sábado, 13 de julho de 2019

Estória da Carochinha


Estória da Carochinha
                                                                                                                                                    “Irmãos, não faleis mal uns dos outros.
                                                                                                                      Quem fala mal de um irmão, fala mal da lei e
                                                                                                                       julga a lei; e, se tu julgas a lei,
                                                                                                                       já não és observador da lei, mas juiz.”
                                                                                                                      Tiago, 4:11                                                    
                                                                                                                                                            

Início
Era uma vez. Não é assim que se inicia uma estória? era. É ainda. Não, Você não acredita mas continuo ouvindo. Eu que falo a Você, que me adianta o tapa-sexo! não, não é bem um tapa-sexo, é tapa-orelha. Machuca, sim machuca, ah como machuca... arde irrita esfola dói, sequer me aventuro a tirar o tapa, que agorinha me lembra o tapa que se punha nos burros na olaria de minha infância, o Mimoso não gostava disso nem a mula nem os outros animais; como desgostavam do resto da parafernália a inutilizá-los para utilizá-los nos labores do ofício. Bem, bem lembrado se me lembrar que animal irracional não tem ofício, os homens que lhes batiam é quem possuíam a profissão de oleiro. Contudo o tapa tapava parcialmente a vista, obrigando ao infeliz bicho somente ver para frente. Este que trato agora, o tapa-orelha, pretende não propriamente impedir, pois seria ingenuidade, todos me sabendo esperto, pretende é diminuir os gritos da vizinhaça, ou não faço nadinha por causa do barulho. Não são poucos os gritadores, menos talvez que dezena, todavia suficiente a infernar todo o pedaço! o meu pedaço.
É a rota, deve ser ela. Quando pequeno, digo, criança, os adultos se referiam à Rota da Calábria. Um calabrês falando é coisa séria, a gesticular é mais grave; quase dezena de calabreses... uma guerra. Mesmo que não sejam estrangeiros aí ao lado.
Exatamente, uma guerra!


Era Uma Vez Uma Guerra
Ah que lindo isso, poético. E só ouvidos devidamente tapados machucados ardidos irritados esfolados em dores, somente eles podem ouvir não obstante o tapa, os olhos não acompanham a gesticulação a caráter dos contendores. Pois é, tinha o todouvidos, eu, paredes e muros, os seus muros e suas paredes, e as paredes e os muros dos seus vizinhos, meus vizinhos, a amortecer o impacto. E assim mesmo penetrando tagarelices discussões ofensas. Aguarde um pouco tagarelices discussões ofensas, um pouco só, devo comunicar uma coisinha ao Leitor, Você. Seguinte: este capítulo inicial, Você compreende o início foi o início, a introdução; este será, está sendo, um capítulo curto. Não sendo curto e rápido Você não lê desanima joga fora o tesouro que vem pela frente e eu, eu aqui, fico a falar às paredes! não é justo. Estamos conversados? Você segurou as pontas aí, falávamos das tagarelices das discussões e das ofensas, ofendendo o capítulo quatro, versículo onze de Tiago... Sim, ofensas. Inclusive dela. Não, me expressei indevidamente: sobretudo dela!


Era Uma Vez Dona Neusa
Dona Neusa, senhora bonita prendada trabalhadeira religiosa, apreciando entoar hinos, cantando fino cantando grosso cantando modulado e vez por outra no banheiro (aí decerto tomando banho, pois tem momentos que os mortais não vão ao banheiro para se lavar) vez por outra assoviando hinos evangélicos no chuveiro, quando no chuveiro os outros ela, que tem boa memória, lembra o abuso no gasto de energia em tempo de Apagão no País, na hora de pagar a conta sobra para quem?! No chuveiro, no chuveiro a dona, a gente num ver vendo a bela senhora quarentona alegre se esfalfando lá dentro, a gente olhando pelo vitrô, se se quisesse ver mas para quê queremos olhos senão pra ver! Tem no banheiro azulejos nada azuis, negros. O que temos que ver com o fato de serm negros! poderiam até serem roxos ou vermelhos profundos e berrantes, foi a Neusa quem escolheu comprou, à prestação, adora prestações, pagou, pagou a última dia destes e esse lembrete da via-sacra das prestações deu foi uma briga sem tamanho, isto porque quando não há assunto para não se entender, entende-se se desentendendo na lembrança das prestações findas. Lembraram da última do piso e a do azulejo negro. E doutras prestações. As outras dia cinco dia dezenove dia vinte e três, que por sorte cai no domingo e se paga na segunda-feira dia vinte quatro; e têm outros pagamentos e outros membros da Família com quem discutir e repercutir, não apenas os filhos e o marido.


Era Uma Vez Um Zé
Era o Zé, um caboclo? Zé do que, gente do povo não costuma ter sobrenome; não sabemos, sabêmo-lo italiano, filho de italianos, daqueles peninsulares conversadores todo mundo falando junto todo mundo morando junto todo mundo chorando junto e todas noras falando juntas mal da sogra quando a sogra passeando (à missa?) no patrimônio ou na vila. Era, ainda é um italiano abrasileirado, trabalhador e, curioso: falando baixo, a mais baixa voz do clã; contudo com grande porte, esperto e nada religioso, quase nada no muito da mulher dele, a Neusa. Pregando liberdade nos atos. Um dedinho de prosa no Bar do Jorge, a gelada, outra gelada, ah que fria a vida! E cigarro. Um maço outro maço e quase o terceiro nos momentos em que desejamos que as aflições se percam na fumaça. Porém, a deslembrar ou a chatear, existe o chato do vizinho.


Era Uma Vez Um Vizinho e Outros Vizinhos
Tem leite? perguntou ao vendeiro. Careca, careca é feio? troquemos por calvo; não o Jorge do Bar, este chega a ser cabeludo peludo rombudo com a barba a fazer (mas explique-me essa expressão: fazer como! se já existe na cara morena do comerciante) e tem um porém, fuma ainda mais que o Zé, freguês e amigo. O vizinho é calvo. Velho ranzinza e meio metido a sábio. Se mete a brincar de verdades lembrando ao Zé do perigo rondando com tanto câncer por aí. Responde ao das bengalas atrevidas e gozando: “não tenho mais pulmão” e emenda com mais brincadeiras, pede mais uma gelada, estupidamente gelada, tosse engasga securas e poluição. Sai do bar o vizinho. Não existe apenas esse vizinho solitário e matusalém no pedaço do Zé, tem outros.
Hoje é dia de fofoca e, curioso, todos humanos são fofoqueiros. As comadres da Rua Bom Tempo, não as Camadres de Windsor, estão felizes por terem direito a falar. Para isso tem o restante dos dias do ano. Porém a Grande Família tem lá suas restrições: só fala internamente, a considerar que roupa suja se lava mesmo em casa. Na rua quando a Neusa e algum filhote dela vez por outra o Zé um tio dos sobrinhos ou os sobrinhos do tio de plantão – todos andam em alerta para matracar; daí a balbúrdia estará formada, espantando inclusive as fofocas das vizinhas. No encontro Dona Maria, a sogra do Zé, aparece uma vez que outra, de noite, e tosse. Agora ela está a tossir em casa, descansa ou lê a Bíblia com dificuldade por causa das poucas letras. Lá fora na rua os parentes dela falam de carro (os homens) e nas tragédias dos outros, ou dos outros estando os outros longe. Então passa gente, cada passante, não sendo o João, porque este para e dá suas gargalhadas até voltar para sua gorducha esposa, os passantes cumprimentam, o Exército da Generala Neusa responde ou diz “ôi” mui pouco comunicativo com o gentio. Mas aqui tendo um mérito, pois não se fala do gentio, apenas do parentes e irmãos da Igreja. Eu, caro Leitor, não apareço; às vezes troco alguma brincadeira; não sabia Você que eu seja brincalhão! tá sabido. Então brinco e passo. Mesmo de dia, se encontro o Zé no caminho, ele vindo do Bar andando gozado e desengonçado eu indo buscar leite, às vezes trocamos ideias, dentro da forma usada pelo mundo: um fala fala fala, outro escuta, eu no caso. Assim é que me disse ter uma irmã casada em Israel, decerto curtindo aquele Paraíso naquele Inferno. Diz “família?” e se responde: só mulher e filhos, alusão à sogra da esposa, a Antonieta e aos irmãos dele. Não obstante o Zé tem restrições entre os próprios filhos dele, os quais reclama e não aceitam o fumo paterno a bebedeira; o mais velho por exemplo.


Era Uma Vez Um Zóio
O mais velho é o Zóio. O Pedro tem olhos saltados, um bocadinho barrigudo para um adulto jovem, um sorriso e muita força na goela, ah isto tem. Então ele inventou de nascer primeiro que os manos. O pai gostava de Guilherme e não cogitou pôr esse nome no primogênito, a Neusa quis loguinho Pedro e falou um dia inteiro e pedaço doutro dia para nomear o nenê, o Pedro era bebê naquele tempo. Voltemos ao nome, parece que vem de pedra, não afirmo latinice quase nem sei a língua pátria. Porém o Zóio gosta é de cantar de galo no terreiro, esbanjando mandos e gritos contra os manos, por direito de primogenitura. Isso. Não se discute o óbvio. Discute. Grita. Berra. Impõe. Manda. E quando porventura estão os pais presentes berra com eles também, sem tirar farinha com a mãe; e raramente se entendem direitinho, o que é característica de todos os membros. Todavia começam baixinho cochichando segredando, aumentam o teor até ferir todos decibéis permitidos pela Física. O rapaz berra aos pais e mais ainda aos outros da escadinha. Muito mais com o Chico.


Era Uma Vez Um William
Ou Willians, não sabe o Escrevedor ao certo, como não sabe muitas outras coisas.
Sabe no entanto que venceu o Guilherme de novo na preferência familial. Isto porque não é Guilherme a tradução do William dos britânicos! Agora, se precisou Dona Neusa, a que fala insiste resiste ataca e se precisar chora antes grita e finalmente vence, se precisou muito a esposa para que o novo rebento virasse no cartório civil William, isso não sabemos. Sabemos que se tornou um desafeto de estimação do irmãozão mais velho, por ciúme porque o sujeitinho tomou-lhe cedo o colo e os carinhos maternos; ou é tão só desafeto gratuito. Bem, existe uma explicação que vem da doutrina reencarnacionista, donde os reencarnados se defrontam por suas diferenças doutras vidas, nem desejo dizer isso, pois o Leitor me acusaria de proselitismo. Portanto não digo. O fato é que se mordem os maninhos já grandinhos. De repente está adulto bonitão inteligente. No desentendimento inteligência não conta pois constatamos se contestarem os manos por dá cá a palha. Ou se desentendem por razões pecuniárias (ah o vil metal!) também por desemprego e por emprego. Apenas se falam, amigos, por mero interesse (e aí vêm os que defendem a inexistência da amizade autêntica: só existe o interesse; de minha parte sou pelo contrário; qual contrário? o contrário do contrário; voltemos à briga deles:) Digo interesse de ambas partes: uma festa; um disse-que-me-disseram ligado à namorada de um deles; o enguiço para o desenguiço do carro. Daí são precariamente amigos. Então aparece o caçula e acaba com a santa paz...


Era Uma Vez Um Guilherme
A mãe trata o garoto como Guilherminho. Guilherme venceu finalmente, a ideia vem do primeiro filho. Dona Neusa fez no primeiro ano de casada um escarcéu dos diabos para nomear o primogênito; bateu o pé, o esposo mordiscando e mordiscado pelos palpites dos irmãos dela pela sogra dele pelos tios e primos e tios de segundo e terceiro graus, vez por outra, quase todos dias, reunidos a tratar de coisas capitais como o falar mal da vida alheia – enfim, apesar dos palpites assoprando nomes a rodo e apesar do contra dele mesmo,  Zé, a Neusa levou a melhor e puseram a escanteio o seu Guilherme, aquietou e puseram de fato Guilherme não apenas no novo chorãozinho. Depois fez a mulher um trabalho sutil para infiltrar outro Guilherme no segundo, parece a tradução de William já disse; venceu com galhardia a oposição e ficou com os louros da vitória. Agora era a vez de um Guilherme puro e limpo. A oposição nem se mexeu ao fato consumado, embora o mais velho quisesse interferir – a Neusa falou “vai se chamar Guilherme a criança” (o ‘se’ fui  quem intrometeu, pois nosso caboclo engole tanta partícula se... sem morrer de indigestão, o que causa espanto). Se o Guilherme viesse ao mundo dotado de vagina e não de passarinho, como desejava a torcida organizada... bem, aí seria Guilhermina. Todos felizes com o caçula, até os irmãozinhos; sobretudo desconhecendo o ‘traste’, eles posteriormente adjetivaram o garotinho e enriqueceram ainda mais com muitos nomes depreciativos o caçula para desfeiteá-lo, ao sabor das encrencas que foram vivendo no lar. Cresceu, hoje está grandalhão mandão chefão da molecada na Rua Bom Tempo. É o mais louro dos manos, puxando mais ao Zé que à Neusa, e nisto ela levou a pior. Guilherme o pomo de muitas discórdias nas reuniões familiais.


Era Uma Vez Uma Reunião Em Família
Faz tempo já se reunem os faladores meus vizinhos; se agrupam periodicamente mas ao deus-dará quase todos os dias. Para quê? a azucrinar o Escrevinhador. O Leitor irá dizer-me que os outros vizinhos também têm o direito a ouvir e até a se chatear; não posso com tal lógica. Você me venceu, ah que sensação masoquista estou sentindo. Venceu mas aguarde: sou feroz, vingativo, e na primeira oportunidade... Bem, estão reunidos. A Mãe fala, o Pai ouve, o Mais-Velho grita lá no quarto dele, o do-Meio revida desde o seu canto pensando que seja o costumeiro ataque pessoal, a Velha (toda mãe, jovem bela trabalhadeira vira Velha) a Velha retruca, o Pai resolve interceder ou se defender e rosna, o do-Meio diz algo surdo abafado não dando a escutar, o Primogênito torna a gritar e vence pelo grito – até a Neusa se cala em pausa para meditação – não se cala por muito: fala invectiva defende sua causa; todos vêm à cozinha perto da cozinha do Escritor-de-Plantão, arrastam cadeiras batem alumínios derrubam copos se quebrando e o café a melar o chão; a Velha se desespera põe a culpa... ah não importa em quem, elinha velhinha se enerva mais e fala enfurecida, o pequeno em raspa do tacho a caçular a casa porém já de calças compridas arregala os olhos, ainda não é eleitor todavia dá suas bicadinhas (nisto e imediatamente a Neusa lhe grita estentórica: “cala a boca!”) Enfim estão os membros da Família reunidos unidos desunidos a se gritarem na peça de refeição, a copa é copa-e-cozinha. Todos falam agora, com ou sem direito, na hora ou fora de hora, de preferência fora de hora, gritam, conseguem todos gritarem e aí o pequeno crescidinho também vê seu momento e fala qualquer coisa a dizer que também existe. Todos. Todos ao mesmo tempo; sem dar tempo a outrem, que por sinal igualmente pensa assim e também grita – um pandemônio! Hora depois, podendo mesmo ser menos tempo: na crise não se olha o relógio; olha-se: “já é hora da aula” lembra alguém e amansam um pouco, diminuem o volume do transmissor potente de seus gogós e pulmões fortes, inclusive o do Zé o qual resolvera esbravejar. Todos. Retomam falam gritam, ninguém ouve... E constatamos existir aí ao lado um pedacinho da gente, uma fraçãozinha da Humanidade, porque a Humanidade só quer falar bravatar contar explicar justificar, não quer ouvir; nunca ouvir. Alguém chora, o pequeno, os caçulas são mesmo manhosos e choramingas, o pequenino grandalhão e calçudo chora e não berra, sobrou para si no entrevero e alguém precisa pagar a conta. Vai ao quintal, chuta a Lila. Lá dentro os adultos resolvem ir brigar com mais educação na sala e dar mais maus exemplos à tevê e se ouve o gritar de longe; o Guilherme, Guilherminho da mamãe carinhosa que às vezes carinha de sopapos, ele agora carinha a Lila, decerto com remorso por ter ferido a cadela pele e ossos, os cachorrinhos assustados com a situação a correr aos seus panos fedorando a xixi e leite azedo, olham de longe o carinho à mãe deles. A mãe não pensa, será que cão pensa! O Leitor se atreverá a contraditar-me, somente a ser do contra e Euzão nem sequer sei contra quê. Bem. A Lila não sabe, é nova na casa e certamente o Guilherme não irá contar-lhe a história do outro cachorro que tiveram faz pouco.


Era Uma Vez Um Scótt
O Leitor (agora é minha vez de revidar) me dirá que inventei o vocábulo no entanto para cão não existe purismo linguístico, é assim o nome do animal, pois vi o garoto escrevendo um dia esse nome a carvão na minha calçada! Porém donde tiraram isso? isso sei lá. Na época andava em voga a Jornada na Estrelas em seriado na televisão, todo mundo via e via no cinema também, a Família não, ela não tinha meios para cinema, o cinema já era espécie em extinção e portanto cara, restava a TV. Havia o Spoke (dou-lhe o direito agora, Leitor, me corrigir porque é versado em inglês e terá visto o lógico personagem orelhudo no seu aparelho em casa refestelado tomando Coca-Cola – é Spoke como escrevi? e olhe, vou dar o troco antes prometido a Você quando falei precisar vingar-me. Preste atenção: quando passar pela sua vista estas maltraçadas andarei enterradinho da silva na Saudade e portanto surdo; despeje impropérios se quiser, eu, Autor, estou vingado!) Você não sabe nadinha do Scótt.
          O Scótt era um cão. Não é grande saber. Bem, um cão magro médio porte sarnento largado abandonado pela Grande Família, sequer o Guilherme se lembrava dele, nem ele que é um pouco carinhoso. Davam comida sim, davam; davam de beber, davam sim; mas um ser abandonado. Desconheço suas andanças de cão belo charmoso jovem forte impetuoso e suas histórias com as cadelas da praça, tão cheirosas, isto porque moro faz uns cinco anos na rua Bom Tempo. E quando cheguei aqui era o que era: não era, era abandonado. Olhava a gente não tendo forças a ladrar, às vezes se assustava, assustados os outros cães a berrar impropriedades aos passantes ou automóveis em disparada, a cachorrada louca de tanto latir atrás da poeira! ele imitava timidamente os outros colegas de profissão, e imediatamente se punha para trás mais ainda para trás e se deitava, num minhocar de serpente, triste, olhos vendo sem ver sem brilho sem vida. Quanto não vi o Scótt no meio da via pública enrolado e sem coragem a se defender em defender a vida a morte iminente no auto desembestado por sobre a rua! o cão levantava a cara sem força, olhando, não atônito, como que tentando entender o ambiente; a condução parava ou se desviava. Um dia não pode desviar-se: virou sangue e coisa imóvel! Não obstante o doninho não chorou. Passou a azucrinar os seus para pegarem um outro cachorro. Aí vieram vários para a casa da Neusa, num vir ser perdido vir outro no lugar. Gente tem muito disso: ‘perder’ gatinhos cachorrinhos; às vezes até velhinhos nos asilos. Era dessa têmpera o menino Guilherme; continua dessa têmpera.


Era Uma Vez Um Guilherminho Crescidão
Ainda é um menino arteiro o Guilherme. Sabe Leitor o que costumo dizer quando o vejo? ele sozinho é já uma revolução! Acho que não exagero. Corre o pedaço dia inteiro quando a Neusa no salão de cabeleireiro trabalhando, ou quando a mãe em casa ficando a gritar o filho na rua, ele sempre a bagunçar. Ela o repreende, não se intimida o rapazinho: corre brinca manda. É o chefão da molecada. Menino é assim – todos se atraem conversam discutem intrigam chamam-se nos tapas e cedem pela necessidade em brincar. Faz parte do aprendizado. Se unem sob orientação do chefe, no caso o Guilherme. Trocam figurinhas atiram pedras roubam frutas soltam papagaio dão palpite entretanto não se despregam do chefe. Ele vem pra cá, vêm pra cá; ele vai pra lá, vão pra lá. Em roda em concerto em algazarra, distribuindo berros às famílias disponíveis. Noitinha, já noite terminando e ainda os moleques falando brincando brigando gozando-se, o chefão com a palavra, a primeira a última, todos obedientes a tanta sapiência, àquele ímã que emana do chefe, o chefinho nato da turma. “Guilherme!” grita a Mãe; depois o Zé, às vezes o primogênito. “A cinta!” advertem os familiares. Volta pra casa, desfaz-se a equipe de brincadeira. Até à reunião do outro dia, mesmo que a Escola atrapalhe um pouco as atividades do grupelho. Ah a Escola...


Era Uma Vez Uma Escola do Estado
O ensino se desfaz nas greves (que bom, dizem os alunos, o Guilherme tendo falado isso antes dos outros) o Governo executa bem sua parte no desleixo, a população ajuda bem não ajudando e metendo o pau em crítica, pois acha que Escola e Creche sejam sinônimos. Contudo vai indo a Educação Pública; a Privada é um negócio, só negócio. E os alunos apreciam bem esse mau negócio se esbaldando na Rua Bom Tempo. O Guilherme atira aos seus comandados galhofas da Escola, onde vai no dia que acorda a tempo, para tomar a sopa ou a fugir das aulas. No final do ano a Neusa põe a culpa nos professores, vai a uma reunião para saber que o filhote é vagabundo o que sabe a sobejo; essa reunião lhe custando tempo roubado do salão; ela volta furiosa para casa. A casa se pega.


Era Uma Vez Uma Reunião Para Tratar da Salvação Pública
“O Guilherminho não passa!” diz a Mãe. O Pai olha agônico, corre ao quintal fumar outro, que sua ‘velha’ não quer fumaça dentro de casa, não suporta que jogue cinza no vaso sanitário e ainda fica esbravejando sem parar. O Primogênito esboqueja pichando o caçula, o Segundão toma as dores e investe contra o Mais Velho, todos gritam ninguém ouve, todos falam e até o pivô da discórdia: põe a culpa na Escola toda e até na greve que tão bem aprecia. Acaba por santificar tudo numa expressão de vítima. Os adultos põem as cartas na mesa, discutem e finalmente (se entendem? não:) brigam baixinho em quase segredo, se bem que ainda o segredo não fora inventado pelo dicionário. Param. Param de discutir? também não, adiam para outra sessão, pois a Velha Mais Velha tosse engasgando engasgante.


Era Uma Vez Uma Dona Maria
Não qualquer Dona Maria, a sogra do Zé. Uma pessoona? me pergunta Você. Petitica, miudinha, enrugadinha, magricelinha, baixinha e por cima (ou por baixo!) falando baixo e manso. Exatamente: um membro da Grande Família a falar baixo e com timidez, não a timidez da vergonha como a medo. Medo do genro? da filha. A Neusa fala primeiro e por último e sem contradita, até a senhora já arcada dos anos precisa ouvir sua filha; entretanto a velha já arcada do parir e do sofrer como sói a velhas, sabido por idosa e por toda uma vida, até ela silencia a Neusa falando, às vezes, o que é uma conquista extraordinária do ordinário. Olha o fora e por dentro vê sua pobre riquíssima vida dos anos corriqueiros os quais enfeitam o ser comum: primeiro foi o trabalho com seu velho, ah! uma vida... Aguentou suas pingas seus desmandos até seu mudancismo: ele perpetrou a transferência da famílias desde os cafundós do juda para a capital e desta para o interior, levando toda a trempe de familiazinhas dos filhos, satélites dele. Fez dezenas de mudanças em cada região em que viveram, até descansar: primeiro na cadeira de rodas depois no cemitério, onde se deu a choradeira familiar e presenciou seu último culto evangélico (ah esqueci-me, o Leitor não acredita que a alma do defunto... deixa pra lá, voltemos a ela:) Ela. Dona Maria ali no cepo, a ouvir a sofrer a obedecer a apanhar, tendo interferência dos filhos contra o pai, isso o passado, até chegar a estes dias: arcadinha enrugadinha, escondendo-se na tosse seca. Voltemos ao presente. Presente Dona Maria, olha vê sente sofre o bate-boca interminável da Neusa seu genro e os netos, um que outro familiar do segundo escalão vindo praticar o saudável aprendizado do Capítulo Quatro de Tiago. Vê e não se assusta; quase nada assusta o idoso da espécie Homo sapiens; ela assunta, vez por outra quer dar opinião, não lhe passam a bola, o velho é quase sempre cadeira cativa na geral e se encontra de novo criança não tem direito a voto; menos a veto, é um dominado na economia dos pobres; cala-se, quando muito resmunga. Assim mesmo fala pelos cantos em sussurro a quem ouvidos tão só ao vento ou a um ser imaginável ainda imaginário, lamentando o descaso o destino a intriga que grassa na casa; rumina sussurrando ao nada, defende seu filho de estimação: “Dezinho trabaiava todo dia!”ele é o requinte da criação; “eu oiava as criança dos otros”, estira na esteira da vida a vida passada passada em sofrências e na luta; para olha fora vê dentro o coração e reclama um pouco mais alto, audível pelo menos: “num aceito que falem de meus filhos e netos!” as lágrimas escorrem de uns globos sempre secos necessitando por irritadiços limpar no avental, ajeita o lenço segurando o algodão da cabeleira crespa e nunca aparada, tosse. Agora tosse pela tosse e a tosse nervosa; às vezes tosse a fugir da responsabilidade e de situações embaraçosas; recrimina os que falam, embora apenas no pensamento, na Família tem sempre os disse-que-me-falaram atropelando a paz; não há paz; e ainda por cima a Neusa não pode perder o circular das oito.


Era Uma Vez o Coletivo das Oito
O relógio insensível se aproxima das oito, o ônibus das oito, mais precisamente oito e sete mas costuma atrasar e a gente é que deve esperar, a condução não espera passa. Preciso justificar ao Leitor, se não Você se perde neste intrincado. A mulher deve chegar às nove no Salão Belezura, põe belezura nisso! deve, em não ser nas segundas, em que ela combinou com a sócia descansar para lavar a roupa suja da casa enquanto lava a roupa suja familial em intermináveis discussões. A outra senhora, a Neusa diz que ela é passadona porém não cremos em intriga da oposição; deve folgar a outra senhora nas terças-feiras. A segunda é o consagrado Dia Nacional da Preguiça, contudo a Neusa tem a roupa, tem a enxada para limpar o quintalão porque os vagabundos dos machos da casa, se bem não fale nestes termos os interessados estando presentes, só de vez em quando mas por trás fala abertamente “vagabundões”, o ditos machos não se mexem não mexem uma palha o mato cresce o lixo se avoluma, ah uma cambada! e não estão nem aí (Ela não se preocupa com sintaxe e concordância, eu é quem pus direitinho, do contrário meu Leitor se confunde). Porque eles não fazem o trabalho, sobra para ela o dela e o serviço de homem – carpina bufa sua e ao fim serve o labor para diminuir-lhe o ímpeto de gritar ao mundo injusto. Bem, vai deixar o mato tomar conta! Assim mesmo tira um tempinho para visita à casa da mana, esta mais velha e mais brigona ainda, a Neusa quem diz, mais enredeira será com certeza; desabafa com a irmã, volta pra casa, aí canta o hino assobia outro hino atende o fone. Toca todo momento ele a infernizar; e têm os enganos e os cafajestes ligando a cobrar, agora aprendeu a desligar tirando o pino da tomada para poder ao menos dormir, a noite não é hora de dormir? Todavia agora não é dormir, é partir, oito quase, parte às oito e sete minutos, se atarefa se apressa se engalfinha com o tempo e os afazeres, dá as últimas ordens em casa e sai de casa, correndo, o sol matinal alumia o taiér (ai que entendo de roupa! assim se escreve? esses horríveis gringos...) um saiote branco mostrando belas pernas femininas. Se vai, fiquemos em casa, com os apensos da casa.

Era Uma Vez Um Ricardo
Tem, teve o Ricardo Coração de Leão, dizem as mentiras históricas. Este de que falo não rosna leonino, manso. Sobrinho e praticamente filho do casal. Tanto assim, não esteja em serviço, pois sai cedinho pedalando a magrela e vai como ajudante de eletricista – quando não está, está no familial concerto sem conserto, dá suas bicadas, lembra um familiar ou conhecido que disse como disse, imita com perfeição e faz rir quando não é grave o assunto e sim mais ameno. Espécie de gatinho, um gato grandalhão e magro, gatinho perdido. Os pais o deixaram menino na cidade pequena quando voltavam para a residência na capital; virou adolescente depois adulto e continua como filho da Neusa e do Zé. Tio de lá tio de cá, todos gostam dele. Verdade que contam mentiras sobre o rapaz, serão mentiras? porém gostam dele e tratam-no em pé de igualdade com os filhos de sangue, sendo mesmo do sangue da tia, a tia: “Ricardo, suas calças estão como baixeiro!” realmente é mãe adotiva do filho apócrifo relaxado.  Chep-chep esfrega a roupa que ele não lava direito, lava a roupa da casa toda, chep-chut esfrega o chão, é sua folga como cabelereira na segunda-feirona, liga o tanquinho, esbraveja, não tem ninguém no lar todos dormem ou se foram ao trabalho, esbraveja à mãe ouvir, Dona Maria resmunga também, inaudível, tosse. Ela escarra, a Neusa tem qualquer negócio mal contado raspando a goela, raspa limpa esbraveja já ao nascer do dia, dia de descanso, pega no pé do sobrinho, este sorri e foge pedalando recolher a vida no dia longo, quem sabe vendo o futuro, se que é um jovem pensa no devir; nem costuma medir consequências; por isso é menos infeliz que o idoso. Dona Maria tosse, a Neusa escarra e trabalha, a Família dá folga: saiu aos afazeres ou só fugiu dela; o Guilherme está na Escola ou perambulando a fugir da classe, o Primogênito ronca em fuga do dia difícil; o Pai enfrenta a estrada como caminhoneiro coletando o contar para seu recanto na volta.


Era Uma Vez Um Bar
 O Jorge não vende apenas leite e pão, ao Zé cervejas algumas e muito cigarro, aos outro também. É o local certo aos incertos, os quais tomam lá seu trago e pagam para poder falar. Abobrinhas, dores familiais, bravatas, injustiças recebidas, sempre somos injustiçados. Já reparou nisso meu vivido Leitor? Como os outros se aperfeiçoam perdendo tempo a aprender a nos injustiçar! Que fazer; nada fazer, aguentar a vida. E ela escorre pelos cantos em baba dos mais ingênuos contadores; e dos que bebem às suas custas. O Zé fica no Bar horas nas horas de folga, leva para casa a garrafa, sai à rua Bom Tempo imitando o bebum mas não está bêbado é apenas desengonçado no andar; a barba de um dia pensa que é de dois, a camisa solta não para esconder o ventre, é um sujeito comum e de ótimos sentimentos, no entanto aprecia bem uma conversa; só que com a esposa precisa esperar vez, é sempre vez dela: reclama fala explica justifica gesticula grita por fim e canta hinos. Ela. Não se salvou ainda e sofre seu pedaço, reclama do marido cheirando à cerveja, a cerveja lá do Jorge; e ainda tragando e atirando a bituca do cigarro no chão, já aprendeu não atirar o toco no vaso sanitário, melhor não jogar e melhor ainda é não ouvi-la reclamando, agora é pela conta.


Era Uma Vez Uma Dívida   
Não há dúvida, dívida azucrina o viver; todavia como viver sem dívida! O Zé não sabe. A Neusa não sabia, ainda não sabe. Ah, dizia em reunião de família, vida inteira pagando prestação, planejando pagando retardando negociando a prestção, um sofrer à prestação a prestação. Contudo ninguém entende, todos querem comer vestir beber fumar divertir-se conversar, conversar é a forma mais amena: ameniza a dívida – não soluciona o débito. Solucionar! às vezes até complica mais. A casa, antes o terreno adquirido a fugir do aluguel, aluguel é um jogar fora o que não se tem, a casa erguida às custas daquelas mãos a pentear a cortar a deixar as madames na moda, às custas daquelas mãos sim, mostra as mãos delicadas para os outros verem. Ele (quando não está, está presente na reclamação dela) ele não se mexe, tudo é iniciativa dela – pedreiro material contas plantas, ela. Agora, diz, ninguém a ajuda no pagar uma prestaçãozinha! E a dos móveis a televisão que pifou os remédios da mãe, chama Dona Maria de “a Mãe” e é mesmo mãe. Ainda o material escolar e o ingrato enforcando aulas e badernando por aí. Gritou “Guilhermeeê!” Aí volta-se aos membros daquele Conselho, esbraveja grita gritam os outros, se pegam, mas não chegam às vias de fato. Não?!


Era Uma Vez Uma Peixeira
Não, não havia propriamente peixeira assassina mas houve faca, eu vi, eu Escrevinhador. Minto. Ouvi o tilintar talheres esparramados – já cadeiras rangentes falatório sem fim e se chegava aos berros, o Primogênito ofendendo ao Segundão, este tomou a faca do Zé fazer churrasco fumaçando cheiro ao vizinho aqui, escutei quando empunhou a arma, tentou estripar o Mais Velho, a Neusa segurou então seu meliante filho, implorou decência, impôs, fazendo o herói atacante chorar no quarto; aí acalmou o Primeirão também e depois mandou o pequeno chamar seu homem na saleta de televisão. Passou raspança em regra: “como, seus filhos se matam na cozinha e você olha tranquilo tevê!” Nada ouvi em resposta, será que existe verdade  no refrão ‘quem cala consente’? Não ouvi, só se a agradar o Leitor eu invente uma resposta; costumo dizer a verdade verdadeira. E minha verdade é que a verdade deles aquietou-se, ficou parecendo velório. Não, esta imagem é infeliz, pois velório é um negócio em que se trata de negócios de vivos e piadas às vezes até envolvendo a vida do morto, ali quietinho cheirando as flores que o enfeitam ou às vezes cheirando mal. Não, melhor a imagem de um agrupamento de mudos, aquilo que se seguiu ao entrevero com facadas no lar-doce-lar da Neusa. Enfim tudo é pouco a retratar uma reunião dessa Família. Mais interessante esquecer seu paroxismo, com um momento manso, ou seja uma bela visita.


Era Uma Vez Um Luiz
O Leitor terá razão, Luiz é com esse e agudo no i. Eu também tenho meus motivos: ele já embranqueja os cabelos, portanto de outra época, época do z. É isso. Agora, mais, muito mais metido que o Leitor, mais que o Autor disto, mais mesmo o personagem. Chegava, chega ainda hoje estava aí agorinha outra vez, chega como quem chega para dividir águas. Pode-se falar em termos de antes e depois do Luiz, pois o falatório deixa de ser o zum-zum de antes para subir à esfera da acusação depois desse infausto adentramento! Entra na conversa, desconversa aponta dramatiza inferniza os seus; e por fim sai da reunião como vítima, tadinho! Nunca vi igual. Aliás, Você sabe mais me corrija, não existem iguais, somente semelhantes desiguais e diferentes. Não tenho razão? Se Euzinho tiver, me diga a estimular-me a vaidade e o orgulho. Se não, deixe pra me dizer isso no túmulo quando me levar aquelas flores que não me ofertou em vida; aí ficarei quietinho quietinho a ouvir seu veredicto. Agora não me ponho como juiz, contudo desejo falar alguinho sobre o sujeito. Ele é um absurdo; não houvessem inventado eu inventava o Luiz para caracterizar o absurdo. Veja bem, suponho, só suponho, haja sido educado no meio de intrigas entre os filhos de Dona Maria e do senhor... ih, esqueci-me do nome do velho, pronto: Velho da Silva. Não me advirta que já sei: existem mil, mil-e-um ‘x’ da Silva no país e tantos outros tantos em Portugal e na Espanha quem sabe in Itália e noutros lugares. Apenas esse bateu na Velha dona Maria e só ele morreu na cadeira de rodas, provocando choro no seu enterramento na chuva. Eu vi, eu Autor, acompanhei o féretro; ah chega de tristeza, voltemos ao filho mais velho da velha Dona Maria. Ele nos traz sua familiazinha (esse ‘nos’ é porque sou obrigado participar mesmo com o tapa-orelhas a neutralizar insultos) traz sua família a saber: a mulher bonitinha dele e o menino do casal, o Fifo, unzinho cheio de dengos e choroso a brincar brigando com os priminhos e brigando tão bem quanto o pai em suas adultas e sábias lições. Elinho vai brincar de brigar e o Luiz brigar de brincar com os seus iguais. Logo os grupos se separam: os machos (oh Leitor, nenhuma conotação hein!) falam falam sem parar e sempre num tema: carros. Marca ano corrida imposto polícia batida oficina troca compra e demais safadezas automotivas. Elas as fêmeas (não se esqueça Leitor Amigo, nenhuma constatação conotação nem malícia, faz favor) elas falam dos outros, de vestidos, de bolos e receitas, de dívidas. Então estão falando baixo; eles altão; no vozeirão grosso e empafioso do Luiz sentimos o contar vantagem. Agora amenizou o tom por estar desempregado e vivendo do seguro-desemprego. Loguinho se esquenta falando de cátedra sobre carro vendido sobre carro trocado e à falta desse carro do carro dum amigo. Todos ouvem, debicam insistem contradizem e às vezes se calam, a sessão emudece e – já sei – ele se vai, inventando qualquer razão (por exemplo levar o carro ao posto de gasolina) para se ir com os seus. Vai o Luiz, ficam os seus do lado da mana a falar mal dele. É o momento em que entra em cena mesmo Dona Neusa e se enfurece com as coisas ditas e feitas pelo Luiz; pega fogo o conversar, berra-se; nisso o telefone toca, insiste...


Era Uma Vez Um Alô
Foi uma via-sacra o parto do telefone. A Neusa, o Zé nem ligava ela falando que não ligava, aqui dando sentido duplo Você já a pensar o caminhoneiro trepado no poste ligando fios etc. etc., qual nada: quero dizer não se ocupava com isso. Só ela. Ela sim, comprou um telefone a prestação (não falei que gosta de prestação!) pagou todas parcelas e a companhia faliu fugiu deu prejuizão a todos, a ela por extensão. Este vocábulo ‘extensão’ nada que ver com extensão de telefone, ah como nossa língua me dá problemas! E daí o que fez a Neusa, fez pedido através da empresa do Governo, aquele ladrão como dizem; esperou anos como todos os pobres, um dia, que era dia de todos inscritos no bairro, ligaram. Uma felicidade geral da nação! Foi então que vieram os enguiços: toda parentela apareceu para telefonar, igualzinho no caso do aparecimento da televisão na vila roceira e aí todos matutos em roda vendo e comendo bolinho com café da comadre. Aqui é pra ver o telefone trinar? não: a beneficiar-se do monstrengo; outros apareciam também, prometendo pagar depois que viesse a conta, se esquecendo no dia imediato; outros mais falavam a cobrar – a cobrar na Neusa – os pagamentos telefônicos se sobrepuseram em concorrência desleal (péra-lá, toda concorrência não é desleal?) com as outras prestações. Assim passou a Família a ter mais causas para alimentar as discussões íntimas, mui pouco íntimas, sou prova audível, eu Autor. Vieram os bate-bocas infernais ferindo uns justificando outros. Até o pequeno Guilherme pequeninão se entregou de corpo e alma no bate-papo com os colegas abobrinhando as coisas via-telefone quando a mãe no Salão na cidade. Porém os fios igualmente tiveram até hoje bom efeito: quantas vezes desfizeram uma boa briga e quebraram os longos discursos moralísticos com um simples trinado! Ah bendido telefone. “Alô. É o Luiz?”


Era Uma Vez Um Engano
“Não”, responderam doutro lado; o Antônio. Ora, se o Luiz não tem agudo, o Antônio por sua vez não tem circunflexo, exatamente por ser também de outro tempo. Vou circunflexá-lo por costume. O Antônio não aparece xeretando sempre, vez que outra apenas, e mora aí pertinho com a Dionésia; é portanto cunhado da Neusa, um cunhado de cabelos brancos a curtir sua aposentadoria magra, ele igualmente magro. Até quietão. Agora, a esposa é exímia intrigueira, vindo sempre no leva-e-traz fornecendo material para alimentar os incêndios familiais. Trazia material, no momento só fala lá por cima na outra rua, fala às filhas fala ao seu homem (o qual dirá certamente aos outros homens que mulher fala muito, muito de acordo com o pensamento da oposição nas suas intrigas...) fala às vizinhas e – como o mano Luiz – sai de todas sessões falatórias como vítima, usa até uma expressão fisionômica que eu com maldade diria copiada de Nossa Senhora nas estátuas que vemos nas igrejas; contudo é exagero meu por ser essa distinta senhora uma evangélica – toda Família é evangélica, numa congregação. Por isso nas discussões se fala muito em termos dos “irmãos”. Todavia suponho que os membros aqui conhecidos não tenham estudos chegados à Epístola de Tiago, ou que sim mas então só até ao capítulo três; ou lido por cima o Quarto Capítulo, pois gente é um bicho muito falho; ou finalmente lido tudo sim, pularam decerto o Versículo Onze na hora do lanche que terão feito. Neste ponto suspendo a crítica aos ‘irmãos’ a deixar que o Leitor me faça sua crítica. Dir-me-á: você não está exatamente criticando também seus irmãos-‘irmãos’! Estou, respondo; contudo como um escritor fará para desenrolar uma tese se não criticar, nisto sendo em uma tese contra o falar-mal! Bem, enquanto não se encontra uma saída a este drama, partamos a outro drama, voltando à Dionésia, Dione se encurtar melhor. Além do mais ela, a Dione, terá parado de vir particularmente aqui ao lado nos regabofes suculentos da Família da Neusa. Parou? Parou. Existe um porenzinho: agora trouxeram Dona Maria a viver em casa da filha Neusa, morava com a Dione, Di para a mãe a encurtar o encurto; houve um desentendimento nos parentes lá e veio pra cá; assim Dona Di sequer visita a genitora por uns dias; não, não vem, é a Mãe que vai à filha. Por quê? Ah quanta minuciosidade! Ocorre que um dia a mana da mãe do Segundão estava aqui ao lado, tendo vindo no santo mister de enredar não-sei-quem por causa de nunseiquê, nesse dia o sobrinho irritado discutiu brabo e em alta linguagem com a tia, esquentaram as conversas até chegar ao baixo calão (Você não desejará que Eu registre as palavras ditas, não me constranja, sou tímido e vergonhoso). Enfim um vexame à vizinhança e a Di prometeu nunca mais pôr os pés gordinhos  e o resto em cima gorducho também em casa da Neusa; acreditando eu nesse nunca mais por ser um nunca-mais de quase uma semana, talvez semana completa. Ora, cumpriu até ontem. Hoje, hoje o dia ainda não se acabou. E olhe, tivemos foi muita sorte, nós os vizinhos tivemos: imaginemos que fosse uma segunda-feira e a Neusa em casa... Agora só a filha da Dione vem à ópera.


Era Uma Vez Uma Soprano
Conhece por acaso, mas que diacho nem o acaso existe, o Leitor conhece a Serena? Ela não é cantora lírica porém anda afiada nos hinos. Não disse afinada, quis mostrar que a jovem sabe hinos protestantes. Afiada sim, com pequena agravante, agravante aqui para seu Escrevinhador ateu e mundano. É que a moça alta e pouco bela canta num andante monótono em voz aguda, que penetra a gente e fustiga ouvidos. Prendada, boa, não saiu à mãe porque a Dione sabe com maestria intrigar; não intriga como sua mãe, mas dando no mesmo por ser impiedosa na sua piedade cantora. Vem lavar a roupa da avó, Dona Maria fica é feliz com isso; limpa a casa, ouve a velha, lê para ela o Evangelho na interpretação de sua igreja, lê com boa vontade pois a senhora tem a vista estragada pelos anos e é lacrimosa pela idade; a Serena Cantora nos seus óculos lentes-garrafa também folheia com bondade. E imediato volta a entoar hinos, também com vontade demais. Com mais vontade me canta contra a vontade minha em ouvir. Não adianta meu tapa-ouvidos, daqueles que me deixam parecendo radialista entrevistando um perneta no campo de futebol; ouço, me irrito edificantemente. Digo a mim mesmo, porque o Leitor já percebeu que existo, digo ah... quando se vai embora a Serena! Só porque aprecio mais a Karina?


Era Uma Vez Uma Drogada
Não a Karina. Melhormente falar em termos de tráfico. Era uma senhora que traficava drogas, ou seu companheiro, casado com ela na igreja verde; ele sim deveria ser o traficante na capital. Um belo dia (pô, que expressão mais idiota!) lás nas baixadas sombrias da miséria, onde a enchente chega e entra fácil, mais fácil entra a droga e com ela o acerto de contas: mataram pai e mãe e os irmãos da Karina! Assim surgiu aquela jovem sorridente que vem sempre no pedaço, com a particularidade de se não ouvir sua voz mansa e suave nos entreveros da Neusa com os seus. Essa. Então órfã de um drama tão atual, o Antônio  e sua Dione tomaram uma atitude lindamente cristã virando pais da Karina. Criaram-na. Fizeram mais: registraram a garota a ter os benefício legais. Agora é uma vareta, alta bela elegante. Outro dia casou-se com um irmão evangélico e sorri a todos. Mas não entra na intriga, olha responde sorri, brinca nas conversas amenas dos primos. Parece-me será boa mãe. Então chega a tia Neusa, se vão aí em frente, a conversar com os parentes.


Era Uma Vez Um Dezinho
A Neusa fica a conversar as coisas delas com a cunhada e a Karina, o Dezinho limpa e limpa as ferramentas, enxágua tudo para não grudar cimento e massa, cansado no feriado. Dia santo a pobre não é descanso, é interrupção do seu serviço ganha-pão com o serviço de arrumação em casa. Reforma daqui tapa um trinco de lá, conserta reboca se movimenta dia inteiro, encontra-se esfalfado, os cabelos começam a nevar ainda novo, ele sua o calor e o trabalho, chama o filhote com amor, o pirralho bagunçando na Rua Bom Tempo, manda a garota deixar de escutar a conversa das mulheres grandes e dar banho no teimosinho. Agora guarda as ferramentas e aguarda o dedinho de prosa com os parentes na calçada. A lua é cheia a rua mesmo com sol declinante e promete iluminação às conversas da Família.


Era Uma Vez Um Acordo
Noite quente. Iniciaram por uma conversa leve com Dona Maria. Entretanto logo ficou carregado o ambiente... Falaram dos problemas nas estradas, as disputas entre os carros quem corria menos quem mais, se ofenderam em dado momento, se esquecendo terem ido ao vizinho estado enterrar um canceroso da Família. Falaram sim de choros. O Zé não viu mas tomou partido; a Neusa viu mas não tomou partido e gritou assim mesmo, gritou com o Primogênito não entendi o porquê e gritou com o Caçulinha Destamanhão já por largar o açucareiro destampado, destampou num falatório por causa dos preços do açúcar e do café, recriminou pelo abuso no gás, ninguém a ajudar na economia caseira! mordiscou no estilo a “quem tem ouvidos oiça” a ligação interurbana, onde é que a gente vai parar? e aí deixou a gente na rua em conversa-fiada e se foi lá pra casa ao quarto do casal examinar qualquer fora de lugar, a briga continuando sem a titular. Já tarde, quase no recolher, passou por eles o João.


Era Uma Vez Um Caipirão
Saiba o Leitor, me indigno com o quadro que traçam de nossos roceiros hoje em dia. Tomam o Mazaropi do cinema e a palhaçada nas festas juninas e fazem um ingenoide de picadeiro a falar molenga e estilizado, se esquecendo o matuto ter televisão e estar constantemente em meio às mentiras urbanas, imitando assim o homem comum citadino. O João todavia é a negação total de minha teoria contra a estilização: ele é inteirinho isso que neguei até aqui. Mora alizinho na esquina e vive no bairro antes que o mesmo fosse bairro sendo um cafezal e mato. Não veio à cidade expulso da roça como comum ocorrer: a cidade é quem veio a ele, João. Melhorou a casinhola de sítio e a transformou nada em cabocla.... Importa agora que anda dia inteiro na Rua Bom Tempo pra baixo e pra cima, para que eu melhor possa mentirar por esta caneta; a Bom Tempo é plana e horizontal, mas ele anda em parecença vagabundo, embora demais trabalhador e servidor. Anda lento sem saber imitar o Mazaropi, fala mole alto e grosso – nem parece o som ter vindo daquele esqueleto velho e cansado. Mexe, no bom sentido, mexe com todos, sobretudo com o público dos dois aninhos que tem por estas bandas, grita alegre às crianças, cumprimenta todo mundo, um dedo de prosa no estilo antigo com os adultos, ingênuo como eu nunca encontrei; mesmo nos velhos tempos da roça, porque saiba ainda meu Leitor que fui oleiro, convivi bastante com roceiros do tipo descrito por Lobato. Contudo o João é sui generis, uma obra prima em ingenuidade; não deve ter uma só gota de maldade. Grita, não sabe falar, não lhe ensinaram; e é quase analfabeto, só aprendeu a gritar. E gritou assustando primeiro os cachorros (vixi, como tem cães! mais? não mais que menino nesta rua) e depois assustou o pessoal da Neusa na Bom Tempo. Ao João não existe noite, ainda mais com lua cheia, nem madrugada, não se importa em acordar a gente às quatro ‘cochichando’ quando passa em frente de minha janela, a falar sempre borrachas e abobrinhas, fanhosamente. Grita, pede não sei o quê ao Dezinho, berra à esposa dele, ela sai trazendo nunseiquê ao vizinho e tramam os dois homens uma conversinha um não acabar, acabando com minhas preguiçosas orelhas, tadinhas, meio grossas, não ouvem sequer os rolantes carros.


Era Uma Vez Um Lava-Jato
Já viu um serviço de lavagem rápida hoje em dia? Antigamente a gente ouvia o compressor a encher-se de ar pelo sopro na mangueira, a lama no reservado do posto de gasolina os carros a escorrer; depois a turma dos enxugadores. O que tem isso em ver com as discussões na casa da Neusa? nada; mas tem sim um pouquinho, pois era um lavar sujeira como é nas ditas discussões... A lavagem agora é diferente, a do carro: o auto entra no esguicho o qual esguicha ensaboa e enxágua o veículo, sai limpinho e com menos gente trabalhando. Se existe desse tipo de lava-jato aqui, não. Até que sim. Porque aqui não se economiza água, quem desperdiça não pensa nessas tristezas que aguardam o Orbe na falta d'água nas próximas décadas. No meu pedaço escorre a mangueira solta, solta esparrama o rio faz enchente na guia e a calçadinha fica meia hora limpa até que os amigos do Guilherme vêm sujá-la de novo. O líquido escorre, tagarelam na rua; doença fofoca criança, isso, crianças correndo escorregando se molhando, ralhação das mamãs... No mesmo princípio, quer dizer: sem princípio, os homens do pedaço lavam seus carros num lava-jato manual, economizando limpeza no Posto, a calçadinha escorrendo na via pública. De meu lado vejo ora o o Segundão ora o Primeirão a lavar encerar aspirar o pó, o volume do som com fitas de rock-metálico, ai help, o som à toda altura a tremer minha vidraça. E se executa mesmo um cerimonial com fases e naturalmente gritos “Guilherme, vem cá!” Guilherme vai pegar isto ou aquilo. O Primeiro berra com o Terceiro o Terceiro com o Segundo o Segundo com o Primeiro, que por sua vez grita aos dois ou chora para acertar a personalidade – um verdadeiro pandemônio (terá vocábulo mais agressivo! se o Leitor souber dum me fala para corrigirmos na segunda edição). No começo quando vim para cá, não falei ter vindo no Norte? acabei de falar. Então me espantei como o que vi. Porque em todas famílias o comum é o grande bater no pequeno. Nesta Família da Neusa é diverso: o pequeno bate de língua nos grandes. De calças curtas ainda, xingava e até atirava pedras nos manos maiores. Estes não reagiam. Depois o Guilherminho cresceu e bate nos dois jogando um contra o outro, para o caso de faltar assunto à Reuniões aí ter o que falar. Outro dia ia saindo facada, eu não falei? Na atualidade o bate-boca dos três filhos do Zé surge por causa de seus carros, que o menor não quer ajudar na lavação. Por falar em carro estou me lembrando a via-sacra de semanas que suportei aqui deste lado do muro por de lá doutro lado se enfrentarem por causa da compra do automóvel do Segundão; ganhou um dinheirinho, juntou a indenização num emprego temporário. Resolveu gastar as economias e aproveitou a entrar nas da Mãezona na dita compra. Até à aceitação foi um parto a fórceps! Comprou. Aí não tinha dinheiro para combustível e depois oficina de consertos. Ah brigas memoráveis. Isso foi antes. Essas brigas não chegam a qualquer conclusão, apenas ferem. Em vista disso não estou esperando qualquer acordo no lava-jato da Família, a qual adora árvore.


Era uma Vez Uma Sombra
Sombra lembra folhas, ah que tormento, as vizinhas da Neusa varrem, ela não. Não dispõe de tempo a essa diversão física; sai correndo todos dias no das oito e sete minutos, o circular atrasa ela reclama. Os meninos não varrerão o passeio público. O Primogênito trabalha, guarda dinheiro para casar-se; já avisou sua velha que não espere pastor e igreja tudo bonitinho, vai é amigar. Ah foi um deus-nos-acuda a notificação à Família, briga de semana. Não iria varrer. O Segundo não é dessas coisas, o que mais faz é preencher seu desemprego discutindo com a Mãe e ainda a provoca: “quer que me torne traficante!” Ele aprecia bem um papinho com amigos na sombra de minha árvore, um oitizeiro que plantei com carinho. Você, Leitor, nunca pensou que um Escrevinhador possa além de inventar bobagens plantar árvore na calçadinha, não é? fez mal. Fiz bem plantar. Meus vizinhos em geral cortam as suas ou não plantam nenhuma para as mulheres não ficarem reclamando as folhas no chão a varrer com água da Prefeitura pela mangueira. Então sobra a sombra da minha. Elas se sentam na guia, conversam fiado enquanto a petizada corre e brinca. Agora é a vez do Segundão ocupar seu espaço no meu espaço: traz amigos e falam brincam contam riem. Enquanto a Família se desdobra para trazer o alimento para casa e pagar as prestações. Só de noite poderão reunir todos os membros para os insultos mútuos, havendo voltado do Salão a Neusa, coordenadora por direito das ofensas. Já podem se unir para se desunir e para não atingirem as conclusões de seus dramas existenciais. Contudo agora só descansa com um amigo, porque é cansativa a tarefa de limpar e lustrar o carro. E vez por outra, além do descanso tem o corte de cabelo.


Era Uma Vez Um Salão Particular
Particular sim, pois tem o Salão da Neusa que é seu ganha-pão, longe, lá no centro grande da cidade pequena que a gente imagina enorme. O particular é aqui perto, do outro lado do meu muro, feito em acordo com o Zé. Então ela toma seus apetrechos profissionais, sempre se esquece dalguns lá no Salão e reclama e substitui por outro, brasileiro aprecia improvisar. Pertinho do tanque de lavar roupa; aí sim conversa pouco, tão diverso do seu estilo por nós sabido, fala pouco e baixo – ajeitando os cabelos do familiares, os filhos sendo os fregueses que mais exigem da artista; em compensação nada pagam, quando muito oferecem à mãe e recebem imediato em troco desaforo. Contudo vêm outros de vez em quando e talvez Dona Neusa vá cortar cabelo na casa das outras pessoas amigas, isso não posso afirmar. Durante a semana leva uma vida batida de operária, com direito a marmita e tudo, vai no das oito, oito e sete pra ser mais preciso, e volta noite cansada e mesmo estafada, ainda sobrando alguma força no gogó para espantar ferir ou gritar sem ser ouvida. Depois deve dormir antes do término da terceira novela no sofá, que é antefase da cama conjugal, mesmo o Zé esteja em serviço viajando. Se eu vi? Não. Imagino. Só conto o que ouço, não o que vejo. A noite cai, a lua pretende ser cheia, o dia seguinte tem um imprevisto.


Era Uma Vez Uma Surpresa
De fato, surpreende: não haverá sessão de desavenças da noite hoje, a Neusa anda rouca, adoentada, escarra após chegar do serviço e vai se deitar cedo, a casa fica fúnebre, silencia, desliga o disco de azucrinar vizinhos, liga baixinho a tevê normalmente gritona mandona obrigando sempre os humanos a falarem mais alto que ela, não se cala totalmente a casa; em volta murmura-se. Mamãe anda indisposta. Descansa. Melhora para a discussão do fim de semana. Chega o sábado, conversam muito afinam desafinam desafiam. Além do mais todo mundo do clã vem ver Dona Maria também adoentada, ela fala da tosse, tosse a provar, fala da falta de ar, propõem alguns o médico. Logo se esquecem do clínico e começa a balbúrdia, todos falam todos gritam, a ‘rota da Calábria?’ todos, Elona a mestra, termina seu discurso com “merda”, uma espécie de ‘não tem jeito’ ‘não há solução’, nisso os sobrinhos dela e netos de Dona Maria brigam na brincadeira há puxões de cabelo dedodurismo a valer e alguenzinho grita “bunda”: a Neusa recrimina o pirralho a ter cuidado com a boca suja, grave em família evangélica, e fala com autoridade de chefe familial, se acalmam as crianças desejosas em serem adultas e os adultos retomam a briga qual crianças grandes, falam gritam berram assustam os mais novinhos que choramingam enquanto a outra parte da meninada corre na via pública no pique-e-salva e no esconder. Os grandes barulhando o lugar não se escondem, não existe mente como fosse cofre inexpugnável. Que fosse fugir; mas fugir para onde, ao Planeta da Paz!?


Era Uma Vez Uma Pausa Para Meditação
Não estou sabendo se o Leitor foi polido pelo tempo como eu, se acompanhava no rádio o Programa do Júlio Lousada, meloso de poesia e sentimentalismo. Por lembrança disso que me ocorreu, vêm as linhas seguintes. Agora é um dia trinta, sustancioso de pouco dinheiro e gastos normais, bom para explodir-se; e a cadelinha da moradia que se cuide, os bichos têm sempre uma antena ligada e ficam meio acuados em sobreaviso, os homens é que não ligam. Na Família estão quietos agora porém há um quê... noção de fim de mundo mas não é o fim do mundo, é do mês. Então ocorre algo: chegam parentes da capital. Poderia ser os do vizinho estado, seria a mesma reação – a Família para. Pára para desentender-se também com os parentes do leque mais aberto. E fica nisso, cada lado conta sua desventura, alguns incluem brincadeiras, ri-se. Espécie de interrupção no morder-se ostensivamente dentro da casa para os ritos nos cânones da hospitalidade com os de fora de dentro da Família por sangue. E ri-se come-se bebe-se grita-se em comunidade, pois a família que pratica suas misérias junta permanece unida. Barulham até às vinte e duas horas, dentro da lei; depois barulham depois da lei até madrugada conforme a lei do sono, sendo que os pequenos já cumpriram bastante tempo da lei, não o pequeno de cá, grandinhão, noutro dia o Gui, assim apelidado, não iria mesmo à aula, a Neusa disposta a perder o das oito, das oito e sete, e nem perceberá o molecão ainda dormindo no horário da segunda aula, de Matemática, a daquela chata Dona Nariguda que ele pronuncia “Narizuda”. Pausa, que ninguém é de ferro. Para tanto vejamos umas lembranças a descansar.


Era Uma Vez a Lembrança de Uma Peça Teatral
Ou peça circense, pois vejo frequente o picadeiro armado, gaiolas com feras mui pouco amestradas... E tem nomes feios os mais bonitos, eu tenho visto com os olhos que a terra há de comer... Vi. Ouvi. O Segundão, astro principal na peça já blasfemava a genitora, ela estrela maior todo sabemos, já brigava porém eu não ouvi, ouvi depois: Você, disse Elona, não pode falar de Deus no telefone desse jeito! Elinho Segundão, a responder que podia sim; retrucou a mãe; não adianta mais a ela pedir a Deus por ele, andava era com o Cão. Aí não gostou o filho do Cão; daí a Mãe do filho falou minutos sem parar, invectivando o desmiolado; ele? chamou-a “Ignorante” (que maiusculei por tratar-se da Neusa) “Idiota” etc., após se engalfinhando em berros, a Velha Dona Maria tossiu e deu sua bicadinha nos desaforos, recebendo nomes feios em tom menos alto. Berrava-se. Nisto ocorrendo um imprevisto: o Primogênito uivou raivas tendo aparecido em cena sem que o contra-regra apontasse: “não se dorme neste Inferno!?” e aproveitou a entrar na briga da paz, elogiando os dois artistas contendores com ironia e, não sendo ouvido no bate-boca infernal, atirou um não-sei-o-quê (vendo-se que não vi, ouvi apenas o tchbum!) o que fez com que o Luiz, de plantão lá fora na Rua Bom Tempo e esperando a boia pronta suponho e a vigiar seu automóvel, um bem de status, ele a gritar de lá da rua “Você jogou isso na minha Mãe!” (mãe dele e não Mãezona do Segundão). Naturalmente acho que tem visão de raio-X. Responderam três vozes em dueto, não pode dueto, são três, não entendi bem, bem encostadinho embora no muro para escutar indevidos... Ouvi o Segundo ao tio: “ainda não bati no cocho” e a seguir a voz da Neusa: “não foi o Segundo que atirou...” a defender como leoa o filho, o que achei deveras interessante, pois cinco minutos antes a Mãe prometia uns murros na cara do rapaz, não é menino não: homem feito! porém não deu murros. Ou deu, só ouvi choros e resmungar, ia saindo para buscar água na mina, a nossa de torneira ruim e pesada, mas não foi por isso que brigavam. Era pelo desemprego do sujeito a intolerância da mãe. Complicado, só Freud para explicar e não explica: só vê sexo nas causas, não devemos consultá-lo, porque a Neusa é mui religiosa e não aceitaria sexo; ela é demais rígida em moral, atitude mui vista em evangélicos. E nesse ponto, não que termine a peça, ela continua renasce como a Fênix parece, acaba apenas pra mim. Fui como indiquei ali em cima buscar água com o galão de plástico, passei no portão pelo Luiz e ele cego com as ofensas sequer me viu. Voltei agorinha, a luta terminara, não sabendo se por pontos ou alguém nocauteado aí no quintal dos vizinhos. Ora, se contar aos de fora não crerão. Digo a Você Leitor, que é amigo e os amigos engolem tudo. Amém. Digo amém igualmente para as Amenidades.


Era Uma Vez Uma Reunião de Amenidades e Conversas Alegres
Pelo que estamos expondo até aqui o Leitor estará pensando que tudo são gritos e tragédias no pedaço, sob domínio da Grande Família. Engano. Mais de uma vez, muitas inclusive, flagrei encontros menos tétricos. E, pasme Você, anotei tudinho, ouvi tudo, quando nada a fazer. Todavia não pense que eu só viva a observar meus vizinhos, faço compras pago contas saio da área um pouco... Por exemplo da pretensa alegria proposta: outro dia faleceu um deles, um que visitava o pedaço e que o câncer levou. Na volta do enterro se reuniram informalmente e vieram os comentários. O Zé disse “viram a choradeira! quando for minha vez vai ter foguetório”. Riram deram suas dicas, o brasileiro é rico em inventar. Mas não sabem os vizinhos o trabalho que me deram anotar e antes o compreender os falantes, anotei muito ah ih oh uh deles. Tal coisa? foi o Carlos da Maria, não o Carlos da Joana; Dona Luzia trouxe leite e faltou uma garrafa; ele me deve “40 real” (ai não concordo com a concordância desses). Às vezes enquanto brincam adultamente na Bom Tempo suas amenidades, em casa ouço discussão nada amigável entre a Mãe e o Primeirão mais ou menos assim: trate de arranjar dinheiro para pagar suas dívidas; ele redargue Ela acusa, trocam-se insultos, o filho vai para o quarto rosnando; aí Elona corre à rua participar das amenidades parentes como nada cheirando mal lá dentro. Olha aqui, meu Caro Leitor, teria mais coisiquitas a dizer; não digo, jogo a matéria noutro capítulo, um dos que se inicia por “Era Uma Vez...” Concorda?


Era Uma Vez os Diálogos
Sabe por que a gente fala diálogo? Não são dois a falar? aqui são três quatro um punhado, seria então punhadálogo? que sei de grego! Vou bonitinho pôr as palavras que usam no meu pedaço que é o pedaço deles, palavras que usam na medida em que as disseram, da forma que melhor ouvi dizer. Assim gritou o Dezinho: “Vivi, olhe o carro!” Duro ensinar um molequinho travesso. Outro dia atravessou correndo a rua parou na Tia Neusa; após chegar, aí olhou se vinha veículo em disparada... “A Muié, diz um deles, chama Raquel.” Aliás ouço muito nome bíblico aqui, “Eli ficô tão abatidu quando soube du Mário, qui num sabia fazê nada!” “Aí, né, a Ana pega e fica falano”. Ah como nós o povão gostamos de ‘pegar’... um a contar passamento de parente: “levaro o corpo pro padre benzê, tem negócio de missa e terço” Nesse ponto debateram religião, criticaram a dos parentes de longe. Noutra conversa da mesma conversa ouvi “Tô sabenu que ele (quem?) vai casá”. Enquanto outro grupo no grupo em falação paralela: “o pano é algodão de cinco real”. “A noite inteirinha me deu uma dor!” Outro grupelho no grupo: “não, lei é lei, Dezinho, a lei dá direito”. Um quase a falar sozinho: “ah magina, a perna dela tava destamanhão!” Então, disse a Neusa: “o Jesuel falô assim (aí imitou a voz e maneira desse desconhecido) o pneu careca vai estorá”. Alguém grita baixo a falarem baixo pra não acordar a Mãe (decerto Dona Maria). Enfim abobrinhas no diálogo suculento. Um dado interessante é que na conversa sempre se engloba dinheiro, por exemplo “ela devia tê comprado” isso ou aquilo, ou a casa é grande demais, custou caro. Falam em dinheiro, em riqueza, a riqueza dos outros a engrandecer a própria miséria. Podemos com o povo! Bem, Você não gostou. Leitor. Pois eu sim, pela riqueza folclórica. É nosso povo a pensar (ou não pensar) e assim fala. Está cansado? Concluamos.


Era Uma Vez Umas Palavras Finais
Sabendo que esteja meu Querido Leitor cansadinho, partamos a umas poucas palavras. Eu também me encontro cansado. Empatamos, eu com o besteirar, Você com o ler as besteiras. Contudo devo esclarecer uma coisinha: fui algumas vezes na minha vida acusado de memorialista. Se quiser visitar a Rua Bom Tempo poderá até provar-me se exagerei. Não estará  imaginando que tudo isso narrado até agora seja mentira... Verdade, verdade que é intriga desta oposição aqui, Eu.
 Marília   março  2002
         

         



           

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