segunda-feira, 22 de julho de 2019

Diário da Loucura


Diário da Loucura

Estou achando que lá fora não veio sol porém não tenho certeza. De quantas certezas é capaz o homem! Deve sim faltar claridade os raios retardando quem sabe, quem sabe nem venham cobrir o telhado desta casa, talvez venham e não me atingirá. Suponho nada possa atingir-me neste quarto, nem o sol: fecho-lhe a cara com a janela a porta na cara. Bastam-me a solidão o escuro o silêncio; mesmo fora sendo o carnaval do circo da confusão do desperdício, o mundo é uma loucura. Aqui o todo o tudo no nada entre quatro paredes. As paredes são quatro, imperfeitas, pela perfeição possível em seres limitados. Pode que quando em construção os trabalhadores, aqui um pedreiro meia-colher e um quarto-de-servente, eles estivessem a pensar a perfeição nas linhas e no volume; saiu o alinhamento brincando com a geometria e seus ângulos nem sempre retos; depois, aí eu supondo não os vi acabar este inacabado, depois fizeram decerto acertos com massa mais grossa mais fina a aparecer bem, o homem só pensa em aparências e vaidades. Contudo agora o cômodo está pronto e usável. Uso ao meu dormir ao meu viver ao meu alegrar ao meu empurrar com a barriga, respirar escrever comer defecar olhar esconder-me dos vermes que pululam fora no fora do mundo que é o dentro dos outros. Assim os dias correm sobre os dias, as noites são mero acaso no descuido do dia, do claro da luz da consciência do entendimento; mas aqui já é exigir demais porque o homem é a incompreensão e não há em última análise entendimento. Vive-se, vivo e já é também bastante; muitos somem desaparecem e outros tantos sequer são notados pois não eram sabidos – assim nem a estatística pode mentir sobre tais criaturas por não ter sequer tomado conhecimento existirem; sobrando dessa maneira mais serviço à poesia para inventar mesmo a existência olhando-a com bons olhos e à filosofia que nada tendo a fazer faz vista grossa à existência a tratar da inexistência... Como me encontrarei na tabulação que a estatística promoverá no futuro: nos que vivem? nos que sobrevivem ao menos? nos que desaparecem ou sumirão? nos sequer  percebidos? Não sei, positivamente não sei e isto é negativo. Nem se pode afirmar; quê se pode afirmar! quase nada. Eu afirmo, por exemplo, ser dia 9, o que podendo ser verdadeiro. Todavia é uma possibilidade porque pode que não seja, garantindo embora o 9, sem saber, saber de provar mesmo, sem saber de qual mês de qual semana, o ano, em que século ao menos, supostamente o vinte, não discutindo se for vinte e um. E isso tudo em virtude ou desvirtude não sair destas quatro paredes feitas por mãos inábeis em linhas tortas e prumo discutível, escuras abafadas fedorentas talvez, se se acostuma como é costume viver no meio, no meio não se sente cheiro. Cheiro, cheiro sim, aspiro o tabaco o bodum o urinol e, vez que outra o queimado de tecido do travesseiro do lençol do colchão mesmo, a fumaça ardida que nasceu com o lume da ponta do cigarro, lume que faz zigue-zague em desenhos na noite que é meu dia.

Dia 10. Acho seja dia dez, quem sabe se não segunda-feira de preguiça e isso não me atingindo, entra dia sai dia dia a mais neste menos que é minha vida. Conferiria pela folhinha, o meu calendário não se reformou, reforma-se trocando o de um ano por outro doutro ano e isto não me aconteceu mais. A última folhinha, uma que mostrava certa paisagem nevada que nunca vi, esta região é calor secura e raramente ouço o gotejar sinto o cheiro da terra molhada, nunca vi cair neve e menos poderia ver geleiras. A moça de vestido longo e cesto nos braços a andar na estrada nevada em brancura se cansou olhar-me para que a visse; criou bolor quem sabe, o papelão amareleceu descorou trincou rasgou por fim; que fim terá tido! não percebi a dormir, decerto uma nova empregada arrancou a velha folhinha vencida, que estava na parede de minhas paredes. E quem a julgar certo esse errado; e sem serventia: calendário vencido é como cheque também vencido e sem provisão de fundos. Houvesse o mesmo, não saberia da mesma forma se segunda de preguiça. Me espreguiço pela noite indormida o marasmo do dia morno e lento e é possível seja dia dez. Aqui dentro. Lá fora os dias passam o sol marca a chuva invaria o movimento corre sacoleja a terra e o homem, o homem se cruza na sociedade transaciona seus ais pecunia seus bens proteje os seus; mas aqui jazo tranquilo no meu ser e vivo como posso. Posso andar à vontade nestes quadrados metros medidos em passos curtos lentos porém firmes de meus pés. A rigor dos pés, não me calço faz tempo, meu último sapato furado na sola gasta cansou secar ao tempo, primeiro riu-se rachando sem untagem e graxas, depois enrolou as pontas os pés os bicos dos sapatos pretos com o calcanhar dele, em saltos repregados já aparecendo os pregos a ringir quando andava estando já anos ou meses ao menos depositado na poeira debaixo de minha cama, importunando meu penico muito usado gasto até no uso. Então, não me calçando calço  os chinelos um par de tiras em couro e me arrasto bem, ando pra lá até à parede de lá; volto a arrastar os chinelos até à parede de cá; vez que outra cruzo essa estrada imaginária todavia concreta, sim concreta porque parece-me já cavei um desgaste tal no solo por onde passo gasto o piso, piso torto piso arrastando os pés por causa daquele defeito no mindinho do pé esquerdo e manco às vezes, sobretudo quando o tempo está a mudar, o mindinho é meu termômetro avisante e aí sei ou chove ou esfria ou umidece ou muda de uma vez o tempo.

Dia 11. Não sei que fazer neste dia onze. As preocupações me avassalam invadem abocanham meu ser, a pensar quê não deva. Nada obstante não encontro uma entrada para minha saída a sair deste torpor e quem sabe medo indefinido a sugar minhas forças. Apesar deste meu estado tenho pensado – e até falado falo dormindo falo acordado no meu dormir a vida – encasquetando um pensar obsessivo até do qual não me desvencilho com facilidade, se não em momentos fugidios... Penso, por exemplo, a me alembrar das horas boas, em que tenho horas alegres e aí não preciso inventar e mentir menos ainda quando nem interrogam sobre a vida aqui no quarto. Outro dia mesmo, eu não podendo medir se mês se ano no meu indeterminado contar, outro dia veio-me uma visita que era tão só visita à casa e por extensão pra mim. O tio, que me parece o irmão mais velho do velho, o pai, não tenho certeza disso, ele me perguntou como anda a vida; eu olhei aquela porta semiaberta e só isso me entristecendo e até me agoniando, olhei a porta e respondi sem olhar o parente “está gostosinha”; e isso é um aspecto alegre de minha tristeza ou apenas indiferença. Não menti não abusei sequer do exagêro pois não exagéro nas coisas, faço tudo como a água calma do lago, a tona quieta, o silêncio do tempo, o morno do horizonte sem horizonte e fim. E me alegro também com alegria rápida que perdura embora na memória. É o caso da empregada nova, a outra nova era velha já, sendo dispensada pela família; e a nova veio-me ao quarto para trazer a refeição, para qual olhei em desgosto o bom gosto possível dos demais; e ela primeiro bateu com o nó do dedo à porta e arrespondi a entrada, ela depositou curiosa o prato na mesinha e me fixou... aí brinquei neurose com ela, arreganhei grunhi armei os braços em garras, avancei – e ela berrou um gritar e saiu espavorida; e me ri a valer, a pança subia descia, ri-me ao soluço, quase me esqueci almoçar e dormi, antes havia fechado a porta que a jovem deixara aberta na fuga e o fiz com os pés, o pé direito, e foi então o rir! A casa precisou empregar outra, novíssima. E isso não é uma alegria de minha tristeza!?

Dia 12. Hoje é dia de respirar. Sim porque sincopo em soluço o soluço de aspirar este nauseabundo ambiente em que remanso o sentir. Em contrapartida gosto do quarto. É o meu mundo, vale um universo. Nele me encorajo nas coisas que faço não fazendo nem tendo responsabilidade nem pesos a carregar; certa maresia sem mar, com paredes a porta a janela a cama a coberta a acalentar meu ser; e a aprisioná-lo a subjugá-lo a impor sobre ele a sua solidão que é minha solidão. O ar está impregnado de fragrâncias de cheiros de fedores também. Um mofo de velho, do cansado, do uso, do abuso; o ar vez que outra é movimentado assoprado pelo sopro do vento se venta lá fora e invade a fresta e se filtra a correr nesta lentidão. O ar é o ambiente, não só a se respirar e sentir – é para ver também. Vejo a cama em desarrumo, arrumo e flexiono o enrugo o pano, o pano cobre a cama de indormir. Vejo o criado, tão mudo quanto eu; pequeno gasto queimado, o cigarro a ponta que sobra da cinza que foi tabaco é ponta que sobra e que queima se queima a borda do móvel e ainda não queima ou a queimar e aprecio apreciando o acontecer, antevejo a fumaça da brasa do tição de cigarro e de madeira na borda e ela subirá e arderá o ambiente até ao sufoco. Não sufoco mais, aspiro respiro expiro as fezes do cigarro como as fezes de quaisquer poluições possam existir, minhas paredes internas agigantadas e fortalecidas a se defender contra a fumaça externa que sugo por horas a fio; consumo, dizem, quatro maços deles pelas minhas doze que são vinte e quatro horas sem parar, parando nos indormidos momentos, ainda assim com o cigarro na boca ou a cavalo nos dedos a cavalo, o indicador e seu mano, em vê, ambos amarelecidos enegrecidos e a cheirar tabaco sem que eu cheire, quer dizer: que sinta o cheiro. E o cheiro se mistura ao cheiro que é o cheiro doutros cheiros a fedorar o quarto. E eu respiro, aspiro expiro e sopro e trago; e queimo o queimar. E acendo e apaga e acendo e queima e apaga e acendo, acendo a respirar outra vez. Fungando.

Dia 13. Os tolos que dá azar. Para mim é de entender. Entender o não entender as coisas. Aquele dia, não sei qual dia, o dia da visita do familiar de fora, que bem podia chamar-se mais-de-fora porque todos são de fora pra mim, aqui no meu quarto, aqui dentro de mim; nesse mencionado dia respondi ao tio que a vida é gostosinha, ainda repeti ‘gostosinha’ não a reprisar somente, somente meu jeito de ser, falo, ouço quê falo, aí repito as coisas ditas, a parte última das coisas ditas e não sei donde me veio esse costume bobo, bobo como são todos costumes. Ao responder, o tio sorrindo enigmático; porém não é o quê não entendi e não entendi também o mistério do sorriso dele; o quê não entendi e relembro neste dia de  não entender foi a lágrima que escorreu na face paterna... Então os dois homens se foram, tranquei-me outra vez no meu trancar e decerto, pois não me lembro bem, decerto pus-me a fumar, que é que faço toda hora mesmo sem pensar fazer – o hábito a rotina. Agora neste dia 13 não entendo para relembrar que não entendi. Talvez me queira bem e por me querer bem sofre o pai; terei dito quê não devera dizer, desacostumado a dizer, tanto devam pensar seja mudo! Não sei, francamente eu não sei. Será que os outros familiares me amam, ao menos me toleram no querer? Caso não tivesse tanto sono pensaria a respeito; não obstante acho dificilmente conciliarei pelo barulho em casa. Parece um fim de mundo. Vai ver o mano mais novo bebeu novamente. Bebe briga braba boqueja berra bate; bate, quebra as coisas, ouço daqui. Dia desses atirou lá do segundo andar que eles dizem primeiro o televisor; o aparelho se espatifou aqui embaixo no fim da escada! ouvi mamãe a chorar a voz alterada de papai os outros a falar entrecruzado, inclusive a novinha, esta já outra criada que faz dois dias veio trabalhar, inclusive ela falava e mais falava, falava alto e bom som a todas imediações ouvirem e ouvi, é lógico. Meditei e não dormi, não podendo e nem o cigarro fumaceou direito minhas entranhas, com certeza contraídas. Felizmente hoje é hoje, 13 de não entender.

Dia 14. Sim, é esse dia. Talvez um outro 14, ou 14 mesmo mas doutro mês, pois me parece já haja registrado um dia 14, não importa. Importa sim que ando a pensar em minha aparência. O outro quebrou-se. Não sei se se quebrou, puseram outro menor espelho aqui no quarto, quando eu fazia a barba e aí vinha o barbeiro amigo do pai a aparar o cabelo, a barba propriamente dita fazia eu mesmo com capricho; então primeiro me surrupiaram a navalha depois o aparelho de gilete ou me tiravam a lâmina me deixavam o resto do instrumental e aí como fazer a barba! Uma vez parti o vidro dei-lhe com raiva do que via um soco, arranquei a madeira do quadro, espatifei tudo no chão. Temeram, me surrupiaram meu outro eu e sinto que eu sou um eu barbudo; os cabelos medonham entortecidos enrolados compridos embranquecidos talvez; não, sou muito jovem para tanta neve. Reconheço entretanto cheirem mal os fios; a seborreia os fios partidos engancham-se no pente; quebrei o pente, arranquei com a força da cabeleira enorme vários dentes dele, banguelei o pente, como as falhas dos da boca. Enfeei o pente preto de plástico. E atirei-o por aí, junto a outros badulaques que nunca encontro quando quero encontrar. E nem preciso, não me penteio mais. Crescem os fios no rosto e no crânio, cresce o ventre. Olho a barriga, olho mais embaixo, medonho à forma macaca os pelos negros encaracolados a pratear mesmo e decerto sendo válido aos cabelos na cabeça; não posso saber a confirmar, me roubaram o espelho, os cacos dele. A nova mais nova, novíssima, me teme, põe as coisas sai a correr nem fala nem nada e se fala não respondo resmungo e aí mais se pela de medo, quem sabe pavor, a pobre. Contudo não sei se a pança exagera o crescer, só a vejo de cima e ninguém me descreve a circunferência ou protuberância a saber melhor; se a velha ainda trabalhasse na casa indagaria a ela, pois velha a velha e velha não tem medo de homem, será sou realmente ainda homem! e com a velha poderia saber e...  para quê saber, pra quê saber as coisas! que seja saber minha aparência. Bastante saber o dia, dia 14.

Dia 15. O dia é cinzento, ao menos a fresta do quarto por onde deveria passar um solzinho é cinzenta e isso é mau. Para mim é. Mistura a cor escura deste quarto com o cinzento e me deixa pessimista. Todavia os pessimistas se assustam; ou mais se assustam que os que não o são. Assusto-me, aqui em meu marasmático tugúrio com a meninada lá mais fora; sim mais porque além do fora de nossa casa e mais ainda eu estando no meu dentro. Eles, os meninos,  gritam, parecendo toda uma cidade ou que seja um bairro inteiro. Entretanto descubro pelos timbres vozes de meninas-moças de meninas e dalguns pequenos machos ainda sem pensar sejam machos – todos se encontram no falar fino e gritar mais fino ainda, a ensurdecer! Os sons ultrapassam a rua o quintal a casa os outros cômodos e ricocheteiam em minhas paredes; tapo os ouvidos cubro a cabeça pressiono as mãos nas orelhas a reforçar, debalde. E não serão mais que meia dúzia de pirralhos e promessas de gente mas azucrinam. Quê fazer? não fazer, não faço, faço o cigarro funcionar, acendo um acendo outro no primeiro o segundo  o terceiro no segundo o quarto no terceiro e daí por diante, crivo o chão com pontas, gasto o isqueiro, tento relaxar, urro berro eu o berro deles e eles ouvem ou não se ouvem sequer e houvem por bem parar a brincadeira e aí descanso uf! em silêncio; apagaria a lâmpada em homenagem ao silêncio, ela se queimou devo aguardar me troquem a luz para poder apagar a luz e fumar mais tranquilo pensando em não pensar. E a noite escoa, a noite que é meu dia, dia de cinza e que se une à noite a qual não é clara porque a lâmpada se queimou; e o  escuro é tal qual o meu escuro, que faz é muito escuro em minha vida.

Dia 16. Foi num dia 16 também; sim não resta dúvida foi num 16, no tempo em que me enraivecia frequente, um dia corri atrás da empregada nova, noutro quebrei um espelho grande que me mostrava enorme e distorcido e quebrei logo o pequeno de vidro sujo a espatifar-se no chão; ainda rasguei a colcha nova que a mãe pôs na cama; e chutei, aí sem querer, chutei o urinol e espalhei cheiros e a empregadinha nova com medo lavar e limpar o solo; e fiz mais não sei o quê, já me esqueço. Sim foi nesse 16, quem sabe uns dias após, então veio o doutor e depois o doutor com dois macacões mal-encarados e me espetaram eu não gostando de injeção; daí protestei e posteriormente dormi não sei quantas horas ou quantos dias e só então parei fumar. Parei enquanto dormia e acordei amarrado e não consegui arrebentar as pensas e gritei e finalmente apenas chorei. E desde essa época terrível que sou obrigado a engolir mil pílulas drágeas comprimidos e mais e mais remédios, todos amargos ótimos a vomitar. Os comprimidos não engulo, engulo metade e escondo mais da metade e atiro os mesmos depois pela fresta onde o sol se comunica comigo agora. A empregada vem com mamãe ao quarto, a mãe me segura e me carinha enquanto a mulher me empurra pra baixo os amargores a enganar a doença que não tenho. Ninguém me ouve! E elas vêm me trocar a roupa mas não deixo mexerem na de baixo e as empurro e grito e elas fogem do escândalo; e o pai não tem coragem entrar com as mulheres e nem os manos mesmo não se encontrando bêbados e minhas irmãs choram e não sei o quê lamentam. Lamento eu: não quero remédio, meu remédio é o tabaco; e não desejo mais ver o doutor. Aí nunca mais veio e eu estou aqui no meu pardieiro voando a fumaça a olhar as quatro paredes a porta a janela fechada, a fresta na janela. Porém o mundo não parou, sei não parou, ouço o rolar dos veículos e a loucura da gente.

Dia 17. Hoje chove. Fazia plano andar correr quilômetros e quilômetros até ao fim do mundo, o fim do mundo são estas quatro paredes minha janela fechada trancada inclusive, agora com certas reservas a casa me tranca a janela prega com travessas de madeira temendo uma recaída nos meus ímpetos; e a porta fechada agora também ela trancada a chave por fora meu por dentro e assim não iria somar quilômetros ficando embora dentro do fim do mundo; e fosse querer andar e pior correr não dando pois chove, neste momento chove a cântaros. Primeiro foram os trovões anunciando reforma ou limpeza no céu como a arrastar móveis, chocalhando o ar remexendo a atmosfera pressionando aqui embaixo em meu quarto. Depois despejou água, teria antes raios e relâmpagos, ouvi tão só estrondos, medonhos, nada vendo por baixo das cobertas e estas são novas agora, com cheiro de tecido e cola, um cheiro de novo novidade no meu cheiro ambiente que é o cheiro do quarto com suor bastante de corpo indormido fumo e restos em defecação. O cheiro das cobertas com o qual não me acostumei ainda é recente: é o cheiro novo com o velho; não o meu velho cheiro (com algum desastre a contar...) – o velho do mano velho, o novo já registrei como tecido novo porque as cobertas sim são novíssimas vindas ontem e mamãe as trouxe fez sermão e cobriu minha cama a mostrar como devo todos dias fazer. O velho cheiro é o velho cheiro com cheiro de meu irmão, não o quê bebe e faz arruaça e joga as coisas até o aparelho de televisão a rolar escada abaixo; esse não, o outro mais velho que ele, mais velho que eu mesmo dois anos; o quê bebe mais ainda e faz espalhafatos e anarquia e chuta a porta e grita e bate na criada e ameaça o pai e xinga nossa mãe, ouço daqui do quarto o barulhão. Esse mano velho, não sei se faz semana talvez um pouco mais e aí chamou a atenção vizinha deu escândalo quebrou tudo no seu quarto; então veio o camburão. A mim dizia quando me insultara um dia precisar eu de rabecão. Agora foi de camburão. Voltou. Abusou. Encrencou. Foi internado com ajuda de camisa de força. A casa ficou em silêncio; depois resolveram tirar minha cama quebrada meu colchão a feder e os trapos sujos que sujara por dois dias – me trouxeram cama nova colchão novo roupa nova de cama, tudo novo pouco usado pelo irmão nervoso; e estas cobertas novas em folha a cheirar tecido novo com goma de fábrica. Ainda não me acostumei bem. E a chuva não trovoa mais, menos água a goteirar no corredor aí fora dentro do quintal, a gritar latinhas e latões que se esquece quase de propósito a martelar tec-tec a atrapalhar o sono da gente. E o silêncio teima em não vir hoje.

Dia 18. Agora não. Neste dia eu me encontro bem, ao menos sinto-me bem. Todavia andei a passar maus bocados e acredito tenha sido por mais de semana talvez meses. Primeiro fora a crise sexual, amenizada sempre pelo meu fumar constante. Antigamente, e não sei precisar este vocábulo a contento, antigamente tinha poluções noturnas e ainda havendo noite pra mim por ter dia, andar, e até falar com os outros, ansiar por uma companheira; agora é a noite que se mistura ao claro e o dia ficou escuro e confunde meu viver, que falei ao tio visitante ser gostosinho. Amanhecia na zona genital com os panos grudados, úmido o calção com me vestia então, hoje sendo pijama, o dito calção e a roupa de cama dando ideia haver passado clara de ovo e me lembro envergonhar-me ao ver a criada ou mamãe a trocar os lençóis. Depois, já preso em meu quarto sem ânimo e sem coragem sair daqui, então passei por uma crise de volúpia sexual, não podia conter-me, masturbava-me constantemente e até provocava a namorada na parede. A folhinha gelada com a jovem a carregar seu cesto na neve me atraía, amava adoidado a pobre e num ímpeto incontrolável certa noite – já  não sabendo se noite se dia – aí  arranquei a namorada da parede com seu calendário vencido e me apossei dela, possuí a mulher por baixo do cobertor; após, rasguei-a despedacei-a, e dormi nem fumei meu último que era sempre o primeiro cigarro. Mais pra diante percebi que não existia a folhinha nem na parede nem em lugar algum. Houve muitas outras crises, umas foram até jocosas. Um dia havendo puxado a empregadinha nova pra meus braços, se debateu me arranhou e fugiu, fugiu depois do emprego. Noutro fiz de propósito: aguardei a criada nova, outra mais nova ainda, chamar entrar pôr a comida no criado-mudo e rosnei a chamar atenção dela. Olhou. Viu o cirquinho que eu montara. O seguinte – quando  em ereção eu mantinha o pênis pra cima em mastro a empurrar o lençol, parecendo a lona de circo quando eu era garoto e ia ver palhaço. O circo armado, eu sorrindo sem-vergonhice pros lados da moça, ela gritou e saiu correndo como a outra. Mamãe precisou arranjar nova empregada.  Mas não foi contratada a sargentona, isto aconteceu depois. Antes disso a empregada nova magrinha, essa temperou a comida me destemperou pra valer. Aí não podia sair sentado no penico; até que a duras penas consegui deitar-me e não mais podia levantar-me, só evacuava sem parar. Sujei a roupa, sujei a roupa de cama também, sujei até o colchão. Felizmente para mim o mano havia batido na família depois batido nos polícias e depois ainda amarrado na ambulância de não sei que lugar, escutei o barulhão e a choradeira da mãe e de minhas irmãs e veio o silêncio e depois do silêncio, felizmente pra mim, deram-me a cama dele a roupa de cama dele e me presentearam mesmo com coberta nova cheirando a nova. E por isso que estou bem agora.


Dia 19. Este é um dia diferente doutros, não por ser diferente mas por eu andar diferente, estou confuso. Não sei se foi antes se foi depois de antes sair a empregada nova que agora trato como velha. Veio então uma velha encarquilhada bem fortalhona fazer as coisas aqui em casa. Para mim a senhora era o tipo consagrado da sargenta, dessas que mandam até no general, mamãe obedecia. Também é explicável a coisa pois ela andava fragilizada com o sumiço de meu pai, assim supondo eu por não vir ele me visitar mais e aí mamãe encontrava-se em vestes negras como se alardeava antanho o luto; deduzi isso no perceber o semblante mais triste da genitora, agora só ela entrando aqui neste quarto; sem coragem estrilar por minhas sujeiras e os tocos de cigarros ao chão, os panos chamuscados pelo descuido no fumar, o que antes não tolerava. Foi nessa época entrar a sargentona em minha noite todos dias. Em princípio tinha princípio não penetrar neste santuário de meu refúgio. E não era por temor, mais adiante veria nada temer a mulher. Mesmo porque tratava-se duma mulata forte e decidida. Via a empregada somente de relance, seu vozeirão seu cigarrão, não devendo fumar tanto como eu, ninguém me ganha nisso, acendo um noutro, ela fumava também; e era bem estabanada, a julgar pelo barulhame nos afazeres domésticos lá de fora dentro da área seja no quintal seja na cozinha. Dias depois, já velha no serviço e mandona, aguardou uma visita que a mãe fez a não sei quem, as manas sempre longe de casa talvez estudando, o mano novo bêbado pranchado na cama; só o cachorro ativo, ocupado com gatos ou a roncar na casinha dele – aí  entrou aqui na fortaleza. Não avisou sequer bateu na porta não pediu licença, aliás tinha ela a chave da porta de minha cela, entrou sem mais nem porquê, escancarou a lâmina de entrada, sorriu malícias, mão esquerda na vassoura a outra a imitar cabo de bule: e me arrepiei. Restava entretanto o decoro e a dignidade do macho, fechei a cara a assoprar inimizades. Nada resolveu. Soltou-me os cachorros, xingou-me até à quarta geração, ofendeu-me os brios. E se pôs a trabalhar na limpeza. Não abriu a janela, já pregada em xis com traves de madeira, mas deixou a porta aberta a ofender-me com a claridade e o vento frio; fez mais, acendeu a luz (ao tempo de papai haviam trocado a lâmpada, eu me negava ligar) debalde quis eu apagá-la, rosnou musculaturas e fugi ao canto do quarto. Deixou-me preso nesse canto, uma que outra vez rosnava um impropério me chamando cachorro e bicho; aí se pôs na labuta de vez: arrastou a cama, empurrou o criado-mudo a outro lugar – teria mudado de posição com aquela força o guarda-roupa, já não existia então o móvel – chutou longe meus sapatos, que aliás para nada serviam usava apenas chinelos a arrastar meu chep-chep por aí. Fez mais ainda: varreu espalhafatosa o lixo, a ela tudo era lixo, inclusive mil e um papéis onde anotara dias seguidos o meu dia a dia, junto com tocos de cigarro e insetos e poeira. Completou a limpeza lavando esfregando, enquanto eu no canto escorraçado. O que não era para menos – arrancara-me abrutalhadamente da cama, deu-me tabefe para mostrar serviço e me ofendeu oralmente à beça, fez-me calar a boca. Olhava aquela sargenta a trabalhar de recruta mequetrefe, sem parar. Pôs roupa limpa na cama, pôs a cama no lugar, pôs o criado no jeito devido, suspirou vitórias! Nesse ponto veio-me a derrota final. Grudou o porcalhão, eu, pelos colarinhos, me levou – oh que horror! – pra fora do quarto meu quartel inexpugnável, fui empurrado ao banheiro e me maculou! Arrancou-me a roupa, fiquei nuzinho a tremer, de medo primeiro de frio após a conscientização. Abriu o chuveiro, molhou-me, esfregou-me com sabonete perfumado e me deixou tiritando enquanto tomava a toalha. Enxugou-me, não deixando sequer que eu escondesse as minhas vergonhas, ainda gritou rindo: “isso aí!” Fez o serviço sem dó nem piedade. Daí vestiu-me pijama novo, velho hoje gasto sujo manchado queimado com ponta de cigarro; e apenas restando esta memória da memória da sargenta braba e que não parou em casa, logo a mãe a dispensá-la. E me lembro como fora hoje, hoje dia 19.

Dia 20. Os náufragos se entendem. Foi também num dia 20 que o mano veio visitar-me a porta, naquele tempo não era trancafiado a chave, me trancava por conta própria não saindo a correr apenas por causa da claridade e da loucura da gente lá fora, com demonstrações a sobejo em matéria de curiosidade mundana, isto me azucrinando, sempre me azucrinou, porque  será gente é bicho tão curioso! Não o mano que bebe e é novo mais novo que eu o qual jogou um dia a aparelho de televisão em nosso pai ou foi na mãe; esse não, o velho mais velho que ele; não sendo o mais velho o mais velho morreu criança e nunca o vi. Enfim o irmão que bebia brigava e batia em nossa mãe e não batia nas manas as manas corriam à rua e provocava ele indignação em vizinhança pacata mas apreciadora de notícias frescas e as violências dos outros. Esse a polícia não pôde com ele, nunca o vi esfolado na volta; esse um dia foi levado na ambulância e só ganhei com isso ganhando cama nova usada por ele antes de quebrar os outros móveis a pontapé. Esse aí. Aí veio um dia me bater na porta a me chamar, nada de formalismo e cerimonial, nem quis entrar ver-me o buraco novo pelo queimado no travesseiro com cigarro, eu dormira fumando como costume. Apenas bateu, abri piscando a claridade que me invadia, apenas isso; daí me pedindo uns trocados e já então não usava nem conhecia dinheiro, dei uma nota onde escrevera alguns dados por falta de papel; ele balançando a cabeça a dizer saíra ela de circulação; foi nesse momento me pedir um cigarro, cheirava enjoantemente a cachaça, falava mole e com dificuldade a lembrar as ideias, enfim me pediu um cigarro, dei-lhe um maço inteiro, o último que possuía e depois o pai, que se eclipsaria como por encanto e posteriormente confiava em mamãe ela me traria a cota de três ou quatro maços bem fortes. Aí se despediu à moda de casa: rosnou um qualquer, ensaiou um sorriso que refletiu em choro ou gemido, próprio dos que são e não são ou não sabem ser. E não sei ao menos por que razão estou me lembrando agora disso.

Dia 21. 21, dia de cigarro. No maço tenho vinte. Não, vou recontar, tenho menos. Minha vida é a vida do fumo, fumo sem parar respiro fumaça e rego tudo a café. Tomo café, é meu café da manhã, nem me trazem mais pão a manteiga nada mais, nada mais me interessa, além do cigarro é claro; mesmo no almoço ou no jantar reviro o arroz separo o feijão deixo a carne, deixo tudo, tudo troco pelo cafezinho e pelo fumo, o qual pede boca de pito e tomo café. Contudo é o tabaco que conta pra mim. E ele me serve até a escrever. Anoto, registro tudo do meu nada em todos lugares; na parede, ah não há mais lugar (precisaria subir numa cadeira a escrever lá em cima, quebrou-se me tiraram não recebi outra); escrevo na mesa em criado, no pano da cama até; anoto em fragmentos de papel de embrulho; já cheguei a escrever inclusive na nota rabiscando o dinheiro, antes fiz gozando bigodes e óculos na figura histórica, aproveitei-me de ângulos e trechos em branco. Em resumo, enchi tudo pude a escrever o escrever diário. Aproveito tudinho possível, aproveito inclusive o cigarro: tomo a carteira, uso abusando do maço vazio ao avesso, ponho minhas dores e acontecimentos, mesmo este anotar neste momento. E foi uma descoberta e tanto após tanto rabiscar paredes criado-mudo restos de jornal e até a fronha. Escrevo nela praticando nas bordas do que sobrou nas queimaduras de cigarro quando distraído e só percebo em fumaça, depois um bater assoprar apagando as línguas do fogaréu. Ainda assim aproveito o pano branco encardido da fronha; tentei o travesseiro o pano é azul escuro e nem eu consigo depois ler quê escrevi, então desisti do tecido que envolve as penas fofando o travesseiro. Nem o colchão me serve como caderno (ah tivesse mesmo um caderno com linhas margens de verdade!) não uso o colchão também por escuro e ainda tendo uns riscos atrapalhando mais. Não obstante prossigo anotando. Agora descobri o tesouro do avesso do maço de cigarros; numa renovação diária em quatro volumes fumados nas vinte e quatro horas, prontinhos para meus registros. Lamentavelmente durmo, ou deixo minutos estar acordado, desperto mesmo; então uma criada nova, toda semana tem nova gente aqui em casa trabalhando, nem sei por quê, então ela varre recolhe atira decerto no lixo, ou fazendo fogueira com os papéis, o povo inculto é doido por queimar e destruir sujeiras sujando o ar com papel e plástico e o quê aparecer às mãos da pazinha de lixo. Assim metros e mais metros, quilômetros quadrados de meu diário, são destruídos por braços ignorantes nada ligados ao respeito ambiental e a mim. Em respeito ao fumo que aspiro e à carteira de cigarros que é meu sulfite i
maculado e amigo, encerro a anotação de 21.
Dia 22. Dois patinhos na lagoa, na quermesse o homem, e eu era petitico, gritava assim e a gente grande marcava na tômbola; e tinha jogo do bicho, eu nunca joguei, hoje é 22 e dá vontade jogar no macaco para dar o veado é preciso ser burro jogar fora dinheiro, mas tem lá sua graça, tinha e tem decerto; não tenho dinheiro a arriscar e nem preciso, quando papai estava aqui me trazia de tudo agora tudo é mamãe, tudo pra mim é o cigarro e o café. Tomo frio chega quente engulo o café em trago e trago o cigarro que trazem e assim é a minha vida. Hoje não é apenas dia do bicho no jogo, é dia do bicho. Todos dias são dias dos bichos. Aqui no quarto havia bastante. Especialmente no tempo do guarda-roupa. Depois um dia quis fugir da empregada xereta e até do pai e do tio em visita, entrei dentro do guarda-roupa. Curioso é que desejava, olhando o espelhão do móvel e vendo o indivíduo barbudo e cabeludo em que me tornara, o curioso mesmo era desejar entrar no fundo do espelho, conviver com seres supunha existir (um dia quebrei-o para ver não vi vi cacos e até feri a mão e tenho medo verter sangue, até me esfrio em temor). Portanto satisfiz o meu desejo secreto e entrei dentro do guarda-roupa, já quebrado o vidro não precisando abrir a porta do móvel grandalhão, abri assim mesmo e entrei, ficando de cócoras lá dentro, pisoteando a roupa passada pela genitora e posta pela criada. Pisoteei, me ajeitei, me escondi. Aí, tendo antes percebido o cheiro acre de mofo e mais de baratas, então me espremi entre elas e a roupa passada cheirando a naftalina, as baratas não ligando demais por seu fedor ser mais forte ainda – e nos bastamos. Quer dizer, elas se espantaram a sair a correr a se espalhar por fora no chão e por debaixo da cama, a se esconder precariamente nos sapatos e nos vãos do penico. Não me importei muito com isso mas fiquei curioso em sentir os animaizinhos pulantes, como grilos e outros que não se consegue pegar. Depois, quando imploravam que eu saísse e as mulheres e parece até que meu pai um pouquinho espantados do espanto das baratas, então saí por livre e espontânea vontade e me sentei na cama, meio sem graça. Só levantei-me ao ver uma lagartixa a trepar na parede. Fiquei a olhá-la, encantado, num ver o mexer o rabinho a andar qual lagarto ou dinossauro de brincadeira de criança. Assim a acompanhei olho nos olhos nos olhinhos dela e a achei engraçada. Dessa forma não fiz mal ao bicho nem o bicho me fez mal, antes bem alegrando-me o ser e me distraindo. Foi nesse dia resolveram tirar do quarto meu guarda-roupa, trocá-lo por um baú dos antigões, onde se acumularam cheiros e baratas também e mais tarde levaram igualmente o bauzão, ficando o cômodo pelado: a cama e o criado-mudo. Foi ao remover o guarda-roupa, o qual não passava direito na porta estreita do quarto, foi aí que pulavam pululando mil insetos, sobretudo as baratas a voar gozado, mais gozado os gritos de mamãe e da criada-nova. E é por isso que digo que hoje, vendo uns bichinhos a pular, é como era naquele dia, o dia dos bichos.

Dia 23. Hoje é dia 23. Não sabendo se de junho agosto ou dezembro, os meses calculo pelo tempo: se tremo me encolho me cubro e passo mais horas que de costume deitado, fumando deitado inclusive, aí sei é o inverno; se suo, suando e fedendo mais que o costumeiro e não suportando cobrir-me e me levanto a fumar podendo atirar os tocos no chão, perdi o cinzeiro faz tempo, então sabendo ser o calor do verão. Dois extremos que é julho e dezembro. Encaixo portanto o dia no dia convier, como por exemplo este 23. O pior, talvez não seja o pior o pior sendo a geleira que nunca vi em não ser por volta de minha namorada na folhinha de parede, o pior é o excesso de calor. Aí não durmo ando noite inteira, esclarecendo que meus dias também são noites e tudo é escuro e é um cercar na cerca destas quatro paredes a janela pregada a porta chaveada. E deito-me, e me sento, a levantar-me imediato; já andando de lá pra cá de cá pra lá, a falar a rosnar a resmungar a comunicar para ninguém; e me deitar outra vez e me cobrir novamente, e suar a seguir; e me levantar. E repetir. E repetir. E repetir. A saciar. E não sacio. E anoto. E reverbero. E grito. E me gritam o calar e berro um rebelar. E a noite se completa, porque nunca ela se completa, expulsando antes a claridade antes o dia. Aí estarei suado sujo fedorento desalinhado, um monstrengo que se assustaria houvesse um espelho e não há espelho, talvez como um bem ao meu mal. E me trazem o alimento, ou seja mais cigarro mais café. A criada, essa é nova, se espavora e foge; a mãe, embora sem luto agora é triste e mal humorada, ranzinza até. Olha, me pega no pé, critica ralha resmunga. Quer-me limpo. Pergunto-me para quê o banho! Não quererá a mãe gravata terno pente e rosto liso barbeado... não exigirá que eu seja outra vez o jornalista fracassado, o causídico hipócrita, o vestibulando eternamente vestibulando... Talvez. Estou entretanto em minha fortaleza, abrigo inviolável como assegura a lei, ora a lei!

Dia 24. Hoje é provavelmente 24; quando moço, me sinto velho cansado desanimado mesmo, quando moço temia o número 24 mas não me lembro por que razão. A razão me foge, não devo estar bem, sequer me levantei hoje, anoto com um coto de lápis, não me dão faz tempo e não me deixam à disposição caneta e mesmo papéis a usar; terão medo da caneta, como o povo teme a caneta dos governantes! Aqui em casa temem decerto a caneta, além da navalha e outros objetos cortantes que me suprimiram! Não sei. Sei tão só não ter coragem neste dia; a duras penas registro num maço arregaçado de cigarros que sobrou. Tiraram de meu alcance o fumo também e não me trazem café – isso é grave, é golpe mortal em mim! Por que me negam o mínimo, é o mínimo a um cidadão sobreviver, sou certamente ainda um cidadão. Ontem me levantei a muito custo, o mundo a girar lento, a parede onde leve lume se reflete apresentava riscos círculos ondulações, formavam criaturas monstruosas, animais e objetos disformes; estarei ficando louco? ou à beira da escuridão da morte... Neste instante não me encorajo levantar-me; escrevo como possível aqui num papelinho de cigarro e temo quebrar-se a ponta do grafite; pois como apontaria o mesmo, se me surrupiaram o canivete que usava antes. O silêncio não é apanágio somente deste quarto que é meu mundo, não; parece que inundou ele toda a casa. Só ao longe, longe da casa, ouço a vida na rua carros pessoas até música, a música que no lar triste dos meus familiares já não havia. Agora também não escuto sequer o andar dos meus; as manas faz tempo haviam se mudado, creio; o irmão mais novo aquietou não dá vexame mas também não dá sinal de vida; a mãe não se arrasta pelos cantos nem ouço o seu descer na escada ringindo madeira, ela arrastava suas sandálias em forma característica; empregada acho não exista mais. Enfim é o caos para mim porque anda um silêncio sepulcral, um silêncio mais berrante que o meu silêncio neste quarto fechado onde vegeto; sim, vegeto ou me desmaterializo, sem coragem ao menos a viver da memória e me fugindo igualmente a imaginação. Acho de fato estar abandonado por todos. Terão se cansado de mim! Esperarei mais uns dias, talvez 25, 26, não sabendo sequer o mês ou ano; quem sabe me voltem as forças e me alevante e olhe pela fresta da janela e grite por alguém.

Dia 27. Sou a vizinha da vizinha, a vizinha morreu a polícia arremexeu em tudo; havendo três cadáveres e muita sujeira; o mau cheiro era insuportável, mesmo agora quase não dá para aguentar e não se sabe o quê farão as autoridades; a gente curiosa vem sem parar nas imediações; o guarda me deixou entrar pegar alguma coisa a troco de meu sorriso; neste quarto fedido só tem papéis escritos e tocos de cigarro. A residência me parecendo de ricaços em miséria extrema. Dá pena; embora a vizinha fosse fechada e nem sorrisse a ninguém. Desolação. Isso que direi ao delegado, se me pedir testemunhar.
Marília   julho  2004


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