Pedro Angular
I – Angular de Pedro. Fosse pedra
Pedro é pedra, pedra angular, para direção. Direção? sustentação. Descobriu ser
o ponto de apoio do edifício em que jazia todo um cemitério de propostas. Vela
velório tumba túmulo sepultura cruz sem cruz de indigente, cruz-credo!
pensou-se mausoléu obra de arte cultura erudição essas coisas. Não era. Não era
tanto a tanto chegara sua certeza, certeza já não tendo não tinha de nada sobre
tudo, de tudo ficou a dúvida que é costumeiramente nossa certeza, a certeza do
pobre mortal social, força econômica da nação.
II – Na Babilônia. Todavia não pensava nestes termos, quase
nunca pensamos. Não. Sim. Pensava que pensava ser membro, importante (e quem
sabe com razão) importante número na sociedade feita sem dó nem piedade no
sem-número, mais de cem, porém não tinha certeza. Por isso ficou a observar
aquele mundo que era a Torre daquela Babilônia que subia subia subia; e descia;
e se não se entendia nas compras. Assustou-se pouquinho pelo carnaval da
vestimenta o barulho o andar o cruzar subir subir, descer descer – o mundaréu
com porteira de gente afoita formiga falante fritante conflitante ao deus-dará,
uma mixórdia sem tamanho. Aí resolveu e
executou a resolução, corajoso, devera ser Pedro o Corajoso mas temente a
língua da Maria e dos vizinhos e dos colegas de trabalho quando sem serviço que
falavam tanto, tanto menos e tremia um bocado enfrentar as coisas de sociedade,
um simples pagamentozinho de prestação naqueles carnês intermináveis atrasada
bem atrasada e quem sabe se não desse vontadinha (dava sim constatava dar)
comprar mais noutra compra e aumentar o volume da dívida, mesmo porque era
sujeito correto, se pensava correto reto, era pensava e pensava que os outros
pensavam, os outros leia-se o Magazine Mappin
inteiro ali na sua frente formigando.
III – Imbróglio do Ver. Nesse ponto
até já não pensava na dificuldade da condução que curtira, duas pra vir e duas
depois pra voltar, economizara os trocados dos ônibus ao serviço, não fora ao
trabalho somente a pôr a vida em dia, o que é difícil e a Maria chiava, chiava
que as crianças pediam e ele, Pedro, quase a lembrar que esteve a se demitir
que melhor de quase, quase fora posto na rua e que quase não receberia o
salário já descontado dos descontos e até a comissão dos sindicalistas eles não
fazendo nada tudo prometendo porém prometendo greve pra complicar sua
complicação – contudo já não pensava quase só vezinha que outra lembrando e se
lembrara na viagem dentro da condução e no aperto da condução.
Agora
é que andava com aperto um aperto assim de grande um aperto chato no gogó como
usaria o gogó a dizer à moça não poder pagar ainda e pagaria o atraso no mês
que vem, inventaria que o patrão iria dar aumento (embora soubesse de sobra ser
tão só de serviço com o mesmo salário ou ainda mais serviço menos dinheiro!) Aí
arregalou os olhos vermelhos de poluição ardendo para a jovem bela apetitosa
galante cheirosa decerto rica, arregalando porque não era de ferro, era? não;
sim desviou olhar para ver coisas mais mundanas como a afoiteza da gente, gente
trombando em gente gente a querer ir gente em ver gente a experimentar gente a
desejar entrar no elevador.
IV – O Elevador. O elevador
chegou barulhento enroscando seus cabos lá dentrão abarrotado de gente
gente-formiga a se encontrar desencontrar entrar sair – uma loucura! Ele não, paciente,
à espera na fila para entrar na gaiola aberta e por extensão entrar no coração
do Mappin e aí não tendo pressa, tinha
sim um pouco de pressa que diria a Maria... no entanto paciente, não esperara
nove meses! diziam que ele mais apressado que os manos, de sete meses. Então
ela, por quê será dizem fila indiana? ela andou, entrou, engolida pelo elevador
quase nem Pedro coubera lá dentro entre os últimos, a exalar cheirando um pouco
suor e sentindo cheiro de gente que é mesmo um horror melhor bode, xi bode fede
lembrou a cabrita quando morava na roça e depois emigrou no êxodo em que o
campo vomita o homem não dando base de vida ao homem a cidade engole o homem
não gostando do homem explorando o homem e dando ao homem quem sabe a esperança
e com certeza o sofrimento do homem, ele homem, Pedro de Tal, Tal por parte de pai
e aí foi engolido de vez naquele túnel de tempo que se inicia na porta da
gaiola elevatória e transportando gente para os andares de cima, o ascensorista
a gritar baixo a todos ouvirem recomendando pedindo atenção e com educação se
afastem que se acheguem um bocado dando lugar; e sobretudo berrando cada andar
de compra: Terceiro, diz, móveis etc. e tal tal como Pedro; Quarto andar,
utilidades louças, ah louca loucura; Quinto o Quinto é dos eletrodomésticos
coisa e tal, Tal: “onde paga mesmo prestação” e aí sabendo não soubesse era no
Segundo que é o Primeiro que se confunde com Sobre-Loja essas coisas embrulhadas
mas por quê não subiu a pé ele ainda matuto a falar “de-a-pé”!
V – Descer da Torre. Aí desceu –
era tanta a gente gente tanta a tanta confusão que ainda teve subir mais um
para descer não pôde sair da gaiola cheia no Segundo foi até o Primeiro que
dizem ser o Térreo e aí sendo vomitado sem precisar força por forças das
conjunturas e respirou: uf!
Daí
subiu do desceu em baixo que era solo cheio de lojas e bugigangas e foi deapé
até à moça. Que era velha mas não sem graça, a graça da gracinha ao lado da
moça velha era bela nervosa irritadiça maltratando o freguês que apelidava
cliente, aí teve sorte que sua moça-velha era solteirona educada e
compreensiva. Ela ouviu seu gaguejar sua explicação sua imploração até e até
sorriu bondades, porém não adiantou.
VI – A Solução? Tinha de
pagar? tinha. Podia esperar até amanhã? podiam. O Mappin tem um nome a zelar e ajuda o cliente. Então olhou
agradecido, recolheu carnês documentos mais e saiu desenxavido mas aliviado um
pouco, dando lugar a outren: todo mundo louquinho de vontade pagar a conta o
que derrubaria a tese do povo mau pagador, ele Pedro de Tal, Tal por parte
paterna, um bom pagador; e foi assim pensando a descer esbarrar se desculpar
entrar a sair da loja, que o vomitou pra rua, esta assinzinho de gente apitos
conduções e condições incondicionais e quando viu, viu-se na fila do coletivo
em coletivo a ir-se à periferia onde viceja a feiura e a miséria.
VII – Lar doce Lar. A Maria
pegou-lhe no pé. Contou a vizinha, a briga da vizinha com a vizinha; contou
criança, criança enche encarniça exige espalma, palmas nela; tinha isso aquilo
faltando o homem que veio, o do outro dia, e o senhorio e a conta a conta faz
as contas a enlouquecer e amanhã tem marmita condução atraso arraso no serviço
trabalho a encrencar e justificar a falta e a falta de coragem nem se fala,
trabalha e aí... só aí indagando dos homens, que era a moça velha solteirona e
tinha a bonita a gente é que não diz uma coisa dessa à Maria tadinha da Maria
cansada parideira trabalhadeira lava roupa e faxina na faxina por dia pôr em
dia a comida que falta e os meninos a pedir porque criança nunca sabe de nada e
tem o material da escola dizem que o livro ainda não chegou o Governo que
manda? tudo ladrão e a Maria quer tim-tim por tim-tim como foi como não foi o
arranjo no desarranjo e ele quer café, boca de pito e boca de prosa na Venda,
que homem é tudo a mesma porcaria, aí a Maria conta do marido que é amásio da
vizinha e se lembra do irmão atrapalhado dela tio dos meninos e os meninos
nessa hora já se encontram ocupados de volta do grupo escolar brigando. Então
foge pra Venda.
VIII – A Venda. Na compra do
mês não, não paga o pindura não tem crédito, compra comprinhas miúdas e sempre
tem doce pros meninos e um gole a um amigo no bar sendo todos amigos e as
prosas. Proseiam suas conquistas contam os crimes mais chocantes para não ver o
crime da miséria cercante na Vila, molham o gogó amolecem o miolo uns se tornam
heróis vencedores e berram coragem outros choram ou são perdedores e levados
pra casa; a casa do Pedro recebe um Tal cambaleante que vai dormir pra não
importunar a Maria chepchep na roupa e esfrega e torce e põe cheirante e cheira
que é dos outros as dela se amontoam ou a pequena mais grande de tamanho pra
lavar mal lavado e faz outras coisas como olhar os outrinhos pra Maria entregar
receber a roupa em montanha e voltar cansada ver o marido que as linguarudas
falam que não é dormindo e babando no travesseiro e acha ruim, ela, e estrila e
ele rosna qualquer. Até o amanhã.
IX – Batente &
Rotina.
Tem a marmita às vezes o feijão azeda o arroz os olhos doloridos o dia chegando
e será que chove? e conversinha-fiada na espera e chega enfim a condução, se espreme
entra e segue a tomar outro ônibus. Desce por fim na confusão de Babel que é
uma obra obra do diabo: cobram exigem fiscalizam azucrinam e trabalha cansa e
volta a gozar as conduções, conduzido à periferia.
X – Tudo bem no Tudo
mal.
Janta tevê novela a mentira do jornal e tem a conversa familial, Pedro é pedra:
dormiu falando quer dizer ouvindo falar, a mãe da casa a que mais dizia e a
coisa embrabava e ele caiu nos braços de Orfeu não é Morfeu! cruz-credo
credo-em-cruz e sonhou pesadelo com a prestação a prestação queria comer a
Maria, o quê não seria todinho negativo mas ameaçava comê-lo e gritou pra
acordar e acordou pra gritar assustando a casa os meninos os vizinhos na outra
metade de parede e não assustou o galo não sei de quem que a molecada vive a
atirar pedra e sobra à Maria. Maria! diz Pedro, Pedro de Tal Tal por culpa do
Pai dele, Maria, o prazo era ontem vou amanhã.
XI – A Loja de
Departamento.
Ela que não queria perdesse mais um dia de serviço, ajudando perder o serviço
de vez, porém prazo é prazo, prazo vencido, não esquecido. Chegou naquela
balbúrdia, parecença com todo mundo assustado ou a brigar mas só comprando ou
vendo a comprar e não pagar? não sabia. Sabia a moça? disse que não, era
preciso quitar a dívida; ou devolver os móveis. Ora, ocorreu-lhe, já todas peças
desmanchando quando a gente quer pagar a última prestação desmancha à prestação
todos dias com aqueles farelinhos de madeira prensada e cola... a moça-velha
sorriu. Desceu de-a-pé sobrando experiência agora destrombando na escada estreita
a trombada da gente gente a empurrar gente a passar gente a subir gente
descendo e se misturando à gente: um dia fugia da gente a gente indo pro
mato... Aí viajou aos seios de Duília reviu amores e saudades e de tão
entretido entusiasmado não viu que era um desconhecido em sua própria terra a
terra úmida do sereno da noite e o pio da coruja agourenta o mugir do gado o
galo a cantar seria aquele a cucurucar comprando briga com outros galos ou o do
vizinho que acordava sua insônia na madrugada e de dia os seus meninos jogando
pedra nele e arranjando encrenca pra mãe que ela tinha muita, pra Maria, ah a
Maria e assim voltou para a Maria. Engoliu gente engoliu multidão foi engolido
pela condução que o vomitou definitivo pra Maria.
XII – Bate-boca. Cantava de
galo; com o vizinho de banco no ônibus as suas coisas. Coisa séria seria a
Maria na prestação de contas das contas. E ela ficou a falar a falar não parava
de falar e não pôde fugir à Venda, fechada não se sabendo por quê razão que um
traguinho ia bem. E aí se defendeu da afronta sempre pagando em dia, era
embrulhão? embrulhada lá da Loja; e os meninos vieram brigar perto longe
entender atrapalhando a briga dos pais porque criança nunca entende mesmo e
ainda sobrou ao chefe da casa tido pela dona do chefe a fazer arte de perder o
emprego no país do desemprego o que é bastante grave e ela se esfalfando a
esfregar a roupa e aí avisou que a sogra vinha. A sogra de Tal, tal desastre
deu mais discussão. Ah tudo não moveu pedra na construção da dívida com prazo
vencimento prorrogação vaia e disputa no pênalti; e juros mais outra vez mais
juros e aborrecimento com a moça que era solteirona passada e agora parecia
mais chata menos atenciosa e da outra não falaria na outra para complicar menos
era bonitinha mas desaforada até que fora prodigalizado com a moça-velha, o
que, convenhamos, não solucionava o seu drama e quem sabe se a Maria não tivesse
mesmo razão no drama.
XIII – Informalização. Drama mais
pungente foi a semana a tentar ser readmitido na obra, recebeu os pingados após
os descontos e para tanto gastou dias e foi muita passagem na condução, tudo a
pesar no peso da conta, as contas são empurradas com a barriga e assim comprou
briga além da briga com a mulher a briga com a mulher da Loja, teve brigar também
com advogados deles, dos grandes, e foi uma briga pacífica onde o contendor
Pedro de Tal, Tal de origem paterna, disse monossílabos rosnou alguma coisa e
balançou demais a cabeça de pôr boné ao sol da obra que agora só lhe fornecia
sombra; enquanto os profissionais do direito falaram muito ameaçaram mais e o
fizeram assinar e prometer bastante; ficando com isso a dívida crescida
acrescida e aberta e o Pedro fechado na boca retornando à periferia e aos seus.
Agora presta pequenas tarefas,
biscateiro, e recebe trocados; por fim vira catador de sobras para o que falta
em casa. Falta casa, muda a Maria para outras vizinhas e os meninos para
estilingar os galos doutras pobrezas; mudam-se muito, ainda não atingiram a
perfeição do grande futuro que é a favela a rua a ponte e mostrar a língua ao
recenseador da estatística... A rua, lugar escondido na geografia no país do
berço esplêndido, a rua.
XIV – O Inimigo indo à
Lona.
Na rua não tem rua, menos número, não tem endereço nem cobrança. A dívida é
história e ao Pedro estória a ser esquecida e tem é muito esquecido na praça,
os poderosos levam seus lucros ao exterior e interiorizam a crise, deixam os
funcionários o ascensorista a jovem velha irritadiça a jovem bela dezenas
centenas milhares outros sem emprego para cercarem em simbologia o prédio no centro
paulistano gritar por seus direitos dando ibope para a televisão, a Justiça
estabelece o direito encerra o direito; e o público a gente que esbarra a gente que empurra a gente é
gente a aparecer na tevê, uns se mostram em vaidade sorrindo naquele choro da
tristeza. Discute-se, negociam-se os
bens daquele museu da história de uma capital, nem de perto lembrando o Pedro
ou a Maria, mais nesse menos as prestações atrasadas do Pedro sua dívida sem
dividendo com juros e custas. Aí vem o aparelho de segunda mão balançando ao
vento sua antena que não para quieta e avisa.
XV – Davi assiste
Golias.
Aí acaba a das sete, ou a das oito? e vem o jornal, sorri a apresentadora
mostrando os crimes bárbaros encantadora e anuncia os principais destaques
jornalísticos: o Mappin foi à
falência! e outros mais crimezinhos e as guerras do dia o falatório político
mas Pedro não ficou pra ver, correu para a Maria, assustando os filhos que
brigavam pacificamente – Querida diz, não dizia nem ‘meu amor’ que não cabe em
paredes de lata com cobertura de plástico ou pano, gritou “Maria” mesmo, direto,
e acresceu: os homens (pensando na moça-velha e na moça-bela) os homens
faliram! Não paguei a prestação e derrubei aqueles ladrões. A notícia pasmando
inintelijuras dos pequenos e boquiabertando a esposa, que as linguarudas de lá
diziam não ser. Oh isso merecia até sobremesa ao seu homem, aquele gigante que
nocauteara uma Lojona daquelas de Departamento depois tantos rounds, não tinha geleia não tinha doces
e manjares, essas coisas, ofertou café fraco doce requentado. Davi bebeu
saboreando a vitória espetacular.
Marília março
2004
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