Festança no Serralho
I – Introdução
Ei você-zinho
aí, titico assim, porcaria, pirralho, você me chamou Xeretude! Onde estamos. No
meu tempo... Não tenho tempo. Agora. Depois. Agora estou em altas funções.
Quanto ao que disse sua irmãzinha, prima sei lá, é tanto menino Deus me livre,
quanto à Sherazade mudando meu nome... aí é demais; diga a ela que Sherazade
é... não não fale, esqueça. Eu nem gosto de mulher, ela uma mulherinha em
promessa; Sherazade é a vovó-zinha! Quanta indignidade, sou Cheirozudo. Diria
Sherezud em linguagem decente. Tem sorte, oh pivetinho, tem sorte minha sorte,
estou em altas funções ocupado agora: não poderia deixar este penico. Sentado?
Oh seu filho do vizinho do seu pai – estou é em altas funções, ou lhe daria as
mordidas e bordoadas que merece! Bem, deixemos de conversa, vamos a uma conversa.
Chame, grite os manos. Todos não, explodiria o mundo, isto me parece um
formigueiro, criança para todo canto. Chame a meninada.
Vou retomar a
narração de ontem anteontem trasanteontem sei lá, eu Sherezud, o contar das Mil
e Uma Noites, mil e umas estórias do vosso pai (eu Sherezud aprecio deveras
este meu ‘vosso’). Tudo do paizinho de vocês todos, o Senhor Sultão Sharum Al
Caldun Ibn Habib Salomão Rachid José Zé, meu Senhor.
Cheguem pra
cá. Nada disso, não está cheirando. Venham. No chão mesmo, não tem cadeira
banco ou rolete de árvore que bastem a essa ninhada e a tanto sentar...
Cheguem.
Não vou
contar outra vez quanto amava Seu Zé, o Senhor Sultão Sharum Al Caldun Ibn
Habib Salomão Rachid, meu Senhor, amava até à loucura, seria sua favorita no Harém;
mas queria me cortar as coisas, coisa pouca, eu sangraria até morrer! tadinho
de mim. Eu Sherezud. Então decidi retardar a sentença (imaginava o corte, a
sorte, a morte, forte – reagi:) contando estórias, cada uma numa noite, o que,
digamos, foi um alívio à superlotação no Planeta, pois assim retardei o prazo
de fertilização de suas mamãs aqui no Serralho pelo seu Papá, Sultão Sharum Al
Caldun Ibn Habib Salomão Rachid, meu Senhor Zé. Não, isso não vou contar.
O diabo (xô
Diacho!) o diabo é que precisaria sim contar pois cada dia se renova a plateia,
tem hoje menino que nem conheço, os que nunca vi, tanta criança o garanhão seu
pai fabricou nas barrigas incautas de suas mileumas esposas, suas genitoras,
mãezinhas de vocês! Teria de repetir, não aprecio repetição, posso-não-gosto, é
isso. Peço então aos que ouviram antes informarem aos novatos depois. Vou
continuar da vigésima quarta noite, a partir dela.
Estamos,
ouçam aí, estamos na minha encurtância de vida, menos vinte e quatro dias de
vida, minha, eu Sherezud. O Paizinho de
vocês está roncando na minha frente aqui em frente da minha cadeira, meu
urinol, estando a ouvir a estória... porém, isto sim, a roncar. O som do
serrote sem trava e sem afiar faz ‘rrrr’ e depois ‘puf”! vê se dá para aguentar,
sem amor profundo! não dá. Aproveito-me a examiná-lo sem medo: ah como é lindo!
Eu, Sherezud, seria tão feliz se... deixa pra lá, vocesinhos não entendem essas
questões, por santidade pueril. Olho enciumado por causa das outras a examinar
tão belo exemplar macho, meu Rei Sultão, Deus.
É uma
criatura meã, barriguda, parecença a barriga com o ventre que o Sultão faz nas
minhas concorrentes, sobretudo na entojada Maria, horrorosa Favorita. Continuo
ver o macho. Tem uns brações peludos umas canelinhas frouxas e cambaias; nos
pés dedões esparramados e cheios de calos que ele corta a canivete de cortar
fumo e pôr na palha, os dedões cobertos por botinas ringideiras de pisar no
barro quando vai pra roça. Tem camisa... calem a boca ou não conto. Tem sim
camisa rasgada aberta na frente e manchada por respingar a baba do cigarro de palha,
tadinho do meu homem, um dia será meu! tadinho ele nunca se acostumou com
cachimbo de barro nem com os de pau. Não poderia acostumar-se: ora são os
meninos que escondem dele, ora são os que levam o cachimbo pra brincar, ora
virando boneca na casinha do faz de conta, ora quebram mesmo o objeto – assim
meu Senhor apela ao cigarro de palha, o qual fica pitando
acendendo-apagando-acendendo outra vez a me arder o nariz. Tadinho. Tem a barba
por fazer, deve pinicar bastante os rostos daquelas nojentas lá dele, me
desculpe se falo de suas mães, umas santas... Você.
Você aí
garoto, senta mais pra lá, quase na lagoa da cusparada do Velho. Sim está
ficando velho nossa máquina de fazer parir. Pita cheira traga assopra bufa xinga
berra vocês (cá entre nós, uma capetada) e finalmente cospe. Em qualquer lugar,
não vão dizer que não avisei. Capiau esborrifa saliva em qualquer chão.
Todavia gosto
dele. Tanto que ia contar a vigésima quinta estória, dormiu, ronca, vou a
sorrelfa riscar o dia cinco, hoje, na folhinha da parede, ganho um no encurtar
de minha desdita. Ele? quando acordar acreditará haver eu narrado a estória da
Bela Adormecida, que fica bem ao seu estado... ou a estória do Chapeuzinho.
Adora mesmo os Causos de Assombração.
II – 26ª Estória
Não eu não conto, eu Sherezud. Falar
daquela morena feiota que meu Senhor, Senhor Rachid, trouxe da Terra de Não Sei
Aonde! Parece funcionário público que onde para assina o ponto, onde ele vai:
de lá traz mais uma mulher para o Harém aqui! Já disse, não quero concorrência.
São tantas que em dia inspirado, quando desanda a conversar o Senhor Rachid com
os amigos, um pergunta se é a Fulana; que Fulana? responde o pai de vocês, ah a
Fulana, a Fulana: essa não, era uma porcaria, deixei pro Sherezud cuidar no
Serralho, falo da Siclana, estou de olho nela. Depois traz uma todo-amor pra
casa, cada viagem que faz. Sempre viajando dentro do seu espírito aventureiro.
Vou contar é a estória da Joana.
A Joana,
dizem que é bonita, eu, eu Sherezud não acho, não vejo beleza em nenhuma. Bem.
A Joana, alguém aí é filho dela com meu Senhor? Queira me desculpar. Vou então
narrar outra estória dela. Um dia meu Senhor Caldun veio mais cedo para casa,
eu desejando ficar em paz com ele, lá vem a Joana: Zé, diz a matraca, me dá
dinheiro para o aluguel, precisa pagar a escola, você já quitou a prestação do
rádio! ah preciso umas de dez, dá logo uma de cinquenta, assim não peço mais:
para ajudar minha mãe. Fugiu. A vó não, meu homem meu Senhor Caldun, foi quem
fugiu, indo fumar lá no fundo e depois sumiu. Já disse, a Joana só atrapalha;
falei isso a ele, nem me ouviu – suas mulheres são intocáveis! Isso é o seu
Pai... vão se embora, amanhã voltem, aí conto mais uma estória das estórias que
contei ao meu Senhor. E lembrem-se: não fiquem brigando enquanto narro as
coisas, como aconteceu hoje, do contrário eu dedo tudinho para a Favorita: daí
vocês verão o remédio para tosse...
III – Outra Estória
Bom-dia
meninos. Vão se encostando e se ajeitando por aí, hoje tenho uma estória
supimpa. Falarei sobre a Janete.
Um dia seu
Paizinho me trouxe a Janete pra casa. Trouxe a mulher inclusive mais meia dúzia
de filhos, ela dizia que eram dele ele que era do ex-marido dela e de algum vizinho
do ex-esposo da Janete; o certo é que foi preciso mais água no feijão. E
minguou a ração aos que já viviam aqui com a gente. A Janete era belíssima, o
meu Senhor Sultão dizia que era bela, na minha opinião a fêmea não passava de
um canhão da Primeira Guerra. Aí ela começou a pensar ser a dona do pedaço, a
brigar com as outras mulheres, eu, eu Sherezud, não entrava na baixaria delas,
apenas enredava um pouco para ver quê dava, se dava a pegar fogo no circo. Deu.
De fato deu que o Senhor Sultão chegou bebinho da silva e mandou um porrete
medonho nelas, bateu nelinhas todas, bateu nos filhos delas, você se lembram
disso? bateu nos filhos dele e nos dos vizinhos que ele pensava fossem dele. Um
choro. Eu? fiquei só assuntando espreitando, medando sobrasse umas pancadas
para meu lado. Naquele bendito dia, que era noite já adiantada, foi um silêncio
que nunca havia percebido neste lugar! tudo quietinho, barulho mesmo só do
ronco do meu Senhor Sultão. Até não precisei contar estória para ninguém e fui
dormir, sozinho, lamentavelmente sozinho, o Patrão serrotava. Tudo por causa
daquela safada, sua mãe?! ah desculpe, decerto estou a falar doutra Janete.
IV – A Nair
Meninos
venham para cá, tenho uma boa hoje a vocês. Um dia... ah mas parece que estão
afoitos: parem de se desentenderem, ou não entendem; um dia o seu Pai, meu
Senhor Sharum, nos trouxe uma tal de Nair. Uma Nair baixinha e magrela. As
outras mulheres se enciumaram, vocês sabem que mulher é ciumenta! as meninas
não precisam se zangar, falo das mulheres do Pai de vocês não de vocês. Então
trouxe a Nair e eu não disse nada, sabem sou uma boca de túmulo. Bem. Não falei
sim ao meu querido Sharum, para as mulheres falei, instiguei-as, mostrei que
elas estavam sendo desmoralizadas por gente de fora, uma gentinha inimiga,
assoprei mesmo à Favorita, a Maria; brigou com a Nair e apanhou do marido por
causa disso; levou do marido, meu Senhor Sharum; depois as outras desandaram a
rixar, conseguimos pôr os filhos delas contra a barrigada da novata, barrigada
crescendo a olhos vistos, uma beleza! Até que convencemos nosso Senhor Sharum
estivesse ele sendo traído (vocês não entendem disso, inocentes que são)
dissemos que o vizinho aparecia aqui a paquerar a Nair e portanto os gêmeos que
vinham vindo para ser irmãos-zinhos de vocês eram de outro homem. Virou uma
fera! quis bater matar enxotar aquela sem-vergonha, quis levar a mulher até ao
Programa do Ratinho na tevê e tirar exame de DNA de graça e passar tudo a panos
limpos. Queria inclusive dar uma surra
no homem dela. Descobriu ser ele um brutamontes assim e brigador. Daí se
moderou e apenas bateu na Nair, quase abortou ela e ela se foi finalmente, não
com aquele, com outro vizinho. Batemos palmas. Ele, o Pai de vocês, meu Senhor Sharum?
ele? xingou, xingou três gerações, xingou o Harém inteiro, fiquei foi de
orelhas caídas no meu canto, nem cheguei a contar a estória da Branca de Neve
nem dos Sete Anões para ele, meu Senhor Sharum, naquela noite. Daí foi mostrar
vantagem no bar aos amigos, veio carregado e jogaram meu homem na cama a babar
e cheirando cachaça! Um vexame garotos, um vexame. Agora chega. Amanhã.
V – O Gaúcho no Harém
Venham agora, podem vir sem susto.
Contarei do Gaúcho. O que! falaram “vem aí outra bicha?...” era só o que
faltava pensarem, pensam que sou viadinho! seus capetas aprendizes de Lucifer.
E o que vocês tem com isso se isso é da conta de seu Pai, meu Senhor Ibn. Não
era nada disso; já viu o que a mulherada faria com o pobre... Pensando bem,
ficaria tudo na santa paz, vejo muita tolerância das fêmeas para com aqueles
que não sabem ser machos e nem podem ser mulheres. Não era, garanto a vocês.
Não se espremam assim; ou por outra, se espremam mais um pouquinho, pois vem
vindo mais umas dezenas de irmãos de todos aqui. Ah, quem me aguentar
sentadinho neste objeto esmaltado branco com bolinhas vermelhas, sem reclamar,
reclamará com nossa produção, depois, um premiozinho de um pirulito. O Gaúcho.
Não chegava a ser um machão, desses tipos temperamentais e arruaceiros, não;
até manso. Já um bocado velho, trabalhara em olaria, outros serviços pesados
por aí; e andava pisado; isto quer dizer destroçado, gritando por aposentadoria.
Seu Paizinho quem o trouxe para nosso convívio, antes de vocês nascerem, noutra
geração de filhos. E não fiquem a pensar que seu Velho desejava emprenhá-lo,
isso já é demais pensar. Não. Trouxe o infeliz por tê-lo comprado barato. Aliás
é um defeito do Pai trazer sempre tranqueiras que acha baratinho na rua e
depois atulha os cacarecos em badulaques na casa e as esposas ficam a reclamar
dele quando ele não está presente. Então, adquiriu na bacia das almas ao
Gaúcho... Não façam essa cara de espanto, ele comprou sim o Gaúcho. Pensava em
pôr o fulano a puxar o arado na roça de mandioca. Não deu certo. E vocês já
imaginando alguém ter vindo à luz pela barriga do Gaúcho; como são poluídos aí
dentrinho! Nada disso, era um burro inteligente; apenas, tadinho, andava
barrigudo, não grávido, esquelético até e cego. Meu Senhor Ibn tencionava devolver
o animal para o vendedor e brigar com o mesmo, no momento em que descobriu a
cegueira do bicho; aconselhei-o a desistir da desistência: punha-o no pasto e
largava lá para morrer em paz, sempre tive pena de animal. Me ouviu dessa vez,
ele não gostava de meus palpites em caso de mulher, no que exagerava um pouco
porque eu sou fechado na boca como um túmulo, vocês sabem disso. Se duvidarem
eu não contarei o resto da estória. Está bem, vamos em frente. Daí, tchibum!
ele caiu no Buracão. Nada disso, não foi o Pai de vocês a cair, ou não faria
ele vocês para suas mães darem mamadeira depois e agora me ouvirem a estória.
Não, o Gaúcho, tadinho dele. Só três dias depois descobriram o burro pela
fedentina e os urubus a esvoaçar e pulando gozado em volta no picar a carne
podre, já viram corvo comendo carniça? nunca, um dia peço ao meu Senhor Ibn Zé
autorização para levá-los conhecer o Matadouro Municipal. Então, foi assim o
final, quase no princípio, a estória do Gaúcho. Olhem, meninos, teve várias no
Serralho que choraram esse trágico fim do coitado. Umas têm é muito sentimento.
Ah, vou dispensá-los por hoje, hoje me parece haverem comido demais mandioca e
abobrinha no almoço, estão muito indóceis. Por agora, tchau.
VI – Filho e Marido
Amiguinhos,
vieram cedo. Me parece que tem gentinha nova por aqui. Espero bom comportamento
hoje, não me envergonhem perante os novatos. São filhos de quem? Não é isso que
perguntei, o Pai eu sei é o Senhor Habib. Pergunto as mães... ah sim. Gosto
muito delas, só não a concorrência delas diante do meu homem. Isso não
entendem. Olhem, falo agora a vocês o que iria narrar ao meu Senhor Habib Zé, numa
das noites das mil e uma estórias; gostaria, saibam, gostaria de haver contado,
porém acabou por roncar de novo nem terminei. Eu, Sherezud, fazia outro dia
referência a um filho e um marido, dizia que certa mulher, uma comadre de seu
Pai, ela perdera o filho e loguinho depois o marido. Um menininho aí, foi você?
não, hoje não está aqui para confirmar. Ele me veio indagar se a Comadre tinha
perdido eles no rio ou no mato. Não minha gente, gente costuma se desfazer de
gatinhos, aquela ninhada a miar dia e noite! perder cachorrinhos quando a cadela
produz sem parar depois de suas brincadeiras com a cachorrada no pedaço e, aí:
onde pôr tanto comedor de carne e peixe após crescidos! O pessoal põe dentro
dum saco: joga-se na água, ou perde-se lá no matão; ou chegando a atirar a
encomenda de encomenda nas vizinhanças, mesmo porque tem sempre alguma criança
para adotar os bichinhos. Agora, quando fazemos referência a gente, ninguém vai
pôr um homem, criança, menino que seja, num saco de estopa, carregar se
esperneando por aí, a gritar e chamando atenção do povo e posteriormente
‘perder’ lá nas lonjuras. Não. Perder para gente grande é a cria, no caso o
filho, ou o esposo, falecerem. Antes geralmente tem as dores o sofrimento o
médico o hospital e fila na Previdência e, coroando tudo isso o cemitério.
Olhem, tem gente aqui com medo de cemitério e de defunto; depois vira defunto e
mora no cemitério sem qualquer reclamação. Gente é assim. Então. Ia contar a
vocês hoje a estória... ih ando esquecido. Amanhã eu me lembro. Venham amanhã,
hoje estou, além de tudo, demais com dor de barriga. Beijos.
VII – A Roça
Meus meninos,
seu Pai meu querido Senhor Salomão, o Sábio, me incumbiu de falar umas
coisinhas a vocês. Sim, sim, contarei estória. Não prometi? já alguma vez
neguei fogo! Bem. É o seguinte. Voceis-zinhos, disse nosso Guardião Amado, Pai
de todos, vocês andam por demais comilões. Ele falou assim. Não tem o que chega
aos sacos-sem-fundo, doce rapadura fruta, o pomar está um arraso que só vendo;
mingau e mamadeira, suas mamãs tiram os bebês cedinho do peito e lá vai arroz e
feijão e mandioca, ah a mandioca! a roça não suporta mais. Vocês já consumiram
o talhão lá do outro lado do rio; o Pai disse: meus gafanhotos! vocês. Além do
mais todos os dias estão quebrando
pratos, desajeitados, vão brincar com as colheres na areia, já encontraram até
garfo no mangueirão dos porcos! As cabritas não aguentam mais a molecada. Vocês?
uns indiabrados. Não, eu, eu Sherezud gosto muito de todos aqui, conto
inclusive estórias lindas aos meus amiguinhos; o Pai é quem reclama o desperdício.
O canavial? primeiro atacaram a cana-caiana, agora derrubam a cana-de-burro!
Nada pode com vocês! Baldes sem fundo. Tem mais, não tem; não terão Papai-Noel
neste ano. Ele quem falou, meu Senhor Salomão. Quer mandar todos aqui presentes
neste salão a ajudar na lavoura. Não se olhem assim como se eu fosse o
estragador do bagunçamento de todos. Outra coisinha que me pediu a falar: estão
brigando muito; ora, são todos irmãozinhos, por parte de Pai, o Senhor Salomão
Zé. Disse um dia que estiver cabreiro vai dar de pau em todos (até em mim que
não tenho filho com ele, por culpa da natureza, gostaria ter uma centena vindo
de tão garanhúnica criatura...) Tem mais a dizer; ele não falou direto com seus
filhos, vocês, para evitar encrenca com suas respectivas mães: vai trazer para
o Harém uma boneca que foi miss não
sei de quê, a qual desde agora acho feia e é minha inimiga, penso mesmo insuflar
uma conspiração e expulsá-la antes que venha para cá! A roça, falou, falo agora
eu, eu Sherezud, a roça está pouca; muita boca e quase nada de mandioca no
mandiocal. Para vocês pararem em desperdiçar alimentos... Se se comportarem
bem, ele, meu Senhor Salomão José trará umas águas-de-cheiro para as mamães,
algum brinquedo de um-e-noventa-e-nove para vocês e uns trequinhos para mim (vai
ver ele, meu Senhor Salomão, me ama...) Chega, estou quase a chorar, sou muito
emotivo. Amanhã. Cedo.
VIII – Outra Vez a
Favorita
Um dia –
estou falando baixinho a todos, não é para os de fora saberem, fica em família,
a Família de meu Senhor Rachid – um dia, atentem para a estória que eu (essa eu
não contei ao Amado Senhor Rachid; narro somente a vocês, meninos) eu, eu
Sherezud, contarei, um dia... não não não, não briguem, estamos no começo e já
um empurra o outro, não vê garoto que ela é sua irmã... por parte de Pai é sim.
Bem. Ia expor, quando me interromperam, sobre a Maria, tem algum filho dela
aqui? Então, ela é a Favorita de meu Amo, que eu amo àcima de todas. Pois é,
ela... tudo é ela. Aliás ela é quem acha ser a mais-mais; cá pra nós é a mais,
isto sim, a mais usada e já em fase de descarte; é o que penso da Maria; se
acha bela, eu medonha; ainda mais quer mandar nas outras e nos filhos das
outras também e, pior, em mim que não sou uma mulherzinha qualquer, sou o
namorado do meu Senhor Rachid! Quê essa porcaria pensa! Então, vão escutando
bem, um dia, isso que presenciei, meu Senhor Zé veio encachorrado lá do boteco,
a trançar as pernas; assim mesmo tirou a cinta da barrigona e vai bater numa
bater noutra, bateu nas mães por causa dos filhos e nos filhos por causa das
mães; e vai daí... deu lambada no do meio da Maria, a qual entrou no meio; ela
tem cinco filhos, não, seis contando os gêmeos sendo que um morreu e ficou o
outro, são todinhos feiosos igual a mãe, aquela jararaca safada. Vão escutando:
entrou no meio e é claro, apanhou; apanhamos eu e as meninas, eu chamo as suas
mães de meninas e elas me chamam “menino” e quando querem que eu interfira por
elas junto do nosso Senhor Garanhão Rachid, me tratam “queridinho”. Foi só
paulada lambada cintada murros até, se bem que o Paizão de vocês acertava pouco
por muitíssimo bêbado. E vai daí a cascavel da Maria inverteu a coisa (eu andando
a torcer e a gritar para ela apanhar mais ainda do nosso Homem!) porque passou
ela a dar no coitado. Olhem, para
encurtar o negócio: se as meninas não acudissem, a Maria ficava viúva, o que
seria bem feito se a vítima não fosse meu Querido Senhor Rachid Zé! Ficou
de molho na cama semana; e mais outra semana,
envergonhado, nem ele saiu para fora de casa, tadinho! Chega. Amanhã falarei
dum assunto terrível. Não respondo agora, não sejam curiosos, só amanhã
falarei; agora me deixem no penico.
IX – Negócios no
Cartório
O tempo foi
passando... não me interrompam, ajeitem-se como puderem. O tempo foi passando,
vieram bem umas duas mais aqui para o Serralho. Vocês estão ouvindo direito?
Parecem indóceis, deve ter algo de podre no reino da Dinamarca aí. Posso
continuar? sim, tem razão o pivetinho, começar. Um dia, como falei antes, tinha
de contar todas as noites uma estória nova ao meu Amo e Senhor Sultão Sharum Al
Caldun Ibn Habib Salomão Rachid, Paizinho de todos os presentes e de outras
ninhadas por esse mundão, aumentando sempre a população do Serralho aqui e
decerto por onde passeia meu Poderoso Senhor. Contei. Foi a do Chapeuzinho? não
me lembro agora, ah foi a do Gato de Botas. Nesse dito dia, noite, não dormiu
não roncou não ameaçou mas também não me carinhou. Estranhei. Andava era
macambúzio, esquisito. Ri para ele, fiz minhas micagens e salamaleques parecendo
com bobo da corte, fiz mesmo concessão a falar sobre a mulherada (assunto que
não aprecio) e nada, nada tirava o homem de sua mesmice, olhava ferozmente o
próprio umbigo. Que está acontecendo? isso perguntei, é claro com modos e amor,
delicadeza, a delicadeza que o amor da gente merece... Nada! Quando já era a
hora da hora do costumeiro ressonar rrrr-depois-buf! nessa hora, ele mesmo, meu
Amo e Senhor Habib Salomão me confidenciou: tinha três, e das mais belas (eu
achava horrorosas) três delas, repetiu o infeliz: querem divórcio. Eu corrigi a
bedelhar “desquite”. Não, reargumentou, não, querem se separar do Serralho,
viverem suas vidas! desejam ainda mais: cada uma quer metade de minhas terras,
ao menos um talho grande de mandioca; e pior – pensão, vinte ou trinta pés de
mandioca para cada filho que fizemos... e temos ao todo treze filhotes! onde
vou parar?! Chorou, chorou sim, homem não chora chorou, eu vi com estes olhos
que a terra há de comer (cruz-credo!) Quando acalmou, serenou um pouquinho,
então eu quis saber os pormenores em detalhes e minúcias, sabem sou grudadinho
nas partículas e esmiuçalhas. Já haviam ido a um advogado, o qual minhocou
nelas o como fazer; foram ao Cartório; registraram etc.. Fizeram inclusive
plano de ataque aos meus bens, disse o Senhor Meu, para extrair o máximo de
tudo ganhado com meu suor; queriam a mandioca o feijão, aquele que o sol matou
outro dia, queriam o milho a cana o arroz da várzea. E pior ainda, para ele é
sempre o pior quando o pior vira dinheiro: se intrometiam na poupança e até na
conta-corrente do pobre rico, meu Amo e Senhor Al Caldun Ibn, gracioso e musculoso
Garanhão! Em que deu? Vocês não sabem não! Uma das tais morreu e dizem que foi
envenenada pela Favorita e deve ser intriga da oposição; quanto às outras duas,
uma fugiu com o advogado, só deixando os filhos para o Pai criar porque advogados
não têm queda para alimentar filhos de outros machos; a outra com o vizinho do
quarenta e quatro, um bestalhãozinho, este deixando a mulher dele no lugar
porém o meu Amo e Senhor não quis saber da troca por muito velha e feia, nisto
eu concordando com ele, o meu Namorado e Senhor. As outras, as meninas como
falei que dizia delas, elas bateram palmas em festa. Foi um alívio, parecia
quando o Cadeião superlotado, não tendo lugar nem para dormir, então transferem
alguns poucos presos, assim. Contudo foi primeira impressão nossa: nosso Senhor
Sultão Sharum trouxe para o espaço das fugitivas, pasmem! cinco novas esposas,
eram novas e meio bonitinhas realmente. Pior. Pior para mim. Exato, meninos,
pior pro meu lado: um mês sem um carinho, sem olhar-me... nem aparecia ouvir a
estória do dia, isto é da noite, uma das mil e umas... Fiquei indignado. Queria
trucidar as novatas, no que as outras amantes esposas e concubinas do meu
Senhor me ajudariam com certeza. Não deuzinho: ele as emprenhou e a gente não
vai bater em grávidas, vai? Ai, não desejo nem alembrar. Aos poucos tudo foi
entrando nos eixos; ainda depois nos trouxe uma viúva com quatro filhos,
havendo entre eles uma garotinha defeituosa, tadinha, e outros filhos emprestados
como primos e sobrinhos – a casa encheu-se. Depois nasceram as crianças, uma
choradeira sem tamanho, não suportava aquilo. Inclusive pensei em pedir ao meu
Senhor Rachid fugir comigo sozinho, nós dois e mais ninguém. Todavia não tive
coragem para falar com ele, temendo perder o pouquinho que me dava, poderia
perder tudo. Que se vão os anéis, é a expressão certa; não é assim que se fala!
Agora estou cansado. Ah, antes de se irem, alguém de boa vontade me pega lá no
banheiro um rolo (de florzinha não gosto, nem colorido e nem perfumado). Entenderam?
X – No Tempo em que os
Bichos Falavam
Oi garotas,
cheguei! Hum hum, como estou... Emagreci um pouquinho, mas enfim colhi umas
boas experiências. Parece haver gente nova no pedaço, o Clube ganhou mais amigos...
A eles vou me apresentar, os outros me conhecem. Sou Sherezud, vivi alguns anos
no Serralho de meu Ex-(lamento) Senhor Sultão Sharum Al Caldun Ibn Habib
Salomão Rachid José Zé e em meio das intriguentas esposas dele, neste ponto nem
falo, desejo esquecer aquelas horrorosas! tinha dezenas e dezenas delas! não
sabendo como suportei; só o amor explica, a paixão que sentia por meu Senhor. As
meninas aqui sabem como ajo: dignidade sobriedade honestidade e sobretudo boca
fechada. Por isso tive de aguentar o suplício delas pelo calor do meu homem, ah
que homem, ele falava que era homem com “O” maiúsculo. Era. E os meninos,
gostava deles: meu costume sempre foi lá sentar-me no penico para melhor relaxar
e ter ideias. Assim relatava lindas estórias das estórias de meu Amo a eles,
seus filhos. Entretanto as safadas esposas frequentemente mandavam os filhos
esconderem de mim a cadeira esmaltada com bolinhas vermelhas. Com isso não tinha
liguagem para narrar minhas estórias. Meu Amor pretendia ele mesmo fazer uma
cirurgia com o canivete de picar fumo e me tornar como as outras concubinas
dele: eu não queria faca nem ser uma entre as muitas, lá isso não: propus fugir
com ele. Aí entrou a oposição intrigante, chefiada pela Favorita, a Maria, certa
velhota encardida! Acabaram me expulsando do Harém. Filhas de uma... Porém ao
fim o negócio lá na mansão andava irrespirável. Acreditem, meu Namorado arranjou
mais uma esposa, uma velha, viúva, feia, um olho de cada cor; e essa não foi
como as outras que nos trouxeram filhos feitos pelo Amo por aí e os de outros machos,
não, essa não: trouxe sim os netos, porque era velha caindo pedaços, não sei
como ele se engraçou daquilo. Era demais. Fiquei com raiva, me propus até a fugir
com um vizinho, traí-lo, trair o Amo, porque bem merecia; o fulano preferiu
entretanto outra fêmea no Serralho; que ao menos fosse a Favorita, aí até eu
permaneceria. Tinha todo dia de contar noite inteira estória ao meu Querido. Nisso
não fui tão feliz como supunha: eu desejando narrar aquela da Fada que engolia
o príncipe, ele só queria a do Chapeuzinho em repetição noite sobre noite, porém quando chegava no ponto do lobo papar a
vovozinha, já roncava rrrr-e-terminava-buf! Contudo tudinho aguentaria por ter
meu Namorado comigo; daí surgiu uma questãozinha insolúvel: passou a exigir de
mim filhos, como as outras! De que jeito dar à luz!? Chorei. Implorei. Não
adiantou. Nessa altura da crise soltaram os cachorros em cima de mim, as cachorras:
me prometiam uma surra, intriga da Maria decerto. Fugi, corri, ainda assim me
acertaram uma urinolzada nas costas. É isso aí garotas. O boêmio voltou
novamente...
Marília novembro
2002
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