quinta-feira, 18 de julho de 2019

Abordagem de Tema Histórico


Abordagem de Tema Histórico


1° -  Preâmbulo & Poréns
Não é de meu feitio descartar a mentira e não lhe dar um trato a elevá-la ao menos ao patamar do engano; nem meu feitio igualmente prometer a verdade sem descê-la ao menos ao patamar inferior do engano. Em outras palavras, é a meu ver temerário afirmar categoricamente um dado. Melhor analisá-lo bem e só daí em diante (garanti-lo nunca!) esperar a conclusão sábia do leitor. Isto é válido a estudar um fato histórico – no caso os possíveis desmandos na época do ouro mineiro, o século dezoito, mais ainda sob orientação administrativa do Visconde de Barbacena. Trata-se dum intrincado a vida então e difícil a destrinchar.
Em nível científico, histórico ao pé da letra, requer cuidado para não ferir a realidade. Em nível de prosa tão só é preciso não ferir a poesia. Em ambos casos não ferir, não ferir mesmo a linguagem.
Aí ocorre a primeira dificuldade. Como chegar ao âmago, como desenvolver ideias, como não desprezar quesitos miúdos em não manchar o todo! Bem, aqui encaixo certa cunha (claro, sendo linguagem figurada) a me ajudar levantar o peso da verdade, despojá-la da mentira, livrar tudo do engano. Porque sem tal auxílio impossível tratar a História da Época, descartando o ranço e a poeira, apenas usando a usada técnica da pesquisa simples, usada e surrada de usada, a obter a documentação, para enfim divulgá-la. Pois me proponho a encontrar facetas não exploradas e não registradas nos compêndios pertinentes. Então dar à luz mesmo o fato.
Valer-me-ei da citada cunha, talvez em infeliz vocábulo, a cunha que é o Compadre Belarmino. O qual nos ajudará, a mim primeiro depois ao Leitor, a entender as coisas sem as agruras das coisas, evitando as asperezas do tratamento científico; outrossim com ajuda do linguajar do povo; para em final dar o recado adequadamente ao conhecimento.


2° - Cumpádi
Foi uma dificuldade imensa contatar o Compadre Belarmino, ‘Cumpádi’ como diz ele próprio, parecendo fácil e encontradiço um tipo do homem do povo; mas houve problema primeiro por ser uma espécie em extinção (o caboclo foge para a cidade vira não sei o quê, quer dizer: deixando ser caipira e não se torna burguês não aceitando a cidade; aí vira nunseiquê com o nome de Cumpádi); em segundo lugar o drama de abordar um mineiro, costumeiramente desconfiado e arredio. Ocorre também seja eu teimoso e em vista disso insisti no Cumpádi, pois o caipira enxerga bem na sombra da noite, assim facilitar-me-ia introduzir-nos na História, a qual é sombra e noite quase sempre.
Até que enfim conquistei, através minha decantada paciência, a confiança do homem.
Ou não teria concretizado a narrativa a seguir, ficando só no que se atém os compêndios de História. O que nada acresceria ao planeta. Nem teria descoberto um sem-número de fatos novos, novos na divulgação porque de mais de duzentos anos.
Para conseguir essa ajuda vali-me dum certo estratagema. O Cumpádi é mineiro da região de Dores do Indaiá como sabemos. Não iria desejar descobrir e ajudar destrinchar acontecimentos mineiros, sobretudo por causa do encontro possível de podridões... E era necessário que pesquisássemos a Mineração Mineira. Aí ocorreu-me uma forma mui usual a conquistar aliados: o presente. Dei-lhe um naco de fumo de corda goiano; sabemo-lo apegado às coisas da terra, pois mineiro é um dos mais patriotas e bairristas na Federação. Usei o ardil chamar atenção ao valor do fumo de Goiás; o que trouxe excelente resultado: destampou, antes, educado, agradeceu-me o presente, destampou a elevar o fumo de sua terra! elevou isto aquilo fez propaganda mineira das coisas mineiras do talento mineiro do gosto mineiro da beleza mineira. Aí encaixei a História Mineira, fisguei o peixe. E o Cumpádi passou desde então a ser o meu mais produtivo auxiliar.
Resultado? Este abordamento.
Resumindo, antes prosseguir, uma descrição suscinta do Belarmino, ‘Bela’ pra mim, preferindo ele ‘Belo’, machista e orgulhoso do talento e glória ter vindo ao mundo homem. Estatura meã, pele queimada do sol, tipo do caboclo comum (sem o xadrez e o riscado das Festas Juninas) chapéu de palha usado, botinas ringideiras, cigarrão de palha aquele cheiro forte a fumaça a subir “fumo mineiro” insiste, cusparada (ah sai de perto!) e por último a fala mole mansa lerda do desconfiismo...
Não obstante foi de alta valia como veremos a seguir.


3° - Visconde de Barbacena
Perguntei a ele se sabia algo do tempo do Visconde de Barbacena, figura marcante da época a ser pesquisada. Respondeu-me com os Emboabas. Contou no seu jeitão as traquinagens de Vila Rica a exploração lusa e a revolta. Redargui estar ele, o Cumpádi, enganado pois a coisa se dera entre 1708-1710, o Visconde decerto nem nascera para a História. Situei nosso assunto entre 1789 e 1792 para tentar provar seu engano. Desandou então a contar o Visconde. Mas aí pelas tantas tanto contar interrompi-o.
Cumpádi, como se chamava o Visconde, visto ser esse um título e não o nome. Uai, disse, Portuga. Corrigi, douto: Luís Antônio Furtado de Mendonça, já antipático à população local. Por roubar? (pergunta meu matuto). Não entendi, respondo, ainda douto. Acontece que ‘Furtado’ não é negócio de roubar! Concordei discordei por ser tão somente um nome, não necessariamente Ladrão. Era sim, concordamos eu e o Cumpádi, haja vista desejar a Derrama. (Precisei explicar ser a cobrança do quinto de ouro atrasado). Mandou para os '‘squintos dos infernos’ e aí necessitei esclarecer-lhe a quintagem e tive exagerar um pouquinho na exploração contra os mineiros. Ele: “nuntinha razão eu? é roubo”. Concordei, ou não sairíamos do Visconde. Ocorre desejasse, como ótimo historiador que sou, saber mais algo do algo que era o alvo. Batemos palmas em casa do Visconde de Barbacena, o Cumpádi bateu.
É aqui, disse, a casa daquele ladrão (como é mesmo o nome todo do ladrão que Ocê falou? Repeti Luís Antônio Furtado de... me interrompeu:) ói a prova. Nesse ponto a criada, uma escrava assustada saía de perto a dar passagem aos Dragões engalanados, supusemos a nos trancafiar e corremos, enquanto fosse tempo. E nos escondemos dias. Aproveitamos a estada no esconderijo a planejar melhor nossa busca histórica. Aqui surgiu porenzinho: eu falava história com ‘h’, ele insistia em estória com ‘e’, contou em voz alta mesmo uma do lobo mau e até fê-lo comer a vovó-zinha a provar seu acerto em meu erro. Cedi, ou éramos achados pela Guarda do Visconde. Pusemos, agora quietinhos falando a língua do silêncio que é baixo às melhores orelhas, pusemos as peças no tabuleiro. Narrei o Tiradentes, declamei seu nome: Joaquim José da Silva Xavier, nascido em 1746, como chegara a Alféres da Cavalaria e ia contar, a nos entender, como chegou a chefiar uma conspiração para derrubar aquele explorar, me cortou a palavra, apenas obtive vitória exigindo-lhe, a fugir dos Dragões, falar baixinho. Não parou entretanto tramelar:
Ele era Tiradentes porque foi arrancar com dor os dentes do Visconde, aí o Visconde de Barbacena, como era mesmo o nome? (Repeti, consegui agora chegar ao Mendonça). Tá-bem, então o José Joaquim (corrigi – Joaquim José) certo e errado: a ordem dos fatores alteram o produto? (Concordei que não, prosseguiu:) nesse ponto, ainda sangrando o dente do Furtador no boticão do Tiradentes, eles se desentenderam de novo. (Por quê, gritei, e me tapei a boca, vai que a soldadesca ainda a nos procurar; ele:) Ocê é burro, não sabe das 538 arrobas de ouro que o ladrãozinho queria cobrar dos mineiros! por isso, não chegaram a um acordo, chegaram sim, chegaram os Dragões (olhamos ambos apavorados em direção do Palácio do Governador Barbacena, não vimos soldados, aí perguntei mais tranquilo ao Cumpádi o negócio dos Dragões:) Ué, agarraram o Tiradentes, quase fizeram ele repor aquele dentão de cavalo no burro do Visconde e prenderam ele. (Puxa, assustei-me, então o Pobre Visconde foi pra cadeia! devo ter sabido errado. Ele:) Errado!? Assim não vai escrever ninhuminha estória (eu corrigi, minucioso, história e ele...) com ‘e’ com ‘h’ é tudo mentira. Ocê sabe que os livros...
Neste ponto não concluiu, concluímos melhor ir para outro sítio, não abusar da sorte, faziam muito barulho por ali, e se fossem os soldados!


4° - Continuação Desviscondada
Já era dia outra vez. Até nesta altura dos acontecimentos fizemos o que fizemos eu e o Cumpádi, fizemos o que todo mundo faz: dorme-se alimenta-se bebe-se defeca-se descansa-se mente-se ouve-se. Às vezes se desentende.
Eu: Cumpádi, paramos naquele ponto do Visconde de Barbacena indo em cana...
Ele: Ocê é mais burro que vaca, homem, e mais teimoso que mula. Quem foi pro xilindró foi o Tiradentes, como o nome dele? (Repeti). Esse. Foi pro museu. (O Museu dos Inconfidentes, intrometi-me a esbanjar Conhecimentos Gerais; Ele abanou a cabeça, tirou a palha picou o fumo enrolou acendeu reacendeu aspirou cuspiu e completou:) foi pros quartos. Primeiro ficou anos preso e depois que virou prisão, um Museu, nunca foi lá Ocê feito turista com máquina de fotografia, lá em Ouro Preto? (Assenti). Então. Porém falo dos quartos: partiram ele em quartos, antes enforcaram ele. (Em pedaços! perguntei afoito). Em picadinho, puseram um pedaço em cada lugar em que vivera. Tem mais – salgaram a casa dele, ora praquê! pra ninguém mais querer ficar nela.
Sugeri irmos ver a prisão a buscar dados históricos. Fomos. Ainda andávamos meio medrosos dos Dragões do Visconde. Mas qual nada, só havia turista vendo o úmido das celas e os objetos. Não encontramos ninguém sábio a nos dar informes ao nosso desiderato, ou seja – a pesquisa a enriquecer a História o teimosão do Cumpádi a falar ‘estória’ já aceitando um bocadinho meu ‘h’ apenas fazendo restrições no ‘H’ grande. Contudo era dispensável tal, pois essas informações podem ser obtidas em livrinhos de grupo escolar, qualquer moleque sabendo. Queríamos algo mais profundo ou quem sabe chocante. Aí tive um clarão de inteligência: lembrei-me dos traidores da causa inconfidente. Andamos, andamos por toda zona aurífera. Paramos a descansar primeiro e depois a rever apontamentos.
Chegamos finalmente à conclusão ter havido dedação contra os rebeldes. Eu a dizer talvez não fosse assim traição, Ele garantindo e batendo o pé na maldade de intenção do Calabar. Aí berrei, pois nem de sobra por perto a Guarda do Visconde, berrei seu ledo engano. Isso, falei educado, é da luta contra os holandeses, o nome certo é Silvério dos Reis. E ainda por cima, insisti,  não é justo fosse chamado traidor. Ele: é o Advogado do Diabo Ocê agora? Usei então minha conhecida lógica – como poderia Reis e outros dois portugueses (declinei seus longos nomes) defender os direitos de sua pátria e serem traidores! Cumpádi ficou a pensar. Tirou da sacola um desbotado livrinho didático, abriu-o na página 24 e leu gaguejando soletrando molhando pontas dos dedos a traição do traidor; aí olhou-me nas alturas da vitória. Encolhi-me na minha ignorância. Resolvi então designorantar-me. Cumpádi, falei, quê aconteceu daí em diante.
Ele: Ocê não perde por esperar. Veja bem (nesse momento imaginei a alta intelectualidade nacional doutorada com honoris causa e tudo, abri melhor as orelhas) veja bem, insistiu, o Visconde, como era o nome todo? (repeti, vencido) esse aí, espertalhão, suspendeu a cobrança do ouro, prendeu com seus Dragões (tornamos a olhar medrosos ambos as imediações e sorrimos confiança) prendeu todos eles e o Tiradentes, é claro. Quem? perguntei avexado e Ele: Alvarenga Peixoto, Tomás Antônio Gonzaga que era juiz, Cláudio Manoel da Costa que era secretário do governador e ainda mais uns outros. Fiquei impressionado com a erudição, erudição até ao cansaço. Parou, enrolou, fumou gostoso, baforou na minha cara fedores, reacendeu várias vezes o cigarrão de palha e rugiu: viu só como sei, ou por outra – como Ocê nada sabe! Sorri amarelo e me defendi como pude:
No entanto foi assim tão simples? Por quê não vamos ver os processos de todos implicados, perguntar aos interessados, afinal devem saber muito que não sabemos, eu nem se fale falo; até Você Cumpádi ganhará numa conversa franca com...
Chega, Asno. Anotou tudinho que vimos? (Fiz sim de cabeça). Então vamos acabar essa porcaria de uma vez, ou nego-me a ajudá-lo para que me ajude a saber meu saber.


5° - Final da Porcaria
Todo final tem a mesma característica: o cansaço de quem chegou ao final. Estava, de meu lado, manquitolando, bolhas nas solas, língua seca, cérebro neutro, que é aquela situação em que ele se nega a receber mais informes e quando insistimos receber vomita besteira embrulha dados; assim vomita a verdade que era meia-verdade e a quase inteira, inteira mentira. Ele, o Cumpádi, decerto encontrava-se cheio, cheio de minha sabedoria, cansado de me ver e correr comigo aos esconderijos anti-Dragões que existem por aí. E ainda concluíra pela Porcaria. Bem, que fazer. Teimoso como sou bati o pé junto ao meu auxiliar de estimação continuarmos na abordagem, quem sabe não estivéssemos no limiar da feitura de um tratado histórico (eu aceitaria mesmo fosse estórico com ‘e’ a contentar o caboclo)  um tratado que surpreendesse Congressos e Universidades, mas qual: não queria prosseguir.
Seu argumento básico – tudo está no livrinho didático do grupo escolar onde fiz a alfabetização. (Mostrou os farrapos tipographicos). Além do mais... Eu voltei-me assustado para ele, Ele completou:
Num vale essa estória uma tragada deste fumo mineiro. Assim falando atirou ao chão a bituca do cigarro.
Perdi meu tempo. E o do freguês que houver lido...
Marília   fevereiro  2004
                                                          


           


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