segunda-feira, 29 de julho de 2019

Correspondência


Correspondência


Cap. A Fila
Pois bem, não daquela vez, doutra vez. Um pouco diferente; pois tudo é diferente, a rotina não existe porque é o repetir do diverso o som o visual as entranhas até as aparências. Era contudo a curva na fila a mesma, mesmo não existindo o mesmo, semelhante que seja. Viu a traseira, bela? que é isso! a da moça bela não, do sujeitinho gracioso segurando certo chapéu-coco. Não inventemos – chapéu comum de feltro gasto e banal. Agora, nesse ontem a sandália da menina ainda era a mesma, mesma cor mesma correia mesma banda pisada mais forte por gasta que a outra banda, da banda que estava não via bem o lado escondido porém a mesma. Andou mais um pouquinho. Fila é minhoca gozada. Gozada dependendo da folgança se em folgança, pois na demora enraivecida aos participantes nada tem de preciosa. É entretanto preciosa num coletar experiência. Dá inclusive gastura, um mineiro diria gastura? não era. Era da região. Ele miudinho moreninho baixinho da região. Andou mais pouquitito, tantinho tantadinha: a minhoca encolhia um metro, quilômetro léguas na ânsia da garota reclamona, ele observava moreno mais um pouco. Encostou no muro. Cansado, pudera! coluna comum feito muro na falta do muro, onde já se viu repartição como os Correios ter muro dentro somente a descansar o cansaço dum qualquer, ele miudinho por exemplo. Mais um pouco, menos um gomo dela, ele baixinho mediu o comprimento da fila, foi filona chegou a filinha necessitando quiçá chupeta, cresceu outra vez, medonha, virou filona, impressionantemente grande, mas não importava; importava sim: e o sujeito, preciso pensar nos outros e em seus dramas, como o sujeito de mau humor que tomava agora o ultimo lugar?... Cresceu cresceu extrapolou o normal, mesmo não existindo normal por todos neste mundão não terem paciência em viver o ponto normal, que seria o normal das coisas – só se vê o comum pela deturpação do conceito de normal. Todavia para sua fila (descontando nela nossos desgostos) normal. Mais nesse menos três pessoas, a sandália da moça vai ora embora agora em prect-prect na escada escorregadia, cuidado ainda bem que não chove em chamarisco escorrego e queda e mais prect-prect sumindo na via pública, prect não quase se ouvindo mais, contou agora apenas três concorrentes – por que concorrentes! ora bolas. Encolheu ainda, duas pessoas.

Cap. A Benedita
São duas. Depois dos cinco que duram dez minutos o funcionário, sabia se chamar Benedita, se homem graçolaria “será o Benedito!” o funcionário sem pressa, meticuloso, honesto (que é que eu tenho com isso?) criterioso carimba confronta pesa embrulha o desembrulho que desembrulhava para ele nada ter com isso; pô mas como demora e a gente adisculpa pela segunda-feira dia de preguiça; dispensou o fulano agora restando uma senhora grávida cansada fungando impaciente porém alegre afinal não é uma vitória ser atendida! ela não falou nada, ele que se pensou feliz por ela. Ou por ele mesmo já loguinho moreno ser seu momento... É, deve ser esta hipótese. Todavia a criatura encrencou o funcionário, a funcionária. A conversa não para mais! não abriu a boca, não se pergunta coisas dessas. Quem sabe estão confrontando a gravidez, a Benedita falou ter dois filhotes, a atendida pela aparência gerou uma geração inteira. E se inventarem contar suas dores e as doenças dos filhos... Amargurou só em pensar. Quantas? consultou o relógio do salão, se tivesse um de pulso não andaria no pulso, no bolso de níquel, não suportando amarrações nos dedos e nos braços, um sufoco aqui olhe; se olhou na própria conversa lá dentro. Pior os outros atrás, tadinhos, cresceu a fila, já tem rabo na rua lá fora, a regurgitar impaciência: assopra incha encolhe remexe descansa cansa de novo ziguezagueia nervosismos; uns falam, que falam? decerto abobrinhas borrachas enche-tempo a tempo para não ver tempo passar, pobres deles, estou na boca a ser atendido, que ótimo. Mais minutos, que a quem sem relógio pode ultrapassar milênios. Enfim, uf! Uma carta.

Cap. A Carta
Pôs a carta no balcão, à parte de cá do vidro do balcão cheirando a cola papel plástico e gente, gente sim tem cheiro de gente, o que é mau gosto em matéria de perfumaria, pobre da Benedita aguentar isso. Sorriu a ele. Deixou um pouco de goma sobrando, não pode, limpou em seu lugar, vantagem de freguês assíduo. O CEP. Esqueceu. Pôs pra ele. Pagou, sorriu pra ela também, sorriu por desocupar espaço na minhoca e por estar livre. Feliz.
Da outra vez não. Foi tudo errado. Começou perdendo a condução, passou antes, ou depois foi que ele chegou ao ponto. Teve de andar muito buscando noutra linha. Choveu. O envelope molhou, molhou a camisa xadrez enxugou no corpo, a tosse, vixe. Trocou. Trocou o envelope também, a menina não tinha troco, levou dois envelopes para uma carta. Molhou sim, respingou na letra. A sua era cursiva irregular e grande para sua pequenura e morenura. O que importa é o leitor destinatário. Tem gente que não pensa na gente que deve lê-la. Preocupava-se. Trocou envelope corrigiu palavras, enfiou bem o escrito; onde molhado escreveu por cima, a clareza em primeiro lugar. Bem, olhe ele de novo na fila do Correio. Pegou-a enorme de quilométrica. Brincou com outros sofrentes a esconder raiva, dá raiva esperar. Esperou andando, foi sendo engolido engolida a fila. Chegou. O funcionário rabugento atendeu de mau humor, mesmo não sendo segunda-feira. Encontrou mil defeitos nos seus defeitos epistolares. Perguntou desconfiou comparou. Cobrou a mais, esse “bandido” pensou não disse o moreninho. Na rua ainda conferia o troco. A troco de que se compara dinheiro. Decerto a ficar com mais raiva da vida; ou do funcionário menos miúdo mais ranzinza. Teria brigado com a mulher? se perguntou que tenho em ver com, ora; e quase trombou num veículo, felizmente parado ou parava no hospital. Ele no pronto-socorro. E ainda piorou na volta à casa. Deitou-se mais cedo a encurtar um dia ‘sofrimentoso’. Aì se perdeu na insônia. Pior tinha sido antes.

Cap. A Outra Missiva
Antes postara a carta por via indireta. Trabalhão lhe dera escrever a missiva. Começara por aí; tem dia que a gente erra, erra tanto erra até no erro na forma de errar. A letra, ah quem leria aquilo. Leria, claro leria; quando escrevemos sabemos que será lido, ou não escrevemos. Agora, ser respondido... aí é a temeridade e a interrogação. Leria sim, com certeza. Isso caso a carta chegasse ao destinatário. Escreveu envelopou selou, botou na caixa perto do supermercado do bairro; voltou, antes fez umas comprinhas a ganhar a viagem; mas se achou roubado nos preços; ora, tem dia que devemos não sair das cobertas, sair sim fazer o quefazer voltar pra debaixo, quentinho quentinho. Ou se levantar e lá vem paulada. Deu tudinho para trás. Tanto que ficou em dúvida se selara certo. Certo errado, foi morenamente à fila.
Aliás pegou fila para tudo, até para tomar condução, fila na rua para passar, todos estavam loucos. É uma aberração, temeridade ao menos conviver com aloucados. Parecia. Até que chegou finalmente ao Correio; na fila do Correio. Felizmente com pouco mais de dez metros. Engoliu a fila; foi engolido, depois atendido. Por sorte era a Benedita sem ser Benedita. Quer dizer: não sabia que a Benedita tinha esse nome, só depois, muitas filas depois, freguês já, por extensão muitas folhas de carta e envelopes depois, só depois ela ganhou o nome que já possuía. Cadê a carta! Não tem carta hoje, Benedita, apenas quero saber quanto vai de selo numa... Agradeceu. Quer dizer que selei com cinco centavos menos! E aí? Ela deu-lhe o veredicto – seu documento não chega; ou por outra, chega mas o destinatário recebe aviso de correspondência: aí paga multa e a carta é entregue. Agradeceu novamente e se foi baixo pasmado pensativo. Que droga fazer a coisa errada, se azucrinou. Ah, a vergonha levar os outros irem pagar multa na agência! Ficou envergonhado, ao menos constrangido. Voltou para o lar. Agora era experiente, nunca mais faria besteira, daquele tipo de besteira, quem sabe de outra... dessa não mais: iria direto no Correio, sofreria a fila, não a vergonha. Chegou.

Cap. O Abrigo Inviolável
No lar se pôs a escrever outra carta, justificou, implorou perdão ao destinatário. “Queira perdoar-me, sei que amigo a tudo perdoa etc. e tal” contou o desastre das estampilhas pagas a menos, ia até dizer ao outro que rembolsaria a multa paga, envergonhou-se chegar a tal ponto. Se eu, ele, recebesse uma carta multada por falta de selo ficaria ofendido? ora, isso pode ocorrer a qualquer. Retomou o assunto anterior e ainda acresceu mais coisinhas, três laudas de coisinhas moreninhas miudinhas baixinhas. Escrevia muito, embora dissesse pouco, quase nada a seu ver. Sempre ficando em débito, crédito à memória, a qual apelidava ‘aquela miserável!’ – esquecia-se disto e daquilo não posto na missiva, contudo que fazer se a Benedita já carimbara pesara e quem sabe nestas alturas onde o envelope estaria (olhava as nuvens ou algum avião que deveria ser o do correio aéreo) sim onde estaria a correspondência! Bem, não há importância, noutra conto ao destinatário, não adianta, diz a sabedoria popular, chorar o leite derramado. Aí ia sofrer outras coisas, pois o dia é prenhe de coisas e sofrimentos, e, fosse otimista, alegrias. ‘Ufava’ em lembrar a fila grande, agora indo-se embora para o bairro.
Em casa era todo dia (claro, não estando retido na fila filatélica ou noutras filas no centro urbano) todo dia era o mesmo: após as quinze horas, hora do carteiro passar, havendo dia que não vinha, não vinha domingo e feriado é lógico; não vinha às vezes vinha no sábado – enfim após as quinze a espera. Vem. Não vem hoje. Imaginava a bicicleta quebrada não aparecendo o carteiro. Depois foi a moto substituta; um dia veio outro entregador, esquisitão, trouxe muita coisa, nenhuma para seu endereço. Noutro dia veio a pé: a motoca quebrou; brincaram suas amizades já sendo ‘freguês’, correu aflito, barafunchou no quarto, a ler a carta para si. Quinze horas, hora do correio; mas desta vez... Esperou ansioso, a motocicleta amarela passou, acompanhou o veículo até sumir-se no fim da vila, decerto não tinha correspondência, ou pusera número errado da casa, ou o carteiro não leu com atenção, nesse caso volta jajazinho me trazer; ou pôs em lugar trocado, uma carta por cima doutra, supôs, a minha ficou no meio escondidinho, terá caído noutra parte da bolsa do rapaz, aí amanhã ele acha e me trará junto com as infalíveis contas do banco e do telefone, nada se perde. Será? Voltou desenxavido para dentro. Noutro. Noutras oportunidades tinha o que ler escondido no quarto, costumava ler na intimidade as intimidades recebidas. E se errara no CEP? e se extraviara a carta, aí imaginando os garranchos voando céus do Japão ou da China... Melhor ‘des-pensar’ tais possibilidades. Foi escrever mais folhas para noutro dia gozar a fila do Correio. Escrevia sempre.

Cap. A Rotina
Todos dias um calhamaço de cartas, com as folhas fininhas transparentes de bloco de carta. Comprava já por atacado. Só não adquiria mais selos por atacado, errasse como doutra vez a postagem; agora nem precisando cola e sequer lamber para grudar, já autogrudáveis; pois se mudassem a tarifa! aconteceria tudo outra vez com vergonha renovada por causa da multa. Não, essa hipótese descartada, preferível enfrentar diário a fila, entregava pagava o selo ao funcionário e ficava descansado. Só em suas falhas não descansando, ah podia bem corrigi-las no escrito do dia imediato e pronto. Calhamaço escrito. Não obstante uma das cartas era obrigatória (que porcaria é gente, pensou o moreno: cria obrigação acostumando o destinatário a receber e fica-se na fossa não se podendo mandar noticias bah!) Escrevia amiúde para um endereço postado a João da Silva. Muito. Sempre. Todos dias. “Meu caro João etc...” Começava dessa forma, o hábito fazia até não precisasse pensar, poderia mesmo ter mandado fazer um carimbo desses comuns de borracha (a almofada possuía) com os dizeres que repetia todos dias nas missivas, inclusive sábados domingos e feriados sem carteiro acumulando, pondo no primeiro dia útil o documento após sofrer a fila, pondo a do dia sem dia de carteiro inclusive, em mãos da Benedita, colhendo seu sorriso; ou, aí já era muita falta de sorte: a raiva da esposa do funcionário ranzinza e sem nome mas deveria ter um apelido é claro. Punha as duas ou três pra pesar selar pagar a seguir no malote, com direito a olhar nuvens e o aeroplano levando notícias. Depois? Bem, depois ficava em casa à espera. Porque quem escreve, recebe. Tem gente que reclama: “ninguém me escreve” e por isso não escreve, essa é boa. Boa a sua maneira: escrevia, sem preguiça; e dizer que brasileiro é preguiçoso; para escrever é preguiçoso. Se todos fossem como ele o Correio não fecharia portas e nem precisava vender carnês e fazer propaganda.  Ele cumpria seu dever mandando notícias.  Também em contrapartida recebendo cartas.

Cap. As Carta Íntimas
Não as cartas comerciais e cobranças inevitáveis. Pensava em termos da troca de ideias, do dizer intimidades, do conversar por cartas. Sim, tem o telefone que nos custa o olho da cara; e nem todo mundo possui linha. Aos íntimos, o João por exemplo, as cartas. Todos dias mandava cartas para João da Silva.
Um belo dia o carteiro entrou em férias, ou fora demitido. Chegou o novato e gritou seu nome, trazia bem umas três cartas dirigidas a “Ilmo. Sr. João da Silva”. Tentou o funcionário ler os garranchos, o próprio destinatário ajudou-o no mister de decifrar o nome. Entregou duas, a terceira em falta de selo, com multa. Confirmou com o freguês: é o senhor mesmo João da Silva? Fez que sim de cabeça. Precisa ir à agência  retirar lá a terceira com estampilhas a menos...
Ora, para que discutir com o mequetrefe novo no pedaço. Iria chamar nos tentos o ranzinza, provar haver pago e no peso certo quando postou o documento. E mais: morenamente diria desabafando frustrações, que tenho com sua sem-sorte com a consorte?
Marília   setembro  2002



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