terça-feira, 9 de julho de 2019


Uma Novelinha com Título Provisório

Se eu fosse escrever um livro como o senhor, seu moço, disse ao sujeitinho curioso ao meu lado, se eu fosse escrever um poria para início de conversa o títuloTítulo Provisório”. O rapaz me dirigiu um tremendo olhar de exclamação misturado com interrogação e seguido de reticências das mais compridas. Por quê? porque tudo é provisório... Veja bem, até a vida é provisória; não existe sequer uma afirmativa absoluta, não existe o absoluto para o homem, o absoluto é um provisório até que seja substituído por outro absoluto provisório. Mas eu não vou escrever um livro – e isso não é provisório, deve ser a única coisa que não é provisória na minha rica vida de pobre; porque não irei mesmo escrevê-lo; nem uma estorieta, nem uma lauda, incluindo aqui uma lauda provisória para depois com vagar e após haver massacrado o escrito revisto e se aborrecido com ela – substituí-la por uma lauda definitiva (que não seria totalmente definitiva, tudo irá se decompor, Lavoisier tinha razão). Merazão? Todavia você... posso estreitá-lo num você amigo? Eu por minha parte consinto em ser você para você, combinado? Mesmo sendo eu como sabe um militar de respeito, tenente reformado como lhe disse – serei ao amiguinho você. Olhe, permito inclusive que use em suas anotações apenas a letra para abreviar a coisa e economizar tinta e depois máquina e computador, decerto você irá meter tudinho nesse monstrengo de lata e me atirar a minha estória, não estória não, história pois é verdadeiríssima da silva, não vai, não? atirá-la nessa geringonça de lata e mandar via Internet para não sei onde? Quer me dar mais uma cerveja? não, não se levante, não é meu serviçal, gritei ao garção, você pode prosseguir, vejo que anota... Observe, meu companheiro, que não estou impondo coisa alguma, foi você quem me pediu se tinha alguma estória, me nego proponho contar história, alguma história vívida e vivida por mim. Não me faço rogado não, conto mas é preciso ter um pouco de paciência, a paciência é uma virtude que possuem raramente as pessoas, eu mesmo não tenho muita não, até acho que consegui eliminar um pouco essa falta nos meus quase setenta anos, digamos uma fração pequenita da paciência, volto para além-túmulo endividado nesse particular; venci uma porçãozinha de impaciência e... isso não vem ao caso porque não é a história que prometi, vamos a ela. Como falei, tenha um pouquinho de paciência – é preciso saber tratar um bebum, não que admita estar bêbado, não tomei nem meia dúzia. Antigamente, nos meus bons tempos, quando estava engajado, não ia com cerveja, precisava de bebidas mais fortes e era forte para bebidas mais finas; podia pagar meu vício convidar parceiros, tem sempre amigos dispostos a ajudar alguém a encher a cara; e você não arregale assim os olhos, não cheguei nunca à fase do delirium tremens; bebia, dinheiro não me faltava, sobrava. Hoje? estou reformado, tenente-reformado, salário achatado, caí neste antro de mau gosto e bem mal frequentado como . está notando, anotando? não, não precisa me mostrar, primeiro que a história ainda não começou e segundo que eu não entendo nadinha de literatura. Vou ser franco, não tive escola alguma, saí lendo rateante para saber o regulamento, o corpo da tropa é muito exigente, você não sabe, foi dispensado não é? com esse seu corpinho e essa musculatura o Exército não quer mesmo, desculpe-me sou franco. Agora eu, com esta barrigona (outro dia um zebedeu me insultou: você, disse o sujeito, olha pra baixo para urinar e a barriga; viu que cachorro!) bem... está um pouco volumosa sim; era esbelto espigado ágil, fiz carreira desde soldado raso, recrutazinho, até chegar a tenente, me aposentei tenente, a rigor me aposentaram não sei por que, eu desejava parar de crescer na corporação quando general, marechal; talvez tivessem razão: como comandar sem cultura? não sabia falar em público, era apenas um soldado exemplar, fui subindo por mérito por promoção, disso me envaideço; não interessa aqui. Dessa não, da marca de sempre; não é com você é com o obtuso desse garção, é gente nova no pedaço e não conhece os fregueses. Deseja que continue, isto é, que comece? Até neste ponto falei como um consumidor de cerveja barata libadora das minhas misérias e o amigo poderá estar pensando que sempre fui bebedor e soldado, gente é cheia de pôr clichê nas coisas e pessoas; não, antes fui roceiro, não bem roceiro, era oleiro e me orgulho em haver sido do barro; frequente me vêm as coisas de minha olaria, às vezes se misturam nas coisas das armas, o que falo aos outros que se sentam aqui nas cadeiras vendo a estrada. Olha, quando acabou aquilo... o que ainda nem comecei a narrar-lhe, quase acabei me despencando, quase voltei à olaria; a família é de Mundão, um município de outro estado, longe; porém voltar como, se estava enfraquecido... acho que não poderia com um carrinho de tijolos; e os militares não me aceitavam mais (tanto que haviam me aposentado ainda novão, uns quarenta anos, forte, ah meu Deus!) Não retornei à caserna não retornei ao barro – fiquei a beber aqui nesta aldeia o meu soldo magro... Depois envelheci, quer dizer, acelerei a decrepitude, estou aqui em sua frente como me . Contudo garanto: fui bom. Como disse? ah sim poderia ter ido para uma praia em lugar qualquer do litoral, onde é mais frequente os aposentados, realmente teria inclusive mais ouvintes para minhas lorotas, sei disso; porém você não tem razão, quando lhe contar todinha a história me compreenderá – não suporto o mar o barulho das ondas me enerva fico relembrando a Maria...


I – Uma História de Amor

Enfim vou lhe contar minha história, uma história de amor... Espero que não me interrompa, do contrário perco o fio da meada, você sabe como a gente quando está na idade da gente...Além do mais, confesso, sou tendente a misturar as coisas, dificulta sua tarefa; espero igualmente tenha bastante tempo; o meu é curto, quer dizer, é um não mais acabar de tempo o quanto de tempo que tenho, mas tem um porenzinho: é que minha cota hoje não me deixa mais que três garrafas... Explico explico : todo dia trago para uma quantidade xis de notas e algumas moedas para emergências; e aplico criteriosamente o dinheiro (no bucho é claro) bebo o que devo, nada mais; noutro dia trago outra porção de numerário, maior ou menor conforme a bolsa para não ultrapassar a bolsa, me entende? gasto a cota do dia; noutro dia a cota doutro dia e assim por diante; dessa maneira não fico devendo ao vendeiro, que por sinal embora pareça amigo é um mão de vaca de primeira e não vende a fiado ao pessoal sem eira nem beira como este seu amigo. Não lhe ofereço um copo por ter-me dito não beber; faz você bem. São apenas umas três garrafas, é por isso que não tenho tempo. Não, você gostaria de continuar a história noutro lugar, não tenho lugar, meu quartinho mofento e sujo, o suficiente para um celibatário como eu... Não senhor, nunca me casei, você compreende: nós devemos ter certa desconfiança das nossas fêmeas; um amigo me dizia: Zezinho, me chamava nem sei por que nada tenho de José, meu pai que era José mas ele sequer conheceu o velho. Zezinho, em matéria de mulher não se deve confiar nem nas de borracha! Todavia eu não necessitava tal conselho, sempre fôra tímido, andava andava andava atrás das meninas e não me encorajava falar com elas, nunca fui um conquistador, era sim bom soldado e até nas bagunças militares em bocas quentes apenas sorria contrafeito e não tendo iniciativa para conversar com as garotas; no tempo de olaria era pior, não passava de um mocinho bobo que indo à cidade, Mundão como lhe falei, era para fazer compra com dinheiro minguado e não ia a bordéis; não minto, fui virgem quase até sargento, cheguei a tenente, não lhe contei? Pois bem, a minha história não tem conquista! Chato não é? pois não tem conquista amorosa, verá que antes fui conquistado, do que me atrevi. Se os colegas não me gozavam? puxa e quanto... Bem entendido, me gozavam enquanto soldado raso porque depois que passei a comportar os macarrõezinhos no braço ninguém se metia a sebo comigo: dava ordem unida rastejo metia o metido no xilindró (nisso a oficialidade me dava inteiro respaldo, ah se dava). Meu caro companheiro, vamos destrinchar a minha história com seus amores, embora me falte um pouco a poesia, a gente envelhece a poesia perece, ainda mais eu que nunca tive pendores artísticos, não passava minha literatura de cartas, as mal-traçadas-linhas convencionais, como era elegante dizer então; uma que me encorajei escrever a certa cabocla não sei no que deu: terá chegado ao destino? o pai da moça terá intercedido e rasgado? a jovem era analfabeta decerto, o que muito comum no sítio, e terá dado a outra roceira de poucas letras para ler? jogou fora também? Não sei, sei que nunca mais tive coragem de passar sequer perto da casa da virgem: tremia e me sentia como estivesse nu, uma vergonha danada! Não se ria meu caro, fui assim; piormente, sou assim. Oh Frederico, mais uma, é a última. Depois dessa que ele trouxer me vou. Volto amanhã pelas dez, durmo até nove mais ou menos, faço o que devemos depois me troco, não como nadinha cedo, levanto-me com uma babação nojenta nãovontade comer nada; às vezes tomo um café que a vizinha me oferece, a dona Chica, não lhe falei sobre essa senhora? ah... Está bem não contarei isso, prometi narrar minha história com muito amor. contudo agora acho que não vai dar, você volta amanhã, eu conto. É que para iniciar e interromper no meio da garrafa... não tem graça. Além do mais após uma noite bem dormida amanhã estarei nos trinques, irá descobrir; de manhãzinho me lembro quase tudo, tem lances terríveis nessa fase a que me vou referir, você, eu, nós vamos ganhar com isso. Concorda? Vá para sua pensão. Se eu fumo? não, não tenho pequenos vícios. Nunca fumei. Bebi, sim bebi algumas vezes e depois não consegui parar mais, mais por causa dela, da Maria ah a Maria... Não quero falar hoje sobre amanhã, está certo?


II – A Bendita História de Amor

Bom-dia. Tem razão, lindo dia, acho que de tarde chove aqui quase não chove. Esperou muito? De fato aqui quase não chove; assim mesmo tem é muito pernilongo. Quando eu estava fazendo gambeta com meu velho, a gente trabalhava junto de volante, ele era o dono do negócio, eu ficava pegando tijolo e pondo nas fiadas às vezes marcava um pouco com meus dedinhos de criança porque o barro estava ainda mole, enquanto ele ia ver outras coisas, dar uma olhadela se a turma andava mesmo batendo tijolo direito, se não  saía macaco, macaco é serviço malfeito na gíria oleira. Hein? ah eu não falei ontem sobre a questão, pois bem, fazer gambeta é pegar os tijolos crus do solo onde estavam secando pouco para enfileirá-los em zigue-zague deixando entrar ar, passar mais vento para enxugar mais depressa, na margem do rancho; nosso produto não poderia secar fora da cobertura do rancho sob pena de trincar e o prejuízo de meu velho seria grande, ele... anh? ah sim a história que prometi, não começamos ontem tardinha? não, puxa, certeza? tinha certeza haver dito algo, não disse? Ah agora me lembro, havia prometido narrar hoje por falta de dinheiro, sim exatamente, por não ter mais cerveja, minha cota estava acabada, portanto falta de dinheiro, concorda? e agorinha fui remetido à minha cara e distante olaria dos meus tempos de rapaz por causa dos pernilongos, você não sabe como havia pernilongo nos ranchos, até de dia eles nos atacavam... Sim, você tem razão, ir à história dos meus amores. Exato, hoje estou em condições. Vejamos se consigo contá-la antes de encher o caco, pois poderei pular alguma parte importante ou me esquecer algo impedido pelas minhas libações. Prometo sim, agora conto de fato.
Como devo começar... Ah sim. No dia em que fui com minha tropa em manobras no litoral do estado, litoral norte. Mais um pouquinho e seria desengajado; entretanto não adiantemos as coisas. Meu grupo deveria fazer um reconhecimento, reconhecimento simbólico, é visto, pois era uma guerra de mentirinha apenas manobra militar de treinamento para uma guerra de verdade. De verdade mesmo a vida, ela sim é uma guerra, você percebeu isso? não? pois é uma guerra, o mundo é uma imensa guerra, a guerra do viver a guerra do lutar a guerra dos ódios, o mundo realmente imensa caserna – é assim que vejo a coisa – o dia em que vivemos é sempre um dia de batalha, a qual quase sempre também perdemos. Como é que é? ah sim a Maria, pois estou também tratando da Maria, no entanto não ando fora do assunto a que me propus: a Maria foi como uma batalha, perdi a batalha e a mulher! você verá ao tempo certo. Oh Gustavo, outra. Como, ontem chamei-o Frederico? puxa acho que é mesmo Frederico, talvez nem Frederico, garção costuma responder por qualquer nome... Frederico, mais uma garrafa, da mesma de ontem. Onde nós estávamos? ah sim, na Maria, mas quem disse que é Maria? eu? Falei que minha amada se chamava Maria? que atrapalhada. Estou me lembrando da Rua São Luís, que é o centro comercial de minha terra; a Maria era filha dum vendeiro, a gente ia comprar as coisas para o pai, estando ali sempre a irmãzinha dela, feiota pra burro, e o irmão briguento, um tal de... Que é que disse? estou fazendo uma confusão tremenda! talvez tenha razão, eu também tenho muita razão, a Rua São Luís é ainda importante para o comércio local... não daqui, aqui não tem Rua São Luís, quase não tem rua, é pouco mais que um povoado, falo do tempo de olaria, a gente ia comprar as coisas na cidade, eu não falei nisso? ora, você a três por dois me interrompe, queria lhe contar a história de meu amor... É muito bonita eu acho muito bonita, no entanto essa questão de Maria foi você quem mexilou me impedindo em dar continuidade a uma verdadeira peça de arte literária que narro e você melhorará escrevendo, não foi assim que combinamos? Não? Então onde está o problema... Nesse caso estamos de acordo! Não me interrompa mais ou não darei ao mundo das letras a minha empolgante história, vivida por mim, presenciada diretamente por estes olhos que a terra há de comer (não é assim que a caipirada se expressa?) Pois bem. Vamos à Maria, que Maria coisa nenhuma não há Maria, Maria era o nome que o sargento Pires dava à garrafa de rum para despistar o subtenente Olavo quando ele estava por perto, vou lhe contar sobre as falcatruas do Pires... Hein! não ouvi bem, não quer saber de Pires nem diabo a quatro... eu sequer citei Lucifer, pera , vamos à minha amada.


III – Quem Falou em Maria, Não era Esse o Nome

Acho que o amigo confundiu um pouco as coisas, a mulher dos meus sonhos era a Jacira, um nome bem indígena, tupi, sei . Ah mas que bela criatura... Quando meu grupo de destacou para a inspeção do lado da ilha os homens me pediram para irmos tomar água num verdadeiro castelo que se via. Bem entendido, homem cansado, moço, esfomeado de mulher como posso agora caracterizar meu soldado de então, nessas condições aumenta tudinho e a fêmea e palácio em toda parte; não era nenhum castelo, simplesmente uma casa grandalhona e razoavelmente bonita, enorme sim e rica, via-se; além do mais isolada – a casa de Jacira como veremos. Pois bem. (Agora você me critica que usopois bemtodo momento, espécie de cacoete; ora bolas, você trocará de vez em quando porpois não’, certo? voltemos ao meu pois bem). Pois bem, mandei um mequetrefe bater palmas e pedir o que precisávamos, sabendo que ricaço não aprecia atender milico, enquanto família pobre faz das tripas coração para ajudar um soldado, isso sei agora, mas não punha naquela hora esse problema, deixei o meu ordenança pedir alguma coisa aos donos da residência. Então vi pela primeira vez Jacira! Quando percebi estava eu empurrando de lado meu subalterno e mostrando cortesia à bela senhora... Isso impressionou. Impressionou primeiro a mim pelo inusitado, fiquei assim meio apaixonado, senti uma qualquer coisa mexendo por dentro, algo como amor à primeira vista, não tem disso no mundo? Senti-me de certa maneira caído pela mulher; impressionou mais ainda a ela, ela me olhou cobiçosamente, olhou desejosa por aquele graduado bonitão – modéstia às favas eu não era de jogar fora, tinha meus quarenta; você dirá que era velho porque você é novinho e gente nova não entende dessas questões, contudo eu não era o que sou agora: pançudo enrugado calvo e fedendo a álcool curtido, não; era sim um homem bem posto, meu posto exigia a aparência e o recato, tendo eu então um certo charme... Não se ria, meu nego, não se ria, não senhor, não falo por vaidade, constato uma situação verdadeira – estávamos nós dois ali frente à frente, eu belo ela belíssima e nos olhávamos com certo interesse, eu nessa altura embasbacado perdera a língua, os meus homens fazendo graçolas que eu teria posteriormente a punir, se bem que a bem da verdade eu os perdoei, pois estava ganhando a bela mais bela da Terra! Você não acredita que eu fosse lindo; está bem, amanhã trago uma foto tirada na ocasião, bigodinho assim cabelo cortado a la militar, eu era mesmo militar, tenente, não falei? sou ainda tenente, reformado sim e tenente de verdade, duvida? ah ainda bem. Ela? Puxa, agora você me apertou, acho que não saberia, nunca soube, descrever uma mulher, mesmo de beleza extraordinária como era a Jacira. Digamos um violão cheiroso, umas pernas de miss, dessas dos concursos, tinha um ventre aveludado e quente (eu sempre adorei ventres, é o que mais me atrai nas nossas fêmeas, até hoje eu sou assim que agora não adianta mais nada); e a cabeça era de uma deusa! de envergonhar qualquer deusa grega ou romana, pronto! Lembro-me dos cabelos longos e loiros. Agora, isso de louro não diz coisa alguma, pois naquele tempo, antes daquele tempo, as mulheres tingiam os fios, hoje todas querem ser loirinhas e modelos para sair na televisão! eu lhe falo: este mundo está é maluco. Ah, tem mais uma coisa, estou descrevendo a mulher com base no que depois eu iria ver e amar, duvido um pouco pudesse ter visto tudo isso naquela hora e na apresentação, aliás não houve qualquer apresentação formal nem cerimoniosa, contudo nos amamos aos primeiros sorrisos, ficamos nos chocando um em frente do outro, até que um palhaço de minha equipe gritou meu nome Tenente! e falou não sei mais o que porque não tinha condições de entender a voz humana via elinha; assim mesmo despertei, pedi atrapalhado desculpas e saí quase correndo, fazendo um papel desabonador perante minha gente ali me esperando ordens e até me gozando. No momento me deu um pouco aquela covardia que senti quando mandei a tal carta à cabocla perto de minha olaria, está lembrado do que lhe falei?
Noutro dia voltei a pretexto de qualquer coisa, sozinho; não iria querer soldados me incomodando e me atrapalhando. Pretendia saber realmente quem era Jacira, nem sabia fosse Jacira ainda, havia sonhado com ela noite inteira, se não a visse achava que ficaria louco; estava meio louco, louco e enamorado... Além do mais tinha posto minhocas na cabeça: e se a jovem (quarentona como eu mas os apaixonados não discutem o registro civil de uma bonitona) e se ela não fosse filha do castelão como na história, esta sim admito ortograficamente estória pois estava na minha cabeça e inventara com requintes de beleza com a essência do coração; e nessa estória seria virgem... Passada você me falará! e por ter seus qurenta e uminhos anos não poderia ser virgem?... Estaria aguardando um príncipe encantado, eu, para desposá-la etc. e tal. Bem, mas poderia, pensei, não ser a filha, uma afilhada, uma sobrinha em férias e necessariamente sofredora junto à família, estando agora no castelo do tio para esquecer um pouco seus tormentosentretanto eis que eu, Tenente Zebuíno, galante, culto, poeta, mago, belo chego para pedir a mão daquele anjo em casamento; enfim eu, um libertador! e caso não aceito pelo padrinho pai tio qualquer coisas do gênero, o rapto! Magnífico, eu iria raptar Jacira, levaria a moça para meu castelo, me lembrei não ter sequer uma casa, estava anos no Exército e ganhava pouco mais do que ganho hoje, o achatamento de salário se fez em função de eu estar, ou melhor, eu sair da ativa; todavia um jovem soldado não tem por hábito estragar sua festa de amor e não pensa em casa, a gente pensa muito mais na conquista a realizar que nas consequências... Existe mesmo uma frase de não sei quem, não sou letrado lhe falei, e consta mais ou menos nisto: a paixão cega. Estava mais ou menos cego. Então a consciência me segredou algumas imprudências que achei de pronto desnecessárias embora tivesse de ouvir porque a voz vinha de dentro de mim mesmo: e se, disse dona consciência, a dama for mesmo uma dama, quer dizer: casada. Ca-sa-da! repetiu a ingrata. O amor doentio não admite tais observações. Assim mesmo fui novamente ao palacete de Jacira pretextando qualquer coisinha porém querendo saber mais de minha noiva( a considerava minha noiva, veja !) Ocorreu-me que se ela fosse casada eu elaboraria um plano para assassinar o esposo e casar com a viúva. E se a viúva não quisesse! queria, tinha percebido que me amava não havia qualquer dúvida a respeito em minha mente; enfim ia mesmo para a abordagem e conquista da linda mulher. Porém quando bati(tinha na porta uma argola solta que servia para chamar, como é que se chama isso? não sabe também?) mas quando bati àporta e vieram atender eu perdera a valentia e a língua não queria se desprender, gaguejei. Enfim consegui dizer à criada se poderia falar com a patroa. Dona Jacira está se arrumando, respondeu. Então fiquei sabendo que era Jacira, pra mim o nome mais atraente do planeta... Deixaram-me esperando meia hora quarenta minutos ou mais veio a bela.
Não sabia o que dizer, não tinha o que falar, estava imantado àquele anjo! acontece que também ela mostrou-se embaraçada mas acabou sorrindo gostoso e iniciamos conversa no salão sentados numa fofura rica, rico aprecia luxos e belezas. Contamos nossas coisas, eu não tinha coragem a dizer que a amava até ao sacrifício e ela se contentava com minha presença bem posta, insisto que eu era apresentável e nada feio. Esgotado o que-falar, nos despedimos, eu não sabendo como me portar e convencido que ela me queria; eu estava sabidamente apaixonado. Todavia houve um porém chato: chegou ao salão seu marido! Então me desgracei desejei sumir nalgum buraquinho houvesse no chão e até pensei em suicídio quando fosse embora e que o mesmo se desse antes de retornar à base militar. Era o sujeito mais infeliz da galáxia!


IV – Como Enfrentar o Marido de Jacira!  

Fiquei com um saborzinho de derrota naquela guerra suja e particular: minha bela era comprometida! Não me apresentou a ele e me descartei sumidinho para fora; ela então correu para mim descendo a escadinha, eu no portão, embora não soubesse como houvera conseguido chegar até à saída. Chamou-me gostoso, tudo que saía daquela boca sensual parecia gostoso, parei voltei-me. Queria me consolar e mostrar que eu não havia sido totalmente derrotado – ali estava ela para me proteger do anjo da maldade... Sorri agradecendo e me fui menos decepcionado. Quando o forno estava pronto, a gente via por aquela fumacinha subindo azulada e além do mais a temperatura ia declinando declinando até esfriar de todo, então era hora da desenforna; desenforna é a situação de descarregar o forno transportando o tijolo para o pátio, onde depois o caminhão a levar para a cidade, é a cidade que consome os nossos produtos, não sabe? que isso tem a ver com a Jacira?  ah sim, meu caro, sim você tem muita razão agora, eu estava a divagar me exprimindo como estivesse na minha velha olaria, perdão; mas desejava não propriamente fugir do assunto e muito menos da Jacira que eu adorava; tão só me lembrei por associação que eu andava como meus tijolos: sendo desinformado pela casa da jovem senhora! Fugia, fugia, embora estivesse melhor de ânimo porque ela viera despedir-se de mim numa espécie de pedido de desculpa, uma desculpa por ser casada e me amar, o que consagraria um adultério,  é o quinto mandamento? não sei bem em que posição o adultério está nos Dez Mandamentos. O que sei é que reprovo esse pecado... Oh Gustavo, não Gustavo não, é Frederico, parece, oh menino traz outra. Do que eu falava? Ah sim do pecado, do pecado de adultério. Pois saiba que o deploro; tanto assim que se for enganado, quer dizer, se indo ver um filme, antigamente ia muito ao cinema, até as matinês me interessavam; pois é, indo ao cinema e no decorrer da fita percebendo que iria haver traição, tanto da fêmea para com o macho como deste para com a fêmea, saía da plateia e ia para casa desenxavido. Quando alguém contava safadezas de chifres essas coisas, fazia muxoxo e tentava desviar o assunto para outro menos infeliz. Agora me ocorre: não será por isso que não me casei? talvez seja por essa razão, nunca aceitaria que me corneassem; não obstante acho que não mataria minha esposa se dormisse com outro, eu é que me mandaria do lar; enfim não sei bem que atitude iria tomar, poderia até dar um tiro na safada, sei ! Não, você está com inteira razão, não se concretizava entre mim e Jacira um adultério. Digamos apenas que eu somente antevendo um adultério. Pus isso na minha cabeça, minhocas como gosto de falar. Noutro dia mandei um mensageiro meu, claro que me entendi com meu superior para inventar a mentira que deveria meu homem transmitir. Mandei dizer que precisava conversar. Com ela não, com o esposo dela. Após a resposta do homem me desloquei, levava ao menos uma hora para ir donde estávamos acampados até ao castelo, vamos chamar de castelo, é um castelo um palacete como o da Jacira comparado à lona do bivaque em que nós soldados ficávamos no alojamento; me desloquei até à casa na beira do mar. É por isso que eu lhe falei detestar o barulho do oceano, por isso é que vim parar nesta biboca. O que fui fazer , ora bolas, me entender com o sujeito; no último dos casos pediria mesmo desculpas a ele por ter tentado conquistar-lhe a mulher; ter-lhe-ia dito não saber da situação civil da senhora e que não havia acontecido coisa alguma de mal, mal-entendido, apenas mal-entendido. Isso. Quando me introduziram na conhecida sala de visitas não foi ele quem me atendeu, foi ela! Mais linda, fosse possível ser ainda mais bela. Engoli seco. Ela foi desembaraçada, falou firme, pôs tudo a pratos limpos. O marido não estava não, havia saído. E melhormente: não era o consorte, era apenas seu irmão. Graças a Deus, disse eu inadvertidamente. Contou-me que perdera quase toda a família, desfiou um martiriológio familial de doenças e mortes abruptas e infelicidades mais, restavam ela o mano(que eu imaginava esposo) e a herança juntamente com aquele palacete voltado para as águas salgadas. Uf! que alívio pensei. Senti. Fiquei apto para conquistá-la; na mesma hora me veio a força e a coragem também, o amor nos fornece mil argumentos, fiz um longo e belo discurso com palavras poéticas.(Disse que não era poeta, pois bem: ali eu era o maior lírico possível, o amor faz milagres). Ela. Ah ela, ela falou muitíssimo mais que eu, beijou-me, exatamente como estou dizendo, beijou-me: beijou-me ternamente em resposta à minha poesia em repente; e me conquistou, não estivesse eu feito um capacho da mulher bela e apetitosa! Começou então nosso caso de amor. No entanto acho que agora vou pedir outra. Espere um pouco, vou fazer minhas contas, ver quanto tenho em dinheiro, não falei a você que o cantineiro é pão-duro? nem fia nem nada; quer o dele, embora nisso se pareça com a minha gente militar: é rígido e honesto, não abusa nos preços; averiguei. Todavia não quer vender fiado a um freguês como eu, eu que devo haver bebido um Rio Amazonas de cerveja passada por seu balcão e ainda não tem confiança. Não importa. Está, está fria, às vezes vem totalmente choca. Ah sim, devolvo na mesma hora, não estou pagando? quero o melhor, não se discute. Frederico, meu caríssimo, mais uma, depois me vou. Vou sim continuar minha história, a história do sofrimento. Não de sofrimento, não é bem a coisa, houve sim muita alegria, vivi meses como no paraíso, o paraíso da Jacira; mesmo tendo de aguentar a vida que eu levava: agora as manobras haviam cessado, voltamos para a caserna lonjão, pra da capital, embora perto da capital; tinha de viajar mais de um dia para ver minha amada! Estava grudadinho no coração dela, ela inteirinha batendo aqui dentro; e por outro lado ela ansiava sempre pela minha chegada. Tinha esses problemas e um outro ainda maior: o porqueira do irmão dela, o irmão de estimação da Jacira. Merece até um capítulo especial esse tormento de irmão que era o mano de minha adorada noiva. Noiva, pretendia me casar com ela, até me adiantava propondo que fizéssemos muitos filhos, um exército para nós (claro deveria deixar meu Exército, que por sinal me indicava com uma dispensa quem sabe por minhas constantes saídas em licença para ver Jacira). Ela sorria, olhava carinhosa para o futuro, o nosso futuro! Mas havia o irmão. É tão chato isso que vou deixar para amanhã o contar; primeiro que é longo demais; segundo que o dinheiro se foi, estou zerado estou bebendo meu último copo da cota de hoje. Concorda? me canso em tanto falar. E você está anotando tudo? Cuidado, não invente, detesto mentiras. É isso.


V – O Cunhado, Gente Nada Fina

Dia, dia, seu moço. Não é assim que o caboclo cumprimenta? Dormiu bem? eu não não dormi quanto precisava... nós vamos, o caipira fala nóis-vai, sabe que é mais saboroso falar assim? A cara do Gustavo, isto é, Frederico... sabe que vou gritar-lhe a presença. Meu caro, comecei brincando consigo porque vem chumbo grosso hoje. Não se espante, é que você precisará anotar umas páginas terríveis! Não prometi falar sobre meu cunhado? o irmãozinho de minha Jacira, não foi isso que prometi ao amigo ontem? É duro falar sobre um... um traste como o Nonô, Nonô era o apelido dele, nem eu mesmo, que era o interessado na  coisa, soube como se chamava. Sei de sobra bem o que fazia... e o fazia bem feito, isso posso apostar. Pelo que Jacira falava o sujeito crescera minguado e raquítico e depois se estufara um pouco e crescera para cima, feio pra valer, eu o achava medonho até, ela dizia do mano que ele era tão belo. Isso em aparência, por dentro com certeza um monstro, repito: um monstro! Naturalmente falo vendo sua personalidade como um todo, um fulano imoral, mau-caráter consumado. Todavia vamos com calma, estou-me adiantando desnecessário.
Desde minha apresentação no palácio de Jacira notara algo estranho no rapaz; o tempo infelizmente trouxe a ratificação de minhas primeiras impressões... Disse à minha garota, noiva como propus, que havia achado seu irmão meio maneiroso, não falei efeminado para não contundir mais, pois pretendia construir com ela um lar e não iria começar tachando por baixo Nonô. Observava as expressões maricas do homem com certo desagrado. Explico: sempre tive um quê contra esse tipo de gente, uma aversão incontrolável; o Exército aumentou-me o machismo, porque entendamo-nos sobre a questão, isso é machismo exacerbado e o mais puro preconceito. Tenho de confessar mais esse defeito na minha coleção certamente grandinha. Quando em minha terra nos dias em que deveria ver a Maria, aquela da venda na Rua São Luís, pois é, enfim fazer compra para os meus da olaria, eu levava pão de padeiro, gente da roça, é curioso isso, aprecia desse pão sem sustância feito em padarias, deixando às vezes o de-casa, aquele que mamãe cozinha, assa, com amor e que é muito mais nutritivo; levava pão fumo e carne fresca, na olaria o pessoal comia carne de galinha às vezes de porco eu levava carne de vaca; pois encontrava as mercadorias para levar à roça e encontrava igualmente nas ruas da cidade o João Linguiceiro. Esse personagem era um veadinho nojento, eu achava nojento; e não era um sujeitinho não, pelo contrário, volumoso, grandalhão; tinha outro bicha, naquele tempo não se usava esse termo para os invertidos, o Paulinho, rapaz fino e educado, ia com seus namorados da alta roda. o Linguiceiro não, era atrevido e perseguia a nós meninões, ia atrás da gente dando cantadaeu fugia espavorido. Então estou me lembrando desse grosseirão da linguiça e comparando com Nonô, o irmão de minha namorada Jacira. Eu sentia por ele um asco imenso; até no me aproximar dele ficava meio arrepiado e sentindo nojo; ele entretanto em qualquer oportunidade se esfregava em mim e me tratava benzinho, que raiva! eu nada podendo fazer para não ofender a mulher, minha futura esposa, não falei que pretendia casar-me com ela? Ah sim havia falado. Me lembra sempre que for repetir, se não a história não acaba mais. Porém havia umas coisas que eu não engolia em Nonô.
Todos os dias ao longo do tempo de nossa convivência vi entrar homens atrás daquele perverso, ao seu lado, de braços dados e às vezes mesmo em beijocas! Ficava indignado. Havendo um outro quê-zinho do qual preciso falar: daqueles homens, no início, sentia uns ciúmes doentios por causa dela; os machos iam, era visto, atrás do irmão, numa pederastia em massa; eu entretanto temia por ela, não gostava nada daquelas intimidades perto de minha amada. Ela contudo me assegurava não ter qualquer contato com aquela gente desclassificada, que tolerava tudo por causa do amor pelo irmão, tadinho. Era a meu ver muito indulgente. Eu sentia assim mesmo grande ciúme. Muita vez passava a noite em claro, embora devesse madrugar para as questões de campanha, vivia em insônia pensando no perigo que nosso amor corria por conviver com aquela pederastia desenfreada de Nonô. Para você ter uma ideia do que eu temia, o palácio tinha muitos quartos, a família anterior vendera à minha, digo a da minha Jacira, enquanto fora dona da propriedade recebia muita visita, coisa de ricaço, portanto necessitando muitíssimos aposentos para alojar todos. Agora servia aos namorados, aos amantes do mano dela, de minha querida! me intrigava, me entristecia, me azucrinava. Eu no entanto era bem recebido; é claro por minha amada e também pelo cunhadinho (e por que não dizer: também pelos seus namorados). Contudo eu pensava, não falava, mas pensava: o cunhado não passava de uma moçoila desmiolada. A gente penetrava pelos corredores e se defrontava com marmanjos em trajes transparentes ou semi-nus perambulando pela casa. Nosso quarto entretanto era inexpugnável, eu e minha garota ficávamos tranquilos. Sim, eu estava assinzinho com a Jacira. E não havia nada demais, pretendia casar-me com ela, fabricar em comum acordo um exército... Ah sim me referi a isso. Oh Frederico... não não adianta chamar, ele vem sim me atender, talvez me traga mais uma, porém a cota se acabou não bebo mais hoje, sou rígido no meu planejamento de vida, herança militar meu caro, não falei que sou tenente? ah... é isso mesmo, vou pra casa. Olhe, amanhã falo melhor sobre minha noiva, nosso relacionamento, nossos dramas; sim, nem sempre fomos flores.


VI – Um Jardim à Beira Mar

Amigo, hoje ontem falei dela dele e dos amantes dele, hoje vamos destrinchar a família Oliveira. Que Oliveira? ora não disse que minha Jacira era Oliveira? o mano também, é muito claro. Mostrou-me até documentos de família para provar ser não esposa mas irmã de Nonô. Eu naturalmente engoli as ditas provas como provas, necessitava demais dos carinhos dela, dava até para suportar... Ah, está aprendendo hein Gustavo, não, Frederico, bem geladinha, hoje um calor desde cedo, obrigado por sua atenção. O que mesmo eu falava, caro escritor... ah sim falava que por causa dessa dama suportava o fresco daquele irmão. Isso? Pois bem. Ontem usei uma imagem belíssima: as flores. As flores para dizer que nem tudo eram flores; mesmo porque quando um jardim possui flores e nem uma praguinha até os olhos ingênuos desconfiam. A começar pelo meu drama de ir do alojamento nas lonjuras até ao mar, não para apreciar o mar estendido. Outro é que o paraíso às vezes andava tão paraíso que me negava a voltar para meu trabalho, donde tirava meu sustento. Naturalmente sonhava com um futuro, possuidor junto com a Jacira e a bichinha do irmão dela, de um castelo enorme como via e proprietário duma fortuna invejável (embora eu não tivesse qualquer ideia a quanto montava, deveria ser muito grande; consideremos ainda que a um soldado percebendo um ordenado curto uma fortuna parecia fantástica como num mundo de faz-de-contas!) Enfim sonhava que pro futuro tinha futuro e não precisaria ser tenente, então era tenente. Não senhor, reformado depois que me puseram pra correr; ainda bem que escapuli com aposentadoria, compulsória é verdade, quase fui para a corte marcial por causa de minhas besteiras, as quais eu imputava apenas pelo amor à Jacira. Por fim me mandaram embora de vez e cheguei aqui. está fazendo uns anos, mais de vinte, perdi inteiramente a perspectiva do tempo. A barriga foi crescendo. Não, não falo da minha, esta pança sem Don Quixote veio-me com o parar no movimento militar e com a ajuda da bebida; os olhos empapuçados também foi por isso. Não a minha, a dela. A da minha flor, eu a chamava minha florzinha, não é poético? ela me tratava ‘coisa-fofa’, expressão um pouco esquisita pois era eu um guapo rapaz, enxuto e  elegante, ah isso eu era... Por que crescia a barriga? , meu amigo é tolo? quando um homem bem constituído e lindo como eu dorme com uma mulher sensual meiga bela extraordinária fêmea como o caso da Jacira, o que poderia acontecer! aconteceu, ficou grávida. nós começamos a fazer nossos planos, no qual se incluía um exército de crianças e ah, realmente falei sobre a questão. Foi bom você me lembrar. Lembrei-me igualmente ter tomado toda a garrafa; que horror, deixei escorrer um pouco na mesa; sim, não tem nada de grave mas cada um tem seu tabu: o meu é beber o líquido, não a mesa bebê-lo por mim, nunca deixo sobrar me distraí contando essas coisas a você. Ah minha Jacira!
Ela me tratava como fosse um anjo que houvesse vindo do céu, me agradava me carinhava me levava para o leito... um femeão daqueles, isso era, dava até para perdoar o resto, mesmo o Nonô safado; as outras coisas eu não sei, é um caso a pensar. Estou ficando meio rouco; e preciso chamar de novo o Frederico. Vamos continuar?
Assim eu era tratado naquele palácio, meses afora; me trazia na palma das mãos, se doava toda ao seu homem, eu. Ah como tenho saudade. E o cheiro? mulher aprecia perfume, uns são inclusive afugentantes outros não passam de água-de-cheiro muito usados por caboclas incultas e pobres somente a disfarçar o fedor das axilas e do corpo. O dela não, era uma fragrância especial, parecia que ela mesma cheirava assim naturalmente supondo tivesse nascido cheirosa... Poderia descer (e neste caso o correto é dizer subir!) às questões íntimas... não existe íntimo para mim nestas coisas, não conto o que se passa num quarto conjugal a ninguém, nem que fosse a meu mais sincero amigo contaria essas minúcias. posso contar o que todo mundo pode ver por fora. Não direi nada de sua elegância e bom gosto em se tratando de roupa, porque eu próprio sou incapaz em avaliar um vestido. Quantas vezes ela vinha sorrindo mostrar-me um novo traje (não indagava também de onde vinha nem quem havia dado ou lhe vendido) virava-se para voltava em trejeitos pra e eu não podia dizer senão que bonito! Penso mesmo que se ela se enrolasse num grosseiro saco de estopa ainda assim brilharia, pois o que ressaltava era sua figura seu talhe seu charme seu ser! E tinha o negócio do sapato, um martírio para mim, visto não entender coisa alguma; restava o rei da frescura, o Nonô, para elogiar o bom gosto da moça; inclusive fazia ele mil observações de moda que me escapava totalmente. De certa maneira eu conseguia mostrar para ela que a amava de qualquer forma se apresentasse. Acho que vivia apaixonado. Com certeza sim. Havia também o problema dos benditos cosméticos, eu nunca poderia oferecer nadinha digno, e ela apreciava deveras, pois vamos nos lembrar que eu não passava dum militar pobre e ela era uma ricaça sem qualquer necessidade da gente comum; de acordo com meu entendimento a necessidade dela maior era minha pessoa; concordo fosse um pouco vaidoso e convencidinho. Todavia possuir uma beldade daquelas não envaideceria qualquer homem neste mundo!? Pois é. Assim foi minha mulher embarrigando, dificultando mesmo experiências com novos vestidos, existiam os de nubentes, nubente não, é coisa de noiva, como é que se fala? aqueles largões... ah agora lembrei o nome, é vestido de gestante, isso, usava e ficava bem, tudo ficava bem pra ela; um barrigão daqueles, dava gosto ver; ao fim da gravidez havia para nós alguma dificuldade nas relações marido-mulher, que a gente se arranjava, é incrível como os casais inventam mil e uma posições para se amarem... Além do mais precisava cuidar em não ferir meu menininho – sonhava em ter um generalzinho na família; ela falava numa princesinha para que pudesse vestir e embelezar... coisas de mulher. Ah fico mesmo emocionado! Xi, parece que está acabando a última garrafa de minha cota de cerveja, que pena, tomaria mais outra e tem a quantidade estipulada, lembra-se? Pois bem, mal lembrado, sabe que devemos deixar o restante para amanhã... Quando é que você volta para sua cidade? mais dois dias temos? Preciso ver se conseguimos enfeixar tudo que tenho a falar nesse curto espaço de tempo. Entenda, não desejaria cortar nada, em questão de amor, em história de amor, é preciso poetar inteiramente; do contrário fica tudinho truncado e deselegante, sem conserto ao concerto. Sabe que gostaria pedir-lhe, meu caro, revisse todo o material que possuímos sobre a história, para ver se dá sentido. Até.


VII – Penúltimo Entre os Contares ou é o Parto?

Oi garotão, vim disposto hoje para nosso trabalho. Você também me parece ótimo. Vou falar ao Frederico, viu: gravei o nome dele, do garção. volto logo.
Pronto? comecemos pelas dúvidas. As suas, eu não as tenho, está aqui tudo na cachola, é espremer a memória, vomitar. Não arregale os olhos assim moço. O que vamos fazer hoje é um parto (a fórceps) eu com sua ajuda. E para tanto vou vomitar. Não estou brincando coisa alguma garoto; contar o que tenho na minha preguiçosa memória – e a qualidade do que está contido dentro dela – é praticamente um vômito; linguagem figurada, está subentendido; mas não deixa de ser realmente um vômito da mente o que temos na mente; de maneira especial do que vou dizer, e em que constam porcarias do porcaria de meu cunhadinho veado e mesmo o que a Jacira me fez, vá esperando, enfim, a miséria. Espere tomar pelo menos uma, para criar coragem. Diacho, eu pensava ter suficiente coragem, arrojo, para aqui chegando desembuchar tudo a você... Queira desculpar-me. Espera? obrigado meu caro.
Estava grandona. Não foi isso o que disse ontem? pois é, um ventre daqueles, parecia que íamos ter dois três generaizinhos, princesinhas segundo a torcida da mãe, a minha amada esposa. Não meu nego, não casei com ela, parece que estou repetindo não? falei que nunca me casei. Juntar amigar amasiar? você é quem pensa assim? bom, no seu tempo talvez, no meu era inadmissível, sobretudo em se tratando de um tenente, não lhe disse que era tenente? ah, sim. Então nunca aceitaria uma ligação clandestina e espúria dessas, criminosa posso afirmar, isso nunca. Falei à Jacira que íamos nos casar; não no padre, eu era ateu sou ainda ela fazia dez anos não entrava numa igreja, embora saiba perfeitamente que para as crianças seria diferente e ela iria me empurrar ao pároco a batizar os pequenos, sendo que nessa altura a gente tinha certeza ser mais de um general na barriga. E foi daí que vasou água... Quando chove muito, essa chuvarada de semana, aquela goteira interminável e a gente na sala comendo bolinho frito com café, às vezes pipocas, falando mal da vida dos outros ou contando causos, caipira gosta bem de contar e ouvir, também o que fazer se o barro nãoponto! pois bem, o barro fica por demais úmido e não é possível condensá-lo um pouco para o ponto, nós falamos dar ponto, simpara fazer tijolo, quando chovia demais a olaria parava, era o que meu velho dizia: fazer pão-grande, não sei bem donde surgiu a expressão por não ser folclorista, tenente é o que sou, reformado. Daí não dava ponto e pronto... ahn? ah é verdade não sei como foi que saí do castelo da Jacira e me perdi na minha olaria da meninice, todavia deve sim ter alguma ligação, talvez... Freud? quem é esse freguês! ah sim ouvi falar não sabia nada dele; um dia você conta alguma coisa desse gringo para mim. A propósito, você não tem alguma estória sua escrita para seu amigo ler na cama? Ah é pena; eu não, tenho na cabeça. Onde é mesmo que estávamos quando você veio com essa colher torta de Fred, Freud? Falei em água? espera , não percebe quando estou usando linguagem figurada ou quando é a absoluta! Entretanto vou repetir, fez água mesmo nosso barco, briguei com a Jacira! Ou melhor, acho que foi ela quem brigou comigo, naturalmente o bestinha do irmão ficou atiçando, metendo a língua onde não era da conta dele; porque todos sabemos os casais se compreendem no final de uma boa briga e o amor vence tudo, tudo acaba na cama... Ai, está me dando uma secura na boca, deve ser nervosismo, tristeza das lembranças de minha miséria, recordações de nossa felicidade; ou será a falta de mais uma garrafa... Não, meu amigo escritor, estamos diante de uma situação paradoxal: de um lado se bebo não tenho lembrança de toda minha miséria; se não bebo perco a noção toda. Contudo note uma coisa, meu normal nesta altura do campeonato é a ebriedade; portanto não me impeça tomar minhas cervejinhas, aposto contarei até melhor que sóbrio. É sim, eu concordo plenamente consigo: com alguns copos no bucho vêm constantemente estórias de outras histórias, dificultando a compreensão. Temos de optar porém. Vamos .
Um dia, depois daquele dia... ora meu caríssimo, aquele dia em que discutimos o futuro das crianças. Havia mesmo uma tendência a escolher os nomes delinhas, eu procuraria os masculinos, pensava num general do Quinto Exército que nós militares admirávamos, ela sei que tinha nomes, dois nomes, uma artista de cinema francês e outro era o de sua bisavó; se houvesse uma terceira princesa decerto... sei , naquele tempo era quase impossível mulher ter parto de três e sair da mesa com vida, nem quero pensar, a gente não pensava, acho que ambos éramos nesse ponto cabeças-ocas. O Nonô também possuía sua preferência, eu por conta com o sujeito, ele não ajudara a gerar os sobrinhos, não tinha de se meter, não deveria coisa alguma escolher nomes. Sei entretanto como a coisa funcionava sabia os nomes que o maninho do coração soprasse Jacira cederia, era fato consumado. Tudo o que contei até aqui é ainda o de menos. Tinha o pior. Acho que deva pedir mais uma, não aguento. Nem suportarei narrar até ao fim... Sim prometi, tem razão, inclusive vinha pelo caminho contente hoje para contar toda a verdade, somente a verdade. Ao iniciar, retomando a narrativa... me deu uma coisa assim no peito... melhor pedir mais uma. Gustavo, Frederico. Não se ofenda meu amigo irei contar-lhe tudo, tim-tim por tim-tim, mesmo doendo meu amor. Agora preciso respirar e me acalmar. Ou não daremos à luz. Pelo menos hoje. Quer deixar para amanhã? Então esperemos a minha melhora, um pouquinho e me equilibro. Aproveita para ver se tem algo que deva me pedir esclarecimento, para essas coisas acho que dá, vá revendo suas anotações por enquanto. Esta não é muito boa; e é da mesma marca dos outros dias, será que esses patifes estão adulterando a cerveja! às vezes tem o prazo vencido; sei , pode ser a minha boca, hoje quis me apresentar alegre, pois estamos no final da história, mas a verdade é que não me sinto bem... Não se preocupe, nada que uma boa noite de sono não cure. Acabo de tomar esta garrafa, mesmo tendo esse sabor estranho, e daí retomaremos o que der para contar, sobrando menos para amanhã. É amanhã que você parte? Depois-de-amanhã. Ainda bem. Vou ao mictório, espere um pouco, a privada daqui desta espelunca em vez de desapertar a gente, sufoca deprime e mata pelo olfato; não tem jeito, acontece que não existe nenhuma outra.
Viu voltei logo (ninguém aguenta muito tempo naquele fedor) voltei para o prometido... mesmo assim, se me perdoa, deixemos para depois. Tá?

         
VIII – Enfim, a Conclusão

Ora viva! Até que enfim voltamos a nos encontrar, hein meu escritor preferido! Você acredita em gravidez psicológica, acredita? Olhe ontem não pude vir como havíamos combinado, se lembra, eu andava passando mal, cheguei em casa naquele dia, anteontem, no meu tugúrio, vomitei feito vaca brava, puxa que expressão mais tola que o vulgo usa, será que vaca vomita? eu pus pra fora até a cerveja que não havia bebido! rapaz não lhe conto, conto sim, acabei no pronto-socorro... fiquei duas horas, daquelas horas enormes! No outro dia, que foi ontem, deveria ter estado consigo para prosseguir em nossa história porém onde a coragem... fiquei curtindo minha convalescença. imagine que o doutor, não acredito mais em médico sabe? – acredita  que ele me recomendou cama e abstenção alcoólica... Ontem ainda fiz o que me mandou, inclusive engoli uns comprimidos amargos como a vida, engolia um vomitava dois, Dona Chica cuidou de mim como se eu fosse filho; melhorei. Esta noite passada dormi de tanta fraqueza, a gente parecendo estar no ar, era fraqueza; pois não é que amanheci molhado, de suor, um suor fedido, e de urina, também devidamente fétida; precisei tomar banho logo cedinho, um banho demorado e cuidadoso e ainda ficou aquela impressão de ser o andante lixão-da-prefeitura. Contudo vou enganar aquele velhaco, o doutorzinho: tomarei hoje umas duas pelo menos (trouxe dinheiro, menos que de  costume a  fim de beber igualmente menos que de costume, isso para não dizer que não desejo fazer sacrifício e seguir tratamento médico!) Você sorri porque a coisa não é com você, foi comigo que lidaram, os porcos, olhe nunca vá a um pronto-socorro; é conselho de amigo. Todavia hoje estou novo de novo, posso falar com tranquilidade sobre a Josefa. O que? não ouvi direito. Ahn, ah não é Josefa, me enganei mesmo, troco muitas vezes Maria por Josefa... Enganei-me outra vez? Por quê? Ah tem toda razão meu amiguinho, é Jacira. Porém você me vai perdoar, sou um convalescente. E o amigo, que fez ontem, em que eu roí a corda... Nada, meu caro? Assim você desperdiça seu tempo e está em tempo de não desperdiçá-lo, é novo e cheio de vigor, as meninas da aldeia não podem ter gostado de um sujeito bonito e jovem como meu amigo dormindo dia inteiro na pensão. Quanto a mim não tinha mesmo escolha, fiquei vegetando no quartinho. A gravidez? que gravidez, você estará imaginando... ah sim, realmente falei numa tal gravidez psicológica; ah rindo. Conto . Agorinha quando eu desci para este encontro, encontro o Fernando, você não conhece o Fernando... não pode realmente, bem é um amigo, sempre a gente troca meia dúzia de palavras, umas ideias, sem concordar cada um com a ideia do outro, ele é meio cabeçudo de tanto teimoso; pois é, ele sobe para trabalhar na chácara, eu desço para destrabalhar minha aposentadoria e lamber meia dúzia, hoje duas, das minhas loiras e frescas cervejas. Porém agorinha me contou uma boa. Imagine você que a cadela dele, uma baita assim, Rotiváiler ou coisa parecida, a bicha fica presa entre quatro correntes, o que equivale dizer fechada num cubículo com barras de ferro, mesmo porque se a fera escapa e pega pelas ruas uma criancinha ou um adulto que seja, estraçalha tudo e ainda lambe o sangue da vítima! um monstro. Pois bem, acho que deveria serpois mal’, o animal começou a ficar triste, a crescer as tetas etc. e tal, o dono chamou a veterinária; aqui não tem, tem o veterinário que me cortou as cervejas e me deu uns comprimidos de fel, veterinário de verdade tem de vir da cidade; chegou num automóvel último tipo, o povão todo correndo indo examinar a beleza de quatro rodas, um acontecimento! então, chegou e foi olhar a cachorra: diga trinta e três e ela decerto ladrou impropérios em resposta; enfim apalpou a criação de estima do nosso Fernando, constatou a impossibilidade de uma cadela sair da prisão de aço e tirou suas conclusões: uns comprimidinhos amargos para ela ( fiquei com da bichona) e falou a doutora, sarará, a consulta é tantos contos. O que ela tem? perguntou o amigo e a especialista sentenciou: gravidez psicológica. Não não era grave, uns dias de cama igualzinho o burro de seu amigo Zebuíno e nada de cerveja; quer dizer não deve ter recomendado nem cama e nem suspensão de cerveja, mas descanso comprimidos e pozinhos, isso sim. O Fernando está na chácara, ói o filho vindo falar para ele que a cadela dera à luz quatro cachorrinhos! Eu não falei nada ao Fernando, não cabia dizer, só disse aos meus pacientes botões: será o Espírito Santo? ou algum macho, desses miudinhos que parecem mais ratos que cães, magricela e faminto de fêmea no cio, tendo entrado à sorrelfa pelas barras de ferro, empurrado pela natureza sempre cobrante, então entrou e com ajuda daquele femeão lindo de morrer... O pai do ano! Contudo essa história, aqui é realmente história, aconteceu com o Fernando, não é estória para boi dormir; essa me relembrou o parto da Jacira, que é nosso assunto hoje, final da história de amor do Tenente Reformado Zebuíno, eu, o qual fora tão belo a ponto de suscitar a paixão desenfreada duma bela! um belíssimo tenente agora tendo de engolir o fel do veterinário de plantão em nosso pronto-socorro. Ora, antes de continuar precisaria fazer uma apreciaçãozinha, não em meu trabalho, no seu. É o seguinte, parece-me que o amigo tenha anotado bastante nos capítulos anteriores mas ainda creio virá uma desproporção levando em consideração o que virá: o último, a Conclusão. Sim porque ela será, acredito, muito grande. Bem, se lhe convier você bipartirá, inventando novo capítulo e concluindo com a Conclusão... Não me fiz entender? Pois bem, dizem que conclusão não deve ser longa, ou vira um livro de conclusão; os estetas têm por norma, será norma? acabar com um acabamento sem novos fatos (não é o nosso caso, teremos fatos estreantes... e quantos!) O que me fala? estou embananando as coisas... Deve ter razão meu escritor de estimação; no entanto não se esqueça: estou doentinho! Como lhe dizia sinto certa relação entre a gravidez da cadela com a gravidez da cadela Jacira... é uma parecença com a situação, a do Fernando e a da Jacira, emprenhada aqui pelo dégas seu amigo, embora isso comece a me dar raiva... Acho que vou chamar o Frederico, vou chamá-lo Gustavo somente porque a gente aprecia descontar noutrem nossas dores... não acha bem pensado? Concordo sim com meu amigo, devo beber menos e falar mais, contar o que se deu, mesmo porque não resta outra saída, você se propõe a partir hoje mesmo, não é? Deixou pra amanhã? Acontece que sou eu quem não aguenta mais falar em Jacira – saberá a razão daqui a pouco. ‘Vichi!’ (vichi quer dizer virgem na linguagem cabocla, não sabe?) quer dizer, ‘puxa!’ é o meu copo, vou mandar trocá-lo, está sujo, o clínico me recomendou tomar cuidado com as vasilhas usadas, disse que estou convalescente e mais sujeito a micróbios; coitado, é um mata-doentes ainda jovem e desconhece que o álcool da cerveja fulminaria qualquer microorganismo. Enfim cuidado não mata ninguém. Gustavo! troca para mim o copo. Deixa-me dar um uf e recomeçaremos para acabar essa infindável história de amor.
Certo? vamos finalmente liquidar a minha Jacira? aliás naquele dia em que nós brigamos, contei isso? naquele dia fiquei com vontade esganá-la. Fiquei mesmo. Todavia a minha reação foi a reação costumeira, por covardia ou burrice sei , foi a que sempre tive em situações semelhantes: nada fiz. Pus o rabinho entre as pernas, botei a viola no saco e voltei para a caserna lambido e triste, uma vontade de pular na água do mar em baixo do castelo da Jacira e do veadinho irmão dela; nisso às vezes penso que não agi por imaginar quão terrível seria engolir água salgada! Acho que era medroso demais até para um suicídio honroso... Por que tanto? você me indaga, não lhe contei? Ah é mesmo ainda não contei.
Naquele fatídico dia cheguei ao palácio dela e ela me recebeu no costumeiro sorriso terno e sensual dos dias anteriores. Não, minto, não me recebeu com seu sorriso habitual, não. Não se atirou em meus braços, não se esfregou em mim pedindo carinho, não me enlaçou como era comum nos seus dias de amor, não brincou gostoso comigo dizendo que os meus generaizinhos estavam com saudade do papai, era assim quando eu chegava ! Não. Estava mudada. Imediato pensei fosse o desentendimento que tivéramos, coisa passageira entre os que se amam; pensei que estivesse apenas sob ação do enredeiro Nonô. Não. Era muitíssimo diferente: parecia um demônio a minha fêmea, os olhos arregalados dos tresloucados, o semblante dos desvairados, dos vingadores! era um olhar feroz, terrível, aniquilador; estaria possessa! Enfim não podia sequer atinar com o que via, com o que ela poderia estar pensando. Até que me disse: você, soldadinho Zebuíno, não entra mais em meu lar, em nosso lar (grifou com a boca cerrada a palavranosso”) nunca mais entrará aqui! Vai agora ouvir o que tenho a dizer e voltar para seus amigos fardados, tão estúpidos quanto seus tenentes seus generais! Eu de boca aberta feito besta, ouvindo aquela megera gritando: vai ouvir agora, escutará sua sentença, que é a sentença de todos os machos da Terra! Quanto a mim andava desnorteado, não sabia se fugia correndo se agredia aquela mulher parecença com monstro, se a atirava juntamente com seu maninho de estimação no mar, eu igualmente nessa altura andava meio endoidecido (ah e era apenas o início daquele julgamento, um verdadeiro julgamento, um julgamento conjugado com a pena para cumprir!) Foi bem trágico.
Então a mulher, Jacira, pareceu acalmar-se. Sorriu. E chamou o mano veado, aquela bicha sem-vergonha e descarada do irmão dela, ele veio sorrindo também, sarcástico, para seu lado e a beijou enternecido, eu olhando aquela cena surrealista ou imagem da loucura geral no Inferno. Ela, a Jacira, a minha amada Jacira, começou a sua sentença aplicada ao pai dos seus filhos, eu, iniciou historiando o nosso caso, gozando a minha infelicidade, a infelicidade que ela percebia em mim. Citou primeiro o irmão: Meu irmão, meu santinho (falou me gozando) esse, este, não é meu irmão, é meu legítimo esposo... não viu que sou Oliveira, por que sou Oliveira? porque casei-me com um Oliveira, verdade que não é um homem como deseja uma mulher... no entanto é meu consorte e é de quem recebi o sobrenome e a fortuna... não sabia disso, soldadinho? Eu não respondi, a língua tinha ido parar na goela; nem respondi a nada mais que ela fez questão de falar para ferir-me, gostaria de perguntar se pelo menos me daria os filhos para criar e no último dos casos se me restava o direito em vê-los, quem sabe vesti-los de generais para tirar foto a mostrar aos meus camaradas; fiquei tão só mudo, olhando aquele casal monstruoso, não pensava no como a Jacira era bela e que amante espetacular me saíra, naquela hora eu estava completamente mudo, como que paralisado, cérebro e boca! Ela? superiora, riu-se e continuou: não disponho de tempo, falou, não tenho tempo a perder com um exemplar da miséria macha, vou contundi-lo como merece com meia dúzia de palavras. Essas palavras são as seguinte, oh mequetrefe do Exército:  os filhos que tenho no ventre não são os seus filhos, ou por outra, até podem ser seus, teriam que ser submetidos todos os pretensos pais das crianças a um exame médico para saber (naquele tempo não havia exame do DNA como  falam existir hoje; tinha mais essa questão; não deu tempo em pensar nisso, ela continuou:) pois fique sabendo, pode ser o pai até meu amigo aqui ao lado, este que tem um punhado de amiguinhos e se escapou para meu leito algumas vezes quando eu não tinha com quem me divertir... Está indignado? saiba então, recebi um exército de homens, muitos mesmos seus submissos, outros seus superiores... e olhe, seu bestinha, recebi inclusive certos amiguinhos de meu querido esposo (nesse ponto o esposo riu-se, até gargalhou, enquanto eu me diminuía ainda mais, estando abaixo do solo moral, mas não conseguia perguntar coisa alguma para Jacira. Então ela prosseguiu, compassada, determinada, vingativa, odienta:) Nonô, seus amantes e meus amantes também, você inclusive, outros homens, muitos outros, por anos a fio sendo enganados por mim. Estou quase vingada! quase. Quando nascerem as crianças, se forem meninas serão bem tratadas; se forem garotos, não serão generais, ouviu? jogo todos no mar! Enganei a vocês todos; faz muitíssimos anos engano. Fui estuprada pelo meu pai, um demônio que eliminou minha genitora com tormentos; e jurei me vingar em vocês todos, em todos os machos do Planeta; sim em todos. Infelizmente nãopara trair todos os bilhões de homens; nãotempo. Contudo vou aproveitar-me de minha beleza e de meus encantos para cuspir em dezenas em centenas em quantos puder, que não posso alcançar a totalidade da nojeira que são vocês!
Continuou falando falando no entanto um turbilhão de sons berravam em meus miolos e eu não entendia coisa alguma, uma zonzura imensa me tomava, não sei se desfaleci se corri se me desmanchei; de repente encontrava-me num catre simples no alojamento militar, o cirurgião indicava a um soldado feito enfermeiro o que fazer. Devo ter ficado semanas num estado indescritível (de sonolência? de morte?) era espécie de animal irracional. Devo ter posteriormente me superado. Quando me  recuperei... Ah meu caro, desejava acabar com a fornada, fechar as bocas e embarreá-las antes da queda da chuva, a chuva ameaçante, cobrir as capas por cima do forno, quem sabe iniciar se ainda desse tempo o fogo-fraco, fogo-forte é quando os tijolos estão suficientemente aquecidos, propensos a estar queimados como nós oleiros falamos, então que importância teria chovesse, melhor que não chovesse entretanto, oleiro torce para que não chova na época da queima, quer dizer, assadura dos tijolos pois do contrário entraria água de cima para baixo e o produto poderia sair chocho, chocho é como nós dizemos; enfim prejuízo na certa! meu pai não queria, seus empregados não queriam, a chuva atrapalharia (neste ponto oleiro é como o homem comum: vive desejando, impondo se possível um serviço a la-carte do tempo, que chova quando precise que não chova quando possa trazer o prejuízo certo! como fosse possível nós pobres mortais controlar a Natureza, somos sim os submissos da Mãe Natureza; oleiro? é igualzinho todo mundo) enfim atrapalharia, porque em última análise esse era nosso ganha-pão. Entende? Não entende! O que meu amigo não compreende... Ah sim, eu falava que o Tenente Zebuíno levou o fora, como diz o caipira, levou uma rasteira do seu amor, a Jacira, e caíu em prostração! E o que é que está errado nisso? O forno? que forno, na caserna não tem forno, tem tijolo sim, às vezes fazem um compartimento qualquer, não sei onde reside sua dúvida, para mim é tudo claro... Ah sim, falei sobre o forno, o forno de minha olaria; pois bem, queira passar uma borracha nessa parte, põe como sem-efeito, igualzinho nos livros de contabilidade, foi sem dúvida uma escapulida que minha mente deu ao meu antanho quando estava pregado no hospital improvisado, certamente improvisado, de nosso alojamento militar, ele era mais um pronto-socorro; os casos graves os superiores hierárquicos mandavam para a capital, sim temos hospital digno desse nome. Voltemos ao soldado, soldado? tenente, não disse que eu era tenente? vamos novamente ao soldado no pronto-socorro da caserna. Primeiro meus amigos de farda imaginaram me vendo chegar, suponho, bem entendido eu apenas suponho, não vi nada, imaginaram que eu estivesse bêbado comum a gente voltar da rua trançando as pernas e os camaradas até ajudam a gente entrar sem o sargentão notar...) e não ligaram, me deixando largado no lençol. Depois supuseram endoidara e ligaram um pouco mais, porque com lunáticos nós nos precavemos um pouco, devem ter tido medo; até chamaram nosso médico de plantão. O que ele disse não sei, sei que fiquei dias semimorto no leito; um dia me levantei, parei de sujar na cama e dar trabalho aos meus colegas. Foi então que fiquei sabendo estar prestes a ser aposentado, reformado, tenente-reformado como lhe falei. Antes recuperei um pouco o senso o juízo avariado e pus-me a pensar sobre meu desastre, ou os meus desastres, pois a reforma era para mim um desastre maior, um fim-do-mundo, uma indignação, a indignidade das indignidades para quem amava as armas pretendendo chegar a general. E a Maria, não a Josefa... quero dizer a Jacira começou a voltar ao meu hoje, que era ontem então. Voltar? fervilhar. Magro, esquelético, barbudo parecendo bicho, era pouco mais que um bicho irracional. Naturalmente o corpo da tropa não deixa vicejar espécimes monstruosos peludos como eu estava, mas no início nem os amigos podiam me pôr elegante, como deve ser um tenente da ativa, era um bicho!
não precisava pedir autorização (e muito menos fugir como um renegado) para sair enfim a ver minha Jacira: era tenente-reformado, livre (livre? o que é ser livre!) livre e mal pago como sou até hoje. Então me propus a investigar o fim daquele crime, daqueles tempos de amor; do meu sofrimento, da minha tragédia. Ah espere um pouquinho, amigo...
É o seguinte: como entitulou, subentitulou, o que está anotando, o que estávamos vendo anteontem e o que registrou hoje. Isso ? Você não acha estar muito longo? quer dizer, não devo mesmo dar palpite por ser iletrado, porém está me parecendo estranho uma conclusão tão extensa; não sei se foi sonho ou terei realmente falado nisso ao meu querido escritor. Que acha? Enfim problema seu, o meu é narrar, penso que terá de refazer os escritos, ao menos no tocante à conclusão, uma conclusão que se preze não poderá ser grande, é a norma suponho, esta é enorme. Bom, não é de minha conta, não fique nervoso comigo. Por falar em nervosismo, vou tomar mais uma, eu falei duas? quem bebe uma duas três terá alguma alteração? penso que não; além do mais tomarei mais a contrabanlançar o pó-zinho e os comprimidos amargos do tratador-de-cavalos...

         
IX – Fim. Agora a Conclusão Dentro dos Conformes

Uf meu caro, devo ter melhorado com a terceira garrafa, aproveitei-me até das últimas gotas; e não derramei na mesa nem manchei a toalha, imunda de tão usada. Quer agora saber o que fiz ao me livrar da cama; e da cana também (estavam para me mandar à corte marcial por causa de minhas loucuras com a Jacira, falei isso?) da cama da cana e do Exército não é? Isto é, do Exército não desejava me livrar, pretendia chegar a general e mesmo a marechal, um sonho! e deixar de ser soldado era para mim impensável aos quarenta. Entretanto não tinha escolha, às vezes é a vida quem o escolhe e não você a escolher a vida. Estava na rua...
Voltei ao castelo. Contudo existe um negócio, acho que o amigo enganou-me, rapaz você me enganou: não me lembrou nenhuma vez em tomar apenas minha segunda garrafa, lembra-se da cota para hoje eram as duas cervejas, conforme determinação médica. Exatamente, não é bem assim, ele queria que eu não bebesse mais nadinha, e isso não tem cabimento, o que entenderá um veterinário a postos no posto-médico! Agora, você, meu amigo e tal, deveria me relembrar a segunda loira. Ah fez bem. Todavia eu me lembrei, lembra-se: parti à terceira (havia trazido um numerário extra visando essa possibilidade...) Veja bem, estar emporcalhado por duas como manda a medicina, três por opção, talvez deva escolher uma quarta festejando sua partida e esse encontro duma história-viva com um escritor de sua envergadura... Gustavo, Frederico, quem estiver , mais uma! Que mais deseja o escrevinhador de mim? O que disse, acabar a estória? impossível, não é estória, é uma história a história de minha vida, pelo menos a história de minha vida amorosa, junto daquela beldade cheia de beleza mas de vícios e maldades.
Vamos então. Voltei ao castelo de minha amada  (e do patife e mesquinho irmão dela, melhor falando esposo ordinário da Jacira). Tinha pendurada na janela mais alta uma placa com dizeres ‘vende-se’. Procurei ao redor para saber, o que foi difícil, o prédio era isolado, assim mesmo procurei saber, ninguém havia visto ninguém de minha tragédia! Fui à imobiliária que por sinal era sediada na cidade próxima, distante desta aldeia que é longe do mar-oceano, indaguei dos responsáveis como fora um pretendente comprador. Disseram que os proprietários não eram proprietários de verdade, a casa vinha em herança duns estrangeiros e que os herdeiros haviam posto a mesma à venda por não-sei-quanto, o que era uma fábula insultante ao meu soldo baixíssimo de tenente, lembrando-me nessa altura que para o futuro ainda seria um salário ainda mais minguado, pois não se costuma agradar quem estiver fora da folha de pagamento dos ativos. Se bem que isso nada representava na hora em que entrara na imobiliária, visto eu não ter mesmo intenção em adquirir o imóvel. Soube sim que moraram ali os Oliveira, mas a senhora da família não se chamava Jacira. Que os moradores haviam sumido assim como haviam aparecido antes. Olhei ao redor, não vi taberna. Que importância teria tudo que indagara, que importância a um militar desempregado? Vim beber neste lonjão, como me o nobre companheiro... não se amofine, não chorarei, os anos me enxugaram as lágrimas. Saúde.
Marília agosto de 2001





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