Abordagem de Tema Histórico
1° - Preâmbulo & Poréns
Não é de meu feitio descartar a mentira
e não lhe dar um trato a elevá-la ao menos ao patamar do engano; nem meu feitio
igualmente prometer a verdade sem descê-la ao menos ao patamar inferior do
engano. Em outras palavras, é a meu ver temerário afirmar categoricamente um
dado. Melhor analisá-lo bem e só daí em diante (garanti-lo nunca!) esperar a
conclusão sábia do leitor. Isto é válido a estudar um fato histórico – no caso
os possíveis desmandos na época do ouro mineiro, o século dezoito, mais ainda
sob orientação administrativa do Visconde de Barbacena. Trata-se dum intrincado
a vida então e difícil a destrinchar.
Em nível científico, histórico ao pé da
letra, requer cuidado para não ferir a realidade. Em nível de prosa tão só é
preciso não ferir a poesia. Em ambos casos não ferir, não ferir mesmo a
linguagem.
Aí ocorre a primeira dificuldade. Como
chegar ao âmago, como desenvolver ideias, como não desprezar quesitos miúdos em
não manchar o todo! Bem, aqui encaixo certa cunha (claro, sendo linguagem
figurada) a me ajudar levantar o peso da verdade, despojá-la da mentira, livrar
tudo do engano. Porque sem tal auxílio impossível tratar a História da Época,
descartando o ranço e a poeira, apenas usando a usada técnica da pesquisa
simples, usada e surrada de usada, a obter a documentação, para enfim
divulgá-la. Pois me proponho a encontrar facetas não exploradas e não
registradas nos compêndios pertinentes. Então dar à luz mesmo o fato.
Valer-me-ei da citada cunha, talvez em
infeliz vocábulo, a cunha que é o Compadre Belarmino. O qual nos ajudará, a mim
primeiro depois ao Leitor, a entender as coisas sem as agruras das coisas,
evitando as asperezas do tratamento científico; outrossim com ajuda do
linguajar do povo; para em final dar o recado adequadamente ao conhecimento.
2° - Cumpádi
Foi uma dificuldade imensa contatar o
Compadre Belarmino, ‘Cumpádi’ como diz ele próprio, parecendo fácil e encontradiço
um tipo do homem do povo; mas houve problema primeiro por ser uma espécie em
extinção (o caboclo foge para a cidade vira não sei o quê, quer dizer: deixando
ser caipira e não se torna burguês não aceitando a cidade; aí vira nunseiquê
com o nome de Cumpádi); em segundo lugar o drama de abordar um mineiro, costumeiramente
desconfiado e arredio. Ocorre também seja eu teimoso e em vista disso insisti
no Cumpádi, pois o caipira enxerga bem na sombra da noite, assim facilitar-me-ia
introduzir-nos na História, a qual é sombra e noite quase sempre.
Até que enfim conquistei, através minha
decantada paciência, a confiança do homem.
Ou não teria concretizado a narrativa a
seguir, ficando só no que se atém os compêndios de História. O que nada acresceria
ao planeta. Nem teria descoberto um sem-número de fatos novos, novos na
divulgação porque de mais de duzentos anos.
Para conseguir essa ajuda vali-me dum
certo estratagema. O Cumpádi é mineiro da região de Dores do Indaiá como sabemos.
Não iria desejar descobrir e ajudar destrinchar acontecimentos mineiros,
sobretudo por causa do encontro possível de podridões... E era necessário que
pesquisássemos a Mineração Mineira. Aí ocorreu-me uma forma mui usual a conquistar
aliados: o presente. Dei-lhe um naco de fumo de corda goiano; sabemo-lo apegado
às coisas da terra, pois mineiro é um dos mais patriotas e bairristas na
Federação. Usei o ardil chamar atenção ao valor do fumo de Goiás; o que trouxe
excelente resultado: destampou, antes, educado, agradeceu-me o presente, destampou
a elevar o fumo de sua terra! elevou isto aquilo fez propaganda mineira das
coisas mineiras do talento mineiro do gosto mineiro da beleza mineira. Aí
encaixei a História Mineira, fisguei o peixe. E o Cumpádi passou desde então a
ser o meu mais produtivo auxiliar.
Resultado? Este abordamento.
Resumindo, antes prosseguir, uma
descrição suscinta do Belarmino, ‘Bela’ pra mim, preferindo ele ‘Belo’,
machista e orgulhoso do talento e glória ter vindo ao mundo homem. Estatura
meã, pele queimada do sol, tipo do caboclo comum (sem o xadrez e o riscado das
Festas Juninas) chapéu de palha usado, botinas ringideiras, cigarrão de palha
aquele cheiro forte a fumaça a subir “fumo mineiro” insiste, cusparada (ah sai
de perto!) e por último a fala mole mansa lerda do desconfiismo...
Não obstante foi de alta valia como
veremos a seguir.
3° - Visconde de Barbacena
Perguntei a ele se sabia algo do tempo
do Visconde de Barbacena, figura marcante da época a ser pesquisada. Respondeu-me
com os Emboabas. Contou no seu jeitão as traquinagens de Vila Rica a exploração
lusa e a revolta. Redargui estar ele, o Cumpádi, enganado pois a coisa se dera
entre 1708-1710, o Visconde decerto nem nascera para a História. Situei nosso
assunto entre 1789 e 1792 para tentar provar seu engano. Desandou então a
contar o Visconde. Mas aí pelas tantas tanto contar interrompi-o.
Cumpádi, como se chamava o Visconde,
visto ser esse um título e não o nome. Uai, disse, Portuga. Corrigi, douto:
Luís Antônio Furtado de Mendonça, já antipático à população local. Por roubar? (pergunta
meu matuto). Não entendi, respondo, ainda douto. Acontece que ‘Furtado’ não é
negócio de roubar! Concordei discordei por ser tão somente um nome, não necessariamente
Ladrão. Era sim, concordamos eu e o Cumpádi, haja vista desejar a Derrama. (Precisei
explicar ser a cobrança do quinto de ouro atrasado). Mandou para os '‘squintos
dos infernos’ e aí necessitei esclarecer-lhe a quintagem e tive exagerar um pouquinho
na exploração contra os mineiros. Ele: “nuntinha razão eu? é roubo”. Concordei,
ou não sairíamos do Visconde. Ocorre desejasse, como ótimo historiador que sou,
saber mais algo do algo que era o alvo. Batemos palmas em casa do Visconde de
Barbacena, o Cumpádi bateu.
É aqui, disse, a casa daquele ladrão (como
é mesmo o nome todo do ladrão que Ocê falou? Repeti Luís Antônio Furtado de...
me interrompeu:) ói a prova. Nesse ponto a criada, uma escrava assustada saía
de perto a dar passagem aos Dragões engalanados, supusemos a nos trancafiar e
corremos, enquanto fosse tempo. E nos escondemos dias. Aproveitamos a estada no
esconderijo a planejar melhor nossa busca histórica. Aqui surgiu porenzinho: eu
falava história com ‘h’, ele insistia em estória com ‘e’, contou em voz alta
mesmo uma do lobo mau e até fê-lo comer a vovó-zinha a provar seu acerto em meu
erro. Cedi, ou éramos achados pela Guarda do Visconde. Pusemos, agora quietinhos
falando a língua do silêncio que é baixo às melhores orelhas, pusemos as peças
no tabuleiro. Narrei o Tiradentes, declamei seu nome: Joaquim José da Silva
Xavier, nascido em 1746, como chegara a Alféres da Cavalaria e ia contar, a nos
entender, como chegou a chefiar uma conspiração para derrubar aquele explorar,
me cortou a palavra, apenas obtive vitória exigindo-lhe, a fugir dos Dragões,
falar baixinho. Não parou entretanto tramelar:
Ele era Tiradentes porque foi arrancar
com dor os dentes do Visconde, aí o Visconde de Barbacena, como era mesmo o
nome? (Repeti, consegui agora chegar ao Mendonça). Tá-bem, então o José Joaquim
(corrigi – Joaquim José) certo e errado: a ordem dos fatores alteram o produto?
(Concordei que não, prosseguiu:) nesse ponto, ainda sangrando o dente do
Furtador no boticão do Tiradentes, eles se desentenderam de novo. (Por quê,
gritei, e me tapei a boca, vai que a soldadesca ainda a nos procurar; ele:) Ocê
é burro, não sabe das 538 arrobas de ouro que o ladrãozinho queria cobrar dos mineiros!
por isso, não chegaram a um acordo, chegaram sim, chegaram os Dragões (olhamos
ambos apavorados em direção do Palácio do Governador Barbacena, não vimos soldados,
aí perguntei mais tranquilo ao Cumpádi o negócio dos Dragões:) Ué, agarraram o
Tiradentes, quase fizeram ele repor aquele dentão de cavalo no burro do
Visconde e prenderam ele. (Puxa, assustei-me, então o Pobre Visconde foi pra cadeia!
devo ter sabido errado. Ele:) Errado!? Assim não vai escrever ninhuminha
estória (eu corrigi, minucioso, história e ele...) com ‘e’ com ‘h’ é tudo
mentira. Ocê sabe que os livros...
Neste ponto não concluiu, concluímos
melhor ir para outro sítio, não abusar da sorte, faziam muito barulho por ali,
e se fossem os soldados!
4° - Continuação Desviscondada
Já era dia outra vez. Até nesta altura
dos acontecimentos fizemos o que fizemos eu e o Cumpádi, fizemos o que todo
mundo faz: dorme-se alimenta-se bebe-se defeca-se descansa-se mente-se ouve-se.
Às vezes se desentende.
Eu: Cumpádi, paramos naquele ponto do
Visconde de Barbacena indo em cana...
Ele: Ocê é mais burro que vaca, homem, e
mais teimoso que mula. Quem foi pro xilindró foi o Tiradentes, como o nome
dele? (Repeti). Esse. Foi pro museu. (O Museu dos Inconfidentes, intrometi-me a
esbanjar Conhecimentos Gerais; Ele abanou a cabeça, tirou a palha picou o fumo
enrolou acendeu reacendeu aspirou cuspiu e completou:) foi pros quartos.
Primeiro ficou anos preso e depois que virou prisão, um Museu, nunca foi lá Ocê
feito turista com máquina de fotografia, lá em Ouro Preto? (Assenti). Então.
Porém falo dos quartos: partiram ele em quartos, antes enforcaram ele. (Em
pedaços! perguntei afoito). Em picadinho, puseram um pedaço em cada lugar em
que vivera. Tem mais – salgaram a casa dele, ora praquê! pra ninguém mais querer
ficar nela.
Sugeri irmos ver a prisão a buscar dados
históricos. Fomos. Ainda andávamos meio medrosos dos Dragões do Visconde. Mas
qual nada, só havia turista vendo o úmido das celas e os objetos. Não encontramos
ninguém sábio a nos dar informes ao nosso desiderato, ou seja – a pesquisa a
enriquecer a História o teimosão do Cumpádi a falar ‘estória’ já aceitando um
bocadinho meu ‘h’ apenas fazendo restrições no ‘H’ grande. Contudo era
dispensável tal, pois essas informações podem ser obtidas em livrinhos de grupo
escolar, qualquer moleque sabendo. Queríamos algo mais profundo ou quem sabe chocante.
Aí tive um clarão de inteligência: lembrei-me dos traidores da causa
inconfidente. Andamos, andamos por toda zona aurífera. Paramos a descansar
primeiro e depois a rever apontamentos.
Chegamos finalmente à conclusão ter
havido dedação contra os rebeldes. Eu a dizer talvez não fosse assim traição,
Ele garantindo e batendo o pé na maldade de intenção do Calabar. Aí berrei,
pois nem de sobra por perto a Guarda do Visconde, berrei seu ledo engano. Isso,
falei educado, é da luta contra os holandeses, o nome certo é Silvério dos
Reis. E ainda por cima, insisti, não é
justo fosse chamado traidor. Ele: é o Advogado do Diabo Ocê agora? Usei então minha
conhecida lógica – como poderia Reis e outros dois portugueses (declinei seus
longos nomes) defender os direitos de sua pátria e serem traidores! Cumpádi
ficou a pensar. Tirou da sacola um desbotado livrinho didático, abriu-o na
página 24 e leu gaguejando soletrando molhando pontas dos dedos a traição do
traidor; aí olhou-me nas alturas da vitória. Encolhi-me na minha ignorância.
Resolvi então designorantar-me. Cumpádi, falei, quê aconteceu daí em diante.
Ele: Ocê não perde por esperar. Veja bem
(nesse momento imaginei a alta intelectualidade nacional doutorada com honoris causa e tudo, abri melhor as
orelhas) veja bem, insistiu, o Visconde, como era o nome todo? (repeti,
vencido) esse aí, espertalhão, suspendeu a cobrança do ouro, prendeu com seus
Dragões (tornamos a olhar medrosos ambos as imediações e sorrimos confiança)
prendeu todos eles e o Tiradentes, é claro. Quem? perguntei avexado e Ele:
Alvarenga Peixoto, Tomás Antônio Gonzaga que era juiz, Cláudio Manoel da Costa
que era secretário do governador e ainda mais uns outros. Fiquei impressionado
com a erudição, erudição até ao cansaço. Parou, enrolou, fumou gostoso, baforou
na minha cara fedores, reacendeu várias vezes o cigarrão de palha e rugiu: viu
só como sei, ou por outra – como Ocê nada sabe! Sorri amarelo e me defendi como
pude:
No entanto foi assim tão simples? Por
quê não vamos ver os processos de todos implicados, perguntar aos interessados,
afinal devem saber muito que não sabemos, eu nem se fale falo; até Você Cumpádi
ganhará numa conversa franca com...
Chega, Asno. Anotou tudinho que vimos?
(Fiz sim de cabeça). Então vamos acabar essa porcaria de uma vez, ou nego-me a
ajudá-lo para que me ajude a saber meu saber.
5° - Final da Porcaria
Todo final tem a mesma característica: o
cansaço de quem chegou ao final. Estava, de meu lado, manquitolando, bolhas nas
solas, língua seca, cérebro neutro, que é aquela situação em que ele se nega a
receber mais informes e quando insistimos receber vomita besteira embrulha dados;
assim vomita a verdade que era meia-verdade e a quase inteira, inteira mentira.
Ele, o Cumpádi, decerto encontrava-se cheio, cheio de minha sabedoria, cansado
de me ver e correr comigo aos esconderijos anti-Dragões que existem por aí. E
ainda concluíra pela Porcaria. Bem, que fazer. Teimoso como sou bati o pé junto
ao meu auxiliar de estimação continuarmos na abordagem, quem sabe não
estivéssemos no limiar da feitura de um tratado histórico (eu aceitaria mesmo
fosse estórico com ‘e’ a contentar o caboclo)
um tratado que surpreendesse Congressos e Universidades, mas qual: não
queria prosseguir.
Seu argumento básico – tudo está no
livrinho didático do grupo escolar onde fiz a alfabetização. (Mostrou os
farrapos tipographicos). Além do mais... Eu voltei-me assustado para ele, Ele
completou:
Num vale essa estória uma tragada deste
fumo mineiro. Assim falando atirou ao chão a bituca do cigarro.
Perdi meu tempo. E o do freguês que
houver lido...
Marília fevereiro
2004
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