quarta-feira, 17 de julho de 2019

Brincadeira de Casinha


Brincadeira de Casinha                                                        
 A mentira, sendo a verdade
  estilizada, é o sopro do real

1º - Sinal dos Tempos ou Explicando a Explicação
Não tem explicação. Ou tem. A gente é meio burra não entende do entender das coisas; aí apela à formalidade do dizer, que não sabe falar a falar errado, e a formalidade nos convence a ignorância com ótimas reticências admirações exclamativas e nos pancadeia atirados na lona com um ponto. Final. Final aos outros menos rebeldes, a gente inclusive a desconhecer a rebeldia também e, aí, não se para não se cala não se conforma – então põe minhoca na cabeça. Sinal dos tempos da gente, dizem à gente.
Verdade que Nininha não pensa nisso naquela hora. A hora percebeu o Dito urinando no tijolo deixado em pilhas em cacos em pedras e até alguns bem arrumados cruzados de quatro por quatro perfazendo certa montanha enorme àquela pequenura de macho tentando amolecer feito Davi as pilhas a virar depois muro entre casas mas não era Davi nem Golias o Dito, decerto Benedito e para ela Ditinho. Então se espantou avermelhou curiosidades. Ele não se espantando, loguinho a fazer lindos (ela achou lindos) desenhos no chão com a torneirinha aberta amarelo-avermelhada; desconhecendo ela certamente que os moleques fazem até hoje e já o faziam antanho campeonato e disputa para ver quem mija mais longe quem cospe mais vezes quem chega primeiro o último é “sapo sarnento” vixi!
Mesmo assim Nininha, que mamãe insiste, formal, “tenha cuidado, Eponina” e papai, quando papai aparece em casa, dizendo “tchau, Nina” e o mijãozinho e o resto do bando na brincadeira quando mamãe fecha o olho abrindo o coração a deixar se reúnam no quintal a badernar “mas é preciso deixar tudo limpo, depois”, depois antes sempre elinho e as meninas apelidando a garota “Nininha” – mesmo assim a menina se pensando já moça por ser grande quase a maior do ajuntamento moleco, mesmo assim não vê o quê vê olha pra lá pra não ver as coisas de homem e grita as outras.
A baderna está formada tem de tudo no todo em faz de conta. Tem Joana tem Shirley tem mais uma não se sabendo o nome nova no pedaço e se inventa o nome, criança usando a abusar as coisas apelidando “Coisa” Coisinha daqui Coisinha de lá; e todos atendem atentam aceitam acatam; e ainda o Dito, obediente, obediente ou não fica entre elas, tem outrinhos ainda menores sem sexo, menininhos e também ladrares se misturam viram matéria prima na brincadeira. E todos informalizam para formalizar a Casinha.
A Nina: eu sou a mãe. Fulana era minha filha, Fulano era meu filho.
E aí o filhinho já começa em choramingas se encostar na mamãe querendo as coisas, mamãe fica braba, manda lavar a louça; esbraveja o desperdício de água e luz, grita o “Apagão” não sabendo bem quê seja devendo ser um papão ruim como a Zefa, tinha uma  Zefa Velha  que berrava  com os cachorros a  latir nervosos pelos berros na bola da rua e aí todos a temendo nas pragas de Bruxa os adultos advertindo seus meninos e estes com medaço daquela papão, e ‘Papão’ e ‘Apagão’ seria o mesmo?!
Todos obedecem Mamãe, o Dito toma puxão (ameaça chorar) nas orelhas por mijar no tijolo e aí a fedentina e aí Mamãe me bate e consola, ela consola o filhinho do faz de conta e ele sorri e vai varrer o lar com a vassoura maior que ele; os outros têm suas tarefas definidas. Indefinida a refeição.
Inventa Mamãe fazer de verdade a comida de mentira e traz de casa as coisas, aquecem a água sobre o fogão improvisado com tijolos soltos da construção adulta, fumaceia-se bem, os pequenos entre todos pequenos choram o arder olhos mas atraídos àquela festa de verdade da mentira e proseiam a falar bobaginhas que são enormes em volta do fogo e o borbulhar arroz.
As crianças se revezam no fazer e todas a falar ao mesmo tempo, Mamãe-Nininha breca o falatório, responde perguntas poucas que os menos pequenos despejam a criar-lhe problemas.
Mãe, diz uma Filha mais alta que Mamãe, Mãe e quem é o ‘Papai’ o Ditinho eu não quero.
O Dito é meu Filho. Papai tá viajando, não para em casa só vem pra dar “tchau” e trazer doce pra nós.
Aí dão de mamá às bonecas, carinham ajeitam os pequenos mais pequenos igual as bonecas e eles fingem dormir porém não querem deixar trocar fraldas então se pensando grandes.
Acordam, o forrobodó se forma às vezes se desentendem e acalmam, a comida quase pronta, Mamãe aparece ralha com Mamãe adverte grita recomenda e se vai, Mamãe chama a ninhada recomenda adverte grita também os afoitos promete ‘papá’ um quer saber quem o papai, corrige ter falado “o papá quase pronto” o arroz secou grudou refizeram e vão comer em expectativa. Alguém-zinho quebra um prato e chora Mamãe vem ralhar com Mamãe traz um de alumínio e contornam a zanga, comem. Salgado para muito copo de água, todavia andam felizes a ingerir comidinha de verdade da mentira, sorriem, conversam. Um chatinho reclama Papai. Mamãe:
Papai volta logo, enquanto isso você fica com o namorado da Mamãe, ele lhe trará doce.
Eu só gosto de chocolate...
Meu namorado traz chocolate pra você.
Os outros fazem sua escolha.
Aí Mamãe vem reclamar o exagero no barulho e a sujeira da Mamãe, Nininha sorri desconsolada à prole, cada um junta suas coisas a levar pra casa e prometendo cada qual, “se” Mamãe deixar, outra oportunidade de Casinha.
Então, diz Nina, o Dito vai ser meu marido, o Joãozinho e a Shirley meus namorados... (reclamam a Shirley ser mulher, continua:) não tem importância, ninguém nunca viu uma mulher ser namorada de outra mulher na televisão! E vocês outros serão os meus filhos,  completa Mamãe.  Mamãe reaparece, bronqueia estrila vocifera, todos se vão, vêm vassouras esguichos e os cães, os quais deixaram ser filhos de faz de conta, ladram amigos de verdade.


2º - A Estória se Repete
A gente não sabe quê fazer, não deve forçar a verdade. A verdade vira Estória pra se contar.
A Estória é a estória de sempre. A jovem só pensa miss quer virar modelo, de repente se descobre não tão bela quanto pensava ser mas ainda assim muito bonita a contentar a deusa Vaidade, exigente e vazia. Ela, a mocinha, também um pouco vazia ou apenas comum se pensando normal, acorda para a realidade.
A realidade lhe oferece o príncipe encantado. Tem namoro encantado brigas encantadas reatamentos encantados e se casa com o príncipe, que é um sujeito bonachão porém concreto. Até podendo a jovem apalpar, pegar.
Segue-se o de sempre. Cerimonial igreja mel na lua; o sol vai trabalhar.
Ou atrapalhar pois tem uma secretária mais bonita que a Nina, ou mais fácil que ela. Ela se queixa com a Mamãe, Mamãe já não vive pegando no pé da Mamãe do faz de conta, compreende chora com ela, não pode se intrometer – quem pode em desentendimento conjugal! – pois investida na alta função de Sogra, que é quase sempre um inimigo à vista. Aí a Nina se queixa com um amigo, o amigo detesta viver preso num guarda-roupa e vira ‘namorado’, algo mais de acordo com a ótica televisiva (naturalmente que senhora vê a das seis pra rir a das nove pra chorar). Além do mais mais novo o namorado que o velho dela, que ainda é moço no dizer secretário. Continua o curso desse rio lento quanto a vida.
Advogado divórcio sentença pensão à moça, que decerto não é mais ou o velho em condição de uso não... deixa pra lá.
Ainda moça a Nina. Bela mas burra? esperta menos feia; sem compromissos, aparece outro em sua vida. Ela jovem ao velho. Um Velho sofrivelmente rico, não sabe onde pôr tanta riqueza, ações inações. Entendem-se, a Nina agora é enfermeira e companheira de um esposo poderoso formoso dengoso, nem dengos nem beleza porém de riqueza enrugada. Tem a esposa serviçais, vira uma Senhora; toma o camareiro para seu serviço interno... E vem um fato banal.
A morte do Velho. Nina-Mulher, esticada sofisticada, viúva agora, leva a vida que pedira a Deus, conforme insistência do Diabo. Não acredita mais em faz de conta, a realidade lhe oferece rios de dinheiro e a malta de adoradores.
Escolhe um antigo; casa-se em separação de bens com o ex-mordomo. Aparece nas festas, vive a mundanidade, se crê Rainha. Vive no mar. O mar de rosas descobriu já não existir, crê no de lama e investe e se investe.
Trai quanto pode, é livre é rica. Aí se pega sonhando com o Dito, o Dito não passa dum Sr.Benedito não sendo de sua alta roda entretanto, pensa, até que se transformou num belo homem. Enquanto sonha acorda com a traição do esposo, o qual lera o ‘olho por olho’ e creu. Sofre a poderosa senhora, ah injustiça! 
Enraivecida, chora chuta o chulo.
Tenta dormir tenta sonhar tenta não insoniar e se levanta. Está em frente do espelho, espelho não mente jamais.


3º - Eponina Pobre Rica
O quê a gente pode fazer, não olhasse: está em frente do espelho.
Sorri arreganhando os beiços o ingrato espelho.
A Viúva Rica, Eponina Pobre Rica por extenso, Nina aos miúdos e íntimos, Nininha quando a brincar com o mijão, Pobre por parte paterna pia paupérrima de família onde Mamãe mais mandava, Rica nome recebido do último marido velho – tem, pensa ter, o mundo aos seus pés. Faz plástica com cirurgião famoso, se fantasia e mente ao deus do desmanche, desmancha. Descobre só ter riqueza se desmanchando também. Ela tapa os ouvidoss se emarfina na torre. Aí sonha. “Ah, fala a si mesma, poderia arranjar um jovem para companhia”.
Arranja um companheiro, compra um pouco usado no mercado, tem inclusive um mais barato na loja do ‘um e noventa e nove’. Usa e é abusada, comem-lhe os restinhos do tesouro.
A gente até fica com pena porém precisa analisar assim mesmo o quê sobrou.
Eponina deixa ser Eponina Pobre Rica, o Governo os juízes subtraem o último sobrenome. A Viúva vira primeiro Nina, depois Avó. Tem nas proximidades um que outro interesseiro de sangue e nome; ótimos a chupar-lhe os restos do resto, o caldinho. E tem os agregados e sobrinhos e mais parentela a partilhar-lhe os banquetes, cujos ingredientes são o trivial e o frugal. Vive agora em pacifismo num acordo tácito com a realidade, o faz de conta ficou na casinha no xixi do Dito no ladrar do cachorro que era seu filhinho, aí sorri, sem que ninguém saiba o porquê. O mundo a vê uma Senhora Respeitável, pobre contudo respeitável; toda gente olha Dona Nina em compreensão, que é a incompreensão do absoluto. E olha o fora e não enxerga o dentro. Ela sorri a tristeza da velhice à vizinhança, mesmo aos parentes, agradece ao egocentrismo de cada qual, não tendo esse deus permitido que o mundo entrasse em sua intimidade a criticar sua existência pregressa. A tentar conviver com a mentira da realidade; só lhe restando um consolo a fugir dos ais da vida – vê uma neta virar mãe na casa de faz de conta; mas a garota não se chama Nininha.
Marília   novembro  2003

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