OS DEUSES
Nós nos
pensamos sábios retos
sóbrios
anjos, o resto é a oposição
1º - Conversa Deusa (a ser entremeada por outros causos)
Acho que sim,
sou um gênio: tenho um gênio difícil. Não é o pior, o pior os outros não me
entenderem.
Qual nada Um.
Você tem a santidade a compreensão das coisas, é o todo, o absoluto. Mas péra
um pouquinho, me parece estejam crescendo os seus cornos tão belos...
Bem. Talvez com
razão, Dois. Elevá-lo-ia a Um, o Deus Maior; tomo o dito por elogio e amizade.
Amizade e
elogio. Nada gratuitos. A propósito, estará a se lembrar daquele rabinho...
Rabinho, Dois,
sabe sou bom pagador logo quitarei, conhece minha conduta ilibada.
Sei, Um.
(Vai por aí a
amistosidade).
2º - Entremeio a Joana e o
Sindicalismo
A Joana era
linda. Deve ter sido um dia bela. Agora afrouxa murcha ranzinza estrila condena
fofoca precipita entorta descobre que não é mais a mesma, ninguém é.
Até que enfim
eles estão agora no poder. Ora, quem, Dois, os Sindicalistas. Fizeram mil e uma
até à última greve. Pararam pararam até o parar. Criticaram. Usaram a intriga
política. Aliás o que mais tem é a situação para dar oportunidade à oposição.
Picharam xingaram mostraram monstruaram os do governo atiraram o povo contra o
mando, discutiram o mando. E ficaram a observar os estragos. Aí entraram de mala
e cuia no alto, sindicalizaram a coisa.
E a Joana,
Dois, a Joana... Vou contar um podrinho dela; mas fica só entre nós Um-Dois e o
grupo escolar. Alevante os chifres, ouça.
Um belo dia
virou professora e ingressou no magistério público, então só um pouquinho
distante da politicalha do ‘jeitinho’ do empreguismo. Ali se encontra muitas
pessoas sérias a trabalhar, certa ordem, gente não se atém muito a ordem, descontemos
isso caro Dois, enfim certa ordem; alunos a gritar e não estudar, normal; ou comum; o quadro
profissional em disputa. Chega a Joana no meio, o fermento a levedar a endurecer
a apodrecer o pão. Falou, discursou, jogou as partes contra partes, imiscuíu-se
nas coisas, saiu de fininho deixando o circo pegando fogo. Um exemplar
belíssimo do Sindicalista. Logo depois deixa o magistério – onde a rigor não
lecionou mais que uns quinze dias, conforme uma sua íntima, o restante dos anos
até às portas da aposentadoria se valendo de licenças e recursos legais a viver
ilegalmente sem trabalhar. Trabalhar sim, de língua e como trabalhou... Logo
deixa a escola, ingressa na política mais alta, vira vereadora e pensa grande
como qualquer político: deputação senatoria presidência, ah a presidência! ter
direito a dizer internacionalmente besteira a colecionar gafes. Isso.
Se pretende
isso? indague a ela, Dois. Dois, dois minutos para responder que não.
3º - Entremeio Caipiras e Fazendeiros
Um. Escute Um.
Proponho, até perdoando aquele biquinho da outra vez... proponho sua Joana
discursiva desancando a situação, proponho essa diabrete por um Caipira.
Vai escutando.
Tinha um baita plantador e não colhedor de mandioca, que a seca tava muito
braba e o preço não ajudava açambarcado pelos açambarcadores e atravessadores.
E colhia vez por outra, quando tinha, milho, que pronunciava “mío”. Mas o Zé,
não falei Zé! falei agora; o Zé não tinha esse problema todo, tinha amarelão
lombriga, ele e a família ele tratando assim: “famía” porque não sei como
ocorre porém acontece do Caipira sempre deturpar as deturpações milenares
refazendo a língua, esta a rigor também sempre estrangeira, pois nunca os
homens têm origem numa origem e se dizem defensores da língua-pátria usando e
vezando estrangeirismos, neologismos, os quais viram fósseis apelidados
arcaísmos linguísticos quando em desuso, usava ele ‘famía’.
Onde mesmo eu
estava? ah sim Um, no matuto não ligando pra roça e no córgo tinha muito
lambari e a caça sendo farta já faltava muito pelas queimadas e a ação
predatória humana, isto não importando aqui, quero só encher o saco. O seu, Um.
Aí apareceu ele.
Ora quem, o
Fazendeiro.
O Fazendeiro é
bonzinho. Pras negas dele, a esposa sempre desconfiada e a meninada vai
crescendo o mais velho herda os outros brigam pela sobra da herança, hoje tem
mais direitos, direito herdar as dívidas, o Fazendeiro sempre se queixando, um
belo dia é o banco a engolir a hipoteca. Antes da hipoteca tem a ambição.
Tem razão Um,
Judas vendeu por trinta dinheiros que era muito dinheiro na época, aí, vou
confessar a você, encontrei onde escondeu a riqueza, com ela nós poderemos nos
lançar iniciando um grande negócio, é capital inicial que renderá juros, juro
aprendi eu com o banqueiro, que é um verme igual cupim: dilapida a sociedade e
come às vezes o Fazendeiro também.
Onde eu estava?
isso Um, no Fazendeiro e ele antes de praticar outros roubinhos a enricar a
família, não a ‘famía’ do roceiro, antes
foi comprando e mais comprando sitiocas por aí a preço de banana às vezes nem
pagando por ser muito barato e tomando de vez a terra. Assim nasce o
Fazendeiro, o latifundiário, que aliás tem herança quatrocentona nobre do tempo
conquistador na terra desta casa da sogra. Latifundiário, daí surgindo o
latifúndio que é uma nesga maior que muitos dos paisinhos por este planeta,
pois sem latifúndio o fazendeiro vegeta suspira e morre, entendeu Um?
4º - Entremeio Tem Agiota
É, é negócio a
pensar Dois, é. Uma Joana por dois, um e meio, o capiau vale meio. E você falou
tanto não tocou nos quinhentos réis do outro dia... quê dia! não lembra a segunda-feira?
Certo, dia de preguiça.
Aqui não tem
preguiça é a agiotagem. Vai escutando.
Um dia Dois, um
dia um pobre diabo, pobre pobre “di ma ré gessi” diz a ciranda, nadinha diabo,
até pio, portanto pobreza também no entendimento. Um dia resolveu ficar rico. Pobre
pensa pequeno minusculando a economia, pensou carro pensou casa pensou empresa
independente; carro aqui é caminhão aí poderia trabalhar por conta própria e
imaginou uma residência em alvenaria com varanda a olhar a rua os conhecidos a
passarem “olá fulano” isso daí; e o negócio era negócio de não trabalhar como
empregado para os outros, ah como gente adora independência, tanto fica escrava
da independência, a financeira por exemplo. Então, sem capital para iniciar a
coisa, se tivesse achado os trinta dinheiros... encontrou o Agiota.
Agiota se veste
bonito se perfuma bonito e mostra bonito amizade. Conversa vai conversa vem
ofertou numerário a módicos juros. Como sabe o juro é o cupim social! Juros módicos
– 50 80 100% coisa assim.
Assim afundou o
caboclo da cidade, fruto do êxodo rural, afundou a ‘famía’ afundou negócio
fundou um negocião. E dependente da independência submergiu; e acabou a
estória.
5º - Entremeio o Empresário
Parece que não
acabou.
Sim Um acho tem
um cheirozinho de grandalhão no pedaço. Seguinte... ah péra lá, vou lhe contar
dum capitalista e me lembrei que se esqueceu do capital-inicial; e os juros que
se aprende roubar com o banqueiro que rouba nos juros e comissões. Não senhor
nada disso, isso nada ver com sua estória, tem consigo mesmo, aqueles destões
daquela hora... bem vamos otimismar me pague depois, agora o Empresário, contudo
não se esqueça, negócio é negócio, amizade à parte.
O Zé – não sei
onde ouvi esse nome soa estranho, bem o Zé fazia pequenos negócios, favorzinhos
pagos. Recebia frango guloseimas em pagamento. Acostumou a freguesia, um certo
dia não era mais 'moleque pago de recados' mas Sr.José comerciante na cidade, a
qual era uma vila pretensiosa com igreja padre doutra vila maior essas coisas.
Cresceu... quê vila coisa alguma, quem cresceu foi o Zé, vila parada encolhe
sobrasse casas casas caem e vira aldeia “patrimônio” como meu matuto gosta
falar que falei. Explorou todo mundo, democrático, dobrava o pindura, o
dinheiro do pindura melhor dizer, Um, a dizer caboclo não paga pindura mesmo em
metade; não sendo o caso do Sr. José o qual cobrava levando ao delegado que era
o cabo do destacamento seu compadre o devedor e aí pagava. Por via das dúvidas
aumentava a soma errando de propósito o vai-um dos honestos a compensar perdas
possíveis. Bem, enricou. Foi com a “famiaje” falava assim, foi pra cidade, dez
anos na cidade, emigrou mais rico para a cidade-grande desvirou ‘Sr.’ virou
Doutor Comendador essas coisas de títulos; influenciou na política e... não me
deixa falar!
Não senhor, não
se tornou presidente nem senador, o marido da amante, agora é namorada não é? o
marido matou ele, o júri soltou o assassino, mesmo sendo a vítima o Doutor, soltou
o enganado por se pôr a lavar a honra.
Machismos, isso,
machismos.
6º - Entremeio Traficante
Machismo e
egoísmo. Não, creio mais em egocentrismo, o homem só se vê por isso não vê. Não
se trata desejar tudo pra si, às vezes inclusive é mão solta
Conheci também
um mão-aberta, caro Dois. Dois anos convivendo com a praga. Ora qual praga, não
é uma praga a moda atual da droga! é uma droga e cresce ano após ano, tem empresário
das drogas, drogas e armas e todo negócio escuso como venda de crianças sequestros
e a escravidão feminina pois ele trafica também com mulher; sempre em ligação com outros traficantes
internacionais. É o caso, conhecemos o produto, conhecemos os mequetrefes,
estes alimentando a farsa da eficiência policial – desconhecemos os cabeças.
Mas conheci um
Traficante, amigo só se for de sua vovó, amigo Dois, apenas o conheci, convivi
com a erva ruim, bom sujeito. Tanto assim que era como disse mão aberta: dava
emprestado dinheiro, doava fogões, comprava remédio e mais mais-zinho, que os
poderes competentes deveriam garantir ao trabalhador para não cair nas graças
traficantes. Pois é, é bom sujeito meu sujeito. Era. Era pequeno entre os
grandes nunca havendo dito ser o maior. Terá feito qualquer errado no ‘certo’
de seu mundo, foi eliminado e sua família toda a mando. Era.
7º - Entremeio Bandido
Falou direito
Um. Só não andou bem na questão daqueles trocados. Não, não é bem isso, ora trocar um capiau por uma Joana, falo é do
dinheirinho que me deve. Olhe uma coisa, dei três, cobraram um pagamos um tem
um que o deus Um me deve. Certo, apenas um, não estou fazendo você de bandido.
Isso, isso me faz lembrar o Bandido.
Era um
mequetrefe um joão-ninguém desta vida, pequenino assim na estatura e
moralmente. Grande mau-pagador, grande no gatilho; todos o temiam. Apesar disso
pegava constantemente cadeia sem ser para os policiais mostrarem serviço. De
fato: devia mil crimes, mil e um pronto, certo. Apertava o gatilho, rasgava de
peixeira, um matou a facão. Matava, roubava vez por outra, era mais do
assassinato e não fugia pra casa. Não tinha; sua residência, diziam, era o
chapéu. Pegava cana muitas vezes e mais vezes fugia, ninguém o segurando. Sei
lá, dava cachaça ao carcereiro comprava o delegado, saía na maior cara de pau.
Ficando livre até beber bravatar brigar, aí matar aí voltar à cela.
Um dia Um... não
senhor, não mataram o indivíduo, era um Bandido que se prezava não iria assim
morrer fácil na faca ou no trinta e oito. Fugiu da cadeia fugiu do meio, nunca
mais encontrado
Pra facilitar
as coisas ou ficar do seu lado, pra ver se me paga aquele unzinho, aceito:
assassinado o assassino, se não com arma, a arma da língua. Letal.
8º - Entremeio Polícia
Puxa vida,
Dois, está muito feroz matando a três por dois, sim de língua. Mas tenho aqui
na cachola um primo do seu bandido. Bandido tá assinzinho com Polícia.
Sim acho certo
me mandar ao delegado, se eu devesse realmente. Porque, veja bem, aquele um
daquela hora, descontando o troco do outro dia, e ainda tem o destão, não tem!?
agora Dois não se lembra é um deus esquecido. Mando o amigo ao cabo do
destacamento ainda ontem responsável pelo cargo de delegado na vila.
Brincadeirinha brincadeirinha.
Não era de
brincadeira. Era brincadeira que haviam feito ao coitado!
Vai escutando.
A mulher, segunda mulher a primeira fugira de suas garras, a companheira se foi
embora com o ordenança, largou a criançada no lar teve repartir com os parentes
e deixar os dois pequenos com a sogra que não gostava dele e ficou do lado da
filha fujona. Tinha mais? tinha: salário baixo atrasado, o caçulinha teve ser
internado no hospital da cidade, na vila só o boticário e não entendia nada,
falavam ter dado um pozinho matou uma velha com destempero, ia confiar. Tem
mais tem, a amante dele, sim agora é namorada; ela começou a dormir com o
patrão no emprego dela, aí ficou sem mulher e entrou na bebida. Bebia para
esquecer por quê bebia.
Assim os presos
não aguentavam – toda vez que tinha menos pra ele tinha mais aos da cela.
Cortava banho de sol, cortava
comida, não cortava a chamada super-lotação,
na época não existia o drama; o sujeito era preso geralmente por bebedeira
noutro dia sóbrio ganhava mais umas borrachadas a roupa e a liberdade, sempre a
se queixar o liberto faltar objetos e sobretudo dinheiro em seus pertences
devolvidos, pondo-se a culpa no Polícia de plantão e só tinha o cabo, o qual
era carcereiro surrador e delegado ao mesmo tempo. É mole!
Assim mesmo,
descontando... que os destões coisa alguma, descontando todo sofrimento e
fracassos do Polícia, mesmo assim se considerava um poderoso, um rei, a marchar
imponente no centro daquela metrópole, que ia além pouquinho de aldeia.
Não senhor
senhor Dois, não morreu, não tenho o péssimo costume de alguns deuses que matam
toda hora. E não pagam suas dívidas.
9º - Entremeio Santo do Pau-Oco
Falo eu Dois
deus etc. e tal e tal e coisa e pago sim as dívidas. Bem entendido, as quê o
forem. Porque, vai atentando amigo Um deus e coisa e tal, atente que os
quinhentos réis daquela vez valem bem mais que destão. Por que, veja bem, vê
como sou intelectual! veja bem: você me devolveu trinta, nada ver com
trinta-dinheiros nem com Judas, trinta e me comeu os cobres fiquei sem níquel e
ai... sim, paro. Agora, você, Um, se cala. Ou não conto algo que vi dia desses.
Seguinte. Era
um casal. Ela piedosa, dessas criaturas cheias de ladainhas segredos ao padre
dando preferência ao novo belo, cheio de apetites... em lugar do velho Don Amém
que já não dizia coisa com coisa, objeto sim das piadas e chacotas entre os
fiéis mais afoitos. Ele... que Don Amém coisa alguma, o marido da piedosa, a
fofoca geral dizendo ser marido sim de uma jovem que fugiu com o amigo dele, o
esposo da piedosa senhora louquinha pelo padre novo que lhe ofertara um santinho
no aniversário; ela fazendo aquela carinha santa imitando a gravura do
natalício e tudo o mais.
Ele consta como
sendo mau-caráter não pagando pinduras na venda e demais dívidas, igualzinho um
amigo que possuo, não não retomemos os quinhentos réis hoje. Não pagando porém
defendendo na roda eclesiástica um certo bomocismo!
Falo sem
ironia, Um, sem ironia mesmo: um autêntico exemplar do 'Santo do Pau Oco'...
Ademais um
bocado machista; aqui lembrando o quê lembravam as Filhas de Maria na
comunidade. Pois creia – andou de olho na vizinha. Tanto é verdade que a
Piedosa parou uns dias ver o Padre Novo, sob alegação que o caçula andava doentinho
e com febre, para fiscalizar aquelas comunhões de bens as quais ficavam a
tagarelar na cerca de balaústres, o quê facilita nas brechas bem os pintinhos
passarem pro outro lado vizinho e a choca chama chama tadinha e eles não vêm só
vêm quando lhes apetecendo, igualzinho
moleque brincando na rua a Piedosa até ficando rouca por gritar os filhos.
Aí o Santo...
não, calo-me. Tem coisa pior, bem pior.
10º - Entremeio Vaidade e Hipocrisia
Tem. Mas
venço a parada caro Dois. Troco um Santo seu por miserinhas a valer milhões.
Vaidade Hipocrisia Ambição muito Fumo muita Porrada e, claro, Sexo.
O Sr. Sexo não
era puro. Puro fosse dedicado à esposa dona Santa, Santa Mãe, Mãe nome vindo da
família materna. No entanto merecia isso o devasso esposo tão somente por não
ser flor a se cheirar. A começar por engravidar muitas vezes e mais vezes ainda
abortar com beberagens garrafadas essas coisas. Quanto ao seu depravado
consorte não tinha sorte, tinha procurar menininhas e coisas mais medonhas.
Morreu.
Não senhor, é
engano Dois. Como um passarinho. E pior nesse comum: a mulher chorou de cortar
o coração na hora que ele encolheu murchou a ser enterrado e desintegrado. Íntegra.
Porrada. Agora
vamos ao Dr.Porrada. Como o próprio nome sugere não levava desaforo pra casa,
sobretudo quando etilizado. Bateu vida inteira, bateu criança nos moleques, bateu
no juiz em campo de futebol, bateu, vixi, tadinha, foi muito na mulher. Um dia
exagerou: bateu na mulher de outro, outro deu-lhe um tiro.
Amigo Tabaco.
Esse era o contrário do Doutor. Carinhoso, sonhador, fazia sonhar até os de seu
convívio. Sim faleceu. Tosse hospital câncer velório. Tinha a mana chorava
desesperada, dona Coca; a irmã pobre Siá Maconha dormiu na cadeira pensaram
também houvesse morrido. Depois ‘aqui jaz, saudade dos parentes e amigos’. O
comum.
Senhora Ambição
prostituiu seu meio. Açambarcou rios e frios, engordou enricou murchou chorou
protestou voou rumo ao esquecimento. Não obstante era bela, dessas a provocar
briga no baile por sua beleza; facadas tiros. No entanto tudo isso, e tudo, se
acabando nos sete palmos. Será ainda hoje gastem tantos palmos!
Também não sei.
Sei da virgem Vaidade. Uma senhorita assinzinho. Agora, se era mesmo bonita
como linda se pensava, isso não, não talvez não fosse, não não sei. Não consigo
viver num meio desses, caro Dois, não podendo falar muito sobre. Apenas
confirmo haver morrido, dizem as más-línguas por suicídio. Confirmo somente o
falecimento por haver ajudado segurar a alça do caixão de primeira, fosse de segunda
não mudando o miolo apodrecente. Sem desejar com isto dizer foi o fim das
Vaidades. Nem das virgens.
Termino. A
Hipocrisia. Ela nunca existiu, o resto é intriga da oposição. Confundiu-me o
ver ver serem gêmeas ela e a Pureza. Tanto assim não me aventuro contar duma;
posso estar falando doutra, melhor fosse “noutra”.
É isso.
11º - Entremeio a Criança e o Baile da Terceira Idade
Sabe Um, acho
tratamos demais adultos, adulto lembra adúltero, adúltero pra mim soando
dívidas in-saldadas talvez em bens ultrajados – não senhor, não faço menção a
dez tostões quinhentões patacões sejam. Sou objetivo: adultos tortos falhos
fracos broncos porcos.
Contraponho
Criança.
Criança é o
vir, é o ser; a fonte e a água; a vida, projeto de vida. Que a gente grande
conspurca entorta e corrompe. Falo em mamadeira em chupeta, em gritos e choros
também. Alegria e tristeza, curtas rápidas insustentáveis em si mesmas; fugidias.
No maior dos amargores, a Criança foge. Para o 'mundo do faz de conta'. E no
fundo, mais realidade que se derrame sobre ela e que venha dela – tem a pureza.
Falo também do
outro extremo. Fui ao baile sabia? fui. Aí me deparei com Velhinhos gozando a
Idade da Sem-Razão em Anos Dourados prateados nas calvas. As fêmeas dessa espécie,
com certeza em extinção, elas tinham pintado o cabelo se pensando décadas
atrás, os machos já não machos carecas e chatos. Considero chatérrimo o idoso.
Sim, tem razão, serei um se Um não me matar antes com suas cobranças... não,
não me refiro àquela doutro dia, cobranças assim de me pegar no pé. E aí
ninguém me aguentará: serei o rei da grei! O mais sem-graça. Pronto. Satisfeito
seu ego doentio? Pois, Um, deus amigo, deparei-me no Baile da Terceira com
crianças. Desprovando a criança ser sempre bela. Tais crianças enrugadas
esticadas sofisticadas, gritando se sacolejando juventudes falsas e entusiasmos
bobos. Que tal pôr o pé no chão, pensei.
Tem razão, ando
pessimista e aí devo encerrar. É muito Schopenhauer para pouco deus. Adeus.
12º - Entremeio Poetas, Filósofos. Loucos.
Já sei, vai me
dizer que não li Schopenhauer, troco por Nietzche... ah fica do mesmo tamanho.
Por essa razão opto sempre pelos poetas, gente que sabe dizer loucuras amenamente
belamente e mente. Quem não, você, Um?
Eu sim.
Inclusive sobre a questãozinha... Isso mesmo, os quinhentos. Lembra daquela vez
que descontamos os vinte! bem, depois foram cinquenta, sim 50 centavos. Aí,
está bem eu paro. Eu pelos Filósofos.
Já pensou o
mundo sem eles! blasfemam há milênios; por sorte o homem comum tem a cabeça dura
no lugar, apenas fofoca e intriga, inveja deseja comenta bravata, fica do mesmo
tamanho: nasce cresce encolhe encalha afrouxa suspira, aí os outros choram
descobrindo que fora santo. O Filósofo não. Não, nega para afirmar; depois
acredita. Um desses loucos, um, Dois, um chegou à conclusão surrealista de nem
ele mesmo existir. Daí se pegou
pensando... ué, já a gente pensando num
filósofo mineiro, ué, disse-se, me enganaram (pois sempre são os outros a falar
besteira nunca o autor da asneira) me enganaram porque estou a pensar e se é
assim estou vivo, se vivo existo. Droga, falou o pensador, agora ter desdizer
tudo todos me pensarão louco, não desdigo. Estava. Varrido.
Eureca, digo
Doismente, descobri Um, descobri são farinha do mesmo saco. Aqui sendo bem original no dizer.
Tem razão Dois,
todos somos sem-razão, apenas nisto temos razão.
13º - Entremeio o Homem Comum Urbano
Como disse
temos razão, a gente tem sempre não é?
Mas se me dá
licença, se não se importa falam os gringos que xerifeiam nosso planeta, então
se não se importa desejo me reportar ao ser mais encontradiço no mundo, que tem
mais que erva braba mais que piolho mais que droga, aliás uma verdadeira droga,
o homem comum.
O homem comum?
não o Homem Comum, Comum por parte de
pai e que se pensa grande, inspirado por São Egocentro, deus bem maior que o
deus Um que o deus Dois, Três Quatro houvessem. O Homem Comum Urbano.
E o amigo a
pensar onde se possa encontrá-lo, por espécie em extinção avis-rara coisa assim. Não é fácil; por ser demais fácil. Na
esquina no circular na rua no bar na vizinhança no caminho, em todos lugares.
Como disse – não disse? – como falei é praga, erva daninha.
O vegetal da
roça é ao menos menos impuro. Não existe é mais roça, se bandeou pra cidade e é
controlado por dois monstros que minaram a humanidade, ou seja a tevê e o consumismo.
Uma loucura; tanto a diminuir a loucura poeta e a filósofa.
O vegetal
urbano, um urbanoide sujeito a todos vícios, ele pensa que pensa não pensa que
não pensa, não pesa as coisas na balança da consciência e imagina que tudo gire
em torno de si. É capaz de falar horas, pois fala, errado sempre, empafiado às vezes mas fala, horas e ao fim
não sabendo com quem ‘conversou’. Tem um exemplo literário que é literal ao meu
serviço de explicar o Urbanoide. Trata-se dum conto tido por obra prima
inserido no “Mar de Estórias” de autor meu ilustre desconhecido basco ou
galego. Bem, a síntese: dois amigos se falam uma vida no banco do jardim, um
morre o outro não sabendo sequer o nome do ‘amigo’. Isso.
Isso é isso,
Dois, não mais.
14º - Entremeio Academia e os Ecologistas
Quer-me parecer
estejamos minados por urbanoides, caro deus Um. Acredito mesmo eles tenham boa
intenção fazendo sua escolha pessoal, ou seria autoescolha? Bem, Um; não falou
isso, decerto tem o costume esquecer-se dos pinduras no bar e outras
dividazinhas safadas... Nisso desejava falar eu: o destão doutro dia, já
descontei o pagamento do tostão, sobrando ‘dividão’. Tá bem, paro.
Naturalmente,
assim não entra essa espécie, como chamou “avis-rara”?
não entra ela para a Academia. Lá é tudo pureza, tudo toga, tudo discurso, tudo
poesia. É a patrulha cultural do mundo civilizado, a qual fabrica inclusive
língua, estuda o nada a dizer, que deve ser dito dentro do padrão; o padrão formal.
Sem forma nada existindo, já provou o filósofo.
Felizmente aos
destinos do sistema solar o zé-ninguém não toma conhecimento disso e não diz,
quando diz, diz como quer e sabe e não sabe que não sabe, sabe apenas abrir a
boca para vomitar o coração. Felizmente.
Assim mesmo são
belos os discursos.
E quando um
acadêmico morre, são imortais sim mas no 'faz de conta', não falei que todos
somos crianças até prova em contrário! ah não? acabei dizer. Quando morre já
tem um na fila, parece até fila desempregada mui comum nos ares da nação, da
nação! não, do mundo atual; e empossam o tal, o qual irá renovar cultivando o
mesmo nada da palavra vazia.
Sim, os
discursos são belos.
Péra lá Dois,
aí entram os Ecologistas?
Claro que sim.
Pois estão em todos meios, até na Vovó. Vovó é a Academia. Entretanto estejam
onde estiverem eles, se pautam pela festividade; me parecendo mais espalhafato
estudantil; estudantes enquanto não se emburguesam e viram senhores
respeitáveis, aí sim podendo entrar na Academia.
Em todo caso
sorrio a eles caro Um. Gosto deles, a maioria como menino sem mau pensamento,
combatendo o dragão da maldade contra o santo guerreiro.
Aqui neste
ponto introduziria o político a sujar com corrupção e discussão a paixão dos
Ecologistas, estes a tentar limpar salvar o Planeta. Porém deixemos os
políticos fora de nossa conversa divina. Fôssemos tratar disso – um romance
para eles seria exíguo irrisório nem Guerra e Paz ou os Miseráveis daria. Voltemos
aos Ecologistas.
Quê mais dizer.
Melhor vê-los, a se distrair na televisão.
15º - Parentes Aparentes, Amigos, Desconhecidos, Compadres
Oh Dois, deus
exemplar, amigo de todas as horas, até das horas inadequadas... já sei, sei que
não deve dever, deve não temer portanto aquele realzinho; está bem, acertaremos
em dólares e cents depois. Agora
tenho uns causos aparentando grande valor, os quais troco pelos seus com os
seus acadêmicos e urologistas, ah sim ecologistas, embrulho tudo. Aliás esta
nossa conversa anda um imbróglio.
Falo dos
Parentes. Não acha parente muita bedelhagem na liberdade da gente! Não falo
desses que vêm visitar a casa com
xicrinha vazilhinha a pedir o açúcar tró-ló-ló trá-lá-lá, como se fofoca
fosse moeda, embora circulante à beça. Falo sim dos que vêm chorar as mágoas
pra gente; e mais exigem que soframos seu sofrimento – o filho que se separou,
a doença terrível do sobrinho, a fulaninha que não passou no vestibular passou
houve maracutaia da grossa tadinha; dos que nos vêm reclamar que os seus apenas
reclamam e chupam sugando o caldinho da mãe e ainda perguntam indignados “por
quê essa véia tá de cara virada!” Falo... não falo, de Parente não se pode
falar, só à boca pequena no íntimo.
Trato também
desses que não são parentes, só de sangue, e creio contaminado ainda por cima
do por baixo sendo um perigo hoje em dia receber-se sangue! São mais Aparentes.
Às vezes desconhecem os parentes. Olhe aqui, amigo, um vizinho, um circunstante
qualquer, pode ser mais chegado e mais compreensivo que os Aparentes, desses
que apenas figuram nosso sobrenome e deles na Lista Telefônica. Os quais, neste
particular junto com muitos Parentes Puros, poderão envergonhar a gente nas
instituições de proteção ao crédito. Débito, são sempre nossos débitos...
Agora, Amigos,
amigo, é outra coisa. Sofre com a gente, com a gente se alegra; participa das
desgraças lutam ao nosso lado, consolam. Merecendo mesmo nossos segredos. Aliás
não tem segredo para Amigos.
Péraí Um, um
aparte.
Aparte
concedido ao Nobre Dois Vereador Deputado Senador Afanador de quinhentos-réis.
Calma, brincadeira.
Queria dizer
que sim, a respeito do Amigo concordo em gênero número e grau porém com um
senão.
Seguinte. Amigo
é pra valer; é irmão; sofre com a gente ri com a gente. Mas existem os Amigos
que são os nossos Conhecidos, desconhecidos. Estes não são confiáveis. São
tanto quanto qualquer na rua, no qual confiamos desconfiando apenas a manter
conversação. Verdade que podemos às vezes estar perdendo belos exemplares de
pessoa autêntica. Entre o Conhecido-desconhecido (aureolado pela amizade
interesseira) e o Desconhecido, ou seja o 'Desconhecido que é conhecido sendo desconhecido
mesmo' (que não exige nada de nós seus desconhecidos, vendo pela ótica do
Desconhecido-desconhecido); fico com o último.
Concorda?
Concordo, deus
Dois, concordo. Discordo tão só de sua discordância, aí concordando plenamente.
Contudo quero
encerrar este papo, loguinho já, encerrar com um abraço de Amigo. Outro, o
Compadre.
O Compadre é um
Amigo do matuto.
Em tempos idos
ele virava pai dos filhos da gente quando a gente ia aos pés-juntos,
cruz-credo. A mulher dele virava Mãe delinhos. Se disser que nem sempre, sempre
vou concordar também: os casos de caboclos enganados ludibriados pelo ‘cumpádi’...
agora não se peca mais pela base: não tem Compadre porque não tem roça como
vimos. E na cidade o Compadre é apenas o palhaço das festas juninas encampadas
por comerciantes ávidos e pela televisão.
Então, pra quê
chover no molhado!
16º - Conclusão dos Deuses e Fim dos Entremeios
Por fim dos
entremeios, aí já não entremeio, e em final das contas, não sendo da conta de
ninguém, um que fale por dois, dois por um como fora o outro, amigos em
negócio, negócio à parte, a parte do todo, afundando decerto o erário público a
economia do país, menos destão mais tostão, que são não favas contadas mas
patacões inteiramente desvalorizados – enfim houveram por bem as partes em
acordo tão somente acordar nos causos não nas contas, pudessem ficar tudinho na
conta ‘perdas e ganhos’, ganhando mesmo quem não leu isto. Ora, como saber não
devesse ler! lendo, ora bolas.
Marília novembro
2003
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