sexta-feira, 12 de julho de 2019

Com Todo Rigor


Com Todo Rigor

I - Eu sou o outro. Como? sendo o outro. Em geral nós somos nós. Eu sou eu, dizem ou escrevem porque realmente quando se diz não se diz, não se deixa dizer, apenas se diz. Para a gente ser tem de ser um ouvido (dois?) o outro existe. Pensa conta insiste reconta prova torna enriquece o falar. Depois nos diz na despedida: foi ótimo conversarmos. Hoje sou o outro: eu falo. Falo aproveitando-me de seus ouvidos. Fechou os olhos? melhor; tenho experiência no setor: ouve-se melhor em pálpebras descidas.
Não abra seus olhos, seu olho direito eu sei o esquerdo é cego mesmo arregalado, o direito. É minha vez de falar. falei anos... naqueles tempos.
Falava impunha dispunha, meus bens davam-me esse direito. Meu lastro eram as terras, imóveis na cidade, as contas bancárias, créditos, a honra, o nome. a fazenda além do rio ah... Todavia o que mais contava era a família. Família com ‘F’ grande, não tem isso de efe maiúsculo? Decerto não existe apenas agá maiúsculo de homem, não é assim? Eu também possuía agá de homem, pois era o chefe do clã. Não acredita?
Bem, agora estamos na enfermaria em meio ao perfume do éter ao som dos ais, sem pressa. Não tenho pressa: não tem? Não precisa resposta. Prossigo. Vá escutando.
Aquela riqueza toda, imensa; honesta, devo dizer, tinha poder. A família honrada e eu reconhecido, eu era um doutor (com D maiúsculo, pela minha importância devia ser maiúsculo) não um doutor médico e muito menos com título de advogado comprado, não. Não se tratava de comendador com rios; uma professorinha me falava a explicar a coisa: o homem rico entrega ao papa rios de dinheiro e ele vira comendador! eu molequinho ainda ficava abismado pela grandiosidade. Não comendador com rios. Não era formado, nunca cheguei ao quarto ano, deixei os bancos escolares na terceira série, fiquei rico e passei a ter importância por isso. A família era importante por causa dessa minha importância. Ou ao contrário? Sei .
Tinha esposa, um ser ilibado e grandioso. Parideira pra danar! Tem mulher que não pode ver cueca, engravida... Ela era quase assim. Bem, eu não vestia cueca, ceroula. Nós não usávamos essas coisas de hoje em dia para evitar filhos, você usava?
Nãodormir de verdade, tenho muito a falar. Fique de olhos fechados se quiser mas de ouvidos abertos; sou agora o outro.


II – Voltemos à família.
Eu falava nela, não é? Disse que a mulher era parideira. E direita. Não tinha na região criatura mais honesta, zelosa do seu nome, quer dizer: do meu. Bonita?
Que é ser bonito. Bom tema. Se tomarmos uma bela fêmea asiática é possível nos seja passável e mesmo feia. Uma africana? Enfim sabemos que todas têm sua beleza. Eu arriscaria dizer não existência de fêmea feia. Um pouco abusivo talvez. Um dia encontrei, dentro dessa teoria, um canhão. Tudo que imaginar de medonho ou ao menos desgracioso a garota, era jovem duns dezenove anos, tudo possuía a infeliz para desagradar. caiu portanto meu cachimbo, pois não afirmava não existir mulher feia, feia de verdade! essa era, meu Deus como era gritantemente feia. Mas eis que – estando eu espreitando, educadamente veja bem, pelo buraco da fechadura, melhor dizendo uma dada frincha nas tábuas do quarto de madeira da moça, eis que vejo umas mãos delicadas e belas! estava salva minha teoria da bela sempre bela.
Onde estávamos mesmo? onde quando me interrompeu; sejamos sinceros, eu me interrompi. Lembrei-me, na beleza. A gente nunca sabe definir. Ela era bonita. Quem? ora, minha legítima esposa. Ah me lembro agora o amigo estar podendo pensar que eu fosse enxerido em ver, tentar ver, a moça feia trocando de roupa e mostrando a belezura das mãos – e é engano. Engano que ela estivesse se despindo? não, é engano que um senhor macho do gabarito moral de proprietário abastado e provedor de uma casa importante com mulher honesta e bela como minha esposa, estivesse a olhar pelo buraco. Quem olhava pelo buraquinho era um jovem adolescente faminto de mulher e na época pobre, não paupérrimo e misérrimo, pobre e carente do amor feminino a ponto de olhar com medo em ser descoberto a medonha dita e citada. Eu. Eu antes de ser eu, íntegro chefe do clã, como  registrei. Agora, que minha esposa era bela... Bonita, com certeza.
Bonita. Quando moçaera moça de verdade, no tempo somente se aceitava virgens; não sendo, era devolver a mercadoria aos pais após a noite nupcial; até a lei amparava a devolução. Moça, moça. Família boa, me trouxe muito contos de réis em dote; eu possuía bastantinho, fiquei milionário. E a beleza dela também ganhei. Meio bobinha, pois não passava duma meninota: eu é quem ensinou a ela as coisas que se deve fazer na cama. Ela aprendeu bem. logo engravidou, tornou engravidar, emprenhou meia dúzia de vezes, perdeu meia dúzia em abortos; e assim mesmo tinha filho de toda idade. Parideira. Isso não precisei ensinar a ela. Aliás, sejamos sensatos, os homens não apreciam suas fêmeas parturientes. Eu mesmo fugia de medo; medo que eu rotulava com outro nome dizendo não querer atrapalhar a parteira. Quando nos mudamos para a vila e posteriormente para a cidade não era mais parteira era maternidade e doutor médico que cuidava dela. Uma meninada. Falei que era parideira? era parideira.
Botou mais de dúzia de filhotes do papai aqui, falo com orgulho: eu era um garanhão emprenhador. entre nós, não fiz filhos com a mulher, nas mulheres por ... Ninguém provou nada, entretanto. O delegado era meu amigo, o advogado da vila me defendia. Meu dinheiro pagava tudo. Também não devo ter remorsos; primeiro eu próprio não saberia se as crianças eram de meu sangue se do sangue dos maridos fáceis das mães delas. Hoje tem esse negócio do exame do DNA porém não tenho conhecimento direito disso e na época não existia. Vá escutando.
Você me parece com sono. Mas aguente um pouco vou acabar logo esta narrativa.


III  Acorde. Vou falar da minha casa. Casa de respeito, coisa séria. Eu mandava, todos obedeciam. A mulher, agora olho para trás com pena dela, a patroa tremia quando eu falava. Menino? ninguém alevantava a crista ao pai. Eu falava, tava falado. Às vezes não tinha razão, não obstante não voltava atrás e ainda grunhia um “hummmm” que todos entendiam. Todos entendiam melhor a correia, uma correia de couro cru grossa e pesada para amarrar aqueles bauzões. Na época cada família tinha seu ponto de honra: numa era a cinta, noutra sua varinha de marmelo, sem falar no grão de milho, na palmatória, na xingação geral, no choro. Em minha casa nãonão existia meios termos: a correia; a correia enroscada no quartinho de despejo, onde a gente punha toda coisa sem lugar: lugar da correia, a terrível correia. E a meninada sabia quando o pai, eu, olhava feio para o quartinho... Tremia-se, às vezes para castigar um dos meus faltosos, por exemplo em haver trazido fumo fraco para meu cachimbo, enfim a castigar um, castigava todos. Na mulher nunca batia, duas vezes em quarenta anos de consórcio. Foi no entanto o suficiente para marcá-la. Agora, nos nossos filhos cansei, isso mesmo, cansei em bater, sobretudo no segundo dos meninos. Portanto, tomava a correia e impunha moral. Tudo rígido
Como lhe disse, meu caro, em casa tudo era de uma rigidez. Eu entrava no lar, punha meus pés no primeiro degrau da porta, todos se calavam, ou inventavam o quefazer. As crianças, as petiticas então, ficavam brancas de temor, mesmo as pretas por ali brincando com os meus, tornavam-se brancas com medo. Os empregados da fazenda não abriam a boca, eu sempre tinha razão.
Com razão, não ria à toa, contava as coisas aos companheiros mais chegados. Mesmo estes me respeitavam. Eu era de respeito, alta moral. Não admitia sequer um cisco na engrenagem doméstica nem nos domínios dos negócios. Pagava recebia negaciava negociava, mas tudo em pratos limpos. Fazia valer o famoso fio de barba. expressão, pois nunca fui barbudo; digo isso sim que exigia o preto no branco, recibos essas coisas. Em suma rigor, rigor nos negócios, rigor na moral, rigor na honra, rigor nos compromissos, rigor em casa e rigor fora de casa. Até me chamavam coronel, não tanto pelo dinheiro abundante, pelo meu tratamento com todos – parentela compadres amigos e autoridades.
Agora, nada faltava. Dinheiro, comida, fartura sem esbanjamento, corrigenda. Nada faltava. Eu era pródigo em exigir. Assim a família funcionava. Isso na roça.


IV   Arregace as orelhas, vou contar sobre a mudança à cidade.
Um belo dia resolvi transferir os meus para melhor lugar. As crianças estavam grandinhas precisando de escola. Nunca fui com esse costume de mandar os filhos desregrar na cidade para estudar, voltar doutor e engolir o dinheiro do pai. Nunca. Elas estavam grandes precisando aprender, tinha menino mamando ainda, era o último, a mulher havia contraído nunseiquê no útero e nos ovários e o médico trazido para a examiná explicou-me que não emprenharia mais, o que apreciei bastante, enfim não estava disposto a povoar sozinho o planeta. Então decidi levar minha gente para a cidade. Aliás não era somente pela escola: tinha brigado com um vizinho, um fazendeiro ladrão, eu nunca fui com ladrão; se ficasse morando na sede das minhas terras iria espetar o sujeito com meu punhal (e tinha a garrucha também debaixo do travesseiro) e fora isso, ficando, teria de  aguentar falatório, não dava, pensei mudar. Falavam, diziam os meus compadres que falavam, falavam que o filho mais novo do besta que eu pretendia apunhalar era meu, o que não deixava de ser apenas intriga de faladores, pois eu nunca havia dormido com a mulher dele, por sinal eu não gostava de loiras ela era uma branquela sem graça; portanto falatório sem sentido. Para evitar aumento do desentendimento, pensei mudar.
Uma semana depois resolvera ir embora e comuniquei a esposa para pôr o pessoal ir colocando tudo em caixotes e nas malas, a gente possuía muitos baús. Fui tratar dos negócios, dar ordens, instruir um compadre de confiança para gerir a fazenda bem como se mudar ele com a família para a sede; sabe, a comadre deitava beiço pro meu lado fazia tempo, acho que foi a razão de eu haver escolhido esse compadre e não outro para o trabalho de adminstração. Enfim pus tudo nos trinques e determinei a transferência três dias depois. Ah foi uma mudança e tanto: cinco carroções com os trecos e um carro de praça puxado por belos animais levando meu pessoal. Na frente eu e a mulher, então não muito bela, e o bebê mamando toda hora. Aliás em casa ela amamentava até os dois anos, o segundo filho que sempre foi rebelde desde pequeno não mamava, mamava na mamadeira com leite de cabra e vivia com diarreia. Os outros eram uns bezerros sugando dia e noite as tetas volumosas da mulher. Mas a velha, vou chamá-la velha pois envelhecera bem, ela dava muitíssimo leite.
Bem, fomos para a vila. Ficamos meses, nem um ano, eu estava perto demais da fazenda, perto demais do meu inimigo e perto demais de sua loira magrela. Além do mais a dor de cabeça pelas encrenquinhas ligadas à moral daquele gentalha emporcalhada, aquele probleminha que falei , o de que muitas mulheres sem eira nem beira desejavam que seus filhos fossem meus bastardos; fato que me azucrinava bastante, isso tudo me chateava. Embora eu estivesse bem posicionado na sociedade e tendo muita razão: a mulher enfeitava a cada ano ou se encontrava barriguda sempre, eu não era de ferro e precisava ‘capim novocomo falam... Resolvi partirmos para a cidade de uma vez.
Foi nova caravana em mudança. que o mais novo mamava pouco e comia papinhas e frutas, dando mais trabalho. Assim mesmo a viagem se fez; embora cansativa.


V   Chegamos à cidade.
Você está me ouvindo? Porque às vezes temo que não esteja escutando... Enfim vamos ao que interessa.
Chegamos, eu, minha bela esposa não demais bela, e a filharada, por mais de dúzia, sempre esqueço a quantia certa porque alguns morreram no caminho do mundo, uns antes mesmo de nascer, é sabido que homem não costuma guardar tudo certinho. A mulher pelo contrário lembra muito, sobretudo data de nascimento e cobra a gente por não se lembrar; e a minha esposa não tinha dessas frescurinhas, eu olhava para a correia e para ela, ela nem me cobrava... sim é comum as mulheres lembrarem tudo: nascimento crescimento nomes apelidos problemazinhos doenças briguinhas, ah uma infinidade de coisas relacionadas à prole. Eu não. Ela. Ela precisava até cores, momentos daquelas vidinhas. Eu? xi, os negócios. Negócios e atrapalhadas havidas com as filhas dos colonos e dos vizinhos. De negócio isso eu sabia, ninguém como eu. Assim foi que fiz crescer e mais crescer a fortuna. Entendia de criação, enfim do gado, entendia do eito, entendia de limites de terra, entendia muitíssimo de produção. Fiz lucro grande com lucro na venda e lucro na compra comprando por menos, pagando o mínimo possível aos meus incapazes trabalhadores. Uma vez tive de bater num deles (não com a correia, usei o chicote, pois estava a cavalo) bati sem , o sujeito pretendia ter saldo credor quando se mudava de minhas terras para outra fazenda. Dei-lhe umas boas lambadas; e não se falou mais nisso. Eu era respeitado. Enfim chegamos.
Aonde? ora, na cidade, não falei que estávamos de mudança? Na cidade tive foi muitas casas e terrenos nem se fala, quase um bairro inteiro era meu, deixava para valorizar e vender no momento que pegasse preço alto. Agora, casa de aluguel eu não apreciava demais, precisava sempre estar brigando com o inquilino para pagar o que devia e para subir a renda; terreno era melhor pra mim. De qualquer forma representava riqueza, emprego garantido de valor. Pus também dinheiro a juros e me acusaram de agiotagem. Na casa maior, em plena praça central, é que fomos morar no começo. Aquela perto do banco. Grandalhona; assim mesmo precisei construir mais cinco quartos pelo excesso da ninhada. falei que eu era garanhão? Era moleque pra todo lado gritando; e brigando. Ah eu não havia esquecido na roça a correia; as crianças sabiam disso. Eu  precisava acalmar meu povo e também exercitar meus músculos. que na cidadeum problema: queixa de vizinhos às autoridades. Na cidade tem gente muito arrelienta, não aceita um pai educar e corrigir um filhote (por essa época eu não batia mais na mulher; quer dizerela não precisava mais apanhar de correia, mesmo quando desejava defender seus pimpolhos); se fosse endireitar uma filha, um Deus nos acuda! Porém não tinha questão alguma com as meninas, nenhuma das sete, não me lembro bem agora, parece que eram sete ou oito, tinha as enterradas na igreja da vila, tinha as que nem nasceram, perdi a conta. Nas meninas batia vez que outra; a conta a gente acertava mesmo era com os machos, uns carinhas endiabrados, eu falava que eles haviam puxado os parentes dela, para pisar na cara-metade e, suponho, suponho, ela achava haverem puxado ao meu lado... Enfim, esse foi o primeiro grande problema encontrado pela minha família na cidade, ou seja os vizinhos metendo o bedelho na minha vida, em meu direito em sovar os filhos. Verdade se diga, eu tinha as mãos um pouco pesadas, provoquei muito choro e sangramento nos pequenos. Nos pequenos? não tanto assim. Até nos grandes. Bati de correia no mais velho tendo me dado dois netos! No segundo não; ou melhor, ele me enfrentava, me enfrentou; por sorte minha ele era raquítico e  levou a pior. No outro dia a velha veio chorando me falar que o safado fugira de casa. Fiquei enraivecido. Não sei se por minha mulher vir reclamar comigo e chorar na minha hora de relaxar no sofá, ela que nunca abria a boca, eu não dava esse direito a ela, falei que era pelo rigor; não sei se porque o cafajeste houvesse abusado de minha autoridade fugindo como um criminoso – fiquei foi bravo. Enfim xinguei todos os parentes da esposa e a ela para concluir. Calou-se, foi chorar no quarto. Não pude me relaxar bem aquela tarde. Ficamos um mês sem nos falar: ela mandava a garota mais velha me avisar o almoço pronto; eu mandava recado pelo moleque do meio, o mais velho abaixo do fujão. Até que ela teve de ceder.
Foi assim, você está prestando atenção? Foi assim: um dia o de colo ficou doentinho precisava médico e farmácia, ela me mandou a menina pegar comigo dinheiro e não dei. No outro dia, eu andava precisando mulher, na cidade é mais difícil essas coisas: as jovens não querem velhotes casados, mesmo com dinheiro, pois não desejam ficar mal na sociedade; naquele tempo, mesmo no meio urbano, o ingresso aos braços feminis com aliança e padre.  É claro tinha as prostitutas mas lembrei a minha rigidez moral, não podia me expor... Verdade que eu estava muito mal visto, coisa comum em cidades pequenas, o que para mim era injusto, falei que a moral em casa andou sempre rígida, não falei? Injustiça. Pois é, precisava de fêmea, embora não quisesse dar os braços a torcer e portanto a esposa descansava de mim. Eu andava no meu limite, fazia mês não conversava com ela. Então negociei. Mandei em resposta a outro pedido  de numerário a encher as burras do boticário, mandei falar que a mãe de minha filha tivesse azeitado o porta-joias (inexistente, linguagem em código, para que a menina não soubesse o que o pai dela falava...) que o pai iria pessoalmente entregar à mãe dela o dinheiro e aproveitaria para secar o óleo no estojo dela. A garota não entendeu realmente a mensagem porém uma hora depois a esposa mandava o pagamento ao farmacêutico. Enfim, tudo dentro de meus rigores. Não falei ser rigoroso?


VI - Você, oh dorminhoco, você pensa que o episódio do porta-joias resolveu o nosso relacionamento?
Puro engano. O casal não se entrosou mais. Tinha o negócio do porta-joias, você poderia lembrar, não fosse um dos seus ouvidos fechados. Eu poderia conversar minha mulher; na pior das hipóteses, hipótese pouco provável e terrível para mim, eu poderia exigir meus direitos de marido e senhor. Ela entretanto, vá escutando amigo, ela daí por diante foi sempre negaciando... Alegar frieza sexual não é o bastante. Pro meu entender, até insólito: sim insólito, porque eu havia ensinado minha companheira e ela no decorrer da vida de casados virou mestra, sabia para ensinar as coisa do amor. Uma vez achei-a por demais fogosa; por essa ocasião foi que bati nela; com a correia é claro, pela segunda vez. As crianças ficaram assustadas os pequenos abriram um berreiro tive de mostrar a correia a elas também para se calarem... Isso prova que ela não era fria e muito menos gelada. Negaciava. Negaciava sem coragem negociar. Acho que se ela começasse com coisinhas partiria a dar-lhe a terceira surra com a correia.
Não foi necessário uma surra. Porque apareceu na casa uma criadinha nova, bonitona, e eu dei sossego àquela brigona. Depois eu conto isso a você. Talvez não conte, você como amigo poderia pretender explicações de nível moral; eu poderia me defender escondendo-me na idade... na minha idade atual. Melhor voltar aos entreveros com minha esposa. entram crianças.


VII  Por quê?
Acho essa indagação que o colega teria na cabeça... Não precisa sequer abrir seus olhos, tem direito, bem entendido, para formular a pergunta. Mas é o óbvio: por que motivo?
Criança, criança enche os olhos dos pais de cisco. É comum acontecer. Em muitas famílias desentende-se amiúde por um dos cônjuges ter apego a um dos filhos ou porque acha haver prejuízo ou desinteresse do outro no casal por outrinho. Parece bobagem que se brigue, marido e mulher, por causa dos filhotes, os quais são dos dois. Filho não é nem de um nem de outro, é dos dois. Nesse caso deveria haver uma ligação mais intensa do pai e da mãe na criança. Ora está a crônica social para desmistificar mostrando invejas rixas perseguições, defesas apaixonadas como para um clube esportivo, de um lado e de outro. O pior seria ambos os lados macho e fêmea hostilizar igualmente seus filhos. E o pior é que tem desse pior!
Bem. Em casa? Havia muito disso. Eu não aceitava que ela carinhasse mais as meninas em detrimento dos garotos. A primeira vez que esquentei o lombo da mulher, com a correia, não contei? a primeira vez foi por causa disso. Nesse dia bati na mãe e nas filhas da mãe, assustando até nossas comadres, verdade que eu havia bebido uma pinga do engenho dum compadre mas não devo culpar a aguardente por isso: tão só a proteção da mãe de minhas filhas para elas. Então castiguei severamente todas as fêmeas da casa, sobraria até para as criadas, elas correram para as casas da colônia, bati em todas filhas – a petitica eu fiz ficar no berço sem direito à teta materna três horas! não cabia usar a correia na nenezinha. Veja o amigo, eu era justiceiro mas amigo sobretudo da justiça. E do rigor moral em minha casa. Como eu dizia surrei as fêmeas e poupei os machos, coisa incomum, pois o comum no meu proceder era gastar a correia em todos os filhos, democraticamente. Não, democraticamente é indevido; batia mais naquele mais ostensivamente culpado e menos nos outros sem culpa como exemplo; mostrando isso que o pai de família, eu, era equitativo. Como falei: rigor e justiça.
Dessa forma minha cambada foi crescendo. Ninguém podia falar mais alto que eu. Verdade que houve tentativa de se prevalecerem nas ocasiões de bebedeira. A correia entretanto punha os pingos nos ii.
Punha, digo a você, punha. Não consertava a nossa vida amorosa, nós o casal; foi depreciando a relação até que – imagine ! – ela quis advogado, quis separação, quis a parte dela como fosse ela quem houvesse ajuntado a fortuna, quis pensão; e pasme amigo meu, quis o marido... o pai dos filhos dela, até da porcaria daquele fujãozinho, pai do fujão, não contei que o segundo filho, um que sempre me provocava e me dava trabalho, depois que me enfrentou e fugiu, não falei nisso? talvez tenha me esquecido falar ando com a memória ruim nestes tempos, antes mesmo de vir parar nesta cama fedorenta e ser seu companheiro. Pois é, como eu dizia, a dona minha esposa, então feia para meu gosto, ela quis o marido separado dela! E inclusive o magricela do advogado fez tudo para ficar com a causa dela, essa gente fareja dinheiro até onde não existe, e no meu caso tinha sim e mesmo muito dinheiro. Teve mais: mostrou-se apaixonado por aquilo! Ah como me lembrei da correia de couro cru... Arrancaria o couro do almofadinha, um tipo um tanto efeminado e cheirando a perfume. como são as coisasela trocando um macho por um homossexual. Vá entender as mulheres, vá entendê-las.
Foi desse jeito meu caro. Assim? não, foi ainda pior. Abra os olhos.


VIII – Abra. Abra até os dois, inclusive o esquerdo que é cego. Para ouvir melhor. Aconteceu-me o pior.
Mesmo porque a minha esposa estava tão usada e velha e ainda por cima (devia ser por baixo): feia. Tanto assim que o advogadozinho (hoje sei que o safado tomou-lhe a grana e fugiu dela, um errado que achei certo) que enfim esse doutorzinho de meia tigela me prestou um favor. Fiquei livre com a empregadinha bonita e daí... não falei que a mulher havia arranjado uma criada bela pra valer? Acho que esqueci dizer.
Bem, chega. deve o amigo estar de ouvidos cheios do tanto contar. Portanto, tenha paciênciacomo falei no começo é meu direito em ser o outro e nesse caso com direito de eu (agora na posição de outro) falar. E você, agradeço-lhe pela resignação em ouvir-me. Vou, para encerrar, narrar o pior.
Acontece que aconteceu, meu amigo, aconteceu o absurdo. O absurdo provo existir, eu próprio desconhecia que houvessem os absurdos no mundo. É o seguinte. Com o processo de separação judicial, enquanto eu me divertia com a empregadinha em casa no quarto do antigo casal proprietário; e o advogado se divertia às custas da ex-patroa, surgiram mil e uma queixas, cobranças, credores conhecidos credores potenciais credores desconhecidos credores desalmados sompre desamados, armados esses credores com documentos reais ou forjados – todos querendo tirar uma casquinha na nossa fortuna; não se assuste amigo por eu falarnossa fortunaporque nessa altura a justiça e toda a sua canalha há havia provado os bens serem igualmente dela, a mulher ex-mulher. Assim como os filhos eram, diziam, tanto dela que os pariu como meus que os engendrara. Contudo é neste ponto que a coisa pega, pega bravo pra valer!
Pois bem (eu deveria falar pois mal como verá) na separação, quando da apuração dos bens, o meu advogado, amigo de muitos anos desde a vida na fazenda e na vila, meu advogado procurou defender meus direitos, a minha metade, e fez o que pôde, coitado, sempre foi um santo homem e de conforme com meu rigor e minha moral, esse doutor amigo, procurou aumentar meus ganhos em cima da parte da varoa, é assim o termo. Dessa forma não pegaria parte da parte da ladrôa (deve ser esta a forma correta pois se varão dá varoa, ladrão dá... deixemos estas porcarias para o dicionário, voltemos ao dinheiro:) mas também ampliaria sua comissão. que não deu certo, veio o pior. Não falei que havia um pior!
Bem, ela declarou, por instrução do seu rábula metido a doutor, ela declarou em defesa ou para acabar com meu consagrado rigor e minha decantada moral, com minha honra – declarou que os filhos não eram meus; o primeiro a falecer antes do nascimento! Fez em público a relação dos pais verdadeiros, biológicos, de minha prole: amigos compadres e até empregados que visitavam nosso lar e a cama da patroa, a nossa cama! O que vejo hoje como estupidez dela ou do burro seu advogadinho; estupidez não o adultério, a sua divulgação, pois daria, e deu, margem à argumentação de meu defensor. O fato é que, no momento que eu soube, eu com o meu rigor, procurei a garrucha e a correia: queria tirar toda a pele da megera no açoite e posteriormente usar a arma de fogo se sobrasse algum pedaço de mulher!
Se fiz isso? acho que você me faria exatamente essa pergunta, não estivesse com olhos fechados – e horrorizo-me agora – e com ouvidos também fechados!
Pelo sim pelo não resumo o final da narrativa: não encontrei a garrucha. (Ainda bem que esteja chegando a enfermeira...) A garruchinha decerto aquele pilantra do filho fujão, que agora eu sei foi gerado pelo compadre dono do engenho, o meninão deverá ter levado com as suas roupas e o dinheiro que a mãe me roubou para dar a ele na fuga. E a correia. Procurei aquele instrumento de tortura, melhor dizer justiçamento, e não encontrei nada. Não achei da mesma forma a criadinha me esperando. Encontrei foram os polícias. Encontrei a cela e depois encontrei esta cama, esta enfermaria. Ouviu meu caso? Como, senhora, faz horas o companheiro está morto! Falei ao cadáver. Não importa, a mim não importa. Importa o outro. não sou o outro.
Marília   janeiro  2002
         

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