Estorinha de Pescaria
1º - Não de
pescador, tida sempre por mentira; e naquele tempo era verdade.
Outra
coisa a ser esclarecida antes de esclarecer esclarecimentos é não entrar
roceiros neste contar. Não por inexistirem roceiros, eles entrarão apenas a melhor
entender os não-roceiros. Mas também porque o pescador em pescaria neste caso
não puxa enxada, é um oleiro. Oleiro, parente de minhoca (neste canto
aparecendo muita vez) parente ele dela, vive metido em barro: esburaca cava
carrega a argila remexe mistura transforma a matéria prima em barro,
matéria-prima ao tijolo. Assim é assinzinho ele com ela, sem nunca (e seria um
Deus nos acuda!) haverem se declarado amor. Amor aqui somente na pescaria.
Pois
é uma estória de pescaria.
O
capiau se dispôs ir pescar. Naturalmente ninguém insistiu que fosse nem sequer
sugeriu. Livre e de espontânea vontade. E o fazia diário. Na olaria é desse
jeito: trabalha-se desde madrugada até tarde, sem ser tardezinha porque só os
mais famintos por dinheiro se pegam ao sumir o sol no trabalho; a maioria larga
até às 16 horas. Naquele tempo em que era verdade ocorria assim. E o capiau
largou cedo na sua hora certa, certo na beira do córgo.
Pesca.
Olha espera esfrega remexe examina a varinha de lambari a tentar levantar da
tona um tambiú ladrão de isca; esta que é invariavelmente minhoca (não foi dito
apareceria vezes na estória de pescaria!) a minhoca, ao levantar a ponta da
vara a linha esticada, ela se encontra espetada no anzol branquinha branquinha
por tanto tomar banho e nem um peixe safado a beijou bicou brincou com a pobre,
pobre do pescador.
Vamos
pô-lo (ele irá reclamar corrigir para ‘ponhá-lo’ a falar direito, deixa isso
pra lá) vamos pô-lo no presente que fica melhor contar. É também a estória de
pescador com mentira à beça, e esta sendo até aqui a única e insofismável
verdade. A estória ocorre portanto no presente daquele passado no século
passado que foi quase ontem, no fim, para este princípio de milênio.
Ele
olha longe vê perto a dois passos de braço esticado de vista até o fim da vara,
ela entorta entorta, tem gente (peixe) puxando a minhoca que puxa o anzol que
puxa a chumbada a linha a ponta de vara, arca a vara: sensação! tem peixe... Alevanta
mais a vara, não tem. Coça a cabeça. Agora tem, deve ter, está a linha a correr
na tona d'água, é aguardar o momento o instante a fisgar o bruto... e aqui tem
início a tormenta.
Ele
observa para dar o bote, como a cobra embaixo dele a dar o seu em pés quase
descalços. O oleiro usa alpercatas que fala ‘precata’ e ‘paragata’ feita de
lona, leve frágil e prática e barata a bolsos fracos; o patrão não lhe permite
botinões de roceiro pois estraga o chão de pôr tijolos moles e é também fácil a
pisar o barro quando o barro começa a secar depressa necessitando molhar ou pisá-lo,
pisoteá-lo, com um saco de estopa úmido para acertar os pelotes de argila –
então a alpercata é o ideal. O pescador
vem do trabalho a viver pra contar sua estória de pescador com esse calçado e
aí é fácil a cobra mordê-lo, já prepara o bote. Não se encontra num bote nem em
piroga do indígena ancestral do caboclo, na beira do riacho. O bote que prepara
é o enroscar o peixe e tirá-lo d'água.
2º
- Neste
ponto ocorre um desastre, se não escatológico a acabar com os tempos dos
tempos, um desastre de monta: o pernilongo se assenta em seu braço peludo
pelado pelancas queimadas de sol (não do trabalho, oleiro só vive quase debaixo
do rancho de tijolos e tem pele de moça, xô machismo! sim por tantos raios na
beirada do córrego todas tardes; tá explicado?)
Sua
excelência cansou-se zumbir seu violino e encontra-se faminto. Aliás tem mais
de um, tem dezenas centenas mais de mil a cantar implorar ou tomar na marra o
sangue do capiau oleiro, sugar o suco da vida. Quer à força chupá-lo. O capiau
olha o inseto destamanhinho e com bruta boca destamanhona e um dia descobre que
não é ele é ela, a fêmea que necessita sangue para seus filhotes. Bem. Mal
percebe ele que é ela-pernilongo a pousar-lhe nos braços prenhes de sangue vermelho
em veias azuis. Se espanta o homem, que fazer se o peixe justamente naquela
hora daquele tempo em que era verdade esta mentira, justamente o lambari ou
piaba puxa gostoso e irá com certeza fisgar o peixe – o espanto continua
válido. Alarme falso.
Falso
em virtude da desvirtude haver perdido a fisgada, puxa a linha pra fora, a
minhoca lhe faz muxoxo (aqui é mentira nessa verdade porque onde se viu minhoca
fazer careta, por exemplo, ao pescador!?) Desiste. Desiste por enquanto.
3º
- Agora
o capiau resolve mudar de lugar muda de barranco muda de posição muda de vara
muda de linha muda de minhoca, muda pra mudar de sorte não tem sorte, muda de minhoca
a minhoca quase morta enrugada de frio e mordiscada por boca de peixe e quase
morta enfim de frio mesmo porque a água
além de suja tá gelada pra diabo, aí muda de uma vez por todas de minhoca. Com
minhoca zero-km assim mesmo não pega nada o córgo não tá pra peixe; e além do
mais a minhoca tava assinzinha de formiga, não sabe por quê cargas d'água entra
tanta formiga na lata de massa de tomate vazia cheia de terra e minhoca, as
minhocas se esticam se espremem alcançam a borda da lata querem sumir no mundo,
e o trabalhão que deu à enxada arrancá-las do berço esplêndido em que se
encontravam, tem hora que estão lá no fundo no coração do solo! e agora essas
vacas de formigas a comer bicar mastigar as iscas – lambaris de todo mundo
uni-vos! – e o capiau se aborrece. O que nada adianta; então bate na lata assopra
esparrama o material no chão, separa as minhocas sobrantes, bate também nas
próprias mãos que tem formiga subindo na gente; e por fim fogem espavoridas as
intrusas ele ajunta as minhocas, aí sim muda a muda, que serve de isca a atrair
o peixe. Ela, a minhoca nova que é velha na lata, ela não quer deixar o anzol
carinhá-la entrar-lhe nas entranhas e talvez sendo porque o garrancho da ponta
do anzol a machuque. Isca a isca. Vai repor o instrumental n'água a pegar outro
peixe, pô não fisgou qualquer ainda, balança a cabeça lamentando. Vai, enfim.
Para: o pernilongo.
4º
- Mas
assim cadê estória!
Mais
pra diante resolve o problema. Vão ver com quantos paus se faz uma canoa. Com
um. Um só. Só pegar um tronco grosso de árvore, cavar cavar pôr fogo cavar de
novo picotar afundando a barriga da árvore e daí a pouquinho (quer dizer já
tando de saco cheio) – eis uma linda canoa. Ao oleiro é mais fácil.
O
capiau faz uma canoa de barro, fá-lo-á queimar no forno de tijolos após
cuidados com a secagem e cuidados em não trincar por causa do vento; tira do forno
e está pronto o veículo aquático ótimo pra nadar no rio e pegar lambari. Ela pode
ser branca ou rosada, branca se o barro era preto; a cor não importando importa
numa barca que navegue.
Agora
está navegando no córrego; de pé no meio dela, vara arcada, linha na água,
anzol minhoca afundados no líquido à espera. Espera o peixe. E a contar a
estória de pescador, mesmo porque embora oleiro é pescador.
Portanto
mentiroso, até prova em contrário. Sim, pode e tem direito ficar calado, a
constituição o permite. E com quem falaria?
Está
só o capiau. Não não, ouve o violino (sem que seja num concerto para
orquestra). O instrumento aguda seu ferir, atinge orelhas matutas, ele balança
a cabeça quase lhe caindo o chapelão de palha que só usa mesmo a pescar pois no
trabalho trabalha à sombra com seus tijolos, depositando os mesmos na ‘gambeta’
enfileirados para secar. Isso tudo nada adiantando pois o pernilongo tem uma
fome tamanha, vai se sentar, sem cerimônia, em braços e tem mais mileunzinhos a
cantar e com fome também – justamente na hora em que parece o peixe chegou. Já
imaginava o tamanho a grandura, o lambari virando tubarão baleia e a porcaria
do pernilongo, tá-bom, pernilonga mas não diminui o crime. Nem o perigo.
Sim, perigo de fato pois se lhe der um tapa mata o voador, se não se levantar
antes em retirada, mata esparrama sangue seu próprio sangue! no entanto também
remexe toda a vara e esta a linha e esta o anzol e este a minhoca e esta
espanta o peixe. Pode uma coisa dessa.
Faz
sua escolha. Aqui jaz um pernilongo que podia ser pernilonga tadinhos
dos seus ovinhos. Estremece a vara, desfaz-se a fisgada quase certa, o peixe
some no mundo, na água...
Não
importa. Agora começa a estória, de pescador, que o pescador contará.
5º
- Tá
fazendo um ano, não: menos de ano, fui pescar e... sim, vou todos dias de tarde
encerrada a tarefa que nunca acaba, naquele ano tava bom pra secar tijolo...
sim sim, depois choveu pra burro, barro sem ponto e aí sobrando só a ‘gambeta’
e a desenforna, o patrão vive se queixando que a ‘pipa’ não vira mais porque o
‘picador’ tá cheio de água, mas não importa, fiz meu serviço o resto que se
dane (aos íntimos largou um xingo ferino) então fui pro córgo.
Os
outros ouvem bicam contradizem enquanto assistem a dissertação erudita do
profissional da vara de lambari; e enquanto uns sacrificados colegas empurram
para dentro da fornalha que é a boca do forno toras e gravetos de pau, os
olhões parecendo três sóis se arregalam gemem aquecem devolvem o perigo do fogo
e do calor aos trabalhadores suados; porém não param, empurram enchem as
bocarras; enquanto se riem ou observam o capiau formado na Sorbonne do Córgo
contar patacoadas; enfim os oleiros trabalham operam seus ais e a torcida
organizada em xeretude acompanha a operação, agora mais interessada mesmo na
estória.
Seguinte,
gente. Aí cheguei na beirada (nosso narrador engole ‘u’ ‘i’ ‘r’ chuta a
gramática não concorda de jeito nenhum com a concordância mas no fim dá no
mesmo, pois todos entendem; tanto que riem e se intrometem cobrando a verdade
na mentira e às vezes defendem a mentira em nome da verdade, o que é santo agir).
Bem, chegado na margem do riozinho arrisquei soltar meu transatlântico que tava
amarrado num pau que havia anteriormente fincado pra correnteza não levar a
embarcação, vai que desse outra enchente chovendo 7 dias e 7 noites a
desequilibrar o ponto do barro e a olaria parando de novo – o véio morrendo porque a gente
parar o serviço para o coração do hominho, nunca vi tanto gosto por vender
tijolo – e aí adeus canoa! Fiz uma de barro ocêis viram eu queimando ela aqui
no forno (os outros com a cabeça que sim) saiu supimpa de boa, nem rachou nem
passou na queima; portanto não derreterá nunca nas águas do corguinho.
Se
olharam... O capiau continua.
Desatrelei
a bicha, pus meus trecos dentro dela – anzóis embornal pra pôr os peixes lata
de minhoca caninha, menos de uma garrafa... não tem gente que me viu pegar o
vidro! Bem. Ah o chapéu. Ia também fazer uma oração ao santo mas não me lembrei
nem dos versos da prece nem do nome do santo, então desisti.
Tô
pronto à pescaria. Tarde bonita de se ver. Cotia sapo nhambu cheiro de mato som
de corredeira no rio e... ah, pernilongo.
Mais de mil, não contei, só toquei. Fumei, fiz uma fumaceira assoprei o
fedor pros lados dos bichos. Não adiantou. Liguei a máquina.
Nada
disso, quem sou eu a comprar motor de popa, vão me querer de carretilha e toda
frescura instrumental. Qual nada, conto sempre com meu talento, com minha
faculdade a vencer problemas. Já viram quantos milheiros ponho na gambeta a
secar! e não marco os tijolos moles com os dedos. Querem mais?
Tô
pronto. Parto. Não tem porto e nem nome no meu navio, tá-bem: canoa. Interessa
mesmo a produção, tanto aqui na olaria quanto no rio: penso peixe somo peixe
vivo peixe. Aí fui remando, não me esqueço, embora mais de dois anos passados...
sim menos de ano.
Lá
pelas tantas, o sol se fora, a barulheira dos pássaros noturnos, o bigornar dos
sapos-martelos e tudo o mais, ói ele outra vez!
Que
diabo de diabo coisa alguma. Pior: o pernilongo! um cantar fininho fininho, os
peixes puxando quase implorando para serem fisgados, as águas quentes e no
ponto bom à pesca; inclusive era cheia porém tinha muita nuvem não dava pra ver
direito nem metro nem palmo à frente, vez que outra apenas percebendo o brilho
da tona líquida e suja. Tinha peixe a pular, talvez em contentamento pela minha
presença – não direi tanto, ou mentiria e aí seria mentira de verdade, verdade
que não minto, apesar da classe dos pescadores andar mais suja que traseiro de
criancinha recém-nascida. Eu não, todos me conhecem. Nesse ponto o puto me
senta no braço... sim dizem que são fêmeas gulosas a chupar nosso sangue pra
botar mais ovos pra ter mais pernilongos e pra azucrinar mais ainda os
pescadores, que se tornam pecadores tanto xingar os bichinhos.
Sentou
chupou riu no rio o sangue que sugou de canudinho, xinguei a mãe dele, dela
tá-bom; e nada poderia ter feito: a linha retesada o anzol a minhoca a correrem
puxados por... pela honra de minha mãe: um baita assim parecença com tubarão
daqueles que a gente viu no almanaque ganhado na botica do ladrãozinho! um
baitão. Daí, claro, deixei chupar à vontade, dizem que gente tem toneladas de
sangue, um pouco não faria falta e descuidei-me...
6º
- (Comentaram
o fogo-forte e outros negócios da olaria, falaram mal dos outros, ausentes,
lembraram dívidas e dúvidas e ficaram olhando o fogaréu na garganta alaranjada
das bocas do forno; depois só depois o capiau retomando o seu contar:)
Parei
no defunto? matei o pernilongo foi só sangue que voou esparramando descendo
pelo braço, justo o quê segurava a vara e a linha e o anzol e o peixe.
Não,
não peguei. Se dissesse que sim duvidariam, me tomando por mentiroso, sou
apenas pescador, pescador depois da tarefa aqui na olaria e a mulher me ajuda
bem. Está bem, ajudo a mulher. Não consegui: o bicho me quebrou a linha fugiu
com anzol e minhoca. Encastuei outro anzol, maior vendo que era dos grandões
que tinha no rio; nova minhoca e andava um noitão escuro não dava ver a isca,
quase me espeto o dedo; uma vez, foi outra vez, foi sangue no enterramento do
anzol, o canivete do falecido pai dele cortar fumo cortou minha carne pra tirar
o anzol, eu chorei até, homem não chora eu chorei de dor, mas faz tempão. Agora
não conseguia ver direito. Então chupava o cigarro, o lume da brasa na ponta aumentava
e com essa fraca luz consegui afinal espetar não o dedo a minhoca. Recomecei.
Atirei
a linha, a chumbada tigum na água, fiquei esperando, tudo em silêncio. Não, os
pernilongos, ele infernavam, eu soprando tabaco neles, corriam voltavam as
porcarias. Não obstante venci mais essa.
Amanhã
conto o resto, a patroa tá me gritando em casa; e brigar com a mulher não é uma
boa política. Amanhã, no fogo forte, amanhã.
7º
- Hoje
acabo de vez minha verdade ou mentirei a vocês haver cortado cinco mil tijolos,
me puseram ajudar o banqueiro, a mulher dele teve nenê e ele ficou sozinho
batendo seus ‘macacos’ o patrão fala que só faz macacos e não tijolos; aí
ajudei ‘lançar’ mas as ‘tabuinhas’ não paravam direito, cheguei derrubar um
tijolo...Não fui pescar. No entanto falta gente no meu público de ontem e
parece ganhei esse menino aí, o moleque é seu? criança gosta de causo. Pois
bem.
Como
eu falava, agora galopando nas costas dela. Não garoto não é a estória da mula
que vira a pipa, que dizem ser de boa montaria, nem de cavalo, aqui é maneira
de falar quando falo falo é duma canoa que eu fiz outro dia de barro como vocês
fazem seus brinquedos e ainda esparramam a areia dos banqueiros, não é? minha
canoa fiz outro dia e queimei no forno aqui – cuidado para não queimar o
pé-zinho na brasa não sei como é que moleque só anda descalço! – você pensava
que fosse de pau, se de madeira queimava como essa lenha aí na boca, ora bolas.
Fiz ela de barro, escolhi o melhor do barreio lá na várzea. Vamos continuar?
Então
lá vou eu, parecendo um rei garboso olhando o horizonte desde a minha barca,
passa cachorro! Não menino, não é o nome da canoa, é este vira-lata sarnento
aqui nos meus pés, quem é que pode ser um grande pescador tendo um cão cheio de
pulgas assim! Bem.
Sou
rei, não sabendo se rei pesca, isso não posso dizer ou pensariam eu fosse um
mentiroso e não um trabalhador. Deve pescar também e nunca vi rei, só um
vereador da cidade aquele dia ele veio pedindo voto aqui e beijando o filhinho
do pipeiro. Eu prosseguia na pesca, a embarcação agora singrando lentamente o
mar do córgo, de repente parou...
Qual
pernilongo coisa alguma; tá-bom, pernilonga, não era; era banco de areia
ajuntado com a chuvarada, todos estão lembrados do dilúvio que aconteceu ano
passado. Tô mentindo? Então.
Tomei
uma vara comprida para me empurrar empurrando a condução à correnteza outra
vez. Ué, não acreditam haver uma vara grossa forte longa no convés de minha
canoa! estou a cair em descrédito, meu Deus. Esqueceram-se que me lembrei e me
lembro agora neste instante que estão enchendo a boca do forno atolando com pau
a bocarra faminta – que sou um homem prudente. Sim, entre meus talentos está a
precaução. Como iria me meter numa pescaria dessa envergadura sem levar armas!
Ora, que estória essa de cachaça. Tá-bem, levei caninha, já disse, mostrei o
vidro até a vocês ontem, foi ontem? levei e levei uma vara potente. Com ela
enterrei a ponta no banco de areia, quebrei sim com minha força um pedaço,
porém safei-me e me pus a remar. Não me dirão ter esquecido os remos também.
Não falar é mentir? é retardar a verdade, a verdade é puramente isto: remei
remei remei até na outra margem, prendi a canoa, minha canoa de barro feita com
barro do melhor que é o do baixadão; prendi a bichona numa árvore, um ingazeiro
na beirada – não senhor, não tinha, os poucos por não ser tempo de ingá caíram
na água a alimentar os pacus; contudo não mentirei: não pude fisgar nenhum
pacu. Vejam sou fiel aos fatos à verdade. Toquemos para frente.
Tô
lá arranjado, agora sentadinho comportadinho na traseira da canoa, com meu peso
pesando mais ali atrás e ela inclinada com o bico para cima da tona d'água do
córgo. Quer dizer, a consciência me obriga a falar que não tanto comportado assim,
porque pescava como gente grande, grande pescador, mão firme na vara olhos
atentos no escurão pra ver se brilhava algum peixe, que decerto havia (constatei
depois) aos montes nas imediações. Todavia não era serena a coisa; sereno sim
tinha bastante pois caíra de vez a noite. De fato não dava para comportar-se
como menino educado como este aqui pertinho (Deus me perdoe!) porque a porcaria
estava de volta... isto é, certamente o primo o primo do primo a família toda
do pernilongo, certo: a prima a prima da prima, tão contentes
agora! não muda a coisa. Ói eu de novo a dar palmada no ar, a acender cigarro
sobre cigarro (e o diabo do binga não triscava direito!) a maior parte da palha
e um pedaço do fumo de corda despencara no rio, decerto num movimento incerto
com os remos, pois sou oleiro, até razoável pescador, mentiroso a vovó-zinha,
pescador sim, equilibrista não. Menino você já foi ao circo?
(O
moleque conta sua estória com palhaço tigre elefante e outras coisas circenses
vistas na cidade, pede a colaboração paterna a endossar a verdade, olham todos;
e depois todos em graçolas pros lados do capiau, alimento básico de pernilongo,
exato: pernilonga; este sai um pouco para fazer necessidades,
pois até um grande pescador tem de fazer as coisas, comer beber, e fazer as
sub-coisas também).
8º
- Vocês acreditam que até urinando – a patroa me deu muito café fraco doce e esquentado
e tô a mijar que nem mulher grávida, toda hora! e nisso o pernilongo, ou a
pernilonga como querem me veio cantar serenata na orelha.
Pois
bem. Eu falava no melhor da festa, minha pescaria era realmente uma festa, o
diabo me apareceu. Preferiria receber fantasma, fantasma não toca desafinado
violino como a rabeca que tem lá na fazenda, nem chupa o sangue da gente. Ele,
tá bom ela, chupava chupava o caldinho, eu me dava soco assoprava fumaça
fedorenta, qual nada. Aí me deu um siricutico danado, explodi de raiva! Com
toda razão.
Vejam
aqui. Pescando, preparando a arrebatar todos prêmios com toneladas de peixe de
todas qualidades tamanhos cores, a vara firme, o anzol preso, a minhoca
esperneando, o que melhora a atração dentro da água; com cachaça da melhor lá
da venda daquele ladrãozinho na vila, tendo orado aos santos todos, só os que
não sabia eu os nomes ficaram de fora, tábão: não consegui rezar por
esquecer-me da letra e a intenção!? Enfim preparadinho, olhem o fia da mãe
dele, dela, me segredando na orelha e me chupando sangue através das veias do
braço direito! Tomei a vara no esquerdo e com a direita dava palmadas no
pernilongo. Aí aconteceu-me o pior. Que verão é o melhor...
Agora
dou um chego em casa comer umas mandiocas, a velha me fez cozidas em pedaços e
pôs também algumas na chapa do fogão, do jeito que gosto; e café. Fraco transparente
e de grudar no gogó. Volto jajá-zinho, pois estou na parte mais interessante e
torno logo conto logo.
9º
- Como eu ia dizendo... cadê o menino? ah criança não aguenta noite inteira
vendo as embocadas, o fogo já subiu, suponho, alguém foi ver lá em cima? Vou
acabar a estória da minha pescaria de três anos atrás, exatamente na parte mais
atrativa... é verdade sim, realmente não faz nem um ano; pra fim de papo:
aconteceu em dezembro passado. Tô mentindo? Vocês são testemunhas como choveu e
choveu mais em janeiro, parecia acabar o mundo, arca de noé essas coisas, o que
prova a verdade.
Naquele
vai não vai, xinguei, xingando toda uma geração de pernilongos; pudesse
quebrava todos instrumentos deles com a viola de meus punhos; doaria meu sangue
ao hemocentro, na cidade vi quando o falecido pai era vivo no hospital, esgotavam
a gente. Preferível que dar comida aos bandidos mosquitos. E com isso abalancei
demais minha canoa, quase derrubando meus peixes lotando o soalho da embarcação,
quase caí na água também... sim? Ah, peguei traíra corimba piau, lambari vixi!
e um montão de peixe que supus ser baleia, baleia ou tubarão. Imaginem meu
prejuízo, eu pretendendo presentear a todo pessoal da olaria: comida pro resto
do ano, daria até peixe ao patrão em provar que não sou munheca como ele que só
pensa em vender tijolo e apurar dinheiro!
Não seria uma boa, gente?
Mas
pobre de mim, oleiro trabalhador como sabem e pescador de grande categoria.
Tinha o desastre me rondando!
Qual
pernilongo coisa alguma. Nessa altura não havia mais que mil e um deles, o
resto tava marcado em sangue nas palmas de minhas mãos, ora, tenham paciência.
Falo
de um desastre inevitável. Quando a canoa bateu no banco arenoso, como disse, é
mentira! quando bateu abriu uma brecha no fundo... que do rio! imaginam eu
possa furar o fundo do córgo e decerto
pensam iria dar no outro lado do mundo com os japoneses, quem sabe achando
petróleo e carcaça de dinossauro?! Ora bolas, fiquemos na verdade detesto
mentira. Na verdade parece que ao secar a canoa – não falei haver feito de
barro todos viram a secar a queimar no forno aqui, recebi foi muito elogio pela
arte – com certeza ao secar secou rápido demais e a gente sabe como é forte o
barro do baixadão, aí o vento deve ter trincado o fundo dela, ah pobre canoa! e
ao raspar no monte de terra abrindo mais a brecha do casco.
Bem.
Só foi água a subir, parecendo aquele chafariz da cidade. Não conto nada. Conto
sim. A água diluviou meu navio inteirinho, tive nadar dentro como fosse fora
dele dentro do rio – uma tristeza minha gente. Aí o desastre.
Um
desastre de maior proporção ainda. Acreditem: meus peixes saíram da sacola (que
a mulher me costurou pôs botão e tudo, fez dois compartimentos nela, a patroa é
ótima costureira, as comadres sabem disso, vem até o povão das roças lá em cima
trazer roupa em casa, é mentira isso!?) pois a sacola boiava na água a entrar e
se misturar com a água do riacho. Perdi os peixes; e tinha traíra assim de
grandona, pacu, sim, não peguei pacu é outro eu me enganei no nome, porém era
grande toda vida; talvez tubarão ou baleia, embora houvessem poucos desses
gigantes dos mares feitos caipiras intimidados no córgo. Perdi tudo, tudinho,
chorei por peixes afundados... péra-lá, que morrendo afogados no córrego, pode
uma coisa assim, acaso sou mentiroso!
Bem,
minha gente. Há coisas mais extraordinárias a contar... mas o pessoal está
fechando as bocas do forno com folha de zinco, melhor irmos pra casa descansar;
mesmo porque amanhã é domingo e a gente aproveita o descanso não é? não sendo
meu caso pois pescarei dia inteiro.
Depois
conto proceis e quem sabe não traga do rio algum peixe maluco de grande para
provar o quê vou provar no fim de minha estória. Banoite.
10º
- Vou contar o fim da estória, promessa é dívida. Hoje temos mesmo mulher a
escutar e mulher sabe das coisas. A minha não veio, cá pra nós, tá emburrada
pros meus lados.
Como
eu ia dizendo, vou findar isto antes que esfrie o forno. Brincadeira. Vou
terminar agorinha
Falei
do desastre de minha canoa? Não senhor, abusado, não derreteu não: estava bem
queimada e era de barro bom, vá verificar os restos dela no fundo do corguinho,
vá. Pois bem.
Antes
de ir a pique a canoa me pregou um susto e meus amigos vão ficar ainda mais
surpresos que eu.
Seguinte.
Lamentava ainda a perda da pescaria, o que não é para estranhar-se, horas
trocando minhocas e dando comida a pernilongo, certo: pernilonga;
horas assim e sujeito até afogar-me no córrego, sei, sei sim nadar no entanto
nunca ganhei prêmio por isso sei para o gasto apenas, se falasse o contrário
mentiria realmente, sou pela verdade, não é verdade?
Depois
do prejuizão que tive, perdi mesmo a embarcação, repito: está lá a quem quiser
comprovar, lá no fundo do riozinho. Depois disso tive foi uma surpresa imensa,
de calar todos inusitados da terra até esse dia, que faz anos... de fato menos
de ano, em dezembro passado que choveu canivete, não foi? mentira! a olaria
chegou parar a produção o barro não dava ponto, o patrãozinho foi ao hospital
sentindo o prejuízo dele também.
O
meu virou um lucro espetacular.
Vão
escutando.
Os
meus peixes fugiram ao rio, os do rio e de outros rios – os rios se ligam entre
si, e quem sabe no mar ligados também – os peixes de fora entraram na minha
canoa! Aí sim contei tubarão baleia, lambari nem cascudo não tinha não sabendo
eu por que razão; iria inventar? Não tinha e em contrapartida todos monstruosos
e gigantes dos oceanos subiram na minha pobre canoa de barro, barro do baixadão
queimado lá no forno em que eu narrava ontem e trasanteontem a vocês; minto?
Acho
que foi por isso o barco afundar. Não me dando oportunidade provar aos
incrédulos; aqui na olaria tem é muita gente que não crê; e crê em fantasma.
Pode uma coisa assim!?
Marília agosto
2004
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