sábado, 27 de julho de 2019

Caminha Vem de Novo


Caminha Vem de Novo...

Caso alguém pense que Caminha haja morrido, enganou-se. Morto? intriga da oposição, coisa de comunista[1]... Mais vivo do que nunca; seu jeito muito lusitano no falar no agir no pensar. Conta-se haver escrito outra carta, após a já famosa missiva histórica. Se o fez, quem sabe não terá sido mais convincente! Eis o seu relato a Don Manoel, rei de Portugal etc. e tal.


O Relato
“Senhor, quem vos escreve é o humilde súdito do Jardim à Beira Mar Plantado, nossa santa terrinha, em visita ao Novo Mundo, estas Índias que o vulgo insiste chamar Brasil, ainda a errar grafia não sabendo deva ser com ‘z’. Pois bem. Tomei a deliberação, quero dizer, foi-me incumbido escrever nova carta a Vossa Alteza, tendo em vista haver escrito a primeira em abril do ano de um mil e quinhentos passados da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, porém não confiando no serviço de correio, não apenas pelas faltas de garantia por demais conhecidas, mas como por ter faltado no envelope da anterior o CEP; e temendo assim cá comigo de a dita missiva não haver chegado às abençoadas mãos reais, é por estas razões que tomei a iniciativa presente. Cumpre-me, Senhor, informar ainda que a linguagem desta carta necessariamente terá um nível muito abaixo da primeira, porque meu contato diário com a malta deverá ter-me afrouxado o léxico, que o povo encontrado aqui, ai Jesus! vulgarizei-me, desaprendi mesmo, barbarizei-me! Perdão, Alteza.
Como me tornei de certa forma brasileiro, encerro este preâmbulo lamentando novamente não poder manter o antigo teor literário de 1500; outrossim completo com uma expressão chã, a qual justifica a forma desta nova escrita: quem não tem cão, caça com gato. Mais uma vez perdão!
“Todavia não queira saber, Senhor D.Manoel, que susto levei ao chegar nesta terra atrapalhada agora, depois de nos desviarmos por ordem de Cabral por alto mar, após termos saído de Porto Seguro, ou mais precisamente da Baía de Cabrália, e aportado num outro ponto do imenso litoral (são mais de nove mil quilômetros, medidos e constatados de palmo em palmo): viemos para o sul do mesmo litoral brasileiro. Ah que susto, Senhor, que susto... Logo de cara vimos no porto todinho em aço e madeira, navios encouraçados! pesando, Senhor meu, creio que aí por umas vinte ou ainda mais vezes uma caravela! e não estavam afundando... Atracamos, a âncora se prendeu, fizemos sinais à gente, fomos correspondidos, acreditamos haver sido correspondidos, descemos à água e tomamos nossas barcas rumo ao cais. Havia lá ajuntamento enorme; pensamos mesmo que fosse por nossa causa, depois vimos não ser. Ninguém a ajudar-nos, ninguém! Ainda estávamos na água imunda e poluída por uns óleos desconhecidos e negros, Senhor como podem os peixes ali viverem? E notamos o povo mais interessado em suas querelas. Discutia-se, blasfemava-se, gritavam-se desencontros; imediato, vendo os braços cruzados dos estivadores, percebemos estarem em greve de trabalho, uma grevezinha medrosa, os meganhas fardados cheirando por ali e os porretes preparados, cassetetes como dizem. Uns parênteses, Alteza Real: caso minhas palavras não sejam entendidas, na resposta desta carta queira perguntar-me os vocábulos desconhecidos, porque como falei anteriormente, desci na linguagem e ando a usar o palavreado popular e a me esquecer dos nossos clássicos; mais uma vez perdão! E assim chegamos por nossas próprias mãos ao cais, nem carregadores se apresentaram a nos ajudar, e muito dos nossos andavam cansados e estropiados, necessitando de cuidados médicos, outros ainda tendo excessivamente fome... e saudades das fêmeas humanas... Ah, Senhor, não lhe conto nada (ai, mudei o tratamento, perdão, não posso trair a linguagem brasileira, a qual concorda sempre quase tu vós você etc., na terceira pessoa; perdoe-me Senhor, pois sei que devo ser sacrificado no altar da Academia de Lisboa, e me penitencio antecipadamente) não lhe conto, conto sim: que mulheres! Oh Senhor (não mostre este papel à Rainha, por piedade!) o Senhor tinha que ver cada garota... louras morenas mulatas (puxa, as mulatas daqui... tem aqui um gajo, um tal de Sargentelli, um gringo que nasceu doutro gringo no Rio de Janeiro, o qual é especialista em mulatas... porém contarei pormenores, detalhes como se diz por estas bandas, pessoalmente para Vossa Alteza...) e tem umas caboclas meu Deus! e vi negras das melhores e até japonesas! Imagine o senhor Rei deste grande Império Luso, que temos aqui milhares e milhares delas, dá para todo mundo! Perdão, Senhor, se me entusiasmei com esse pormenor delicioso, a terra é tão fermosa que em tudo se plantando dá... Porém como eu dizia a Vossa Alteza Real, encontramos as mulheres, e pasme Senhor! estavam vestidas como se não estivessem! as vestes totalmente na transparência, ou mesmo inexistentes... as banhistas quase sem roupa, usando uma gostosura chamada ‘tanga’ e também uma ausência denominada ‘top-less’! e cheguei mesmo a... Ai! meu Deus, que terrível, perdão, mil perdões Alteza, esquecia-me estar falando a um grande Monarca, então excedi-me no tratamento e na descrição (faltou-me discrição) das beldades... Cala-te, boca. Falemos em coisas sérias, Majestade. Vimos, ai, é de espantar, todavia observamos carroções de passageiros pendurados nos fios elétricos! imagine, Alteza, que audácia, dependurados na eletricidade, que por sinal é uma invenção destes diabretes da civilização. O dito carroção tem por apelido tróleibus. Saiba, quase perdemos uma parte da tripulação, por ficar embasbacada vendo o veículo estranho a passar, passou quase por cima dos nossos homens, os tripulantes das caravelas! E não fosse o tróleibus, seria da mesma forma a gente apressada passando voltando andando correndo feito doida a empurrar-se a si mesma e pisoteando nós os lusos desembarcados; me parece que a população da terra aqui é dementada; não só a correr como formiga e não pensa assim como a formiga, mas ainda passeia em um sem-número de conduções inventadas a nos confundir ou tão somente a recolher dinheiros aos cofres públicos; que gatunos! nada se pode fazer nesta imensa Índia misturada com Babel, sem primeiro pagar. Ficou doente!? tem de pagar, pagar antecipadamente a certa mocinha, às vezes muito bonita e fumando (imagine que se fuma mais que em toda a Europa, e as mulheres ainda mais que os machos) ela a garota recolhendo o dinheiro, só então o paciente é atendido! já viu maior infâmia, Senhor? E a botica, eles chamam por estas bandas ‘farmácia’ e acabaram de vez com o ph, a botica cobra não o quanto pode, porém o quanto quer! E tem a especulação imobiliária. Merece até um capítulo à parte essa exploração imobiliária. Tudo que se come, nas diversões, nas conduções, nos edifícios (Majestade, que horror! nestas paragens inventaram de empilhar os cômodos um em cima de outro até dar uma coleção de vinte ou mais andares! e não caem, isto é, de vez em quando caem na população lá em baixo, uma catátrofe) e nas ruas no pipoqueiro ou no sorveteiro – em tudo em tudo mesmo, cobra-se. Precisaram inclusive inventar um banco mais desenvolvido que o dos judeus de nossas feiras, a juntar e guardar os dinheiros desta gente amalucada! Vi, que gracinha! vi um cãozito a molhar um poste; sabe Senhor, os cães ainda não mudaram, só eles, parece, urinavam em nossas pernas ou num barranco ou mesmo no muro; agora têm os postes de eletricidade com luz de mercúrio em cada esquina, então ditos animais mijam neles; é possível que tenham esses postes também mais essa utilidade. E foi isso narrado o que vimos logo de início no porto e na cidade imensa, muito maior que Lisboa nossa; enfim uma balbúrdia que prolonga o cais do porto desta terra de Cabral. Foi o que vimos. Senhor, porém nada mesmo assustou tanto, quanto um barulho ensurdecedor dum jato que passou a raspar a barriga enorme em nossos chapéus! Imagine, Nosso Rei, uma ave de ferro e alumínio borracha e outras substâncias que os aluados inventaram a nos deixar boquiabertos, voando e rosnando alto de tremer o chão e as coisas nele! Matou, deve ter matado, parte dos nossos apenas com o susto! Um clima de fim de mundo, Senhor! Foi o que nós vimos inicialmente no primeiro porto em que atracamos nesta terra de Vossa Alteza, D. Manoel o Venturoso! Passemos a outros assuntos.

As Novidades
“Quando em viagem, os marujos nossos fizeram... Não, Senhor, não aguento eu de curiosidade pela curiosidade que Vossa Alteza deve estar sentindo pelas coisas daqui, deixemos a rotina de viagem e navegação, que sempre é a mesma coisa, basta que Vossa Majestade leia os escritos da missiva de Gil Eanes ou a de Bartolomeu Dias, que nada mudou, foi assim também conosco. Contemos o que foi visto pela tripulação apalermada de nossas naus, ao contato com os brasileiros (é esse o apelido que tais homens acreditam ter). Diria nada ser como antes. Ou por outra, notei algo bem a mesma coisa: ainda os descendentes lusos e os portugueses natos nos armazéns por aí, todos ainda são chamados Manoel e Joaquim! E as suas mulheres continua a ser Marias! Não mudou tudo, portanto. O resto, que esculhambação, Senhor! Perdão, acho que estou a continuar usando expressões da malta maltrapilha abrasileirada! perdão...
“Seguindo nesta narrativa, vou narrar para Vossa Alteza as coisas da terra propriamente dita, pois que saímos da costa, em direção ao interior, para o sul para o norte para oeste. Não consta que as ordens recebidas do vosso grandioso governo tenham sido a de ficarmos plantados nas águas do mar. Por isso nos aventuramos a conhecer essa gente e a terra, que aliás e além de tudo o mais é uma propriedade portuguesa desde que nosso amado Cabral teve contato com os nativos na Bahia, e suas índias com... ai Jesus, que lindas eram, e qu’... ai, perdão, Alteza, por estes desatinos de linguagem e de expressão! Vejamos o que foi encontrado na terra, e a quantos andam os brasis. Citarei um por um os dados básicos, e depois farei, se “a tanto me ajudar o engenho e a arte” como disse Rui, um orador muito esperto que encontramos aqui no lugar, e farei uns esboços rápidos em comentário e também explicando cada item. Tal forma de exposição eu a aprendi com uns universitários metidos a doutores (nesta terra dá é muito doutor) os quais usam a didática e a pedagogia, a filosofia, em tudo que dizem apenas ou dizem que fazem mas não fazem; enfim, para que Vossa Alteza entenda um pouco a barafunda em que se tornou o país, após nosso primeiro contato, quando eu, Pero Vaz de Caminha, humilde súdito da Coroa, enviei a Lisboa por mala direta uma carta contando. Contemos.
“Sim, contemos. Antes é bom saber que não irei manter ordem severa alguma nos pontos a serem analisados; mesmo porque me tornei de certa forma brasileiro, quer dizer, desorganizado. Iniciemos pelo assunto política. Bem, eu não desejo sequer tocar nesse particular, porque nesta terra aqui por tal e por coisita pouca se vai para o xilindró, o xadrez, como a gente bárbara fala; o povo é meio amedrontado, não se digna a falar seriamente em oposição, tão somente na meia-oposição; explico-me: sei terem feito um movimento militar faz pouco, talvez uns vinte anos, se tanto, e os milicos empreenderam tal repressão, que acabou-se a coragem e o desembaraço, ficou o império da covardia e do medo. Ao indagar a um popular, o comum subdesenvolvido da rua, ignorante mísero desempregado ou subempregado, esse lhe dirá: “isto é uma democracia” porque pensa que tem liberdade; se se perguntar a um sujeito culto, desses que vivem se escondendo por medorreia, sobre o que pensa do regime vigente, então o mesmo dirá: “é uma ditadura”, porque sabe que não tem liberdade; agora, irá encontrar gozadores como o Stanislaw Ponte-Preta, que falou antes de morrer: “isto é uma democradura”.[2] Alteza, não queira saber o quanto é contraditória a política no país. Formam partidos políticos, reformulam partidos, cassam-se os inimigos, alçam-se os amigos políticos, fazem-se cambalachos, usam-se meios corruptos (a propina é ainda dinheiro mais dinheiro que o dinheiro, vale ainda mais que o ouro em todos os tempos, e abre qualquer porta nesta terra!) enfim, aciona-se toda a parafernália política para tão só os militares manterem-se no poder. E atrás deles estão os grupos multinacionais, os poderosos estrangeiros, sejam nossos velhos amigos, as raposas britânicas, sejam franceses alemães belgas suecos qualquer outro, sobretudo norte-americanos; eles dominam já quase abertamente em todos os setores da vida nacional, mais decididamente bancos e indústrias; são os chamados capitalistas, os que propagam pela televisão (uma espécie de monstro infernal que inventaram a emburrinhar as crianças e os adultos por extensão) propagam que o bom mesmo é “dinheiro no bolso”. Para tanto, tiram de todas formas o dinheiro dos bolsos pobres, ou seja a população crente em tudo. E usam dos políticos, ou são os políticos propriamente, os representantes desses poderosos; aqui chamam “testas de ferro”. De vez em quando surge lá um Don Quixote alertando e pregando no deserto, pondo a boca no mundo contra os poderes estrangeiros, como na questão do petróleo e do ferro nacionais, campanha de Monteiro Lobato, um grande escritor deste povo fraco. A tais mentores são reservados os presídios. Assim as bocas se calam amedrontadas. E tudo se mascara com feições políticas e democráticas! Vê, Senhor, quanta safadeza?! Ah perdão, Alteza, acho que me excedi novamente no linguajar e no entendimento para que entendimento tenha Vossa Real cabeça. Como falei anteriormente, sempre que não compreender algo, peça-me novos esclarecimentos na resposta, eu cá estarei no aguardo das altas ordens reais. E senhor, tem o negócio escuso do F.M.I., Fundo Monetário Internacional, um banco dos bancos, uma agravante política que ocasiona raiva pelo roubo internacional contra o povo, e me rebelo como fora brasileiro também ante aviltante manobra a que se submete o governinho desta infeliz terra! É a política. Não falemos mais em política, ou terei de entrar no Congresso castrado ou na Justiça podada nesta terra 'de ninguém e de todo mundo', em que tudo é representado pelo Executivo forte e militar. Terei de entrar então nos discursos e nas trocas de injúrias dos deputados e senadores, vereadores, ministros, conselheiros etc., e posso muito bem resumir toda discussão e os impropérios num ditado popular (ah a voz do povo, voz de Deus!) esse dito é o seguinte: “na casa em que falta pão, todo mundo grita, ninguém tem razão”! Uma balbúrdia política, porque a economia não está dando bons resultados.
         
Gastos & Dívidas
“Sobre a economia do país, nos acusam ter desviado o ouro das Minas Gerais para a Inglaterra, num luxo fenomenal; nós agora podemos acusá-los, a todos os responsáveis pelo desgoverno, de terem os brasileiros gostado da dose, pois que aprenderam os ensinamentos e desviam hoje em dia o ouro de todos os pontos da infeliz nação para o estrangeiro, seja lá na base de exportação dos lucros às ditas multinacionais, sanguessugas benditas presentes em todos os setores da economia do Brasil; seja oficialmente através do pagamento dos royalties, ou que seja em valores a saldar a dívida externa brasileira, uma entre as maiores do mundo! Neste santo ano já avançado na década de oitenta, conta-se atingir esse câncer a cerca de  mais de 100 bilhões de dólares, o que deve equivaler a... sei lá, milhões milhões milhões de escudos; perdoe-me, ó Majestade, que não sou muito versado nas matemáticas. Portanto, tudo leva ao descalábrio econômico. Entretanto há mais: o pessoal daqui não dispõe do controle sobre sua indústria, a mesmíssima que polui o ambiente com sua fumaceira e os seus venenos; a lavoura está em mãos dos poucos fazendeiros nacionais sem nenhum nacionalismo e completamente cegos pelo ouro sonante ou pela crise financeira, ou mesmo para fugir do fisco e do confisco; os mesmos, que antanho eram nossos melhores nobres, agora tais fazendeiros estão se passando ao controle abertamente da empresa estrangeira; suas terras são adquiridas em nome de testas de ferro, espécie de vendilhões que pululam por aqui, mas a posse é efetivamente das empresas de fora; uma lástima, como se vê. E o  comércio? é um corolário da situação agrícola e da indústria, pois vende o que os outros setores produzem, e também está em mãos dos estrangeiros, ficando apenas o botequim sob controle dos nacionais. E o pior é que o dinheiro quem distribui para toda economia do país são os bancos, atividade essencialmente estrangeira! Basta a saber, que se tome consciência do que ouvi um dia desses: há um livro cujo título é “Brasil, paraíso dos banqueiros”. Todinha a economia é manejada por estranhos ao país. Como vê, Vossa Alteza já foi ludibriada, roubada pelos outros estrangeiros! Agora, tem uma coisa importante: os nativos e os mestiços que povoam essa imensa terra desconhecem santamente o estado geral da economia!
         
Cultura, Miséria e Miséria Social
“E assim, Alteza Real, entramos na área da ignorância, o setor mais forte da nação dos brasis. Suficiente a ganhar qualquer concurso internacional. Ora bem, considerando a sabedoria popular, nessa questão de ignorância, dizendo que um mal nunca vem só e sempre acompanhado, a miséria a crendice a religiosidade baixa, caminham pari passu com a ignorância nacional. Grandes companheiros. O povo pobre e maltrapilho entende em não saber nada em quase tudo – política educação filosofia economia ciências físicas e artes, o brasileiro conhece tudo não sabe nada; entretanto fala como um doutor, empafioso nos cerimoniais, empolado nos discursos, desmedido na linguagem. E se dá ao luxo em ter patriotismo; bem entendido, o vulgo, que a classe alta e rica, essa tem o coração pulsando no dinheiro, sua pátria são os bolsos; quem é ufanista, ou seja ganhador do troféu ‘O Ignorante do Ano’ esse é o João Ninguém; era ufanista, é ufanista, não aprendendo nunca. É a ele que os travessos tecnocratas (um grupo de pessoas que veem na máquina a salvação do país, ou por outra: não molestação pela malta miserável de seus privilégios e os dos seus irmãos estrangeiros!) os safados tecnocratas vendem a ideia do ‘Brasil Potência do Ano 2000’; porque, Alteza Amada, eu não acredito seja capaz a terra de livrar-se por aí da influência maléfica americana... E não se livrando dela e do costume consumista, ideia que os yankees defendem, os brasileiros terão de reformular a expressão para ‘Ano 3000’, e sabe o Senhor não sou lá grande coisa nos cálculos, talvez seja mesmo além de três mil... São os tais a crerem na falácia das usinas nucleares, por sinal que existe algumas em construção e uma praticamente em funcionamento. Trata-se, Amado Rei, de um monstrengo fatídico que deverá estourar a paz mundial a já dar mostra do perigo humano por vazamentos atômicos (depois explico diretamente à Vossa Alteza em que consiste, todavia adianto ser umas fissuras no átomo de certos elementos químicos puros como o urânio, libertando energia, perigosa energia, a bem da verdade.) Enfim um negócio por demais perigoso, como perigoso seria deixar fogo em mãos de crianças engatinhando! Basta dizer que soube a Humanidade haver usado bombas atômicas sobre Hiroxima, nas bandas de Cipango, matando milhares de japoneses! Imagine, Alteza, com que brinquedo azarado estão bulindo os nativos cá da terra! E o povo toma isso por grandiosidade, não pensa na destruição iminente da natureza... Isso faz do país uma futura Potência Dois Mil! Essas iniciativas, provocam gastos astronômicos, fato que num país de finanças abaladas, e aqui não desejo sequer fazer referência à nossa combalida bolsa real... mas já estou fazendo, perdão Majestade! dizia que num país como este de grandes gastos e poucas entradas no tesouro, torna-se catastrófico, não fosse imoral e ridículo. Talvez falte miolos; porque, veja bem Amado Rei, aqui há um desperdício das águas, as bacias hidrográficas são as mais ricas; entretanto produzem o mínimo de energia hidráulica. Pode-se entender? E Vossa Alteza Real me adverte neste ponto da narrativa e me lembra decerto: e a Lei? A Lei, essa escrita com ‘L’ maiúsculo, aqui se escreve com minúsculo. Basta-me dizer que um dos grandes estadistas da República (imagine, Alteza, proclamaram a mudança de regime sem consentimento de Vossa Majestade!) o Sr.Getúlio Vargas, dizia aos íntimos quando consultado: “Lei? ora a lei...” Aliás, a ironia é a forma do melhor entre os gostos políticos. Como a lei poderia, existindo, agir? Outro dia condenaram um dos Joões-Ninguém desses que existem aos montes por aí, arrombadores baratos, salteadores comuns, ladrões de galinha (os grandes mestres na arte de roubar não são sequer presos) enfim condenaram o infeliz a duzentos e vinte e cinco anos de cárcere! Veja, Alteza, que despropósito, um sujeito terá quando muito cem anos de vida, ao cometer o crime terá seus vinte e tantos anos vividos, sobram menos de oitenta: como poderá pagar duzentos e tal? quem o burro aqui? Em geral atiram a culpa pela burrice e ingenuidade em nossas costas lusas, Majestade, os burros somos nós... a lei brasileira... Não temos comparação para fazer, temos sim: os americanos e os soviéticos, as duas grandes potências destes dias, os representantes delas se gabam em poderem destruir com suas super-bombas o planeta por sessenta vezes, cada um garantindo poder ainda mais! é possível destruir a Terra mais de uma vez? E nós somos os burros? São sessenta... Ah, deixemos as questões matemáticas, como já falei sou fraco nos cálculos; todavia é ou não é flagrante? Esse o raciocínio no mundo das potências; é também o raciocínio da lei no Brasil. De outro lado, ela não olha para o lado da população paupérrima, pelo menos em seu benefício, e o faz somente a feri-la. Tem por exemplo o caso do menor abandonado; numa terra que herdou de nossa gente o gosto pelas mulatas e um coração como sabemos ter... a população cresce espetacularmente, a ponto de assustar as organizações mundiais criadoras dos Planejamentos Familiares, uma forma de interferir na vida íntima dos casais. Assim aumentam muito mais os pobres que os ricos, sabidamente os endinheirados ficam cada vez mais temerosos que aqueles pobretões venham a molestar e arrancar à força sua riqueza acumulada por um roubo secular das classes altas... e daí... Um dia um gajo judeu na Alemanha, um tal de Marx, mostrou essa diferença e explicou as injustiças de classe. Seus seguidores vivem perseguidos em muitos lugares do mundo; aqui eles são chamados comunistas. Até me abstenho de falar em tal, pois estou ainda na jurisdição da terra, e neste país quem falar nisso, vai preso! cala-te, boca! E os menores vivem por aí desamparados, ou amparados por uma tal de Febem, uma das muitas siglas do mar de abreviaturas que assola o país, a Febem é apenas uma sigla, nada faz, deforma as criaturas no seu devido tratamento. De lá saem os ‘trombadinhas’, rapazes que tiram por esperteza um pouco do muito que a população mais favorecida lhes roubou; no entanto o menor é que é chamado criminoso... Entre os tidos por criminosos aqui na terra, existem as prostitutas, as quais na época em que deixei a Europa já eram procuradíssimas; aqui elas são ofendidas abusivamente, nem a lei as proteje, às vezes as autoridades apenas as tolera, quando não se beneficiam delas recebendo dinheiro das pobres. Esse problema, Majestade, vem da exploração do homem pelo homem, o mais explorado combale e cai na lama; já que na terra temos aqui muito desempregado e por demais o subemprego, criando a ilusão do ganho no pobretão. E não fosse isso uma tal peste social, ainda inventaram a inflação; um artifício que faz o dinheiro quando em mãos pobres nada valer e super-valer na dos ricos, os quais sentindo-se ameaçados em seus lucros, diminuem os salários reais dos infelizes trabalhadores! Daí, Alteza minha, sem o pretender, estou fazendo o levantamento das causas da miséria, ou seja: os desvios das riquezas do país de seus legítimos donos, a classe trabalhadora, para a minoria rica e opulenta, quase sempre ligada à sua irmã estrangeira! O desnível, vejo aqui à toda hora, ele é que traz a violência sob várias formas em que ela se apresenta. Tem a violência mundana que vai do “me dá meu pão” ao tiro inconsequente ou trágico e tem a violência política, com perseguição dos adeptos esquerdistas ou detenção e tortura de elementos considerados perigosos ao regime, como o caso do jornalista Herzog, morto em dependências policiais por saber muito. Neste capítulo da violência no país, Amado Rei, tem o valorizado internacionalmente Esquadrão da Morte, uma organização para eliminar pretensos bandidos sem qualquer processo, espécie de justiciamento. Existem também os traços de exaltação popular, os linchamentos que ocorrem por aí. Portanto, se Vossa Alteza Real achar por bem fazer uma visita a vistoriar as terras do Brasil, proponho que leve em conta a situação violenta em que vive a colônia; e que se disponha a vir muito bem preparado...
         
Tentativa Fracassada a Finalizar
“Perdão, Alteza, já me canso. E ainda tenho cá tantas e tantas coisas a dizer... Vou tentar finalizar. Entretanto quero dar uns recaditos da terra aqui de ultra-mar. Há por exemplo senõezinhos como a festa de judas, não sei se Vossa Alteza conhece a tradição que se formou, porém malhavam bonecos nas esquinas no sábado de aleluia, como se fosse o traidor de Cristo; o povo nada religioso, embora tido por catolicíssimo, desvirtuou a comemoração malhando, isto sim, políticos da situação... donde ter havido nestes últimos tempos inúmeras perseguições; e a festa foi acabando. No entanto parece que foi mais por intromissões de cultura estrangeira, matando esta como outras manifestações nacionais, assim como o estrangeiro mata o refrigerante brasileiro pondo um outro de fora do lugar, e só não derrubou ainda a cachaça porque, Senhor, nunca vi povo mais pinguço que o desta maluca nação! Sim, Majestade, tenho o direito de chamá-la doida, pois acredite: estão aqui faz tempo a exportar peles de jacarés e mesmo de sapos; ainda chegam a enviar para a Holanda minhocas! Não, Amado Rei, não estou a brincar... Todavia o pior é a exploração que se faz neste lugar sobre todos os humildes, e o quanto se roubam no comércio, todo mundo quer prevalecer-se da esculhambação geral e tirar a sua porção – uma terra de ninguém, de todos! É uma terra em que os artefatos vêm com a inscrição ‘Indústria Brasileira’ e nada tem que ver com o Brasil, tudo que se faz é de propriedade de alienígenas, inclusive a tão falada produção automobilística (são outros tais monstrengos que andam rolando por conta própria em rodas de borracha e que ocasionam inúmeros desastres, pois seus motores potentes provocam toda sorte de azares em forma de disputas nas pistas e nas ruas!) Uma desmoralização completa. Enquanto isso os poucos instruídos conversam fiado no blá-blá-blá interminável nas universidades excessivamente teóricas, porém, valha-me Deus! barulhentas nas discussões; é comum os choques dos estudantes de tais universidades com a polícia, pródiga no bater e prender. O que é mais lamentável nos ditos estudantes, é que os jovens, ao se formarem, em geral, se modificam completamente e chegam mesmo a voltar-se contra suas ideias da juventude, considerando o antigo ideal defendido mera utopia; dá-se um emburguesamento, dizem os entendidos. Coisas deste curioso país, Majestade, somente coisas deste país. Enfim, Senhor D.Manoel, muita imoralidade. Como imoralidade é o  Imposto de Renda, uma forma que o governo local inventou para se vingar no povo, que segundo ele é o causador da pobreza da fome da miséria da vergonha da baixa produção da vagabundagem da inflação do banditismo – destas e doutras mazelas mais. E por isso cobra e mais cobra do assalariado, dizendo-lhe que deve renda ao Estado. Os ricaços, quer dizer, os que realmente têm renda, não pagam praticamente o Imposto de Renda ou apenas o fazem simbolicamente; mesmo porque ficam acobertados no pagamento, porque têm advogados contadores auditores e os mais técnicos recursos para não ter pagar o imposto; e o pobre não tem dinheiro a manter técnicos especialistas em safadezas, tem de pagar, ora bolas... Imoralidades. Existem outras imoralidades, que não sei se digo se não digo, tenho vergonha de contar à Vossa Majestade. Porém conto. É o caso dos ‘gays’, espécie de mocinhos que não querem ou não podem ser machos a contento e não conseguem ser fêmeos... e agora estão se unindo aqui na terra a defender-se por minoria; na rua por onde ando se faz referência a um tal de Capitão Gay, sobre o qual não ponho qualquer sentido, porém creio eu ser do mesmo grupo. Não que possa dizer a coisa ser novidade, que na primeira viagem ao Brasil e nas outras Índias desconhecidas havia entre a marinhagem vários que... ai, cala-te boca! Acho melhor, a tapar tanta vergonha, pôr vergonha maior que é o jogo. É que nesta terra adora-se o jogo, joga-se de tudo e por tudo, tem loteria esportiva, espécie de mina para o governo, e a loto e ainda existem outras loterias e sorte, tomando o minguado dinheiro do Zé-Povinho; todavia o que mais cala fundo é o jogo do bicho; as autoridades fazem como estar a combatê-lo, estão mesmo é dando cobertura aos chefes; alguns deputados e demais tribunos têm apresentado projetos para legalização desse jogo, mas parece existir um interesse escuso em deixá-lo fora da lei; assim continuam, não obstante, as impunidades aos banqueiros do bicho; quadrilhas e mais quadrilhas de interessados no jogo se engalfinham, a polícia tirando sempre proveito em causa própria, igualzinho ela age com respeito à prostituição... Cada chefe se intitula (ajudados pela imprensa fantasista e marrom, que faz a propaganda necessária) se intitula “rei”, e afirmo: com razão. Além do mais, Senhor, como esse povo adora jogar no bicho! tem os bichos preferidos como a avestruz e o macaco, o veado (este decorei até o número ‘24’, de tanto gozarem popularmente por ter ligação homossexual, não me pergunte, Senhor, não sei por quê... outrossim disponho-me a fazer para Vossa Majestade uma fezinha na borboleta ou na vaca, bastando-me que Vossa Alteza me conte seu último sonho real e... ai, perdão Magnífico Rei, que estou a exagerar na minha digressão!) Ah que terra engraçada, Senhor. Contudo eu havia me proposto a encerrar a missiva, a qual anda um bocado longa a dar sono já, e não cumpri a palavra; perdão, mil perdões! De maneira que pretendo narrar apenas mais um pontinho, para acabar.
“Desejo, se mo permite, Amado Rei, falar sobre o carnaval... Prometo, não me demoro, não me demoro nadinha. Trata-se aqui de uma festa nacional, talvez a mais importante da pátria. Em fevereiro o povo cai na baderna, não fosse que estivesse a badernar ano inteiro antes e depois do carnaval... cai na baderna brincando a valer, se fantasiando. Então os homens põem para fora seus desejos contidos: vestem-se de mulheres; quanto às mulheres, já estão acertando a personalidade vivendo como homens em todas as oportunidades nos locais onde estiverem, mesmo não sendo durante o carnaval, ou talvez pensando que sempre é carnaval; por conseguinte ocupam já profissões antigamente tidas por masculinas e dirigem empresas, e fumam mais ainda que os maridos, quando os possuem. Assim o fantasiado sai para a rua; nestes tempos últimos modificou um pouco a expressão de momo, e as pessoas só ficam nos clubes a pular e a cantar feito loucas; anteriormente houve a época inocente dos lança-perfumes, proibido mais tarde, dos confetes e das serpentinas. E o batuque e o samba nas escolas ganhando terreno o frevo e o trio-elétrico, enfim ritmos e grupos para brincadeiras de carnaval. Hoje tudo se altera, por influência externa, o carnaval do povo desvirtuou-se também: fazem manifestações para turistas americanos verem e o povão fica vendo aquele monstroide de televisão em casa fechado; era uma festa popular; restou somente o futebol, para o qual peço licença à Vossa Alteza, a fim de contar também como é.
         
O Fim, até que enfim!
“Sobre o futebol, que os brasileiros importaram da nossa tão amiga Inglaterra, acho que virou a manifestação mais popular possível. Tanto que os políticos, velhas raposas da vida, estão assim de interessados, e aproveitando-se disso para rendimentos eleiçoeiros. Quanto ao povo, adora a rede a bola os uniformes os jogadores o juiz, o juiz não, o árbitro, ele não, a mãe; e serve ao povaréu o jogo para o mesmo desrecalcar-se, pois que é muito apreciada a mãe do gajo: xingam a mãe do juiz, se vingando do patrão do sub-ordenado da prestação da dívida do aluguel atrasado; a bola também paga o pato (expressão muito usada por estas bandas); por qualquer coisa a pressão do torcedor ou dos cartolas endinheirados, ela está na marca do penalty, coitada! E o Brasil tem conseguido sair-se bem nas provas internacionais, até já foi campeão da bola várias vezes. Um crítico em seu sarcasmo costumeiro, o Juca Chaves, põe as coisas mais ou menos assim: “o povo passa fome, mas o Brasil é campeão!” O que está bem dito; a imagem dá uma noção exata do drama desta nação sofrida. Agora mesmo, se Vossa Alteza Real tiver a paciência necessária a aguentar comerciais e mais propagandas, e ligar sua televisão, verá o que estou vendo, um jogo de futebol, onde a turba alvoroçada desfaz a moral do juiz e já o desfazia antes de saber quem apitaria o jogo... uma partida importante para os destinos santos da pátria; o selecionado nacional é um dos contendores, a galera gritando o diabo educadamente nas gerais e na arquibancada, veja os comentaristas de rádio conversando e entrevistando esportistas, os fios enrolados pelas pernas das vedetes no gramado verdinho, tais locutores mantendo uma conversa sem qualquer profundidade onde o prolixo é o que vale, preparando assunto aos programas da especialidade para o resto do ano; mais adiante verá os jogadores de amarelo e riscos azuis, como estão lindos! os mesmos tomando pose para fotografia, a defender sua presença na posteridade histórica (ai, Jesus!) E se movimentam e se preparam a cantar o Hino Nacional; como de costume o público baterá indevidamente palmas no final, ou conversará durante a execução; um dos atletas, ou vários jogadores, estarão mascando chiclé (uma invenção dos americanos para iludir a fome crônica e geral, sem saná-la) enfim mascando patrioticamente, cantando num desafino irritante, a maioria esperando que os outros comecem certas partes mais difíceis “se o penhor dessa igualdade!” ou “deitado eternamente em berço esplêndido...” a minoria que sabe e canta, a maioria que não sabe, segue... E tem outros erros no decorrer do hino santo; têm igualmente os acompanhantes que olham o relógio (outra praga que temos hoje em dia e que serve para escravizar os homens do mundo todo) olham para ver se está se esgotando o tempo de um minuto e meio para acabar todinho o poema, o que interessa é mesmo o jogo a realizar-se, ou simplesmente olhando ver coisas outras mais interessantes que a “pátria amada idolatrada”. Veja também, Alteza, os que se mexem na fila respeitosa do hino, e se coçam durante a bela execução – como vê um povo patriota, como já disse, e que Deus nos perdoe... Olhe, Majestade, como posso ultrapassar a fileira de jogadores, o lindo quadro nacional e mesmo o do adversário, sem que as pessoas notem! Perceba, D.Manoel, que eu... Puxa! por que é que não estou sendo notado pelos presentes!? Devo estar ficando assustado ou desequilibrado, Senhor Rei: sim assusto-me, essa particularidade eu ainda não havia percebido, por minha vez, em terra do Brasil! Por que será?...”

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Uma voz vinda da plateia, ou de não se sabe donde, responde a questão em alta filosofia: “É muito claro, seu portuga de uma figa, você morreu faz séculos... já não é...”
Ribeirão Preto   maio  1982






[1]  quando este trabalho foi escrito ainda havia muito reflexo da tomada militar do poder: ‘comunista’ era tido por monstro ainda na década de oitenta.
[2]  A nota anterior também é referência do sentimento na década, após anos do Golpe Militar; o texto de como Caminha ou o Autor veem a situação política da época infelizmente é verdadeira. Esta nota é de 2005.

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