Confrontação
O homem
olha o todo, percebe fragmentariamente e vive a parte em
parto
sofrido; e ri e chora e briga e se descabela e lamenta e morre.
Depois
renasce e olha e percebe em novos partos sofridos; e tenta despiorar.
1.Preâmbulo.
Encontrava-se
num ponto que só se pode precisar nas indefinições da consciência das ignorâncias,
mas distante com certeza na esteira do tempo, um menino mijando na areia duma
estrada; a estrada, ela que tem duas interrogações em ambas extremidades. E
vagava o seu ser a espreitar a si mesmo na arte que fazia. Fazia xixi a molhar
o mundo, fragmentozinho do mundo, em beira do caminho; um fazer caminho com a
torneira, mais com o jato d'água a cheirar amoníacos dormidos, fazia desenhos
engraçados, parecendo-lhe engraçados, e isso ocorrendo até hoje, milênios
depois, que sejam tão só séculos apenas, porque menino adora essa atividade
ainda; e atirar pedra e correr e mexer com outrem. Com a ligação sentimental
nos dois pontos – o ontem secular, o hoje do agora – com ligação em não pensar
sequer andar praticando artes. Não tinha tamanho pois desconhecia a idade,
idade é ideia subjetiva para o objetivo analisar. Contudo era um ser a vir a
ser. Desconhecia o futuro, o qual até nestes dias os filósofos desconhecem in totum, pois que se baseiam no passado
que já não é e no presente, fugaz, quase inexistente; os quais deixaram ser
futuro, eram o futuro prometido.
O
garoto não pensa nisso, não pensa. Gente desde pequena vive o presente que, a
existir, não se pode interpretar. Ontem para si não passava dum dia ensolarado,
o calor, um pássaro que perdeu não acertando o alvo ou quem sabe um medo
qualquer; o temor aos mais velhos por exemplo, que não se cansam em desmandar e
exigir.
Aí
des-pensa o que a pensar, atrás de não se sabe o quê, mui importante a uma
promessa de gente, ou gente pequena.
Terá
nome terá família terá amiguinhos terá necessidades terá vida enfim. Dessa
forma entra na noite da memória, ou da perda dela...
-
- -
Queira
ou não queira quem queira desde que o mundo é mundo, a limitação ou melhor: a
linha divisória dum momento, a infância neste caso – a divisão do que foi e do
que ainda vai ser (iria ser) nesse momento o menino se pega, embora na mesma
pátria em que vivia (e considerando a ainda não invenção do vocábulo pátria)
ele se pega não mais menino; adulta adultera mesmo os adultérios e mandos em
desmandos: já se sente gente grande, talvez de baixa estatura. Com todos deveres
do homem, o lar os negócios as trapaças. E o chamam Diego e tem certa Maria, a
qual lhe trará certamente muitos e ótimos problemas; mulher de quem não pode
falar por não saber bastante, em não ser naquele presente, sabidamente fugaz pra
quem esteja longe no tempo. Luta vive vibra se cansa amolece definha morre.
Morrem. Morrem!?
2.O
Sono o Sonho o Sonho do Sono.
Tem
a Maria entremeio, têm as coisas em volta, têm as cores, têm os sons, tem a
ignorância. O que mais sabemos é a ignorância do que nos cerca; Diego tem muito
de não saber mas por sorte pouco indaga para o muito do pouco. Alevantou-se em
mal estar, faz o que faz – lava-se alimenta-se trabalha vive o dia a dia, não
tira da cabeça o sonho da cabeça, a cabeça de pensar e de descansar no sono dos
justos, a que supõe ter direito; no entanto não descansa, sonhou. A gravidade
disto apenas por não estar acostumado a viver no mundo infernal em que consiste
essa imaginação. Vezes mil ouvindo narração de sonhos, sobretudo dos jovens e
mais das mulheres; nunca houvera ouvido sua própria narração; agora viveu esse
irrealismo como ouvira outrem a contar. Assusta-se. Procura a interpretação,
procura justificar aquela vida dentro de sua vida e não consegue. São nuvens, é
o imaginário aproveitando o descuido em dormindo. Acorda, se levanta,
assusta-se...
Sabe
estar vivendo na imprecisão, descobre as coisas e as coisas dos sons e das
ignorâncias, donde vêm quase todas sabedorias; precisa na imprecisão mesmo a
área geográfica em que vive e vivem os que vivem com ele – nada obstante não
sabe dar o nome dos nomes e os nomes das coisas. Imprecisa haver a Maria, sente
a Maria vê a Maria conversa com a Maria, a Maria é o general, mandão e abusivo
como são os generais; que seja não general, subalterno rigoroso e que manda, impõe
mesmo, manda noutros sulbalternos, nele e nos outros mequetrefes. Sente-se como
o boi na manada, não um agrupamento selvagem a arrebentar e destruir sim o
manso medroso submisso. Não consegue distinguir os galões do Chefe, mas
teme-lhe as reações e intempestividades mais. Sabe que se pressiona de fora
para dentro... ouve o bravo e o bravatar da autoridade, a Maria! Pensa agora,
desperto e mal humorado no fazer o quefazer – mas ela não é a jovem bonita que
atrai seu coração e os corações dos outros homens? é um homem maduro, duro,
impuro; grosseiro no seu ser e nos seus desmandos! Parece que o elegeu para
apurar os próprios abusos – grita berra manda, manda prender e bater... está
agora enjaulado e preso a um mourão, a gente se ri em volta, dois vinte trinta
chibatadas, mais ainda, não sabe que fez por quê fez e onde assim mesmo sofre o
látego; impropera ou pensa estar a falar e a se defender, no entanto vê seu
corpo a sangrar inerte, enquanto Maria-General gargalha para que os comandados
se riam também e Diego, porém interessante: não se chama ‘Diego’, ele sente ou
sabe e não sabe que faleceu e só entende a terra a sufocá-lo, debalde quer
convencer estar vivo, sepultado vivo! e quando acorda, acorda outro homem
todavia o mesmo Diego; o mesmo que agora alevanta o balde de água a escorrer
parte de volta ao fundo do poço e parte a espirrar-lhe na roupa!
Carrega,
amolentado, parece que apanhou estando a doer o todo, carrega a vasilha à
mulher, a levar desperdiçando respingos pelo caminho até à cozinha de sua casa,
os filhos muitos deles pequenos ao redor dela, ela fala algo sobre Dona Maria,
Diego se impressiona, ainda se lembra do sonho, ou o sono na realidade, quase
irrealidade pois é um morrer todas noites; porém só aquela noite sofrendo o
General-Maria, nunca ocorrido antes! Será que a esposa sabe que deseja conquistar
a mulher do vizinho... Raspa a garganta, a fugir do flagrante, um flagrante apenas
em sua cabeça. Ele foge, foge com os afazeres, surra um dos pequenos a
amolar-lhe primeiro amolando a mãe, a mãe reclama o abuso do marido, bate na
esposa para mostrar serviço de machuras; depois chibata um dos cavalos mais
arredios e continua a tarefa diária. Temendo novamente ao dormir ou não dormir
ou dormir e sonhar apanhar sofrer morrer o inferno do General.
Entretanto
não sonha. Não dorme. Depois dias seguidos dorme mal. E trata mal os seus.
Sequer tem coragem em sorrir à vizinha; ela o acolhe, ele sente como que no ar
a autoridade da Maria. Olha a Maria, vê o General. Isso afeta o relacionamento
conjugal, a esposa faz mil perguntas com os olhos; os negócios vão mal, não vende, vende, vende
mal e perde nos negócios reses, encrenca com os conhecidos e causa preocupação
entre os amigos – não confia em ninguém.
Aí
tem um segundo sonho, estando fora de casa: os seus não têm direito em
participar no mundo do sonho, a Maria volta a azucrinar-lhe... Novamente é um
homem poderoso, abusa da fraqueza de Diego, desconta seus infortúnios no mequetrefe;
não se chama Maria contudo é ainda Maria. Do seu lado ele sente a impotência em
seu estado e também duvida de sua capacidade como macho. Quando quer indagar,
sem coragem a fazê-lo, a saber do Chefe os porquês de sua condição: já de novo
sendo enterrado em agonia. Acorda em agonia.
Nunca
mais sonhou. Trabalhou, viveu, abusou por sua vez dos outros muitos seus
subalternos, fez sofrer familiares, assassinou embriagado a esposa, contraiu
novas núpcias, amolentou, morreu.
3.Escalada
do Poder. É um homem franzino e ao mesmo tempo taludo, com braços fortes, desses que têm por capricho
descontar nos menos fortes o forte dos menos fracos; mas não pensa nestes
termos – age, vive, azucrina, perpetua até e cobra; cobra sempre, cobra
primeiro à família, convicto no dito de que próximo é quem deve ser o mais próximo; judia, este vocábulo sendo impróprio
e ao mesmo tempo dessas palavras insubstituíveis, judia sim e faz sofrer, como
se houvesse consciência disso e o fizesse por desejar de fato ferir... Consegue
tornar-se aos seus o chefe dos martírios. Bate por qualquer. Não escapam os
menores e inclusive o caçula dos filhos, pego a urinar primeiro na parede da
casa, deixando nela aquele cheiro ácido que nem o tempo elimina; depois a fazer
caminhinhos curiosos em obra de arte na areia do chão no trilho à porteira das
vacas, elas a feder tal qual. Olha o seuzinho, acha antes um encanto e se
lembra de si, um Dieguinho assim, e quem sabe anterior ao sonho terrível que
teve com a Maria-Feroz... se lembra sim, aí acorda e acorda o menino, adverte
grita corrigi exagera... quando vê vê feridas a sangrar no pequetito que ama,
elinho a chorar! e aí se condena pelas mãos pesadas, porém não pode voltar
atrás em suas machuras e orgulhos – sai, foge, não podendo fugir de si mesmo,
foge ao flagrante para um longe possível: ralha subalternos, dá ordens, exige,
inflexível, a fim de melhor ser odiado, pelo menos temido. O dia está
definitivamente estragado.
Noutro
dia doutra semana doutro mês doutro ano quem sabe, é o mesmo. Sempre somos os
mesmos, mesmo não mais sejamos os mesmos. Entra dia sai mês, ano, vida, a vida
é um todo – Diego amarga sua tibieza de antes vir a ser Diego a continuar
Diego: só os nomes mudam, não mudamos, apenas modificamos (e é torcer para que
seja no sentido positivo). Ele não sabe disso e menos pensa nestes termos, o
que não modifica o pensar dos tempos dos tempos. Agora vê tão somente o agora.
Agora
vai à Maria. Joana!? A Joana trata da filharada que tanto a enfeara ao parir,
cuida dos pequenos, pega no pé dos grandes, estes se esparramam por aí, só
atendem ao pai, o pai vira as costas a pensar na Maria.
Don
José também é hacendado. Velho, fraco, forte nos haveres e mais nos desmandos,
nisso se parecendo a Diego, igualmente abusa nos abusos, entretanto vira um
garotinho medroso frente à esposa de espírito forte e marcante. Maria de las
Gracias é bela e jovem, impetuosa, dura em suas exigências. Sacrifica as
criadas e os criados, fá-los escravos, a escravidão é inerente aos costumes da
época, nem se pensando no caso. Sequer ela, não pensa, exige; tem voz forte
língua forte e ímã para atrair. Primeiro atraiu Don José e aumentou seus
haveres de víuva rica; agora quer Diego, quem sabe não pense tomar-lhe a
receber a herança dos filhos dele em consórcio com a feiosa e inexpressiva
Joana. Sabe perfeitamente os efeitos da atração de amor, amor em mau sentido;
como toda bela aprendeu fácil desde menina na escola do sexo. Olha, facilita,
apanha o vizinho... ele vem feito um cão submisso, um carneiro, para seu lado;
ela entende, ceva o homem, prende o homem e abusa do homem nos encantos dela.
Jogam à noite cartas, conversam de negócios os machos, falam de amizades, Diego
olha Don José vê Maria, Maria sorri enigmaticamente; e o vizinho volta de
madrugada para a Joana; então não quer mais a esposa, não pensa nos seus, só
existe Maria. Depois obedecerá cego Maria.
Agora
mesmo vive o agora, se esqueceu do sonho com a Maria, só permanece a Maria de
cabelos negros e pele trigueira; existe inclusive o perfume o cheiro da Maria,
um cheiro que somente a Maria tem no planeta; sonha sim, sonha acordado.
Acordado está a dormir na realidade e vai acumulando desentendimentos por aí e
fracassos muitos; a perder muito do que tomou sem que houvesse perguntado o
proprietário. Esse estado a se refletir nos seus.
Seu
lar é o inferno. Os negócios da hacienda
também são o inferno; não investe mais, investe somente no mau sentido e perde,
enfraquece, sucumbe até. Enquanto age ao sabor das sugestões da amante,
sacrilegia a família e sacrifica, um dia mais ébrio, a mulher: bate exagera
mata a pobre. Mas a lei não tem lei e recebe inclusive as condolências, paira
impávido na sociedade. Arranja nova esposa, mais ama-seca aos menores e para
atritar os maiores, a casa continua o inferno a mando das ordens sub-reptícias
da vizinha. Enquanto, a casa da Maria é o paraíso.
Don
José dorme cedo, morre cedo a deixar logo as propriedades à viúva. Antes disso
desconfia do amigo vizinho. Embosca o infeliz na estrada escura da madrugada
por mãos dum profissional, bastante comum nesse tempo. A viúva torna-se viúva
em dupla mão...
Apenas
não abriu mão da riqueza de Diego e vai engolindo por formas diversas as terras
do amante defunto. Para tanto precisou subornar primeiro com a beleza depois
com o poder econômico os políticos e juízes a ganhar dos herdeiros que Diego
plantara no lar e por aí na região. Engoliu sim a todos, para melhor ser
detestada temida odiada. Enfim também ela envelhece, até os fortes envelhecem e
sucumbem. Morre. Morre?
4.Os
Fazendeiros
O
Doutorzinho agora é o Doutor Pedro, ainda em luto recente, toda a família
cerimoniosa na capela da fazenda, o Padre João é velho e arreveza bem seu
latim, ele não apreciava o latim e se saiu assim mesmo formado em Coimbra, fez
depois estudos na França, voltou às suas herdades pra ver a cana e o engenho e
a ficar na cabeça como o pai falecido. Olha João, nota-lhe a neve nos cabelos
mas nem por isso pode esconder a aversão pelo religioso. Enquanto o silêncio e
a reza, todos a acompanhar, lembra-se, irreverente, a ciumeira percebendo, lá
noutro engenho, os olhares do pároco para os lados da Maria...
Pensava
fazia tempo comprá-la ao seu proprietário-fazendeiro, o qual infelizmente curtia
inimizade aos de sua casa. Ora, negócio é negócio. Chegou-se um dia por perto
da negra bela, achou-a cativante, embora não mais que menina a emprumar.
Poderia casar-se com a prima a satisfazer o costume, tolerar sua feiura e
rabugice, e depois oferecer a negra de presente. Mas havia qualquer coisa
esquisita na moçoila, seu olhar seu porte, um orgulho e algo mais que não podia
ler-lhe no semblante. Arredia, isso: era arredia. Tinha fisicamente traços do
velho fazendeiro inimigo, seria seu pai? poderia até jurar isso. Importava
pouco, adquiriria a jovem, ofertaria à tonta e receberia o presente pra si. O
diabo era a soberba da Maria: o tempo... O padre pôs fim à cerimônia, seguida
das banalidades nos ditos sociais e deu com isso corda ao seu despertar.
Viveu
Pedro, desfrutou sua riqueza e sua posição, desposou a prima, fê-la parir um
montão, ofertou algumas escravas à esposa, comprou outros escravos para o eito,
envelhotou, rabugiu, enfermou no físico franzino; e deixou uma viúva feia jovem
rica para outrem.
Antes
ampliou suas terras e haveres, fez progredir seu engenho; e definhou quando
definhava a economia colonial açucareira. Sem contudo haver conseguido
presentear e presentear-se com a compra da negra Maria. O que colaborou no insucesso
foi principalmente a inimizade doentia dos amos da mulata para com família do
Doutor Pedro.
Não
obstante esteve vezes sem conta a contatá-la; pensou inclusive em conquista,
cheia de aventuras espadachins e tudo, conforme se imbuíra na vivência europeia
e mais nos romances em voga. Fracassou. Sentia nos momentos mais críticos a
tomar decisões, não só amorosas e extraconjugais, ao precisar tomar decisões
uma covardia, um medo não declarado, o qual escondia, nesse caso da jovem, com
a diferença de classe: seu alto posto social e a falta de classe e direito de
classe da escrava do engenho vizinho. Nos raros contatos que teve, sentiu
atração imensa pela moça, agora mulher de beleza amulatada à disposição dos
ricos adversários; nos parcos contatos percebia-lhe o ímã, sofria seu olhar de
rainha e conscientizava um temor não revelado (não poderia em sua alta posição
mostrar medo). Via nela o superior; pegou-se inclusive a sonhar com a negra; e
não obstante era uma escrava. Uma vez não suportou saber a visita que o Padre
João fizera à casa inimiga e mais o consolo que ofertou à Maria... O Padre foi
atacado a foice no lombo do burrico de volta à Vila: o escravo enviado a
assassinar o religioso a mando de Pedro foi por este morto no terreiro, a
apagar vestígios de testemunho e para mostrar autoridade. Contudo não teve pra
si Maria.
Somente
em seus sonhos... - - - - -
A
negra aparecia-lhe bela e orgulhosa, forte, travestida em General. Ordenava sua
prisão, vergastava-lhe o lombo em surras ferinas, mandava amarrar Diego num tronco,
batia primeiro para mostrar como fazer, ordenava a seguir as chibatadas a
gargalhar; ele sentia falta de ar, notava a terra a cobri-lo e ia morrendo
morrendo... Acordava neste ponto. Determinou por isso, assustado, outro escravo
a matá-la para matar a realidade de seus sonhos. Não adiantou: ao definhar um
tanto idoso e deixar a prima viúva mais rica do que era antes, ainda aí sonhava
com o General. E morria e morria...
Uma
noite não teve dia.
5.Confrontos
e Atração .
Miguel,
Miguel de Tal, doutor por costume e respeito, grande fazendeiro, ex-grande fazendeiro,
má administração abusos ingerências outras, ataques políticos? O preço do café
não poderia explicar Miguel nem Miguel esclarecer seus percalços: agora não
passando dum sitiante melhorado, que é quase sempre um fazendeiro piorado.
Debalde luta, luta inclusive contra a mão de obra; quer tornar imigrante em
força de trabalho escrava, a fazenda se despovoa, a dívida aumenta, o sítio nasce
do sítio dos credores. Na primeira década do Século Vinte já é um proprietário,
ou náufrago? aquietado ao menos, mas revoltado contra o mundo. Faz água, seco o
poço, os banqueiros sorriem, Miguel mais se revolta. E morre moço ainda,
quarentão, em assassinato não explicado todavia anunciado pelos entendidos nos
desentendimentos com vizinhos visionários e ambiciosos. Deixa prole, aí a
sociedade intenta contra a moral da viúva, a pobre rica ex-rica luta bravamente
como tigreza a defender sua cria e ela salva um resto e falece velha, gasta,
desencantada. A filharada divide o já muitas vezes dividido com os credores e
acaba de vez com a marca rural na família, sugada por fim pela cidade; espécie
de vila com mandatários desde as fazendas de café nas imediações.
Miguel,
íntegro para a sociedade de então, não trai a mulher com uma vizinha. Bonita,
diga-se; casada ou viúva de não se sabe quem perdido no tempo, os olhos alheios
não veem sob o mesmo prisma da família acostumada com padre a celebrar uniões
e, muito mais tarde, com cartório. Cartório servindo na época mais a negócios
de terra e encrencas com advogados ou apenas rábulas e entendidos curiosos. Não
trai. E ela merecedora em não ser enganada no período gordo da riqueza, pois no
tempo das vacas magras a perder a família a propriedade irá ser uma leoa a
defender os seus, que o defunto só fez crescer e depois a engoliu com o
despreparo para a civilização. Não trai com a fazendeira bonitona, ele
achando-a linda embora orgulhosa, dura e forte de espírito. Trai somente com
outras, sobretudo com as esposas dos sabalternos, alguns o patrão chega a
sustentar para garantir a periferia moral. E ocosaionalmente em noitadas com
gente de má reputação, ou na vila com nome de cidade em aparecendo alguma
francesa nem sempre francesa. No lar o respeito. Ou o medo à autoridade.
Contudo nunca sovou a consorte, aí seria sem sorte, como era comum fazer e se
entender o machão da época. Só uma vez, mas encontrava-se embriagado e se
esqueceu logo depois por quê batera.
Por
essa ocasião já estando o barco à deriva...
Apesar
da sub-economia do fazendeiro, ansiava em conquistar Maria do Rosário,
fazendeira sólida que se dizia haver herdado do esposo, que não era realmente
esposo, nada se provando, nada provando a língua do povo, especialmente em sua
frente. Não que passasse Miguel para trás. Dava conselho ao homem sobre
questões fundiárias, experiente e forte. O homem notava e sentia a fortaleza do
seu espírito e tremia. Miguel nunca fora firme e forte, em não ser quando
diante do fraco: daí abusava tripudiava até. No fundo se sabendo fracalhão e
mesmo nada corajoso como determinava o discurso macho... Diante da beleza e da
força daquela mulher, tremia. Nunca teve a coragem em dirigir uma conquista
efetiva, quem sabe por todos afirmarem fosse amásia do Padre José, candidato a
bispo ou monsenhor ou qualquer outra posição dignitária na Igreja. Recebia o
religioso de bom grado, tida por mui devota de Nossa Senhora do Rosário; para
confessá-la pelos muitos pecados, os pecados que somos por força das contingências,
fraquejados, a praticar... Porém essa Maria era forte. Miguel temendo ao vê-la
e sabedor não ser tão só por causa da atração de amor, talvez mais por
sentir-lhe a superioridade nos olhos de lince. Tremia medos! Por fim parou de
visitá-la, nada por insistência da cara-metade, a qual conforme a educação e a
moral recebidas sequer alevantava os olhos para o marido; antes lhe pedindo
autorização; para ter direito na posteridade lhe dar conselho, não chegando à
fase em que a esposa dá quase ordens e orientação ao seu desorientado velhinho,
o Miguel havendo sido morto aos quarenta e poucos, ainda no calor da capacidade
briguenta. Não se deveu a pedidos da esposa o não tornar à fazendeira do
Rosário: o Padre deu no pretendente e rival uma tunda com relho e cabo de relho.
Aí desistiu. A última lembrança que teve das terras da bela Maria, antes das
bravezas do Padre, o qual não aceitava interferências no confessionário ambulante,
a última ficou-lhe gravado indelével: vira um meninozinho a mijar na estrada de
terra batida, fazendo caminhos tortuosos artisticamente na areia com o jato de água
cheirante a amoníaco. Parou, olhou, sorriu ao garoto, um de família colona da
eleita de seu coração. Aí desistiu mesmo a voltar à propriedade. Voltou para a
esposa. Voltou para a esposa, bêbado, mais embriagado que de costume, a curtir
seus fracassos.
Antes
de fracassar nos fracassos de antes e ainda iludido pudesse ter Maria do
Rosário, a cada tentativa frustrada ou se embebedava ou brigava com os amigos,
os quais viravam ex-conhecidos; ou então voltando mais cedo para casa; já de costume
a dormir quando sóbrio com as galinhas, no dizer caboclo; aí se deitando bem
antes do horário. Então sonhava, não sendo muito de sonhar, ou melhor: de
lembrar-se dos sonhos, pois sabemos todos sonhamos frequente, é da definição humana.
Isso, não se lembrava. Em não ser os marcantes. Do Rosário se vestia engalanada
em General, gritava, tapava-lhe a boca, berrava feroz, chamava mequetrefes,
ordenando correção em regra. Diego tombava, ainda amarrado ao madeiro, o sangue
a escorrer, o General a gargalhar, os subalternos autorizados a se rir também;
daí vinha o cerimonial sem cerimônia do enterramento ou soterramento, Diego a
agonizar, tentando pedir socorro ou a implorar perdão! Noutro dia não era dia a
Miguel – explodindo por quaisquer insignificâncias.
Não
obstante o tormento acabou. Pensavam que acabara. E o enterraram no de costume
com velório, mais os filhos e outros parentes de todos os graus, os quais
haviam sofrido a decadência do ex-fazendeiro e já esperavam pudesse ser justiçado.
Nem
Maria nem seu Companheiro estiveram no sepultamento. Ela por não desejar
comprometer-se talvez ou pela já inexpressividade do vencido da sorte. Mas que
é sorte! Nem o Padre, por razões óbvias.
José
podia não ser excelente pastor; era entretanto bom atleta, nunca se descuidara
do físico desde o tempo no seminário; e apreciava ganhar dinheiro. De família
da nobreza engraçada que era a do meio rural brasileiro, ampliou os bens e
ambicionava numa ambição dupla a bela fazendeira e suas terras.A cartada falhou.
Tornou-se importante em seu meio e líder político na Vila, ou no Executivo a
título precário ou ainda a controlar o Executivo através de amigos e aliados.
Enquanto isso crescia como proprietário de latifúndio a engolir sempre os
fracos. Encontrava-se no ápice do mandonismo quando, dez anos após o
assassinato inexplicado de Miguel, a quem apenas temia como rival no caso com a
Maria – menos de dez anos até, foi envenenado.
Maria
levou a culpa, a lei não era a lei dos poderosos, embora a vítima tivesse projeção
e fosse igualmente poderosa. O povo falava inventava acrescentava e não
provava; as autoridades acharam melhor calar. Os parentes do Padre bateram o pé
e herdaram. A Companheira preferiu cuidar de suas terras e em acalmar seus
subalternos alvoroçados nas desavenças. Nessa altura já periclitava sua saúde.
O
tempo, a vida, ficaram com seus bens, a terra não foi decerto leve nem perdoou
sua beleza, já carcomida pelas rugas. Não deixou herdeiros conhecidos nem
pensou em testamento para tão volumosa riqueza; talvez em vista do desgaste
psíquico, ou pela loucura consumada. De qualquer forma pereceu, certamente de
consciência a pesar, e isto de foro íntimo ninguém ficou sabendo; de qualquer
forma, encerrou sua vida, ou que seja uma existência, parte da vida.
6.
O Êxodo Rural.
“Seu
Diogo num tá?” tava, tava se arrumando com os seus, aí por uns sete ou oito
filhos de todos os tamanhos, sem contar os mortinhos a sair de anjos vindos e
enterrados entremeio aos vivos; a mulher cuidava dos menores, numa choradeira
sem fim, tamanhinho assim o de colo sugando guloso, gulosa, era menina a chorar
dia inteiro, “dor de barriga, comadre” e tome chás e tudo o mais da panaceia da
farmacopeia de pés no chão cabocla, onde viceja muita crença, mais crendices
que filosofias da ciência. E gritava gritava, Maria a mudar aflita de peito,
sugava a pequerrucha a comida nova, o leite a derramar no rostinho inocente mas
voltando a gritar, “a dor, comadre”. Na parte que tocava aos machos da espécie,
ajudados por esquálidas, embora com boa vontade se diga, esquálidas meninazinhas
– os machos ajeitavam carregavam se esbarravam a pôr as coisas na carroça, os
burros, uma sendo mula coiceira “sai de perto Pedro!” o Pedrinho o mais enxerido
e o que mais ajudava a empilhar os trecos na carroceria da carroça, esta a se
mexer antes de se mexer na estrada por causa dos buracos e dos animais a se
mexerem agora eles a espantar aqueles horríveis insetos famintos e os pobres
também famintos atrelados horas no varal,
um no varal mesmo, a mula, o outro ligado por correntes e os arreios mais –
ambos indóceis. As crianças indóceis igualmente, pois essa atividade que traz
tantas preocupações aos grandes é uma verdadeira festa cheia de novidades a
elas, embora os adultos Diogo e Maria em problemas profundos, nervosos. A
mudança, ah a mudança.
-
- -
O
homem era tido por homem. Às vezes e quase sempre a precisar provar ser homem;
a mulher se submetia em vista o costume do costume, sem muito boa vontade, mais
a aceitar o fato consumado, a se desdobrar valentemente por causa dos filhos,
estes que enriqueciam a família a empobrecê-la na medida indireta do
aparecimento sem cegonha e na razão direta da quantidade de boca vestuário e
cuidados, as mais das vezes eram relegados – entre os pobres, o pequeno-grande
trata do pequeno-mais-pequeno não lhe sobrando tempo em ser criança e brincar,
assim mesmo num descuido da responsabilidade a surgir a ‘casinha’ sem boneca ou
com a de palha de milho; e os moleques, ah o macho nem o macho pode com ele.
Diogo cortava na cinta, fugia à capoeira a aguardar baixar a poeira, entrando
noite em casa pela porta da cozinha, Maria às escondidas a tratar do filho
arredio e malandro, um pito a rigor, o padre-nosso rezado ao comportadinho temporário;
e o outro dia a ser o outro dia.
Agora
era aproveitar todos braços – é visto que os bracinhos famintos naqueles seios
não demais entumescidos dispensados – todos braços de toda grandura possível
dos pequenos; os fardos pesados por conta do pai, os machozinhos dos menores a
querer mostrar serviço a fungar a arrastar e a entregar de volta o fardo ou a
matula pesada ao ombro paterno, franzino sim, grandalhão e forte demais na
visão menina. As formigas. Têm no carreiro de todo tamanho e altura, todas a carregar
as partes para que a mudança chegasse ao todo. Resta Mamãe, na roça sem as
frescuras da educação e delicadezas urbanas baixinho “mãe” gritado “manhê”; e
ninguém se entende naquele desentender. Ela ajeita como pode, passa ordens às
ajudantes de Diogo a ajudá-la no põe isto leva aquilo, demorando-se no capítulo
“não se esqueça”, onde o capiau come a partícula e não vê não escuta não
percebe que fala errado no seu certo. E elinhas entendem. A carroça está prenhe,
os animais se entrolham sem entender, entendem apenas que deve vir a ordem ardida
gritada do homem, Diogo não sabendo falar manso, só a berrar, vez que outra
quase sempre fustigando em relho; e aos seus com a cinta ou de mão mesmo, aí
não escapando nem Maria, sempre revoltada contra a oposição no lar. Tocam.
Andam. Engolem a estrada a estrada a engolir o comboio, vão fazendo caminho no
caminho a marcar o caminho; ainda assim, quer dizer ao meio ao lentar do
conjunto – um homem nervoso contra sua tropa, uma mulher zangada com criança no
colo ao calor tendo uma sombrinha rasgada a cobrir a cria do sol inclemente; e
a prole restante, forte por viva, em volta, um dos pequenos engastalhado em
cima grudando-se aos trecos de mudança; um cão agitado e abobalhado; a carroça
puxada pela mula forte e o burro velho fraco e teimoso a ajudá-la sem saber por
quê – ainda assim uma das crianças se desprende, o Pedro, encontra tempo a
parar, abrir sua torneirinha, esguichá-la na areia da beira de estrada; depois,
andandinho: a fazer caminhos de amoníaco em zigue-zague qual artista do mundo
no mundo. Diogo olha, ia ralhar, se lembra se transporta ao ontem num fazer
mais de quarenta anos e não ralha: abalança a menear a cabeça de chapelão; e se
ri por dentro, inventa um dizer qualquer só a dizer, um dizer do pouco que
dizem dizendo esposo no padre à esposa mais mãe da penca que esposa, enquanto a
menina continua a chorar, agora apenas choraminga, mamãe ajeita os paninhos. O
comboio avança no retroage.
O
mundo é a interrogação. A família não interroga, sequer sabe o drama que agita
regurgita o mundo em Guerra, que sendo a Segunda faz milênios que é mais uma e
infelizmente não seria a última, os homens a se trucidar, a ter vencedores e
vencidos, todos irmanados em perdedores. Não interroga em não ser nas coisas
suas: a colheita que não chegou a termo ou não houve, a ‘a-meia’ que se não
pagou engolida pela crise, a crise que espanta o roceiro e o obriga sempre a
cair nos braços da interrogação ou das reticências e a afundar na Cidade, com
estágio por aí e nas Vilas; até se despersonalizar.
Agora
Diogo vai macambúzio, até se cansou gritar os moleques e assustar de cara feia
as feminhas que gerou, as quais sempre e desde que o mundo é mundo garantem a
gente no mundo a crescer o mundo. Os meninos já fugazes e mais perdidos em
brincadeiras ocasionais, não brigam, só brigam entre si; então aproveitando a
intrigar também com as irmãs, no intrincado familial. Maria ralha primeiro com
elas depois com eles, sobra uns tabefes, quase derruba a nenê no movimento
inesperado, a pequena defendida pela natureza que fá-la em instinto agarrar-se
com as mãozinhas crispadas ao vestido materno; papai olha a cena, olha e não
vê, vê longe, vê o mundo quase antes do mundo, vê menino sente a mãe; Maria
rumina resmunga suas coisas, pra não perder o costume, ele não confia demais na
companheira; quase sempre prefere comunicar o que comunicar (a decisão da mudança,
mais uma mudança, por exemplo) prefere chegar e dizer sem perguntar opinião, pois
teme a mulher, embora haja no provar machuras lhe aplicando algumas surras;
numa fê-la abortar, perder a barrigada nos sete meses, o que deu anjinho pra
chorarem desconsoladamente, a perda de filho, que seria um ganho com a falta de
alimento e a colheita exígua, é uma perda e a emoção verte lágrimas, mesmo
Diogo chorou às escondidas aquele anjinho disforme em cortejo fúnebre. Teme.
Teme,
não diz mas teme a esposa. Ela é forte no seu ser, embora franzina e magra, tem
uns olhares ferinos que lhe vai buscar as entranhas, a gelar seu heroísmo e sua
valentia, mui pouco demonstrada aliás,
em não ser por força da aguardente e no baralho inflamado com os amigos, Diogo
tem é muita facilidade a formar seu batalhão de bebuns em cada fazenda por que
passaram; um dia chegou a comunicar os conhecidos que seria proprietário dumas
terras; noutro dia foi de enxada a lavrar as dos outros, a fim de ganhar o
alimento aos seus. Porém entre o casal, tirando o episódio do roubo da Maria de
seus pais, num aventureirismo com cavalo durante e depois com tapera metidos no
meio – enfim o casal não se entende e não se dá bem; todavia isso o corriqueiro
na pobreza roceira, mesmo emigrando às estranjas urbanas permanecem os tratos e
destratos conjugais; o amor puro parecendo raro. O homem a temer a mulher, esta
dura no dizer, quanto mais velha no lar mais dura ainda, Maria fala, quase não
fala, quando fala fala sem parar, para por aqueles desajeitos das mãos pesadas
dele, franzino e pequeno mas de soco a nocautear a pobre; que aí não fala,
resmunga baixinho e chora altão; a assustar os meninos e a assustar inclusive o
algoz, este, sem graça, foge à roça ou para ver uma criação. Até o Peri
viralateia sua conversa também, assustado, normalmente alegre de cauda ao lado
dos irmãozinhos (ele se pensa mano das crianças, na viagem em mudança não os
largava a temer perder-se e a ficar para trás). Ladra ladra. O ofensor se manda
às suas coisas, como saída honrosa. Parece que foi ele a apanhar... A casa
silencia, que é o barulhar nas atividades de sempre. À noite volta o esposo
para a esposa, até sorri bobaginhas da nenê. O outro dia é o outro dia. Brigam.
Se desentendem bem, às vezes alcançam o ótimo no assunto e na desavença dos
assuntos. Ele a teme para que ela o tema, aí fala alto com os filhos, dá
ordens; a vida continua.
Agora
prossegue aquele cortejo, o cão late suas coisas, os pequenos se bicam, os
grandes, ele macambúzio a pensar, mais a alembrar das coisas; ela meio como
enfunada a ajeitar a pequetita, a dormir pequetita; logo terão de arranjar um
improviso de berço nos cacarecos domésticos em passeio para a interrogação no
andar lento das reticências. Ela é forte, tem um como que ímã a atrair todos,
mesmo Diogo, mais a Diogo, Diogo a teme bastante, sabe na ruminação íntima ter
medo da pobre, a mulher é um molambo a cheirar roupas dormidas, o cheiro que se
acostuma com o cheiro do macho, porco no dizer de sua fêmea; e se toleraram se
suportam ou não podem deixar de se aguentarem por lembrar as crianças... Teme
seu olhar, teme a autoridade que sente em seu ser, que se equaciona benzinho
com sua covardia teimosa; aquelas coisas que não temos a coragem em revelar
mesmo ao nosso consciente por mais despertos estejamos. Ele é assim um homem
corajoso que se treme quando Maria sorri enigmática, ou então ela cospe olhando
em asco ao marido; sobretudo quando volta vencido pela crise econômica que abocanha
o ganho e traduz a perda, seja da terra que nunca pôde possuir, sendo que
entrega à interrogação esse direito; ou quando vem bêbado a cheirar cachaça da
cidade, a qual não passa de vila com um cabo mandão se pensando delegado. Um
dia ficou a dormir na hospedaria do militar. Ela? sorriu malignidade, não o consolou.
Ele? ainda mais se borrando. Só pode ‘vencer’ o sentimento com paulada no
adversário; e o inimigo ri-se assim mesmo, antes chora e resmunga, para ter o
consolo ou a compreensão dos meninos. Agora era ontem.
Ontem,
noutros dias que eram noites, a dormir cedo com as galinhas ou por bêbado ou
por cansaço não dormiu. Dormiu entrecortado e sonhou. Não era homem de se
lembrar de sonhos, menos a se impressionar com os sonhos; e não contava os
sonhos. Ela gritou com ele, em sua voz fanhosa e rouca, fez-lhe calar-se,
ordenou pegarem Diego, amarrarem-no ao tronco, chibatou o infeliz, passou a
arma aos mequetrefes, fê-los exercitar os músculos – o sangue jorrou! Diego
acordou quando as últimas porções de terra engoliam seu pouquíssimo ar e ele
morria em vida... Levantou-se Diogo, olhou apavorado Maria, em roupa gasta de
dormir, não no vistoso uniforme de General; saiu quase ‘afogado’ na falta de
ar, sequer se prendeu aos berros da criancinha deitada a espernear no meio dos
pais – saiu quase a correr espavorido, foi fumar lá fora, atirar fumaça na lua.
O diabo, pensa ou fala baixinho com o coração apressado no bater, o diabo é que
essa diaba me bate e me mata faz muitas noites. Aí pensa que a Maria tenha razão
(sem nunca haver-lhe narrado o horror do sonho).
-
- -
Assim
manhãzinho vai ao ‘benzedô’ noutra fazenda, por insistência da mulher. Deve ter
razão, tem qualquer coisa errada comigo, se diz. No entanto a Maria é por demais carola, ele a
acha carola, quase não vê padre na ciganagem da família faz anos, quase não vê,
mas fica como sapo tomado por cobra frente a um! Logo com padre, ele tem
aversão a padres. Ou é o padre o sapo... Para ele ela é uma cobra brava,
terrível, a estar sempre preparada a boteá-lo. Ah, ele não é padre! Chega no
curador, não sabe quase falar, gagueja as coisas, mais ainda sobre os sonhos
contínuos. Depois dos conselhos traz à companheira preparar uns chás, traz
certa garrafa que lhe disparará antes do meio os intestinos, quase morre, sem nunca
se acostumar a morrer por apanhar tanto do General ou da Maria. Sarou. No que
pode um pobre ser humano sarar, a cabeça prosseguiu enferma.
Agora
prossegue. Prosseguem em comboio. Os filhos gritam e não sabem para onde se
deslocam; o Peri ladra sem saber para que lugar; a mãe resmunga sem saber a
quem; a criancinha acorda e dorme. Diogo olha para a frente. Vê a interrogação.
7.O
Hoje do Ontem, agora.
Dona
Maria anda numa braveza sem tamanho. Intriga decerto da oposição, falatório. As
vizinhas falam, ela escuta por seu azar, tudo é geminado no cortiço, falam de
língua solta, mas quem entre elas passou pelo padre, algumas poucas; cartório
então! nem se fale. E a criançada dela não é melhor que as delas, nem pior; não
se pensa nisso na igualação do Cafundéu, que é uma favela até boa; a sua não é
melhor que as famílias das outras, igual, semelhante, próxima; o Padre José não
fala que Jesus mandava ajudar o próximo? Estava fula, assim dizia, fula da
vida. E a porcaria do Dioguinho não dava as caras fazia semanas. Água luz a venda,
por sinal uma ‘ladrona’, tudo por conta dela. Fizera sozinha... falavam por aí
que não, vários ajudaram, mentiam as línguas alheias. Dioguinho, um banana.
Tinha bem uns seis, não contava mais os filhos perdidos, o mais velho não
morrera, morrera para ela fugindo ao mundo, igual o pai. Quando Dioguinho
voltar... vai ouvir muito. Vai ver o João anda com os maus elementos que viviam
ao seu lado que nem moscas; vai que mataram ele. Já não chorava fazia tempo, a
se apegar aos sobrantes; não sentia quase nem a falta do companheiro. No começo
aquele nhenhe-nhem e beijos, meu benzinho, depois a enchê-la de filhos. Agora
tem o Padre José... trouxe remédio, pílulas pra parar a fábrica; o Padre... Aí
derruba uma panela, explode escandalosa em barulho, rola ao chão, derruba outro
inadvertido, as crianças correm vindo ver em xeretude ou assustadas. Passa uns
servicinhos a elas, manda outro ver televisão na vizinha e fica só de novo.
Olha uma estampa de Nossa Senhora na parede com baratas atrás certamente, por
que será elas gostam de se esconder lá, e fazem um barulhinho chiado irritante
a lamber o papelão; Maria detesta fedor de barata, tem é medo e olha atenta e
não vê nada é de dia ainda, tem medo; pior o Dioguinho que fala não ter e tem medo
delas, foge, não fica em casa no dia de limpeza, homem é tudo preguiçoso mesmo,
e porco; o Dioguinho...
O
Dioguinho vive a pensar na Maria. Ele é mais escuro um pouco que ela. Lembra,
não pensa nos filhos, os filhos não tão nem aí, pensa sim, pensa um pouco,
menos nos já mortos; o caçula é engraçadinho e fala umas besteirinhas pra se
rir, mas, ah credo! não quer nem pensar, ele tem a cara do Padre José. A vizinhança
arde a língua de tanto falar mal, vai ver tem razão... Um dia ‘fará a pele’ do
intrometido. Diz que passa lá em casa porque a Maria anda adoentada, o safado.
Na verdade não tem coragem em assassinar ninguém, é um medroso, um fraco. Agora
está de olho numa mulherinha mais nova que a Maria, um pouco mais escura e mais
bonita que a Maria. A Maria é quem ele deveria matar; teria coragem! duvida, teme
a mulher como ao diabo; o Padre disse que o diabo vive espreitando a favela
inteirinha... Ela tem uns olhões grandes assim; e pior: lá dentro dos olhos remexem
aqui dentro da cabeça. Deve ter parte com o demônio. Contudo ama ou se sente
atraído a ela, não pode ficar longe mais que semana, agora faz mês. Assim mesmo
continua a sonhar com a Maria. Sonha com ela e as crianças também de vez em
quando; ela é quem aparece mais; sonhou que a mulher dormia com o Padre, aquele
sem-vergonha. Mais vezes muitas vezes mesmo vê no sonho a Maria: se veste de General,
dá-lhe murros doídos, bate até de relho e certa ocasião com a espada, é uma
confusão incrível. Aí grita os subalternos, soldados rasos e ferozes. Bate um
pouquinho a lhes mostrar como fazer, entrega a chibata a um dos mais fortes
daqueles fracos e ele bate sem dó, bate fere sangra, em sangue tomba, aspira
com dificuldade, expira! ainda percebe o soterramento, grita estar vivo, ninguém
ouve, a terra pesada lhe imprensa o ser. Acorda. Olha abobalhado em volta, vê a
Maria, agora não a vê no colchão improvisado, via em casa; vê a Maria em sua
camisola, tem duas, uma ela não usa pela ciumeira do companheiro por ter sido
presente do Padre; o Padre... não quer lembrar-se do Padre; um dia... Depois
arrefece, pensa... “Um dia não volto mais para a carola” e cospe e escarra,
pisa na sujeira, acende outro cigarro e mais outro, tenta sobreviver, ganha a
rua.
A
família faz tempo que vive de expedientes; por fim optou em catar papel na rua;
depois garrafas e plásticos. Não dá nada, vão vivendo. E brigando. Ela é muito
briguenta e exigente. Sim é trabalhadeira e olha bem quando em casa os meninos,
os meninos descambam por aí, ninguém segura. Já pensaram voltar para a roça, o
pai e a mãe dele quando Dioguinho era pequeno – e curioso, aí era Diogo, igual
o avô; depois apelidaram o pobre como Dioguinho mas sem qualquer conotação de
delicadeza e carinho, que demais não existe entre sua gente. Ternura então, só
a mãe pra dar, mesmo assim Maria saindo madrugada a vencer na concorrência empurrando
seu carrinho, a pegar mais restos que os outros; os maiores já trabalham ou
ajudam a mãe, temendo mais ao pai. O pai
abusa, vem cheirando a caninha, briga com a Maria, bate às vezes e mais foge de
casa que outra coisa. Ele tem um mérito: sabe ler e escrever, a mãe soletra com
dificuldade, tem sempre de chamar o Padre a ler para ela os folhetos religiosos.
A
Mãe não anda feliz; ao contrário, se irrita até com com o barulho dos meninos e
ainda tem de aguentar as crianças das outras, dos vizinhos, pelo fato dos
barracos serem grudados. Ouvir discussão deles também, mataram a Dona Maria,
não a Mãe cruz-credo! ela gordona assim, o homem dela; e a polícia só veio
buscar a morta, ele por aí nesse mundo, igual o Pai, o Pai também não para,
quando para se desentende com a Mãe e bate nela. Os meninos igualmente não são
flores que se cheirem. Do Padre também não gosto, pensa a menina maior pequena
assim, ele passou a mão em mim; contei pra Mãe a Mãe me bateu. Pensei falar ao
Pai que o Padre estava na cama da Mãe, desisti, ninguém presta, um dia vou
pegar papel pra mim mesma e estudar, aprender. Se o Pai voltar...
Dioguinho
vem pra casa, “veio visitar a família?” Aí brigaram, lavaram a roupa suja na
mais alta baixaria, sobrou aos pequenos em gritaria a chorar, os grandes
tentaram apartar e quase apanharam do Pai e da Mãe. O Pai não disse que nunca
mais voltaria. Apenas não apareceu mais e puseram a culpa nos outros catadores
e os catadores do centro culpando a polícia.
A
Maria tratou seus esfolões, tratou como pôde as crianças, uma delas também
sumiu. Alguns a dizer que Dioguinho raptou o filho. O Padre tornou a vir à
casa, achou Maria sem graça, carinhou a seu jeito os meninos, deu-lhes
santinhos em figuras lindas, fê-los beijar a imagem, tomou com asco um café
fraco e doce da mãe; foi a primeira, e última, vez a provar, parecendo ao tomar
temer o que a mulher lhe oferecia... Não voltou mais.
A
Maria pôs coisas na cabeça. A rigor nunca aceitava sequer ter nascido mulher;
não deveria ter encontrado seu verdadeiro amor neste mundo; deixou mesmo de
sorrir, e gargalhava debochado. Foi se desfazendo, largando as responsabilidades,
o juizado segurou algumas crianças, outra se perderam, nem a Estatística, muito
menos as Estatística, as encontrou. O barraco se queimou num incêndio, devorou
alimentos instrumentos contas vencidas, uma fogueira linda de se ver, medonha.
O Planeta nem ficou sabendo disso, ocupado com as Guerras e os shows televisivos ou num ver as brigas
nos campos de futebol, ou ainda a cegar-se com o intumescimento do Império das
Drogas e demais violências. Ou seja apenas que a ótica se desumanizou. Pode
ser; não pode?
Alguém,
a sondar os escombros do cortiço, um que outro destroço dos destroços salvos
apressadamente pela grita geral, alguém observa um garotinho, tem nas
imediações outros pés no chão, ele a apagar tardiamente o incêndio à sua maneira
com sua primitiva mangueirinha, ao fazer zigue-zague com o mijo, a escorrer à
lama, para confundir amoníaco com outros fétidos no córrego em despejo público
em ótima infra-estrutura. Urinou, saiu a correr com os outros; a infância não
se preocupa com desastres comunitários; nem vê interrogação.
8.Conclusão.
O
futuro parece não ter futuro; ao menos à gente do povo. O povo não pensa, vive.
Ou sobrevive, teimoso. Não tem nome, tem número e não sabe se distraindo em
apelidos. Também não pensa, pensasse, que o futuro, a ser futuro, é o passado a
distraí-lo mais que a distração dos nomes das coisas, com inexistência do
presente, um que foi passado e ensaia ser, já deixando em ser presente, o
presente fugaz para virar futuro. A gente do povo pensa que vive, se engana e
não conscientiza a ideia do futuro. Mas gera cresce briga acerta o desacerto,
adoece sofre morre; pensa, aí pensa, pensa que morre.
Marília fevereiro
2005
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