terça-feira, 30 de julho de 2019

Ar Puro


Ar Puro

- O lamento é o forte do fraco. E o fraco é forte na riqueza de suas misérias, estas pouco ou quase nada tendo com a equação econômica social, pois podemos ser ricos quiçá milionários nos meandros do cérebro; situação que posso equiparar na expressão ‘minhocagem’, aqui me aproveitando a fugir dos padrões formais da linguagem, dos cânones e demais formalidades e leis. Assim meu personagem fraco, forte no seu dizer, a dizer sem precisar dizer, dizendo sem o costumeiro ‘a pedidos’ mas enchendo ele ouvidos disponíveis.
Ar. Muito ar a pouco ar sobrante em volta, era José ou João ou Antônio, poderia ser Josefa Francisca ou Maria, a reclamar a reclamar, nem um pouquinho de bem com a natureza. E de sobrenome, sem pedigrís nobrezas brasões heráldicas, que essa gente se perde no meio  das gentes, podendo ter por sobrenome Almeida, poderia ser Silva não é? não era, era Almeida, que pronunciava a cumprir o vernáculo regional em mais e boa pronúncia “Armeida”, enrolando na língua em gosma a mascar o ele engolindo no idioma a pular ou trocar ‘eles’ por ‘erres’, estes aparados lustrados modulados pra não machucar a garganta dele mesmo nem a orelha ouvinte; muito embora o homem comum só pense por não pensar falar, pouco importando o escutar. Nesta particularidade podendo morar tanto na roça donde somos expulsos facilzinho ou na cidade. Todos entendemos e falamos assim.
E se apegando, pois nos apegamos bem mais que o formalismo nos apelidos, quase sempre abreviaturas, não do nome porém do som do nome. Para simplesmente ‘Ar’. E Ar pega, como menos pega o fogo; quase tanto como o cheiro, piormente sendo este fedor, o qual pega se impregna e fica; lava-se e fica; ou pode que fique só na cabeça da gente. E assim definimos o nome, o nome de Ar, Seu Ar para quem sem intimidade; porque os amigos ou somente os próximos que nunca sabemos se amigo é amigo – eles a tratar realmente o homem do nome por nome Ar.

- Encontrei-o, tive sorte não me viu, só se vê quê se vê querendo ver, aqui ganho dos grandões, ganho meu, meu saber saber-me número, que o número não se declina não tem sexo, neutro no ser, e aí não havendo importância para quem fale, fala Ar, torna a falar a contar quê contar – exercita exagera espuma gasta a língua e os beiços e a boca como um todo. Imagina, diz ‘magina’ tô cum uma gripe! A gripe é o resfriado que dá todos dias todas noites toda vida, na expressão banal mil e um. O nariz me escorre, escorre em nossa presença, nós os circunstantes a demonstrar o verdadeiro; assoa assoa, assusta inclusive em volta de sua volta, alimpa primeiro com as costas da mão, direita é direiteiro direito no proceder e é prova a si mesmo para não se ter dúvida; depois toma um lenço em discutível alvura, sem nenhuma má intenção com dona Zefa, mulher prendada a corrigir toda hora aquele homem teimoso (ela fala mesmo “temoso”) ou relaxado lavando lavando limpando limpando limpando antes corou ao sol e ela fala de fato “coará”, passou outra vez na água, secou a peça junto com as outras peças, uma ficou com cheiro azedo mas aí decerto por demais sabão, antigamente era de cinza e feito em casa e só ficava o cheiro ruim da cinza e da soda, esta a trincar e comer os dedos da gente, e agora é desses de  pó ficando um cheirinho gostoso que a gente gosta, ah porém é caro pra valer, e aí ficou cheirinho azedinho não no lenço do homem e se lhe der um trapo ainda assim suja, agora, então, com os constipados ela dizendo “custipadu” – então  não tem jeito; e passa a ferro, outro dia amarelou o pano e antes no ver novela na tevê esqueceu de se lembrar e queimou um pedaço. Daí entrega o lenço dobradinho ela diz gozadinho “drobádo” trocando igual computador no fim da linha as letras e não viu no micro se visse não via, analfabeta, ou melhor desse pior: iletrada. E ele, o Ar, ajeita em quatro no bolso de trás, empurra para dentro e já logo tirando pra fora usá-lo, que o negócio não para: escorre pinga faz caminhinho prateado no bigode igualzinho lesma a ziguezaguear no chão até à parede e depois, tadinha, as formigas jantam ela ou o sol noutro dia seca enruga e vira pau e coisa e aí se perdendo no tempo, o tempo ah o tempo anda ruim, dá um resfriado vira gripe vira tuberculose, tisconjuro! e arrelia o nariz da gente, a gente alimpa enxuga com o lenço, o lenço foi branco agora é encardume e endurece, antes molhado, a escorrer o nariz a escorrer até o próprio lenço dando para torcer! e o nariz avermelha pimentão, ainda bem que não fala, fala a boca.

- A boca tando cheia de ar fala mar, aquela questãozinha do erre caipira da nossa região, que não tem mal que cure o mal, e fala Ar sem parar conta as coisas de negócio os negócios vão mal ou de “mar a pior”, aqui acertando no erro pois não fica bem ‘piol’, não se vende. Correta uns terreninhos umas casinhas e se pintar outras coisas se possa vender ou só ajeitar o negócio para ganhar uns trocados, não vende. O ladrão do governo, não, cem anos de perdão, o governo que é o ladrão não é o ladrão que afana o governo, a gente do povo nunca confia nos corruptos lá de cima, o ladrão não aumenta a aposentadoria; é neste ponto entra a vender uns imóveis porque a aposentadoria não dá pra comer não aumenta, quando aumenta o dinheiro não vale nada, que fazer? esperar o outro ano, tudo enganação. E aí? aí que o pessoal não tem dinheiro, não sobra recurso nem pra comer, vai comprar casa! “nunvai” não vai coisa alguma; e quando compra compra e não paga; tem um fia-da... (lembra a querida mãe do outro) não paga nem morto, morto não precisa receber, porém não paga de jeito nenhum, nem minha comissão. E pior – tem sempre a gente do povo pequeno um pior de emergência – pior: vendeu a casa para um safado; ah pode-se com safados! A “muié-du-homi”: não tá, tá viajando. Com meu dinheiro? ela decerto não sabendo. Foge da gente, gente malandra sente o cheiro da  gente de longe e se amoita se esconde ou vai procurar outro trouxa a negociar. Tamus perdidos, tamus. O melhor nesta época é ficar em casa, dormindo (fala “druminu”) não isso não, aguentar a dona Zefa!

- A mulher é esposa exemplar, mas arrelia toda hora, não dá descanso. Hoje enfeiou um bocado, varizes nas pernas e as pernas! parecem arco e bodoque essas coisas; engordou, não engordou não: estufou; vive no médico e anda a tomar uns chás e reclama, é reclamenta demais; reclama com a filharada, só o mais velho que é bom, o resto... reclama da vizinha a outra é boa; reclama do farmacêutico (diz em verdade “farmacista”) e toma assim mesmo os comprimidos; reclama da vida; reclama do marido, não posso ficar em casa, a rua me engole, o boteco me engole mais, sumo aos negócios e não tá dando negócio, uma quebradeira sem tamanho. Em casa ela fala fala até na hora do almoço (fala “armoço” que é mais gostoso falar) fala de boca cheia, mas, coitada, tem razão – as dores de lado, tem a desmiolada da menina do meio, tão tirando seu sossego e enfeiando a pobre. Era tão bonita, um dia cheguei “de-a-cavalo” numa égua andadeira, não xinguei o pai dela, só convidei ela, ela pulou na garupa e fizemos sete filhos, fora os que Deus levou, o homem da rua supõe Deus um sorvedouro a sugar criancinhas. Agora todos grandes, pra dar mais dor de cabeça na gente. A menina do meio, os outros são homens e macho ninguém segura, debanda e faz a velha chorar, ela, a do meio, andou com um dormiu com outro voltou prenhe. Xinguei até à última geração, fui atrás dos cachorros, só casou com um deles.  No final come em casa com três netos e fica só brigando com a mãe, comigo não, meu negócio é apenas “assuntá” e quando se mordendo elas, aí fujo pros negócios. Iria pôr a filha na rua! Todavia dormir em casa de dia não dá, de noite, depois da novela é que é hora a dormir, eu durmo antes, ela que me cutuca – porém intriga da Véia, não ronco. Em não ser com peito cheio, esta gripe não vai embora, gostou de mim, viche!

- Eu acho que vai chover, trovoou pra lá, que é pra lá da geografia e a matemática também leva seu trocado; tem relâmpago e esquenta e venta e chove e seca, a seca queimou tudo, tudo pra matar a gente com esta gripe e o sol tá de rachar mamona, ao Ar um ar empestado, tudo não serve a lhe servir,  espirra seu ser nas ruas atrás dalgum negocinho, espirra, magrela seu corpo a balançar panos, que a gripe tá demorando e engolindo as gorduras sem sobras, os panos que são o  tecido comum a roupa comprada e padronizada; olha para trás e vê certamente menos mal que sem óculos, tira-os, limpa-os, embaraça-os, repõe-nos a cavalo no narigão a brincar a pimentar e assoar, agora já tendo o lenço de dona Zefa reclamar se pôs no bolso e ela diz “si ponhô”, que todos entendem, se pôs se não pôs? Goma pura se forma no lenço, parece goma-arábica do tempo que ela conhecia pra grudar, a gente de agora desconhecendo, fica tudo endurecido e é preciso deixar de molho e no sol, já entregando um novo velho lenço, este de listras e um pouco gasto e ainda com furos, a enxugar o nariz do porco. Seu Ar coça a cabeça, ainda tem é muitos fios, só que se abrancaram e caem com facilidade, mais caem no chão ficando no ralo do banheiro para a Velha estrilar e o malandro nem puxa a água nem nada, nem passa o pano úmido a secar o piso quebrado, o Ar nunca traz o pedreiro, não fala mais ou brigam, aquela pelaiada entupindo e aí volta água, a piscina do Ar ela fala, ele se enxuga com a toalha fina que perdeu a cor e, relaxado, nem liga pra barata querendo nadar a subir pelo ralo, ah se fosse a Zefa, uma gritaria medonha; e aí se vai, trocadinho cheirando a sabonete, roupa limpinha que a Zefa lavou passou não queimou, a das nove é só sem-vergonhice e o governo devia multar a tevê, mas como o Ar  diz, diz bem: é tudo ladrão.

- O governo? não o governo, o governo só sabe é pedir voto cobrar e roubar o povo, o povo. O povo que vive como pode, vai empurrando com a barriga, tem sim muitos passando fome, desemprego! viche; e tem muita conversa, gente gosta de conversa e conversa-fiada e crime; na tevê tem de montão; agora, os do bairro são prato cheio. Quando alguém pode contar, caso o Ar deixe, se não estiver a língua ocupando a vez, alguém conta a gente escuta, conta reconta aumenta inventa se não souber tudo o tudo por alto; e o sujeito contou mostrou antes a verdade, gritou de dentro do coletivo num “oi” de plantão e indicou a vítima, e os outros nunca sabendo não se é verdade, a extensão da verdade narrada, esse aí – e o cara caiu da moto, se esfolou todo, a motocicleta continuou a andar sozinha e matou o pai dele, a mãe só ficou no hospital, porque quando o destino quer... E aí é almoço e janta e todos contam, contam a seu modo aos seus e enriquecem o fato, que ninguém duvida; então Ar tem muita matéria-prima e todo o bairro, verdade? na frente do Banco do Brasil, e aí já é fora de dúvida, verdade das verdadeiras. A mentira é que não sai negócio, ninguém quer comprar, até quer mas não tem como pagar e nem a gripe sara, escuta a cura. Neste país não apenas entendemos de futebol, todos somos médicos, todos experimentamos a panaceia. A gripe só melhora.

- Melhora, passa um pouco, volta. Só tem um jeito acabar de vez com ela: matando a gripe. Espirra, tosse, limpa, assoa e limpa de novo entretanto não me vê, vê a falta que faz falta de recursos. Não se faz negócio. Ainda têm os ladrões, não tem é sossego. Agora planta cuida rastela desbrota alimpa o terreno, terra boa, a mandioca empina e sobe, racha o solo, um mundão de mistura, às vezes nem mistura ao arroz e feijão, comendo como comida mesmo, só mandioca; deu até aos vizinhos de tanta que deu no quintal, mas tem ladrão. Acredita que um vizinho arranca de noite as raízes! Rouba tudo, é preciso guardar as coisas dentro de casa, até roupa no varal. Faz um ar desconfiado Seu Ar. E mete o pé na estrada, que é a rua; alimpa o sapato cansado nos barros que pesam em acúmulo, retoma, anda, conversa, negocia, acerta, erra, volta, briga, retorna às lides; um dia não retorna. Mata de vez a gripe. Com morte. De morte morrida. E todos entendem. E todos lamentam a morte e a viúva.
Marília   novembro  2004

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