofar com lanterna ao sol quente em procura de um homem com vergonha na cara e isto não sendo impossível é ao menos dificílimo... Acha enfim, supõe, sua ex-servidora em quem possa confiar. Dá seu recado, lembra a pressa e as grandes responsabilidades a poder apresentar a rápida despedida. Então, tudo acertado? Sai, ambas sorrindo por razões quem sabe opostas todavia com o mesmo objetivo satisfeito. Sai e volta ao veículo na beira da favela, já muitas pessoas olham o representante material de valor nesta era conturbada, uns constrangidos quiçá envergonhados, outros abusivos sorridentes a tocar o dedo naquela conquista da civilização que enfeita e polui e escraviza e vez que outra servindo à condução. A dona um pouco contrafeita, pela imperícia ou desacostume em tratar com a arraia-miúda, chega ao automóvel lustroso. Os guardinhas enrodeiam a receber seu jornal; ela cede uns níqueis de ferro a passarem nos cobres, os adultos lhes diziam assim porém eles viam moedas pensavam guloseimas no botequim explorador na favela de lata e restos do resto da gente da sociedade admitida por normal. Meros comuns também à sociedade. Entra no carrão com símbolos importados, desliga o som, está ainda constrangida; liga o contato; funciona; sai, nem percebe mãosinhas a abanar, foge.
O seu mundo a espera.
É um mundo sem contemplação. É superfície. É dor. É riqueza. Quê é riqueza!? Os baixos do edifício pleno de seguranças e mastins de lata olham-na com respeito; engolem o carrão importado. Depois a vomita pra cima à cobertura e luxúria, ao luxo de suas preocupações, sem solução...
Alô. Digita. Se liga. Responde. Conversa, conversa de lata e fios e conversa de sangue. Dá ordens. Um pouco mais, confidencia sem muita confiança na confidente. Dizem isto e aquilo. Espera, espreme, engole apressado com volúpia pílulas e líquidos; faz refaz toalete, vê o espelho que a vê porém não vê, apreensiva. Tilinta novamente o fone, esclarecem a ela os inconvenientes as traições junções conjunções separações demonstrações do império que são as finanças – também elas e sobretudo elas, as finanças, em desmoronamento. E tem mais o choque doutro imprevisto sentimental... daí se contorce se remexe e cai e rola e se esvai qual chama que chama e atrai o vento, o vento leva o que não era e se pensava vida. Operara milagres o cirurgião-plástico, remoçara a moça, não retificara o coração...
A seguir o féretro, luxo às vistas, falatório à boca pequena, notícia jornalística e imagem televisiva, a comoção social. A outra não soube, soube muito depois a saber haver perdido a vaga para ao menos dar de comer às crianças, visto o precário sustento haver acompanhado seu homem que se mandara com alguma vagabunda. A ricaça não pôde servir a matar fome na favela, nem pôde se beneficiar do escasso lume de sua lanterna. Agora descansa, dizem, veem a capela mais parecendo palácio com um anjo de bronze a abrir suas asas em cima, em baixo a bacanal de vermes.

22° - Agora ele encontra-se nervoso; não fosse que fosse neurótico nunca admitindo a moléstia – anda pra lá volta pra cá retorna do automóvel gesticula furibundo a irritar a pobre. A esposa paciente, ora quem tendo paciência com um sujeito assim... tenta ao menos contornar amansar aquele vulcão, sem sucesso. Ele repete o repetir depois examina mais uma vez o carro; o carro de capô aberto arreganhando para o céu o motor agora morno, fervera fumaçara queimara dedos descuidados. Quantas vezes examinando a geringonça... olha aqui mexe ali aquele fiozinho e outros absurdos que é a complicação de peças que servem para mover o veículo então parado, mexe sem sucesso, para se enraivecer melhor dando oportunidade à companheira ao fracassar acalmar seu extravasamento. Ele a fumar, a mamar impaciente o quinto cigarro. Por fim admite não saber de mecânica, entretanto sabe de ‘defuntaria’ como ninguém não diz mas pensa; ela admitira antes por ela mesma e por ele essa verdade, sem arriscar dizer ao homem em ebulição. Esgotadas possibilidades liga o esposo ao celular da oficina amiga, nessas coisas não se confia demais em amigos. Via se não inimigos adversários por toda parte. Ela aguentando as pontas.
Enquanto a espera, espera fazendo as contas, não pode ficar quieto, procura chucha com vara curta as questões longas a encontrar se não soluções embaraços a elas ou só a ter com que enervar-se e falar, fala sozinho, ela ri sem demonstrar. Toma um papel rabisca números cruza dados compara distorções – sempre conclui estar sendo roubado. O preço dos caixões: comprou coletivo e por atacado pagou como varejo; e os “safados”, diz, somaram ainda impostos frete até ligação telefônica num assunto comercial. Estamos ó (faz um sinal de envergonhar o baixo calão, ela balança a cabeça num ‘não tem jeito’). O escritório também anda avançando nas coisas, tenho de rever os documentos, perdi um recibo da vez passada mas acharei provarei aos gatunos. O banco, já viu taxas mais escorchantes! uns ladrões. Querem... os empregados fazem tudo para sacanear a gente. Contratei um defunteiro, garoto ainda, já quer ser oficial, não: receber como gente grande. Querem sim me enlouquecer. Você (olhou de frente a mulher) você manda a crioula embora, exige mundos e fundos, arranjaremos uma garota para tarefas domésticas e fará melhor que ela recebendo menos. A coisa anda feia pro meu lado. Ainda que funerária, o negócio é bom, não temos concorrentes; o cara morreu tem de enterrar, coisa garantida; contudo a crise... Nesta semana até foi bom: aquela figurona ricaça, demos um trato no rosto para ficar bonita e apresentável, a velha se tornou moça; tingimos os cabelos dela, perfumamos até o cadáver; ganhamos uma nota! Agora, têm os encrencados, encrencados não – famílias encrenqueiras, umas não pagando, só no protesto; outras querem nos processar. Canibalismo, minha cara! E a gente do velório municipal tá criando caso... A coisa ferve.
Nem queira saber, fica em casa não conhece os entraves na loja. Tem o motorista, não aquele outro, o anterior mandei passear após destratamento quando fora buscar um corpo noutro município; me chamou na justiça do trabalho; falo do novo e este já fez mil e uma atrapalhadas... Ninguém presta hoje em dia.
Nisso chegou assistência, inclusive a senhora estando cansada desanimada na espera, ainda a ouvir sem parar o esposo. Este fuma mais um, acende um noutro; ela o chama longe um pouco do mecânico – você está no segundo maço, quer morrer! Ele goza sua fêmea: cigarro nunca matou, o resto é conversa; bebida concordo, hoje só tomo duas antes enxugava caixa, não está contente com meu progresso? Ela ameaça dizer que o barrigão dele um dia estoura. O profissional achou o defeito, pede-lhe um cigarro, se acendem os dois, os tocos sujam a rua suja. A mulher lamenta meneando meio distante; tenta se distrair com um pé de flores que vê sem flores, olha o movimento, nota uma que outra criança a passar alegrar aquela aperreação. O serviço se conclui. Funcionam aceleram experimentam fumaçam a área, o esposo não paga no ato porém assina uma nota ao outro. Se despedem, a mulher é cumprimentada pelo estranho. Ainda falam umas banalidades. Se vão de vez.
Pegam as casas bancárias ainda abertas, compram umas poucas coisas num supermercado, tornam ao lar. Lar doce lar. Ela fica um pouquinho azucrinada desgastada. Ele corre à funerária.
Se desentende, puxa a orelha (isto um símbolo apenas) destrata encrespa com um funcionário, chama a atenção dum novato. Continua a acender outro noutro noutro e para.
Chamam depressa a ambulância, chega em sirene; os curiosos a indagar como sempre. Agora chega em prantos a esposa no pronto-socorro, mas o dono dos defuntos já defunto.
Os funcionários do velório, aqueles ranhetas, na expressão chã do homem da funerária, tratam-no com certo respeito; não é sempre que falece um defunteiro.

23° - Era um harém era um sultão gorduchinho, gordo e empapuçado até no falar, com gorduras incorretamente perfeitas, o ventre ó de avantajado desses de não deixar ver o que ver e ver pra quê! não vendo meses; não importa, elas viam. Esposas amásias concubinas amantes namoradas o escambau. Elinhos de todas alturas todas idades todas chanhas e todas manhas, manhã meio-dia tarde noite vez que outra serão na madrugada afora – um pampeiro de chorinhos briguinhas e as mães a se doerem a se roerem a se desentenderem mutuamente correto. O comum. Incomum apenas por ter muitas casas. Assim não dá, dava, grita o homem da casa, um macho comum dos dias que correm, pra uns voam pra outros lerdeiam e não passam. Que a carestia! oh os preços e preços de aluguéis... Então fizeram uma assembleia ou congresso ou reunião familial ou apenas ajutamento daqueles ajuntamentos em muita sem-vergonhice gritando na orelha doutra vizinha a vizinha, a vizinha do lado de cá. O fato, se fato, é claro, o fato é que chegam às conclusões lá deles. Sim porque não suportava mais aquele macho da espécie na espécie precária de vida que levava nessa naquela promiscuidade do harém: era mulher se engalfinhando com mulher, era menino brigando com outro menino (tinha uma porção o machão a engordar a barrigona dele delas mais, dizem os cientistas que num centrimetrinho cúbiquinho existência de mais de um milhãozinho-e-um espermatozoidinhos, havendo aqui uma perda de um milhão e um só fertilizando o sangue de uma das namoradas amantes concubinas amásias ou só esposas; dessa forma tinha menino a dar com pau e por isso se desentendendo e brigando) ah sim, aproveitando a brigar com os meninos vizinhos também e aí as vizinhas boquejavam com as mulheres do sultão machão garanhão barrigudão. Ainda bem, esta uma tirada otimista do pessimismo, ainda bem que D.Morte vinha de foice ou alfanje a ceifar um pouco – ou explodiria antes que o explodir do planeta explodisse o palácio... Bem, a conversa no tête-à-tête entre o garanhão e suas fêmeas e as crias das fêmeas amantes etc. e tal, essa conversa, com muito palpite menina e choro de garoto, a dita girou em torno da carestia o custo das coisas e doutro lado do ringue o salário. Assim o pai de todos (de fato não aceitava o sultão intromissão dos vizinhos, as vizinhas sim podendo falar mal à vontade mas os homens delas não queria nas imediações pois vai que... Só elão barrigudão com direitos adquiridos royalties pagos e mais garantias) o pai de todos em rei da paróquia gritou silêncio à ‘femearada’ – “aqui quem grita (leia-se, manda) sou eu”. Se calaram. Elão: não aguento tanta despesa, briga do cêis suporto até dá charme e demonstração em me quererem, todas a me desejarem, isto lisonjeiro; porém a despesa NÃO, apertou inclusive aquela chatice de tecla que maiuscula tudo no computador, para mostrar um não sim convincente. E definitivo. Ajuntou: o ganho é um salário mínimo, no mínimo em que se encontra, nem se encontra de tão miúdo e o besta do governo fala em termos de estouro na previdência, aquilo é uma burra a nunca se esgotar! deixa pra lá. Todavia com um só-zinho salário contra não sei quantas (que se perde a conta) mulheres e as boquinhas dos herdeiros... não dá e ponto final. Pôs exclamação a evitar contradita. Assim convenceu e levou aquelas mil e uma bocas a comer numa das casas, claro ser a residência maior da maior e mais bela das amásias amantes namoradas etc., embora a mais apresentável das moradias e grandona pequena a tanta gente; isto somenos. Dessa forma economizou o sultão naquele harém de periferia. Realmente, as brigas continuaram, as demandas continuaram, continuou petitico assim o salário do macho in-rei de todos e mais de todas. Porém um dia estourou – apesar dos cortes nas despesas e contenções mais e a economia sobretudo no aluguel de uma única casa pra tantas mulheres – estourou antes de  tudo o garanhão, ele que cortara... não não cortara, cortara tão somente as cervejas e os cigarros a economizar; então bebia apenas uma dúzia e não uma caixa e fumava um só maço e não mais de um pacote por dia. Estourou, um estouro lindo de se ver no boteco da esquina onde tinha caderneta de fiado. Ambulância no juntar os pedaços, operação varrer cacos, levar ao ‘pê-ésse’. Contudo não deu. Não teve choro (teve sim bastante) nem vela, nem fita amarela. Deixou mil e uma viúvas, despejadas com a sustação do pagamento do salário mínimo do ex-aposentado, ex-vivo.

24° - Se há para mim questão fechada, quem sabe inabordável, não inabordável não: evitável – essa é a da traição. Sequer aceito em meus personagens coisa desse tipo e, havendo, os mato sem dó nem piedade! Às vezes apenas transmudo-os em pouco no bastante, deformo os tais a fim de que não se pareçam nem consigo mesmos. Isto é arte sou um arteiro.  Mas com traição não posso; ela abaixa-me a resistência, sucumbo.
Todo o tró-ló-ló acima vem do fato da vizinha haver traído seu homem com ajuda de outro homem (a gente não conseguiu ainda trair sem auxílio doutra pessoa) fez isso e por haver gostado tanto de se deitar com o primo de seu homem, chegou a sorrir maravilhada.
Aliás conheci-a (ninguém a rigor conhece ninguém nem a si próprio) conheci a bela mulher sorrindo. Era toda sorrisos e risos, vez que outra risotas à boca pequena, aqui com as melhores intenções nas maldades. Foi a impressão depois e no momento em que eles chegaram no pedaço.
O pequeno não vi, tava na barriga, ela assim estufadona – uma beleza de mulher, a deixar crescer as modelagens da virgem virando mulher em todo seu contorno. Trouxeram trecos miúdos, logo chegou o caminhão com graúdos; a maior parte compraram aqui na vila, ora uma empresa ora outra firma entregando móveis e eletrodomésticos; o berço apareceu melhor à curiosidade vizinha. Ela sempre a sorrir, ele a sorrir envergonhado – os tímidos têm a alegria contida nunca gargalham; é realmente o riso envergonhado um sorrir medroso. Questão idiossincrática do rapaz in-chefe da família nascente. E tudo pago honradamente com trabalho semibraçal no supermercado. De manhãzinho antes do sol, já a abrir o portão, passar a magrela, depois o nhec-nhecar da bicicleta dele a sumir na rua em direção ao trabalho, lá lonjão seis quilômetros e meio (aqui poria 7 ninguém a crer). Assim sucessivamente indo manhã vindo tarde após a novela dela na tevê, a encontrar a esposinha a sorrir com os casos, os vizinhos sentados ali em frente frente ao mundo em brincadeiras adultas, os pequenos esparramados a correr em volta a brincar brigar gritar, sim inclusive o dela pois dera cria – chorara aprendera fazer manha e a se alegrar com os brinquedos novos que o pai amando o filho trazia. Parece que compraria o mundo infantil para seu mundo infantil, que era o filhotinho adorável. Vez que outra os vi a três em passeios ao gosto caboclo, o pai a segurar aquele projetinho chorador então feliz no colo, ela com as maletas de mãe, mãe leva de tudo: mamadeira chupeta fralda talco remédio brinquedo na sacola, ela assim; estavam em passeio usando o ônibus, não iriam na bicicleta; ainda mais que ela engrossando. A esposa moça (não mais) bela engordando após o parto e o descontrole na boca e o viver sem exercício que não seja tapar boca de menino com guloseimas. Ainda e apesar bela e sorrisos.
Agora o meninote já é levado ao parquinho, vai chorando agarrado não quer se desgrudar da saia, a mãe usa calça, hoje em dia é calça não querendo dizer que antigamente as fêmeas da espécie não usassem calças, mais recatadas. Enfim no estilo e moda atuais as vestes. E volta, aí não chorando, alegre pelo retorno ao lar. A brincar, a conversar suas lorotinhas com os colegas, as crianças de sua idade.
Agora é agora. Ela continua a sorrir ao mundo, parece que não sorri muito ao marido, cansado de pedalar e de se desgastar no serviço. Antes neste depois anda secarrona para os lados machos. Ou a sorrir também ao esposo... a esconder o quê? sabe-se lá.
Daí, ainda agora, hoje não, ontem, chega o caminhão, põem como praxe os trecos de mudança em mudança outra vez. Ela sorri às amigas da rua já em estado de ex-vizinhas, entra no carro, um automóvel duns amigos a se deslocar para a cidade natal deles; ele carrancudo ou ensimesmado, atende os homens na carroceria em pôr móveis; sorri, contrafeito. Pronto. Funcionam. Descem as cortinas desta fase em sorrisos e amizades sujeitas às briguinhas dos pequenos e à gritaria menina.
A ex-senhoria vem em auxílio das vizinhanças atarantadas ou só curiosas; naqueles costumeiros ‘mas’ ‘por quê’ ‘onde’ ‘não será mentira!’ e tudo o mais pertinente à verdade.
A respeitável alegre sorrisos dona Esposa da Silva traiu o Sr. Marido Inocente da Silva com um primo deste. Traiu gostou prosseguiu e também prosseguiu a sorrir. Contaram a ele, ele? o último, sempre o último. Ele? bem queria separar-se mas... ‘mas’ por conta da justiça cega como todos sabemos. Esta exige o filho com a mãe, a mãe a sorrir o filho a manhar e chorar; ela não aceita o herdeiro indo com ele. Conversam discutem, ele mais baixo, envergonhado. A fêmea da espécie rasga o verbo: vai me sustentar com o menino, a lei é de meu lado; você paga as contas. Ele: pra  você dormir com o amante, quer que dê pensão ao amásio também! Ela: não, sim, namorado. Ele ou não diz em resposta ou diz tão baixo gritando ao pensamento – Não vai ficar com nosso filho. Ela olha, goza em risos, gargalha em cima das lágrimas do homem. Optam em mudar-se (ele determina, é o chefe da casa, tem vergonha até em sair na rua; lá longe ‘desenvergonhará’ quem sabe...) Chega o caminhão, sai; somem. O jornal de hoje estardalhaça que um ex-esposo estourou os miolos da ex-mulher, ainda a sorrir dos chifres que pôs no indivíduo.
Tinha razão. Ele tinha: ela não ficou com o filho.
O jornal não cita sequer o féretro nem fala na dor dos parentes não diz coisa alguma sobre o pensar do menino. Flagrante pobre não dá ibope.

25° - Que sorte teve aquele cidadão italiano com dificuldade emigrando ao Primeiro Mundo, quando ainda sua pátria no Terceiro lá por aqueles tempos não hoje; hoje teve morte primeiro-mundista!
Seu Giuseppe, Bepo na Península mister no solo que lhe deu a segunda cidadania, vivia muito bem, muito bem se vive no paraíso; fora o diabetes fora a velhice fora o isolamento, quiçá a solidão. Contudo se ajeitou: espichou uma corda até ao fundo do quintal da casa, disse o vizinho não lhe sabendo sequer Giuseppe, a fim de caminhar, fazer exercício ou enferrujaria; isto porque já quase cego. Demais, mais ninguém sabia e soube a esclarecer policiais e menos a imprensa, a esta basta uma molazinha de verdade a construir sua mentira vestida na linguagem verdadeira; aliás como fazem literatos, ah pobres literatos. Mas de repente – aqui um de repente a durar um ano – o vizinho do vizinho sumiu. E a luz acesa, a tevê conversando dia e noite sem parar não levantou curiosidade vizinha! indaga assim o xereta repórter faminto em sábado sem notícias, pois os políticos descansando suas cuecas e dólares ou ao contrário os guardando nelas porque dinheiro de primeiro mundo é mui friorento. Não, disse o entrevistado: ninguém percebeu nada. Mesmo porque com razão, razão dada ao vizinho vivo do vizinho morto, o morto o vivo de primeiro mundo onde não se mete bedelho nem se interessam cidadãos mais preocupados com a lei, o infringir a lei e a lei religiosa, dado que todos quites frequentando os cultos domingueiros; ou se distraindo com a internet nos seus lares. Iriam se importar com pessoas sentadas frente à televisão por um ano inteiro! ainda mais um esquisitoide latino; velho por cima nesse por baixo. Assim sequer um próximo distante notando...
Aí a polícia, a fazer rigorosa seu trabalho – descartada a possibilidade em bombas e terrorismos mais o resto sendo menos – aí ela arrombou portas, o legista mexeu a múmia de sessenta e poucos anos e que se não mexia fazendo ano, outros técnicos fazendo uma varredura em regra, anotando em suas fichas ao archivo morto. E se foram os profissionais cada um para seu lar, ver os filhos  jogar video game nas suas máquinas.
Enquanto eu, pobre escriba de Terceiro Mundo, desocupado no ineditismo, acostumado a velório choro vela e a vermes para assustar leitores, eu provando por a+b poder assassinar também um personagem de Primeiro em longos doze meses. Uma vitória de meu ex-fracasso.

26° - Ah deveria até abençoar a burocracia em virtude prender difundir e alterar as coisas. Ela se apega no travamento e não vê o benefício da transformação. Ele, hominho assim de comum, cheio de bom-dia boa-tarde vai chover já viu o preço! essas coisas, esse era um vivente a curtir seu dia a dia sem perspectivas, maior seria a morte em que não pensava, pensava sim na dos outros. Um belo dia lhe ocorreu mudança sensível, ou por outra, não chegou a pensar na grandiosidade do novo ser, que era ele mesmo modificado pelos burocratas em plantão, os quais sequer sabem disso por serem igualmente comuns. É que ficara resfriado.
No começo a gente pensando ‘constipado’ catarro, sem se preocupar porque isso é coisa de velho ele novo, passado mas jovem ainda. Depois raciocina em termos de gripe e doença consumada, ótima à preocupação. Daí se procura, procurou, o postinho de saúde no bairro, encaminhado ao hospital, consulta – banco duro, traseira cansada, horas e atendimento – o médico. Você não tem nada, coisa passageira e tal. Pra não ficar o paciente impaciente reclamando, deu-lhe uma receitinha: melhoral e ‘pioral’ em pílulas dessas baratinhas que se compra sem receita. Farmácia. Tudo cheio – um festival de arromba a aguardar vez com receitas tremulando qual bandeiras. Aí trocaram a dele, mansinha, por outra, ativa do jargão tarja-preta, em descuido burocrático; mesmo porque por que terá a santa apenas abarcar o serviço público! e a prova disso a farmácia, hoje mais loja de venda de remédio, loja burocrática.
Bem, estão trocadas. Ele, a iniciar nova fase mundana na mundana vida comum, ele engole – sim para na goela, devolve – reengole drágeas e fica em repouso como recomendação médica. Não por muito tempo. Logo se levanta: está um aço! milagre, o médico o remédio operando a maior transformação de sua existência... Então viveu uma experiência notável, ‘garanhunou’ no pedaço, macho de terceiro mundo e coisa e tal, ah pobre da patroa. As vizinhas... umas até gostaram muitas reclamando. Pior: o garanhão valentão machão pra valer iniciava série de contestações intervenções paixões, paixões à flor da pele. Ele enlouqueceu! Chama pros tapas na esquina, briga no bar (promete bate humilha) – o galo no terreiro. Exagera. Polícia. Mais contingentes a conter que seja e quem sabe prender o arruaceiro. Tropa de choque tevê moleque em volta e mais curiosos. Foi esperneando ao xadrez.
Terceira fase na vida, agora sim vida pensou o videiro e vezeiro. O doutor delegado não se encontra satisfeito. Chama o segurança naquela segurança, ordenança e demais mequetrefes de músculos grandes e cabeças pequenas. Uma lição em regra no abusivo ex-hominho agora valentão. A borracha do cassetete, a cela, a solitária. Ah lá vem dona burocracia se meter: ralha e emparelha papéis, ela apreciando deveras papelama carimbo e deixa pra lá. Embroma remexe troca (nem vê mas troca) documentos – envia calhamaço ao doutor. O doutor: elemento perigoso, põe na superlotação carcerária pra ver o que é bom à tosse. Puseram, avisaram os outros concorrentes na superlotação, nenhum desejando ceder o segundo o terceiro o quarto andares um por cima doutro a sobrar pelo menos espaço à respiração; e em vista do boato de estripador estuprador de ex-hominho ‘grande valentão’ resolvem os presos fazer não justiça propriamente pois desconhecem até pra si mesmos a justiça; a praticar o justiciamento.
O doutor diz – com anuência da polícia política a intelligenza essas coisas – diz à imprensa faminta de manchetes: os albergados (semantiza a dar um trato intelectual) assassinaram o homem, inclusive cortaram-no em pedacinhos, o IML juntando a compor o quebra-cabeças. Não era flor a se cheirar... descobrimos ser terrorista e mafioso, mais um chefe fora de circulação.
A família recebeu para velório caixão lacrado, contra todas curiosidades possíveis. Assim mesmo descobrindo ter chegado urna errada, não: com defunto outro. Precisou destroca, obra burocrática portanto demorada, a receber o verdadeiro homem comum morto. Ora, isto um senãozinho.

27° - Era caminhoneiro. Desses que ficam dois anos na fila em estrada a esperar vez de sua jamanta de mil e uma rodinhas daqueles pneuzões a chegar quem sabe um dia no porto com seu container a dar entrevista à televisão regional mastigando sua marmita e xingando o governo e a sorte? Era. Forte? Fortalhão, a esbanjar musculaturas e machuras, fraco. Fraco! mas que isso... endoidou? Seu fraco sendo o sono, vivia ‘arrebitado’ pra não dormir no volante, o sono sim e antes e mais o sexo: louquinho por mulheres; sem depravação, olha lá. Às vezes com um pouco. Preferia mesmo a virgem. A esposa fora virgem, virgem santa! Agora um pouco estourado o chofer dela, nunca recebendo frete direito, pois o homem da empresa sempre arranja uma desculpa um dia é o atraso outro a carga outro a reclamação no depósito, uma vez quase deixou o contêiner-zão cair e pôs a responsabilidade no cabo de aço no guindaste ou no manobrista bêbado. Aí as multas a deduzir do ganho, trazia um ganhozinho assim com sabor de perda e então que sobrando para as crianças! as crianças, sim as crianças: contava a patroa das crianças a briga delas elas no pronto-socorro menino em desentendimento na rua e ela... Ela!? um poço de problemas. Contava ao seu motorista as dores suas, suas queixas e as queixas dos outros, da mãe da mãe dos filhos e da sogra da mãe delinhos – aí o caminhoneiro fugia ao boteco. Até nova carga. Pé na estrada.
Na estrada o motel. Antigamente motel era onde motoristas dormitando enquanto o sol não liberava o trânsito. Hoje é sexo. Tem o posto de serviço, antes era a abastecer o carro (oficina borracharia essas coisas; e combustível) hoje é sexo ou ajuda dele pra viagem não ficar chata. Ah mas não era pedófilo. Só vez que outra.
Um dia levou o mano mais novo emprestado da casa da mãe, sogra da esposa avó das crianças, estas já na escola a dar sossego à patroa lavar roupa e conversar com as vizinhas. Levou o mesmo porque apreciando o garotão; imagine que um ‘bitelo’ daquele ainda sem conhecer mulher! para ver as estradas e as paisagens – levou o menino inclusive ao Paraguai, ensinou-o a comprar alguma mercadoria enganando a alfândega. Ora, não é um bem preparar os jovens para a vida! Então. Mas exagerou um bocado, talvez muito na opinião do rapazinho. Seguinte.
Daí o trânsito ruim, empacado, pararam a descansar num posto. Apresentou o irmão aos irmãos da estrada, tinha um com mais ‘arrebite’ que os outros não dizendo coisa com coisa. Ainda de noite sem meia-noite e a farra. Foi então que levou o garoto para virar homem com ó dos grandes, a conhecer a imundície do mundo cão.  Esqueceu-se, dormindo seu excesso na cabina a roncar, se esqueceu de perguntar a opinião do menino...
Noutra viagem, antes entregou parte do saldo à esposa gorda e gasta aos gastos e devolveu em casa materna o garotão contrafeito; noutra viagem ainda, não completou a viagem: foi abordado e roubado, roubados o carro e a carga; e sua vida. Vida de caminhoneiro, sem direito a velório.

28° - Ao olhar o olhar dela dir-se-ia estarmos diante da inocência em pessoa – fosse possível este impossível. Isto dito em razão do homem geralmente ver outro homem e temer ou na melhor das hipóteses não saber. Posto fosse mesmo inocente, mil razões haveriam ainda a somar no todo. Bela? que é beleza. Pura? que é pecado. Enfim um homem comum em sua versão fêmea. Mas, mais exigentes, poderíamos quase pôr um paradoxo: vendo-a longe bonita; examinando de perto feia; nisto a doer numa defesa de tese afirmando que todas mulheres sejam belas. Em verdade existe certa imagem a esclarecer com vantagem. Seguinte. Se eu puser uma lente e melhormente uma com grande potência, estando a examinar a pele humana, me assustaria reentrâncias e saliências cores inusitadas e até deformidades; entretanto a olho nu nos extasiamos ao vê-la cobrindo o esqueleto e a musculatura da miss beleza qualquer. Por que esta dispersão este palavrório? Para mostrar a feiura da bela. A pequena com sua pele cheia de hematomas, sem ter apanhado do marido voltando bêbado pra casa, mesmo porque solteira, apenas sim levando aquela surra da natureza. Inclusive ao nascer a deixar a casca horrenda do recém-nato ainda a pobre cheia de marcas, até no rosto, longe duma face de anjo. A cor epidérmica ficando entre o branco caucásico queimado do sol tropical e laivos avermelhados em entremeio, se percebendo os furinhos, aquelas porosidades (função mais do microscópio que de nossas vistas). Estarei desejando pintar um monstro!? Não. A do rapaz era decididamente negra, sem nhe-nhe-nhem de linguagem; não sendo retinto, preto; escuro, pra dissimular corretamente. Mas a senhorita não se importando com a sombra crioula do namorado, mesmo ela sendo branca a partir para o ruivo, avermelhada no couro e fogo de cabelo. Verdade que semelhando as outras mulheres a mudar frequente a coloração a se estranhar cada vez no espelho e daí mudando outra vez outra vez tornando à ‘ruivez’ nos fios. Senão. No conjunto se queriam ambos, ainda namorados.
Aqui não se põe ‘namorado’ a condicionar amante amásio engano. Engano: eram namorados e assim se pensavam. Claro, fosse noutra época lá vinham a varanda a vela (uma sobrinha a fiscalizar o par) a velha deixando passar alguma transposição e o velho a ruminar a impor a exigir boas intenções do pretendente. É noutra época: hoje. Nada obstante são namorados. Ele chega de moto, abusa no natural dos barulhos, espanta atrai o cachorro – são dois, um só pelos com um abano na cauda a latir sem parar; e outrinho desses que cabem folgado na mão da gente e ladram gozado não au-au sim iu-iu e se escondem a correr temendo qualquer imprevisto perigoso – avisam sua chegada, ladram a partida todavia apreciam aquele cheirinho bom de gente que o namorado exala. Ela gosta, prova gostar todos dias, anos – o cheiro dele, a presença dele. Está apaixonada!? Creio que sim. O caso se arrasta faz mil meses, mil e um. A família bronqueia, mais em cima da menina para que a mesma reclame junto ao seu amor. Até agora em promessa trecos: um guarda-roupa desses de madeira prensada desmanchável, a mesa de copa com quatro cadeiras e mais uma que outra coisinha comprados ao casório. E quando dar-se-á o casório? Ela não sabe a mãe não sabe o pai dela arranjou após anos em desemprego vaga noutra cidade e, fora, menos saberá; o irmãozinho só pensa naquilo aquilo não incluindo o matrimônio da irmã.  O namorado, e por extensão menos ainda seus familiares, não sabe. Sabe. Diz assim “pro ano que vem”. Noutro ano reafirma “pro ano que vem”; não chega; não sabe. A fim de não perder tempo gasta o tempo, claro a trabalhar a conversar com os amigos sim mas sobretudo em namorar.
Namoram. Chega, ele não é beijoqueiro, ela se estica na ponta dos pés e oscula a montanha macha com medo. Realmente é magro e não demais alto, ela sim é baixa sem ser baixinha; magra também e tem mostrado nestes dias um semblante triste. Aqui se indagando sem resposta: será seu desemprego em calo de tanta fila tanta ficha e tanta rejeição? ou pressentindo os pressentimentos no sexto sentido feminino... Contudo mostra se não inocência ingenuidade mansidão e quem sabe aceitação ou desalento. Ora não temos cabedal a expressar todos sentimentos dos outros, menos ainda os femininos. Ela bem feminina, a aguardar seu homem por todo o dia, fazendo o que possa a preencher o tempo. Não falei vazia, fosse um ser vazio não perderia tempo em estudá-la. Sofredora, isto mesmo: sofredora criatura. E como deve sofrer e chatear-se a justificar semelhante a outros seres comuns o atraso da união às amigas e aos parentes...
Do lado masculino pode-se afirmar responsabilidade no trabalho, respeito aos outros, luta a sobrar algum trocado para comprar utensílios ao casamento – como qualquer homem pobre cheio de ilusões. Sem ilusão, que vida se sustenta. Luta, faz o que pode porém é reconhecidamente afoito. Quer tudo de amanhã para hoje quiçá ontem! Aí mil contratempos. Deve em razão disso brigar com ela. Aliás haverá algum casal que se não desentenda?
Depois se entendem os futuros marido e mulher. É o que se vê vendo olhando notando observando a relação deles. Às vezes a motocicleta encontra-se nervosa, sai bate o portão deseducada range as coisas canta os pneus e barulha mais que costume sumindo sumindo na escuridão... a menina fica a chorar, se recolhe, apaga a sala de olho pra rua e quem sabe se dormirá. Às vezes se despedem nos beijos, ela é mais mais ele menos no menos porém se beijando, talvez com juras. O ser humano é pleno de juras; piormente também de perjuras...
Assim encerramos esta parte da parte na obra.

         
28º - Segunda parte. Adversão: advirto não ser para qualquer esta segunda fase, em que as intimidades florarão a ferir brios dignidades e ideais. Advirto e proponho que as pessoas mais puras ou mais qualquer outra coisa pulem esta, embarquem e embiquem na terceira e última fase deste capítulo 28.
Postos tais esclarecimentos façamos pequeno corte (embora grandioso) na rotina do casal em estudo. Eles não moram juntos, ou por outra, não ficam mais dia e noite colados igual antes. Houve lá certa língua, a gente imagina para outras línguas e já deduz o povo diz – diz a sogra ou futura sogra do rapaz de seus 22 querendo desposar a jovem de 18 ou 19 aninhos, diz: todo mundo se queixa dessa sem-vergonhice de vocês aqui em casa! (Entendamo-la, é senhora que namorou seu único na varanda sob rosnar do pai e se casou com o namorado no padre, portanto devidamente abençoada por Deus, aceitou com relutância e temor ser deflorada e deu à luz a belinha e depois ao moleque, o alienado naquilo. Daí a vergonha da sogra roceira diante do falatório do povaréu de uma só língua ou de muitas...) Lamentou pegou no pé da filha; choros; decisões.
Então convencionou a rotina que o macho da espécie namorado ficasse apenas algumas horas a namorar, mesmo fosse abusando um pouco nesse verbo; só horas, o resto gasto no trabalho ou na casa da sogra (desta vez sogra da garota). E assim sucessivamente no tempo dos tempos. Ele chega, não dorme na sogra, somente conversa com a namorada e se vai. Aproveita a espantar o sono dos vizinhos com a barulheira caso não insoniando eles; e a disparar os latidos no corredor da casa, seja chegando seja em despedida. Todavia e as horas lá dentro do lar digno da sogra...
Na primeira hora conversam futilidades, inclusive a sogra e o cunhadinho podem participar do colóquio; é um tipo que se fala hoje ligth. Aos poucos o casal fica só. A velha, ainda nova porém machucada se não maculada pela existência roceira, ela se deita cedo, logo ronca; o pequeno se espicha no seu quarto pensa olha sonha com aquilo e quando vê não vê dormindo. Ficam a sós no sofá, sabem querem esperam estar sozinhos. E se abraçam se beijam na paz. Quer dizer – os cães ladram até as sombras e a noite é cheiinha de sombra. Contudo na quietude possível da paz. Ela, a fêmea da espécie namorado, se levanta e vai espiar mamãe: dorme ronca; o mano ressona. Volta, iniciam as carícias, se friccionam se experimentam abusam! Mais ele, ela se defende – nunca aceitou não aceitará abusos. Parece pura, inocente – que é inocência!? Defendo não haver inocência. Esta inocência é portanto provisória a construir um todo no momento. Prossigamos na felicidade desta infelicidade. Ela aceita maior intimidade apenas quando passado no padre, por demais católica, ele apenas a acompanha à missa; ela na garupa da moto barulhenta; depois voltam a viver a rotina no lar da mãe dela. Não cede. Ele sorri. Depois a jovem se assusta, exporta seu namorado e fica chateada em tê-lo mandado embora, a barulhar a moto. Luta para obter a vitória final com aliança de ouro. Ama-o, deseja-o, porém não cede. E não estaria antevendo a desgraça! quem sabe...
         
28º - Terceira parte. Visto a quem pôde interessar a segunda; nesta terceira, do tipo light, não havendo aberrações nem ultrapassagens, não se promete entretanto paraísos. Ou a morte é o paraíso!? O homem comum não vê com bons olhos essa senhora de preto tétrica triste e macabra. Eles também não. Em conversas informais – o homem da rua só tem informalidade além de frivolidade a valer – nelas se falam às vezes na morte, mas na dos outros, contam-se como causos, sempre trazendo espanto a ela mui sensível, inocente? a ele não, não teme coisa alguma. Bem ao contrário mostra muita coragem. Houve falatório também a propósito de ‘rachas’, ou corridas violentas e arrojadas em que o namorado é elemento de destaque. Todavia tudo se perdeu no disseram que falaram sem consistência. Narram ainda mais causos e outros draminhas da gente do povo; eles ainda no passeio público com vizinhos a curtir a aragem diante do calor medonho. Se recolhem.
Eles têm, apesar da tragicidade na conversa horas antes sentados acocorados esparramados na rua, têm momentos memoráveis... Os outros dormem, ele investe, ela se defende, quase brigam, após se beijam terna e ardentemente. Por fim se despedem no portão, madrugada, os cachorros a infernar; atende o namorado o celular, combinam ele e colegas certas coisas, não quer informar a amada, dá com a mão, amanhã diz... some no taratatá da moto.
Pouco depois, uma duas ou três vezes desviam escapam, as outras motocas se saem bem, aceleram, gritam-se vitórias gozam mutuamente espertezas, o vento no rosto quase a arrancar os capacetes, correm desembestam em zigue-zague na disputa em plena rodovia aparentemente sem movimento – ¡agora os outros dois motoqueiros escapam ilesos ele é tolhido em cheio pelo ônibus na madrugada! Guardas, trânsito acumulado em filas então quilométricas, bombeiros a tentar retirada de vários corpos: o cadáver dele só pedaços na pista, a motocicleta pedacinhos miúdos imprestáveis sequer ao ferro-velho. Ela, grávida, chora desesperada, o rosto em cima do lacre da urna no velório, dão-lhe sedativos.
A morte é certa. Mas quê é a morte!?


F i n a l – Não existe a rigor epílogo assim como não existe morte. Tudo continuação. Não há fim. O início em nossa forma de viver e ver não existe igualmente, pois o homem, o pensador e menos o da rua a se espantar com resfriados e trovões, ele sequer conseguindo sentir analisar (concluir o início então!) o presente palpável; o transcendental escapa-lhe à compreensão inclusive – como nessas condições saberia origens. Enquanto isso os cientistas a pensar o nascer do Universo... Prefiro as anedotas de três pês: padre português e papagaio. Todavia pomos certa marca a dizer “acabou!” É o que pretendo, após dar 28 exemplos do curto entender humano em sua forma de homem da rua. Isto se enliando ao problema da inocência, vimos muitíssima inocência, qual a dos meninos. Não existe em nosso estágio o inocente; natural que se liguem inocência nascimento ‘morte’ renascimento. Sim, parto do dado em que quando nascemos somos inocentes no sentido apenas da ignorância, porque ignoramos tudo por esquecimento momentâneo do passado, só o instinto nos guia, a mente estando em embaraço. Mesmo ao crescer podemos ser tomados por bonitinhos gracinhas. A consciência vai despertando e nos prova haver sobrado somente a boniteza e a graça; o cérebro onde o entendimento no entanto revela a compreensão e a capacidade de fazer as coisas – para o bem para o mal. Isto porque já trazemos doutras existências para a vida o saber anterior. Portanto nascemos sem a inocência e um garotinho ‘blablablando’ na linguagem irreconhecível a despertar riso dos pais (e orgulho até...) pode ser um feroz assassino ou um santo anteriormente esculpido na pedra dos sofrimentos e alegrias, ao vir à luz.
O homem comum pensará assim? Em não ser por descuido da normalidade. Em geral ele é o agora, o ontem sofrido, o amanhã premiado no paraíso; caso se suponha detentor desse privilégio, o qual cai do céu: não se vê na contingência de conquistar os louros com suor e sangue; cai de lá e pronto; ou então pensa num paraíso nebuloso e não se discute sombras e brisas; já que o tufão é do inferno...
Continua sua continuação ao ver o garotinho como inocente.
Havendo naquele dia, antes ou depois doutro dia, havendo era muita criança debaixo da árvore, dependurada nela, ou a pular gritar na sombra para diminuir o sol do asfalto. Falava-se muito, muito não sabendo, uns-zinhos tão só olhando a matraca alheia. De tudo se brincava; um ou outro a brincar sério mas a maioria aceitando estímulos e oportunidades de prosa e fazer. O mais grandinho, pequenote das primeiras letras, tomou uma folha encontrada escrita sabe-se lá por quem e tentou ao publiquinho, rateando qual carro de carburador sujo no engasgo, tentou soletrar mais ou menos isto “todo homem é mortal, João é homem, portanto João é mortal”. O Joãozinho alizinho espantadinho arregalou olhos pra cima daquela boca sábia ignorante do enunciado; aliás a boca igualmente desconhecendo o sentido. Sabia elinho não dever ser coisa boa. Provável não fosse mesmo.
Essas crianças simbolizam o homem que anda por aí, simples na sua apresentação do ser a engatinhar.
E não é uma gracinha!?
Marília   janeiro  2007




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