Planeta ‘X’
Cap.I – Astronauta...
Sem Muita Convicção
Ausentei-me
do ponto combinado com José. Não era bem por coragem, que nunca tive de
sobra... Além do mais, desconhecia a Amazônia; sequer podia chamar-me ‘caçador’
sem corar. Avistando cobra e inseto por todos os lados; qualquer som estranho a
um cidadão, parecia a este aqui uma onça! Não vi onça alguma e até esqueci-me
de levantar a arma tremendo a mira pra lá pra cá, no encontro imprevisto: um
barulho, um vulto, a seguir um homem.
--Quem
vem lá! – bufou o desconhecido conhecido não ser o Zé manco pela perna
mecânica.
Seria
brincadeira? tempo de carnaval era, fevereiro três ou quatro, não estou
lembrado. Espantei-me com o sujeito fantasiado, fantasiado em plena selva...
Indamais vestido de espaçonauta, desses vistos nos filme de televisão. Todo
enlatado e brilhante à claridade fraca do ambiente. Devo ter tremido. Sei a voz
não haver saído.
--Quem
vem lá? – senti-lhe o suor, já tão perto de mim.
--Sou
o Chico Paes, de Mato Grosso... de Minas... de Rio Preto (eu andava apavorado,
creio, não lembrava donde tinha vindo). Estou caçando com o José Pires, nada
mais! Juro, garanti com toda coragem que Deus me deu.
--Pensei...
– retorquiu o moço, sorrindo; o que me desarmou o computador programado para o
medo. E continuou: --Que faz o senhor por estas bandas? Ah sim, pescando,
caçando. Após um breve momento em que parecia pensar lá longe tendo deixado à
minha frente a carcaça para minha admiração, após isso interferiu:
--Quer
participar de uma viagem cósmica?
Então,
pensei, era ele o doido! Olhava-me fixo, examinava o meu perfil de cima a
baixo, repuxava levemente a parte esquerda do rosto e apertava com insistência
o olho esquerdo quando pretendendo destacar algo; deixou-me embaraçado.
Lunático. Preferia naquele momento encontrar realmente a onça, como requeria o
lugar embora as pernas andassem moles e não iria correr muito do felino malhado.
Antes a onça que o louco. Quê fazer, pensei? Depois o homem falou falou falou
sem parar; contou uma estranha aventura sobre um Doutor Jingo e uns
companheiros, hipotéticos, e da tentativa para atingir um planeta distante e as
galáxias, um mundaréu atrapalhado de astronomia; iriam numa espaçonave
construída ali perto por eles mesmos. Afiançou tudo andar certo, a partida
seria “amanhã”. Ele se arrependera e fugia. Fica claro neste ponto eu não
acreditar na estória furada do sujeito de lata ou qualquer coisa semelhante.
Não esperou resposta, carregou na invectiva: se eu quisesse... era só entrar na
casca trazida por ele, ou roupa se ficar melhor dizer. Não, não se tratava duma
fantasia carnavalesca; mesmo porque estaria louquinho da silva, se houvesse
vindo ali no meio do mato brincar o carnaval, fugindo do Rio e das escolas de
samba. E... ah, como seria bom ter encompridado as reticências ao infinito! e,
para minha própria surpresa, coisa assim como diria... num desses acessos de
maluqueira inexplicáveis que sempre me deu desde guri, nesse momento aceitei
prontamente a oferta. Bem, isso mostrava já acreditar no rapaz ou era tão só
necessidade de matar a curiosidade que me abrasava lá dentro. Prova igualmente
eu ser burro quando jovem, mas deixemos os elogios, voltemos ao viajante do
espaço. Sim, aceitei prontamente. Já me vi despido a trocar as vestes com o
dito cujo. Sorri; é que achei-me engraçado e envaidecido. Imediato saí sem
arma, a espingarda atirei prum lado, fui saindo despojado de qualquer Chico
Paes, tornando-me uma ‘coisa’. Segui por onde me indicou o fulano. Então, já a
meio caminho, fiz o xi mais categórico que se viu, pois me esqueci de perguntar
ao conquistador de planeta como dever-me-ia chamar na minha nova pele de
cosmonauta.
Andei
muito, cansei-me, suei. Cheguei.
Encontrei
um bando esquisito, arrumando não sei quê, indo e vindo aparvalhado como
formiga doceira, num pátio de um prédio encardido. Havia um baixinho careca e
carrancudo, dava ordens e gritava sem parar. Pareciam apavorados. Esbocei
movimento de volta à minha selva de onças e pernilongos; porém não passei dos
ameaços.
--Seu
burraldo! precisava demorar tanto? fique firme à alavanca – me berrou o
calvinho.
Corri
atrapalhado e trêmulo para dentro, à procura da tal ‘alavanca’ Que alavanca? de
quê? para quê? a quem perguntar? Um encontrão agradável com uma garota como eu
vestida, acordou-me. Foram-me empurrando normalmente e fiz uma série de
trabalhinhos dos quais nada entendia. Calado. Não, não tinha coragem indagar
coisa alguma. Em compensação ninguém me perguntava nada. Madrugada ainda estava
trabalhando, menos desorientado mais ignorando o serviço. Foi então que surgiu
um imprevisto grosseiro, um tombo com saldo em caixas e peças espalhadas; uma
brincadeira de um tal de Pedro, só poderia mesmo ser um Pedro! o qual passou-me
uma rasteira... e após desculpou-se fingindo embaraço – foi daí pela primeira
vez dirigirem-me a palavra. “Desculpa, Zumba”. Meu nome era então Zumba! bolas.
Depois descobri meu número ser ‘22’. Cada membro possuía um número no bolso da
camisa, abaixo de um negócio de pano tomando todo o pescoço.
Finalmente,
houvesse naquela hora um fim, subíamos através duma escada a uma portinhola
para dentro de um trem brilhante prateado pontudo pra cima, que a custo
percebia ser um foguete. Meu coração estourava de medo, queria ele saltar pra
fora do peito (pensei ter de enfrentar possível transplante a trocar aquela
bomba estourando...) Fila indiana, exame sabe lá senão reexame por um médico
cara de vampiro; imediatamente a escadinha para a nave. O homenzinho gritou já
rouco à minha passagem:
--O
senhrr non prrecisa, é de ferro! – empurrou-me o médico germânico sem
examinar-me... Meu suor deveria estar aparecendo para fora da indumentária
prateada. Entrei, de pernas bambas.
Cap. II – Viagem ao Sem
Fim
Pela
voz enjoada do Dr.Jingo, estrilada no alto-falante da cabine, fiquei sabendo
estarmos aptos a decolar. Sentei-me num lugar errado, ainda cruzei as correias
de segurança diferente dos outros; era a primeira vez que me pilhava fazendo
algo de muito errado. Todos olharam em minha direção e me envergonhei. Uma
Luzia graciosa indicou-me e me intimou com um sorriso a levantar-me de sua
poltrona de comando. Como apenas restasse uma vaga, concluí ser a minha;
acertei. Certa pilhéria do Pedro e a consequente ralhação de Jingo lá fora,
ciente pelo vídeo de nossos atos na cabina; uns dados técnicos finais (eu não
entendia coisa alguma); um blá-blá-blá sobre deveres a cumprir; e a largada.
Ouvimos barulho fino que doía nosso ouvido, depois ficou mais forte; o vento à
nossa traseira soprando uns sons estranhos; fumaça subindo ao redor e
encobrindo a base de lançamento; uma dorzinha no ventre aqui...
Partimos
em fração de segundos. Não sabia que o pensamento fosse tão rápido. Então
abarquei toda uma vida, séculos de vivência, naquele momento da arrancada para
o alto, na ânsia de uma morte iminente. Pensei no Brasil que se despegava a
nossos pés, lembrei-me dos impostos atrasados, da declaração do Imposto de
Renda, da prestão a liquidar; lembrei-me do meu tempo de caixeiro-viajante pelo
país a vender minhas porcarias e pensei nos estudos reencetados fazia tão pouco
tempo; não me esqueci na lembrança das garotas; via-me no mesmo instante a
assistir um jogo de futebol o meu time perdendo e sua torcida feroz.
Lembrava-me doutras situações na rotina da vida. Então um fiozinho de tristeza
tomou o meu ser: não é que eu deixava a Terra mesmo! não era sonho; e solteiro,
barbaridade! sem deixar sequer uma herança humana... Por que não me casei? E se
não voltasse mais ao planeta querido, nenhum herdeiro deixaria. Aí eu próprio
me respondi: “também, para que um filho? a pagar Imposto de Renda, ir à guerra,
temer doença e a sociedade?” temer temer temer, vida besta, isso sim. Podia bem
ser que o garoto nascesse tonto, igual o genitor, resolvendo a ir caçar
onças... e espaçonaves!
--Vinte
e Dois, aperte o cinto. Não encoste nos ‘biguins’.
--?!
--Trinta
e Um, as “Spats”. Mulher não serve para isso, mesmo!
O
monstro que dava ordens lá dentro era o “Doutor”, como o chamavam. Frio, técnico,
rabugento. Não foi com minha presença; teria percebido eu não entender do
instrumental; achou-me talvez antipático. Também não apreciava as mulheres,
nenhuma das três a bordo. Entre os homens eu era o mais visado, claro e
justamente, por não fazer nada certo do que mandava e nem entender sobre os
sinais e códigos. Os outros rapazes eram mais chegados ao Doutor, por
conhecerem bem a missão; por serem engenheiros com especializações. Soube, num
sussurro, o Doutor ser assassino, e isso ficava bem para seus cabelos brancos
espetados e o olhar sempre distante.
Nós
na tripulação éramos massa heterogênea. Eu nunca conseguira sequer desmontar um
cadeado, agora metido a astronauta. Isso esclarece tudo sobre minha pessoa. O
Pedro era sabidão, fora aviador desertado na guerra; tinha certo humor e um
senso incomum; penetrante porém moleque espigado. Esse não perdia oportunidade
para uma peça. Uma vez aplicou um grude fedorento nas pílulas alimentícias da
Maria (nosso alimento era concentrado e não tinha sabor de coisa alguma). Essa
moça era chata de corpo e devia pesar por dois caçadores de onça; um contrassenso
sua presença na viagem, não fosse a capacidade técnica insubstituível.
Felizmente ela não falava quase. Tinha a Luzia, graça beleza submissão; mesmo o
Doutor, não obstante seu asco pela jovem, vinha pedir-lhe esclarecimentos sobre
sua especialidade, que ela demonstrava bem, suponho, nos painéis. A outra
mulher era a “Trinta e Cinco”, verdadeiro autômato, inigmática como a Esfinge.
O resto da tripulação acho que não se poderia chamar ‘gente’; contudo apreendia
a contento as ordens do Dr.; e passou a viagem num mutismo horrível,
controlando relógios e instrumentos outros, que eu não poderia sequer
descrever. Havia no instrumental algo parecido computador, mas não sei, nunca
havia visto um para comparar.
Meu
nervosismo estava flagrante? era demasiado; ou o suficiente a um neófito
naquela missão. Não compreendia o que se falava, embora em minha língua. Era
uma chuva de termos a mim desconhecidos e sem qualquer significado (eles
entendiam!) Coisas assim como: ‘stirs’ ‘ribus’ ‘biguins’ e outras palavras
sonantes – as quais não me acrescentavam nadinha. Fiquei fazendo à tripulação
pequenos serviços e apreciando as malandragens do Pedro. Logo perceberam minha
identidade, ou por outra, minha falta de identidade... Quase apanhei e tive de
tremer diante do Doutor num inquérito. O Pedro me gozou na oportunidade,
propondo aos companheiros me jogarem para fora da nave. Diante de meu espantado
“até você!” mudou a tática para ainda brincar:
--Esperem
lá, não joguem o Vinte e Dois, deixemos o fulano como cobaia, ao descermos no
planeta desconhecido...
Pelo
menos servi de ponto de referência e às piadas. De resto foi ‘22’ pra cá ‘22’
pra lá. Prestava grandes serviços, eu achava, como levar as pílulas, tentar
pegar objetos que despregavam pela falta de gravidade quando perto de nosso
satélite natural...
O
tempo passou. Quanto? dias, meses... como poderia eu saber se a coisa era tabu
entre os companheiros? Não havia Sol ou Lua para orientação, senão uma imensa
noite estrelada, linda sentia ser linda, o que não resolvia minha ignorância;
havia manchas nebulosas ou trechos esfumaçados... É verdade, os instrumentos
estavam ali para medir tudo, porém já afirmei que não os compreendia. Uma vez
ouvi referência ao fato de termos “mais onze meses pela frente”; todavia isso esclarecia
pouco. Falava-se frequentemente nos anos, ou mais precisamente na redução do
ano-luz pelo ‘tecninto’, certa máquina para reduzir o tempo a frações ou
qualquer coisa assim, e também servia, creio, para aumentar a velocidade
astronomicamente a percorrer um espaço de gerações em meses.
Já
entediava pela rotina os nomes técnicos e a noite interminável. Talvez não
fosse a situação dos outros, aferrados aos medidores e fazendo cálculos, grego
para mim. Então sequer me comunicava com os outros, temendo reprovação geral e
pior ainda, a ira do asqueroso Doutor. Somente especulei o “onde fica o
lavatório” porque era impossível não indagar... Descoberta essa novidade salvadora,
nada mais perguntava, mesmo ao Pedro ou à Luzia, os mais acessíveis. Tédio.
Cabeça oca, enjoo. Depois lancei o recurso de ‘pensar’. Pensar era meu vício de
sonhar acordado, quando não mais podia sonhar. Vício antigo.
As
estórias sonhadas-vividas passavam-se sempre na Terra, com gente conhecida ou
imaginada, paisagens conhecidas ou inventadas; sempre de fim bom, feliz! Depois
ainda lembrava-me com susto a Terra estar tão distante, podendo ser na verdade
um pontinho qualquer dos que víamos. Rolavam lágrimas, o Vovô Francisco
berrando lá no fundo remoto: “homem não chora, Chiquinho!” Ninguém via essa
fraqueza, eu não contava a ninguém, e a água límpida vertida era guardada pelo
capacete. Aliás, parecia-me ser a única serventia do capacete; por mim atiraria
a coisa muito longe; mas era para usá-lo, diziam: não discutia ordens, não era
de minha conta.
Um
dia (sei lá se era dia ou noite) notei dificuldade em meus movimentos, enquanto
o espelho por sua vez me devolvia um rosto enrugado mesmo! Conjeturei fosse um mal-estar
passageiro pela contínua posição incômoda a que nos submetíamos. Nem cabia
imaginar que os meus vinte e sete anos estivessem ali representados por cinquenta!
É, encontrava-me idoso. Teria havido um estado letárgico? Será que adormecera
anos a fio sem perceber tal? Os outros companheiros teriam igualmente perdido a
juventude? Há quantos dias não tinha coragem de conversar com os mesmos...
--Olhe,
Vinte e Dois, veja o ponto vermelho, apagando e acendendo... estamos chegando!
Reconheci
a voz de Pedro, um pouco rouquenha, insistindo para eu olhar um instrumento
redondo, em suas mãos. Seria realmente o Pedro, ou outra peça do malandro...
Que feições envelhecidas! Rugas, palidez; um velho que teria uns trinta e cinco
anos no registro civil...
Pedro
foi levar o relógio-controle ao Doutor, o qual fazia muito obstinava-se mudo.
Então, deu um berro formidável de espantar a todos: o Doutor parecia múmia.
Morto! Luzia tirou-lhe o capacete... e um cheiro nauseabundo insuportável de um
corpo sem vida desintegrando-se, dominou a cabine. Imediato mandaram-me
carregar o cadáver do Doutor para o fundo, enquanto a pesadona Maria abriu uma
portinhola; colocamos o velhote aí, fechamo-la, e o toque de um botão
empurrou-o fora da nave. Os três principais engenheiros apenas seguiram o fato
com o rabo de olhos; não chegaram sequer a levantar-se dos comandos; eu,
sentimental ainda, esbulhava-me todo; eles não. Um deu ordem para voltarmos aos
nossos lugares, pois estávamos sob a gravidade do Planeta ‘X’.
Éramos
sete indivíduos, todos aparentando uns quarenta e cinco anos ou mais. Nesse
momento não pensávamos nisso e esquecíamos o Doutor morto por velhice.
Trocávamos tudo pela atenção a um corpo sideral jovem, alaranjado, como os
reflexos de uma fogueira em neblina. Pela distância em que nos encontrávamos,
comparei-o à nossa Lua – ah, que saudade da Lua...
Cap.III – Benvindo ao
Planeta ‘X’
Nossa
axissagem deu-se com sucesso. Não posso precisar se a descida aconteceu na
noite ou durante o dia no Planeta ‘X’. Meu desconhecimento era completo a
propósito desse corpo celeste e sobre outros corpos. A rigor não poderia falar
mesmo sobre a nossa Terra. Quanto a ‘X’, não conseguiria localizá-lo dentro de
uma precisão na Ciência ou fornecer dados astronômicos e técnicos razoáveis:
aos leigos, nós, bastam afirmações de existência. Todavia parece que era um
alaranjado mais claro, portanto dia em ‘X’; talvez devêssemos convencionar como
dia no planeta as oito horas em que a luz solar (ou a de uma estrela
desconhecida, por mim lógico, e geradora semelhante nosso Sol) atingia maior
intensidade na superfície, trazendo certo calor abafado, com uma luminosidade
filtrada por constante neblina. Quanto à noite, era menos abafada, mas também
clara, possibilitando o reconhecimento de objetos a uns vinte metros, ou pouco
menos. A porta inferior da nossa nave abriu-se. Descemos.
Os
aparelhos de radar e tevê ou coisa assim acusavam pontos obscuros, movimento de
objetos estranhos, porém não tínhamos outro caminho. A finalidade da expedição
espacial era pesquisar e precisávamos descer. Felizmente o ar de lá era bom, ou
teríamos de ficar encapacetados sempre. Ficamos sabendo melhor sobre o ar por
intermédio de um acidente: o Pedro tropeçou e o seu capacete escapara longe;
desprotegido o moço (então enrugado) respirou fundo e bateu feliz no peito.
Todos ficamos descobertos. Ah, quanta alegria! Alguns de nós tinham o pescoço
marcado pelo capacete acondicionante. Agora estávamos bem mas... havia uma
atmosfera de expectativa e de atenção
para toda a desolação que nos rodeava. Recebemos ordens para cada membro ir
numa direção. Bem entendido, não me despreguei do amigo Pedro, o qual assim
como eu andava num estado emocional tremendo. Garanto de minha parte haver
realmente medorreia das mais bem desenvolvidas.
Num
repente, não vimos mais os companheiros; desapareceram em algum acidente do
terreno. Imediatamente nos vimos cercados por dezenas de homens! Procurei
alguma árvore para trepar, atendendo quem sabe ao instinto vindo do tempo em
que éramos macacos... Entretanto não fiz sequer um movimento, plantado no solo
como estava; nem adiantaria: o planeta era desprovido de vegetação. Imaginei uma deliciosa águia-monstro a me
agarrar, levando-me para o pico de alguma montanha bem alta, que por sinal não
existia também. Bem mais tarde soube não correr o perigo menos perigoso da ave (
o maior seria mesmo os homens!) é que não existia ave nem outro animal inferior
na Planeta ‘X’, sequer um inseto! Desolação, desolação. Estávamos prisioneiros.
Era
interessante a gente que nos cercava. Homens – vamos chamá-los assim – estatura
mediana, morenos, meio mongoloides, cabeças raspadas, expressão abobalhada em
todos semblantes. Impressionava! O cerco foi aumentando, ou por outra, foi
diminuindo; até ao ponto de nos agarrar a ambos. Estávamos rodeados por uma
espécie de chineses com olhar fixo; notei estarem descalços. Ninguém falava:
nós de pavor, eles por terem a língua arrancada! Mesmo assim havia um zumbido,
um som vago, o da presença de centenas de homúnculos a perder-se de vista; diria
um exército. Então o Pedro destravou repentinamente a língua e berrou o meu
nome; a turma limpou o terreno, em correria louca e assustadiça. Aos poucos,
porém, voltaram nossos policiais esquisitos, e não adiantaram novos gritos de
meu amigo, porque fomos irremediavelmente presos. Quanto a mim, não articulei
som algum; não sei se a língua estava sendo engolida pelo coração, ou se ele
estava saindo pela garganta a atropelar a língua.
Daquele
ponto fatídico fomos levados a um lugar qualquer. Eu seguia mais atrás;
enquanto imaginava o terror por que passaria. Andamos horas, creio; e paramos.
Nisso percebi a expressão de uma daquelas criaturas. Ela me olhava com
simpatia, ternura mesmo, apresentando um semblante, diria, até feminino.
Percebera nos outros homens uma feição assim; dava ideia da expressão de vaca
morta. Num momento o dito fulano ofertou-me um vestido semelhante ao seu,
semelhante ao de todos os outros. Tratava-se de uma camisola grosseira, de cor
entre roxa e amarela. Compreendi a intenção do rapaz e submeti-me à sua
vontade: raspou-me a cabeça, vestiu-me a camisola. Transformei-me num dos
‘iguais’... Pela primeira vez na vida agradeci à natureza ter-me feito moreno
amarelado. Que faria o Pedro, sendo branquelo e ruivo! Minha cara não ajudava muito.
Contudo a nova situação salvou-me a pele e permitiu a esta coisa aqui a
oportunidade para conhecer até bem aquela estranha sociedade.
Cap. IV – Lições de Vida
no Planeta dos Homens Iguais
Logo
notei que não me distinguiam dentre os outros. Meu companheiro Pedro
desaparecera. Em vão perguntei dele e quis saber o seu destino. Quem tem a
língua arrancada não pode falar em resposta! E se pudesse, que idioma usaria?
Sempre tive certas dúvidas mesmo em minha linguagem; poderia entendê-los, caso
tentassem falar o português, assim deformados? Creio não ser possível.
A
fome apertava. E as pílulas? me perguntei e respondi haver esquecido tudo no
foguete. Fiz sinal conveniente à falta de alimento ao meu distinto amigo ‘Z’ (não
consegui nunca saber o nome dessa boa estrela; e teria lá alguém um nome!)
Então levou-me a um pântano pastoso; é que não existia propriamente água em
‘X’. Dali tomou uma porção daquilo e ofereceu-me. Comi, embora com certo nojo;
e o fiz porque o estômago vazio não tem luxinhos, não. Tinha a coisa um gosto
de massa de vidro, nem mais nem menos; quem experimentou a massa de gosto ruim,
saberá a porcaria que engoli. Matou a fome por um dia, apesar do mau sabor.
Assim, acostumei-me ao tratamento alimentar; do contrário morreria. Ora, se
mesmo com pauladas nos acostumamos...
Andamos
por todo um dia em tarefas miúdas: transportando alguns objetos leves e
compridos para um canto; outros dali para um depósito longe uns trezentos
metros. Nos outros dias desfizemos tudinho e tornamos a refazer; eu ‘Z’ e todos
os nossos irmãos. Parece que o trabalho tinha apenas o sentido ocupacional. Nem
se poderia lutar pela vida, digamos, pelo alimento, o pão nosso de cada dia: o
alimento era aquele pântano aludido. Conjeturei sobre as razões, acostumado
sempre fui a encontrar as causas de tudo à minha frente; as respostas eram
interrogações intermináveis. Trabalhar para construir algo? o quê? Vi depois
não haver motivo para construir coisa nenhuma; não tinham ambição. Pensei então
na luta contra a doença; e concluí: para quê? não encontrei ninguém doente por
lá!
Aliás,
uma particularidade do Planeta ‘X’ – os indivíduos eram mortos, por livre
vontade ou por costume, aos quarenta anos (tremi à lembrança de meu rosto
enrugado, ou seja, meu próprio fim). Ora, contudo reconheci alguma sabedoria na
medida; pois conhecendo-se que é depois dos quarenta que viramos uma bagaceira,
isto é, grandes clientes dos médicos; e que até aos quarenta anos mantemos
orgulhosa meia saúde; entendemos a droga de ser quarentões; e torna-se fácil compreender
por que os seres de ‘X’ eram todos saudáveis. Mortalidade infantil? claro,
existia. Porém em tal caso todos os doentes eram tratados cientificamente, pela
sábia natureza xiseana: nasceu a criança doente? tornou-se enferma, inválida,
defeituosa? Um só remédio a todos os males – a faca! Mesmo porque, em casos de
engano nos primeiros dias, isto é a doença não aparente – viria fatalmente o
quinto ano... Pronto.
O
quinto ano de existência corrigia possíveis enganos. Era o ano do arrancamento
da língua. Esta se dava sem maiores rebuscados e simplesmente, como na Idade
Média europeia da longínqua Terra, em que os barbeiros forneciam quantidade
apreciável de eunucos aos asiáticos, graças a modestas navalhas e facas... Em
‘X’ qualquer homem sadio aguentava essa operação. De forma que, morrendo os
fracos durante a cirurgia, estava consumada a tal seleção. Sobravam, sem
sacrifícios emasculadores, as mulheres, é lógico. Todavia elas, assim como as
nossas, eram mais fortes que os machos. Fica aí explicado a saúde no planeta.
Fui
junto com ‘Z’ conhecer as particularidades do estranho mundo. O primeiro fato
evidente era a falta de conversa, o mínimo diálogo que fosse, e mesmo a
ausência de som humano. Chegava a ser monótono. Dizia a meus botões, preferir
os problemas de barulho e trepidação, a poluição sonora de nossas grandes
cidades! Ah, o italiano do Brás ‘cochichando’ de uma esquina a outra em São
Paulo... Os vendedores, ônibus, trens, apitos, sirenes – que delícia! Em ‘X’ a
monotonia.
Fomos
ver os ‘depósitos de mulheres’ (que nome poderia dar para aquilo? fica esse).
Entramos pelas várias casas, repartidas em cubículos. Monotonia igualmente.
Seriam imensas casas de abelhas, sem um móvel sequer, sem roupas vistosas
também; as mulheres trajavam as mesmas camisolas comuns aos homens. Sem
imundície, sem limpeza também. Um cheiro doce de suor, sem chegar ao enjoativo,
diferenciados pouco mulher e homem. Elas todas sem língua. Eu no entanto já não
me surpreendia por isso. Elas também sem suas línguas. Tanto é que no dito
planeta a mulher não falava mais que o homem... Lembrava-me com frequência
daquela estória do genro fechando a boca da sogra com um cadeado... No Planeta
‘X’ não era preciso tanto... Aliás, não existia sogra, não havia casamento com
cerimônia ou sem; ah o casamento, que na Terra é ofício para as nossas
mulheres.
As
fêmeas eram bonitas e menos bonitas. Se não existe na Terra mulher propriamente
e completamente feia, por que seriam as de ‘X’ diferentes? Olhavam com os olhos
arregalados para mim. Eu já estava na ocasião bem diferente dos outros homens
pela barba crescida embranquejando. Nas condições em que se encontravam os
homens daquele mundo, emasculados, não tinham pelos ou barba cerrada. Uma
delas, mais curiosa que as outras, pretendeu apalpar-me e tocou um dedo em meu
rosto. Ora, a barba trouxe-me as maiores complicações; não poderia encontrar
lâmina de barbear e muito menos barbeador; fui ficando barbudo. Entretanto o
grande problema mesmo aconteceu durante a visita ao Rei de ‘X’. Desde o infausto momento da visita ele me perseguiu o
quanto pôde; notava em mim um possível rival a apascentar suas ovelhas... Ele
não sabia, suponho, meu estado depressivo e a
ansiedade que me comia por dentro, e que nessas condições os homens não
estão muito preocupados em serem machões; era exatamente minha situação.
Entramos
na sala do chefe supremo; tão logo fui notado, recebi um grito rouco daquele
monstro. Gritava e falava numa língua atrapalhada, impossível e sem lógica. No
entanto os seus fiéis servidores, armados de primitivas lanças, entenderam
perfeita e imediatamente. Daí tomei o carreirão maior de minha vida. Não sabia
ter as canelas tão ágeis! felizmente.
Fiquei
metido pelo pântano alimentício por uns três dias. Ali encontrou-me ‘Z’.
Trouxe-me uma faca afiadíssima, com a qual arranquei os pelos duros da barba
comprometedora, e ‘bifes’... Saímos outra vez por aí, embora desde então
vivesse mais desconfiado. Andamos por todos os lados, porém não voltamos ao
rei. O tal rei era um sujeito repugnante peludo mal-encarado, degenerado
certamente; teria uns cinquenta anos; e creio fosse o único homem com língua no
planeta. Dominava todos aqueles infelizes (se os mesmos soubessem serem
infelizes). Aos homens, domínio pelo costume consagrado quem sabe por séculos,
e também mandava pela ordem de castração; os coitadinhos tornavam-se submissos
e controláveis. Às mulheres vinha o domínio do rei por ser ele o único homem
realmente constituído. Fazia o papel do zangão; somente que um zangão sem
visitas fertilizadoras, ele sim recebia suas fêmeas. A vida dessas pobres
mulheres durava até cerca de trinta e seis anos, pois toda mulher deveria
conceber aos dezoito; e quando sua filha (e do rei) também concebesse, então a
‘velha’ de trinta e seis deveria ser degolada. A população tinha continuidade,
ficava em seu lugar a jovem filha.
Outros
lugares por onde passei, não ajudavam a elevar o padrão do povo aos meus olhos;
é que notei por todo canto perversidade e desgosto. É preciso esclarecer que
via com olhos terráqueos e pretensamente civilizados. Estive, por exemplo,
examinando a sala de castração, e não aguentei lá senão minutos. Foi uma visita
horrível. Nem ‘Z’ poder-me-ia consolar, se pudesse falar; fiquei amargando
sozinho as conjeturas que fazia sem dizer a ninguém. A sala das línguas não
agradou também; eram arrancadas as línguas, brutalmente, das crianças aos cinco
aninhos. E o grande matadouro deixou-me impressionado, parecia um açougue de
baixa classe, onde a fedentina imperava; asqueroso o ambiente. O degolamento no
local de eliminar seres desnecessários à sociedade, igualmente repressivo e
torturador – não me agradou nada. A decepação ocorria por facões grosseiros; a
guilhotina, grande aperfeiçoamento francês do século XVIII, ainda não chegara
ao Planeta ‘X’... Impressionou-me bastante; demais, distingui perfeitamente
cabeças e corpos de muitos de meus novos companheiros xiseanos; distingui
inclusive suas camisolas manchadas de sangue! Imperava no compartimento o
cheiro do açougue mal limpo. Acho que nunca mais comerei carne em minha vida.
Tudo os açougueiros atiravam a um fosso nauseabundo.
Acredito
ser por essas visitas horrorosas que larguei meu grande amigo ‘Z’ e desabalei
doidamente à procura da espaçonave.
Teria
algum companheiro terráqueo fugido com o foguete?! Ou aquele povo estúpido e
automatizado feito formiga abobalhada, teria estragado a nave? Saberia voltar
sozinho sem o resto da tripulação? Será que não escapara algum técnico de voo?
Conseguiria sair vivo das mãos de uma gente de costumes tão malucos, onde a profissão por excelência era a de carrasco!
Pensava pensava, a língua de fora respirando com dificuldade por tanto correr.
Povo atrasado, evidentemente, todavia o rei pelo menos disporia de armas mais
sofisticadas que, de longe mesmo, inutilizassem meu restinho de esperança? Ia
mais longe nas conjeturas: o planeta todo estaria mergulhado nessa miséria?
Quem o culpado pela desgraça geral? Estava já sentindo-me apegado aos
infelizes. Fazia meses convivia lado a lado da gente estranha na não-vida, por
isso o apego. Parei.
Parei
com a língua destamanhona, suado, sentindo aquelas chatas pontadas no baço.
Muito longe ainda, amarrado, via-se nosso foguete. Era uma imensa bala de prata
espetada no solo, presa às pontas no chão. Cheguei, enfim. E a escada?
tinham-na levado. Rodeei o veículo feito barata tonta. Uma tremedeira me tomava
todo o ser. Foram horas de tremedeira. Depois notei um vulto ao longe. Seria o
rei celerado? E se fosse um dos companheiros de viagem! Era o Pedro em carne e
osso.
Invocamos
outra vez nossos avós macacos e subimos, escorregando, numas cordas esquisitas
postas pelos nativos, a fim de segurar o bicho interplanetário. Em cima. Em
cima, meu amigo apertou um botão e a porta automática abriu-se. Entramos.
Funcionaria o instrumental da máquina?
Cap. V – Interrogações
Como Epílogo
--Devo
segurar isto? perguntei ao colega.
Fiquei
segurando uma alavanca indicada pelo Pedro. Ele apertou por sua vez uma série
de comutadores. Barulho ensurdecedor! O foguete quebrou facilmente as amarras
nativas e saiu chocalhando; fui atirado ao chão violentamente e desacordei.
Voltei para a realidade. Estávamos longe, não dava mais para ver o Planeta ‘X’,
nem eu queria mesmo revê-lo...
Dias
viajamos, sem palavra. Ambos estávamos esgotados, o amigo perdurava no mutismo,
eu falava às vezes sozinho. Meu companheiro ainda andava preocupado nos
comandos e instrumentos tão complexos. Quanto a mim, ajudava pouco.
Enfim,
mais de semana passada, reconfortado pela confiança de estar de volta ao lar
terreno, procurei o Pedro para trocarmos ideias. Não fui atendido. Virou a
cara, deixando-me triste. Depois, mais alguns meses e nós só trocando olhares e
pílulas alimentícias. Ele envelhecia a olhos vistos, acabadinho. Eu temia por
meu lado o espelho...
Enfim
aconteceu que resolvi novamente tentar um diálogo consigo. Foi então o
astronauta ter virado para meu lado, todo enrugado, cabelos brancos espetados,
abriu a boca... estava sem língua! Escorria lágrimas dos olhos daquele infeliz
velho; sequer era a sombra do antigo brincalhão que subira conosco à cabine no
Amazonas. Não podia ser o sujeito que me pregara inúmeras peças durante a
viagem ao Planeta distante; ou seria nova brincadeira do homem! Também chorei,
tornando pensativo ao meu posto.
Era
encarar a vida. Aguentaria meu companheiro o restante da viagem à Terra?
Chegaríamos vivos e salvos ao nosso seio? Ela, a tão sofrida e querida pátria
da humanidade, apareceria ao visor alguns meses depois; e com ela as dúvidas:
teria sido válida a experiência? alguém acreditaria em mim? Cabelos brancos,
enrugado, desconhecido, sem cultura técnica que precisasse o acontecimento –
mereceria crédito ou ao menos a
liberdade? sim, pois não poderia eu ser tomado por louco! e lugar de lunático é
no hospício...
Marília janeiro
1968
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