Retorno
ao seio de Andreia
“A angústia encomprida
duas vezes o tempo.”
F.Dostoiévski
1° Como estar
com o mundo, se o mundo não está com a gente!
Via
no para-brisas do coletivo apressado a localidade de São Sebastião a chegar mas
eu é quem estava chegando no Paraíso, me aproximando de você, minha belíssima
Andreia. O frio a bruma o ar úmido invadiam a condução, entravam pelas frestas,
a ponto indignar-me como possível que os passageiros, exceto uma criança
chorona, dormiam; um senhor perto inclusive roncava mais que o ronco do motor e
o barulho da estrada ao penetrarmos aquele santuário; santuário repito por entrar
na sua urbe tão tradicional e tão bela. Tudo porque diminuía a minha distância
de você, princesa.
Não
sei por que me ocorre tal lembrança na lembrança, menos lembrança da memória
cansada mais de constatação no fato de andar tão próximo do ser querido.
Passei
ontem... ontem! oh o que a loucura poderia afirmar! ontem anteontem
trasanteontem, hoje estou perante minha amada e é isso que soma. Passei pelo
portão no portentoso portal de entrada para esta saída também monumental de nossa
presença, Andreia. Andréia...
interessante lembrar agora este pormenor do acento agudo, crônico na escrita
conservadora dos séculos e séculos por milênios, o fato de não aceitarmos facilmente
mudar as coisas e as formas para dizer as coisas – a explicar aqui o seu
acento, querida. Você se apegara ao nome de batismo, o batismo creio na Matriz
de São Sebastião naquele paraizinho seu a chorar, dizem haver chorado a água
salgada a rolar da cabecinha à testinha no batizado, você a chorar os pais os padrinhos
o padre o sacristão o coroinha a rir seu choro. E imediato quase a escrita
medonha, o pároco preenchera rabiscando mal, ele bom sacerdote, o registro
mas... mas é aqui que a porca torce o rabo falavam nossos roceiros quando havia
roça no país; aqui o problema: ele pôs escorridamente quase a burlar a linha de
cima um acento agudo para fixar de vez como Andréia minha Andreia. Você a família a escola das primeiras
letras da menina que tanto apreciava a professora; a sociedade o costume
arraigado da sociedade, todos apondo o acento no seu ‘e’ virando ‘é’, e assim sempre
e sempre até hoje... Hoje? não sei qual dia. Ontem, antes do portão, da
entrada, da busca e do encontro agora de minha amiga – ontem ainda a escrever
acentuado. Contudo tudo mudara já, inclusive lhe tiraram o acento que a embelezava
na sua beleza; porém você, conservadora como conservador este seu fiel amigo,
você permaneceu Andréia até
morrer... Morrer! ah que susto tive neste segundo a essa referência pois
detesto rememorar por não memorizar também as coisas tristes. Não. Estou lembrando
a Reforma Ortográfica, você fez bem de passar por cima não respeitando e a permanecer
Andréia integralmente; Andréia como antes até ao desenlace... ai, não quero
tocar nesse horrível sofrer.
Todavia
passei pela entrada, a gente a se cruzar cruzando também conversas nas
conversas – e nisto eu de fora (ah meu Deus a bendita Reforma outra vez, o de
agora fora fora ‘fôra’ ah deixemos isso:)
enfim eu de fora naquele conversar da gente de dentro por ser de fora, repito, não
por estar vivo e os cidadãos mortos, credo em cruz! não nem ao contrário eles
vivos eu morto cruz-credo! Em suma sendo então um estrangeiro para aqueles
estrangeiros; isto posto forte pois tão só estranhos, eu sim estranho aos
demais donos da casa. Quis afirmar passar rente à gente somente indiferente ao
meu sofrer... sofrer!? não, meu alegrar indo para você, Andreia. Então falavam
e mais falavam em meio às fragrâncias flagrantes, meu olfato exigente se
insurge contra isso e mais à gente pelo cheiro da gente, ainda bem não suada na
friagem da manhã; então falavam se falavam, coisas do povo: comerciantes citavam
a crise, a pensar decerto na crise que se abatia sobre São Sebastião e não aquela
no restante do país, ou a crise no mundo até, porque somos humanos limitados;
falavam as pessoas sobre arranjos entre elas e mais, bem mais delas – ora como
o homem fala fácil do homem e pouco no homem; as comadres então criticavam as
comadres, criticavam as vizinhas criticavam as conhecidas criticavam a
parentela e lógico lembravam os desconhecidos conhecidos tão somente na tela de
televisão; mesmo porque gente adora falar num falar pleno ou cheio de nada a
ocupar o tempo. Passava o tempo enquanto a andar e... bem, minha princesa,
oportunamente volto a comentar o que me lembrar do contato com a gente, sua gente
conterrânea, eu como gente de fora sem saber melhor da gente; coisas da gente.
Enfim, penetrara o portal, metia-me entre a gente que passava e prosseguia adentrando
a andar em sua direção, oh minha flor rara.
Via,
deslumbrado até, estando na alameda principal e de entrada, suntuosas moradas,
adornadas do brilho do luxo do povo alto diante a pobreza geral desta cidade
como da pobreza das demais urbes no planeta; aquela gente milionária na sua morada
de luxo. Via anjos a guardá-la – e me indagando não seria melhor as famílias
ricas ao invés de anjos ali colocados de asas e expressão nada feroz, porem elas
ferozes soldados a lidar com o povo manso ou humilde através de suas carrancas
e armas pesadas nas mãos grosseiras! não seria? – entretanto anjos não demônios
em cima das tumbas ricas a olhar-nos indiferentes, a gente aqui embaixo a
passar a circularmos todos no passeio público, aqui não falo (e falo também) da
gentalha a passar passando fome de pão, a gentalha em visita aos seus mortos;
eu também na turba indo vindo indo-me a você, Andreia.
No
entanto não iria, tendo vindo a você, permacer a admirar pomposas edificações
em mármore brilhante ao sol pálido matinal (e não estariam igualmente os raios
solares com frio pelo frio da friagem que nos tomava a todos passantes na
alameda ricaça?) não ficaria eu parado num andar lerdo a observar o povo pobre e
as construções caras; e assim continuei na visita me movimentando; até nesse
ponto visita, veja bem minha flor, visita aos esdrúxulos da pomposidade pois ia
a você, não me encontrando ali para os outros vistosos no desfile; aliás eu não
via, nunca vi roupas na roupagem dos visitantes. Aqui tenho certeza estarem
vivos para ver os mortos; e não viam ali lá acolá em todo interior do solo o
morto e menos seus panos na roupagem, claro: passeavam os túmulos apenas. Não
iria ficar preso nisso, pus-me a andar, quase célere, na sua direção. Deixei a
gente procurei a gente melhor.
Natural
que agora melhor informado, fora eu às imediações onde nos encontráramos
antanho para saber por outrem o local certo de sua morada eterna! Andava
portanto firme cônscio e informado rumo ao seu espaço; deixava como numa realidade
perdida a perdida gente passante, enquanto que eu a buscar o sonho.
Cheguei
aqui ao sonho!
Antes
desse sonho, talvez a cunha do pesadelo que fora a passagem pela passagem do local milionário
(neste ponto me mordisquei: milionários sim os vivos e mortos não estarão nivelados
por baixo do horizonte aos demais mortos a decompor sua pobreza!) enfim movimentei-me
dessa passagem para a ala dos remediados. Frente essa outra ala dei nova
mordiscadinha: a classe remediada terá encontrado antes da morte o remédio a
sair da crise constante que vive, enquanto viva; pois vive ela a vislumbrar o
mundo rico e sem peias do consumismo para chegar quem sabe ao planeta da
fortuna. Além da conquista da paz; e o que seria a essa gente a paz – um barco
luxuoso a flutuar sereno na tona de águas mansas? não sei, que sei!
Assim
penetrei qual visitante curioso a parte desta necrópole dedicada aos pobres
menos pobres, sobre os quais iludimos nossa ignorância a tê-los por ricos,
ricos são perante a miséria mas demais necessitados e mais consumidos pelo
consumismo que o estrato altíssimo, neste o fabuloso o suntuoso das capelas aos
mortos erigidas pelos vivos milionários, já lembrado anteriormente por seus
anjos em contrapartida de soldados de mãos calosas de tanto carinhar armas. Não
falo agora destes, doutros: os remediados e aqui a estreitar mais os metros de
onde você se encontra, meu amor!
Revia
então quase o andar da gente visitante; ora, por que não pranteadora, se é que
exista tal palavra e não fira ela melindres doutrem que não se disponham chorar
seus mortos porém, firmes, indo assim mesmo à visita e olhe que não é fim de
ano, quando nos finados se acercam dos túmulos os vivos; não digo lembrarem-se
pois certamente estão os mortos nas orações diárias dos vivos, independente dos
bolsos cheios ou vazios.
Nessa
gente a circular, então na ala remediada, nela ouço as mesmas preocupações, a
mesma temática da crise, os mesmos pendores a destacar as falhas morais ou quem
sabe se não também os valores de quem analisado. Um fato guardo ao prestar atenção
a tais tendências, o fato de que os desconheço. Quis dizer com isso não que
seja a mim novidade que os seres humanos tenham pecados, se pecados, que traiam
que vilipendiem seus irmãos (por vezes parentes de sangue até) que deem tão
pouco valor à honra à dignidade; que sejam fracos ou ignorantes por não
perdoar. Isso tudo ouvi – não seria reouvir! – ouvi no barulho do vozerio e que
a educação periférica amansa um pouco. Agora ouço dos visitantes na ala remediada,
de novo, tudo o que ouvira da gente rica. Creio mesmo ouviria se não idêntico,
próximo semelhante parecido, os da ala pobretona da qual não falei. Contudo,
tais pessoas abordadas têm pra mim uma conotação até engraçada, não fosse a
graça desgraça na cidade dos mortos. É que ouvi tantos a falar a se responder a
se repreender a tratar de suas coisas de vivos na presença dos mortos, no
entanto tendo nomes. O que fere isto uma normalidade e os costumes? É que ao
estranho, eu, tudo estranho, inclusive João Antônio Maria etc. etc. e tal, tais
apelidos comuns e que se vê se escuta no restante do país e até nos outros
lugares do planeta; por isso não deveria espantar-me e não me espanto; no
entanto ouvido de bocas estranhas, são esses corriqueiros nomes só nomes estranhos
porque o nome veste o ser e...
Ah,
estou-me alongando demais, a perder esta oportunidade de ouro a privar com
minha querida Andreia! E você, meu bem, estando a metros apenas de meus pés de
procurá-la; você aqui nesta ala dos remediados.
2° Perante o altar
Cheguei,
Andreia. Estou diante de meu amor.
Isto
não são meras palavras, palavras vazias em meio a palavras que o gentio profere
ao deus-dará ou a preencher o tempo. Não me coloco diante de você – para quem
olho agora com toda a força sentimental de que dispõe um pobre ser perante uma
princesa, sua princesa – não me ponho a afogar um mundo, nós seres humanos que somos
também um mundo com o mundo contido em nós; não, me contenho, a ser claro, a
ser o bastante. Olho pra você e sei que me compreende, por maior fosse ouvido ainda
seu discurso, ainda assim nem essa manifestação suplantaria o todo de seu ser
que sua presença neste momento me revela e me desperta e me propõe: pois você diz
demonstra constrói prova tudo somente por sua presença, mesmo sem qualquer
palavra pronunciada, sem quaisquer sons emitidos que pudesse exortar. Seu ser
já tudo sugere. E isto é para mim a prova suficiente a fim de que eu creia e
consiga deste segundo em diante manter consigo nosso diálogo, Andréia! Veja pus o acento no seu
acento para configurar melhor este momento e os momentos que se passaram; e,
note, passaram-se noutros tempos nas décadas atrás.
Contudo,
amor, não sou de expor-me como se expõe a gente comum, mesmo sendo este seu
amor igualmente um ser comum. Esclareço a melhor entendimento: não irei inundar
num dilúvio molhando este solo santo, ainda mais na sua presença, com minhas lágrimas...
Muita gente, grandes parcelas desta humanidade sofrida, exibe o choro a
expressar emoções. O homem chora fácil. O homem como um todo, a mulher, diz o
macho da espécie ou oposição consumada, a mulher ainda mais que ele (isto mui
relativo em a nossa sociedade e nos costumes deste século). Chora
desbragadamente qual cachoeira, como rio, a formar lago para mostrar sua dor.
Ora a dor é inerente à nossa existência; sim, você tem razão: nós nos
acostumamos com o choro, o choro é demonstração da dor e, interessante, se
manifesta também na alegria. Agora por exemplo, chorasse eu neste encontro,
reencontro, fá-lo-ia por felicidade. Porém digo do mundo, falo no mundo em
mundo de sofrimento e daí a consequente dor. Oh pobre mortal! Sejam portanto no
meu falar, conversando com a minha bela, sejam as palavras nunca palavras
molhadas por lágrimas de amargura de desdita de desespero de negativismo, se
não o chorar sem lamentação e de lamentação somente expressa pela força do
vocábulo. Isto porque ao homem comum é dado o direito à fraqueza e à
demonstração de sua fragilidade. Seria como uma explosão na implosão que ocorre
pelo peso dos acontecimentos, por vezes acontecimentos pesando toneladas! o
homem não aguenta.
Aqui
neste local, neste imenso depósito de corpos sem vida ao prazer da vida dos
vermes, aqui o que mais se vê é o choro. Tanto assim que por anos fugi vir
visitar o campo-santo onde os seres lamentam e molham o chão com suas gotas, ao
haver perdido o ganho que eram (e deviam continuar a sê-lo) os seus entes
queridos, tolhidos benditamente pelas forças divinas; entendam ou não assim os
homens.
Basta
já este descuido da coragem.
Volto-me
para você, Andreia.
Resumindo
estou aqui, oh eterna namorada; estou como disse sem lágrimas, nem com as do
fraco nem com as do entusiasta, este que expele o sentimento também molhando
pela alegria sentida num reencontro – entrementes andarei apenas no choro que
possuir cada um dos termos proferidos, repito insisto.
Isto
posto vamos não a este reencontro porém àquele nosso encontro primeiro que
agora relembro.
Cheguei
a São Sebastião naquela tarde-noite. O tempo chorava, ele a verter suas
lágrimas, verteria em a noite imediata daquele dia; parece isto uns versos de poetastro
ou sonâncias desnecessárias? Bem, que me importa? importa o advir nessa
chegada: o tempo ameaçava em virtude da desvirtude dum temporal e tomei a mala
no bagageiro do ônibus a ir demais apressado – e aqui registro, era semelhante ao
homem comum que eu representava, igual a ele no temer o trovão o solão a
solidão de sua solidão... Hoje vejo meu
ridículo a deixar o veículo e o burburinho dos sons da rodoviária, eu correndo...
correndo para você! Na verdade sequer ainda sabendo sua existência, Andreia.
Chegara à nova rodoviária na Avenida Engenheiro Martoni, desativada a antiga
pelo prefeito então morto... morto! ih me arrepia a ideia. Corria para você. As
rodinhas da mala (eu não adquirira o transportador de bagagem com rodas, então
modismo a nascer aos costumes de viagem; não comprara um a fim de ir vê-la,
desconhecendo então o tesouro não possuído ainda e ignorando até a sua terra,
que dirá saber de mulher tão bela e virtuosa); dizia agora que as rodinhas da mala
de viajante pobre, eu, que elas provocavam o barulho conhecido pelo atrito do
peso da bagagem com o asfalto mal posto na rua. Ia rumo ao seu hotel, rumo a
você (diz o poeta “eu era feliz e não sabia”) eu disso não sabia.
Da
rodoviária até sua casa dista apenas duas quadras mal medidas e acanhadas, sabe
bem disso você; eu desconhecendo nessa quase noite, cansado pelo meu trajeto
dia inteiro, lógico. Haviam indicado, inclusive mostraram a placa do seu hotelzinho,
via-se bem tal placa dali do coletivo parado a vomitar nós passageiros do seu interior
para o exterior, este que seria depois para mim o Paraíso. Corri da iminente
tempestade – a qual ensurdeceria com seus gritos de coriscos nervosos a população
daquele pedaço do céu onde ambos estávamos, meu amor! – corri puxando a mala,
cheguei ao seu bar. Ora, não existe poesia que aguente um prosaico bar.
Portanto iniciei essa temporada alegre triste na decepção. Via, vi um balcão
pobre, não sujo mas pobre, gotas exalantes de cachaça escorridas de copos
servidos e ainda com seus restos; vi o pano usado, usado na constante limpeza
da sujeira líquida e da poeira decerto acumulada naqueles dias até o dia, meio
noite já repito já; vi... antes ouvi o rumor o barulho de sons desencontrados
que é o de um magote de bêbados ou só fregueses (iria aqui afirmar clientes!
pior que isso diria pacientes, pacientes à espera de completar seus assuntos
intermináveis... ) Vi isso notei isso, anteriormente lá fora havia pedido a um
de seus fregueses me informasse onde o hotel – e não seria, pensei, o tipo de
‘hotel’ tido por espelunca como já houvera caído nas viagens anteriores; ah
menina, tornarei à questão dessas viagens que fazia pois você desconhecendo não
me conhecendo então não apenas elas, inclusive a condição deste seu amor, eu;
eu que aportara ao Paraíso que me representou daí em diante você. Vi isso,
insisto no descrever o que descrever da chegada a você. Vi cadeiras fora do
lugar, no lugar mesas limpas até, porém mambembes; enfim tudo pobre ou que seja
longe duma descrição de local de primeira categoria nesse ramo, sem ‘estrelas’
digamos. Vi o chão, este sim sujo, trecos espalhados dos fregueses, pontas de
cigarros, havendo percebido mesmo cacos de cacos de recipiente de vidro onde depunham
a aguardente e alguma cerveja, esta amiga do pobre e os pobres de fato num ambiente
pobre nesse atendimento comercial. Vi a fumaça não vi o cheiro, o cheiro
existindo da bebida. Vi tudo isto, vi isso, sem desejar embora agora tão só
sendo honesto na minha apreciação, sem desejar comparar e descrever a nojeira
humana dos bares de periferia com seus pinguços e mandos e desmandos... Quis
apenas mostrar como de certa forma me indignou tal ambiente encontrado, eu a
chegar – e a já me encostar e nisto não pretendo esconder-me da característica de
um brasileiro, brasileiro, falam, nasce cansado; no meu caso, caso interesse
tal exemplo, andava desejando um barranco a me encostar na estrada; aqui
literalmente desejando onde apoiar a musculatura desgastada. Sim eu a chegar da
viagem e achando um mármore, granito sei lá você sabe, enfim um encosto. Encostei-me, vi o que vi e
vi, não o que não queria ver mas vi, vi a mulher mais bonita do mundo! Subi,
minha visão subiu, desde aqueles dedos bem feitos, desde aquela mão direita
perfeita eleita por mim imediato a de maior beleza até aí, vencidas tantas décadas
na existência; o cume do belo. Contudo, esfriei-me gelei apatetado num pormenor
nesse momento: trazia o dedo, no lugar de praxe do dedo da mão direita, uma
aliança de ouro! Morri ao nascer.
Esta
observação iria permear todo nosso relacionamento, o qual nascia então e que se
estenderia por tantos meses e anos até aqui neste momento, minha Andreia, até
aqui quando nos reencontramos, passado a entrada a alameda dos ricos com seus
anjos sem carrancas de soldados; e a gente a andar a passar a passear a visitar
os vivos seus mortos, no aguardo tais vivos sejam os da ala milionária sejam
quem sabe aqueles da paupérrima ou os desta ala dos remediados, remediados vivos
fugindo da pecha de ricaços, isto visto por olhos da pobreza, minha cara Andreia.
Daquela
mão, a mim agora apócrifa (ou proibida...) a partir daquela mão abarcava o todo
de uma colossal representante ou a maior e melhor entre representadoras da
fêmea da espécie Homo sapiens.
Apreendia, via vendo agora o todo da mulher, a mulher de meus sonhos, os sonhos
que se habituaram exigir a perfeição, e a perfeição ali estando a apenas um
metro de meus olhos; olhos cobiçosos? olhos de joelhos em terra, olhos molhados
nos desejos, se não honestíssimos inconfessáveis... Vendo a íntegra do que
subia desde a mão direita a segurar um banal copo sujo usado malcheiroso de bebida;
a outra prendia com dedos delicados belos perfeitos completos limpos (por sem
anel) um paninho, imaginando eu abusivamente ensebado! não, não cheguei talvez
sequer pensar nisso só vi, só vi o conjunto de mão esquerda belíssima e ágil no
segurar um tecido pra limpar a superfície do balcão de um prosaico
estabelecimento comercial.
Dela,
delas ambas com aliança sem aliança de compromisso, e da superfície do balcão
com seus copos e respingos alumiados pelas lâmpadas ao teto; das mãos subiam
por braços fortes e mais fortes por belos subiam meus olhos até o resto do conjunto,
bem mais que arquitetônico por de acabamento esmerado e divino pela natureza – ali
um corpo de mulher! Era o imaginário não imaginado ainda e nunca concebido,
entretanto acabado pela perfeição na percepção e concepção da conclusão do amor.
Amor aqui tão só apego de sentimento, de atração, de imantação, próprio dos
homens comuns presos na terra fria a seus pés, colocados plantados grudados lá
embaixo a idolatrar aquele bem da perfeição.
Assim
vira, Andreia. Assim na chegada daquela saída ao percurso dos anos dali até
esta parte neste reencontro, oh flor de meu jardim!
Ali
no balcão no bar na entrada do seu hotel, o viajante perdido num cansaço de
horas e horas na estrada vinha conhecer sua região; a bem da verdade me deslocara
para lá (aqui neste município) em rotina, a conhecer novas e outras partes do
país; iria ainda conhecer demais localidades sim, não entesouradas com andreias
mais e com outras belas mulheres, nisto ainda a ressaltar a perfeição em matéria
das formas femininas a verdadeira Andreia.
No
entanto suspendo um pouquinho a narrativa desse extraordinário encontro, o encontro
nosso, a fim de esclarecer o conhecer, visto haver usado demais essa palavra.
O
homem comum abusa comumente a falar conhecer os lugares as gentes os países e
abusa no abuso garantindo conhecer o universo. Esse o seu universo. Não
obstante nada (com toda expressão do negar) não obstante nada de fato conhece;
nem a si mesmo. Contudo fala destravadamente qual uma sumidade conhecer uma
urbe, apenas por haver passado por ela; quando muito parou a circular um pouco,
a tomar um sorvete a olhar sem compromisso a gente a circular perto ou longe da
mesa da taça da guloseima, guloso e pior: garantidor das certezas do que vê.
Não vê, superficial. Nunca conhecemos, in
totum! qual, nem por fora, ou seja a superfície da gente e da coisa. Assim
afirma ridiculamente conhecer pessoas e as cidades das pessoas. Sendo apenas um
‘conhecer’.
Dessa
maneira, qual homem comum, o homem comum que eu representava, representava o
ambiente os homens e a mulher que via.
Não
estarei nisto sendo demais exigente?
Porque
ali naquela chegada meio intempestiva e a puxar a mala com rodinhas, rodando
pelo cansaço de todo um dia na estrada aos solavancos; sim porque, embasbacado,
entrava em contato com a forma mais bela do pequeno universo do homem no
universo que era, é, você Andreia. Ah que pena não ser eu poeta a poetar melhor
a grandeza daquele abençoado instante! Perdoe-me não poder ser poeta e portanto
lírico, a fim de apreender o cerne, permanecendo apenas no conjunto, do qual minhas
deficientes palavras não conseguem sequer vestir as ideias e ideais e menos ainda
os sentimentos do sentimento que tive.
Tive
e tenho; nesta sua presença na minha presença.
3° A escada
O
céu subia ao céu, o céu subia na forma feminina bem acabada à minha frente... A
velha estória do feijão que germinara crescera atingira nuvens adentrara além
da atmosfera penetrara o céu, não seria o que vendo diante de mim na escada, me
indaguei no pensamento e pelas batidas dum coração necessitado de carinho e de
conforto, não seria então mera estória do tipo contos da carochinha mas
história com alicerce nos fatos comprováveis comprovados ali na minha frente!
Porque aquela mulher madura, madura no sentido de não ser uma jovenzinha
ingênua porém com todos seus dotes físicos e seus encantos a propor... ah deixemos
disso: estava agora na minha presença um ser pleno belo nas formas e com sabedoria
que a experiência fornece para defesa ou somente a se livrar dos empecilhos e
sobretudo das setas que sugerem o avanço na conquista dos machos no planeta.
Aquela mulher não sendo uma jovem incauta na mão de espertalhões nem sugeria
tal ao viajante recém-chegado nem por outro lado uma vampe velhaca maliciosa
maldosa ah longe disso: seu aspecto mostrando a bondade (o que fácil saber pela
leitura da psicologia que temos em nós) também o ser perspicaz e cônscio de sua
beleza, ciente das artimanhas da natureza para se defender; quem sabe se não
dum estranho a lhe chegar no hotel com bagagem e cansaço. Senti isso quando
subiu, já do segundo degrau para o terceiro lance daquela escada de cimento
frio que se enrolava feito serpente encaracolando ao fundo, para irmos ao pavimento
de cima onde os quartos, não mais que meia dúzia e todos desocupados então;
quando, aí se voltou pra mim com toda sua integridade e a expressão de pressa e
de imposição talvez, visto seus ébrios fregueses terem permanecido no salão do
bar ali no piso do prédio e não se pode confiar que todos pudessem estar apenas
sóbrios ou meio tocados, sem poder ela averiguar o quesito honestidade, então
entende-se andar (parada naquele momento a me ver me explicar a me propor
regulamento e acomodação) entende-se semelhar meio aflita, ou que o relógio
também desse lá seus palpites... Não abarquei tudo isso no instante, não
conscientizei tais problemas: vi à minha frente uma sereia, um fenômeno
escultural. E minha fome era grande, enorme...
Como
eu relataria ou resumiria essa beldade circunspecta, a tratar o mínimo de sua
problemática e os encargos de sua direção ao mesmo tempo da hospedaria e do bar
com seus dramas; e ainda o drama de se encontrar sozinha no meio daquele abuso,
assim vistos por ela os homens pelo fato de os homens serem abusados diante da
graça da beleza e da solidão; soube mais tarde que a família viajara e lhe
tocando gerenciar os negócios, inclusive ter mãos fortes diante aqueles
fracalhões embebedados. Agora surge um freguês diverso a desejar e mais que
isso a precisar acomodação, já em plena perigosa e barulhenta chuva a cair lá
fora. Os relâmpagos interrompiam devolviam alternadamente energia elétrica à
rede; por esse motivo a jovem a mim voltada desaparecia segundos e segundos
após era nova e parcamente iluminada, enquanto eu gravava a silhueta dela na
memória. Tudo isso e a par aquela proprietária da hospedaria falando firme
dando-me instruções enquanto se ouvia não tão longe a balbúrdia dos homens no
salão e no exterior nem as conduções se aventuravam, temerosas, a circular –
parecia ao viajante a disputa das ordens imperantes da princesa com os gritos e
conversas que deixáramos no bar, o bar que fora minha chegada e a entrada no
paraíso.
Não
obstante estas linhas, tive dificuldade enquadrar artisticamente a mulher para descrevê-la
qual pintura ou fotografia nos seus lindos traços. Aliás esta é uma dívida ou
apenas dificuldade que sempre tive, a de explicar para alguém ou para alguém
passar informes. Piormente pra mim a falha não me atinge somente a expor essa
mulher bonita sim a mulher e o resto da humanidade que conheço (ora, outra vez
as distorções do conhecer!) Enfim, posso comparar a uma deusa a Andreia que se
encontra parada no limiar do terceiro lance da escadaria nos levando do bar ao
hotel propriamente dito, com sua placa que não pudera enxergar pelo escuro no
escuro e pelo escuro da iminência da chuva que derramaria; tal placa lá em cima
do prédio podendo ser vista da rodoviária na qual chegara minutos antes dizia
“Aluga-se Quartos”. Nisto cabem críticas porque deveria ser “Alugam-se” ou seja quartos sendo
alugados. Não vi não li, ali estávamos nós ambos agora. Ela me olhava sem
espanto, espantado eu sim com tanta beleza, a beleza inclusa nas suas maneiras;
olhava firme, direcionada, mestra como hospedeira e no trato mundano a usar os
artifícios da educação diante um estranho, eu. Contudo de fato posso fazer uma
leve comparação dessa deusa na minha frente se mostrando um exemplar de estátua
em obra-prima, mas não estática nem petrificada ali na escada entretanto com movimentos
quase imperceptíveis; pretendo compará-la a uma figura marcante aí pelos anos
sessenta do século passado na arte cinematográfica, a Brigitte Bardot; o que me salva um pouco não saber descrever com
engenho e arte os fragmentos e o todo da jovem; somente podendo acrescer nisto ser
Andreia mil vezes mais bela que a atriz ora lembrada. E garanto, hoje posso
garantir – minha Andreia era e é ainda muito mais pura!
Tanto
assim que ia, a subir os lances da escada de ligação com os quartos lá em cima,
subindo ao céu.
Do
lado de cá do céu – o céu parado embora e no movimento a subir a escada
enrolada a dar volta sobre volta a abrir caminho ao pavimento superior, o céu era
a moça então de mim desconhecida e apenas me propondo seu ar de deusa (deusa do
amor...) O paraíso se propunha ser além dos lances da escada torta e fria no
seu acabamento de cimento – do lado de cá enquanto a diva subia, eu descia a escada
na escala social. Ruminava na ocasião minha perda a tentar ganhar viajando
viajante sem rumo, mais ou menos sem rumo visto encontrar no caminho uma deusa
da beleza na beleza de extasiar meus olhos mui famintos...
Narro
a você, agora perante este altar onde se encontra, imponente, bela. Narro pois
você desconhecia o antes e sequer conhecia o estranho de ontem, ontem anteontem
trasanteontem. Você não sabendo quem eu era, era ali então somente o viajante
apressado a fugir da chuva e do cansaço das estradas na vida, a pedir-lhe, a
lhe implorar talvez o resguardo a guarida de um quarto um banho um descanso um
sono um sonho a escapar do pesadelo; pura e simplesmente desconhecia meu
pesadelo, estando na sua frente e você a esperar-me que também subisse a escadaria
consigo. De início nesse quase final no meio de minhas viagens, mesmo o próprio
freguês... ah isto não é esdrúxulo por demais banal! mesmo o próprio se espanta
no fato ser um mero freguês e nisto até a sentir em mim mesmo o exalar de
bebidas de cheiros adocicados, senti-me um canavial andante, a rigor estava tal
qual a deusa à minha frente parado, parada ela igualmente no segundo lance para
o terceiro; ambos se vendo quem sabe se medindo, crendo apenas eu ser na dupla
a implorar carinho quiçá amor a uma fêmea na espécie dos deuses do Olimpo,
então reunidos na linda São Sebastião, Paraíso dos mineiros. Sim, de início
naquele trato de hospedaria o próprio freguês desconhecendo tanto a frente
quanto sua traseira, esta traseira como fosse uma soma dos anos do tempo.
Explico-me. Não há momentos em que nós seres humanos nos esquecemos e quase,
infelizmente o quase, quase fazemos tábula rasa esquecendo o anterior
sofrimento, este com suas mazelas dores experiências amargas, para então
começar nova vida; aqui a confusão frequente que o homem comum faz entre
vida-e-existência, não sendo este texto proposto à proposta de discutir
filosofia mas o amor, e assim retornemos ao instante fugaz e por pouco não
existente dado ser tão fugaz e ser um triz somente enfim – em que fazemos desaparecer
o tempo atrás e só medimos o instante, o qual se abre belo a sorrir o futuro à
nossa dianteira. Por acaso... o acaso acaso existe? por acaso o futuro se chamando
Andréia; até acentuando para
ferir a sargentona Dona Reforma com sinal agudo, mais ainda para dar significância
à jovem deusa a me esperar ao céu.
No
entanto saía... ai, saía! deixava atrás o inferno de anos passados. Sim, meu
amor, você não podia abarcar isso que proponho narrar numa síntese, não podia
tendo à sua frente um homem estranho e por estranho sem nome... sem nome! puxa,
menina, você logo feriria, feriu, a lei dos homens, ciosas criaturas adeptas da
letra que mata e não do sentido que vivifica no dizer de Paulo. Pois que
deveria preencher a ficha com dados do freguês, por maior cliente fosse era um
freguês desses de chegar dormir sumir a continuar a ser um desconhecido. Sim,
infiro que a hoteleira saberia o básico sobre o freguês consultando nos
documentos dele o nome a profissão a origem o destino (ah o meu destino seria
você!) isso e mais alguma coisa que se põe na ficha oficial policial, legal. Aí
feriu a lei, sequer registrando o hóspede, eu, na ficha; o livro de anotações
ali arreganhado na entrada, o livro a favor da lei. Ora, tem razão: também o
hóspede um fugitivo da lei por ferir constantemente a lei.
Verdade
que você a subir, eu descera a escada. Não existe um pensamento já gasto tanto
o uso o abuso de ninguém poder sentir a luz sem antes a sombra!?
Contudo
resumo a sombra para que agora neste nosso reencontro não sofra o que sofreria
caso soubesse quem era o hóspede que você aguardava, paciente, na escada apesar
de estar ouvindo ainda a gritaria freguesa que a chuva deixara passar no seu
tropel de trovões abusados numa espécie de acabar o mundo; havia enfim suas
preocupações outras e a preocupação com aquele freguês estranho indeciso. Veja,
terá maior absurdo que um homem frente ao céu, indo ao céu, mas indeciso!!
Pois
o estranho, não seria aqui um estrangeiro? Antes vira, não podendo falar revira
visto ser ‘estrangeiro’ no cemitério de São Sebastião a gente a se falar e me
senti um estranho; e conjugado à ideia, sendo eu um interiorano paulista a
estar em meio do povo paraisense, chegaria a ser estrangeiro? Não respondo, respondam
os que possam.
Pois
esse estranho fugia, fugitivo não da lei... você iria se assustar ter ali um
ladrão um criminoso! fugitivo da lei do equilíbrio. Em suma fugia da harmonia
social – passando tempo a viajar; e meio por acaso existindo acaso, o viajor veio
a se deparar com a região sudoeste mineira, onde (isto só mais de anos fiquei
sabendo) onde existindo pra mim um pouco a urbe de São Sebastião e muito,
muitíssimo, você, Andreia.
Direi,
para ser isto de fato uma síntese, que fora casado, desentendendo-se o casal, a
parceira saiu do lar deixando uma casa (advogo que uma casa sem família não é
propriamente um lar). Por ficar sozinho, andara ao deus-dará, chorara até; e
isto coisa feia para homem, então à sociedade o macho não deveria se pôr em
lágrimas, coisa de mulher... contudo, confesso minha fraqueza, chorei a fuga da
esposa. Abandonei a sociedade dos homens retos probos honestos públicos a virar
andejo, um estranho; me abandonei. Reagi: pus a seguir o pé na estrada, fui agora
como gente decente conhecer todo o país, a fugir da solidão como viajante e por
curioso; piormente sem dinheiro. Com dinheiro gastaria dinheiro nos cassinos
internacionais ou faria trapaças e atrapalhadas a me sujar moralmente.
Recolhi-me optando entretanto por uma fuga com ganho, o ganho de passar por
outras plagas desconhecidas em nosso país. Foi dessa forma chegar aqui.
Aqui
estou agora perante a maior deusa do Olimpo.
4° Finalmente o
Paraíso
Tinha
à minha frente na escada a subir subir subir a dar vetigem naquelas pessoas que
têm medo ao infinito ao profundo ao vazio por desconhecido; tinha o viajante diante
de si um monumento semiparado que você me representava! Natural aqui haver
algum exagero poético ou filosófico ou louco consumado. Contudo sobravam o
terra a terra o chão a verdade do que via, observando o encaracolado da escada
a se impulsionar para o alto, o alto onde o andar superior com o inferior
aspecto de contar apenas com cinco ou seis quartos a hospedaria sem estrelas;
com o valor básico de me ofertar a maior estrela possível ao homem comum que eu
representava, a maior do universo, abusemos, a maior do céu, abusemos melhor,
ou a maior tão só do Paraíso em que nos encontrávamos.
A
bem da verdade viajante – aqui infiro uma conotação engraçada inclusive, que é
ser viajante e portanto móvel e no entanto o viajor parado até estatelado vendo
à sua dianteira a ameaçar alçar o terceiro lance, a iniciar movimento e não petrificada
numa obra-prima, certo, mas de carne e osso porém num como que levitando a
mexer com meu pobre coração desprevenido – sim, a bem da verdade fora (se a
Reforma me atendesse grafaria fôra)
fora, de fora para dentro do seu município; eu fora não em visita a São
Sebastião apreciar melhor o Paraíso nas Minas Gerais. Noutra forma a dizer o
mesmo, mesmo porque o ser humano desvirtua pensamentos usando mil maneiras a
afirmar o mesmo (o caboclo que existe em nós ruge a dizer isso ser
embananamento, enchimento oco de linguiça – curvemo-nos à sabedoria matuta:) enfim
quero registrar que não tinha como destino viajar-conhecer São Sebastião; ou
até que sim dada a importância da região. Entretanto não ia direto para sua
terra, da minha terra paulista vindo, em não ser por força do destino, Andreia.
Andreia, meu amor, acredita no destino, a maioria ou apenas a minoria? ela
acredita sejamos impulsionados ou empurrados pelo destino. Escrevo de ora em
diante então Destino com D maiúsculo. No entanto não creio, estando dentro da
maioria ou da minoria e não importa isto, dessa maioria-minoria que nega. Não
creio. Crê! indago e repito. Seja lá o que for que pensa que penso e que pense,
nunca me afirmou sequer negou essa força além da força humana ou somente da
força de sua compreensão; seja lá, o fato é que cheguei à sua cidade; assim me despejaram
com a bagagem a mala de rodinhas temerosas da chuva na rodoviária, donde fui
parar no céu... ah o céu! Bem, sintetizando não vim de São Paulo especialmente
ver esta cidade mineira – ou dito doutra forma: visava Passos, decolara (outro
abusinho poético, a poesia nada resolve porém existe, como a me fazer decolar
num ônibus intermunicipal cansado da estrada nesse vaivém incessante; sendo
preferível ser passageiro a ser motorista para enfrentar o rotineiro; e não
seria por essa razão o chofer andar carrancudo para meu lado!) enfim saíra da
Franca paulista com destino a Passos mineira, ótimas e belas paisagens a
defenestrar corações agoniados iguais ao meu coração. Dali, quer dizer de
Passos, olhe o viajante voltando, não para São Paulo, de novo na estrada tornando
no seu sem-rumo rumo a São Sebastião... Aqui torno ao pensamento da força, da
imposição do Destino. O que importa mesmo é haver sido ‘orientado’ pra si, minha
flor.
Estava
aqui, aqui lá na sua casa na escada para o andar superior; não o aqui destes
túmulos abrilhantados de estátuas angélicas mas pedra, mortas a avivar os ricos
mortos (como! a poesia não será também uma forma louca à vida!?) Não. Não isso
nem aquilo de os soldados serem carrancudos a antes de matarem nas armas
fazê-lo fazendo cara pesada feia assustadora a alegrar a violência e a morte.
Pois que eles poderiam estar montando guarda em lugar dos anjos, os anjos também
indiferentes aos vivos que no passeio à necrópole não a visitando e nem aos
corpos vendo (o contrário disto seria absurdidade) – tudo dito, dito de minha
entrada, antes de estar neste reencontro nosso, meu amor.
Aqui...
aqui é lá na sua hospedaria; os bebuns a se implicar e vomitando seus
impropérios, você aflita me vendo e vendo no ver um novo freguês a aquecer
revirar lençóis num dos quartos que me ofertaria a passar a noite o pesadelo a
tempestade barulhenta, a rivalizar essa tempestade com fregueses berrando suas
respectivas razões na sem-razão alcoolizada. Lá a escada, você a subir, eu a
subir feito cachorrinho atrás de você ao nosso paraíso. Com razão, razão dum
estranho e daí indecisões mais, com razão o viajante a submeter-se ao seu guia,
à sua guia, porque como falam nossos caboclos: galo em terreiro alheio não
canta, baixa a crista. Seguia, segui – oh e com que satisfação! – segui Andreia
ao céu.
No
superior pavimento, você não percebeu não deverá ter sentido porque nos acostumamos
até com nossos respectivos cheiros que dirá com o cheiro de nossa casa nossos
pertences vistos e cheirados todos dias. Pois, garota, senti um cheiro ácido de
residência fechada sem ar que não seja o ar úmido do tempo, por tempo trancada.
E me irritou, pus-me, lembra-se? pus-me nos atchins usuais, a avermelhar o
nariz molhar o lenço (aqui devo ter-me avermelhado não especificamente o nariz
sim no todo, com vergonha de você, o que uma bobagem sem tamanho porque não se
envergonha alguém na presença do seu amor. Ora, como é, era, que o viajante
saberia do amor não sabendo sequer de você?) Mostrou-me os aposentos, escolhi
logo aquele, sim aquele logo geminado ao seu... Embora, meu bem, soubesse você tanto
quanto eu eu desconhecer que morasse no contíguo quarto ao que o viajante
escolhera. Todavia, não será nisto também imiscuir-se o Destino!
Veja,
meu anjo, tudo corroborava a entendermos que você era para mim; eu sendo já
seu. Numa entrega gostosa, agradável ao coração.
Nem
tudo, apesar destas linhas tenderem a vários encontros e à tanta atração, nem
tudo foram flores...
Encontrava-se
o viajante realmente num céu. A estrada e mais muito mais o pretérito não tão
distante ainda, tudo feria o homem agora a se esticar na cama limpa e bem pelo
asseio encontrado na hospedaria mui pouco estrelada; nada exagero a um ser
estressado. Este vocábulo é abusivo por excesso no uso indiscriminado hoje em
dia; no entanto andava, agora parado esticado nos lençóis brancos limpos
cheirosos até (ou me esquecera da ardição na chegada) agora no pavimento por
cima de copos e bocas a serem ralhadas pela gerente bela do feio bar; decerto advertindo
com dedo nos seus lábios para atingir fregueses que ignoram a lei do silêncio
após as vinte e duas horas. Pranchado meu corpo no colchão, a relaxar porém ainda
na fossa, assim diz o povo quando a mente cansada e pra baixo; ainda sim, mas então
o céu abria-lhe e sugeria um renascimento da coragem. Graças à sua presença,
Andreia. Em vista disso o estar no paraíso.
Ah,
terrível memória, a memória que nos faz esquecer a data o pagamento o honrar
compromissos, essa memória em lindo desmancha-prazeres aclara nem tudo ser
flores, já dito; porém não invalidado...
Houvera
percebido em si, mais especificamente no dedo adequado na mão direita, como é
praxe, houvera visto como num ferir-me e me espantando de início naquele início
da chegada – a aliança de noivado! de ouro, cintilante, inclusive o que não
diminui o ‘crime’, crime a um coração demais sentimental e necessitado,
diga-se. Então, me falei tapei e tapeei a orelha do pensamento, então esse colosso
feminino de um esbanjar beleza e encantos, então ela é comprometida (chorei um
sinal de exclamação, me apiedando de mim mesmo...)
Agora,
depois da insônia do rolar do remexer panos ou seja noutro dia de manhã a
fumegar o café que você, querida, me trouxe a despertar meu sono – se fosse o
pesadelo não conseguiria – nesse depois, já então num xô chuva o sol atirando
seus raios pelas frestas defenestrada parcialmente a janela (nisto um pleonasmo
bobo) – depois ela, o anjo bom, ela me esclarece as coisas próprias de
hospedaria sim e também a confirmar ser noiva dum tal de... ora bolas, a
memória me ajudou demais esquecendo o nome do rival; e que importa este, me
recordando o inteiro no apelido Andreia?
Este
seria o primeiro e mais grave até aí entre os espinhos.
5° Dia daquela noite
Naquela
manhã daquela noite daquele dia, dias e dias a pensar depois, após entregar-me
à minha rotina e isso já no meu interior paulista a sofrer sua ausência;
naquela manhã não tendo ideia do que viria, então teoricamente descansado da
viagem da chegada da rodoviária da tempestade mas cansado da noite propriamente
pois que me revolvera revirara revirando-me entregue ao meu pesadelo e isto
pesa toneladas, toneladas de metal ou de pena – a tonelada por mais mansinha
lhe seja a matéria da carga, a pena leve desprendida do pássaro desgarrada na
luta do acasalamento ou a carga do chumbo da arma do soldado carrancudo a
espantar anjos na capela, assim mesmo pesada – continua tonelada; o que pesa um
desconforto e sofrimento na cacunda em carga sobre ombros frágeis, os meus
naqueles tempos difíceis, oh meu bem.
Naquela
manhã, soprara o hálito quente cheiroso vaporoso do cafezinho que trouxera meu
amor, à guisa de espantar o sono do hóspede e o fizera por simpatia, não é
Andreia? ah não responda imediato porque quem sabe a resposta não faz a pergunta,
sei fora por simpatia; podendo que fosse a cumprir o regulamento de a
hospedaria fornecer aquilo que os lusos chamam primeiro almoço, era minha
primeira refeição; de maneira alguma rechonchuda reforçada pesada tal qual a europeia
a incluir carnes etc., a minha quase frugal magra leve (tapeadora!) composta do
comum de se ver: café não ralo e cheiroso, o pãozinho, a manteiga imitada como
tudo no capitalismo no consumismo por margarina com sal, você não me indagara,
má garçonete, se fazendo regime se combatendo graxas desnecessárias e até deletérias,
não me perguntara se acaso não iniciava meu dia lastreando a natureza com
frutas da época – e era meu caso – laranja banana mamão e nada de frutas outras
caras importadas ou de gosto no costume europeu a agradar burgueses brasileiros.
Não. Sim, pôs-me à frente em cima da mesinha acanhada com panos alvos brancos
secos limpos o pires a xícara exalante o pão moreninho tostado já na
panificadora, o pote de margarina, somente, e... não, os mosquitinhos atrevidos
desses zumbidores e teimosos (você toca volta senta) isso eu mesmo fiz assoprei
os brutinhos e pus-me a comer. O relógio...
Ah
o relógio, teimoso, desse tipo de pegar em nossos respectivos pés, os meus pés
com chinelos eu digo você dizia então chinelas. O relógio torturador num
tiec-tiec-tiec interminável ele fazia assim por teimosia ou eu enfastiado do silêncio
a dominar a manhã. Indicavam seus ponteiros 7:35h, dizendo eu; você afirmando
faltar vinte e cinco minutos para as oito, ele não estando nem aí ou com as
horas ou com o casal ali a conversar; porém falando o estritamente necessário,
ela desembaraçada a dizer ter abrir o bar às oito horas e dando, rapidamente,
outras instruções a mim; enquanto eu a falar meio travado com freio de mão
puxado prendendo um pouco a velocidade dum carro, envergonhado por vergonhoso,
tímido garante a linguagem escrita ou sonada. (Não há ‘sonada’, invento, existe
agora assim grafei para garantir garranchos a emitir sons).
Eu
continuei ali naquela cozinha estreita adaptada ao gosto de hotel pobre,
continuei sentado sonolento morno por minutos-horas – a pensar meus
pensamentos. Faria o comum do fazer: fumar um cigarro ou acender outro nele,
deixando a cinza no pires e até na borda da xícara seca de café apenas com gotículas
dessas que imantam insetos voejantes sempre teimosos ou a gente que é
implicante não sei. E a fumaça voando esbranquiçada e fedorenta. Não. Não
fumava nem fumo, talvez tendo outros menores piores vícios a alimentar os
vícios da imaginação, aqui não me detrataria hoje, não fumava após o café; via
não obstante no passar tempo, passar pois matar tempo não gosto por lembrar
morte; passava as horas vendo o que para mim sendo novidade as novidades, como
o ladrilho posto em piso frio liso no solo, o azulejo de cor clara perfazendo
desenhinhos por volta e por todo cômodo, cômodo muito mais eu ali sentado vendo.
Ah sim, tive aí um probleminha, precisando sanitário e não encontrava onde um e
a dona então já no seu bar, não me lembro como resolvi a questão, questiúncula
nem merece ser relembrada por isso agora não lembro. Continuava sentado observando
o todo, via o vitrozinho, a porta semiaberta de madeira maciça pintada de
marrom, o que achei de mau gosto no seu gosto, minha Andreia, ou a cor na
escolha de sua família a viajar nesse dia, não: saíra no dia anterior lhe
deixando a apascentar aquelas ovelhas desgarradas fedendo canavial curtido; e também
lhe deixando meia dúzia de quartos vazios de hotel sem luxo nem estrela; agora
com um hóspede, ali a ingerir a refeição matinal, preparada por mãos de fada...
Via paredes, brilho nas paredes, cores, cheiros, cheiros não via vendo só no sentido
de sentir, vendo a coloração as tonalidades do que me rodeava. O teto de
madeira em tabuinhas pintadas de bege ou creme (sei lá, não sei de cores se não
no mais ou menos das coisas; tal qual vestimenta humana na qual me embromo ao
descrever) enfim tudo pintado em cima e cheirando irritantemente ainda à tinta
recente, decerto a grudar e isto não averiguei não me propus provar, provaria
subindo na cadeira na qual me assentava, ou noutra havendo mais duas além da minha,
minha de hóspede porque nenhum viajante é dono no hotel onde pernoite ou então
beba o café da bela igual eu. Aliás mesmo na casa da gente a gente não tem
nenhuma propriedade, sendo ou não a propriedade um roubo ou provisória
apropriação (indébita, lembro). Horas assim, a hora que é acúmulo (não
indébito, recordo-me) um acúmulo de minutos e seus filhotes que são os
segundos.
Aí
pelas oito, com certeza oito menos um mais dois minutos e a situação de sem-freguês
não reclamaria britanicamente a falta a sobra – nas oitos horas abriu você as
duas portas; você, eu ali sentado e sentado permaneceria nessa minha eternidade
particular. Você alevantou a porta de aço destravando o cadeado (ouvi
claramente, não: confusamente, qualquer irritaçãozinha pela chave teimosa não
entrar no buraquinho do cadeado); levantou aqueles gomos estardalhaçosos para
cima, num fazer estrondo de abalar o mundo, no enrolo lá em cima por dentro da
parede ao abrigo do sol na sombra; após guardou o gancho guincho de guinchar a
porta de aço enrolável pra cima; ele caiu, caiu o gancho de ferro no soalho
cimentado do bar se chocando com o balcão de atender pinguços e fazendo trom ou
treque no piso e, imediato, um nome feio... Não isso, você não depõe contra si
mesma a proferir palavrões, ruminou apenas algo quase inaudível naquela
distância que nos separava, eu na cozinha-copa você no copo no gancho no balcão
o ferro ao solo. Na verdade pintei o como você fez: abrir levantar enrolar
bater o rolo da porta de aço na base lá em cima; o barulho e o gancho caído,
novo barulho. Não podendo ver, ‘vi’ apenas o som, desde a distância de você e
seu bar. Daí olhei curioso, não bem fiscalizador, olhei então aquele bruto com
mostrador redondo de vidro de plástico com embaço de gordura e poeira grudadas
na superfície diminuindo a transparência certamente; olhei o mostrador nos
altos da parede de meu (seu) compartimentozinho de tomar café, derrubara,
perdão amor! derrubara a satisfazer a praxe gotas da infusão manchando sobre
manchas mais antigas a toalha de mesa, esta balançando um pouco (bêbada como a
freguesia! perguntei) eu dizia ao sabor caipira balangando, e importa mesmo é seu
nhec-nhec-nhec no balanço. Dali ouvi, ouvindo o bar, só podendo, lógico,
escutar e escutá-la. Contudo não chegava ainda bebuns, uns abusados de entrar
comprar pão, a família lá aguardando, abusam tomam uma; após umas e outras...
Você é quem esperava a freguesia, o dinheiro da freguesia, recebera o dinheiro
do hóspede, eu, eu já pagara à hoteleira de noite na noite anterior, à chegada
e adentrar aquele paraíso.
O
monstrengo, teimando lerdo nas horas rápido nos minutos rapidíssimo nos
segundos, o relógio indicou já as dez, dez e qualquer coisa desprezei os
minutos não acompanhei os segundos, à 10h entre o vozerio de mais de um freguês,
chega o freguês; freguês aqui por ser contumaz a vinda do rapaz do escritório,
eu gracejando lera no documento depois a mim mostrado numa prova cabal as
distorções dos cobradores aos infelizes devedores e nisto ao governo que é um
ladrão o mais oficial possível, amparado ele na lei que é a maior guarda dele
possível – lera “escriptorio” inclusive sem o acento tão apreciado cronicamente
pelo ramerrão da língua e depreciado agudamente pela Reforma, e no caso sinal
gráfico agudo na proparoxítona (ah mas não incluí o ‘p’ se não como gozo) –
enfim li o vocábulo escritório e me esqueci agora, ando desmemoriado hoje,
esqueci o nome da firma de contabilidade. Não importa, importa que chegou o
bói, um garotão simpático e esse eu conheci, nisto repudiando outra vez a ideia
de conhecer de fato alguém estranho, nem soube direito eu o seu nome ou
apelido, a gente do povo se trata comumente por apelido quase sempre abreviando
o apelido oficial de cartório e batizado. Em suma vi-o porque você me trouxe
para a cozinha de meu descanso o rapaz e até ensaiou uma apresentação de praxe
(não o fazendo quem sabe por não saber o nome do hóspede... aquela questão da
ficha de entrada no hotel:) exato, por causa da ficha estava ali o funcionário;
você ofertou, matreira ou maliciosamente em guarda ou só por educação, ofertou-lhe
café – estávamos nessa copa eu ainda a descansar meu cansaço por acúmulo. Aí,
aqui, travou-se um diálogo (travar aqui tem sim sentido de luta: de um lado o
representante de César – dar a César o que de César! – doutro a freguesa, você
bela competente de olho aos avanços da lei, que o meninão representava com seus
papéis nas mãos, em verdade um pouco trêmulas tremia ele semelhante o hóspede,
eu...) Ela afirmando categórica peremptoriamente que o estabelecimento “como
você está constatando” para garantir o hotel não ter clientes, freguês
referindo-se apenas aos do balcão; eu virara de repente cliente excelente,
contente. Veja, veja com seus próprios olhos os quartos vazios! Os sentimentos dela subiram, quase vi-a
chorar, ao menos a temer o representante do governo através do seu escritório.
Oh, temer àquele pirralho, se intrometeu meu pensamento abelhudo; eu ali era
tão só ouvinte-testemunha inexpressivo, porém não testemunha de um crime...
talvez duma contravençãozinha. Ele, doutro lado e a seu lado na minha frente,
ambos ofensor e ofendida de pé eu ainda sentado e decerto com cara de bobo;
ele: e este freguês? (ao que ela corrigiu braba ou temerosa a esconder o crime:
cliente) Bem, cliente que seja, mas ocupando uma dependência do hotel, as malas...
(eu me intrometo qual menino diante de pais e visitas “malas? que malas, tenho
apenas uma e é de rodinhas e...” Você me cortou, não me deixou de colher torta
na luta:) Sim, Zé – não sei se Zé não lembro mais o nome do bói – sim, tem mala
e ocupa o quarto número três; na porta no alto dela assinalava 03; sim sim no
entanto não é nosso hóspede para efeito de registro... não disse apuração de
serviço e pagamento de imposto; porque este, eu, é meu querido primo João! – puxa,
eu não sabia chamar-me João! – João está a passeio, portanto não é cliente
nosso e muito menos freguês!
O
freguês, cliente, se levanta como que ofendido com o ofensor da ofendida prima
Andreia. Imediato, se acumpliciando à bela, confirma com a maior cara de pau,
isto um dizer da época você bem se lembra, não é? amor. Na mesma hora se
aproxima dela, de você, abraça a moça... vai além: intenta mesmo beijá-la, você
indignada eu atrevido no meu abuso, você com raiva me olha feio, como fosse
possível feio numa bela! conscientiza o meu abuso ou pior que abuso, penso eu,
pior no pior: creio piamente ser então seu íntimo... Aí recebendo uns toques
umas cotoveladas (e doeram pra burro) acertando minha costela; e ao meu
esfregar em si, em mim lembro o prazer que continha e que senti por seu corpo morno
embora tenso; a esse esfregar me aplica um beliscão, não sangrou doeu...
Ah
Andreia como me lembro dos seus dedos de pontas afiladas, o esmalte escuro no constraste
embora sua tez morena e que tanto achava eu bonitos. Interessante nisso, ou
seja o esmalte a brilhar ao lume da cozinha nesse e noutros dias em seus dedinhos,
interessante que observei-a mil vezes a aplicar pintando com os pinceizinhos da
própria tampa do vidro de esmalte a ponta do dedo, para nem aguardando o outro
dia a fim de poder retirar-recolocar colorindo de novo as unhas; para quase
imediato tirar tudinho o esmalte velho, aplicando acetona que me atraía o
olfato, a camada de esmalte decerto gasta no balcão ou lavando copos aos porcos
beberem, ou gasta no trabalho na pia e daí qual pintura poderia resistir! então
pincelando nova camada de esmalte; o qual teimo teimoso ser escuro, sem saber definir
com precisão a cor.
Foi
com esse dedo fino belo o enterrar-me na pele na carne quase ao sangue à minha
dor... justamente na hora eu já me imaginando de braços dados com Andreia, num
fazer inveja à ex-esposa, a passearmos na minha terra. Lembro a dor.
A
dor serve a acordar os que dormem em seu sono quase eterno. E dispõe os indecisos, eu por
extensão sendo mui indeciso nesse tempo, Andreia querida.
Contudo,
isto contido fora um espinho; e que agradável espinho, meu bem!
6° Noite
daquele dia
Não
sei se desejo recordar a noite daquele dia, sem me esquecer o dia daquela
noite.
Andreia,
meu bem, estou recordando essas coisas todas de nossa relação décadas antes, em
vista ser um sujeito esquecido... Explico-me no que poderá parecer estranho
nessa afirmativa – é que quando temos nós homens comuns pouca lembrança ou
pouca retenção de fatos que vivemos, supomos imediatamente que outrem também
seja curto e com as mesmas falhas; ato contínuo tentamos escarafunchar lá
dentro da mente do outro na tentativa fazê-lo, lembrando-se então ou
relembrando, ficar de posse dos ditos reditos fatos esquecidos escondidos
lembrados e... ah, deu agora para entender não é, meu amor? quis ajudá-la me
ajudando devolver os atos na memória de nosso relacionamento. Isso porque não
se pode ficar a falar no escuro, precisamos ambos lembrar a fim de comparar o
que houve; em razão disso é que estou aqui perante você.
Ora,
o esquecimento de fatos, fatos inclusive básicos sem os quais não se pode
entender e abarcar o todo do que estamos a conversar, iria dar uma impressão
absurda nas pessoas aqui a desfilar indo ver seus mortos: pensarão elas que eu
esteja falando sozinho, pensar-me-ão louco; ao menos ridículo no meio deste
público.
Posta
a coisa dessa forma, afirmo para que não pensem absurdos vendo-me a gesticular,
afirmo que estou dando uma espécie de marcha a ré à noite, mais precisamente ao
outro dia, melhor ainda a manhã desse dia, dia em que o funcionariozinho do
escritório apareceu ofendê-la na minha frente na copa do hotel; nisto você me
disse depois, baixinho, precisar ser forte como um gigante a enfrentar a fome
do fisco; pois não ocorria assim antes com seu genitor: ele assinava e piormente
pagava até sem olhar o documento as guias apresentadas pela contabilidade. Ela
não, não tinha eu visto! (confirmei) fora firme, ou perderiam o negócio,
fechariam o negócio, falências essas coisas; e me admirei de você.
Volto
a engrenar adiante primeira marcha segunda etc. a contar as coisas, como se
você não soubesse... Melhor dizer rememorar, pronto.
Verdade,
oh minha vida, verdade lembro haver ficado totalmente freado preso nos seus
encantos, enquanto discutia com esse funcionário sobre a desocupação e
possibilidade fechar as portas por haver um único hóspede então, então aquele
episódio inesquecível no qual pude achegar-me ao seu cálido corpo sua aveludada
pele sentindo eu a morna a ofegante carne e mesmo os cílios (a pureza não tendo
pelo, antes cílios leves sensitivos que eu senti a sentir-lhe...) e foi quando
na prova que dava ao moço ser eu seu adorado primo João, acaso eu sem saber
desse parentesco e do seu apego... – daí me levantei resoluto e abracei-a
ternamente e confesso: confuso e ao mesmo tempo convicto representar num teatro
mambembe, confesso haver adorado o papel como artista e a oportunidade, a tanto
perdoar-lhe o beliscão que tomei; confesso também haver sentido na hora pelo
meu olfato elevado à última potência da capacidade sensorial e recebido seu
hálito de mulher nova madura bela santa, a entrar-me pela narina e se
infiltrando por todo meu ser; assim despertado inteiro incólume o aviso-ordem
do sexo e me tornado imediato um garanhão, desperto o que a natureza guardara séculos
e séculos, milênio. Abracei-a o mais apertado que a educação permite; e em tese
matei o jovem cobrador de impostos que me atrapalhava com sua presença a
conquista. Contudo não foi nesse dia nem nesse encontro, com direito a
cotovelada e sentir apesar do cotovelo seu cheiro bom de mulher e... e interrompamos
com um lapso que desejo seja breve. Enfim ocorreu não naquele dia, nesse dia,
mas noutro como lembra a confirmar você agora, que o hóspede único – quisera
mesmo fosse o único no seu coração, amor! – resolvera permanecer mais uns dias em São Sebastião , nada
no objetivo de conhecer a já visitada urbe porém exclusivamente a fim de não
perder a hoteleira (conversamos um dia sobre esse ponto, ou seja a prorrogação
de minha estada). No final de um dia quente e muito andar perambulando na
cidade, eis-me de volta pra você, você que encontrei a preparar sua refeição
leve, medida, proporcionada, num regime e isto não me esclareceu nunca, para se
manter saudável; uma refeição balanceada e simples. Adiantei no atraso comum da
chegada explicando haver já comido lanches e outra porcariada, aqui palavras
suas e que eu não podia contestar. Em suma, esperei terminar o prato e se pôr a
cortar miúdo mastigar, usar garfo e faca na maior delicadeza igual toda mulher,
melhor mulher você que as outras mulheres também nisso, todavia sentada ali em
minha frente na mesma mesinha na mesma copa do outro dia, o dia do João, um ‘João’
louco a carinhá-la toda a noite que se ia iniciar – o hóspede permanecera na
cozinha manhã inteira sequer fora ao centro urbano a um restaurante, que a si
teria que ser pra mim fatalmente barato, popular. Então assisti seu cuidadoso comer.
Entretanto se naquela boca de noite daquele dia me convidasse a ir conhecer seu
alojamento íntimo, não precisaria convidar-me não: já me dispunha a isso
empurrado pelos impulsos naturais; não convidou. Agora no entanto, torno do
centro urbano tardezinha e fico a apreciá-la na meticulosidade e no gosto na
finura como gourmet; e assistindo
dentro da mesma expectativa você a engolir como um anjo o alimento, a limpar
lábios com o guardanapo alvíssimo – não a vi em prece antes nem após a refeição,
a deduzir na mesma hora não fosse religiosa, para me enganar; ora, oratório ali
em frente no canto e uma estatueta santa... e me desmistificaria num triz vendo
esse quadro embora ainda ‘contaminado’ (talvez uma palavra demais forte) ainda
sentindo o seu hálito de mulher jovem virgem (ah a quanta loucura o desejo leva
um homem!) no entanto agora... ai meu Deus o agora! Pois agora, eu que houvera
acompanhado o preparo do seu alimento cru fresco limpo puro, agora vejo Andreia
a trincar nos dentes branquíssimos cebola... cebola inclusive crua, cheirosa, a
‘perfumar’ toda a copa-cozinha, o cheiro a entrar-me pelas fossas nasais a incomodar
aqui por dentro... E depois, ora, depois? aí ficou, embora sem a grosseria de
arrotar, ficou a exalar o ‘perfume’.
Olhe
bem meu bem, se me convidasse não aceitaria dormir consigo naquela noite
daquela tardinha...
Queira
me desculpar, amor, a correção a honestidade de minha fala. Quase lhe
comuniquei, não no modo “fique longe de mim!” não; quase disse: amor, não se
conquista o amor de um macho, a exalar cebola. Quase. Não comentei nadinha, fui
para meu quarto relaxar. Sem você.
Noutro
dia, já havendo esquecido o episódio o hálito a cebola... e tendo de novo
vontadinha de você. Como sabe de cátedra, sou tanto confuso quanto teimoso, até
nisso...
Me
levantei e levantei meu anjo (perdão, sei não ser gramática, gramático é um
sujeito sério, carrancudo igual o soldado frente ao anjo, você, não perdoa
facilmente a colocação pronominal) levantei a hipótese e aguardo sua
intervenção a me esclarecer neste instante – a hipótese de você não ser demais
religiosa; o contrário me contraria profundamente pois que sou se não ateu um
irreverente de berço e de caminhada nesta existência na vida. Aventei a
hipótese quando na cozinha lembrando o oratório no canto com estatueta do santo.
Você que me responda. Porém ponho neste momento outro dado doutra lembrança
afim a fim de levantar a questão religiosa no amor de minha vida que é você,
Andreia. A coisa pode ser abreviada num episódio banal, eu haver naquele dia
ido comprar não sei o que no seu bar, desloquei-me inclusive mais ou menos à
vontade de chinelos, uso sabe dos de borracha e correia; cheguei à porta do
bar, decerto e não sei se verdadeiro assustando não os bebuns que não me
perceberam ou me vendo anuviado, não tendo importância eu sendo um estranho a
eles quiçá estrangeiro (um dia esclareço a você isto, o ser um estrangeiro) espantando
com certeza a dona do estabelecimento na sua alta categoria de atendente na vendinha
a fornecer à freguesia miudezas as ‘grandezas’ ficariam por conta da bebida...
Espantando você, querida, eu estar ali por umas nove horas já com sol quente
nessa manhã a pedir qualquer, não lembro agora e não seria cachaça... Creio nem
recordando disso você, você muito menos nesse mais, o resto parece-me nada...
Isso mesmo, nada, tudo pra mim era você queria revê-la um pouco que fosse,
saudade!? mais que isso, isto: amor. Bem, a disfarçar meu embaraço comprei
feitas por suas lindas mãozinhas umas fatias de mortadela outras poucas fatias
de queijo prato (você pronunciava “prata” ao mesmo queijo) e claro a escondê-las
cheirosas, duas metades de um pãozinho francês; não me lembro me esclareça
então, então na sua terra se usava dizer “pão francês” aquele de não sei quantas
gramas, gramas a menos no peso pondo (tirando...) o padeiro. Enfim um autêntico
sanduíche; sanduíche sabia ser nome de origem inglesa e não afirmo para me
mostrar erudito, não, só humildemente esclareço. E, é claríssimo, algo para
ajudar engolir o sanduíche, tal qual seus fregueses já iniciando a algazarra um
líquido, não pedi pediria cerveja não pinga pedi foi o costumeiro na minha
terra guaraná, à risota de uns bêbados debochados. Comi de pé como faço até
hoje, isto esclareço a você agora e nem antes você sabia; até hoje tomo de
manhã religiosamente meu café com leite e pão na forma de sopinha, de pé não
sento; não me sentei a sentir o bafo daqueles porcalhões. Permaneci assim
embevecido observando meu amor fazer com amor sua tarefa de barman; como será, terei que consultar
depois a enciclopédia a saber qual a forma feminina de barman mas não é
garçonete garanto, garanto entretanto que a tarefa ali aos meus concupiscentes
olhos machos pra valer era acompanhar passo a passo o que fazia, fazia então o
trabalho renovado continuado habituado de limpar com paninho a superfície do
balcão, espremer o pano, lavá-lo secá-lo espremendo de novo e enxugar a
superfície citada. E outras coisas mais. Assim, lento retardei vendo, um bem
pra mim e pra minha saúde visto eu mastigar mais de trinta e três vezes para
engolir meu pão meu queijo minha mortadela ajudados pelo refrigerante – somente
retardando o tempo, parando o ponteiro do relógio, aquele besta, com o fito
vê-la por tempo maior que o usual, sob pretexto de engolir um reforcinho do que
fora o meu pequeno almoço (outra vez café pão manteiga enganada em margarina).
Não. desejava era ficar bem perto e por mais tempo de você.
Tudo
que narrei ocorrendo à guisa do lembrete sobre sua religiosidade.
Então
entrara, causara espécie no publiquinho de meia dúzia de fregueses e estranheza
na dona – e que dona! – e nisso percebi também num cantinho do bar um suporte
de vidro com flores murchas algumas velhas secas mortas e vivíssimo, aqui
prestei bem atenção no que vendo, um São Jorge... Aliás, acredito por ouvir
dizer que o santo é um santo apócrifo, nem a Igreja o aceitou ou aceita, aceita
o santo o fiel; diria eu, irreverente, não fiel sim torcedor. Bem, o fato é,
era, que ele apascentava ali o bar e seus fregueses. Fixei-o, impertinentemente,
e notei umas variantes se não engraçadas ao menos curiosas: São Jorge no dragão
e o animal me pareceu mais um burro e isto acerto no erro da visão do artista
popular, o santo vestido como soldado, olhava-nos, não propriamente carrancudo
a assustar por tabela anjos de asas na entrada do cemitério na zona franca dos
milionários, a amedrontar passantes passeando por ali rumo à ala pobretona, não
de carranca. Era um santo sério apenas, nada de riso; sisudo. Pois não é que o
achei inclusive simpático!
Melhor
simpatia a sua simpatia, Andreia. Pensando assim eu naquela hora e noutra hora
na cozinha a observar seus fetiches santos. Não obstante, tenho dúvidas sobre
sua religiosidade. Tenho sim a propósito doutra lembrança da mesma lembrança,
quer dizer do mesmo teor.
Ora,
irei lembrar como a vi uma tarde nesse seu bar, tarde sim aí pela Ave Maria;
ora, era hora desse respeito na catolicidade, cheguei à porta, vindo do centro
de São Sebastião de retorno ao hotel; chegara e ouvi o rádio do bar, mais ou
menos escancarado, que era o seu radinho de pilha, amor, aquele que sempre eu
escutava de meu quarto grudado ao seu dormitório, nas manhãs, suas músicas e
cantorias, baixo, alto, altão agora no bar a todos ouvirem. Ouviam, ouvíamos a
prece cantada mas – isto me causou espécie outra vez – o público conversava,
mole, irreverente igual eu, uns até assoprando marcha de carnaval em voga então,
desrespeitosamente! ou porque não se tomava consciência da lembrança que manda
ou só alembra o respeito à religião. Mais, querida, mais bem mais me espantei
por ver-ouvir você a par com a música santa a conversar mundanidades com certa
mulher gorda, não enxuta bela atraente igual você longe disso: senhora estufada
parecendo a gente da rua, rua desarrumada. Isto me ferindo um pouco, o que é
pouco reverente nem religioso. A conversinha de vocês que ouvi, me lembrou de
modo geral as mulheres... Falavam as duas, coisas picantes da gentalha e mais ainda
pisoteando outras mulheres, também minhas desconhecidas, ah as serpentes... as
serpentes se bicam, se beijam se falam se insultam e depois sim se picam.
Imediato pensei mulher maçã serpente... ah meu paraíso.
7° Retorno ao seio de Andreia
Vim
para ficar, Andreia, ficar ao seu lado; tenho nítida a impressão de que não
sairei daqui... sabe, nós seres humanos somos de certa maneira engraçados e
nunca absolutos no que dizemos e fazemos – então garantimos qual criança a imaginar
o sonho o concreto, não o realizável mas já como realizado; e aqui o menino não
deixa ser um poeta, ser da casta que sonha voa nebuliza e imediato crê; crê o
menino que há em você em mim em toda gente; mesmo nessa gente que nós ambos vemos
a passear (e que mau gosto o de se distrair no cemitério!) Contudo somos assim
e assim penso, levado no estouro da boiada que ninguém impede e segura ou como
a represa cheia contida que nenhum vivente detém e se solta e esparrama e, por
vezes, destrói... Assim sendo ando com a impressão do definitivo entre nós,
primeiro a sentir nosso enlace e segundo não podendo mais deixar este seu amor
o seu amor. Sim, amor, a impressão é a de que não mais sairei daqui.
Ora,
memorizemos, lembra-se daquele dia, qual dia! ora bolas Andreia, não se faça
desentendida esquecida num fato para nós dois marcante que foi a minha
despedida de você, do hotel do bar dos bebuns do Paraíso que me saíra a mineira
São Sebastião, cidade tão apegada ao seu mais de século. A minha, não a sua, a
minha despedida.
Bem,
o afastamento daqui para tornar à minha região ficou-me qual espinho na minha
existência.
Naquele
dia...
Voltara
do centro urbano ao seu quase nosso hotelzinho e me indagara a hoteleira de quem
os dias me tornaram íntimo, me indagara sobre a prorrogação da estada, eu ainda
estando no primeiro para o segundo degrau da escada, perguntara o que acontecera
não andar o hóspede (hóspede! isto me chocou demais: e o fato sermos no
esticado da permanência na casa não me faria já seu namorado? me tratara ainda
qual outros estranhos hóspedes) enfim chego e você me pergunta o porquê de estar
acabrunhado, ao menos quieto... Lembra, meu bem, lembra do meu hábito a todo
momento ‘cantarolar’ sem cantar assoprando as notas musicais de Schubert no Improviso número um (eu
imitava o piano como fosse piano e decerto você achando curioso ou engraçado)
que eu não tirando da cabeça, dos lábios do pensamento, e então ‘sonando’. Você
a ouvir sempre o radinho japonês de pilhas nacionais fabricadas por empresas
estrangeiras – sempre também a ouvir numa emissora local música popular,
baixinho não baixo como o som do meu cérebro é visto. Chamou-me atenção por de
certa forma andar macambúzio, ora estava era um pouco concentrado introvertido
que sou e andava agora num constrangimento por ter que dizer a verdade de minha
partida – ai meus bolsos quase vazios ou do contrário permaneceria com você,
fisicamente, preso, preso já por seu amor de fato – sentia um nó na garganta,
tornava cansado da rua e sem coragem a lhe comunicar a decisão de partir no dia
seguinte, o amanhã daquele hoje naquele ontem anteontem trasanteontem. Não
tendo condições de quase cantar, melhor dizer assoprar o trecho de Schubert
como me pilhava constante e mostrando alegria, tristeza em mim pelo que teria que
lhe dizer: Andreia, não iria ser abusado a falar “amor de minha vida!” Andreia
amanhã me vou, vou-me de volta à minha terra lá no interior de São Paulo.
Todavia não pronunciei palavra não disse nada, feito estátua de pedra olhando
para aquele ser divino na minha frente, na sua frente o homem engripado no
primeiro passo ao segundo degrau da escadaria. Apenas mais tarde comunicaria a
decisão e confesso que, no meu quarto, chorei qual menino a quem deixara mamãe
de castigo por arte, arte do hóspede era ter que ir embora. Constrangedor.
Constrangedor,
Andreia.
Foi,
agora se lembra relembra? Saí no outro dia, mala rodinhas rodoviária rodas de
ônibus barulho da gente a se despedir indo à viagem, abraçando quem a viajar,
abraços beijos mãos apertos abanar de mãos, pessoas tristes pessoas alegres – a
gente no rebuliço de embarcar; e eu só, estranho, um estrangeiro!?
Contudo,
senti certo aperto decerto no desperto coração feminino que eu deixava; e poderia
semelhante toda gente fazê-lo com promessas, promessas quase nunca cumpridas
pois a existência breve na vida nos oferece muitas interdições e costuma por
costume milenar matar sonhos...
Contudo
viajei no meu retorno à casa aos dramas diuturnos e a procurar encrencas, o que
comum no homem comum, sarna pra se coçar diz o ditado popular. Enfim viver meu
viver, não ficaria, não poderia ficar plantado no município mineiro embora a
hospitalidade de sua gente e a beleza da paisagem, pelo resto dos meus dias.
Contudo
eis-me na rotina de minha rotina em minha região, a braços com os problemas
ordinários os questionamentos e também com vitoriazinhas, espécie de vitória de
pirro da gente miúda, a qual sequer entende ou compreende vitória quando
derrota, derrota quando vitória. No entanto sem me desligar de você. Você em
primeiro lugar no meu pensamento todos dias; os dias imediatos nessa viagem ao
meu estado foram terríveis, por estar impregnado em mim todo seu ser, que não
me abandonava horas minutos segundos; dias meses anos assim.
Agora
no meu ramerrão, embora ligado à minha Andreia, e Andreia apareceu-me... tragicamente!
Engoli
como pude a situação na minha casa sem você. Não desligando o pensamento daí,
daqui agora estando eu a lhe narrar diante de sua imagem bem aqui na frente.
Acompanhava dia a dia o que se passando em São Sebastião e a
buscar quase pinçar no meio dos acontecimentos os fatos a si ligados – enquanto
me prometia a mim mesmo tornar breve e é o que faço agora na sua presença,
neste momento como me vê. Não pretendia outra viagem à minha Andreia nas
condições do trágico, o que desejamos ao rever a pessoa amada é o contentamento
do reencontro e a alegria; alegria é sinônimo de felicidade e a felicidade ela
mesma se basta.
Assim
lá de longe acompanhando o que ocorria aqui, sempre lendo ouvindo rádio, o meu
não sendo tão moderno quanto o seu radinho de pilhas, nem eu com hábito ouvi-lo
preferindo meus discos e nestes mais os eruditos não os popularescos; agora
escutava atento o noticiário e hoje infiro que se houvesse celulares e demais
conquistas da tecnologia atual, teria imediato me comunicado com sua família e com
vizinhos do hotel a saber os pormenores do acidente, visto haver ficado
aturdido com o que soube, soube por alto pela televisão sobre o infausto acontecimento...
Resumo
a dizer que o noticiário televisivo dava conta dum terrível acidente rodoviário
na entrada, a seu veículo saída certamente; no limiar enfim de São Sebastião.
Um desastre de grande proporção. A mim um da maior proporção por incluir você!
O automóvel desgovernado rolara da rodovia para terreno próximo, acabando com
vidas e sonhos de uns poucos jovens, em si sonhadores sempre. Pior, um deles
era você! Mas seria? indagou meu otimismo, tentando poupar-lhe a me poupar...
Daí
entrou a mola propulsora do pessimismo e em descrédito descreveu quase em
minúcia nomes, todos desconhecidos (o que não serve de lastro para não se
lamentar). O seu me levou imediato e depois por mil dias seguidos às lágrimas.
Não consegui porém lavar inteirinho as
entranhas do coração!
Andreia,
eu morrera na sua morte.
Entretanto
possuía o seu amor no meu coração e havendo no meu ser o paliativo do “seria?”
e assim me consolei sem prova cabal, sem muleta a se escorar para manter-me de
pé. Me convencendo após trabalho do irredutível e teimoso otimismo que o raio
não cai fatalmente outra vez na mesma cabeça e ainda com outro argumento: afinal
de contas quantas pessoas havendo com nomes semelhantes. Além de achar eu mesmo
nessa discussão entre otimismo e pessimismo algo positivo pois que já me bastavam
os espinhos havidos até aqui a me alfinetar, não precisando aquele que me golpearia
de vez, na voz do pessimismo; “não pode ser ela” falou-me a consolar o
otimismo, porém grita novamente o pessimismo o absurdo de não haver mera coincidência
de nomes, estando ali estampado num jornal escrito visto mais tarde com todas
as letras Andreia, portanto a minha Andreia, o amor de minha vida, então
igualmente destroçada, tudo arrebentado tanto o corpo físico dela como os dos
outros jovens companheiros naquele maldito carro, um carro agora objeto do
depósito policial e depois o seria do depósito de ferro velho... Teimou o
pessimismo que se não iludisse o iludido, eu, ela, você, morrera em condições
trágicas. Completou ainda malandro capcioso maldoso esse meu grande inimigo:
tudo então andava pra mim acabado!
Quase
me dei por vencido, ainda a choramingar como menino de quem tomaram uma
guloseima ou brinquedo; no meu caso a perda do brinquedo mais sério possível,
por causa do ilimitado no sonho de um homem comum.
Quase.
Brotou
após dias de intenso sofrimento um prurido na possibilidade de uma confusão. Eu
fora induzido pela bestialidade dos sentidos a crer em sua morte, a morte sua
não acontecera de fato; alguém embora sem má-fé relacionara o seu à tragédia
porém meu amorzinho lá (aqui na sua presença digo) lá em São Sebastião e mais
que isso, viva!
Fiz-me
vivo e nisto pode você tachar-me carola, pois em agradecimento de não haver
morrido, fui levar um presente a uma santa num templo de minha cidade, não
achara estátua de São Jorge optei pela santa. Numa possível crítica sua ao fato
de não crer eu, agora a levar oferenda! respondo: tem razão amor, mas por você
estar viva não valeu a pena passar seu namorado pelo ridículo como beato!
(ridículo seria na opinião dum sujeito ateu, agnóstico talvez, como dizia você
de mim).
Não
importa, querida, então daria tudo de mim para tê-la de volta vivinha a meu
lado!
Sujeitei-me
ao pensamento vulgar e mais à boca possível de quem tenha boca, a fim de
continuar a marcha uns dias – andava como sempre sem recursos e daí o que fazer
pra correr a São Sebastião lá longe na enorme distância que nos separava, eu estando
na minha cidade; enfim aguardava ter dinheiro para viajar – optei continuar a
vida comum, com paciência, a paciência que nos dá a imposição da realidade. Para
finalmente voltar vê-la aqui, como constata agora.
Passaram-se
os dias de minha espera; espera, não conformação visto o sentimento desconhecer
isso. Até chegar à minha rodoviária rumo à sua rodoviária.
Antevia
o desembarque, a mala de rodinhas ágeis pelo costume delas, os olhos a olhar
então na certeza a placa deturpada “Aluga-se Quartos” e por fim a minha entrada
triunfal no bar, os bebuns na algazarra freguesa, a escada a nos dar vertigem
no vaivém do seu enrolado e nela, na escada, você inteirinha a me esperar!!
Estava
assim na escada, no alto da escada, já na sua urbe... caí do cavalo.
Despenquei.
Despenquei,
minha Andreia, estando já a puxar a mala no rodar suas rodinhas acostumadas e
quem sabe se não com sotaque mineiro já. Pois cheguei ontem anteontem trasanteontem
na rodoviária e dali não vendo, vendo sim mas desativada a placa do hotel. E
ponho agora a seu juízo algo ocorrido na chegada à sua rodoviária, algo digno
dum jumento: acredite, menina, acredite que minha insegurança (e por temor também,
o homem comum teme encontrar a verdade que a verdade o deixe nu, no chão,
arrasado no exame da conclusão da verdade buscada...) a insegurança desse
viajante, exato no momento ao ver a placa do seu hotel e em movimento nessa
direção – não é me ocorrer haver descido do coletivo na cidade errada! e daí
seria mais mentira ainda a verdade.
Deixemos
disso. O fato é que não errara o acerto, as rodinhas da mala quase elas me
empurraram à sua residência.
E
elas me enganaram... Você não mais morando ali onde reconhecia o verdadeiro
lugar dos seus arruaceiros fregueses (e olhe eu com saudade deles! na verdade
quem tem saudade tem saudade de si não dos outros, os outros com ou sem
aguardente). Era lá onde você morara tantos anos e onde a conheci, ao menos
convivi consigo, bem por sinal. A placa desativada o bar fechado o hotel com
seus olhos de janelas lacrados, ou dormindo? Poderia um hotel não estar
acordado, com tantos viajantes a procurar acomodação? A propriedade toda
lacrada, o prédio morto! Será, pensei, possa haver um mundo todo ele apenas
como símbolo e perdido no absurdo e ter apenas na realidade tijolos reboco
telhas e abandono!?
Não
consegui responder, o absurdo se basta e o viajor já ele então um apócrifo.
Quase
enlouqueci, quase fugi pra minha casa, embora ainda não tendo lar meses e anos
sozinho. Abobalhado desalentado acabado, arriei e sentei-me no chão na guia,
estando meu corpo à sarjeta e sem ânimo; sem ânimo? sem direção. Quanto tempo
terei assim permanecido, não sei; sei que era ontem ou anteontem ou trasanteontem
no viver na má expectativa pelo seu desaparecimento; os outros seres passavam e
passavam passeavam quase mas não estando na entrada do cemitério nem vendo
anjos nem temendo a carranca militar: andavam passando por um ser na rua do seu
hotel; será desse jeito ficara a freguesia a esperá-la por um gole! Ninguém saberia
dar-me o novo endereço de minha deusa, a maior de meu olimpo! Natural admitir
que numa terra hospitaleira como aquela, muitos se condoessem do homem sentado
na guia e com seus apetrechos esparramados; uma senhora chegou a se aproximar
de mim, nada falando, aquela questão do temor quem sabe a estranhos; especialmente
que vindo a noite, de noite eu viajara e chegara manhãzinha e já escurecia no
final de minha espera... espera! o que um estranho pode aguardar? Até que veio
a lucidez.
Levantei-me,
arranjei a bagagem, acertei-me nas vestimentas e fui pedir informes à
vizinhança.
Ninguém
desejando falar sobre o assunto, somente tive benefício com aquela senhora
gorducha, Andreia nós já conversamos sobre ela, inclusive citei aquele dia em
que você e ela diziam inconvenientes (não sei se absurdos se invenções nem
conhecendo de quem ambas tratavam ou detratavam). Lembra? a Ave Maria e vocês a
descer a língua nas outras mulheres, não cheguei a entender o que falavam. Pois
é, fui atendido exatamente por essa senhora, a quem em primeira instância não
vira com bons olhos no bar naquele dia.
Passou-me
informações valiosas sobre você... O primeiro dado foi a indicação de sua nova
residência, esta onde nos encontramos neste momento. Outros mil dados me forneceu
mas aqui preciso inteirá-la não confiar demais nessa mulher, por ser ela de um
tipo mui encontradiço de gente na sociedade, o qual exagera ao superlativo o
que transmite e mais: carrega na violência dos fatos, sente prazer doentio a
narrar detalhes, sangrentos de preferência; parecendo-me com o fito ou de
atingir as orelhas doutrem ou feri-las com doses letais de sangue no sofrimento
do que viu, se viu mesmo, a passar isso aos que não estiveram presentes aos
acontecimentos e portanto nem poderiam de fato ver. Certas famílias da gente
desse tipo falam de atrocidades, de crimes, de acidentes de trânsito, tudo com
fervor... narram fragmentos pedaços corpos semivivos e vidas semimortas e ainda
se estremecem de alegria, como a apresentar vantagens, experimentam alegria
extrema sobretudo nos epílogos e sobremaneira ao constatar o prejuízo alheio
nas perdas nas dores nas mortes; aí contam os mortos – enquanto cortam no
almoço o bife espetam o naco engolem a massa – ainda a narrar de boca cheia dando
a fotografia do acidente ou do crime ou do suposto desastre; um desastre moral
a meu ver. A meu ver vi assim a sua amiga, ou seria conhecida ou comadre ou
somente vizinha, oh Andreia.
Não
obstante devo-lhe este imenso favor, ela quem me orientou a chegar aqui. Não
foi a tanto num alertar-me de anjos indiferentes nem de soldados carrancudos.
Entretanto graças à dona Maria, disse chamar-se do Rosário e se conhecerem há
tantos anos; é isso verdadeiro?
Lamento
dizer, mas suponho que meu amoreco saiba melhor que seu namorado agora o que
ontem me passou d.Maria. Lamento agora informá-la porém sua família se
esfacelou se desfez, a senhora sua mãe faleceu, o senhor seu pai fora para
fora, parece que morar em casa dum filho dele, seu mano, noutra cidade. Do que
era antes praticamente nada restando, a propriedade foi às mãos nada santa de
juízes e do governo, desde antes já sob controle da justiça nos morosos
processos. Contudo, isto não pode mais interessá-la, meu bem.
Agora,
deu-se comigo uma suspeição flagrante quando sua vizinha da rua de baixo me explanou
me relatando pormenores do acidente de trânsito que a vitimou obrigando a se mudar
do hotel e do seu bar para este lugar, lugar se não tão animado ao menos mui
concorrido; sendo que nesta altura do dia a noite vindo, vendo eu que se
espaçaram as visitas. Ela, d.Maria, narrou tudo friamente e tão só com lágrimas
quando da fixação na bela Andreia, então desfigurada... Fez questão pôr pingos
nos ii, insistiu contar o como encontraram os curiosos antes de chegarem as
autoridades, as quais afugentaram-nos; como de mais ocorrendo sempre esse de
menos nos ajuntamentos trágicos, a fim de que o popular possa ter alimento e
elemento a encher o tempo. Sim, concordo consigo, muitos sofrem choram lamentam
a tragédia e as condições da tragédia, a causa nunca quase concorde e têm as consequências
a agradar línguas e a imprensa; hoje a televisão faz bem o papel de propagar e
é boa para prestar este mau serviço, além do bem que é o bem da informação
essencial e necessária a respeito.
Contou-me
os pedaços em pedaços (chorou quando mostrando os seus como falei) passou-me
hiperbolicamente o sangue a escorrer e os demais estragos. Por pouco não pedi
que suspendesse a tortura a que me submetia, como fosse uma açougueira a
desossar cadáveres. Estava eu amargurado arrasado acabado já e cambalearia
decerto, não fosse o ânimo desperto para ter forças de prosseguir ir chegar por
perto de você de novo, agora estou na sua presença.
Antes
de conversar de igual para igual consigo, minha flor, detenho-me a uns
fragmentos que guardei em meu íntimo nas nossas relações. São coisas que não
percebemos na hora, depois retomamos as cenas no cineminha que temos na mente,
a recordar e apresentar claramente as coisas. Você desde aquela noite, nossa
primeira noite, você se mostrava esquiva, se mostrava enigmática... O que não
deveria perturbar um homem estranho, realmente confuso e indeciso, mas confundiu-me;
é que a gente apenas se satisfaz quando consegue ler inteiramente outrem; ficou
a dúvida a prejudicar minhas certezas. Você, como vira e como veria semanas
seguidas, era magnífica fêmea da espécie a meu ver e se apresentava simples, simples
no trajar, trajando o comum, não vira uma Andreia do tipo que o povo trata saiúda
nem uma extravagantemente vestida; postava-se usando sempre calças... claro
falo das compridas, na época se notavam poucas outras assim as demais usavam
vestidos. Você não parecia vaidosa, comprovaria após ter sim vaidade mas no
mínimo e a se apresentar com decoro. Tudo não maculava sua beleza sem par. Eu
falei inicialmente pra mim mesmo: ela é fenomenal. Não me enganei nisso até
aquele dia de minha despedida, sabemos que apenas bem mais tarde retornaria,
retornei hoje aqui para vê-la, para nos ver, rever-nos.
Naquela
despedida, no dia anterior dela todinho, senti algo incomum no ar e em você;
falei-me aqui dentro: seu amor, rapaz, tem qualquer coisa de esquisito; há nela
um quê estranho; alguma coisa inexplicável a um mortal comum como somos. Tive,
Andreia, tive diante daquele laço que se não rompia nem se desfazia entre nós
entretanto se quebrava visto andar eu em despedida, enfim senti aquilo que
normalmente dizemos como presságio.
Seria
o prenúncio do desastre que se avizinhava e no qual se envolveu, penalizando
seus amigos, jovens também!?
Têm
coisas que se não pode explicar... como o fato de estarmos nós dois agorinha a
conversar francamente nossas coisas e no entanto haver alguma ideia ou
sentimento a rondar o ar que respiramos. Qualquer sopro que me induz pensar que
não só vim revê-la para vê-la inteira e não uma Andreia em pedaços, também com uma
certeza igualmente, a de que daqui não arredarei pé.
8°Revolta
daquela noite
Cabe
de início neste início em prosseguimento umas formais explicações sobre o título
do capítulo, a se pensar numa revolta ou mesmo luta armada; não é nadinha do suposto
porém a volta do pensamento da gente à noite primeira, essa noite básica para
entender você, Andreia, e a mim também por tabela e em menor escala, visto não
ser visto, tudo apenas centrando você. Trata-se dum retorno à nossa primeira noite,
noutra abordagem do primeiro encontro.
Cabe
ainda nesta continuação expressar o que dizer no puro idioma brasileiro. Nisto
me corrigiriam “em português puro, casto”. Não. Falo brasileiro mesmo, que é
língua a misturar arcaísmos vencidos com neologismos inventados (como no caso
de re-volta) e com sons temperados
pelo coração de nossa gente; havendo obstruções e intervenções nada louváveis
das reformas ortográficas a atrapalhar a boca do povo, seus olhos e ouvidos
mais precisamente; sendo que as tais reformas metem o bedelho a surrupiar por
exemplo o sinal agudo, grave! o sinal gráfico de minha Andreia antes Andréia, você a ser antes e depois e
para todo o sempre bela; agora no ápice e no pódio da beleza feminina. Será
haver equivalentemente beleza masculina! seria a feiura da beleza e esdrúxulo
estivesse no ápice e no pódio.
Não
importam loucuras das linhas anteriores porque estou diante da Rainha de todo
Olimpo; e o digo a grafar no puro brasileiro.
Nessa
noite, decantada noite gravada no coração; em plena vigência dessa noite,
quando as luzes já se acendiam à minha chegada, havendo entremeio uma serpente
na forma de escada para subir ao céu – vi nessa a princesa, a fada, a virgem, o
sol meu sol, o calor, o valor, o esplendor na representação da mulher, a mulher
que via diante de mim, então um estranho (estrangeiro?). Essa a mulher que eu
olhava a me olhar. Olhava e compunha instantaneamente todo um paraíso ali, que
era o Paraíso de São Sebastião.
Vendo
o meu tudo em meu nada.
Ah
que espinho bom que se iniciava pra mim!
Ontem
anteontem trasanteontem temos ao nosso meio a escada. Escada. Subimos. Embaixo
ficaram uns celerados ou embebedados no seu não entender por causa do balcão ou
do copo ou do líquido espúrio ou do que sequer saibamos que saiba a ignorância
dos homens comuns, permanecendo eles no salão do bar. Lá fora despencava um
barulhão maior que o deles no aguaceiro ao despejo da tempestade, da qual eu
fugira – ou seria que o destino interferira a me atirar de joelhos a pedir à
rainha clemência de uns poucos olhares. Ainda não sabia, subia.
Subia
indo atrás nas pegadas de Andreia.
Ao
paraíso? ao paraíso.
Contudo
o espinho do inferno se entranhara então nas minhas necessidades de macho
faminto relegado ao tempo que não espera a espera e impõe. Disparado o alarme
nada falso ao clique da presença da existência de uma fêmea da espécie no alto
da beleza. Você se apresentava por exemplo máximo no concurso do belo no
Universo, segundo meu universo de homem comum; cansado, quase prostrado não só
pelo que via mas vencido pela viagem massacrante que fizera, de um lado e
doutro pelos anos de solidão... Me entreguei na entrega a si, Andreia.
Não
obstante e quem sabe forçado pelo destino e por causa do franqueamento que a
intuição me sugeria ali no pavimento superior – no inferior a escadaria o salão
do bar dos debochados – não obstante, eu me sentia estranho naquele céu, um estrangeiro
na pátria do paraíso.
Estávamos
agora num corredor estreito como tudo estreito acanhado no hotel sem quase
estrela; subíramos – eu a examinar por trás aquele femeão... – você à frente eu
seguia ainda atrás, desligara as rodinhas da bagagem em vista os degraus e daí
descobrindo como pesadíssima a mala; enfim estamos no tal corredor, arriei no
chão o peso... interferiria quem não sabe sabe somente por ver, por que motivo
igual em todos hotéis decentes o funcionário da casa não carregando ele a bagagem
no lugar do cliente, coisa assim de finura de educação; ou a plantar na praxe a
gorjeta? assim responderia o ofendido, eu. Concordemos: não iria pôr a
carregar-me badulaques uma senhorita e mais que mulher uma fada a rainha da
beleza.
Fiz
uf quando após visita ao mostruário da hospedaria, quarto por quarto e então
optando por indicação sua, Andreia, pelo de número três, sem sabê-lo contíguo
ao seu... Quando a porta aberta de minha agora residência, fiz descansar
depondo embrulhos no chão e é daí haver assoprado arre! Bem, estava entregue –
ora esta língua incapaz dizer tudo que se exige dela: aqui não era eu um objeto
entregado ao consumidor (a existência pode ser consumidora?) Não, estava exausto.
Você
concluiu a conversa parcial ali no momento para ir tratar dos seus bebuns,
lembra-se? enquanto assumi a residência; esclareço que sempre me senti à
vontade, me sentindo em casa nas dependências que tomei nos hotéis por que
tenho passado. Esclareço ainda que se findava essa conversa parcial, pois a
nossa conversa se encompridaria se deslancharia por tempo e tempo até chegar no
tempo de hoje, hoje quando após meses mais de ano estando nós ambos a falar
frente a frente, a gente frequente desaparecida já, já retornando aquele
funcionário que viera alertar o fim da hora de visita; e acaso serei apenas
visitante!
No
quarto três era o único hóspede na crise hoteleira e a hoteleira ali me deixara
a examinar meu novo domicílio. Cama e colchão não de casal sim de solteiro –
nenhum sensato viajante iria trazer a esposa a matracar as coisas e mais, menos
uma fiscalizadora criatura a impedir ver as meninas na praça, vê-las mesmo com
o talonário de pedidos zerado; um que se preze tira a aliança se passa por
solteiro... – o colchão os panos tudo em ordem; limpo o soalho limpo tudo as
paredes a mesinha improvisada a brilhar até e com apetrechinhos corriqueiros em
cima, inclusive o cinzeiro a evitar sujeira, porque homem costuma além de urinar
fora atirar a cinza no vaso sanitário ou no chão; e não poderiam adivinhar que
eu não fumasse; toalha grande dobrada na cama e por cima dela a toalhinha de
rosto; não havendo no quarto pregada a folha das instruções regulamentares como
praxe hoteleira “não faça isto nem isso nem aquilo etc.” ih que horror, nem se
sabendo o possível horror do hoteleiro a tomar consciência que seu cliente,
aqui freguês mesmo, que ele iria fatalmente por viajante limpar sapatos com a
pequena, após trabalho de sujá-la umidecê-la de suor, quiçá deixando à saída a
mesma no chão, sim, não todos mas têm alguns poucos com educação. Junto da mesinha
cadeira gasta limpa, logo o guarda-roupa um pouco cambaio, nele portas sem
trinco só a gente experiente põe uns papelões para segurar a tampa, não barata
barata não se segura, porém não havendo, melhor no pior não se vendo e melhor
ainda não sentindo cheiro. Janela pequena e suficiente para examinar lá embaixo
a rua no vaivém, sem necessidade na chegada porque o aguaceiro não deixando ver
nem os veículos que dirá gente exposta aos olhares forasteiros e portanto não
abri a janela. Ah tinha mais uma encrenca, pra mim quase sempre uma
desnecessidade que era o aparelho de televisão enganchado ao nível do teto. Meu
time iria arriscar ganhar ao menos um jogo no campeonato e o torcedor, eu, tendo
algum interesse ligar aquela máquina de mentir e fazer propaganda (mais uma vez
reforçando a mentira). Contudo nada vi, já banhado e a descansar nos lençóis: a
tevê não tendo imagem, apenas som, rouco, e daí por que não assistir a pelada
pelo rádio. Não havia rádio, havia radinho. Ouvi o som dele, baixo embora, a
penetrar meu quarto; o seu radinho de pilhas, Andreia. Não reclamei, não sendo
de meu feitio reclamar, não reclamei no outro dia de manhã a falta de imagem no
aparelho de fazer loucos, não foi assim?
Aqui
me pergunto, haveria lugar para reclamações ou outro tomar tempo ao tempo,
havendo uma hoteleira tão bonita? Na verdade não podia tirar de minha visão
interior aquele aperfeiçoamento da anatomia por milênios para exibição a uns
pobres olhos de homem comum, deficitário em carinhos e a viver na solidão lá
longe, longe deste perto que é onde ambos estamos, minha flor.
Ficara
eu como que congelado – e era mui quente a mulher que vira horas antes e horas
depois me serviria como sonho, alto sonho a desmanchar pesadelos – ficara
plantada no meu interior a imagem gostosa que vira e persistia a sentir... Seus
traços, seus mimos da natureza feminil, seus toques, tudinho em você, Andreia,
tudinho bulia comigo! O perfil a voz o andar e o cerne do que dizia porque
dizia como dizia! e inclusive podendo, quisesse, impor a nós seus súditos;
todavia nós éramos apenas um hóspede. Até seu cheiro de mulher plena completa,
até sua fragrância se impregnara no meu dentro, o qual não podia, ainda, expor
– não se espera, não se tolera mesmo que um estranho explane o que sente e
retrate o que viu, se viu, numa mulher estranha, estranha também porque ambos não
se conheciam. Aqui se imiscui a ideia de conhecer, ela em si desconhecida; pois
não basta observar para conhecer algo ou alguém. Apesar, empiricamente já me
aprofundava em você, em você inteirinha... E longe eu ser um conhecedor, um
psicólogo, estando mais para poetastro cheio de licenças poéticas, ao ponto de
arranhar desgastando a pureza não da moça sim da velha, a velha língua e ainda
a insultar seu esposo também velho também encardido (teimoso:) o vernáculo.Assim,
não dava não podia comentar, alto nem se fale, não dava explanar enfim sobre a
beleza feminina que eu vi e via a continuar ver pelos tempos e tempos para
admirar. Não dava, somente a poder sentir, mui sentia até à sensação de volúpia.
Ora,
flor de meu jardim, você tornara ao seu lar já, o lar um quarto acanhado igual
ao meu onde eu sonhava acordado na cama de dormir e temer pesadelos. Ouvira
antes nitidamente o desenrolar da porta de aço do boteco, afugentara decerto e
expulsara os fregueses retardatários (ou iriam eles dormir na cadeira na mesa e
pior no chão frio?) empurrara-os com palavras de ordem primeiro a acordá-los,
que fosse a gritar-lhes as dívidas para com o gasto no bar, e depois empurrando
mesmo os mesmos na chuva e aí tiveram certamente que acordar... Ouvira o cerrar
escandalosamente da última porta do estabelecimento; a rigor ouvi nessa porta
fechada inclusive a saraiva das gotas enraivecidas da chuva, a chuva agora a
amainar um pouco seu ímpeto e seu ronco louco, dada a ira gritar antes tanto o
corisco o relâmpago ameaçando dilúvio. Ouvira. E ouvi na escada a subir os seus
passos intercalados barulhentos apesar da intercessão da voz da chuva. E a
chegada no aposento ao lado, a porta aberta a porta encostada fechada chaveada,
ouvi aí o barulhinho engraçadinho do giro na fechadura. A seguir ouvindo, sem
entender patavina, a explosão do vulcão que teria suas lavas acumuladas lá
dentro daquele seu belo de fora... Não entendi, só escutei e escutei depois o
roçar trens de cozinha, choques indelicados do sem querer na cuba na pia
talheres utensílios que caem ou se defrontam e são postos a escorrer secar
descansar na trempe comprada na loja para esse fim.
A noite... a chuva tornou a despencar a
bombardear nosso hotel.Agora, então, aí ai! agora começa o meu tormento... Começa
prossegue não se acaba, remoo a sentir as pontas do espinho na carne do meu
sentimento ferido no coração. Por quê? Por que me pergunto, por que motivo o
coração e ademais encrencas, por que o coração tem que mandar na razão. Isto visto
esta deveria pôr e impor regras e ordens na sociedade nas relações dos homens
no planeta inteiro mormente no esfrega-esfrega da vivência homem-mulher.
Começa.
E o prolongamento disto a nunca acabar acaba aqui onde enxeridas criaturas nos
rodeiam querendo decerto achar-me no conluiu consigo nessa nossa troca amorosa
de palavras; de palavras porque de juras de promessas mais, caberia aos
adolescentes no início da carreira de conquista de amor, enquanto que a nós
ambos o que melhor se coaduna seria dizer o experiente amor maduro, tratado,
sofrido, ganho, completo. Depois tornaremos a esse tornar, tornando a essa perseguição
dos brutos sobre eternos namorados; e nisso o macho da espécie se vê firme, não
arreda pé.
Começa
o começo. Não bem assim porque eu já imantado na sua graça desde que a abordei
no balcão do bar a pedir o conforto dum quarto no hotel lá em cima de nossas
cabeças, aqueles bebuns então a me olharem estranho qual se vê um dinossauro um
estrangeiro ou um ser doutro planeta, menos cheiroso do cheiro de caninha.
Começa.
Mas Andreia, que horror pra mim não só o viver isso, aquilo que vivi; horror o
reviver rememorando agora aquelas horas daquela noite daquele dia da entrada no
seu hotel no meu quarto! Exporei entretanto o sofrimento.
A
ponta mais aguda e ferina inicial – a doer meses na carne virgem de minha
ingenuidade – a ponta foi o trinado do seu telefone à cabeceira de sua cama
também solteira de solteira, Andreia...
Tocara.
Um toque dos comuns trinados das linhas telefônicas, não era a era ainda do
celular, que manda na gente e a gente até a andar perigando entre conduções na
rua, uma doidura lamentável, a gente a olhar um mostradorzinho a encurtar distâncias
afugentando distâncias e também, em contrário, aprisionando os seres, que
sequer veem o perto do próximo a si tão longe... Não. Não tendo dessas
loucurinhas quase descabidas de hoje em dia ou então você, amor, você teria
falado com o outro – o outro!? meu rival – teria baixinho combinado o que combinar
(sem que eu escutasse) fraudando as orelhas no quarto contíguo, o meu do seu
donde afirmou as violências que proferiu perpetrando um crime!
Ouvi
claramente ao conluiu da amiga-inimiga chuva que parara suspendendo a voz da
tempestade para que eu melhor me envenenasse no veneno da intriga da traição
(veja eu então considerando você minha propriedade, a qual em ter propriedade
sobre mim). Da traição porque o meu amor, que eu conquistara ao adentrar um
antro de cachaceiros a perceberem anuviados um viajante a abordar a bela no
balcão; esse meu amor me traía com outro, meu odiento rival! Escutei-a falar
bem claro ao rapaz na outra ponta doutro ponto telefônico também fixo (numa residência?
não soube nem iria a ela pedir esclarecimento) a dizer que em razão da chuva ela
não iria encontrar-se com ele... garantiu ao homem ao nome repetiu o nome e ratificou
insistindo não poder ir, ter que faltar ao encontro e num pior: encontro às
altas horas da noite! Que diabo, falei, falei eu agora metendo-me na conversa
deles: você está me traindo! Ele repetiu, suponho, o convite; ela repetiu não
atender; fez mais, aí concorde comigo na torcida desorganizada no outro quarto
do outro lado da parede dessa parede-meia; fez mais ainda: na insistência bateu-lhe
deseducadamente o fone na orelha. Encerrada a questão.
Não. Ficava-me um gostinho atrevido de marido
traído enganado, o caboclo fala “dor de corno”. Fiquei a sentir uma
embaraçadora sensação de perda, embora não houvesse havido até aí ganho; além
do mais um menos: pois que eu não observara antes a aliança na mão direita
dela, o que não sendo direito na opinião do meu sentimento! Não deveria
reclamar... posse? roubo? traição? ora bolas, me falei, ela não houvera
declarado (ainda?) sua paixão por mim, um estranho a pouco chegado na
hospedaria. E daí era livre. Nisso cortei deseducado a conversa: livre porém zombando
de meu pobre coração? ah vamos lá entender um coração.
O
fato é que não fiquei a mordiscar apenas, num autossofrimento; continuei a me
ferir, horas até à hora do dia a rolar na cama; bem, comentei em consolo: ela
também a se revirar no outro lado nos lençóis de sua cama de solteira, bela no
entanto solteira (solteira! graças a Deus, interferiu meu ateísmo ou minha santa
ignorância).
O
pesadelo, aquele que não me deixava dormir, queria esse pesadelo dormir, não
exigira sonhos e muito menos sonhos lúbricos... Contudo foi o que ocorreu. Tive
– ora acordado ora mais acordado ainda tentando ouvir os sons da moça no quarto
de lá, inclusive os da tevê na sua madrugada, enquanto eu apenas ouvindo o
aparelho dela com minhas afiadas orelhas – tive o pesadelo dos desejos
inconfessáveis, possuí Andreia sem que Andreia soubesse... Você soube?
No
outro dia, na manhã seguinte, o sol a nos olhar na saleta feito cozinha e copa
do hotel, noutro mostrei à hoteleira sem ser de propósito uns olhos empapuçados
um mal-estar e até um pouco de desequilíbrio no andar, desarmonizado. Sentei-me
sonolento educado e atencioso na cadeira, encostei-me a deglutir pão margarina
café servidos na mesa. Olhei a moça, vi a mulher que me ferira com palavras e
negaceios durante toda uma noite; sem sequer atender-me ao questionamento sobre
uma descarada traição...
Dali
sairia ainda de manhã após o cafezinho para o centro, ver estudar a urbe;
indagaria pontos culturais, a biblioteca por exemplo; curtiria as belas
expressões arquitetônicas duma cidade secular e a beleza geral na paisagem.
9° Virolações estranhas
Estranho
insisto, Andreia, não pareceria o estranho aos seus paraisenses-conterrâneos um
estrangeiro! Sim porque eu passava pela gente a passear, passear ou a negócio
pois não sendo um domingo nem feriado e seria então um dia santo, o dia da
padroeira por exemplo? Não indaguei a ninguém sobre, perguntaria a você mais
tarde no retorno ao hotel. Passava por mim qual formigas, ou era eu que passava
passeando livre pela gente naquele centro urbano tão característico das coletividades
respeitosas do seu passado secular. Lembro-me e você não apenas se lembrando
mas sabendo por ser de São Sebastião – nunca se referiu haver nascido no bairro
do hotel decerto não, a vida muda com a vida porém com certeza sei paraisense
de corpo e alma... Você agora me afirma que sim, agora neste instante no
momento em que a dupla nos procura, me procura e não acha nestas tumbas na ala
dos remediados tidos por ricos pela pobreza. Aliás falo a você, amor, digo
nesses termos mas não crendo em mim mesmo por não ter já dúvida sobre sua
origem. Ora, a gente não costuma fazer perguntas idiotas? é isso próprio do
homem comum. Ponto pacífico.
Contudo
passamos nos entrecruzamos neste centro histórico... ah minha garota, falo do
centro de Paraíso e lembrei agora algo que me ocorrera quando da entrada aqui
em sua mais recente morada. Seguinte. Aquela gente a atravessar meu caminho a
seu caminho na entrada, na passagem a avistar a suntuosidade rica, rica mesmo;
nos seus adornos e exposições arquitetônicas, anjos asas (contra o a favor de
soldados carrancudos, armas em punho:) essas asas esses soldados – sequer a
pensar na experiência que eu vivera, viveria logo outras e não sabia, eu não
sabia sabendo por ver só a gente visitante, indiferente? a gente a passar por
mim também a passar lerdo (as pessoas igual formigas atarantadas andejas, eu
apreciando isso) enfim o episódio que já narrara quando da entrada na necrópole
de São Sebastião; de fato sequer essa gente a pensar e sequer saber nem por
alto da experiência que eu vivera. Vivera um dia – isso na minha cidade no
interior paulista – a experiência de pisar na gente! Então a gente espalhada no
chão do laboratório fotográfico dum amigo, o amigo falava e mais falava de suas
conquistas econômicas e tudo o mais, a rigor não eram conquistas porque
negativava-se o amigo pelas dívidas e xingava o governo de costas largas; enquanto
lá fora crianças faziam a farra na gritaria menina, dentro nós dois e eles,
elas as pessoas por mim pisoteadas! Meu amigo não era um sujeito organizado, se
bem que ótimo fotógrafo e nem por isso deixando de aparar os retratos, sem
decepar cabeças e isto não a imitar meu amadorismo e que horror me imitasse...
Ia atirando ao léu retalhinhos ou retalhos de fotos em imagens cansadas por aí;
na mesa de trabalho, no trabalho de sua banca e, pasmemos nós dois Andreia, e
até no chão no solo sobravam mil e uma imagens nas cartolinas de fotografias,
fisionomias conhecidas e as mais das vezes desconhecidas do visitante, eu, nem
conhecidas do próprio amigo visto ser fotos de fregueses; nós dizíamos
fregueses aos seus clientes que se propunham ser fotografados; eram não mais
que fotozinhas ditas 3 por 4, aquelas
de documentos antanho. Enfim espalhadas nos meus pés. Eu as pisava distraído,
qual a personagem poética popular em “Chão de Estrelas”; pisava as cabeças,
distraído, e por extensão as cabeças do mundo! Todavia a gente que passava e
passeava na alameda, milionários ou não, não sabia. Não podia saber a apenas
ver, se vendo, anjos com asas e não viam decerto soldados carrancudos a
espantar mansas criaturas a andarem por entre capelas e tumbas. Tornemos ao
centro da sua cidade, o que agora rememoro.
Passamos
nos entrecruzamos, uns riem e se riem, outros nem tanto; agorinha abriu caminho
no meio da gente não a desfilar e sim imbuída dos seus dramas uma jovem como
que emburrada; um outro ser, senhor passado passando também circunspecto e daí
deduzo que o mundo não são flores a todos, entretanto todos de um modo geral de
feições desarmadas, de semblante positivo (a alegria dentro da gente nos faz
exportar o bem-estar a estar bem o mundo inteiro consigo). Alegres, não só as
crianças a pular entre adultos e ‘pidonchas’ ou mandoninhas ao pedir-exigir o
que veem e as guloseimas que a tevê fá-las ver, a ‘implorarzinho’ aos pais que
lhes adquiram. Aqui me recordo, no entanto não para chamar atenção sobre mim,
os tímidos temem e se horrorizam na berlinda; lembro-me haver tropeçado numa
ponta do calçamento e quase caído ‘gostoso’ no meio do povo. Resumindo, todos
de um modo geral bem no movimento que vejo na rua, eu neste momento a imaginar
num desmancha-prazeres que ainda não almocei num restaurante barato daqui do
centro e que tarde muito tarde regressarei à hospedaria, não aos seus
fregueses... sim, Andreia, a lembrança de minha volta a você me enche de alegria,
a alegria quase contida por não se mostrar ainda ser minha, oficialmente minha
como desejava desejo desejarei sempre. É motivo de alegria sim, não aos que passam
por mim ou que eu os abalroe nos cordões da gente nas vias públicas, encontros
encontrões em
desencontro. O fato principal é que circulo faz horas no
coração da cidade... quer meu amor testar minha memória nos passos que dou?
Ando na rua Tiradentes nas proximidades do Mercado Central; passei antes admirando
admirado na rua Padre Benatti, parei exatamente diante do número mil e... ih
agora falhou não lembro, lembro-me haver curtido (os jovens usam frequente esta
expressão) sim curti lojas e edifícios, uns se modernizando outros curtindo
eles mesmos as belezas arquitetônicas desta cidade a respeitar este século e o
outro século que passou. Porém nisto que afirmo não sei precisar o tempo; não é
necessário que o homem comum, mormente um estranho ao lugar, confirme; mesmo
porque não sou um pesquisador nem historiador – não afirmei na ficha de entrada
ser viajante e que vim de São Paulo e ainda não tenho rumo; não iria fazê-la anotar
na ficha que meu rumo é exato você! ajuntaria mais informes como por exemplo:
exijo que não se abrace ao meu rival e se... então... ah! creio mesmo me
agarraria a ele e cometeria violências mais, sujeitando-me ao crime e ao xadrez...
ora ora que bobagem estou falando, Andreia, você sequer tomou a ficha que dirá
registrar informações a encaminhar à polícia. Enfim meu rumo é você: é, era,
meu bem, era porque narro como foi o passeio no centro urbano.
Passeio!?
sim passeio mas nunca se pretende, a andar descomprometido por aí, nunca
deparar-se com espinheiro...
Passeio?
espinho.
Passeio
trasanteontem anteontem ontem à procura da distração, ferindo-me no espinho por
temer temê-la no temor de encontrá-la pela avenida ou num beco qualquer da área
central – agarrada a ele! isto não seria demais ao meu pobre coração? especialmente
após ouvi-la desmarcar o encontro pelo telefone durante a noite e a culpar a
chuva, eu desejando dissesse ao rival: “não posso, não quero, não vou, vou
permanecer à disposição de meu novo namorado, eterno amor!” Não. Não diria
assim nestes termos, visto ser sensata, madura, experiente, bela. Bela pra mim.
Sim.
Passeio?
sim, amor, durante meu passeio me deslocando, sentado a tomar um sorvete e
vendo a gente, a gente vê o que não quer...
Querendo sim reencontrá-la e a imaginação imaginara o absurdo que seria
você entrar sorridente sentar-se comigo pedir a taça, saborearmos ambos algo
gostoso contra o calor – e não será a imaginação (não você) a me perguntar:
será que não despencará mais chuva! Basta-me você, sozinha, nós a sós no meio
da gente a passar na rua aí em frente, você à minha procura no meio da
multidão... Ah terrível é o imaginário dos necessitados, oh amor. De fato
reencontrei a amada e felizmente não estando acompanhada dele, o odiento rival,
e sim acompanhada dumas colegas amigas conhecidas e isto me agradou sobremaneira.
Vira
você com as outras a matracar suas coisas; mais uma vez não soube sobre o quê.
Aos estranhos tudo que se diz numa cidade estranha é estranho e até
desconhecido. Aí pensei: não seria igualzinho o contrário; o contrário? Você
estando estranha na estranha urbe donde vim, a si desconhecida. Certamente que sentir-se-ia
deslocada lá. E olhe, meu bem, fazia já plano propor que fugíssimos (aqui do
meu rival, não do hotel não dos bebuns) que fôssemos em viagem de lua de mel ao
interior paulista e após morar na minha terra. Nunca lhe falei nesses termos,
não é?
Vira
com outras moças, não: com apenas outra jovem, bela também, ora e que ficasse
comportadamente a seus pés de rainha; outra companheira mas noutro reencontro.
Imediato, ah como rápido o pensamento, logo pensei ao revê-la que fôssemos
tocar no assunto até aí proibido, quando estando amando tornando à noite ao
hotel, eu no meu quarto, no seu quarto você no ti-ti-ti duma parede para outra
ou... isto já sendo felicidade completa: ambos abraçados e aí importando pouco
de um ou doutro lado num ou noutro de nossos quartos. Vi-a sim de novo, agora
sendo eu com certeza a passar por você, vocês duas. Ai que tristeza, amor, não
me deu sequer um aceno. Não me viu?
Transanteontem
anteontem ontem hoje parecia tresloucado a andar à sua procura à procura de sua
nova residência, acredite Andreia: passei perdido até da rodoviária e na passagem
pela rodoviária enxergando bem de lá seu bar outra vez, então descobrindo estar
de volta à velha morada desejando ganhar a sua nova – quase tornei à dona Maria
me orientar o onde seu endereço agora; agora já sei é claro.
Pus-me
a caminho.
A
andar, não prestei atenção sequer haver tropeçado; e que importância teria
isso? nenhuma.
Então
ia a pensar a relembrar a rememorar, o caso do cineminha de dentro do miolo e
ninguém percebe, ninguém de fora, o tal cinema que nos devolve a fita o fato
passado estando no hoje de hoje. E dizia-me coisas:
Ainda bem me tratando nas nossas conversas pelo
menos como “você”; se continuasse como no primeiro dia da primeira noite a
indicar-me por “senhor”, isso nos atiraria a mil quilômetros de distância,
distante da intimidade que deve vingar entre nós dois como eternos namorados.
Tem
mais uma coisinha que precisava dizer-lhe a bem de nossas relações: não
apreciei você haver outro dia tingido os cabelos, embora tenha ficado agradável
ver as mechas claras no escuro dos fios intercaladas. Não apreciei de início,
sei lá se me acostumarei com essa nova imagem por amá-la; sem que deixasse então
por isso ser a Andreia dos meus sonhos.
Olhe,
tenho algum rancor, acho ser rancor será! sabe que temi neste trajeto e antes
temi sempre deparar-me com o rival: não suporto não suportaria conhecê-lo... E
se!? se o encontrasse pelas ruas, não sabendo como estaríamos agora, eu na
cadeia após o crime e você em a nova residência aqui longe de mim; não, basta
de loucuras de abusos de absurdos, nunca estaria longe...
Chega
sim, meu bem, chega desse pensar maluco, de hipótese sem base pois que não
encontrei vivalma; ninguém passando por mim no caminho que fiz indo à sua
residência.
10° Os que não entendem da coisa
Eu,
você, nós ali, eu me surpreendo em a nossa conversa em nosso encontro, meu
amor, distraído talvez enredado decerto consigo nas coisas que nos dizem
respeito e que falávamos a lembrar nossas coisas, atentos, circunspectos; enfim
eu estando ali tomado, entregue, absorto, ou não: concentrado, concentrado eu em
você somente você existe para que eu também possa existir; quando... Ah querida
menina, que susto tomei sentindo agora aquele contato indesejável, porém me
indago por que indesejável visto não ter o pobre tendo sido visto mas estando no
seu trabalho ou função de mero ocupante de um cargo inexpressivo como um
inexpressivo servidor da prefeitura da cidade sua, minha Andreia. Até não devera
me surpreender com tal abordagem, levando em conta isso – verdade que andava,
parado embora fixo embora corpo embora a alma frente sua alma meu amor!
Realmente até não devera e asssustei-me sentindo um estremecimento, desses estremecimentos
no momento que se acorda se desperta para a vida (e a vida ali na minha frente,
a vida era é você, Andreia!) Acordei, acordei ainda a falar consigo nossas
coisas nossas lembranças nesse (naquele?) momento no qual o homenzinho moreno
apareceu-nos... Vimos ser um homem magro pequeno simples bom talvez até prova contrária
e isto válido para toda gente, não optemos pelo absurdo ser boa somente nossa
relação entre nós íntimos e nossos relacionados e os outros sendo o mal. Não.
Sim, um pequeno servidor da burocracia municipal então a meu lado, quase me
tocou; e olha que eu deveria não adverti-lo, sim adverti-la, meu amor, por não
me chamar atenção àquela presença em nossa presença ali chegando chegado de
manso decerto para não ferir nossa conversa de amor, como manda a boa educação
dos seres conviventes. Chegou falou lembrou insistiu comigo que... ora, agora
não me lembro o que disse textualmente e na íntegra mas qualquer coisa como o
senhor... já acabou? não, não isso, aquilo e... bem não tendo comigo intimidade,
nem com você, julgo primeiro por ser seu conterrâneo quiçá conhecido ou
parente; depois comigo porque você não falou com o homem só com este seu amigo.
Enfim, sem familiaridade me tratando “senhor” o senhor não vai sair! emendou: é
hora agora da hora ora, eu nem ouvi direito, tomado entrosado com a nossa fala.
Olhei. Olhei-o à nossa volta, olhei-me cansado, ainda tanto e tanto a lhe dizer
meu benzinho e aí perdendo a voz de minha voz, porque sempre nós seres humanos
ouvimos dentro de nós mesmos a voz o som que emitimos a outrem sobre as coisas
que dizemos ou dissemos ou só ficando por nossa memória gravado sem que outrem
tenha escutado, porque o mundo não está nem aí com nossos problemas. Terei dito
a ele “já disse que não arredo pé...” Mas preciso dar crédito ao direito do funcionário
que me abordava porque desconhecendo não só dramas dentro de nosso cérebro, meu
e seu, como as alegrias (no meu caso pela grande felicidade a estar conversando
com você naquele momento!) Perdoemos aquele homem correto no seu mister de
lembrar advertir educadamente visitas, visita, eu, eu diante de você. Não,
francamente não sei, garota amada, não sabendo como de repente me vi sozinho de
novo, ele tornara sem dúvida ao seu posto na entrada da saída e eu só, mui bem
acompanhado de meu amor! Ah meu amor.
11° Não
naquela noite, noutra
Agora
nós éramos cinco ali a esperar não esperando por não entender o que se
aguardava... O segurança, deduzi segurança naquela repartição oficial municipal
porque armado até aos dentes e aqui exagero pois o homem não tendo mais que um
revólver sem calibre – quer isto afirmar que sempre desconheci armas e não
distingo bem um canivetinho, ah que gracinha, dum artefato nuclear para envio ao
cemitério milhares duma vez... ah a morte! sinto arrepios prefiro a vida. A
vida dolente monótona silenciosa aqui é quebrada na sua harmonia pela chegada
dele, deles dois! o que poderia dizer não chega a ser chegar por ser volta: o
funcionário ranzinza disposto a mais e mais teimosias retorna onde nós ambos
estamos, querida Andreia; terá ido à portaria ao portal ao portão de entrada
saída das pessoas que se foram embora às suas respectivas residências, de volta
elas após o passeio entremeio olhando observando se extasiando na apreciação de
anjos de asas nas capelas – e me pergunto não terão se deparado na ala milionária
com os guardas de segurança máxima carrancudos a defender os mesmos o
patrimônio rico dos ricos vivos a valorizar seus mortos!? não terão visto ou
visto sim com certeza sim e não apreciado o que vendo?
O
segurança acionado, decerto pela fragilidade da função do homenzinho moreno que
anteriormente me lembrara ser hora da hora dos corpos mortos, mortos exceto
você vivinha da silva, Andreia; o funcionário me dedou certamente ao soldado ou
apenas segurança terceirizado no fazer presença na repartição para evitar
engraçadinhos mal educados ou por que não dizer! os ladrões; os ladrões um
drama da atualidade porque nas décadas atrás só temíamos algum cachaceiro que
lhe desse o calote não pagando a bebida no balcão, a dívida que você apontava
num caderno para não esquecer maus pagadores, não é assim como digo, meu amor?
O segurança vem vindo com ele, o funcionário que nos pegara no pé, ou, bonzinho,
apenas me admoestara haver passado o limite do horário; eu batendo o pé, firme
na conversa com minha princesa sobre as coisas que nos dizem respeito, intimidades
de casal.
Permaneci.
Retornou ele; agora somos cinco, você é claro ser a primeira e nada fizera a
reter-me e muito menos expulsar-me, fiquei a dialogar consigo por apaixonado
obcecado por você e isto justifica qualquer descontrole ou loucura, havidos simplesmente
por amá-la, amá-la desde aquela noite de minha chegada à rodoviária de São
Sebastião, a nova a velha anda desativada e já tratamos disso. Desde não a
noite a nossa noite, mas desde antes dela, quando pus os pés no chão liguei o
movimento das rodinhas da mala e fugimos nós viajantes, a saber eu a bagagem as
rodas, fugimos da chuva a ‘tempestadear’ e torpedear seu hotel seu barzinho sua
morada então; de fato, desde aquela nossa noite... Permaneci junto de si, o funcionário
não se convenceu da minha necessidade de amar meu amor e olhe aí ele de volta
chegando a nós; e portanto agora somos cinco: você, eu, ele, o outro como segurança,
o qual me parece também inseguro... e finalmente essa figura que olho com
simpatia aqui próximo, não sabendo eu você sabe quem? não entendendo qual lado
o indivíduo partilha, chamemo-lo Amigo e se antes pôde existir acento na
palavra amigo e a Reforma houve por bem ter abolido assim como o fez ao agudo
que desfigurou o seu, nosso, Andreia; então eu poria agora sinal de propósito
na palavra amigo, de maneira irreverente.
Contudo
ambos servidores da necrópole não parecem ver nada, nada além de meu corpo em
soma cansada de anos pelos debacles da existência; mormente o sofrimento pelo
acidente rodoviário que a fez em pedaços e sangue, já sem sangue, na opinião
mentirosa ou só equivocada de sua ex-vizinha dona Maria, aquela uma.
Dialogam
ambos homens, falam-se sincopadamente, o homenzinho justifica qual homem comum
que realmente é, embora pareça correto servidor, enfim defende-se perante o homenzarrão
– o soldado é um homem enorme, enorme em contraste conosco, eu miúdo você
pequena de corpo porém esbelto belo e minha paixão por anos, enquanto que o
funcionário colega dele é bem menor que o segurança; e o Amigo não tem tamanho,
tem graça, tem personalidade, tem amizade sem exigência e é confiável como
santo; sorrimos ambos ao Amigo, nosso amigo, não é Andreia? Todavia a dupla de
funcionários não nos veem...
Vou
além – que não veja você não enxergue nosso amigo – vou além pois que não
demonstram sequer ver-me! Isso estranho.
Eu
na qualidade de estranho ser, quiçá estrangeiro, estranho o fato.
E
os bobalhões, tal qual nas brincadeiras de meninos, ciranda, cantigas,
esconde-esconde, essas coisas; tal qual, me procuram como sendo a bola da
vez... sem que eu haja me escondido deles! Uma vez na opção “ele está lá” diz
um, não, responde na sua certeza o colega nessa dupla, “não, não lá: atrás daquela
sepultura verde” (ora, que mau gosto pintar uma carneira, a gente aqui fala
“carneira” não carneiro a cova a tampa cimentada do morto; não sendo para evitar
que fuja, óbvio, que se vá o defunto; não bem isso, o mau gosto é parte dela estar
pintada com a cor da esperança, esperando a gente outra tonalidade como preto e
roxo à morte do morto enterrado).
Num
dado momento e aqui acho graça e me indigno ao mesmo tempo nessa perda de
tempo: num dado instante um fala em termos de o velho (puxa! me tomam
matusalém...) o velho haver pulado o muro fugido, daí não se encontrando; não é
um absurdo um velhote conseguir pular o muro temendo o segurança armado até aos
dentes? só rindo. Sigo o diálogo e outro acentua haver feito bem segurado na
portaria a mala de rodinhas, antes que o doido (eu louco! fico feroz no
alvitre) antes que ele espantasse os visitantes com aquela geringonça.
Não
chegam a consenso. Aliás fizeram de tudo para me achar; e uma coisa me feriu
profundo nessa investigação cabocla: pisotearam sua residência, querida,
passaram com pés sujos a sujar sua carneira; um apoiou-se na haste em que está
seu retrato, o retrato da sua imagem que guardo no meu ser. E os pés do
segurança andavam embarreados do campo de batalha. Olhei-o ao pisar sem
quaisquer laivos de religiosidade; mais nesse menos pois não demonstrara ser
beato e suficientemente ingênuo por religiosidade vazia. Vi na face dele a expressão
carrancuda. O colega de ofício ou da repartição funcional igualmente decerto não
dispondo de asas...
Marília agosto
2015
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