sexta-feira, 30 de agosto de 2019

O Inerte


O Inerte

- Ouviu mal falei não verme, inerte. Aquele sujeito sujeito às injunções do movimento, embora parado pranchado (relaxado!?) esticado na cama; de solteiro. De solteiro ou teríamos, ou não teríamos nada pra ver vendo o sujeito; aqui nesse então sujeito à companheira... ah a companheira... Seria de ouvirmos nós e conosco todo um planeta na surpresa dela um berreiro quiçá espalhafatosamente grande, ensurdecedor. Coisa assim de  "mataram meu marido Mário!" ou João ou José, este que pronunciavam na vizinhança Zé, seu Zé, forma bem mais curta mais popular mais condizente com hábitos arraigados em nossa civilização. Aqui não toda civilização, apenas a particular caipira sem roça, pois mataram-na, deixaram também a roça inerme.
Não. Sim, andava feito morto ou absorto apenas no leito pobre.
Pobre. Quando a gente diz pobre não imagina, ao menos no imediato das coisas, o sujeito a viver miseravelmente; e isto é uma aberração no mundo rico desgastado usado abusado pelos ricos, esbanjado dito melhor; os quais têm vasta ajuda (negativa) da parcela pobre imensa espalhada de oceano a oceano a igualmente usar gastando esbanjando como nada tivesse um fim... Não se fala aqui desse pobre.
O inerte.
Particularidade da situação dum sujeito inerte – pranchado ou não na cama de solteiro, no caso solteirão empedernido e sem temor temer ouvir nesse infausto momento a gritaria assustada de sua senhora (senhora dele, essa que teria feito ou não faz mais, dada a condição de não existir; porque ela faria um berreiro pelo fatozinho de encontrar o companheiro morto, inanimado... e nisso chegam uns desaforados parênteses, não 'parentes' parente é ainda mais desaforado metido intrometido e neste caso não daria satisfação à Maria, sim não passa de hipótese e podendo chamar-se Josefa Teresa Joana; não existindo não se  chama nem chamou a atenção do prédio inteiro naquele vozeirão; e chega:) Continuemos.
É um prédio sem andares. Quer dizer sem preocupações aqui embaixo a olhar muito lá pra cima os andares a meter sua cara nas nuvens com pavimentos sobre pavimentos, uns 50 ou 100 andares. Não.
Sim, um modesto desses que pululam nas megalópoles apesar de superiores às inferiores edificações plantadas no solo sem ser favela nem mesmo casas de alvenaria pobres e tendo como o prédio pobre a condição de aluguel. Aquele negócio de placa com letreiro "aluga-se" ou "vende-se". Não, apenas pobre com poucos pavimentos em cima doutros pavimentos a escorar abrigar apartamentos sem luxo ou até a comum quitinete ou seja quarto emendado à cozinha, tudo exíguo tudo medido contido espremido. Ainda assim os moradores a temer apropriações indébitas e portanto a se fechar dentro ou a sair fora fechando bem com bem uma dúzia de chaves (pra exagerar o exagero) e daí, na hipótese anterior se fechando presos a se enfurnar e ninguém tem o bem de saber o que a gente faz dentro de casa. Ou na segunda saindo fugindo ao sofrimento lá fora – e antes que isso a esperar o elevador, não o ascensorista, isto não existe pois a empresa que controla o edifício despachou todo mundo trabalhador em favor do contra que é a crise e assim só permanecendo a manter o estabelecimento um funcionário para atender possíveis futuros e presumíveis interessados à locação das vagas; tão só existe o serviçal à limpeza para recolher lixo e a conversar com seu celular no descanso da jornada, além das atrapalhações como entrega da correspondência de um inquilino a outro morador... e da encrenca do tapete: cada vez que limpa o andar deixa o de um vizinho na porta do outro, outra piormente se for a do 55 briguenta. Em virtude dessa desvirtude foge-se usando elevador barulhento e por vezes encrencado, a ter na volta ao lar que subir pela escada até ao sétimo. Mas o 7 é número da mentira.
Partamos à verdade, confirmada: um homem encontra-se inerme na sua cama simples.
A cama... o colchão (diriam as bocas dos olhos alheios cheios de curiosidade na visita da curiosidade ao antro – um apartamento de prédio sem recursos equivale a um antro como dito e aqui repetido. Olham analisam e piormente comentam, porque o homem comum não sabe ver-ouvir quer até manusear e sobretudo expressar opinião quase sem contradita e daí: O colchão mui remexido velho usado ih que cheiro... Não, o que remexido o lençol, esse assim bem sovado, afirmam sherlocks em plantão; amarrotado num mostrar o quanto o Sr.José (não falaram Zé!? disseram Mário, ah o Mário da Maria!) o quanto ele se mexera se remexera a se contorcer na sua dor e... espera lá, quem garante enfermidade atroz? Claro, as pessoas idosas, comenta lembra uma das intrusas (gente de fora sempre intrusa nas intimidades da gente) sim gente velha necessariamente vive a morrer nas suas dores; e mais: nas lamentações pelas dores. Eu conheci um velho (pronuncia "véio") que... E vai aí afora o(a) de fora dentro.
O travesseiro, vejam, observa um da equipe sem salvamento e de investigação (não oficial nem mesmo oficiosa) esse travesseiro meio atravessado e por demais alto, prefiro um baixo conforme o dr. Otacílio recomendou e nisso conta médico hospital diagnóstico remédios exercícios e o que viu sobre o assunto na televisão ou a consultar no Google, tudo todo andamento neste particular, o particular um exemplo de quem examina o ambiente em que gente inerme cadavericamente estirada no leito. Pois é, o travesseiro mostra anos no uso – vejam o afundamento mais à direita no abuso ao dormir – o travesseiro exibe uma falha gritante, e daí esse (nunca o comum do ser sabendo não sabe de gramática, quando 'este' e 'esse', por mais perto se encontre do objeto sujeito). O sujeito visto deitado na cama revirada, já um indício de sofrimento por que o infeliz passou, se morto.
Morto!
A gente entra observa analisa o quê vê e vê assim um morto... Ora, o quê a gente não vê não existe todos sabem disso; o que escancarado à nossa frente, a gente até pode pegar tocar bulir a conferir e por isso existe. Creio na existência desse (outra vez é esse ou este?) enfim do corpo.

- O corpo dum sujeito já gasto já fraco já no ponto de partir... ao paraíso ao inferno, não contente em ter o seu inferno nas crises da gente e seus prognósticos suas estatísticas suas 'feiquinius' e seus inventos saídas e explicações e (chatamente absurdo mas escancarado no noticiário da tevê:) e as soluções. Todavia nisto um caminho a sair por bem por mal do inferno e tê-lo depois do trespasse, não esperando decerto a esperança dos racionais e as tolerâncias imerecidas do céu. Sim, o corpo inerte dum ser desconhecido (embora toda fala humana é de a pessoa ser conhecida e pior: aceita como "amiga") esse ser pode ser visto numa cama quase enxerga barata vinda do brechó. Pode. Inanimado.
Será, indaga o curioso, alheio, será que um inanimado como aí exposto não tem vida interior; quer dizer estando por fora morto porém por dentro pleno de vida. Contudo não se mexe – garante uma das visitas nem um pouco convidada, a curiosidade não tem cerimônia nem etiqueta.
A polícia e o tempo.
A lei (ora a lei) a lei fora chamada, o servidor de plantão explicara pelo celular o que ocorrendo no prédio, todavia demorava um tanto a chegar. Encostara a porta, a porta nunca fora entrave aos abelhudos, estes a comentar com moradores mais velhos do edifício no apresentar o fato palpitante do dia ou seja aquele velho diariamente descendo-subindo no elevador, não se sabendo o que possa fazer um aposentado solitário nem o quanto ganha nem o que faz da fortuna além de não se ver os parentes e aí alguém categórico: "não tinha parente (aqui matando o ser inerte esticado porém com uma das pernas encolhida, sabidamente agora parado:) terá parente filho sobrinho tia, qualquer! ninguém vira nunca alguém próximo entrar o 73 em não ser o entregador de água um que outro de supermercado com as compras; ninguém vendo nenhum indivíduo a entrar lá que não o próprio inquilino, ora de carrinho de feira ora de sacola plástica de supermercado; e até a penetrar no recinto de mãos abanando. Portanto sem ninguém. Daí se comenta o homem, é Zé? Era, respondem, sim seu Zé um tipo estranho, não cumprimentava, ao menos desse com a mão sinal de vida nunca deu as graças da existência; decerto pagando correto à empresa proprietária ou só administradora do prédio; quem sabe? não falam existir uns maus pagadores, a imobiliária anda a fazer levantamento, tem gente que deve aluguel condomínio imposto água luz telefone e por isso estão processando pra pôr na rua e não seria esse tal Zé! Outros defendem o desconhecido a dizer que ele não ofendendo nenhum morador... isso mesmo, não ofendia.
Antes do disse me disse e no descuido do faxineiro que fora levar sacos pretos de lixo comum misturando com os sacos à reciclagem; nesse entremeio forçam a entrada, entram. "Tafuiam" pronuncia um interiorano apegado nos seus costumes e agora se junta como oportunidade para um 'estrangeiro' na megalópole aos outros mais acerbados inquilinos curiosos a penetrar aquele isolamento, no quarto (a cozinha da quitinete olha aquela gente espevitada e perturbadora num espanto e não faz nada, igual um gato de estimação – não tem gato cachorro qualquer bicho de estimação antes a acompanhar ali aquele viver ou desviver e agora a cozinha só pode olhar a baderna.) Ou por outra, não tem baderna, o grupo fiscalizador ou apenas enxerido de vizinhos em ver o que não deveria se meter em ver; esse entra de vez e de mansinho pra não dar no que falar nem despertar quem sabe a fúria do empregado lá embaixo; nem despertar possíveis inquilinos ainda no seu apartamento. Inclusive pisam em ovos para não causar na meia dúzia acordada desnecessária crítica e até não cutucar com vara curta a lei, a lei que tarda sim mas não falha... Não, quem não falha dizem ser a justiça, quanto à polícia ela justifica entretanto aparece, poderá de 'surpresa' aparecer. E como explicar o bedelho da curiosidade em coisas melindrosas como exemplo um defunto fresquinho!? Será que faz tempo que morreu? um do grupo, por espírita, retifica para "desencarnou". Não importa.
Agora encontram o morto morto. Estático pelo menos, não se mexe.
Daí comenta-se o que falara o mequetrefe em serviço, o como das coisas. O senhor gasto residindo ali, aqui neste quarto, não se comunicava com pessoa alguma, se é que bom-dia boa-tarde e obrigado não pertençam à fala dos vivos. Morto achado no ato da limpeza do pavimento, quieto – sempre se ouvia antes algum barulho educado, uma tampa de panela ao chão, o cabo da vassoura a chocar em queda no piso; som televisivo não, o sujeito não ouvia, por surdo quem sabe, pra ver tevê; sim havia lá dentro uma tosse seca teimosa renitente. Ah, de fato, ouvia-se o barulho da descarga e da água no lavar roupa e a louça é lógico, não consta mais nada da vida do morto quando vivo (e como saberiam não vivendo no interior daquela prisão que é um apartamento num edifício pobre e também no do milionário, num de rico) não consta provocasse qualquer barulho nessa casa (com possibilidade vir a ser mal-assombrada, credo!) Portanto nenhum vizinho e até servidores antigos a poder informar da vida pregressa íntima desse (não é 'deste'?) enfim do morador. Tão só que já por mais de ano ocupando o 73. Afirmara um antigo entre funcionários a umas orelhas que o mesmo pleiteava numa hipotética vacância outra quitinete longe duns barulhentos vizinhos... o que se não concretizara até aqui. Aqui urgindo o tempo de hoje – desaparecer do quarto onde agora se vê parado pranchado (relaxado!?) esticado um homem.
Agora aqui o homem não se mexe. Às vezes a gente no olhar fixo firme um objeto parado crê andar vendo um movimentinho quase imperceptível e supondo ilusão ótica; o fato é que o homem em questão não se mexe.
Nessa altura uma senhora nos seus cabelos brancos e de muita sabedoria entre eles se arrisca dizer – analisando o cadáver... (cadáver não é abuso dos olhos da boca? prossigamos:) Na analise do ser ali visto na cama, acho que ele sem dúvida alguma se encontra morto.

- Temos a extrapolar até na visão do próprio abuso um grupo, grupelho a ser exato, um amontoado de sujeitos sujeito à curiosidade, sempre indevida, de vizinhos (desocupados é claro e claro agora ocupados) ocupados em examinar seu Zé inanimado, demais dizer inconsciente. Entre eles, eles componentes aleatoriamente reunidos nesse quarto feito casa (ou velório!?) a comentar o que veem. Enquanto comentam dentro do grupo dentro do quarto, fecharam antes disso a porta, encostaram-na de leve para melhor não chamar a atenção; falam, baixinho, a tanto que algumas das orelhas penam ouvir o discurso do falante da hora e então se achegam mais perto da boca ativa ativada. Não obstante ficam de espreita num vai que surja o Zé não o Zé-morto o Zé-vivo, uns sequer sabem o nome do novato servidor porém temem que suba; ouvem atentamente o estardalhaço descaridoso do elevador velho gasto no entanto não velho gasto qual o inanimado senhor José, e falam: parece que o novato homenzinho ranzinza não é José é João, amanhã a gente indaga a esclarecer na portaria, porque o servidor também agora de porteiro. Enfim tem Zé vivo na limpeza do prédio e Zé morto na sujeira do quarto o qual por fechado muito tempo exala odor de mofo e alimentos em decomposição, lá na cozinha certamente. Ele, o faxineiro, disse que abrira a porta do velho com a velha chave reserva que requisitara da empresa. Isso porque não se ouvindo dias mais de semana quaisquer sons no aposento. Daí, falou o rapaz encrenqueirozinho, que penetrou aqui e se deparou com a cena do velho aí, um corpo como vemos estatelado na cama. Chamou. Gritou. Nada. Deduziu... e temeu possível encrenca ao seu emprego, ninguém hoje tem segurança e então lavou as mãos a passar o caso aos patrões e o celular dele não queria funcionar ainda por cima nesse por baixo. Até que conseguiu e passaram ordens estritas como não deixar ninguém se intrometer (inclusive recomendaram prudência e não ventilar qualquer pormenor, verdadeiro ou a ser comprovado) para não complicar e mesmo comentaram lá no escritório que iria na semana vencer o aluguel. Bem, com isso trancou a saída. Contudo não se sabe como chegaram a saber, além de ficarem a cobrar-lhe melhores e talvez mais picantes informações, ele desconhecendo até o mínimo, além do tratado. Ah, lembrou-se o rapaz, a firma insistiu não mexer nadinha no aposento enquanto não chegassem as autoridades.
É isso. Foi isso soubemos.
Pouco mais. Por exemplo, teve inquilino enxerido a reclamar do cheiro forte como de putrefação de carne; o que estranhado porque havendo a hipótese do mau cheiro vir da geladeira do velho, um fedor de podridão, insistiram, nauseabundo, decerto sim do refrigerador desligado pois também morto igual o dono e a casa.
De maneira que os comentários bem como a investigação daqueles sherlocks de primeira viagem precisando ser breve tanto quanto os indevidos toques naquilo que possivelmente fora um ser humano. Assim mesmo puderam constatar ausência de calor, menos uma febre; e a respiração inexistente. Inclusive certa moradora jovem chegou a tirar de sua bolsa um pequeno espelho para examinar se ar de vida no nariz do morador; aliás um nariz horrivelmente grande torto arcado e vermelho (quando vivo um pimentão as fossas nasais, a caracterizar o velhote na fala vizinha). Apalparam apalparam, tocaram o travesseiro de anteriormente (e isto não tendo importância agora) provocar aquelas incríveis dores no pescoço.

- Assim o pequeno grupo de grande curiosidade e quem sabe um bocado abusivo sai sorrateiramente para mostrar ou para fazer crer: não sabemos de nada, nada vimos, quem? onde? como? por quê! No entanto, mal fecharam a porta vizinha (morto ou vivo não continua vizinho?) mal cerraram o fecho sem deixar o dedoduro trinco trincar barulhinho chato de cheguei; mal acabando de deixar preso o prisioneiro inerte – já se lembraram de algo menos no mais da curiosidade, a curiosidade um direito da gente neste sofrido planeta; inclusive se despediam com recomendações sobretudo na boca fechada, é óbvio, e entravam ou só abriam as portas, agora de seus respectivos apartamentos – quando a se lembrar doutro necessário nesse mundo escuro escuso da curiosidade. Não haviam os membros na oportunidade tudo visto – visto sim porém não o total apenas o necessário que fora o corpo inanimado do homem do 73. Seria preciso, recomendou aquele pruridinho lá de dentro da curiosidade sim, não examinamos o resto da quitinete! embebidos só no defunto. Tornemos.
Pé ante pé voltam (e tinha um morador que subira do 3º andar e então já no limiar da escada, não iria despertar o mundo no uso do elevador barulhento...) Se reencontraram ou se refez o grupo, ainda reforçado por uma senhora gorda e toda maquiada do 5º que acorrera saber e decerto a fugir dos olhares do Zé, não do Zé morto, do vivo lá embaixo e numa conversa alta com alguém chegante e não seria a lei! Esperaram um pouco de mileninho de impaciência acalmar a coisa, reentraram na clausura da infausta quitinete.
Daí fala-se mais baixo possível, próximo do baixo de um silêncio absoluto, possível visto anteriormente já se falasse em mínimos decibéis. Ainda por cima no mais por baixo necessário fora perder tempo a sintetizar à moradora acrescida as informações e sua injunção como penetra antes do depois de descerrarem quando haviam cerrado definitivo a porta fúnebre. Além do que, nesse particular, dona Madalena apreciando e exigindo os quês no tim-tim por tim-tim, tem gente que precisa ter tudinho em pratos limpos, minuciosamente, como não havendo entendido os passos as partes. Isso levou os expositores a retardar uns minutos preciosos, roubados à faina tão grata para a verdade.
Por fim, estamos donde saímos a haver encontrado, rencontrado, no quarto na cama o ser inerte, estamos por extensão de novo no velório mal enquadrado.
Reexaminam; uma integrante na primeira e virginal oportunidade. Abrem bem seus ouvidos a escutar qualquer ruído estranho vindo debaixo do edifício, mormente prestando atenção no elevador, naquela hora a trabalhar de bandido com os aventureiros, ao andar parado silencioso; assim aguçando orelhas na vigília... aqui outra questiúncula que foi o igual interesse desses improvisados guardas, por examinar (a alguns foi bem esquadrinhar) partes do quarto passadas por cima quando então deram mais valor ao morto, se morto, que ao dormitório propriamente; depois visto a cozinha o banheiro, tudo grudado como exige a economia aos bolsos construtores. Sobretudo a senhora santa de cabelos brancos encontrando, mas também os demais componentes, acharam mil coisas, 1001, bem umas 999 erradas e abusivas ao padrão da convivência cidadã. Os membros femininos do grupo descobriram mais de 1001 sujeiras, trens de cozinha usados amontoados amassados atirados a esmo; o fogão.... ai meu Deus, quase lhes deu infarto! Deixaram os grudes do fogão às pressas na cozinha (o exíguo tempo urgia...) a pilhar o banheiro gotejante (quase o único som vivo no alojamento morto) o lavatório... peças de roupa encardidas ou sujas de sujeira melhor comportada, limpas mal limpas misturadas num carnaval entre si e...
Ai! rever o dormitório, precisavam ao menos examinar o guarda-roupa. O diabo é, foi, que as portas não abriam, uma aberta escancarada parecendo após carinhos de ladrões. Não obstante precisavam imediato desocupar sair fugir, não serem notados se complicando naquele meio fora da lei como um fora da lei – e então o elevador barulhando horrores a subir subir subir, sabe-se lá com o peso de quem!?
Fecharam rápido, escorreram igual água pelas escadas pra baixo pra cima. Chegaram ao cúmulo de abafar totalmente os passos. Esqueceram até de não deixar impressões digitais...

- Quinto do sétimo. Sétimo? 7º andar, onde um senhor idoso gasto passado parado pranchado (relaxado!?) esticado em cama de solteiro se encontra. Alguns indagariam "melhor não seria mesmo em lugar da cama dizer na lápide!?" Aí eles chegam, por fim.
Eles? a polícia a oficialização o bê-ó; e os curiosos nas proximidades deles, eles que meio oficiosamente se infiltraram antes dessa presença na cena do crime.
Crime!!!
Justificam o atraso ao mequetrefe na entrada lá embaixo, aqui em cima agora aguardam acontecimentos. Subiram os dois de farda, os quais pondo a culpa pelo atraso na viatura que se quebrara; culpando também a transmissão pelo rádio que falhara – afinal ei-los no trabalho ingrato de registrar infaustos. O Zé acompanha os polícias até ao 73, abre fecha sai torna às lides da vassoura e... ah a porta da portaria ficara arreganhada; enfim quase tudo estava contribuindo para avisar a temida imprensa em sábado sem notícias; os populares já esperando nessa entrada a aguardar o Zé-vivo tornar do Zé-morto. Em baixo.
Em cima eles trabalham fuçam porém não querem ter demais trabalho: anotam no boletim a ocorrência barata e inclusive meio banal, a dum morador num leito, uma porta de guarda-roupa escancarada e pertences no chão, um vidro trincado na janela fechada; o conjunto parece... Não sabem, pedem auxílio à Central. Respondem ordem de ficarem no plantão até chegar um médico; já ligaram ao SAMU.
O povo naquela habitação coletiva pobre alugada ao homem comum pobre e por vezes aposentado ou fazendo bicos a se safar da crise e um que outro num empreguinho. Assim mesmo alguns comentam o fato, enfim comenta-se a banalidade das coisas, tão palpitantes naquele agora. Falam falam (até exageradamente desperdiçando tempo, importante ao homem da rua; falam:) falam também os recantos do mundo em volta. Grita uma construção ainda em esqueleto lá nas alturas; grita um rádio ou aparelho celular a imitá-lo nos gritos de rock em inglês; falam adultos gritados e tem os gritos de poucas crianças (as fábricas delas estão fechando, as proprietárias preferem aprender profissão à maternidade); grita ali encostado um lava-rápido, hoje se vulgarizando em lava-jato pela difusão na mídia, esse posto de serviço grita a desperdiçar água óleo e barulho.
Contudo o prédio de quitinetes e Zés anda em silêncio, medido. Sim porque apenas se comenta baixinho os que sabem e lógico desconhecem os demais moradores encurralados nos seus apartamentos ou presos nos empregos lá longe. O grupo curioso vive naturalmente curioso. Ainda.
A senhora sábia de fios brancos velha ativa, na língua, comenta com outra mulher entre os efetivos no grupo que se infiltrara antes naquilo não sendo do seu direito; não, achando demais no seu direito em saber. A senhora diz "ah, aqueles moleirões", felizmente os policiais não ouvem, fechados no antro onde o senhor Mário ou João ou José, este que pronunciavam na vizinhança Zé, seu Zé; seu Zé decerto da dona Maria – em suma onde seu Zé dorme. O sono dos justos.
Enquanto na espera, fazem os profissionais a matar o tempo que mata alguma coisa, conversa-fiada por exemplo. Um deles esquecera a viatura funcionando corre desligar. Por último – e não seria último pois o último sequer existe no encadeamento dos fatos – sim por último aparece o SAMU na porta.

- Tem um médico recém-formado e imberbe na equipe de saúde e certa moça (as curiosas do grupo curioso vendo a chegada acham que não é moça, e pior: abrem a caixa de ferramenta contra – é velha rebocada solteirona largada feia! e nisto concordam na expressão, insistem ser "horrorosa":) vestida a moça funcionária no seu macacão (achariam olhares apócrifos tal veste roupa de mecânico de oficina de carro, embora nas costas a cruz os dísticos da instituição; senão sem importância:) entram ambos, ele na frente ela imediato atrás, cumprimentam os policiais; o profissional da medicina examina o corpo inerte e espichado ali; sequer percebe a perna meio encolhida; põe a funcionar o estetoscópio, "será aquilo um estetoscópio!" fala baixo um dos servidores da polícia vendo de longe na porta. Apalpa apalpa, olha o travesseiro que se encontra de lado atravessado; resmunga qualquer num assopro; faz pra lá pra cá, a enfermeira abre os ouvidos desejando palpitar a língua ou a relevar os atos errados do outro ou mesmo a consolar. O causídico da medicina resolve passar a coisa pelo celular, liga à Central; escuta responde concorda no dito lá longe: "pode pôr falência múltipla dos órgãos!"
Saem.
Agora aguardam os policiais vir a PolíciaTécnica.
Depois, decerto, resmungam ambos, a Técnica porá na entrada aquelas fitas coloridas a impedir curiosos e entrões que dificultam oficiais trabalharem.
Olham aquilo tudo nas proximidades; olham pelo olho-de-vidro ou olho-mágico de suas portas trancadas a chave as chaves a chocalhar trililicar banalizar a segurança. Olham. Acionam seus celulares uns aos outros mais viciados em smartphones porém não se contentam com o pouco por bastante curiosos e resolvem sair à sorrelfa a fim de um encontro em diálogo franco, fraco baixo no silêncio do prédio pelos corredores e escadas – não iriam sair do esconderijo, chamar o elevador estardalhaçante e inimigo da paz – então 'bobageiam' suas coisas mundanas, pondo sobretudo o assunto do dia: o infortúnio em que está metido seu Zé lá do 73. Não podem sequer se defender caso descobertos e até provar seu ponto de vista; muito menos aos agora calados polícias, pois antes havia a dupla matracado entre si seus quês, a casa a mulher os meninos os vizinhos a condução e o temor que a farda ocasiona por causa dos bandidos de plantão, estes sorrateiramente disfarçados e dispostos a uma vingancinha no terreno eterno e oposto ou seja a lei e o fora da lei; e daí o temor mas agora andam os militares silenciosos naquele silêncio de velório, onde há gritaria ao redor, a quase encobrir a existência da invasão no aposento de um homem deitado quieto estático na paz do quarto do leito no ambiente.
Chegam finalmente. Após horas dia todo porém chegam. Adentram três servidores da Polícia Civil, um dispensado imediato pelo chefe da equipe. Desce some ficam ambos, os policiais menos graduados permanecem além da fita proibitiva e isolante lá fora, aqui dentro do prédio. Dos servidores em sentinela um olha nesgas pelo vitrô do corredor o movimento lá embaixo na via pública: gritos sirenes trânsito buzinas no rum-rum do asfalto.
No interior do prédio especificamente no aposento trabalham supõem os supostos, examinam e relacionam pertences. Parece, comenta um dos oficiais, parece-me ser ladrãozinho vulgar, o vagabundo levou até os chinelos... não tem celular não tem dinheiro não tem cartões não tem sequer documentos comuns... dizem ser José a vítima... de quê!? O outro lembra: o vidro trincado na vidraça da janela não seria tentativa de escape frustrado! ora, retruca o colega, qual meliante iria se arriscar ao chão lá embaixo pela janela? logicamente abriu a porta recheou antes sacos sacolas e a mochila nas costas, saindo tranquilamente deste cemitério... Quem a saber, isto aqui é apenas silêncio e um morto – o médico falou estar sem vida; depois o legista completará e não nos interessa. Olham detalham melhor o ambiente, especificando as coisas e havendo recolhido na maçaneta de entrada vestígios e impressões digitais (seria do criminoso e até podia ser vários bandidos, deduzindo-se das pegadas, não souberam:) registram e sobretudo no escrever enchem folhas e mais folhas como relatório. Optando no tal relatório por latrocínio e daí...
Daí? se vão tendo mil outras ocorrências a cumprir e se fazendo necessárias as presenças técnicas nos demais recantos. Aliás o 'recanto' se não sombrio não dispondo de nenhum encanto em não ser o banal encontradiço na megalópole. Um local na zona central estendida da cidade grande com cheiro de periferia.

- Mas isso agora não se dando no prédio velho de moradores pobres, uns até com aluguéis atrasados e em processo de despejo; lá onde tendo uns poucos inquilinos unidos vencidos na curiosidade a penetrar no recinto onde um corpo inerte parado estático pranchado esticado na cama de solteiro, para ver o que ver e viram: o guarda-roupa seminovo com peças no chão espalhadas, peças usadas limpas (ou só lavadas, mal-lavadas um concorda com outra, a deixar se arregalar os olhos de Madalena ali, mais arregalados que os dos outros membros tarimbados na arte de fazer arte no ferir a linha do abuso no grupo curioso).
Não sendo agora portanto na periferia do centro estendido da Grande Cidade, nesse local onde a se gritar inglês e demais barulhos no entorno. O prédio? o prédio a janela o vidro trincado sem escape aos amigos decentes do alheio. Não.
Agora é dona Francisca vindo do interior longe a reconhecer às instâncias da diretoria da empresa locadora o parente; a senhora pronta a identificar o corpo (ora, se gelado tirado da gaveta podia ainda estar vivo ou ressuscitar!) enfim aquele soma frio do primo do outro primo da tia Zulmira, esta infeliz velhinha inconformável inconformada. O primo?
Não senhor, idoso sim e fazia bons anos não nos comunicávamos; apesar de velho e lógico cansado tinha saúde. Apenas umas três vezes em moço ficara no estado de estátua ou boneco sem movimento; no entanto insisto isso na juventude. Uma vez saiba o senhor que um médico de nossa cidade queria enterrá-lo, os do sangue interferindo não deixaram...
Esse (não seria o dizer dizer 'este'?:) é sim o primo Francisco... não não, senhor: Mário não. É ele, tenho certeza pelo nariz e a marca na bochecha. (E daí desandou a fazer o histórico daquela estória tão rica em sinais e cicatrizes).
São Paulo   abril  2019

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