sexta-feira, 19 de julho de 2019

Pedro Angular


Pedro Angular

I – Angular de Pedro. Fosse pedra Pedro é pedra, pedra angular, para direção. Direção? sustentação. Descobriu ser o ponto de apoio do edifício em que jazia todo um cemitério de propostas. Vela velório tumba túmulo sepultura cruz sem cruz de indigente, cruz-credo! pensou-se mausoléu obra de arte cultura erudição essas coisas. Não era. Não era tanto a tanto chegara sua certeza, certeza já não tendo não tinha de nada sobre tudo, de tudo ficou a dúvida que é costumeiramente nossa certeza, a certeza do pobre mortal social, força econômica da nação.

II – Na Babilônia.  Todavia não pensava nestes termos, quase nunca pensamos. Não. Sim. Pensava que pensava ser membro, importante (e quem sabe com razão) importante número na sociedade feita sem dó nem piedade no sem-número, mais de cem, porém não tinha certeza. Por isso ficou a observar aquele mundo que era a Torre daquela Babilônia que subia subia subia; e descia; e se não se entendia nas compras. Assustou-se pouquinho pelo carnaval da vestimenta o barulho o andar o cruzar subir subir, descer descer – o mundaréu com porteira de gente afoita formiga falante fritante conflitante ao deus-dará, uma mixórdia sem tamanho. Aí resolveu  e executou a resolução, corajoso, devera ser Pedro o Corajoso mas temente a língua da Maria e dos vizinhos e dos colegas de trabalho quando sem serviço que falavam tanto, tanto menos e tremia um bocado enfrentar as coisas de sociedade, um simples pagamentozinho de prestação naqueles carnês intermináveis atrasada bem atrasada e quem sabe se não desse vontadinha (dava sim constatava dar) comprar mais noutra compra e aumentar o volume da dívida, mesmo porque era sujeito correto, se pensava correto reto, era pensava e pensava que os outros pensavam, os outros leia-se o Magazine Mappin inteiro ali na sua frente formigando.

III – Imbróglio do Ver. Nesse ponto até já não pensava na dificuldade da condução que curtira, duas pra vir e duas depois pra voltar, economizara os trocados dos ônibus ao serviço, não fora ao trabalho somente a pôr a vida em dia, o que é difícil e a Maria chiava, chiava que as crianças pediam e ele, Pedro, quase a lembrar que esteve a se demitir que melhor de quase, quase fora posto na rua e que quase não receberia o salário já descontado dos descontos e até a comissão dos sindicalistas eles não fazendo nada tudo prometendo porém prometendo greve pra complicar sua complicação – contudo já não pensava quase só vezinha que outra lembrando e se lembrara na viagem dentro da condução e no aperto da condução.
Agora é que andava com aperto um aperto assim de grande um aperto chato no gogó como usaria o gogó a dizer à moça não poder pagar ainda e pagaria o atraso no mês que vem, inventaria que o patrão iria dar aumento (embora soubesse de sobra ser tão só de serviço com o mesmo salário ou ainda mais serviço menos dinheiro!) Aí arregalou os olhos vermelhos de poluição ardendo para a jovem bela apetitosa galante cheirosa decerto rica, arregalando porque não era de ferro, era? não; sim desviou olhar para ver coisas mais mundanas como a afoiteza da gente, gente trombando em gente gente a querer ir gente em ver gente a experimentar gente a desejar entrar no elevador.

IV – O Elevador. O elevador chegou barulhento enroscando seus cabos lá dentrão abarrotado de gente gente-formiga a se encontrar desencontrar entrar sair – uma loucura! Ele não, paciente, à espera na fila para entrar na gaiola aberta e por extensão entrar no coração do Mappin e aí não tendo pressa, tinha sim um pouco de pressa que diria a Maria... no entanto paciente, não esperara nove meses! diziam que ele mais apressado que os manos, de sete meses. Então ela, por quê será dizem fila indiana? ela andou, entrou, engolida pelo elevador quase nem Pedro coubera lá dentro entre os últimos, a exalar cheirando um pouco suor e sentindo cheiro de gente que é mesmo um horror melhor bode, xi bode fede lembrou a cabrita quando morava na roça e depois emigrou no êxodo em que o campo vomita o homem não dando base de vida ao homem a cidade engole o homem não gostando do homem explorando o homem e dando ao homem quem sabe a esperança e com certeza o sofrimento do homem, ele homem, Pedro de Tal, Tal por parte de pai e aí foi engolido de vez naquele túnel de tempo que se inicia na porta da gaiola elevatória e transportando gente para os andares de cima, o ascensorista a gritar baixo a todos ouvirem recomendando pedindo atenção e com educação se afastem que se acheguem um bocado dando lugar; e sobretudo berrando cada andar de compra: Terceiro, diz, móveis etc. e tal tal como Pedro; Quarto andar, utilidades louças, ah louca loucura; Quinto o Quinto é dos eletrodomésticos coisa e tal, Tal: “onde paga mesmo prestação” e aí sabendo não soubesse era no Segundo que é o Primeiro que se confunde com Sobre-Loja essas coisas embrulhadas mas por quê não subiu a pé ele ainda matuto a falar “de-a-pé”!

V – Descer da Torre. Aí desceu – era tanta a gente gente tanta a tanta confusão que ainda teve subir mais um para descer não pôde sair da gaiola cheia no Segundo foi até o Primeiro que dizem ser o Térreo e aí sendo vomitado sem precisar força por forças das conjunturas e respirou: uf!
Daí subiu do desceu em baixo que era solo cheio de lojas e bugigangas e foi deapé até à moça. Que era velha mas não sem graça, a graça da gracinha ao lado da moça velha era bela nervosa irritadiça maltratando o freguês que apelidava cliente, aí teve sorte que sua moça-velha era solteirona educada e compreensiva. Ela ouviu seu gaguejar sua explicação sua imploração até e até sorriu bondades, porém não adiantou.

VI – A Solução? Tinha de pagar? tinha. Podia esperar até amanhã? podiam. O Mappin tem um nome a zelar e ajuda o cliente. Então olhou agradecido, recolheu carnês documentos mais e saiu desenxavido mas aliviado um pouco, dando lugar a outren: todo mundo louquinho de vontade pagar a conta o que derrubaria a tese do povo mau pagador, ele Pedro de Tal, Tal por parte paterna, um bom pagador; e foi assim pensando a descer esbarrar se desculpar entrar a sair da loja, que o vomitou pra rua, esta assinzinho de gente apitos conduções e condições incondicionais e quando viu, viu-se na fila do coletivo em coletivo a ir-se à periferia onde viceja a feiura e a miséria.

VII – Lar doce Lar. A Maria pegou-lhe no pé. Contou a vizinha, a briga da vizinha com a vizinha; contou criança, criança enche encarniça exige espalma, palmas nela; tinha isso aquilo faltando o homem que veio, o do outro dia, e o senhorio e a conta a conta faz as contas a enlouquecer e amanhã tem marmita condução atraso arraso no serviço trabalho a encrencar e justificar a falta e a falta de coragem nem se fala, trabalha e aí... só aí indagando dos homens, que era a moça velha solteirona e tinha a bonita a gente é que não diz uma coisa dessa à Maria tadinha da Maria cansada parideira trabalhadeira lava roupa e faxina na faxina por dia pôr em dia a comida que falta e os meninos a pedir porque criança nunca sabe de nada e tem o material da escola dizem que o livro ainda não chegou o Governo que manda? tudo ladrão e a Maria quer tim-tim por tim-tim como foi como não foi o arranjo no desarranjo e ele quer café, boca de pito e boca de prosa na Venda, que homem é tudo a mesma porcaria, aí a Maria conta do marido que é amásio da vizinha e se lembra do irmão atrapalhado dela tio dos meninos e os meninos nessa hora já se encontram ocupados de volta do grupo escolar brigando. Então foge pra Venda.

VIII – A Venda. Na compra do mês não, não paga o pindura não tem crédito, compra comprinhas miúdas e sempre tem doce pros meninos e um gole a um amigo no bar sendo todos amigos e as prosas. Proseiam suas conquistas contam os crimes mais chocantes para não ver o crime da miséria cercante na Vila, molham o gogó amolecem o miolo uns se tornam heróis vencedores e berram coragem outros choram ou são perdedores e levados pra casa; a casa do Pedro recebe um Tal cambaleante que vai dormir pra não importunar a Maria chepchep na roupa e esfrega e torce e põe cheirante e cheira que é dos outros as dela se amontoam ou a pequena mais grande de tamanho pra lavar mal lavado e faz outras coisas como olhar os outrinhos pra Maria entregar receber a roupa em montanha e voltar cansada ver o marido que as linguarudas falam que não é dormindo e babando no travesseiro e acha ruim, ela, e estrila e ele rosna qualquer. Até o amanhã.

IX – Batente & Rotina. Tem a marmita às vezes o feijão azeda o arroz os olhos doloridos o dia chegando e será que chove? e conversinha-fiada na espera e chega enfim a condução, se espreme entra e segue a tomar outro ônibus. Desce por fim na confusão de Babel que é uma obra obra do diabo: cobram exigem fiscalizam azucrinam e trabalha cansa e volta a gozar as conduções, conduzido à periferia.

X – Tudo bem no Tudo mal. Janta tevê novela a mentira do jornal e tem a conversa familial, Pedro é pedra: dormiu falando quer dizer ouvindo falar, a mãe da casa a que mais dizia e a coisa embrabava e ele caiu nos braços de Orfeu não é Morfeu! cruz-credo credo-em-cruz e sonhou pesadelo com a prestação a prestação queria comer a Maria, o quê não seria todinho negativo mas ameaçava comê-lo e gritou pra acordar e acordou pra gritar assustando a casa os meninos os vizinhos na outra metade de parede e não assustou o galo não sei de quem que a molecada vive a atirar pedra e sobra à Maria. Maria! diz Pedro, Pedro de Tal Tal por culpa do Pai dele, Maria, o prazo era ontem vou amanhã.

XI – A Loja de Departamento. Ela que não queria perdesse mais um dia de serviço, ajudando perder o serviço de vez, porém prazo é prazo, prazo vencido, não esquecido. Chegou naquela balbúrdia, parecença com todo mundo assustado ou a brigar mas só comprando ou vendo a comprar e não pagar? não sabia. Sabia a moça? disse que não, era preciso quitar a dívida; ou devolver os móveis. Ora, ocorreu-lhe, já todas peças desmanchando quando a gente quer pagar a última prestação desmancha à prestação todos dias com aqueles farelinhos de madeira prensada e cola... a moça-velha sorriu. Desceu de-a-pé sobrando experiência agora destrombando na escada estreita a trombada da gente gente a empurrar gente a passar gente a subir gente descendo e se misturando à gente: um dia fugia da gente a gente indo pro mato... Aí viajou aos seios de Duília reviu amores e saudades e de tão entretido entusiasmado não viu que era um desconhecido em sua própria terra a terra úmida do sereno da noite e o pio da coruja agourenta o mugir do gado o galo a cantar seria aquele a cucurucar comprando briga com outros galos ou o do vizinho que acordava sua insônia na madrugada e de dia os seus meninos jogando pedra nele e arranjando encrenca pra mãe que ela tinha muita, pra Maria, ah a Maria e assim voltou para a Maria. Engoliu gente engoliu multidão foi engolido pela condução que o vomitou definitivo pra Maria.

XII – Bate-boca. Cantava de galo; com o vizinho de banco no ônibus as suas coisas. Coisa séria seria a Maria na prestação de contas das contas. E ela ficou a falar a falar não parava de falar e não pôde fugir à Venda, fechada não se sabendo por quê razão que um traguinho ia bem. E aí se defendeu da afronta sempre pagando em dia, era embrulhão? embrulhada lá da Loja; e os meninos vieram brigar perto longe entender atrapalhando a briga dos pais porque criança nunca entende mesmo e ainda sobrou ao chefe da casa tido pela dona do chefe a fazer arte de perder o emprego no país do desemprego o que é bastante grave e ela se esfalfando a esfregar a roupa e aí avisou que a sogra vinha. A sogra de Tal, tal desastre deu mais discussão. Ah tudo não moveu pedra na construção da dívida com prazo vencimento prorrogação vaia e disputa no pênalti; e juros mais outra vez mais juros e aborrecimento com a moça que era solteirona passada e agora parecia mais chata menos atenciosa e da outra não falaria na outra para complicar menos era bonitinha mas desaforada até que fora prodigalizado com a moça-velha, o que, convenhamos, não solucionava o seu drama e quem sabe se a Maria não tivesse mesmo razão no drama.

XIII – Informalização. Drama mais pungente foi a semana a tentar ser readmitido na obra, recebeu os pingados após os descontos e para tanto gastou dias e foi muita passagem na condução, tudo a pesar no peso da conta, as contas são empurradas com a barriga e assim comprou briga além da briga com a mulher a briga com a mulher da Loja, teve brigar também com advogados deles, dos grandes, e foi uma briga pacífica onde o contendor Pedro de Tal, Tal de origem paterna, disse monossílabos rosnou alguma coisa e balançou demais a cabeça de pôr boné ao sol da obra que agora só lhe fornecia sombra; enquanto os profissionais do direito falaram muito ameaçaram mais e o fizeram assinar e prometer bastante; ficando com isso a dívida crescida acrescida e aberta e o Pedro fechado na boca retornando à periferia e aos seus.
          Agora presta pequenas tarefas, biscateiro, e recebe trocados; por fim vira catador de sobras para o que falta em casa. Falta casa, muda a Maria para outras vizinhas e os meninos para estilingar os galos doutras pobrezas; mudam-se muito, ainda não atingiram a perfeição do grande futuro que é a favela a rua a ponte e mostrar a língua ao recenseador da estatística... A rua, lugar escondido na geografia no país do berço esplêndido, a rua.

XIV – O Inimigo indo à Lona. Na rua não tem rua, menos número, não tem endereço nem cobrança. A dívida é história e ao Pedro estória a ser esquecida e tem é muito esquecido na praça, os poderosos levam seus lucros ao exterior e interiorizam a crise, deixam os funcionários o ascensorista a jovem velha irritadiça a jovem bela dezenas centenas milhares outros sem emprego para cercarem em simbologia o prédio no centro paulistano gritar por seus direitos dando ibope para a televisão, a Justiça estabelece o direito encerra o direito; e o público a gente  que esbarra a gente que empurra a gente é gente a aparecer na tevê, uns se mostram em vaidade sorrindo naquele choro da tristeza.  Discute-se, negociam-se os bens daquele museu da história de uma capital, nem de perto lembrando o Pedro ou a Maria, mais nesse menos as prestações atrasadas do Pedro sua dívida sem dividendo com juros e custas. Aí vem o aparelho de segunda mão balançando ao vento sua antena que não para quieta e avisa.

XV – Davi assiste Golias. Aí acaba a das sete, ou a das oito? e vem o jornal, sorri a apresentadora mostrando os crimes bárbaros encantadora e anuncia os principais destaques jornalísticos: o Mappin foi à falência! e outros mais crimezinhos e as guerras do dia o falatório político mas Pedro não ficou pra ver, correu para a Maria, assustando os filhos que brigavam pacificamente – Querida diz, não dizia nem ‘meu amor’ que não cabe em paredes de lata com cobertura de plástico ou pano, gritou “Maria” mesmo, direto, e acresceu: os homens (pensando na moça-velha e na moça-bela) os homens faliram! Não paguei a prestação e derrubei aqueles ladrões. A notícia pasmando inintelijuras dos pequenos e boquiabertando a esposa, que as linguarudas de lá diziam não ser. Oh isso merecia até sobremesa ao seu homem, aquele gigante que nocauteara uma Lojona daquelas de Departamento depois tantos rounds, não tinha geleia não tinha doces e manjares, essas coisas, ofertou café fraco doce requentado. Davi bebeu saboreando a vitória espetacular.
Marília   março  2004
           

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