quinta-feira, 25 de julho de 2019

Três Contos de Reis e Um Conto do Vigário


(coisa de novela de coisa:) Três Contos de Reis e
Um Conto do Vigário

I – Introdução
Hoje é finados. Bom começo, de fato, é iniciar-se pelo fim. Dá menos trabalho. Quem sabe aqui a chave da felicidade humana, gente vive a procurar chifres na cabeça de cavalo; às vezes retarda uma sabedoria na sabedoria geral por não saber como tourear os futuros problemas. Elimino a fase dos problemas começando pelo fim. Deixo apenas a questão introdutória; talvez prolongue um pouco mais, a tratar em saber de quê se tratam as questões. Nem que seja a conhecer quais dramas ter-se-ia caso houvessem dramas, visto não havê-los, optando-se pelo começo no fim ou acabando no começo – abortando  monstros.Sim, monstros!
São três Contos de Reis, nada em ver com os mil-réis antigos, sou pelo moderno a raciocinar como cruzeiros em tempo de reais. Melhormente: dolarizo tudo a valorizar qualquer bobagem possa sair desta esferográfica azul. Melhor ainda neste pior – porei a culpa na caneta. Todos sabem que tenho razão: as canetas são falhas, são caras, são mui esconde-esconde a perder-se e aí a gente nunca acha para anotar sequer um número telefônico o qual não se guarde (guarda sim, erradamente) na pobre cabeça; são roubadas, aqui substituo a forma pelo verbo afanar para não ferir o ladrão, às vezes pessoa da família ou amiga (tinha uma que vivia com sete ou oito canetas dos outros nos bolsos, sem saber o dono a devolver – e xingar ladrão!) as canetas são... substituirei a ideia também, vestirei a ideia com outros vocábulos pra não ferir suscetibilidades ladras – digo agora: são pessoas esquecidas dos bens alheios a levarem consigo os bens dos outros, inocentemente, nos próprios bolsos. Lindo. Nada obstante perco a caneta.
Contudo voltemos aos Reis.
O primeiro é o Dinheiro. O segundo o Egoísmo. O terceiro a Vaidade.
Não cabe analisá-los numa Introdução; necessário ter paciência, lê-los na íntegra adiante, mesmo seja a convencer-se não se deva ler.
Para finalizar a novela, um Conto do Vigário. Sobre este nada adiantarei, não adiantaria. Quem sabe a melhor proposta no caso fosse pular o Conto; impossível, pois o mesmo se encontra no fim deste trabalho...
A propósito, quê tipo de trabalho vem a ser isto, em seu conjunto! Apenas avanço dizer que não é um bilhete; talvez bilhete, mas bilhete um pouco espichado. Porque em sentido literário não consigo enquadrá-lo ou vesti-lo dentro dos cânones conhecidos. Seriam por exemplo os Contos de Reis novelas? portanto três novelas, cheias de ‘zinhas’ e ‘zicas’ para não complicar. Por fim, a abordagem do Conto: e se este não for conto... podendo virar crônica ou romance; ou bilhete!
De qualquer forma, forma que arranjei a acabar o começo, de qualquer forma vai aqui um conselho, já sou velhinho, caco matusalêmico, posso aconselhar: nunca pergunte a um autor (nas mil gradações e adjetivações até chegar ao pseudo-escritor) nunquinha indague.  Simples – nem ele saberá o futuro de sua sem-futuro obra.
          Chega de tró-ló-ló. Adiante.

II – Três Contos de Reis

- O Primeiro foi ‘aquele’ a quem Teresa deu a mão. Não, o primeiro foi seu pai; o segundo seu irmão; o terceiro sim foi ‘aquele’. Contudo sou uma caneta rebelde, mando pra qualquer lugar tudo que me obrigar à padronização. Sou por esta ordem – padrão patrão tudo ladrão. Isto posto, me identifico por minha linguagem desabrida a desabrir o Conto da novela que não vale a meu ver destão. Apresento-me antes de mais nada.
Caneta. Gente exige complicações, pedigris, nobrezas mais, vai lá então: sou Caneta Esferográfica da Silva. Pronto. Descendente em linha ascendente do dedo, primeiro do antes se escrevia a dedo ou com varinha no chão, o vento a chuva o tempo apagavam, matando meus queridos ancestrais ou o desenho feito por eles, tadinhos. Depois do dedo veio o carvão. Falo sem medo, não tenho discriminação de cor alguma; mas sou rebelde, minha rebeldia atinge todas as formas. Bem. Com um tição apagado se riscou paredes a contar como fugir dum bicho faminto. Depois mui depois surgiram o giz ou pedra e o lápis, eu ficando no lápis apenas; vovô-lápis, não entro no mérito do demérito do grafite se quebrar nem na chateação apontar o lápis e cortar o dedo chorar e gritar, não. Depois, ah que pena! apareceram as penas – as de ganso de pato etc., tadinhas das aves; chanfravam-se a ponta antes enterrada pela natureza na pele da ave, molhava-se na tinta (não falo sobre a tinta, sou herdeira de sangue e deeneá dos avós Caneta) molhava-se e se escrevia, gravando a história e até a estória na História da Humanidade (não falo igualmente sobre a mentira, a distorção, a invenção – sou descendente da Avó-Caneta, não do cérebro humano, xô tisconjuro!) Depois ainda inventaram a caneta de pau, fincaram nela penas de metal, tinha ultimamente a conhecida pena-mosquitinho, fininha, e a pena-doze, a qual abria, arreganhava demais as pernas, dando uma letra grossa e feia; e se quebrava pra chuchu. Assim mesmo uma parenta, ancestral de valor. Depois do depois outros avós e pais, como as canetas-tinteiros, sendo que as primeiras a surgir sujavam os dedos e o papel com borrados e marcando bem por polegares e indicadores sujos – ai que horror; sendo que os meus parentes não tiveram culpa por inabilidades mais. E finalmente Eu, a grande Eu, filha herdeira Caneta, como disse Caneta Esferográfica da Silva.

- O primeiro foi aquele, o Dinheiro. O Dinheiro, todos sabem, é uma definição de família. Veste-se hoje em tecido especial de papel e plástico a enganar os trouxas falsários, os quais só sabem mesmo enganar os poderes constituídos e circulantes; eventualmente aparece fabricado com metais – o ferro o níquel o cobre a prata o ouro. Mas quê vale realmente é o espírito, o valor intrínsico ao que se conhece por dinheiro. Em todo caso deixo de lado a vestimenta, um forte que não é meu fraco, não aprecio falar sobre roupa; nem sei descrevê-la. Sequer o Dinheiro se importa com isso, interessando-lhe muito mais o poder.
É uma família que detém o império do mundo e no passar dos anos vêm seus parentes se substituindo se revezando seja pela escolha ou pela imposição pura e simplesmente. Desde a origem, em moeda, aí pelo século IV antes desta era entre os persas. Antes e depois por mil lugares e povos, dependendo da organização dos mesmos ou por sua incipiência, os negócios se faziam na base da troca pura e simples como escambo – dou uma porção de trigo em troca dum porco; me dá uma vaca dou-lhe no lugar uma mulher; fica com estas galinhas eu levo suas cabras; etc. etc. etc.. Até chegar ao ponto em que a Humanidade já buscava novas terras e os povos a querer se conhecer e explorar-se, como sempre o forte comendo o fraco – aí surgiu a necessidade em mudar o ganho pela simplificação do valor, primeiro com objetos atraentes e mais tarde valorizando pequenas porções metálicas emprestando grandes poderes, qual o ouro; a fim de facilitar as transações. Um pulinho ao Dinheiro. O avô do Dinheiro foi o valor imposto às coisas, as quais deixavam como por encanto serem ‘coisas’.
Mais para diante, mais próximo de nossos dias, já meus Avós aperfeiçoados, embora longe esferograficamente falando; nessa altura já manda o Dinheiro na sua forma conhecida e atual. Uma dinastia...
Agora dá as cartas o Dólar.

- O primeiro foi aquele, aquele que desmanda, manda no capitalismo financeiro, para este mandar por atacado a atacar cada varejo nas unidades da federação planetária, onde têm é muitas delas se rebelando, ao menos esperneando, que é um direito das gentes. Isso refletindo em cascata desde lá em cima nas organizações internacinais, passando por gorvernos nacionais, a bem dizer títeres consentidos pelo capitalismo financeiro e entregues a ele em razão das dívidas. Assim o cidadão já nasce endividado; controlado como marionete, pois seus governantes já são eles antes marionetados; endividado antes da criancinha gritar, esgoelar primeiro por desentendimento depoizinho por mamadeira e brinquedo (por escola não,pô!) mais grandinho por computador quiçá numerário para adquirir drogas.

- O primeiro foi aquele, o guri em exemplo da submissão ao dinheiro. Chamá-lo-ei, eu Caneta da Silva, esferográfica pra valer, Com-Nome. Porque todo mundo, no andar atual da carruagem, todo mundo precisa ter nome; em segundo lugar temos o guri Sem-Nome, não discutamos nomes, antes abreviemos o contar a entender o contar, os nomes somente atrapalhariam. Bem.
O Sr. Com Nome virou Doutor, claríssimo cresceu viveu e não precisou enriquecer – nasceu em berço esplêndido, riquíssimo. Ao vir ao mundo era apenas rico o pobre ser: depois cresceu, cresceram-lhe haveres e de grandalhão acresceu ao cresceu do crescimento; e só deixou a vida na condição de milionário bilionário e tal e coisa, ou não aceitaria morrer (os do Céu não aceitariam por sua vez a riqueza do Doutor Com Nome, aí um impasse) e nesse caso estando Matusalém até hoje. Teve poder, teve mulheres casando-se (com outras ricas a aumentar o dinheiro?) descasando-se se casando; e assim se não para todo sempre ao menos amém. Ah sim, teve a briga dos herdeiros, acionamento judicial etc..
O Sem Nome se perdeu no todo, inclusive se perdeu na perda, perdendo o nome, fora de seu meio no boteco onde tomava umas biritas brabas; e não pagava, era desfeiteado e por isso não mudava atitude diante do vendeiro cobrador: mudava de boteco. Constituiu família sem conhecer a família; teve direito, os direitos são iguais, dizem, na sociedade onde manda o capitalismo financeiro, teve sim direitos também a casar descasar casar de novo e deixar herança; fez melhor: ajuntou largou reajuntou se largou foi largado; e deixou – direitos iguais ou semelhantes – deixou herança, enorme, muita dívida. Deu no pé, primeiro fugiu do pegável e visível; depois fugiu provavelmente ao invisível, pois deve ter morrido após alongado, como gato alongado.
A riqueza geral da nação nem ficou sabendo, sabendo tão só a morte do Sr.Dr. Com Nome, demais notíciado na tevê.
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Contudo quê se disse, ou se escreveu, ainda persiste uma questão enublada: - Isto é um Conto da Novela ou a novela do conto!? ou é que não esteja terminado. Dirigir-se à Caneta.
Caneta. Por favor, Caneta Esferográfica Azul da Silva. Bem. Quê é um Conto? tem de ser bonitinho comportadinho, possuindo mamãe papai padre cartório filhinho, ou muitíssimo filho se pobre ou casal-de-filhos se burguês-mente encarando. Não existe outra forma de expor um conto! A minha, canetamente falando, por exemplo. Ou então mudemos definitivo para novelinha esse primeiro Conto de Reis. Ou proponho em vez de Conto ou Novela, proponho sim ‘Coisa’. Coisa serve a tudo: ocupa espaço no espaço do nome, mede extensão, atinge profundidade, avalia qualidade, propõe o improposto – enfim serve a tudo. Está criada a forma literária Coisa; isto sendo coisa muito séria.
Todavia esta não é a questão essencial. Para mim o essencial é prosseguir narrando o que narrar: temos outros dois de Reis, Contos Novelas ou Coisas.
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III – Coisa de Egoísmo
- Não obstante um título belo como exposto aí, o egoísmo é lembrado como mano xereta do egocentrismo; e é a este valorizarei neste capítulo, eu Caneta Esferográfica Azul da Silva. E para dar feição a que ele tem direito farei figurar como herói-central ao Reinaldo, digno representante da espécie, nadinha em extinção.
Vão me dizer não ficar bem apresentar um personagem sem nome. Não tem nome! tem. Ah, no sentido concreto está certo o errado, não tem o Reinaldo um nome. Porque o nome é o nome de família, que seja a família Egoísmo; alguns estrangeiros admitem o nome não sê-lo, mas o de família apenas, o nome sendo tão só pré-nome. Atribuir-lhe-ei Silva, e não se confunda com meu da Silva, sem entretanto desmerecer-me: o Reinaldo não é esférico, não é de plástico, não é esferográfico, não é azul, antes vive constantemente vermelhão, sanguínio. Embora não tenha minha alta qualidade, também é Silva. Apenas peço não se confundam os apelidos, peço repetindo a quem ler-me; o meu com pedigrí como sabemos.
O Reinaldo é o protótipo do egocentrista. Creiam vejo o sujeito faz bem uns dez anos; e a única referência que ele tem sobre mim, muito embora as conversas temos tido nesse longo período, a única é me chamar Caneta, talvez pense uma Esferográfica, não me percebeu Azul e muito menos da Família Silva, cheiinha de pedigris. Não merece sinal de exclamação?
Vive sua excelência em torno do próprio umbigo e tudo que faz fá-lo interesseiramente para si. Mesmo a esposa, Dona Maria, Silva por sua causa, mesmo ela não existe não seja a valorizar sua excelência, quer dizer – a do marido, o qual ela me disse não ser, ser amásio; e o homem, embora só fale de si, pois se crê uniquinho no planeta, embora aja assim não deixou ventilar tais podrices. Em suas conversas, diria melhor dizendo ‘falas’ que conversas, as quais são debates entre partes, evidentemente com predomínio da parte mais forte e aqui seria o Reinaldo – as em que participa apenas ele a falar; e caso um desavisado venha bicar a fala tentando desvirá-la em conversa perde tempo, pois o Reinaldo sequer ouve. Ouve quê possa interessá-lo: o preço do carro, quem deseja lhe comprar o imóvel. Um dia, eu Caneta Xereta Esferográfica Azul da Silva, eu xeretava em saber se a esposa que nunca me dissera ele ela não fosse se a mesma melhorara, operada a arrancar as entranhas de fazer nenê; nem isso ouviu. Ouviu tão só haver-lhe dado os parabéns pelos quarenta e sete aninhos de vida, o que também não me havia segredado; no entanto ouvira eu o gasto “parabéns a você” decerto com bolo e cerveja não pude constatar pois não se permite às canetas pularem o muro e ver in loco a festa íntima de natalício. Aí respondeu em concessão “obrigado”, imediato retomou o contar do grande negócio que realizou vendendo o branco comprando o verde mas que logo empurraria a um trouxa que lhe dê bom dinheiro pelo veículo, minhas orelhas, tadinhos dos ouvidos, a escuta de caneta é mui sensível – cansei, passei a bola a outrem que passava então, fugi do herói. Ele não disse “benfeito” para a ardidura das orelhas se acaso me houvesse notado na conversa, que é o seu falar falar falar, diria em ver-me se visse, com o saco cheio, sim caneta não tem, tem sexo feminino, isto já outra bobagem, prefiro o latim que joga quem não tem de verdade pro neutro; então o Reinaldo não diria nadinha.

- Sr.da Silva, Língua da Silva, sim no cartório e na pia batismal é Reinaldo mas quê têm os registros com minha estória da estória dele! o Sr. da Silva não percebeu sequer minha presença não terá visto outras individualidades também, pois só tem pensamento ao seu querido umbigo. Aliás a Terra inteirinha gira em torno dele, este girando em torno de seu próprio umbigo, aparado ao nascer pela parteira, uma tamanha e medonha bruxa, que lhe viu ouviu gritar pela primeira vez no planeta, aí ainda não sabia falar só falar falar sem ouvir outrem, mesmo porque outrem não existe... Não é bem assim.
O quê não é bem assim? ué, falei que não ouve, diria melhor falando que igualmente não vê, ceguinho da silva, este silva nada em ver com Silva de Canetas Azuis. Pois ouve, ouve sim.
Vez que outra, aí agradecendo por meu vizinho, pois fossem todos os dias! Mas vez que outra põe seus discos naquela alturona, todos todos; num gosto discutível que não permite discutir – berra em inglês; não importando não saiba a língua franca destes tempos, bastante a ele o barulho. A mulher, que se diz ela mesma não ser esposa, os filhos, todos da casa dele fogem a matracar com a vizinhança, o Reinaldo fica a ouvir o som de seu rock, o qual consegue fazer trêmulos vidros utensílios e quem sabe as colunas de sustentação da casa...
Agora, não posso afirmar, sem mentir, seja egoísta. Isso não, a ser exigiria que tudo fosse em seu benefício; e concede algum benefício aos filhos também. Talvez chegue a bom pai, não discuto.
Apenas ponho a questão por tudo girar no mundo em volta de seu mundo.
Mais não digo. Ou invento. E é feio inventar coisas dos outros.
Nada obstante devo pôr aqui neste final uma curiosidade me ocorre no instante. O seguinte. Não deve – pois  deve existir muitas pessoas com as características descobertas no sujeito – não deve existir uma Associação dos Egocêntricos, ou coisa que o valha. Creio nisso, um egocêntrico não ouve não vê não descobrirá nunca outro da espécie, nadinha em extinção repito, a se reunir e defender seus direitos (defenderia os seus próprios nem percebendo os dos outros egocêntricos). Tem um mérito o egocêntrico: crê em divindade, o deus é ele mesmo. Chega.

IV – Coisa para Estudo do Último Rei

- Primeiro o último – a Vaidade.
Trata-se aqui da Vaidade trocada, pois onde já seviu Rainha Rei! Além do mais o comum é afirmá-la fútil; de minha parte eu Caneta Azul a perdoo em virtude dar-me oportunidade mostrar minha competência em descobrir facetas onde o comum só vê frivolidades.
Não. Aqui pretendo discursar em torno dos valores perduráveis da Vaidade; pô-la ao menos àcima dos Reinaldos desta vida; àcima inclusive do Dinheiro, que se pretende o Rei o Mandão no Planeta.
A ela, ela se basta, sem chegar ao egocentrismo, porque a vaidade se contenta com pouco, não pretende reinar suplantar nenhuma força.

- Um exemplo exemplar. Encontro a Vaidade a se manifestar num ser, apenas a se manifestar. Não está sozinha, temos vários vaidosos a se elevar, elevando outrem a receber doutrem elogios, a Vaidade não vive sem elogios, é seu combustível. E tem uma outra peculiaridade.
É que todos no bando encontram-se nus. Logo se imaginando em bacanais, exposições e campos de nudismo e outras mais proibições da liberdade social. A rigor poder-se-ia estar com a razão. Talvez eu, Caneta Esferográfica Azul Curiosa da Silva não tenha razão, porque demonstro (não sou hipócrita hein!) demonstro certa curiosidade sim em examinar tais exemplares em exemplo. Isso em nada ofende aos bons exemplares. Se há atitude agradável a uma Vaidade que se preze é exatamente estar na berlinda e ter olhos-de-ver vendo o material exposto. Até faz trejeitos, virola-se, se remexe a mostrar-se; pois o quê mais agrada a um vaidoso é que seja visto e admirado. Não existe timidez nesse meio, são extrovertidos por condição os vaidosos. São as palmas hurras e louvores o que esperam. Enfim à Vaidade somos sempre público.

- Entrei, Caneta Curiosa, no recinto pra vê-los nuamente se apresentar naquele desconcertante desfile. Como disse, eu Caneta disse, disse não haver coberturas, talvez cobertura jornalística e de televisão, estas alegrando toda Vaidade reinar. Não havia coberturas, como vestidos caríssimos joias ornamentando; ou por valer de fato o que vale, ou seja o corpo simplesmente; ou por não ser mais possível a existência da vestimenta e a ornamentação. Esclareço melhor.
As vestes haviam sido carcomidas e até reduzidas a cinzas pelo fogo do tempo; as joias e demais adereços caros aos vaidosos, é visto, não poderiam mais existir pelos cuidados das famílias e dos ladrões. Estes a arrombar túmulos à busca de riquezas; aquelas, que hoje em dia nenhum é tolo enterrar seus mortos com objetos de valor, sabendo a crise econômica e a esperteza dos gatunos: os cadáveres descem aos sete palmos quase em pelo.
Portanto a sobrar tão só corpos. Mas e a Lei de Lavoisier!? Ficaram os esqueletos apenas, porque osso é osso duro de roer.
Assim mesmo Dona Vaidade, se supondo Rainha, a rir caveira para meu lado, num mostrar-se bela...
Eu, eu Caneta da Silva, eu fiz meia volta volver e fiz também assim ó pra ela. Mostrei minha carga a se esgotar...
Não mentia: quase nem posso acabar agora este Capítulo, falhando falhando.


V – Um Conto, ou Coisa, do Vigário
Entrei, temerosa, é sempre terrível ao meu ser os cerimoniais, sobretudo nos recintos sagrados ou sacramentados, fiquei em estado mais ou menos de Caneta Esferográfica Tímida e Impaciente ao mesmo tempo da Silva, andandinho com cuidado pra não macular a casa do Senhor, em verdade não crendo fosse realmente divina mas e o costume por séculos e séculos! Silêncio. Ao fundo a estatuária o cheiro de velas o lume de velas, incenso, e novamente silêncio. Entrei. Chegou, aproximando-se de mim a sorrir angelitudes. “Bom-dia, Sr.Vigário, a sua bênção...” Quase disse, não tive força dizer mais, diria que o Rei Dinheiro anda a extrapolar seus poderes, que o Rei Egoísmo degenerou-se em volta do umbigo, que o Rei Vaidade descobri ser Rainha e sem sexo assumido e piormente se encaveirou carinhado pelo suco cadavérico onde nadam vermes mil – sei lá se o padre creria, sorriu outra vez desta vez se achegando mais, mais não fez ao observar-me melhor com óculos, mostrando daí indignação. Neste ponto abriu finalmente a boca: “criatura trevosa! retro satanás – canetas magrelas, esféricas, plásticas (gritei-lhe educada sou Azul da Silva!) azuis ainda por cima, por baixo digo: fora!” e balbuciou também, já rezando alto enquanto me mostrava o crucifixo preto ou marrom: “ainda mais não suficientemente trajada, pois sem a tampa, Deus me livre!” Corri, ia correr, descobri não ter pernas, tadinha de mim, embora Esferográfica e Silva, de grande e remoto pedigrí, fiquei estática como os santos ali no templo e...
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Cassei-lhe a palavra. Pode uma coisa dessas, uma Caneta, concordo com Sua Reverendíssima: Azul ainda mais! Pode uma ‘coisa’ se propor – não digo a blasfemar se dirigindo ao Pároco mas: propor-se elaborar um Conto, ou Romance, ou Novela; e piormente inventando novo enquadramento literário na modalidade criada ‘Coisa’!
Atirei-a desgostoso no lixo, nunca mais comprarei, digo: usarei, uma caneta azul, somente as pretas ou verdes as quais ressecam mais cedo e dão prejuízo ou as vermelhas, violetas roxas ou cor de burro quando foge se se quiser; azul nunca, mesmo com pedigrí e arrotos de nobreza.
Marília   novembro  2004

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