Vovó Conta
Estória aos Netos
Emprestados
I – Que se deve dizer
antes de dizer
Vovó é... bem Vovó. Enrugada? Andandinho com
dificuldade? Repetitiva?
Arcada? Resmungona? Mas
com um
saco ó de grande!?
Afirmativo.
A plateia são... ora, que poderia ser a plateia se não crianças interessadas em
ouvir as coisas
dos dias que
se perdem na noite dos tempos, no tempo
em que
se amarrava cachorro com linguiça... Crianças.
Porém a gente
vira menino
depois estando às portas
da porta de entrada
na Avenida da Saudade.
Portanto é esse
o público (que por
sinal dá trabalho).
2 – Que trabalho!
Menino, tira
a mão do nariz,
coisa feia.
Ainda mais limpando na roupa o dedo
cheiinho de caca. Nojento. Maria, para
de resmungar. Alph (é diminutivo
de Alfredo transportado ao gringuês que
valoriza as coisas atualmente)
apaga esse horroroso
cigarro fedorento,
acaba morrendo de tosse e catarro, olhe os três
‘quês’: queda
catarro e caganeira. Estou avisando.
Jandira, vai espetar o João nessas agulhas de tricô
– desista, menina: não
aprendeu em oitenta anos
não aprende mais!
Zé, não
cuspa no chão, seu
porco. Vejam o trabalhão
que vocês...
puxa que sobrecarga em minha cacunda. Quando crescerem e forem velhos
verão com
quantos paus
se faz uma canoa. Ah registrem aí
para não se
esquecerem dessas minhas tiradas poético-filosóficas que
são um
primor em
originalidade. Olhe a letra hein
Toninho, detesto seus garranchos. Repito: com
quantos paus
se faz uma canoa. Isto
é profundo. Bem.
Vamos em frente.
III – Hoje conto
uma das Mil-e-Uma-Noites
Isso mesmo,
se ajeitem, limpem, abram os ouvidos,
direcionem a antena parabólica
das orelhas, ih
que abano
as suas Miguelinho. Muito
bem. Vamos. A Guerra
do Golfo. É linda
a estória, vão
ver. Que foi,
Zé?
Sim, isso
é da Carochinha, tem do Ali-Babá, do Lobo, da Cinderela depoizinho, agora
a do Golfo... Está surdo
menino, é da Carochinha.
Eu não
disse que iria dizer
a verdade somente a verdade, sequer tenho
a Bíblia para
jurar, jurar costuma ser um costume
fácil, não
tenho aqui uma para
jurar a verdade. Não! Não, Francisca,
posso lhe chamar
Chica ao modo da casa
e não abreviar-lhe gringando correto? Chica, não
me venha com
sua esfarrapada
Bíblia nem
com a saliva
evangélica para
o meu lado.
Lembrem-se sou mais velha
que vocês
e mereço senão obediência
ao menos respeito.
Portanto, NÃO.
Ouviram? Aqui eu
falo. Ou
não conto.
Vamos ao Bush.
Era uma vez...
era uma vez
um caubói
bonitão à beça, tendo uma cara
parecendo estar prestes
ao choro; porém
mui matreiro
e perfidioso e cínico. Um dia o xerife se pegou proprietário
do Planeta dele e aí
inventou em limpá-lo e por isso inventou
de inventar lá
suas manhas.
Tinha na ocasião
uma bárbaro fanático
querendo mandar de xerife
também, mas
em vestimenta
a caráter, a caráter
de sua raça com turbante túnica e um harém; punha um mundão de gente a chupar de canudinho
o deserto para
extrair petróleo e outro mundão de
gente a soprar
a areia da tempestade
que eclipsava o sol,
naquele tempo muito
forte nas bandas
do Golfo.
Papai dizia: filhinho não
brigue com
o Saddam. Já fui, continuava o genitor, já fui
por meu
tempo no tempo
de meu Império
me pôr com esse selvagem e me dei mal. Papai é quem dizia, papai
do xerife ocidental
querendo brigar com
o candidato a xerife
no oriente. Ele
não ouviu papai.
Então... ai, não
aguento esse garoto. Toninho, por
que não
se assenta de uma vez
por todas com
os outros meninos
ouvindo minha bela
estória; fica só
indo pra lá
e pra cá
a procurar sarna e o que não perdeu.
Perdeu? bem, se perdeu a galinha
já comeu, pois
no quintal tem é uma briga danada entre as aves em disputa de minhoca milho e
merda, tudo com
eme, elas
comem de tudo e brigam, parecença com a
briga dos xerifes.
Aí ele
teimou. Ele quem?
estão surdos ou
desatenciosos decerto
– o Bush. Teimou teimou, tomou seu mais potente estilingue, daqueles de borracha
flexível e durável; com
um pedaço de couro de botina
ringideira e rasgada atirada no quintalão
sujo de badulaques a mãe reclamando com
a meninada nada
comportada desembestada na brincadeira de faz de conta como
conta a nossa
brincadeira agora
de contar, tomando o estilingue
de borracha de câmara com couro
de botina, presas
as tiras de pneu
na forquilha de pau
de goiabeira, esta sim
das boas por durável e adequada mas – olhem bem – precisa cortar perto do nó do galho ainda verde, ou estraga por duro demais o corte da faca, a mamãe ói ela lá gritando moleque
que sumiu com
sua facona agora
que ia cortar
o frango para
fazer gostoso, o melhor é o caipira,
frango de granja
só tem gordura
à base de injeção
e hormônio, onde
já se viu! a faca
ficando cheia de dentes
estragada e aí reclama mamãe também pela colher que levaram para brincar na terra, ainda por cima em baixo fazendo buracos
e... e onde é mesmo
que nós
estávamos? ah ótimo, Zezinho, no Bush a fazer estilingue para derrubar o Saddam da árvore, muito bem, anda atento o menino,
pois essas meninas moleironas só
pensam em não
pensar, fofocando as coisas
e coisas importantes
como a estória
que lhes
conto não
conta nem
ouvem bem, que
fazer se estão surdas e ficam perguntando ao deus-dará “que
Vovó falou?” Falei.
Ando eu com a língua
ardendo já. Vou tomar
um cafezinho com
bobagem e volto a narrar
o resto.
IV – Restante
que sobrou do Golfo
Uf! quem será que
fez aquele bendito
café. Fresco
frio fraco
fedido. Fresco de uns três dias, é visto; pois está azedo amargo
atravessado aqui no gogó.
Deixa pra
lá. Continuo a estória
do Lobo Mau.
Quê? ah, o Bush... não
falei Lobo Mau;
quer mais
mau! São
atacadistas ou
andam atacados; ou
varejistas. Conto
umas esmiuçalhas da estória, linda de morrer como disse.
O Xerife chegou de estilingue
armado e queria... Não me interrompam, não
desejava ele o harém
do outro: está mais
idoso que
o Zé aqui
sempre me
indagando se é estória da Carochinha; falo
sim a impingir
o melhor não
disponível e o bruto
não escuta;
oh orelha de pau: é da Carochinha.
Harém não
interessa à cultura do Império de Bush, só
mesmo o canudinho. O quê? que mente poluída Alph, santo
Deus! Falo
dos canudinhos a chupar o petróleo,
o Golfo tem um
poço apenas
menos que
a Saudiarábia, este um
lugar traçado já
pelos imperadores-xerifes do passado. Quer agora o canudo
de Saddam.
Saddam! meu Deus do céu! não disse que era o candidato a xerife oriental? Ai, morro
de raiva e desespero
a falar a uma criançada
desatenciosa que
são vocês.
Desisto.
Desisto e ia narrar a parte
mais emocionante
da Guerra, com
muita odalisca
príncipes fadas
rainhas princesas e fome
e tortura e traição
e areia, muita
areia, tanta
que os museus
os palácios e os monumentos
não aparecem no cenário
encobertos pela
areia e as tempestades
de areia; e destruídos pelas pedras do estilingue
do moleque Bush. Mas
desisto.
Se amanhã – ouviram? amanhã – houverem acalmado a afoiteza de vocês
um pouquinho e passado
a azia que
meu café
de garrafa térmica provocou, então, só então conto outra... Sim é da Carochinha.
Trata-se da estória da Minhoca.
V – Estória da Minhoca
Bom-dia meninos, dormiram bem? ah já sei vão se
queixar pela insônia
as dores a cama
o ronco o barulho
os cachorros na rua
pois eles
terão ficado loucos! também eu me queixo.
Queixo-me mais de vocês,
criança vive fazendo das suas, aprontando... Quem
me fez a arte!
me esconderam a dentadura,
fiquei a procurar por
aí, estava debaixo
de meu travesseiro
e não em
seu devido
lugar – o copo
de tomar água.
Aliás quase
derrubei o copo, quebrá-lo-ia espalharia
água gosmenta
no chão e o culpado quem
foi? Adianta indagar de menino!
o culpado nunca aparece. Deveria nem contar do Golfo hoje a vocês como
prometi. Como? já?
Ah, não, falei que
é da Minhoca, uma estória
linda de morrer.
Era uma vez
uma – tchã tchã tchã... minhoca, acertaram.
O Bush... Não, Pedro, oh
Malasartes, não veio
ontem, não
sabe de nada, o Bush de ontem é o Bush de hoje,
é o Xerife de sempre.
Então, meninos,
o Xerife de cara prestes a chorar andava atrás de certa minhoca, também
cínica e matreira,
uma minhoca chamada
Bin Laden. Exato, Maria, esquisito
e não inventei o nome,
sabe é à Carochinha que
se deve creditar o débito,
contudo era
um príncipe
e queria igualmente como
o Saddam ser xerife dos bárbaros. Bárbaro?
ora, é um
ser assassino
injusto feio
e fanático; e selvagem.
Então o garoto
do estilingue, mas
que não
estava com arma
tão poderosa
porque de paz,
desejava somente caçar
a minhoca e não
se caça minhoca
com estilingue
de matar passarinho
que vive borrando o chão
desde lá
em cima
da cumeeira e outro
dia sujou as costas
da Zulmira que passava embaixo, não
foi Zu? Então. Então
onde eu
estava mesmo? Ah sim,
falaram lembrando bem, hoje
mais ativos
que ontem,
ontem era
segunda que
é o dia da preguiça,
continuemos. Aí, aí
péra-lá, eu falava do... ah sim da minhoca e o Xerife do ocidente
chegou na terra da minhoca
para impor liberdade e democracia
e lá não
tinha tanto
petróleo nem
canudinho a chupar o ouro
negro das entranhas;
nem areia
a soprar porém frio
fome feiura fantasma.
A Minhoca era
verdadeiro fantasma
a azucrinar a riqueza
do Xerife, volta
e meia explodindo os prédios do Xerife por aí no mundo.
Dava para continuar assim! o Xerife mesmo respondeu: não
dava. Aí mandou matar
quase todo
o povo da terra
da Minhoca, antes
que a fome
matasse pois o Xerife
queria ter o mérito
e mandou liquidar tudo.
No entanto aqui
surge uma questão insolúvel.
Aliás toda
questão é insolúvel,
visto solucionada não ser mais uma questão. A questão.
Não achou a Minhoca
não obstante.
Diziam que ela
se escondera nas cavernas feito formiga e
não deixara nem
a traseirinha para fora,
que não
era boba.
Lá dos intrincados
enviava ordens a atacar
as forças do Xerife.
Este cansou-se.
Como eu
estou sumamente cansada de aturar vocês, nunca vi se mexerem tanto,
só o
Zé não
se mexe, dorme. Depois me perguntará descaradamente:
“Vovó, é da Carochinha?” e eu, burra: “é Zezinho, e da
Carocha”. Estou cansada. Porque o cansaço é como a água – água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Põe
no caderninho de vocês, crianças, é uma joia em
pensamento, uma de minhas
originalidades. Anotaram? repito para gravarem melhor:
água mole
em pedra
dura, tanto
bate até que
fura. Não
é bonito adágio!
compus o mesmo esta madrugada,
ainda não
sabia me esconderem os dentes, soubesse a raiva
engoliria a criação.
Como? quê disse? hein!
ah, não, não
achou até hoje
a Minhoca Bin-Bin. Ora, por que toda estória
tem de ter fim?
onde a originalidade
se em todas o príncipe
se casar com
a princesa e a fada-má morrer
de inveja? onde
já se viu!
VI – No oriente próximo distante
Não briguem crianças.
Começaram cedo, nem
comecei começaram, me enlouquecem. Chega pra lá Alph, tem lugar
para todos;
Zu, é a dona do pedaço
hein! Enquanto
não se acalmarem não
continuo meu começo
sobre a linda
estória de hoje,
ontem eu
estava atacada de catarro
a voz sumidinha fosse falar
não falava, aliás
não falei nada
só saiu “passa
cachorro” e Bush me
olhou e não entendeu, entenderam? hoje
narro uma estória romântica cheiinha de invejas traições
egoísmos essas coisas,
com pitada de
amor tendo príncipes
princesas rainhas e... não Pedro, madrasta
má que mastiga criancinha no espeto mal-passado não
tem, você aprecia essas imundices; asseguro: aqui é a formalidade
da pureza, não
existe lugar para
bruxas, só
Bush. Passa! agora
que não
era ele
era ele
pensando que era.
Bem.
Um dia,
frio tremendo,
o pinguim pulava (assim ó) na água gelada, ela
espirrava pra cima
no impacto e quando
voltava à tona caindo pela força da gravidade já
caía farelo de neve
e ao tocar a superfície
líquida-sólida-gelada virava também gelo em pedaços, fazia trummm de barulho
e o Zé, ainda
dormindo, não ouviria, não por dormir por cego da orelha;
e aí... onde
eu estava mesmo?
a fada? o caubói?
isso acho que
era naquela do xerife.
Aí, meninada,
o Bush arriou (ou será arreou, vocês me
corrijam, me lembrem a memória; quando
forem matusalemicamente da minha idade verão o que é bom para tosse!) então... que
dizia? Ah sim o Xerife
pôs arreios na montaria
dele, a rigor um
pangaré vencedor em
Cidade Jardim,
calçou sua melhor
bota com
estrelinhas no calcanhar, fazia
tri-li-li em barulhinho irritante, eu falei ao bruto:
bonitão, tira essa porcaria
de irritar a gente,
põe chinelos-de-dedo, que serve pra esquentar a traseira de crianças
indóceis, igual vocês,
e servindo para andar e andar também a cavalo no seu pangaré e em qualquer burro,
não é Zé?
qualquer besta
sabe disso e... em que
ponto parei? vocês
me interrompem a três por dois não posso contar a linda estória
do Bush. Fiquem quietinhos vou repensar retomar o fio da meada.
Por falar em meada estive
nesta madruga matutando sobre umas coisas, negócio
original, não vinha
a forma ideal
aí veio:
quem tudo
quer nada
tem; primeiro imaginei quem
tudo tem nada
quer, pensando no cachorro,
este o pior
amigo do homem,
não se
contentando com nada, comeu Bin comeu Saddam e não
se contentou. Vi que a forma
mais correta
seria quem tudo
quer nada
tem, que nada
tem de popularesco nem de dito, dito agora a vocês em primeira mão como uma
ideia original que
me brotou aqui
nas entranhas. A letra
hein! tem unzinho entre
vocês que
escreve e nem ele
mesmo consegue ler...
Mas aí...
aí o quê?
ah o Xerife montou no quadrúpede
debaixo em
cima dele e lá
foi prototoc-prototoc o vaqueiro presidente e delegado.
Bem. Num belo
dia ói ele
beirando a beirada do oriente. Perguntam-me: não
havia ido já?
Já, entretanto
noutra estória e este
é outro departamento
longe daqui do de lá
donde o homem saiu, saiu – vão ver – a dar
palpite para
os aborígenes que não
se entendiam. Depois que eu contar a estória vocês decidirão de quem
a razão: se os selvagens
fanáticos da banda
de lá, se os selvagens
fanáticos da banda
de cá do de lá,
ou ainda
se o Xerife a assoprar palpites mais, mais interessado em
que entre
os primos, porque
os contendores eram primos de sangue em terceiro grau; que enfim os nativos não lhe atrapalhassem a paz
a ter paz em matar direito o povo dono do petróleo na outra estória
e... e que foi?
Sim Zé,
é da Carochinha.
Como eu
dizia, a Carochinha, não a Carocha não,
o cavaleiro saiu e chegou nas estranjas onde
os nativos atiravam bombas
com fanáticos
dentro fora
de sua terra pra pegar a terra
dos outros. Então
uns diziam é meu, eu
vi primeiro. Os outros
falavam, cheguei antes. E quem teria razão?
parece que o certo
sendo ambos grupos
tendo razão pois
de sobra não
terem nenhuma. A matança continuava, o tal Bush tirou bem umas três notas verdes e mostrou os dólares aos briguentos,
estes se entrolharam e... bem
o cavaleiro achou por
bem o mau negócio em pegar a tralha na cavalgadura, pô-la nas costas
e voltar procotoc-procotoc assim
ao Morro do Capitólio,
onde se poderia
esconder. Parece que
o Xerife haja interpretado erradamente a expressão “eu
vi primeiro”
“é meu” pensando não
no território em
disputa mas
na sua sagrada
pessoa. E pelo sim pelo não, não ficou para ver, não
gastou as travas da chuteira do pangaré, gastou a bota,
calcanhou a bota primeiro,
a sola dela, e perdeu a estrelinha de fazer trilili, só eu ganhando a ficar menos irritada.
Agora, que
agora vocês
acalmaram é uma verdade. Tanto
que se me
passarem esses gases me cortando as tripas,
então com
certeza contarei outra,
não amanhã
como meu
costume, hoje
mesmo. Certo,
João?
VIII – Cachorrada
Uf meus netos, quase não vinha a expor minhas belas estórias,
não precisa
indagar Zezinho, é da Carocha sim
– quase não
dava, pior, quase
morri de susto! Ontem
ia falar sobre
a fada milagrosa, sobre
a bruxa-má a pedido do João, sobre a princesa e a rainha
da felicidade satisfazendo as meninas, não é Zu? não
deu deu foi no que deu, levei um tombo
daqueles até me
esquecendo dos gases, quase morri! Primeiro foi catarro agora queda, falta o último ‘quê’ e esse me levará ao túmulo,
aí adeus
estórias. Hoje,
se ficarem bonzinhos, narro a do cachorro.
Sim encantado, à força
da baioneta porém encantado.
Um dia
no planeta da mixórdia
havia certa bagunça
generalizada, ninguém entendia ninguém; corrupção inflação nomeação aberração
aflição, uma loucura!
Os problemas do mundo
insolúveis cada
um a puxar a brasa para sua sardinha,
se quiserem anotar este
pensamento, eu
o bolei à hora que
vinha vindo contentar
vocês narrando estória;
repito devagar: cada
um a puxar a brasa para sua sardinha, puxar é com xis e brasa com esse, sendo mais
um de meus
inventos culturais pleno
de originalidade. Bem,
continuemos.
O que mesmo eu andava a falar, do
Bush? não do, ‘no’. Estava, parece-me,
fazendo referência a desentendimentozinho
entre os povos.
Na verdade vivia-se em
pé de guerra.
Os assuntos, os corriqueiros
assuntos como
a fome a miséria
e sobretudo o amor.
Amor ao dinheiro
e ao poder com
egoísmos escondidos em
todas as línguas – verdadeira Babel. O que você disse?
Ah sim, não está
entendendo. Mas Cristo!
(como dizia a Nonna) se os povos não se
entendem e brigam e se guerreiam, como quer ter o privilégio de entender! Paciência, um dia entenderá o desentendimento.
É só não
ficar com
gracinhas, meu João: entende fácil fácil.
Como eu
dizia, não me
lembro se contei, era no tempo em que os bichos falavam.
Quer dizer,
falam até nossos
dias, os outros
é que não
percebem, muito menos
o homem esse
não compreende o homem,
vai entender bicho,
soubesse apenas o que
fala o papagaio
que é matraca.
Assim todos
os representantes dos animais se
sentaram à mesa de negociação. Falaram
falaram falaram, por fim gritaram e insultaram, um
pandemônio sujeito
a sopapo e panos quentes. Sem solução. Ninguém se expressava na língua
de todos, todos
falando na própria língua
dos interesses. Uma Cachorrada!
No final já
havia dentadas e uivos,
quando surgiu Bush e todos ficaram em
expectativa. Ele
mandou os enviados votar
moção autorizando tomar
o petróleo dos outros
países; e, exceção
de uns poucos capachos,
ninguém aderiu a essa ideia. Que fez o Xerife!
Ora, que
fez fez o que fez fazendo guerra por conta própria a controlar a riqueza alheia. Todavia isso
já havia contado... estão me forçando a repetir! que garotos
descaridosos vocês me saíram; estou ficando cansada.
Por hoje
chega, benzinhos. Ultimamente não ando bem de saúde, catarro queda e todo mundo sabe o resto.
Falei a vocês que
o Bush me passou na frente
e tropecei no bicho caí tibum no chão?!
ainda por
cima havia os bestinhas que ficaram rindo de mim,
não havendo mais
respeito com
gente idosa.
Devo ir ao médico.
VIII – A
consulta, encerrando este papo
Doutor, veio
bem a calhar vindo aqui, ia vê-lo para me ver. Veja em que enrascada me encontro, vou lhe
contar.
Sabe meu filho –
posso assim expressar-me? sou idosa o senhor um jovem – vivo uma vida trabalhosa. Todos
dias reuno meus
netos e conto...
hein! já
contei isso? ah, conto
só mais
uminha vez o senhor
deve ser esquecido como
eu... Tem um
cachorro, o Bush, que...
quê? não
tem cão no asilo?
Ué, como me late sempre
e outro dia,
não vá passar
isso aos meus
netinhos, aí me
cai a moral – outro
dia o Bush levantou a perninha molhou primeiro a da mesa e depois, pasme Doutor,
a minha! Passa,
eu falei, falei também
um nome feio, antes
olhei se tinha criança
por perto,
somos exemplo. Tenho medo
dele, sobretudo quando
toma o estilingue.
Eu falei ao Miguelinho, filho não faça estilingue que não seja com pau de goiabeira,
sabe que.... como!
o senhor já
sabe, que quer
saber então.
Se tenho febre, não
é o médico que
deva constatar
isso, pois a nossa é costumeiramente
inventada. Destempero? Tenho, só que neste asilo nós damos
a ele outro
nome. Eu
até comentei com
o Zé, o Zé
é totalmente surdo
e só dorme, falei que...
ué o senhor também sabe que
é da Carochinha?! anda
escutando minhas estórias,
suponho... Falei? Puxa! Enfim
que deseja,
Doutor. Se eu
falo sozinha!
Meu Deus
do céu, onde
estamos se os clínicos ficam atrás da porta
a ouvir pacientes!
não senhor não ando exaltada. A Jandira quem
anda: pretendia furar
os outros com
a agulha de tricô
e com a de crochê,
eu não
deixei e ela chorou e então... Senhor? não ouvi direito.
Que ando fazendo? Ora,
tem a Zulmira, trato de Zu, tem a Chica,
a Chica ela... como,
o senhor não quer saber já sabe, quem lhe contou isso
de nossa intimidade...
eu mil
e uma vezes! pensei...
Doutor, seja franco
comigo, olhe aqui,
possuo idade para
ser a sua
avó: tenho alguma coisa grave!?
Por vezes
temo a vir tornar-me louca. Penso no futuro,
na razão, terei razão?
Que ótimo Doutor, acha que no futuro não serei doida. Que alívio, obrigada. Se quiser, em
compensação, conto
a do Bush.
Marília maio
2003
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