terça-feira, 16 de julho de 2019

Os Deuses


OS  DEUSES
                                                 Nós  nos  pensamos  sábios  retos
                                                                          sóbrios anjos, o resto é a oposição


1º - Conversa Deusa (a ser entremeada por outros causos)
Acho que sim, sou um gênio: tenho um gênio difícil. Não é o pior, o pior os outros não me entenderem.
Qual nada Um. Você tem a santidade a compreensão das coisas, é o todo, o absoluto. Mas péra um pouquinho, me parece estejam crescendo os seus cornos tão belos...
Bem. Talvez com razão, Dois. Elevá-lo-ia a Um, o Deus Maior; tomo o dito por elogio e amizade.
Amizade e elogio. Nada gratuitos. A propósito, estará a se lembrar daquele rabinho...
Rabinho, Dois, sabe sou bom pagador logo quitarei, conhece minha conduta ilibada.
Sei, Um.
(Vai por aí a amistosidade).
         

2º - Entremeio a Joana e o Sindicalismo
A Joana era linda. Deve ter sido um dia bela. Agora afrouxa murcha ranzinza estrila condena fofoca precipita entorta descobre que não é mais a mesma, ninguém é.
Até que enfim eles estão agora no poder. Ora, quem, Dois, os Sindicalistas. Fizeram mil e uma até à última greve. Pararam pararam até o parar. Criticaram. Usaram a intriga política. Aliás o que mais tem é a situação para dar oportunidade à oposição. Picharam xingaram mostraram monstruaram os do governo atiraram o povo contra o mando, discutiram o mando. E ficaram a observar os estragos. Aí entraram de mala e cuia no alto, sindicalizaram a coisa.
E a Joana, Dois, a Joana... Vou contar um podrinho dela; mas fica só entre nós Um-Dois e o grupo escolar. Alevante os chifres, ouça.
Um belo dia virou professora e ingressou no magistério público, então só um pouquinho distante da politicalha do ‘jeitinho’ do empreguismo. Ali se encontra muitas pessoas sérias a trabalhar, certa ordem, gente não se atém muito a ordem, descontemos isso caro Dois, enfim certa ordem; alunos a gritar e  não estudar, normal; ou comum; o quadro profissional em disputa. Chega a Joana no meio, o fermento a levedar a endurecer a apodrecer o pão. Falou, discursou, jogou as partes contra partes, imiscuíu-se nas coisas, saiu de fininho deixando o circo pegando fogo. Um exemplar belíssimo do Sindicalista. Logo depois deixa o magistério – onde a rigor não lecionou  mais que uns quinze dias,  conforme uma sua íntima, o restante dos anos até às portas da aposentadoria se valendo de licenças e recursos legais a viver ilegalmente sem trabalhar. Trabalhar sim, de língua e como trabalhou... Logo deixa a escola, ingressa na política mais alta, vira vereadora e pensa grande como qualquer político: deputação senatoria presidência, ah a presidência! ter direito a dizer internacionalmente besteira a colecionar gafes. Isso.
Se pretende isso? indague a ela, Dois. Dois, dois minutos para responder que não.


3º - Entremeio Caipiras e Fazendeiros
Um. Escute Um. Proponho, até perdoando aquele biquinho da outra vez... proponho sua Joana discursiva desancando a situação, proponho essa diabrete por um Caipira.
Vai escutando. Tinha um baita plantador e não colhedor de mandioca, que a seca tava muito braba e o preço não ajudava açambarcado pelos açambarcadores e atravessadores. E colhia vez por outra, quando tinha, milho, que pronunciava “mío”. Mas o Zé, não falei Zé! falei agora; o Zé não tinha esse problema todo, tinha amarelão lombriga, ele e a família ele tratando assim: “famía” porque não sei como ocorre porém acontece do Caipira sempre deturpar as deturpações milenares refazendo a língua, esta a rigor também sempre estrangeira, pois nunca os homens têm origem numa origem e se dizem defensores da língua-pátria usando e vezando estrangeirismos, neologismos, os quais viram fósseis apelidados arcaísmos linguísticos quando em desuso, usava ele ‘famía’.
Onde mesmo eu estava? ah sim Um, no matuto não ligando pra roça e no córgo tinha muito lambari e a caça sendo farta já faltava muito pelas queimadas e a ação predatória humana, isto não importando aqui, quero só encher o saco. O seu, Um. Aí apareceu ele.
Ora quem, o Fazendeiro.
O Fazendeiro é bonzinho. Pras negas dele, a esposa sempre desconfiada e a meninada vai crescendo o mais velho herda os outros brigam pela sobra da herança, hoje tem mais direitos, direito herdar as dívidas, o Fazendeiro sempre se queixando, um belo dia é o banco a engolir a hipoteca. Antes da hipoteca tem a ambição.
Tem razão Um, Judas vendeu por trinta dinheiros que era muito dinheiro na época, aí, vou confessar a você, encontrei onde escondeu a riqueza, com ela nós poderemos nos lançar iniciando um grande negócio, é capital inicial que renderá juros, juro aprendi eu com o banqueiro, que é um verme igual cupim: dilapida a sociedade e come às vezes o Fazendeiro também.
Onde eu estava? isso Um, no Fazendeiro e ele antes de praticar outros roubinhos a enricar a família, não a ‘famía’ do roceiro,  antes foi comprando e mais comprando sitiocas por aí a preço de banana às vezes nem pagando por ser muito barato e tomando de vez a terra. Assim nasce o Fazendeiro, o latifundiário, que aliás tem herança quatrocentona nobre do tempo conquistador na terra desta casa da sogra. Latifundiário, daí surgindo o latifúndio que é uma nesga maior que muitos dos paisinhos por este planeta, pois sem latifúndio o fazendeiro vegeta suspira e morre, entendeu Um?


4º - Entremeio Tem Agiota
É, é negócio a pensar Dois, é. Uma Joana por dois, um e meio, o capiau vale meio. E você falou tanto não tocou nos quinhentos réis do outro dia... quê dia! não lembra a segunda-feira? Certo, dia de preguiça.
Aqui não tem preguiça é a agiotagem. Vai escutando.
Um dia Dois, um dia um pobre diabo, pobre pobre “di ma ré gessi” diz a ciranda, nadinha diabo, até pio, portanto pobreza também no entendimento. Um dia resolveu ficar rico. Pobre pensa pequeno minusculando a economia, pensou carro pensou casa pensou empresa independente; carro aqui é caminhão aí poderia trabalhar por conta própria e imaginou uma residência em alvenaria com varanda a olhar a rua os conhecidos a passarem “olá fulano” isso daí; e o negócio era negócio de não trabalhar como empregado para os outros, ah como gente adora independência, tanto fica escrava da independência, a financeira por exemplo. Então, sem capital para iniciar a coisa, se tivesse achado os trinta dinheiros... encontrou o Agiota.
Agiota se veste bonito se perfuma bonito e mostra bonito amizade. Conversa vai conversa vem ofertou numerário a módicos juros. Como sabe o juro é o cupim social! Juros módicos – 50 80 100% coisa assim.
Assim afundou o caboclo da cidade, fruto do êxodo rural, afundou a ‘famía’ afundou negócio fundou um negocião. E dependente da independência submergiu; e acabou a estória.
         

5º - Entremeio o Empresário
Parece que não acabou.
Sim Um acho tem um cheirozinho de grandalhão no pedaço. Seguinte... ah péra lá, vou lhe contar dum capitalista e me lembrei que se esqueceu do capital-inicial; e os juros que se aprende roubar com o banqueiro que rouba nos juros e comissões. Não senhor nada disso, isso nada ver com sua estória, tem consigo mesmo, aqueles destões daquela hora... bem vamos otimismar me pague depois, agora o Empresário, contudo não se esqueça, negócio é negócio, amizade à parte.
O Zé – não sei onde ouvi esse nome soa estranho, bem o Zé fazia pequenos negócios, favorzinhos pagos. Recebia frango guloseimas em pagamento. Acostumou a freguesia, um certo dia não era mais 'moleque pago de recados' mas Sr.José comerciante na cidade, a qual era uma vila pretensiosa com igreja padre doutra vila maior essas coisas. Cresceu... quê vila coisa alguma, quem cresceu foi o Zé, vila parada encolhe sobrasse casas casas caem e vira aldeia “patrimônio” como meu matuto gosta falar que falei. Explorou todo mundo, democrático, dobrava o pindura, o dinheiro do pindura melhor dizer, Um, a dizer caboclo não paga pindura mesmo em metade; não sendo o caso do Sr. José o qual cobrava levando ao delegado que era o cabo do destacamento seu compadre o devedor e aí pagava. Por via das dúvidas aumentava a soma errando de propósito o vai-um dos honestos a compensar perdas possíveis. Bem, enricou. Foi com a “famiaje” falava assim, foi pra cidade, dez anos na cidade, emigrou mais rico para a cidade-grande desvirou ‘Sr.’ virou Doutor Comendador essas coisas de títulos; influenciou na política e... não me deixa falar!
Não senhor, não se tornou presidente nem senador, o marido da amante, agora é namorada não é? o marido matou ele, o júri soltou o assassino, mesmo sendo a vítima o Doutor, soltou o enganado por se pôr a lavar a honra.
Machismos, isso, machismos.


6º - Entremeio Traficante
Machismo e egoísmo. Não, creio mais em egocentrismo, o homem só se vê por isso não vê. Não se trata desejar tudo pra si, às vezes inclusive é mão solta
Conheci também um mão-aberta, caro Dois. Dois anos convivendo com a praga. Ora qual praga, não é uma praga a moda atual da droga! é uma droga e cresce ano após ano, tem empresário das drogas, drogas e armas e todo negócio escuso como venda de crianças sequestros e a escravidão feminina pois ele trafica também com mulher;  sempre em ligação com outros traficantes internacionais. É o caso, conhecemos o produto, conhecemos os mequetrefes, estes alimentando a farsa da eficiência policial – desconhecemos os cabeças.
Mas conheci um Traficante, amigo só se for de sua vovó, amigo Dois, apenas o conheci, convivi com a erva ruim, bom sujeito. Tanto assim que era como disse mão aberta: dava emprestado dinheiro, doava fogões, comprava remédio e mais mais-zinho, que os poderes competentes deveriam garantir ao trabalhador para não cair nas graças traficantes. Pois é, é bom sujeito meu sujeito. Era. Era pequeno entre os grandes nunca havendo dito ser o maior. Terá feito qualquer errado no ‘certo’ de seu mundo, foi eliminado e sua família toda a mando. Era.


7º - Entremeio Bandido
Falou direito Um. Só não andou bem na questão daqueles trocados. Não, não é bem isso, ora trocar um capiau por uma Joana, falo é do dinheirinho que me deve. Olhe uma coisa, dei três, cobraram um pagamos um tem um que o deus Um me deve. Certo, apenas um, não estou fazendo você de bandido. Isso, isso me faz lembrar o Bandido.
Era um mequetrefe um joão-ninguém desta vida, pequenino assim na estatura e moralmente. Grande mau-pagador, grande no gatilho; todos o temiam. Apesar disso pegava constantemente cadeia sem ser para os policiais mostrarem serviço. De fato: devia mil crimes, mil e um pronto, certo. Apertava o gatilho, rasgava de peixeira, um matou a facão. Matava, roubava vez por outra, era mais do assassinato e não fugia pra casa. Não tinha; sua residência, diziam, era o chapéu. Pegava cana muitas vezes e mais vezes fugia, ninguém o segurando. Sei lá, dava cachaça ao carcereiro comprava o delegado, saía na maior cara de pau. Ficando livre até beber bravatar brigar, aí matar aí voltar à cela.
Um dia Um... não senhor, não mataram o indivíduo, era um Bandido que se prezava não iria assim morrer fácil na faca ou no trinta e oito. Fugiu da cadeia fugiu do meio, nunca mais encontrado
Pra facilitar as coisas ou ficar do seu lado, pra ver se me paga aquele unzinho, aceito: assassinado o assassino, se não com arma, a arma da língua. Letal.


8º - Entremeio Polícia
Puxa vida, Dois, está muito feroz matando a três por dois, sim de língua. Mas tenho aqui na cachola um primo do seu bandido. Bandido tá assinzinho com Polícia.
Sim acho certo me mandar ao delegado, se eu devesse realmente. Porque, veja bem, aquele um daquela hora, descontando o troco do outro dia, e ainda tem o destão, não tem!? agora Dois não se lembra é um deus esquecido. Mando o amigo ao cabo do destacamento ainda ontem responsável pelo cargo de delegado na vila. Brincadeirinha brincadeirinha.
Não era de brincadeira. Era brincadeira que haviam feito ao coitado!
Vai escutando. A mulher, segunda mulher a primeira fugira de suas garras, a companheira se foi embora com o ordenança, largou a criançada no lar teve repartir com os parentes e deixar os dois pequenos com a sogra que não gostava dele e ficou do lado da filha fujona. Tinha mais? tinha: salário baixo atrasado, o caçulinha teve ser internado no hospital da cidade, na vila só o boticário e não entendia nada, falavam ter dado um pozinho matou uma velha com destempero, ia confiar. Tem mais tem, a amante dele, sim agora é namorada; ela começou a dormir com o patrão no emprego dela, aí ficou sem mulher e entrou na bebida. Bebia para esquecer por quê bebia.
Assim os presos não aguentavam – toda vez que tinha menos pra ele tinha mais aos da cela. Cortava banho de sol,  cortava comida,  não cortava a chamada super-lotação, na época não existia o drama; o sujeito era preso geralmente por bebedeira noutro dia sóbrio ganhava mais umas borrachadas a roupa e a liberdade, sempre a se queixar o liberto faltar objetos e sobretudo dinheiro em seus pertences devolvidos, pondo-se a culpa no Polícia de plantão e só tinha o cabo, o qual era carcereiro surrador e delegado ao mesmo tempo. É mole!
Assim mesmo, descontando... que os destões coisa alguma, descontando todo sofrimento e fracassos do Polícia, mesmo assim se considerava um poderoso, um rei, a marchar imponente no centro daquela metrópole, que ia além pouquinho de aldeia.
Não senhor senhor Dois, não morreu, não tenho o péssimo costume de alguns deuses que matam toda hora. E não pagam suas dívidas.


9º - Entremeio Santo do Pau-Oco
Falo eu Dois deus etc. e tal e tal e coisa e pago sim as dívidas. Bem entendido, as quê o forem. Porque, vai atentando amigo Um deus e coisa e tal, atente que os quinhentos réis daquela vez valem bem mais que destão. Por que, veja bem, vê como sou intelectual! veja bem: você me devolveu trinta, nada ver com trinta-dinheiros nem com Judas, trinta e me comeu os cobres fiquei sem níquel e ai... sim, paro. Agora, você, Um, se cala. Ou não conto algo que vi dia desses.
Seguinte. Era um casal. Ela piedosa, dessas criaturas cheias de ladainhas segredos ao padre dando preferência ao novo belo, cheio de apetites... em lugar do velho Don Amém que já não dizia coisa com coisa, objeto sim das piadas e chacotas entre os fiéis mais afoitos. Ele... que Don Amém coisa alguma, o marido da piedosa, a fofoca geral dizendo ser marido sim de uma jovem que fugiu com o amigo dele, o esposo da piedosa senhora louquinha pelo padre novo que lhe ofertara um santinho no aniversário; ela fazendo aquela carinha santa imitando a gravura do natalício e tudo o mais.
Ele consta como sendo mau-caráter não pagando pinduras na venda e demais dívidas, igualzinho um amigo que possuo, não não retomemos os quinhentos réis hoje. Não pagando porém defendendo na roda eclesiástica um certo bomocismo!
Falo sem ironia, Um, sem ironia mesmo: um autêntico exemplar do 'Santo do Pau Oco'...
Ademais um bocado machista; aqui lembrando o quê lembravam as Filhas de Maria na comunidade. Pois creia – andou de olho na vizinha. Tanto é verdade que a Piedosa parou uns dias ver o Padre Novo, sob alegação que o caçula andava doentinho e com febre, para fiscalizar aquelas comunhões de bens as quais ficavam a tagarelar na cerca de balaústres, o quê facilita nas brechas bem os pintinhos passarem pro outro lado vizinho e a choca chama chama tadinha e eles não vêm só vêm quando lhes apetecendo,  igualzinho moleque brincando na rua a Piedosa até ficando rouca por gritar os filhos.
Aí o Santo... não, calo-me. Tem coisa pior, bem pior.


10º - Entremeio Vaidade e Hipocrisia
Tem. Mas venço a parada caro Dois. Troco um Santo seu por miserinhas a valer milhões. Vaidade Hipocrisia Ambição muito Fumo muita Porrada e, claro, Sexo.
O Sr. Sexo não era puro. Puro fosse dedicado à esposa dona Santa, Santa Mãe, Mãe nome vindo da família materna. No entanto merecia isso o devasso esposo tão somente por não ser flor a se cheirar. A começar por engravidar muitas vezes e mais vezes ainda abortar com beberagens garrafadas essas coisas. Quanto ao seu depravado consorte não tinha sorte, tinha procurar menininhas e coisas mais medonhas. Morreu.
Não senhor, é engano Dois. Como um passarinho. E pior nesse comum: a mulher chorou de cortar o coração na hora que ele encolheu murchou a ser enterrado e desintegrado. Íntegra.
Porrada. Agora vamos ao Dr.Porrada. Como o próprio nome sugere não levava desaforo pra casa, sobretudo quando etilizado. Bateu vida inteira, bateu criança nos moleques, bateu no juiz em campo de futebol, bateu, vixi, tadinha, foi muito na mulher. Um dia exagerou: bateu na mulher de outro, outro deu-lhe um tiro.
Amigo Tabaco. Esse era o contrário do Doutor. Carinhoso, sonhador, fazia sonhar até os de seu convívio. Sim faleceu. Tosse hospital câncer velório. Tinha a mana chorava desesperada, dona Coca; a irmã pobre Siá Maconha dormiu na cadeira pensaram também houvesse morrido. Depois ‘aqui jaz, saudade dos parentes e amigos’. O comum.
Senhora Ambição prostituiu seu meio. Açambarcou rios e frios, engordou enricou murchou chorou protestou voou rumo ao esquecimento. Não obstante era bela, dessas a provocar briga no baile por sua beleza; facadas tiros. No entanto tudo isso, e tudo, se acabando nos sete palmos. Será ainda hoje gastem tantos palmos!
Também não sei. Sei da virgem Vaidade. Uma senhorita assinzinho. Agora, se era mesmo bonita como linda se pensava, isso não, não talvez não fosse, não não sei. Não consigo viver num meio desses, caro Dois, não podendo falar muito sobre. Apenas confirmo haver morrido, dizem as más-línguas por suicídio. Confirmo somente o falecimento por haver ajudado segurar a alça do caixão de primeira, fosse de segunda não mudando o miolo apodrecente. Sem desejar com isto dizer foi o fim das Vaidades. Nem das virgens.
Termino. A Hipocrisia. Ela nunca existiu, o resto é intriga da oposição. Confundiu-me o ver ver serem gêmeas ela e a Pureza. Tanto assim não me aventuro contar duma; posso estar falando doutra, melhor fosse “noutra”.
          É isso.

                                                                                        
11º - Entremeio a Criança e o Baile da Terceira Idade
Sabe Um, acho tratamos demais adultos, adulto lembra adúltero, adúltero pra mim soando dívidas in-saldadas talvez em bens ultrajados – não senhor, não faço menção a dez tostões quinhentões patacões sejam. Sou objetivo: adultos tortos falhos fracos broncos porcos.
Contraponho Criança.
Criança é o vir, é o ser; a fonte e a água; a vida, projeto de vida. Que a gente grande conspurca entorta e corrompe. Falo em mamadeira em chupeta, em gritos e choros também. Alegria e tristeza, curtas rápidas insustentáveis em si mesmas; fugidias. No maior dos amargores, a Criança foge. Para o 'mundo do faz de conta'. E no fundo, mais realidade que se derrame sobre ela e que venha dela – tem a pureza.
Falo também do outro extremo. Fui ao baile sabia? fui. Aí me deparei com Velhinhos gozando a Idade da Sem-Razão em Anos Dourados prateados nas calvas. As fêmeas dessa espécie, com certeza em extinção, elas tinham pintado o cabelo se pensando décadas atrás, os machos já não machos carecas e chatos. Considero chatérrimo o idoso. Sim, tem razão, serei um se Um não me matar antes com suas cobranças... não, não me refiro àquela doutro dia, cobranças assim de me pegar no pé. E aí ninguém me aguentará: serei o rei da grei! O mais sem-graça. Pronto. Satisfeito seu ego doentio? Pois, Um, deus amigo, deparei-me no Baile da Terceira com crianças. Desprovando a criança ser sempre bela. Tais crianças enrugadas esticadas sofisticadas, gritando se sacolejando juventudes falsas e entusiasmos bobos. Que tal pôr o pé no chão, pensei.
Tem razão, ando pessimista e aí devo encerrar. É muito Schopenhauer para pouco deus. Adeus.


12º - Entremeio Poetas, Filósofos. Loucos.
Já sei, vai me dizer que não li Schopenhauer, troco por Nietzche... ah fica do mesmo tamanho. Por essa razão opto sempre pelos poetas, gente que sabe dizer loucuras amenamente belamente e mente. Quem não, você, Um?
Eu sim. Inclusive sobre a questãozinha... Isso mesmo, os quinhentos. Lembra daquela vez que descontamos os vinte! bem, depois foram cinquenta, sim 50 centavos. Aí, está bem eu paro. Eu pelos Filósofos.
Já pensou o mundo sem eles! blasfemam há milênios; por sorte o homem comum tem a cabeça dura no lugar, apenas fofoca e intriga, inveja deseja comenta bravata, fica do mesmo tamanho: nasce cresce encolhe encalha afrouxa suspira, aí os outros choram descobrindo que fora santo. O Filósofo não. Não, nega para afirmar; depois acredita. Um desses loucos, um, Dois, um chegou à conclusão surrealista de nem ele mesmo existir.  Daí se pegou pensando... ué,  já a gente pensando num filósofo mineiro, ué, disse-se, me enganaram (pois sempre são os outros a falar besteira nunca o autor da asneira) me enganaram porque estou a pensar e se é assim estou vivo, se vivo existo. Droga, falou o pensador, agora ter desdizer tudo todos me pensarão louco, não desdigo. Estava. Varrido.
Eureca, digo Doismente, descobri Um, descobri são farinha do mesmo saco. Aqui  sendo bem original no dizer.
Tem razão Dois, todos somos sem-razão, apenas nisto temos razão.


13º - Entremeio o Homem Comum Urbano
Como disse temos razão, a gente tem sempre não é?
Mas se me dá licença, se não se importa falam os gringos que xerifeiam nosso planeta, então se não se importa desejo me reportar ao ser mais encontradiço no mundo, que tem mais que erva braba mais que piolho mais que droga, aliás uma verdadeira droga, o homem comum.
O homem comum? não o Homem Comum,  Comum por parte de pai e que se pensa grande, inspirado por São Egocentro, deus bem maior que o deus Um que o deus Dois, Três Quatro houvessem. O Homem Comum Urbano.
E o amigo a pensar onde se possa encontrá-lo, por espécie em extinção avis-rara coisa assim. Não é fácil; por ser demais fácil. Na esquina no circular na rua no bar na vizinhança no caminho, em todos lugares. Como disse – não disse? – como falei é praga, erva daninha.
O vegetal da roça é ao menos menos impuro. Não existe é mais roça, se bandeou pra cidade e é controlado por dois monstros que minaram a humanidade, ou seja a tevê e o consumismo. Uma loucura; tanto a diminuir a loucura poeta e a filósofa.
O vegetal urbano, um urbanoide sujeito a todos vícios, ele pensa que pensa não pensa que não pensa, não pesa as coisas na balança da consciência e imagina que tudo gire em torno de si. É capaz de falar horas, pois fala, errado sempre,  empafiado às vezes mas fala, horas e ao fim não sabendo com quem ‘conversou’. Tem um exemplo literário que é literal ao meu serviço de explicar o Urbanoide. Trata-se dum conto tido por obra prima inserido no “Mar de Estórias” de autor meu ilustre desconhecido basco ou galego. Bem, a síntese: dois amigos se falam uma vida no banco do jardim, um morre o outro não sabendo sequer o nome do ‘amigo’. Isso.
Isso é isso, Dois, não mais.


14º - Entremeio Academia e os Ecologistas
Quer-me parecer estejamos minados por urbanoides, caro deus Um. Acredito mesmo eles tenham boa intenção fazendo sua escolha pessoal, ou seria autoescolha? Bem, Um; não falou isso, decerto tem o costume esquecer-se dos pinduras no bar e outras dividazinhas safadas... Nisso desejava falar eu: o destão doutro dia, já descontei o pagamento do tostão, sobrando ‘dividão’. Tá bem, paro.
Naturalmente, assim não entra essa espécie, como chamou “avis-rara”? não entra ela para a Academia. Lá é tudo pureza, tudo toga, tudo discurso, tudo poesia. É a patrulha cultural do mundo civilizado, a qual fabrica inclusive língua, estuda o nada a dizer, que deve ser dito dentro do padrão; o padrão formal. Sem forma nada existindo, já provou o filósofo.
Felizmente aos destinos do sistema solar o zé-ninguém não toma conhecimento disso e não diz, quando diz, diz como quer e sabe e não sabe que não sabe, sabe apenas abrir a boca para vomitar o coração. Felizmente.
Assim mesmo são belos os discursos.
E quando um acadêmico morre, são imortais sim mas no 'faz de conta', não falei que todos somos crianças até prova em contrário! ah não? acabei dizer. Quando morre já tem um na fila, parece até fila desempregada mui comum nos ares da nação, da nação! não, do mundo atual; e empossam o tal, o qual irá renovar cultivando o mesmo nada da palavra vazia.
Sim, os discursos são belos.
Péra lá Dois, aí entram os Ecologistas?
Claro que sim. Pois estão em todos meios, até na Vovó. Vovó é a Academia. Entretanto estejam onde estiverem eles, se pautam pela festividade; me parecendo mais espalhafato estudantil; estudantes enquanto não se emburguesam e viram senhores respeitáveis, aí sim podendo entrar na Academia.
Em todo caso sorrio a eles caro Um. Gosto deles, a maioria como menino sem mau pensamento, combatendo o dragão da maldade contra o santo guerreiro.
Aqui neste ponto introduziria o político a sujar com corrupção e discussão a paixão dos Ecologistas, estes a tentar limpar salvar o Planeta. Porém deixemos os políticos fora de nossa conversa divina. Fôssemos tratar disso – um romance para eles seria exíguo irrisório nem Guerra e Paz ou os Miseráveis daria. Voltemos aos Ecologistas.
Quê mais dizer. Melhor vê-los, a se distrair na televisão.


15º - Parentes Aparentes, Amigos, Desconhecidos, Compadres
Oh Dois, deus exemplar, amigo de todas as horas, até das horas inadequadas... já sei, sei que não deve dever, deve não temer portanto aquele realzinho; está bem, acertaremos em dólares e cents depois. Agora tenho uns causos aparentando grande valor, os quais troco pelos seus com os seus acadêmicos e urologistas, ah sim ecologistas, embrulho tudo. Aliás esta nossa conversa anda um imbróglio.
Falo dos Parentes. Não acha parente muita bedelhagem na liberdade da gente! Não falo desses que vêm visitar a casa com  xicrinha vazilhinha a pedir o açúcar tró-ló-ló trá-lá-lá, como se fofoca fosse moeda, embora circulante à beça. Falo sim dos que vêm chorar as mágoas pra gente; e mais exigem que soframos seu sofrimento – o filho que se separou, a doença terrível do sobrinho, a fulaninha que não passou no vestibular passou houve maracutaia da grossa tadinha; dos que nos vêm reclamar que os seus apenas reclamam e chupam sugando o caldinho da mãe e ainda perguntam indignados “por quê essa véia tá de cara virada!” Falo... não falo, de Parente não se pode falar, só à boca pequena no íntimo.
Trato também desses que não são parentes, só de sangue, e creio contaminado ainda por cima do por baixo sendo um perigo hoje em dia receber-se sangue! São mais Aparentes. Às vezes desconhecem os parentes. Olhe aqui, amigo, um vizinho, um circunstante qualquer, pode ser mais chegado e mais compreensivo que os Aparentes, desses que apenas figuram nosso sobrenome e deles na Lista Telefônica. Os quais, neste particular junto com muitos Parentes Puros, poderão envergonhar a gente nas instituições de proteção ao crédito. Débito, são sempre nossos débitos...
Agora, Amigos, amigo, é outra coisa. Sofre com a gente, com a gente se alegra; participa das desgraças lutam ao nosso lado, consolam. Merecendo mesmo nossos segredos. Aliás não tem segredo para Amigos.
Péraí Um, um aparte.
Aparte concedido ao Nobre Dois Vereador Deputado Senador Afanador de quinhentos-réis. Calma, brincadeira.
Queria dizer que sim, a respeito do Amigo concordo em gênero número e grau porém com um senão.
Seguinte. Amigo é pra valer; é irmão; sofre com a gente ri com a gente. Mas existem os Amigos que são os nossos Conhecidos, desconhecidos. Estes não são confiáveis. São tanto quanto qualquer na rua, no qual confiamos desconfiando apenas a manter conversação. Verdade que podemos às vezes estar perdendo belos exemplares de pessoa autêntica. Entre o Conhecido-desconhecido (aureolado pela amizade interesseira) e o Desconhecido, ou seja o 'Desconhecido que é conhecido sendo desconhecido mesmo' (que não exige nada de nós seus desconhecidos, vendo pela ótica do Desconhecido-desconhecido); fico com o último.  Concorda?
Concordo, deus Dois, concordo. Discordo tão só de sua discordância, aí concordando plenamente.
Contudo quero encerrar este papo, loguinho já, encerrar com um abraço de Amigo. Outro, o Compadre.
O Compadre é um Amigo do matuto.
Em tempos idos ele virava pai dos filhos da gente quando a gente ia aos pés-juntos, cruz-credo. A mulher dele virava Mãe delinhos. Se disser que nem sempre, sempre vou concordar também: os casos de caboclos enganados ludibriados pelo ‘cumpádi’... agora não se peca mais pela base: não tem Compadre porque não tem roça como vimos. E na cidade o Compadre é apenas o palhaço das festas juninas encampadas por comerciantes ávidos e pela televisão.
Então, pra quê chover no molhado!


16º - Conclusão dos Deuses e Fim dos Entremeios
Por fim dos entremeios, aí já não entremeio, e em final das contas, não sendo da conta de ninguém, um que fale por dois, dois por um como fora o outro, amigos em negócio, negócio à parte, a parte do todo, afundando decerto o erário público a economia do país, menos destão mais tostão, que são não favas contadas mas patacões inteiramente desvalorizados – enfim houveram por bem as partes em acordo tão somente acordar nos causos não nas contas, pudessem ficar tudinho na conta ‘perdas e ganhos’, ganhando mesmo quem não leu isto. Ora, como saber não devesse ler! lendo, ora bolas.
Marília   novembro  2003

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