Com Todo Rigor
I - Eu sou o outro. Como?
sendo o outro. Em
geral nós
somos nós. Eu
sou eu, dizem ou
só escrevem porque
realmente quando
se diz não se diz, não
se deixa dizer,
apenas se diz. Para
a gente ser
tem de ser um
ouvido (dois?) só
o outro existe. Pensa
conta insiste reconta prova
torna enriquece o falar.
Depois nos
diz na despedida: foi ótimo
conversarmos. Hoje sou o outro: eu falo. Falo
aproveitando-me de seus ouvidos. Fechou os olhos?
melhor; tenho experiência
no setor: ouve-se melhor
em pálpebras
descidas.
Não abra seus
olhos, seu
olho direito
eu sei o esquerdo
é cego mesmo
arregalado, o direito. É minha vez de falar. Já falei anos... naqueles tempos.
Falava impunha
dispunha, meus bens
davam-me esse direito.
Meu lastro
eram as terras, imóveis
na cidade, as contas
bancárias, créditos, a honra, o nome. Só a fazenda além do rio ah... Todavia o
que mais
contava era a família.
Família com
‘F’ grande, não
tem isso de efe
maiúsculo? Decerto não
existe apenas agá
maiúsculo de homem, não
é assim? Eu
também possuía agá
de homem, pois
era o chefe
do clã. Não
acredita?
Bem, agora
estamos na enfermaria em meio ao perfume do éter
ao som dos ais, sem
pressa. Não
tenho pressa: não
tem? Não precisa
resposta. Prossigo. Vá escutando.
Aquela riqueza toda, imensa; honesta,
devo dizer, tinha
poder. A família
honrada e eu reconhecido, eu era um doutor (com
D maiúsculo, pela minha
importância devia ser
maiúsculo) não um
doutor médico
e muito menos
com título
de advogado comprado, não. Não se
tratava de comendador com rios; uma
professorinha me falava a explicar a coisa: o homem rico entrega ao papa
rios de dinheiro
e ele vira
comendador! eu
molequinho ainda ficava abismado pela grandiosidade.
Não comendador
com rios.
Não era
formado, nunca cheguei ao quarto
ano, deixei os bancos
escolares na terceira
série, fiquei rico
e passei a ter importância
por isso.
A família era
importante por
causa dessa minha
importância. Ou
ao contrário? Sei lá.
Tinha esposa,
um ser
ilibado e grandioso. Parideira pra
danar! Tem mulher
que não
pode ver cueca,
já engravida... Ela
era quase
assim. Bem, eu não vestia cueca, ceroula. Nós
não usávamos essas coisas
de hoje em
dia para evitar filhos, você usava?
Não vá dormir de
verdade, tenho muito
a falar. Fique de olhos
fechados se quiser mas de ouvidos abertos;
sou agora o outro.
II – Voltemos à família.
Eu falava nela, não
é? Disse que a mulher
era parideira. E direita.
Não tinha
na região criatura
mais honesta,
zelosa do seu
nome, quer
dizer: do meu.
Bonita?
Que é ser bonito. Bom tema. Se tomarmos uma bela
fêmea asiática
é possível nos
seja passável e mesmo
feia. Uma africana?
Enfim sabemos que
todas têm sua beleza.
Eu arriscaria dizer
não existência
de fêmea feia.
Um pouco
abusivo talvez. Um
dia encontrei, dentro
dessa teoria, um
canhão. Tudo
que imaginar
de medonho ou
ao menos desgracioso
a garota, era
jovem duns dezenove anos,
tudo possuía a infeliz
para desagradar. Aí caiu portanto
meu cachimbo,
pois não
afirmava não existir
mulher feia,
feia de verdade!
essa era, meu
Deus como
era gritantemente
feia. Mas
eis que
– estando eu espreitando, educadamente
veja bem, pelo buraco da fechadura,
melhor dizendo uma dada
frincha nas tábuas
do quarto de madeira
da moça, eis
que vejo umas mãos
delicadas e belas! estava salva minha teoria da
bela sempre
bela.
Onde estávamos mesmo?
onde quando
me interrompeu; sejamos sinceros, eu me interrompi. Lembrei-me, na beleza.
A gente nunca
sabe definir. Ela era
bonita. Quem?
ora, minha
legítima esposa.
Ah me lembro agora
o amigo estar
podendo pensar que
eu fosse enxerido
em ver, tentar ver, a moça feia trocando de roupa
e mostrando a belezura das mãos – e é engano. Engano que ela
estivesse se despindo? não, é engano que um senhor macho do gabarito
moral de proprietário
abastado e provedor
de uma casa importante
com mulher
honesta e bela
como minha
esposa, estivesse a olhar
pelo buraco. Quem olhava pelo buraquinho
era um
jovem adolescente
faminto de mulher
e na época pobre,
não paupérrimo
e misérrimo, pobre e carente do amor
feminino a ponto
de olhar com medo em ser descoberto a medonha dita e
citada. Eu. Eu
antes de ser eu, íntegro chefe
do clã, como registrei. Agora,
que minha
esposa era
bela... Bonita,
com certeza.
Bonita. Quando
moça – era
moça de verdade,
no tempo somente
se aceitava virgens; não sendo, era devolver a mercadoria
aos pais após
a noite nupcial; até
a lei amparava a devolução.
Moça, moça.
Família boa, me
trouxe muito contos
de réis em
dote; eu
já possuía bastantinho, fiquei milionário. E a beleza dela também ganhei. Meio
bobinha, pois não
passava duma meninota: eu é quem ensinou a ela
as coisas que
se deve fazer na cama. Ela aprendeu bem. logo engravidou, tornou engravidar,
emprenhou meia dúzia
de vezes, perdeu meia
dúzia em
abortos; e assim
mesmo tinha
filho de toda
idade. Parideira. Isso
não precisei ensinar
a ela. Aliás,
sejamos sensatos, os homens não apreciam
suas fêmeas
parturientes. Eu
mesmo fugia de medo;
medo que eu rotulava com
outro nome
dizendo não querer
atrapalhar a parteira.
Quando nos
mudamos para a vila
e posteriormente para
a cidade não
era mais
parteira era
maternidade e doutor
médico que
cuidava dela. Uma meninada. Falei que era parideira?
era parideira.
Botou mais de dúzia
de filhotes do papai
aqui, falo
com orgulho:
eu era
um garanhão
emprenhador. Cá entre
nós, não
só fiz filhos
com a mulher,
nas mulheres por
aí... Ninguém
provou nada, entretanto.
O delegado era
meu amigo,
o advogado da vila
me defendia. Meu
dinheiro pagava tudo.
Também não devo ter
remorsos; primeiro
eu próprio não saberia se as crianças
eram de meu sangue
se do sangue dos maridos
fáceis das mães delas. Hoje tem esse negócio do exame do DNA porém não tenho
conhecimento direito
disso e na época não
existia. Vá escutando.
Você me
parece com sono.
Mas aguente um
pouco vou acabar
logo esta narrativa.
III – Acorde. Vou falar da minha casa. Casa de respeito,
coisa séria. Eu mandava, todos
obedeciam. A mulher, agora olho para trás com pena dela,
a patroa tremia quando eu falava. Menino?
ninguém alevantava a crista ao pai. Eu falava, tava
falado. Às vezes
não tinha
razão, não
obstante não
voltava atrás e ainda
grunhia um “hummmm” que
todos entendiam. Todos
entendiam melhor a correia,
uma correia de couro
cru grossa e pesada para amarrar
aqueles bauzões. Na época
cada família
tinha seu
ponto de honra:
numa era a cinta,
noutra sua varinha de marmelo, sem falar no grão de milho, na palmatória,
na xingação geral,
no choro. Em
minha casa
não – não
existia meios termos:
só a correia;
a correia enroscada no quartinho de despejo, onde a
gente punha
toda coisa sem lugar: lugar da correia,
a terrível correia.
E a meninada já
sabia quando o pai,
eu, olhava feio
para o quartinho... Tremia-se, às vezes para castigar
um dos meus
faltosos, por exemplo
em haver
trazido fumo fraco
para meu cachimbo, enfim
a castigar um,
castigava todos. Na mulher
nunca batia, só
duas vezes em
quarenta anos de consórcio.
Foi no entanto o suficiente
para marcá-la. Agora,
nos nossos
filhos cansei, isso
mesmo, cansei em
bater, sobretudo no segundo dos meninos.
Portanto, tomava a correia
e impunha moral. Tudo
rígido
Como lhe
disse, meu caro,
em casa
tudo era
de uma rigidez. Eu
entrava no lar, punha
meus pés
no primeiro degrau
da porta, já
todos se calavam, ou
inventavam o quefazer. As crianças, as
petiticas então, ficavam brancas de temor, mesmo as
pretas por ali
brincando com os meus,
tornavam-se brancas com medo.
Os empregados da fazenda
não abriam a boca,
eu sempre
tinha razão.
Com razão,
não ria
à toa, só contava as coisas aos companheiros
mais chegados.
Mesmo estes
me respeitavam. Eu
era de respeito,
alta moral.
Não admitia sequer
um cisco
na engrenagem doméstica
nem nos
domínios dos negócios.
Pagava recebia negaciava negociava, mas tudo em pratos limpos.
Fazia valer o famoso
fio de barba. Só expressão,
pois nunca
fui barbudo; digo isso
sim que
exigia o preto no branco,
recibos essas coisas.
Em suma
rigor, rigor nos negócios, rigor na moral, rigor na honra, rigor nos compromissos, rigor em casa e rigor fora de casa. Até me chamavam coronel,
não tanto
pelo dinheiro abundante, pelo meu
tratamento com
todos – parentela compadres
amigos e autoridades.
Agora, nada
faltava. Dinheiro, comida,
fartura sem
esbanjamento, corrigenda. Nada faltava. Eu
era pródigo
em exigir. Assim a família
funcionava. Isso na roça.
IV – Arregace as orelhas, vou contar sobre a mudança
à cidade.
Um belo
dia resolvi transferir
os meus para melhor lugar.
As crianças estavam grandinhas
precisando de escola. Nunca fui com esse costume de mandar os filhos desregrar na cidade
para estudar, voltar doutor e engolir o dinheiro do pai. Nunca. Elas estavam grandes
precisando aprender, tinha
menino mamando ainda, era o último, a mulher havia contraído nunseiquê no útero
e nos ovários
e o médico trazido para
a examiná explicou-me que não emprenharia mais,
o que apreciei bastante,
enfim não
estava disposto a povoar
sozinho o planeta.
Então decidi levar
minha gente
para a cidade.
Aliás não
era somente pela escola: tinha brigado com
um vizinho,
um fazendeiro
ladrão, eu
nunca fui com
ladrão; se ficasse morando na sede das minhas
terras iria espetar
o sujeito com
meu punhal (e tinha
a garrucha também
debaixo do travesseiro)
e fora isso,
ficando, teria de aguentar falatório, não
dava, pensei mudar. Falavam, diziam os meus compadres que falavam, falavam que
o filho mais
novo do besta
que eu
pretendia apunhalar era
meu, o que
não deixava de ser
apenas intriga
de faladores, pois
eu nunca
havia dormido com a mulher
dele, por sinal
eu não
gostava de loiras ela era uma branquela sem
graça; portanto
falatório sem
sentido. Para
evitar aumento do desentendimento, pensei mudar.
Uma semana depois já resolvera ir embora e comuniquei a esposa
para pôr o pessoal ir colocando tudo em caixotes e nas malas,
a gente possuía muitos
baús. Fui tratar
dos negócios, dar
ordens, instruir
um compadre
de confiança para gerir a fazenda bem como se mudar ele com a família para a sede; sabe, a comadre deitava beiço
pro meu lado
fazia já tempo,
acho que foi a razão
de eu haver
escolhido esse compadre
e não outro
para o trabalho de
adminstração. Enfim pus
tudo nos
trinques e determinei a transferência três
dias depois.
Ah foi uma mudança e tanto: cinco carroções com
os trecos e um
carro de praça
puxado por
belos animais
levando meu pessoal.
Na frente eu
e a mulher, então
já não
muito bela,
e o bebê mamando toda
hora. Aliás
em casa
ela amamentava até
os dois anos,
só o segundo
filho que
sempre foi rebelde
desde pequeno
não mamava, mamava na mamadeira com leite de cabra
e vivia com diarreia. Os outros eram uns bezerros
sugando dia e noite
as tetas volumosas da mulher. Mas a velha, vou chamá-la velha
pois envelhecera bem, ela dava muitíssimo leite.
Bem, fomos para
a vila. Ficamos meses, nem um ano, eu estava perto demais da
fazenda, perto
demais do meu
inimigo e perto
demais de sua
loira magrela. Além
do mais a dor
de cabeça pelas encrenquinhas ligadas à moral
daquele gentalha emporcalhada, aquele probleminha que
falei já, o de que
muitas mulheres sem
eira nem beira desejavam que
seus filhos
fossem meus bastardos;
fato que
me azucrinava bastante,
isso tudo
me chateava. Embora
eu estivesse bem
posicionado na sociedade e tendo muita razão: a mulher enfeitava a cada
ano ou
se encontrava barriguda sempre, eu não era de ferro e precisava ‘capim
novo’ como
falam... Resolvi partirmos para a cidade de uma vez.
Foi nova caravana em mudança. Só que o mais novo mamava pouco e comia papinhas e frutas,
dando mais trabalho.
Assim mesmo
a viagem se fez; embora
cansativa.
V – Chegamos à cidade.
Você está me
ouvindo? Porque às vezes
temo que não
esteja escutando... Enfim vamos ao que interessa.
Chegamos, eu, minha bela esposa já não demais bela, e
a filharada, aí por
mais de dúzia,
sempre esqueço a quantia
certa porque
alguns morreram no caminho
do mundo, uns antes
mesmo de nascer,
é sabido que
homem não
costuma guardar tudo
certinho. A mulher pelo
contrário lembra muito,
sobretudo data
de nascimento e cobra a gente por não se lembrar; e a minha esposa não tinha
dessas frescurinhas, eu olhava para a correia e para ela, ela nem me cobrava... sim é comum
as mulheres lembrarem tudo: nascimento crescimento
nomes apelidos
problemazinhos doenças briguinhas, ah
uma infinidade de coisas
relacionadas à prole. Eu não. Ela. Ela
precisava até cores,
momentos daquelas vidinhas. Eu? xi, só os negócios.
Negócios e atrapalhadas havidas com as filhas dos colonos
e dos vizinhos. De negócio
isso eu
sabia, ninguém como
eu. Assim
foi que fiz crescer
e mais crescer
a fortuna. Entendia de criação, enfim
do gado, entendia do eito, entendia de limites
de terra, entendia muitíssimo de produção.
Fiz lucro grande
com lucro na venda e lucro na compra comprando por
menos, pagando o mínimo
possível aos meus
incapazes trabalhadores.
Uma vez tive de bater
num deles (não com
a correia, usei o chicote,
pois estava a cavalo)
bati sem dó,
o sujeito pretendia ter
saldo credor
quando se mudava de minhas
terras para outra fazenda.
Dei-lhe umas boas lambadas; e não se falou mais
nisso. Eu era
respeitado. Enfim chegamos.
Aonde? ora,
na cidade, não
falei que estávamos de mudança? Na cidade
tive foi muitas casas e terrenos nem se
fala, quase
um bairro
inteiro era
meu, deixava para
valorizar e vender no momento que
pegasse preço alto.
Agora, casa
de aluguel eu
não apreciava demais,
precisava sempre estar
brigando com o inquilino
para pagar o que devia e para subir a renda; terreno era melhor pra mim. De qualquer
forma representava riqueza,
emprego garantido de valor. Pus também dinheiro a juros e me acusaram
de agiotagem. Na casa
maior, em
plena praça
central, é que
fomos morar no começo.
Aquela perto do banco.
Grandalhona; assim mesmo
precisei construir mais
cinco quartos
pelo excesso
da ninhada. Já
falei que eu
era garanhão?
Era moleque
pra todo
lado gritando; e brigando. Ah eu não havia
esquecido na roça a correia;
as crianças sabiam disso. Eu precisava acalmar meu povo e também exercitar meus músculos. Só que na cidade
há um problema:
queixa de vizinhos
às autoridades. Na cidade
tem gente muito
arrelienta, não aceita um pai educar e corrigir um filhote (por
essa época eu
não batia mais
na mulher; quer
dizer – ela não precisava mais
apanhar de correia,
mesmo quando
desejava defender seus
pimpolhos); se fosse endireitar
uma filha, um
Deus nos
acuda! Porém não tinha
questão alguma com
as meninas, nenhuma das sete, não me lembro bem agora, parece que eram sete ou oito, tinha as enterradas na igreja
da vila, tinha
as que nem
nasceram, perdi a conta. Nas meninas batia vez que outra; a conta a gente acertava mesmo
era com
os machos, uns carinhas endiabrados, eu falava que eles haviam puxado
os parentes dela, só
para pisar na cara-metade
e, suponho, só suponho, ela achava haverem puxado
ao meu lado...
Enfim, esse
foi o primeiro grande
problema encontrado pela
minha família
na cidade, ou
seja os vizinhos metendo o bedelho na minha
vida, em
meu direito
em sovar os filhos. Verdade se diga, eu tinha as mãos um pouco pesadas,
provoquei muito choro
e sangramento nos
pequenos. Nos
pequenos? não
tanto assim.
Até nos
grandes. Bati de correia
no mais velho
já tendo me
dado dois netos! No segundo
não; ou
melhor, ele
me enfrentava, me
enfrentou; por sorte
minha ele
era raquítico
e levou a pior.
No outro dia
a velha veio
chorando me falar
que o safado
fugira de casa. Fiquei enraivecido. Não sei se por minha mulher vir reclamar comigo
e chorar na minha
hora de relaxar
no sofá, ela
que nunca
abria a boca, eu
não dava esse
direito a ela,
falei já que
era pelo rigor; não sei se porque o cafajeste
houvesse abusado de minha
autoridade fugindo como
um criminoso
– fiquei foi bravo. Enfim
xinguei todos os parentes
da esposa e a ela
para concluir.
Calou-se, foi chorar no quarto.
Não pude me
relaxar bem aquela tarde. Ficamos um
mês sem
nos falar: ela mandava a garota
mais velha
me avisar o almoço pronto; eu mandava recado
pelo moleque
do meio, o mais
velho abaixo
do fujão. Até
que ela
teve de ceder.
Foi assim, você está prestando atenção? Foi assim:
um dia
o de colo ficou doentinho precisava médico e farmácia, ela me mandou a
menina pegar comigo dinheiro e não dei. No outro
dia, eu
andava precisando mulher, na cidade é mais difícil essas coisas:
as jovens não
querem velhotes casados, mesmo com dinheiro, pois não desejam ficar mal na sociedade; naquele tempo, mesmo no
meio urbano,
o ingresso aos braços
feminis só com
aliança e padre. É claro
tinha as prostitutas mas já lembrei
a minha rigidez
moral, não
podia me expor...
Verdade que eu estava muito
mal visto,
coisa comum em cidades pequenas, o que
para mim era injusto, já falei que a moral em casa andou sempre
rígida, não
falei? Injustiça. Pois
é, precisava de fêmea, embora não
quisesse dar os braços
a torcer e portanto
a esposa descansava de mim. Eu andava no meu
limite, fazia mês
não conversava com
ela. Então
negociei. Mandei em resposta
a outro pedido de numerário
a encher as burras
do boticário, mandei falar
que a mãe
de minha filha
tivesse azeitado o porta-joias (inexistente,
linguagem em
código, para que a menina não soubesse o que
o pai dela falava...) que o pai iria pessoalmente
entregar à mãe
dela o dinheiro e aproveitaria para
secar o óleo
no estojo dela. A garota
não entendeu realmente
a mensagem porém uma hora depois a esposa mandava o pagamento
ao farmacêutico. Enfim,
tudo dentro
de meus rigores.
Não falei ser
rigoroso?
VI - Você, oh
dorminhoco, você
pensa que
o episódio do porta-joias resolveu o nosso relacionamento?
Puro engano.
O casal não
se entrosou mais. Tinha
o negócio do porta-joias, você
poderia lembrar,
não fosse um
dos seus ouvidos
fechados. Eu poderia
conversar minha
mulher; na pior
das hipóteses, hipótese
pouco provável
e terrível para
mim, eu
poderia exigir
meus direitos
de marido e senhor.
Ela entretanto,
vá escutando amigo, ela
daí por diante
foi sempre negaciando... Alegar
frieza sexual
não é o bastante.
Pro meu entender,
até insólito:
sim insólito,
porque eu
havia ensinado minha companheira e ela
no decorrer da vida
de casados virou mestra, sabia para ensinar as coisa
do amor. Uma vez
achei-a por demais
fogosa; por
essa ocasião foi que
bati nela; com a correia
é claro, pela
segunda vez.
As crianças ficaram assustadas os pequenos abriram um
berreiro tive de mostrar
a correia a elas
também para
se calarem... Isso prova que ela não era fria e muito menos gelada. Negaciava. Negaciava sem coragem negociar.
Acho que se ela
começasse com coisinhas partiria a
dar-lhe a terceira surra
com a correia.
Não foi necessário
uma surra. Porque
apareceu na casa uma criadinha nova, bonitona, e eu
dei sossego àquela brigona. Depois
eu conto
isso a você. Talvez não
conte, você como
amigo aí
poderia pretender
explicações de nível
moral; eu
só poderia
me defender
escondendo-me na idade... na minha idade atual. Melhor voltar aos entreveros
com minha
esposa. Aí
entram crianças.
VII – Por quê?
Acho essa indagação que o
colega teria na cabeça...
Não precisa
sequer abrir seus olhos, tem
direito, bem entendido, para formular a pergunta. Mas é o óbvio: por que motivo?
Criança, criança
enche os olhos dos pais
de cisco. É comum
acontecer. Em
muitas famílias desentende-se amiúde por um dos cônjuges
ter apego a
um dos filhos
ou porque
acha haver prejuízo
ou desinteresse
do outro no casal
por outrinho. Parece bobagem que se brigue, marido e mulher, por
causa dos filhotes,
os quais são
dos dois. Filho
não é nem
de um nem
de outro, é dos dois.
Nesse caso deveria haver
uma ligação mais
intensa do pai
e da mãe na criança.
Ora aí está a crônica
social para desmistificar mostrando invejas
rixas perseguições, defesas
apaixonadas como para
um clube
esportivo, de um
lado e de outro.
O pior seria ambos
os lados macho
e fêmea hostilizar
igualmente seus
filhos. E o pior
é que tem desse pior!
Bem. Em
casa? Havia muito
disso. Eu não
aceitava que ela
carinhasse mais as meninas em detrimento
dos garotos. A primeira
vez que
esquentei o lombo da mulher, com a correia, não
contei? a primeira vez
foi por causa
disso. Nesse dia bati na mãe e nas filhas da mãe,
assustando até nossas comadres, verdade que eu havia
bebido uma pinga do engenho
dum compadre mas
não devo culpar
a aguardente por
isso: tão só a proteção
da mãe de minhas
filhas para elas.
Então castiguei severamente
todas as fêmeas da casa,
sobraria até para
as criadas, elas correram para
as casas da colônia,
bati em todas filhas – a petitica eu fiz ficar no berço sem direito à teta materna três horas! não
cabia usar a correia
na nenezinha. Veja o amigo, eu era justiceiro mas amigo sobretudo da justiça. E do rigor moral em minha casa. Como eu dizia
surrei as fêmeas e poupei os machos, coisa incomum, pois o comum no meu proceder era gastar a correia em todos os filhos, democraticamente. Não,
democraticamente é indevido; batia mais naquele mais
ostensivamente culpado e menos nos outros sem culpa como exemplo; mostrando isso
que o pai
de família, eu,
era equitativo. Como
falei: rigor e justiça.
Dessa forma minha cambada foi crescendo.
Ninguém podia falar
mais alto
que eu.
Verdade que
houve tentativa de se prevalecerem nas ocasiões de bebedeira. A correia entretanto
punha os pingos
nos ii.
Punha, digo a você,
punha. Não consertava a nossa vida amorosa, nós o casal; foi depreciando a relação
até que
– imagine só! – ela
quis advogado, quis separação,
quis a parte dela como
fosse ela quem
houvesse ajuntado a fortuna, quis pensão; e pasme amigo
meu, quis o marido...
o pai dos filhos
dela, até da porcaria
daquele fujãozinho, pai do fujão, não
contei que o segundo
filho, um
que sempre
me provocava e me
dava trabalho, depois
que me
enfrentou e fugiu, não falei nisso? talvez tenha me
esquecido falar ando com
a memória ruim
nestes tempos, antes
mesmo de vir parar nesta cama fedorenta e ser seu companheiro.
Pois é, como eu dizia, a dona
minha esposa,
já então
feia para meu gosto, ela quis o marido
separado dela! E inclusive o magricela
do advogado fez tudo
para ficar com a causa dela, essa gente fareja dinheiro até onde não existe, e no meu
caso tinha
sim e mesmo
muito dinheiro.
Teve mais: mostrou-se apaixonado por aquilo! Ah como me lembrei
da correia de couro cru... Arrancaria o couro do almofadinha, um
tipo um
tanto efeminado
e cheirando a perfume. Vê como são as coisas –
ela trocando um
macho por
um homossexual.
Vá entender as mulheres,
vá entendê-las.
Foi desse jeito meu caro. Assim? não, foi ainda pior. Abra os olhos.
VIII – Abra. Abra até os dois, inclusive o esquerdo que é cego. Para ouvir melhor.
Aconteceu-me o pior.
Mesmo porque
a minha esposa
estava tão usada e velha
e ainda por
cima (devia ser por
baixo): feia.
Tanto assim
que o advogadozinho (hoje sei que o safado tomou-lhe a grana
e fugiu dela, um errado que achei certo) que
enfim esse
doutorzinho de meia tigela me prestou um favor. Fiquei livre com a empregadinha bonita
e daí... não falei que
a mulher havia arranjado uma criada bela pra valer? Acho que esqueci dizer.
Bem, chega.
Já deve o amigo
estar de ouvidos
cheios do tanto
contar. Portanto,
tenha paciência – como
falei no começo é meu
direito em
ser o outro e
nesse caso com
direito de só
eu (agora na posição
de outro) falar.
E você, agradeço-lhe pela
resignação em ouvir-me. Vou, para encerrar, narrar
o pior.
Acontece que aconteceu, meu
amigo, aconteceu o absurdo.
O absurdo provo existir,
eu próprio
desconhecia que houvessem os absurdos no mundo.
É o seguinte. Com
o processo de separação
judicial, enquanto
eu me
divertia com a empregadinha em casa no quarto do antigo casal proprietário;
e o advogado se divertia às custas da ex-patroa, surgiram mil
e uma queixas, cobranças,
credores conhecidos
credores potenciais
credores desconhecidos
credores desalmados
sompre desamados, armados esses credores com documentos reais
ou forjados – todos
querendo tirar uma casquinha
na nossa fortuna;
não se assuste amigo
por eu
falar “nossa
fortuna” porque
nessa altura a justiça
e toda a sua
canalha há havia provado os bens
serem igualmente dela, a mulher ex-mulher. Assim
como os filhos
eram, diziam, tanto dela que os pariu como
meus que
os engendrara. Contudo é neste ponto que a coisa pega, pega bravo pra valer!
Pois bem (eu
deveria falar pois mal como verá)
na separação, quando
da apuração dos bens, o meu advogado, amigo de muitos
anos desde
a vida na fazenda
e na vila, meu
advogado procurou defender
meus direitos,
a minha metade,
e fez o que pôde, coitado,
sempre foi um
santo homem
e de conforme com
meu rigor e minha moral, esse doutor amigo, procurou aumentar meus ganhos em cima da parte da varoa, é assim
o termo. Dessa forma
não só
pegaria parte da parte
da ladrôa (deve ser esta a forma
correta pois
se varão dá varoa, ladrão
dá... deixemos estas porcarias para o dicionário, voltemos ao dinheiro:) mas também ampliaria sua
comissão. Só
que não
deu certo, veio
o pior. Não
falei que havia um
pior!
Bem, ela
declarou, por instrução
do seu rábula
metido a doutor,
ela declarou em
defesa ou
para acabar com meu consagrado
rigor e minha
decantada moral, com
minha honra
– declarou que os filhos
não eram meus;
só o primeiro
a falecer antes
do nascimento! Fez em público a relação
dos pais verdadeiros, biológicos, de minha prole: amigos compadres
e até empregados
que visitavam nosso
lar e a cama
da patroa, a nossa cama!
O que vejo hoje
como estupidez
dela ou do burro
seu advogadinho; estupidez
não o adultério,
a sua divulgação,
pois daria, e deu, margem
à argumentação de meu
defensor. O fato
é que, no momento
que eu
soube, eu com
o meu rigor,
procurei a garrucha e a correia: queria tirar toda a pele da megera no açoite e posteriormente usar a arma de fogo se
sobrasse algum pedaço
de mulher!
Se fiz isso? acho que você me faria exatamente essa pergunta, não estivesse com
olhos fechados – e horrorizo-me agora – e com ouvidos também
fechados!
Pelo sim
pelo não resumo o final da narrativa: não
encontrei a garrucha. (Ainda bem que esteja chegando a enfermeira...)
A garruchinha decerto aquele pilantra
do filho fujão,
que agora
eu sei foi gerado pelo
compadre dono
do engenho, o meninão deverá ter levado com as suas roupas e o dinheiro que a mãe me roubou para dar a ele na fuga. E a correia.
Procurei aquele instrumento
de tortura, melhor
dizer justiçamento, e não
encontrei nada. Não
achei da mesma forma
a criadinha me esperando. Encontrei foram
os polícias. Encontrei a cela e depois
encontrei esta cama, esta enfermaria.
Ouviu meu caso?
Como, senhora,
faz horas o companheiro
está morto! Falei ao cadáver. Não
importa, a mim não
importa. Importa o outro. Já não sou o outro.
Marília janeiro
2002
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