Introdução
Note
bem o leitor (se existir ,
tratamos da existência ; ou da des-existência propriamente): tudo que se
escreveu até aqui
é preâmbulo , enfeite
barato se se quiser, para
o Capítulo I; para
o II para o III para o IV
para o V para o VI e para o VII, não se
pode ir além ,
sete é conta
de mentiroso diz a sabedoria .
Morreu.
Era compositor
e não sabia. Pior
o caso de outros
indivíduos terem sido felizes e não
souberam. Fez marchinhas de carnaval ; sambas ,
estrofes , jingles
de propaganda , na época
diziam neologizando ‘reclame ’, que se arcaizou; fazia poemas
encomendados, foi enfim usado e
aproveitado pelos oportunistas
de plantão . Decerto
fez declaração de amor
na mesa do bar
escorrida de cerveja
ou aguardente
em meio
à fumarada do cigarro , a caixa de fósforos
a servir de bateria ,
para uma donzela (quiçá
muitas donzelas ) parecendo bonita à sua bebedeira . Viveu como
pôde. Pôde bastar-se com expedientes e desemprego empregando seu charme e simpatia . Terá fabricado um
filho em
barriga alheia ?
mil ? não
se deve entrar na intimidade
dos outros ... E as dívidas
insaldáveis, os pinduras do boteco etc.
e tal . Todavia
morreu. Faleceu de gripe espanhola, expirou numa briga com desafeto , foi visitar São Pedro por causa da tuberculose , então mal dos poetas – quem
sabe? Concreto mesmo
o atestado de óbito .
Mais ou
menos , o legista
põe o nome verdadeiro ,
verdadeiro engodo
para a sabedoria
popular que
só admite apelido .
E chora o apelido .
Somente os amigos
chegados , os da roda
boêmia , terão realmente
vertido lágrimas e lamentado o morto , carregando seu
caixão barato
comprado na costumeira vaquinha ; o túmulo ,
apenas monte
de terra uma que
outra vela
de sebo fedendo ao lado
do cheiro da flor
depositada por mãos
femininas desconhecidas. Deixou por herança a amizade
que a morte
elimina por sua
vez , mata ; seus versos anônimos , dinheiro não , não deixou
não tinha
em vida
para si . Deixou
ainda por
herança o esquecimento ,
mal (ou bem ?)
que bem pode ter atingido bilhões
de criaturas desde
que o mundo
é mundo , passando pelos
adâmicos, os erectus, até chegar ao homem do limiar
no século XXI e III milênio .
Consumatum est ao Capítulo I
Morreu.
O Dr. José faleceu. O jornal , todos os periódicos
anunciaram na página fúnebre em necrológio de expressão .
Aquele negócio
que se costuma ler :
“A Família do Doutor
etc. e tal e coisa ”
uma fileira enorme
da gente bem
agradecendo bem o conforto
social , agradecendo os médicos Doutor Fulano Doutor
Siclano, dizendo que o féretro
sairá do Velório Tal ,
rico não
aprecia defunto dormindo na mesa da sala ; já um pobre endinheirado de antigamente
gostava e até mandava tirar
retrato do morto ,
morto . Os pobrinhos pagavam foto oval ou retangular do falecido com
a falecida pra vigiar
a sala e mostrar
às visitas , apresentados em molduras
grossas e vistosas. Rico não ,
ao menos hoje
não : manda
preparar o cadáver
para cheirar cadáver no instituto
adequado, o qual traz prontinho da silva
o corpo para embelezar seu sofrimento.
Diferente até
no velório a situação
de ambos , rico
e pobre , aquele
tem um velório
de primeiro-mundo com vistosas fotos ou pinturas de primeira
ordem e arte
na parede . E flor .
Muita flor ,
toda flor .
A flor que
muita vez
o desaparecente vivo não amou. O Doutor José ficou assim
exposto à visita
pública . Bem entendido , público
seleto e escolhido a dedo , o povão
de fora na festa
vendo a gente mais
gente entrar ;
e sair com lenços chiques
enxugando olhos . Mesmo
assim o Doutor
teve de ser enterrado.
No
velório , antes
do velório , mais
depois do velório
formou-se uma briga surda
recheada com ódios
e contrariedades entre
os disputantes à herança , grandinha. Não tão grande . Não
exageradamente grande . A luta o entrevero a guerra foi melhor
ainda na solenidade
de leitura do testamento .
E ecoou bem por
dezena de anos
depois em
disputas judiciais .
Parece ter
havido assassinatos em
decorrência , nada
se apurando. Apurou-se toda beleza da personalidade
e fizeram um trabalho
técnico igualzinho àquele
feito para o cadáver para pôr
o Doutor José na História ,
um personagem
robusto aos livros
didáticos no futuro .
Foi assim que
se acabaram o Dr.José e o Capítulo II.
Morreu.
Dr.João, apenas João para
os íntimos , acumulou uma respeitável fortuna .
Casa , palácios ,
carros ... vichi! (ou
é vixi que diz o popularesco de ‘virgem !’ voltemos aos carros :)
uma quantidade enorme
deles, fez coleção , desde
os fordecos com manivela
e mais parecença
carruagem sem
cavalos , lustrando de bonitos , dos fordecos até
o carro do ano ,
criou inclusive museu ,
fanático por
automóveis , mais
fanático por
dinheiro , dinheiro a razão de um Doutor João valendo dois ou três Doutores Josés; fazenda
para cobrir na extensão alguns países europeus , fazenda
com muito
gado e pouca
gente , gente
só dá trabalho
no trabalho e não
trabalha dando muita
encrenca aos pobres
ricos com
as leis existentes, este
país anda
ingovernável , gente
não , gente
rouba ludibria e ainda
quer dar
punhalada no fazendeiro ; gado , gado traz
muito pouco
trabalho e bastante
lucro . Daí o Doutor
João se meteu na política . Ganhou não quanto
podia, quanto queria, no entanto a ambição
é quem ganhou a partida ,
as traições fizeram o resto e o Dr.João virou João, teve de se esconder com os amigos e, depois ,
dos amigos . Fugiu da mulher oficial
e mesmo das outras famílias
de contrabando , ninguém
mais queria saber
dele, só do seu
dinheiro . Os ladrões
do governo se apossaram do que sobrou no ‘comei-vos uns aos outros ’
e ainda forçaram João a matar
um desafeto ,
matou três para
se acostumar ; depoizinho sumiu do mapa . Embrenhou-se no sertão
numas terras devolutas onde tinha outros fugitivos
da lei . Quem
contou isso foi o Ari, Ary com ipsilone. O leitor
conhece o Ary? ninguém conhece, embora ele
conhecesse a lei , tanto
que fugiu dela igualmente .
O que não
impediu ao Ary falecer . E o Doutor
João também . Também
nada mais
havia para contar dele, já havia praticado todas as patifarias
permitidas. E inventou outras tantas por
ser brasileiro e brasileiro costuma ser muito criativo .
Porém não
levou isso para
o Céu . Ou
para o Inferno ?
Morreu.
Morreu sim mas
antes brigou bem
com a Morte .
Andou perengue entre sua prima (prima
da Morte ) a Doença e a prima da prima ,
Dona Coragem .
Um mérito
teve Pedro: nunca matou ninguém . Um santo . Não , talvez não
tenha sido propriamente um santo , assassino
é que se pode garantir
não ter
sido. A rigor tremia até
com arma
na mão , mesmo
uma inocente faca (inocente
até prova em contrário ;
voltemos ao Pedro:) e nunca viu realmente arma
de fogo em não
ser nas mãos
de amigos e guarda-costas
quando enricou. Eliminou por tabela adversários e enricou, no que
foi rápido , tão
rápido quanto
seu casório
e menos rápido
que o fim
do consórcio , se bem
tenha indenizado a bela por perdas e danos e dado um dinheirinho extra
para o filhote
dela. Rápido como
um meteoro
o enriquecimento. Belo dia era dono de um bairro , depois
de algumas cidades , nenhuma droga chegava aos consumidores
sem passar pelos agentes
de Pedro. Ficou famoso na imprensa e nos meios policiais. Quando
a coisa esfriou, melhor
dizendo esquentou, fugiu. Fugiu perto
fugiu um pouco
menos perto
fugiu pra longe
e de lá fugiu do país .
Com dinheiro com amigos e com impunidade ,
fugiu até da Morte ,
amparado pela traidora Dona Coragem . (O que comprova não
se dever confiar
até na parentela). Nas estranjas uma gripezinha acabou com
a festa . Com
Pedro. Com mais
este Capítulo
também
Morreu.
Foi enterrada, pequenina grandona de inchaço , quase não cabia no caixão .
Por intriga
da oposição , quem
sabe, um dos viúvos
dizia da Pedra-viva “quando você morrer será preciso dois caixões : um para o corpo , outro para a língua !” Linguarudo
decerto . Todavia
o fato é que
precisaram reforçar a tampa ,
ela estufara demais ,
o cadáver é visto .
Além disso foi necessário
antecipar o enterramento :
ninguém aguentava ficar
perto , perto
das dezesseis horas era
para dezessete levaram a pedidos
o corpo quinze e trinta. Tadinha.
A
vida da morta
foi rica em
acontecimentos . O velório
ainda mais .
Tinha os que
temiam falar mal
e depois ficar
malassombrados. Tinha os que tinham pena
dela. Tinha os que
davam graças que houvesse ido . Tinha um cachorrinho, vira-lata desses que
furam saco de lixo, inconformado uivando por
perto . Tinha
gente com
ódio dela. Tinha
amigos que
lamentavam a partida de uma santa . Tinha vizinhos indiferentes ,
mas com
direito ao café e as bolachas servidos pelo bufê da Funerária
do Bonsono. Tinha conhecidos
por ali
bem desconhecidos .
Tinha parentes
vindos de longe e os distantes de perto
que não
se davam em vida ,
alguns apareceram em
morte dela, porque não
ficava bem etc. e tal .
No entanto depois
foi o depois . Legalmente
sepultada Pedra deixou pedras nos sapatos : a parentela se engalfinhara por falta de testamento . Brigara e fizera a felicidade
dos advogados , os quais
surrupiaram bem metade .
O bate-boca prosseguiu pelos séculos e
séculos amém .
Morreu.
Não mexia com
ninguém , ajudava quem
possível : emprestava a escada a enxada
dava erva-cidreira para
o chá ; dinheiro
não , dinheiro
não se dá emprestado, só se dá. Não era banco . Não obstante
uma desapertadazinha não aleija ninguém . O homem
do trinta e cinco morreu. Morreu? quem ? nunca vi.
Ah aquele velhote .
Do quê? Sempre a gente
tem de partir por
alguma razão . Mas
é comum dizer
que só
para a morte não há remédio . Dona Maria falava com
determinação do determinismo ,
contava mil casos
provando: chegou o dia ? buf, buf era a expressão
sonora pra
indicar fulano partiu
desta pra melhor .
O velho , era
dia dele. Porque
quem de novo
se livra de velho
não escapa .
Fizeram o velório , fizeram sinal da cruz, vestiram o
defunto com
o terno de casar ,
de antes de descasar
agora a descansar .
Um dia
de festa , todos
os curiosos se satisfazem, os bebuns
bebem os linguarudos todos contam piada
e alguns até
se lembram do cadáver na fase
anterior quando
vivo
“era tão
bonzinho”; tinha uma senhora
chorando, seria parenta? quem ficará com a casa o carro o cachorro ,
bicho alguém
cuida todos sabem disso. Vão levar o corpo , será que
passarão na igreja primeiro ?
Que bom
amanhã é domingo ,
dá pra levar
as crianças ver
a vó. Como a rua
está movimentada . Têm uns sujeitos aí perto com o som nas alturas ,
é bum-bum-bum de estremecer até
os defuntos , cruz-credo, puxa
era feio ,
medonho Deus me livre. Parece que a Morte resolveu visitar nossa vila , outro dia foi Dona
Joana, depois a Antônia, tadinha tão nova , agora esse velho , qual o nome dele?
Morreu.
Defunto ou
defunta ? Não
dá pra saber ,
tem pessoas indefiníveis, necessário
ver a certidão
a conhecer . Todavia
em que
o sexo modifica a morte .
Dona Morte é
do sexo feminino .
Quem vive uma vida
insossa não
precisa sexo .
Vira cadáver .
Aí é que
não mais
precisa . Um
belo dia ...
ora como ‘belo
dia ’, a pessoa
morreu, tem cada uma! E todos choram. Não
mintamos, a mentira é feio .
Alguns quantos
em razão
do benefício que
o ex-vivo tenha praticado. E tem com ou sem velório , quase sempre tem velório e tem os
indiferentes ; mesmo
porque por
que é obrigatório
torcer para o "time das massas ”
bobagem . Os indiferentes .
Eles são
mais coerentes ,
não sentem coisa
alguma e alguma coisa fazem; melhor
que os que
não fazem. São
indiferentes ao cadáver
ali exposto ,
seu irmão
mais comportado, pois
também é o morto
indiferente . Indiferente
que haja velas
flores choros
rogos , até
piadas (que são alimento
do féretro vulgar ); indiferença com o número dos visitantes, futuros
defuntos ; indiferente
ao caixão , pode não
ser de primeira ,
que seja de segunda
classe num primeiro-mundo; que
importa aos ossos ali
espichados na mesa ! muito
menos a indumentária
dos outros mais
a dele, Sua Eminência
Cadáver , que
a terra irá mesmo
apodrecê-la. Piormente os vermes , vão derreter Sua Eminência , tudo
se transforma lembra Lavoisier. Enfim festa de despojos ,
incapaz de elevar
o corpo inanimado
à santificação .
No
entanto seja um
poeta ignorado, seja um
Dr.José, seja um Dr.João, seja um Pedro ou uma
Pedra , seja um
velhote até
desconhecido num desconhecido
bairro , seja qualquer
sem-nome em vida ,
sem nome
mais na morte
– todos se enganam ao menos numa coisa : com Dona Morte . Que tenham enganado
à Prima Doença ,
à Prima Coragem ,
não enganaram Dona
Morte . Ela veio e acabou a história .
Não obstante
há um porém :
a morte é tão só a devolução
dos elementos fornecidos pelo
Planeta ao ser
nascente . Só
a devolução . A própria
Morte está morta .
Porque a seguir
vem o ajuste de contas ;
não foi prometido que
se paga até
o último ceitil? Quem
se foi e ficou pensando que se foi,
precisará liquidar possível
saldo devedor .
A Vida é paciente ,
espera o pagamento ; dos que se conscientizem com
a dívida e também
dos que porventura
se escondam na fuga do passamento somático .
Marília agosto 2001
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