domingo, 21 de julho de 2019

Desamor


Desamor
a tendência da gente é buscar os dez-amores
a frequência da gente é achar os des-amores

  A Saga da Fuga
Muito calor. Mas não era inverno? era, é; a folhinha aponta este domingo 20 como início do inverno o outono exigiu sua parcela nos abrigos e cobertores, agora é inverno sim e faz calor, a Mãe sua o Tio sua, não o Tio da Mãe, o Tio é o Filho da Mãe, suando da mesma forma; sua a Mariana; ela mais por suas preocupações e afoitezas que pelo tempo. O Tio pergunta à Mãe quê barulho é esse aquele, aquele lá nos fundos da casa, a Mãe resmunga qualquer, ele já lhe dando as costas bravando um “tá-bom” que é seu dizer a descarte nas inconveniências e não ouve escuta o barulho somente, corre, que é sempre um lerdear apressado em gente de idade, arrasta chinelos até ao fundo e não vê; vê um resto de Mariana Xis a surrupiar-se, nem fechando a porta, fecha fecha sim com a traseira empurra com a traseira ou chuta desapercebida quase a lâmina da porta, a qual bambana a bater a reabrir a bater outra vez solta ao vento e ao vento da  passagem que some já na interrogação e ela, a Mariana, some. O Tio Xis olha, ou desconsolado ou aturdido, ou apenas curioso a garota ou seu resto o resto de garota, ainda ouvindo o trepitar dos ferros da bicicleta empurrada amortecidos pela borracha murcha embora dos pneus; e não mais menos vê não vendo e imagina o ziguezaguear borboleteante da magrela. Taí um nome que aprecia o homem porque dá ideia do esqueleto de ferro, agora é de quase alumínio, com um selim um guidão dois pneus em rodas também magricelas (nesse ponto quase é chutado em retorno à infância a remendar câmaras a bater paralamas amassados tanto cair; e volta à preocupação do hoje...) sim bem lembrado: magrela. Contudo não vê a bicicleta não vê a sobrinha não vê coisa alguma, está entregue todinho ao seu eu, encaminha-se parecendo quase zumbi para dentro, já estando dentro de casa, indo aos seus negócios.


A Fuga da Saga
Corre, desesperada? corre para seu amor. Quem sabe se se não exagera, talvez melhor enxugando o vocábulo pela palavra querência porém isto discutível. Não discute a jovem com sua discussão e só pensa nela, nas razões de sua discussão e nos porquês da vida. Pedala quase sem pensar, as mais das vezes a gente faz as coisas que a gente faz fazendo sem pensar presa ao pensamento. Chegar falar desabafar contar brigar talvez mas falar... Bate bate de novo mais nervosa à porta do homem, o homem vem mais a dormir que acordado, acordando à entrada daquela saída. Envolve sua fêmea, agora se acordando de vez, não a deixa falar, guloso, faminto, perverso quem sabe. Ela se debate, ainda vê em soslaio a roda do seu  veículo magro em movimento quedando ao chão. Quer explodir seu drama o drama dele é a impetuosidade... Agora ela se limpa contrariada se arruma se veste, ele a sorrir; se cala falasse alto o pensar: ela despeja seu sofrer fala esbraveja condena o mundo naquele macho a retomar sua sonolência esticado na cama em desordem. Ele pisca a realidade, abre os ouvidos à amada, arregala sua boca, como seu costume diante a indignação conhecida da mulher. Não vim – diz Mariana – não vim para isso; passa as costas das mãos a enxugar lágrimas, fala ao quê veio. A Velha chamou a Tia Cota e a cambada inteira a passar as férias, as férias deles veja bem, em minha casa vê se pode! Ele olha sem entender, ela prossegue: Não dormi esta noite tanto pensar no desastre. Vem a Tia vem o bolha do marido dela; vem a caqueta da filhota e os dois perdidos, aqueles primos que lhe falei outro dia, só pensam naquilo. Futilidades, Ro, futilidades... Rogério olha sem entender a namorada e não tem coragem pedir esclarecimento, a moça anda em estado de atacar, seu choro não é dos que amolecem corações e menos mostrem purezas – tem um aspecto feroz, vê-lhe o ódio na feição... Ela carrega mais nas cores contra os parentes intrusos, picha a Avó picha o Tio, ninguém escapa. Como vou agora fazer minhas coisas. Quem pode estudar montar os trabalhos em meio ao ‘mercado de peixes’ que é essa visita?! O macho que o macho representa encontra-se por contaminação arrasado, não sabe quê responder ou perguntar menos ainda quê fazer. Mariana chora, agora chora mesmo. Então o rapaz se levanta e se encoraja abraçá-la carinhá-la, sem palavras, curto e grosso. Ela se acalma, sorri e sai, constrangida embora, aliviada um pouco. E pedala de volta pra casa.


O Til no Tio
Volta chega olha vê não fala vai falar e reticencia o sofrer, sorri, sorriso tem cor? amarelo;  vê o Tio o Tio é um mundo. E Mariana não sabe, a gente não pode penetrar no mundo porque é do mundo e o mundo é a superfície. Então sorri apenas, sem razão de ser. O Tio não compreende, é difícil se bem  não impossível difícil compreender, e se recolhe na sua rotina. Escreve desordenadamente arrasta põe retira algo deposita outra coisa folheia talonários confere, balança a cabeça prateando, resmunga por fim – não consegue chegar às consequências de suas causas; um pouco nervoso, bastante, não fosse neurastênico, o suficiente; abalança o prateado outra vez, acende novo cigarro porém isso não lhe ajuda encontrar a solução; cospe miúdo, rosna, dá um croque na mesa; alevanta-se anda pra lá pra cá, vai à janela volta à mesa mas não vê não se vê. É um homem pequeno magro queimado de sol, respira com dificuldade, anda com mais no seu menos. Meneia a cabeça coça uns fios e são muitos embora prateando e prateados. Não espanta o pensar, as ideias obsessam a mente e ele não tem a quem contar, ninguém a indagar suas coisas. É um mundo e o mundo é o solilóquio. Liga o radinho fanhoso desliga a propaganda e o mau gosto. Anda outra vez e quilometreia da janela à mesa desta à janela em voos rasantes do pensamento. Por que ela saiu em disparada e voltou macambúzia agora. Existe outro mundo entre o mundo do Tio e o mundo de Mariana, a Mariana  Xis. Não lhe cabe o direito indagar? não indaga, ou briga, ele foge da discussão interminável quando um dos contendores é a sobrinha. Então se volta pra si, fugindo ao seu eu. Não se prende aos dramas próximos e mais palpáveis, mas aos distantes que a mente não equacionou suficientemente. É menino, começa a vida, ouve Mamãe nos seus abusos bem intencionados de super-mãe cuidadosa, criteriosa? ouve a genitora e a escuta a ralhar nesse hoje, a mesma mesmo velha... retoma seu ontem.  A Mãe o repreende usa da varinha grita-lhe berra um não sei quê se apequena mais o garoto em sua meninês; não resmunga resmunga baixinho o mais inaudível possa, antes olha se o inimigo não perto, aí estrila brabeja xinga até e se repreende comprimido; e executa as ordens maternas e olha assustado criança. E repete a obediência, obediência não cega porém rebelde; e apanha assim mesmo. Está preso agora, e se encontra sempre aprisionado, é o único na cela do lar e brinca só conversa só pensa só. Daí vem a escola ao seu encontro e ele chora a solidão em meio tanto aprendiz e volta para sua cela, Mamãe é o carcereiro de estimação; depois ela o trancafia em sorrisos cobrando a tarefa escolar. Porém num dia o carcereiro teve compromisso, ele voltou sozinho pra casa e... o homem surgiu inesperado prometeu mil e o estuprou. Chega no lar esbaforido, conta nua e cruamente sua desdita. Apanha. Narram ao médico ao delegado de polícia, voltam chorando ambos e o contraventor, apenas contraventor, é solto por bom advogado. A prisão aumenta seu cerco e o carcereiro investe sua culpa na culpa do garoto e o tempo prolonga seu tempo. Até ao tempo da vida dos manos, um punhado de meninos, os quais dividiram com ele os castigos. Agora volta à sua janela, fechando a janela da infância para ser um homem solitário prateado em cabelos, com apenas o direito em brigar com o carcereiro, engolindo e mordendo os impropérios que mastiga contra a Velha. A Velha o examina.


  A Velha que Ralha
Da Família X, Mariana é um poço de problemas. Não sabe donde vem a expressão, sabe que tem é muitos problemas. É preciso entretanto lutar, estudar, lutar lutar sempre a ser alguma coisa. Ele tem razão não lhe diz a engrandecê-lo mas acha sim que tem razão o Rogério. Ela, quero ser alguém. Ele, estudar pra ser outra desempregada, desempregada mais classificada... Contudo não desistirá, desistirá dele tem outros melhores, ela acha que tem. Agora, lutar sofrer acrescer e ainda ter aturar a Velha, é demais. A Vó é encardida cobrante fala o dia inteiro, é preciso fugir ao seu quarto, trancar-se, fazer como estivesse concentrada a ler... porém como fazer as coisas se é um poço sem água com água suja dos dramas! Ninguém a entende. Nem o Tio, varão empedernido da Família Xis; é outro que não a compreende, dando vontade mandá-lo para aquele lugar; vez que outra se pegam ela perde ganha se calando se prendendo no quarto seu abrigo inviolável, inviolável! e a trempe prometendo visita... ou então fugindo a pedalar em direção ao Ro; ih ele só pensa naquilo, sente-se a jovem perdida; agora ainda, ela não para pensar nisso, agora aquelas pestes a vir tirar férias na casa da gente. Vovó grita o Tio, pra ela é o ‘Menino’, Mariana escuta de longe o arranca-rabo lá na cozinha. A Velha fala fala o Tio rebate resmunga, parece ele a Velha é velho também, menos velho, talvez mais chato que ela. Ela cobra suas coisas lamenta sem parar dói aqui dói ali o remédio a pílula a gota a hora, ah a hora – não pregou olhos, não dorme e o Menino! um moleirão. Os parentes avizinham não tem nada arrumado. Pega no pé do filho, pega no pé da lavadeira que estraga a roupa vem trazer a trouxa das peças já sujas por mal limpas; pega no pé da cozinheira, a quarta do ano ninguém para ninguém quer trabalhar hoje em dia – conta como era em seu tempo se ele não se lembra como era; se engrandece, primeiro aos seus olhos a atingir o Tio. Narra pela ene-vez sua odisseia a salvar a filharada, conta dum conta doutro reconta o recontar às orelhas ardentes do homem de memória curta e pavio ainda mais curto. Explode: que é de seus filhos? enumera relembra fulano beltrano siclana – todos por aí como se a Velha não existisse; a mãe põe panos quentes defende os ofensores mais distantes; o Tio recarrega: não tem correio? não tem a vizinha com telefone? Ninguém liga pra ‘senhora’ ele usa o jargão antigo como antigo, não traz a mãe à intimidade do ‘você’ e isso mais os distancia. Ninguém liga à Mãe, o Filho fala duro, sem paciência alguma – tem ele consciência não amá-la e sofre essa realidade, as verdades nem sempre se pode comunicar mas não eliminando a verdade contida na verdade. Contudo se cala, boqueja apenas os pontos fracos da Mãe. A Velha chora a chantageá-lo, ele retruca “tá-bom”, que é seu bem nesse ‘tá-mal’ vira-lhe as costas para deixá-la falando só, sai pegando fogo, nervoso, quase esbarra na sobrinha nem a vê se vê apenas, corre se arrastando ao quintalinho, a fumar nos fundos. A garota aguarda o esfrio dos ânimos, vai após pisando em ovos ter com a Velha, agora no infecto quarto da avó, Mariana acha infecto sim, cheiro de colchão gasto cheiro de roupa dormida e tem  tranqueiras ‘tranqueiras’ no seu pensar do ver novelos trapos cores misturados a chinelos usados urinol vazio uma xicrinha de café escorrida na borda e ah – isso não suporta prende a respiração quanto pode – o cigarro de palha ardido queimando a cadeira de pau bem mais velha que a Velha. Conversam amistosas, de mulher para mulher pensa a Avó, não sabe nem Mariana pensa quê pensa a Velha. Falam amenidades, a jovem aguardando momento do momento. Logo a Jovem pisa no pé perguntando o quê realmente deseja. Vêm sim, diz a matrona, o Menino já está arranjando tudo, vem a... aí reconta cada membro da família e as alegrias que se espera naquele mambembe cinco estrelas; quando? pergunta a neta tentando sorrir, agora menos amarelo possível. No consumatum est das coisas não tem grandes expectativas, soma os prejuízos e como terá hipocrizar diante dos do sangue, completa a conversa com outras amenidades aceitas pela senhora: um laço uma peça a mexa de cabelos, enfim coisinhas que não conseguem afugentar a fervura que vai por dentro. Nessas condições volta ao seu quarto, onde pode admitir detestar a avó e onde pode chorar com liberdade.


  O Mundo do Fundo
Não há liberdade. O homem sonha a liberdade mas a liberdade é sonho. Às vezes é pesadelo. Pensava o Tio perdido nas suas fumaças tentando amortecer seus ímpetos, iludindo-se também ele próprio ao ver as plantas, para esquecer a discussão na cozinha. São João estourava bonito suas quadrilhas e bombas lá fora, dentro dele explodia o ser. Quem mais perdia nos entreveros domésticos frequentes era ele, pois ficando sempre a se mordiscar os insultos que ofertava à mãe, ser sagrado a todos a ele tão só um inimigo de estimação... Era assim que punha esse drama: ofendia e se ofendia pela ofensa; depois procurava horas justificar-se; então se arrasava mais ainda. Contudo tentava se consolar nas faltas da Velha. Ela, no acalorado da conversa o chamara hipócrita! Isso calava fundo. Chegando a ser uma razão para ter razão contra as razões maternas. O pior – se lamentava o Tio X – o pior é que não era um episódio isolado: ocorria sempre; sempre desde que virara homem. Buscou na mente desde quando podia ser considerado adulto; e temeu não saber a resposta. Naturalmente já não apanhava mais de varinha, nem era mais garoto de escola, nem precisava mais temer abusos inesperados... aí se prendeu no estupro que sofrera. Seria mesmo um crime sofrido? lembrava-se perfeitamente haver facilitado a ação do pervertido. Que ocorrera ao homem, teria voltado à cadeia. Não seria esse terrível episódio a causa de seus fracassos amorosos! Nunca conseguira ser realmente um homem em toda extensão da palavra. Um namoro frustrado, sequer tivera coragem beijar a Maria; depois ela se casando com outro, iria ficar esperando um palerma como ele! fizera bem. Mal ele? até agora solteirão, vivendo como babá de Velha. Enfim, agora não dando mais mesmo – velho fraco pobre, sequer um ganho de aposentadoria e vivendo às expensas da ofensora... Pior, estava na pior situação. Sim; aí se encaminha para dentro a pretexto usar o banheiro; na verdade fugindo da vergonha que é existir tanto ar tanto espaço tantos possíveis olhares vizinhos. Fugir quem sabe de si mesmo, para si. Olhou aquele vidro frio puro real verdadeiro – viu refletido uma barba branqueando, uns dentões falhos amarelados pela nicotina, uns olhos fundos pretos mortos. E se assustou. Assim mesmo sorriu, ainda mais amarelo que o ainda. Sua forma de chorar.


  O Cômodo no Incômodo
Na verdade era uma impressão, não fosse tudo impressão na vida. Quem a via, a quem via? o Tio a Neta um que outro isolado visitante que penetrasse o santuário, não daquele lar mas também do lar, daquele quarto sombrio. Quando muito uma vizinha metida a comadre xeretando com olhinhos assim de ver. Ninguém no ver quê se via. Uma senhora magra velha encarquilhada resmungona a ninguém, sentada no cadeirão do tipo antigo de madeira forrado com encardida almofadinha de penas; sentada arcada a tricotar. Crochetar, misturava o filho nunca ele sabendo ao certo; o certo era o mexer ziguezaguear cruzar agulhas compridas a engatar a cruzar-descruzar a confundir leigos olhos a compor nós e estender desenhos complicados com vontade virar meias cachecóis blusas luvas essas coisas; num vaivém sem parar sem parar. A Neta, mais ela que o Filho, em condições avaliar, quem sabe a elogiar consolando a velhice e a artista na sua arte, entrava olhava sorria azedo seu dentrão sem coragem exaltar quê visse, se vendo; quiçá nem sabendo a pobre esconder seu desamor à pobre. Esta olha a Jovem, isto querendo dizer que no fundo, bem no fundo, a ama em amor à Filha que sumiu no mundo e não chega a dizer, não sabe dizer, embotada endurecida no tempo e no costume, tão somente resumindo tudo em resmungos de contrariedade pela contrariedade do convívio no tempo... E se olham; e não se veem. A nova voltando às suas lides no estudo, quando muito rosna qualquer à cozinheira nova (sempre é   nova empregada) e aí se embarafusta no quarto. A velha volta também às suas lides, não tendo deixado suas lides na agulha e engata e cruza e puxa e conta e estica e olha e suspira e se volta a si mesma. O mundo gira em torno do mundo e a Velha é um mundo. Aí, cansada, se recolhe às preces intermináveis, carinha cada conta de seu rosário, reza falando sem voz. Então se deita então se levanta no se deitar; insoniar.


  O Drama na Cama
Insônia. Remexer. Remexer-se. Bastar-se? As perguntas se esgotam nunca se acabando... As respostas... Mariana indorme assim; assim também a Avó. Por razões diversas mas as razões são sempre as mesmas o variar é o ser, o Tio também dorme tapeia o sono sonha e sonha que dorme por outras e novas razões, elas são também sempre novas, embora não intactas pelo repassar na vida. Na casa somente o Duque dorme de fato, coça vez que outra rola para outro lado, redorme – devera ladrar o ladrão o barulho, quiçá o barulho do roncar da ama que diz não dormir só descansar, apenas ele dorme e não replica não contesta não desama pois puro e profundo no seu sentir. A gente tem as coisas da gente. Mariana revira remexe, às vezes suspira e chora manso; se fumasse como o Tio ou a Velha inundaria o cinzeiro, suspira enxuga no travesseiro com cheirinho de perfume leve suas lágrimas e pensa. Pensa que foi enganada, ludibriada pela vida; pelos pais, não conhecendo o pai; pela avó que a ofende lembrando não ser aceita no lar; pelo tio porque homem não sabe descer aos meandros das necessidades feminis; pelo namorado, agora o Ro quer abandoná-la justamente quando vem vindo o filho dele nela. Os homens são inconstantes. Aí se repreende, que diabo: ela não o queria também, já se interessando por outro. O namorado não mais que namorado, intruso em sua vida, a querer desfrute. E o serzinho também um intruso. Ora, era dona de seu corpo, expulsaria o corpo... porém como, com ajuda de quem! da Velha do Velho Tio, seria um mundo-acabar. Pensou sim suicídio desistiu; agora chora. E se os parentes vierem mesmo. Não, faria figa. Mas se viessem... a revirar a casa, a interferir na sua rotina, a darem palpites, a quererem serviço melhor de hotelaria... xingaria até à quarta geração. Não, não teria coragem bastante, sabia não ter; tinha o costume engolir a Velha o Velho, até aquele namorado só pensando naquilo e nos desfrutes mais – ela fora usada, isso, fora usada. Não vendo solução. Assim o sol abriu a porta da luz à sua pouca luz do túnel no leito de solteira bela... ah o espelho, querendo contraditá-la descabelada empapuçada por uma noite horrível.


  A Noite em Açoite
A noite é a morte a prestação na vida. A noite é um intrincado como o cachecol de ontem, hoje, amanhã, sempre? cruzada, cruzado com fios delicados de lã em variada cor com nós com voltas com idas em carreira o carreiro pronto a se cruzar; cruzada de linhas da memória cobrante de fatos de aconteceres de sentimentos que já se foram e se cruzam também na memória cansada. Cansada, isso mesmo: ela anda cansada tourear a vida entra década sai década como um dia que deixando ser dia vira noite pra ser dia de sofrimento. E desperta, ao menos de pé – defronta-se com os seus, incompreendida. A menina, do jeito que vai, namora um namora outro, não casa, fica pra titia. Se não houver o pior, hoje em dia as garotas estão deixando ser garotas viram mães deixam os filhos paras as mães, vê se tem graça ela já velha, convenhamos: está idosa; iria criar filhotes da desmiolada! A mãe não está nem aí, sumiu no mundo e a Mariana não tem nem pai, tadinha, tem mas por onde anda não se sabe; e aí eu crio a menina e se me arranjar bisneto pra educar! Não. A rigor não aprecio essa infeliz; que se case e quem casa quer casa, não diz o ditado. A mim bastam os desaforos do Menino, filho criado! é mais que trabalho dobrado e esse não me trouxe nora a azucrinar. Bastam sim, tenho minhas dores, ninguém compreende as dores dos outros. Talvez a Cota me alegre um pouco. Será virão! A carta é clara. Não gosto da Cota, nunca gostei; nem do primeiro que dirá do bobalhão que vive com ela, casou nada: igreja-verde isso sim. E vem a trempe toda. Ponho a fresquinha, dizem ser muito cheia de nhem-nhem-nhém, com a Mariana; um dos homens com o Menino, o qual já estrila bem; os filhos dormem na sala. Ao menos terei com quem conversar, talvez me comprem um cachecol, conversaremos sim, mataremos saudades... ah isso não, fico do mesmo tamanho se vierem ou não aparecerem; ah ficava feio não convidar. Comer a gente se vira, onde um come todos comem. Quer dizer, dizem que são cheios de titica de galinha. Se precisar solto os cachorros na cachorrada. Ah esta noite. Prefiro o dia, acabo ao menos o cachecol hoje, já é hoje o ontem, ou amanhã termino; não sei se vêm.


  A Noite a Morte
A morte já vem, a noite cansou-se dos grilos e das corujas e se vai, rolo meu indormir. Dói aqui, preciso uma noite de verdade; mas com esses dramas não consigo relaxar. O Tio reacende o cigarro, está quase na bituca, outras se espalham no cinzeiro, tem cinza na mesinha tem cinza no chão, outro dia, noite dessas, queimou o travesseiro ah se a Velha soubesse... Decerto num instantinho em que desacordou pois não dorme, fala sempre na insônia, diz aos outros na venda que não dorme, os de casa não creem. Agora a Mãe fica cobrando ajeitar a casa pra visita. Quer exija aumento no aluguel da casinha e assim não teremos inquilino muito tempo. E se agarra na pensão dela, não solta centavo. Cobra que eu pague o IPTU, “petiú” ela fala; quer do bom e do melhor como fosse rica e o besta aqui tem de trazer. Exige marca exige tipo exige rapidez exige troco. Ainda me chama hipócrita, isso dói. Mas não gosto dela, é antipática e exigente demais; briga com a gente todos dias. Se tivesse dado certo com a Maria dava errado: brigaria com a nora também. Ando cheio. A Mariana igualmente dá trabalho. Aquele sujeito, é João ou Rogério sei lá, não é boa coisa. Ela bem que merece o porcaria, a safada. Se a gente chama a atenção, estrila como fosse a sabedoria em pessoa. ‘Namorado’ que namorado coisa alguma; no meu tempo só pegava na mão e já era muito pegar. Hoje eles vivem juntos separam juntos e dormem juntos com quem queiram. Pra mim isso é safadeza, ela é amante do vagabundo. Pior se emprenhar. Que a Mãe cuide, a mãe de verdade vai é largar a cria pra Velha. Eu? O Tio diz em basta que basta seu drama, tem problemas que não tem conta; só para extrair um dinheirinho àtoa da Velha tem que desbocarem três dias seguidos. Não. E tem a parentaiada a vir passear de graça nas costas da casa... Não. Não. Sim, lá vêm os raios, filtram desde a fresta na janela, ilumina o lençol mostra o pano enrugado do tanto rolar o corpo; logo atingirá a mesinha o cinzeiro a cinza.


10º  A Visita em Visita
Aconteceu um desastre, talvez uma calamidade pública, naquele pedaço encolhido no bairro pobre, mais à casa acanhada com quintal exíguo rodeado por moirões de madeira um dia árvore viçosa agora podridão amarrada com arame farpado ferruginoso, por onde as galinhas atrevidas passam a ciscar as plantas do Tio. Desastre com o homem do Correio entregando a misiva em letras tortas. Vovó grita uma alegria que não sente, relê ao Tio para que a Família Xis se contente: a Cota chega semana que vem! O Menino muxoxa desagrado, Mariana não fala, não precisa xingar: bate desaforada a porta de sua prisão. Decerto chora. O Duque não entende mas ri-se com a cauda e olha extasiado aquela múmia embonecada segurando a agulha de tricô na outra mão. O sol não brinca em serviço, avisa o almoço; agora é intragável e a Velha vai pôr a correr a nova empregada nova, o Tio precisa procurar uma futura a ser passado loguinho novíssima em salário de fome. Engole como pode a gororoba e foge atrás do cigarro; a sobrinha já foi pra aula ou atrás do sem-vergonha; a Velha boqueja qualquer no seu quarto, quando não tem – geralmente não tem ouvidos com quem conversar mesmo – fala sozinha, fala cruzando linhas fazendo nós espichando pontos examinando efeitos. O cachorro olha meio avisado possíveis perigos. A casa vive sua normalidade. Quê é normalidade?


11º  No Vai não Vem
No entanto havia algo parado no ar. Mariana pensava pra não pensar fosse a iminente tragédia da visita em morte anunciada por carta. Talvez se enganasse já vomitando a anunciar a quem ouvidos outra tragédia. O dinheiro curto encurtava nas despesas exigentes. Ao Tio parecia a Mãe estar – além do consumo dos habituais medicamentos e o fumo em que ambos diferiam ele preferindo cigarros baratos fortes nos cheiros ótimos nos prejuízos – parecia estar desejosa sangrar as burras do reino a se interessar pela televisão nova da velha vizinha assinzinho gostando xeretar as coisas de casa aí ambos dando-se as mãos a desgostar comadre. Porém esse desejo comprometia bem as finanças: a Velha parecendo já caducando a querer uma igualzinha e fora um só dia de noite ver, escutava mal via menos mal, ver o quê? a novela; voltou pra casa chorando a infelicidade da atriz tão bonita e espezinhada pelo filho, aquele cachorro; e aí o Menino assuntou e assustou-se em barbas de molho primeiro e depois pensando no desbrônquio aos bolsos, porque esses aparelhos são é muito caros, mais caros ainda que o radinho dele, fanhoso comilão de pilhinhas. E tendo à vista em prazo curto a chegada parente. Daí foi uma desarrumação tamanha da arrumação, comprar isto repor aquilo e a impossível possível do gostar: a Cota não pode com sal; o bobalhão eles não sabiam; sabiam as crianças já adultas a querer isto mais aquilo dos sabores de cidade grande; e a gente nessas ocasiões se desdobra a hotelar bem os hóspedes, mesmo porque não fariam feio insistia a Velha. Até que – e isto podendo caber à Mariana que andava arredia não parando em casa e era quem tinha estudo estudando uma carta de sobreaviso das faltas no conforto daquele hotel de parentes para enviar para a Cota pelo Correio, o qual aprecia muito ligar a gente do sangue – até que não precisou nada nesses desandos: veio outra notícia, o telefone da vizinha falou que o casal tinha vestibular dos filhos e não sei que mais, podendo sim por não haver televisão em casa interiorana; o Tio se aliviando, a Velha hipocritando um"que pena" ali às mãos; quanto à garota Mariana, não soube imediato, andando por aí nas suas encardiduras.


12º  Um Natalício em Suplício
Até que foi um alívio, ao menos à rotina em casa; agora não se pensava mais na parentela só nas saudades da parentela. A Velha a três por dois crivava o filho com seu novo sofrimento que eram as lembranças da falta e inclusive puxava o lencinho a se enxugar; o Tio já não aguentando o falatório. Mas havia algo pior no ar do bairro; não o sumiço da Mariana decerto atarefada nos estudos fora de casa dentro de casa fugindo de todos, tendo antes alegrar-se no aborto da visita parente; não o sumiço, o aparecimento do drama o qual teimava intercalar-se na rotina – o aniversário da Velha. Ao Tio um acontecer horroroso que ocorria todos anos, neste piorando pela consciência na antipatia pela mãe. Era chegado chegando o dia. Não a festa de aniversário, a gente grosseira no costume não tem o costume. Uma reza mais alta à Santa no canto em cima do guarda-roupa cheirando velhice e mofo; um abraço da vizinha, um chá ou cafezinho. E abraços mais. Arredio por natureza e frio no seu grosseiro sentimento, o Tio pelo menos era levado a parabenizá-la, pior sendo o Dia das Mães em que não podia evitar um beijo apressado, ela crendo as mães têm dessas coisas mesmo envelheçam ou por envelhecer quem sabe. Agora ia pra lá, pretextava pra cá qualquer coisinha, a retardar o sofrimento, o Tio se fincava num possível engano da folhinha na parede fazendo propaganda de não sei quê; oh impossível se enganar resto da vida; espera as 8 horas as 10 horas, criando coragem, entrando na fortaleza materna, abrindo a custo um sorrir, pedindo “bença” primeiro como dizia a dizer bom-dia ou boa-noite, e a seguir despejando parabenzinho dos petiticos, sem lembrar esquecer a quantidade e isto não podendo agradar realmente a Velha sempre a errar no menos-um; contudo salvo pelo gongo do desajeito chutando no abraço rápido e fugaz até o penico materno, claro sem querer fedendo assim mesmo; aí fugindo a seguir do embaraço pelo embaraço... Melhor fazendo a sobrinha que entrou no quarto abraçou a avó, se beijaram como gostam as mulheres fazerem e já saindo a correr na magrela; não dando à Velha sequer azo a repreender a moça por deixar acumulando sua roupa, ou achando que a lavadeira levasse as lavasse com a trouxa das de casa. Não seria um fim de mundo! Era.


13º  Não-Aborto do Aborto
Era o fim do mundo, não fosse sempre o fim a volta do Tio. A Velha reclamando pelo bafo no homem a exalar caninha e aumentando a conta no bar. Ele não respondeu ou brigava em discussões com perdas irreparáveis. Preferiu desbrigar com argumentos mais sérios: a Mariana não voltara? Saíra? abismou a Velha. A Jovem andava estranha por aqueles dias, os dias passavam,  passavam as oportunidades no estudo ela não ia à escola fugia ao convívio no lar, onde se considerava intrusa e estranha. Não obstante rondava a rodear o Tio, sem coragem às intimidades com a Velha; todavia nada falava, falando amenidades apenas, que são as 'ocosidades' na vida do ser. Agora sumia literalmente desaparecendo. Somente uma vez conseguira audiência com o velho, e outra vezinha rápida em resposta, somente uma vez a tratar com o Tio; coisas de negócios. Propôs cruamente estar grávida abandonada e pensando na morte, assustando a vida do parente. Dinheiro para uma dessas bruxas que assaltam a vida a princípio e a bolsa ao fim, geralmente a bolsa quase vazia da juventude despreparada. Enfim uma profissional leiga e prática na prática a expulsar menino desamado... O Tio não respondeu, disse não ter gato a puxar pelo rabo, em dizer popular, e já era bastante a tanto infortúnio da Jovem. Chorou muito. Sumiu, vendeu a magrela e uns poucos do quase nada pertences; juntou o aluguel da casinha da Velha recebido pelo Tio; desaparecendo de novo. A bruxa recebeu seu salário, limpou a sangreira, encheu o lixo. Mariana voltou um lixo ao quarto de sua prisão, pálida qual cera trêmula e cambaleante. Aí os seus foram ouvir suas febres e variações, a Velha se condoendo em chás caseiros enxugando a fronte da Neta; que doença acometera a pobre! O Tio não sabia, sabia, não sabendo responder. Nem como repor um mês de aluguel e temendo a cobrança da Mãe. Felizmente ninguém falava naquela escuridão respeitosa aos enfermos; nem saberiam fazê-lo, acostumados mais às discussões.
Marília   junho  2004
         


         



           

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