Árvore Genealógica
Quem
é que não conhece o Coronel Liberiano! Senador eleito por sua região e tudo o
mais. Dinheiro, muito dinheiro, elemento básico na distinção de nossa sociedade.
Pois bem. O que nos interessa neste momento é saber por que o homenzarrão
determinou aquele inquérito em sua própria vida, como se a desconhecesse, necessitando
esclarecimento.
As
más línguas – quem é que se livra delas? existem em todos os lugares – elas
disseram que o Senador Liberiano Praxedes de Prates Silva, nada tendo de Prates,
mas que sobrava muito Silva... Intrigas decerto. Porém seria essa a causa de
tanta mixórdia em cartórios, nas prefeituras, nas igrejas; fazendo o homem usar
e fazer valer seus direitos de tribuno? sem esquecer as impunidades das
imunidades parlamentares, é claro. Para outros, também línguas viperinas, essa
glória do Congresso teria contraído a doença vegetal (ou seja a valorização
genealógica) de seus amigos no Parlamento e da alta esfera burguesa, infestada
de novos-ricos por todos os lados.
É
um caso a pensar.
Descoberta do Escrivão Caminha
Um
dia o Senador, já um tanto grisalho e com uma semicalva indecorosa, sentiu-se
nobre. Não um fazendeiro nobre; ele muitas vezes fazendeiro. Sem títulos é
verdade; nem Comendador nem nada. Porém muito fazendeiro. Com ações na Bolsa,
controle sobre certas campanhias; eram tantas. Sem título e nem reconhecimento.
Sentiu-se nobre. Talvez depois daqueles convites às reuniões das altas esferas,
regadas a uísque cerimonial e tudo. Podia que não lhe dessem um título, porém
estava presente um autêntico nobre quatrocentão; ele. Porte, dinheiro, ele. Não
podia dizer sequer estar ligado a algum daqueles lindos heróis dos séculos XVI
e XVII. No entanto tinha de estar ligado. Convenceu-se ser um galho importante...
só a árvore boa produz bons frutos, disse a Bíblia. Portanto... era buscar.
Tentou. E não conseguiu nenhuma fácil ligadura nobre. Teve de encontrar alguém
que fizesse o serviço para ele; e para o mundo também; ora, para que serve o
dinheiro?
Assim
contratou um homem. É assim que Caminha entra nesta narrativa.
Chamava-se
Vitorino, um bigodinho ralo, dente cariado em exposição e clamando por
dentista. Escrivão. Veio pelo “anúncio publicado na ‘Folha’ de ontem”. Ouviu o
tró-ló-ló que o patrão devia fazer mesmo, recebeu refeição; foi deixado à vontade,
como fazem os coronéis. O salário era atrativo, mais do que a ambição vitorina
esperava; muito maior do que sua inteligência comportava. Entretanto – que se
credite a ele – o escriba era dócil mas trabalhador.
A Busca Desesperada
O
mais grave problema numa pesquisa é saber o que procurar. Vitorino consumiu uma
semana bem alimentada, na procura do saber o que buscar. Usou até dicionário.
Pagou a comida.
Na
outra semana descobriu o que descobrir definitivo: os parentes famosos do
importante Senador. Até na quinta-feira não encontrara grandes coisas; porém
foi anotando anotando. Logo teve de pedir verbas novas para viagens, pois na
capital nada constava de meritório à Sua Excelência; mesmo algo registrado em
seu nome, de pouca ou sem importância; em não ser lançamentos do fisco, quase
nunca abonadores...
Partiu
direto para Caramimbó, lá no Sertão imenso. Direto por muitos caminhos direções
e conduções. Acabou no lombo de um burrico; e aqui o burrico entrou numa árvore
genealógica! No lombo de um jegue; o de cima, por desacostume, teve de
permanecer uma semana de pernas abertas incontroláveis, e sem dormir com as dores.
Descansou e começou no grande trabalho de pesquisa.
O
escrivão Vitorino não era tão desprovido de inteligência como se possa crer,
não. Tanto é que levou consigo, entre malas e embrulhos, a tradução do livro
“Árvore Genealógica de Don Pedro García y García Lopez Acebeo de Portillos”,
figura desconhecida do escrivão, e certamente do leitor. Queira desculpar-me.
Isso equivaleu a uma das primeiras investidas, ou seja: saber o que é uma
árvore genealógica; para montar a do Coronel Liberiano. Quanto à leitura, foi
tarefa de semanas.
Nada
mais edificante do que iniciar pelo princípio; Vitorino sabia disso. Começou
pelo que supunha ser a primeira geração conhecida dos Prates Silva; de trás
para diante, naturalmente. Foi à procura de dados no Município e depois nos
distritos arredores. Gastou nesse trabalho três lápis, deixou a borracha de
apagar redondinha e minúscula, aprendeu (se já não soubesse) a morder a
extremidade do lápis, a deixá-la esbranquiçada e úmida. Muito trabalho
equivalido ao descanso na Pensão de Dona Loló, agradável recinto, onde se
cruzavam várias garotas (acabou casando-se com a Josefa Cozinheira, todavia
isso não interessa aqui). Descanso e amor. Mas voltemos à árvore.
O
que encontrou? Dos ancestrais nada, por enquanto; sobre Liberiano alguma
coisinha. O Senador era fazendeiro muito respeitado, bom, prestigioso e
religioso. Também acusado de ladrão de gado pelos inimigos políticos da pouca
gente ligada ao PS (Partido do Sim); o mais era governista e se filiava politicamente
ao PSS (Partido do Sim, Senhor) o do Coronel. O resto dos parentes da mesma geração
do Senador, sucumbira de tuberculose peste bicheira desarranjo intestinal e
faca. O Coronel ficara só no mundo; o punhal, sobretudo o punhal, havia
eliminado os Prates e os Silva, os Prates Silva, e de gorjeta os Pinheiros
ligados aos Prates. Somente o Coronel. Não deixaram um nomezinho sequer honroso
como dote. Nem deste tamanhinho. E como as águas estivessem quentes ainda, a fogueira
alimentada pelos politicoides do PS, então Vitorino resolveu ficar na única
certeza: o Coronel. Contudo deu trabalhão; consumiu cadernos e mais cadernos –
dois meses de cadernos!
As Pegadas de Saknussemm
Mais
para diante encontrou alguma coisa e pôs na mala. Tornou à papelama. Voltou-se
para os dados que achou, analisando as gerações anteriores do homem. E
encontrou muitas. Vitorino achava ter muitas. Trabalhava denodadamente, um Professor
Lidenbroock nas pegadas dos Prates Silva, espécie de Saknussemm
de faca na cintura, ludibriando a Vitorino no caminho ao Centro da Terra. É
pena ao coitado. É pena também Júlio Verne não estar à disposição para
escrever esta narrativa! Outra vez queira desculpar-me. Que fazer? Voltemos aos
ancestrais do Senador Liberiano.
Encontrou
e anotou uma chuva de joôes-ninguém, enxurrada, inundação. Todos se igualavam
em dois aspectos: na covardia e na valentia (que é também uma versão do medo).
E os achou com todos os nomes. Registrou um por um. Mas não ficava bem; porque
quase sempre analfabetos e ignorantes. Por isso a maior parte da documentação
foi encontrada nas igrejas – instituição muito voltada para o registro do povão;
mesmo porque todos eram batizados, embora não pagassem impostos e não
estivessem nas relações fazendárias. Nunhum grande literato ou pintor arquiteto
ou doutor. De outro lado, registrou nomes famosos, que fizeram o trajeto de
vida tendo parada e descanso na polícia. Anotou, para mostrar serviço ao
patrão, aspectos de sua família, de geração a geração: concubinatos,
taradismos; comerciantes espúrios, gigolôs – a miséria moral de uns trezentos
anos. E trezentos não são brincadeira! Lidenbroock estava cansado.
Alguns desses belos exemplares pulavam de miseráveis joôes-ninguém a heróis na
sociedade; nenhum tinha deixado nome na História. Ciência mão-fechada essa tal
de História! Restava a afirmação dos antropólogos: o índio é bom.
Lá
se foram seis meses de caderno! Qualquer dia o Coronel vinha cobrar serviço
dele; ou talvez mesmo houvesse se esquecido de Vitorino... Restava o indígena.
O Bom Índio à Casa Torna
De
chofre, quase de chofre, estava nosso Lidenbroock perdido no século XVI
procurando um famoso Prates qualquer. Nem que fosse para demonstrar trabalho
intelectual.
Daí
encontrou o nativo nu pescando na lagoa, caçando onça e piolho, ou sendo caçado
por ambos. Sem precisar de nome. Sem história. Vitorino não andava versado em
Pré-História. Foi preciso inventar. E ele inventou.
Dessa
forma é que apresentou ao Senador Coronel Liberiano Praxedes de Prates Silva,
maçudos cadernos de anotações, e um último a limpo, contando ao grande político
quem ele era, embora já soubesse ser enorme. Conseguiu descobrir estar
aparentado o Coronel Liberiano ao grande Ararigbóia, índio corajoso; daí seus traços mongoloides. Ainda
soube o homem ligar-se aos maiorais da História dos Homens Brancos – a todos
com o apelido Silva ou Prates; e os sem Prates nem Silva: de D.Manoel Venturoso
ao Último Presidente Desventuroso... quase todos sem Prates e sem Silva, no
entanto parentes de longe por parte de Adão e Eva.
Assim,
o Coronel não estava sequer mentindo na sessão do Clube das Vacas, para
encontro do novorriquismo na capital – ao apresentar suas conquistas genealógicas,
já que todos somos irmãos. É natural não ter mencionado seus parentes tarados,
comerciantes espúrios e gigolôs, sendo eles valentões ou moleirões – mas
acontece que ninguém perguntou deles; e quem não pergunta na hora, que se cale
para todo o sempre. Amém.
São Paulo março
1978
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