domingo, 28 de julho de 2019

Arvore Genealógica


Árvore Genealógica

Quem é que não conhece o Coronel Liberiano! Senador eleito por sua região e tudo o mais. Dinheiro, muito dinheiro, elemento básico na distinção de nossa sociedade. Pois bem. O que nos interessa neste momento é saber por que o homenzarrão determinou aquele inquérito em sua própria vida, como se a desconhecesse, necessitando esclarecimento.
As más línguas – quem é que se livra delas? existem em todos os lugares – elas disseram que o Senador Liberiano Praxedes de Prates Silva, nada tendo de Prates, mas que sobrava muito Silva... Intrigas decerto. Porém seria essa a causa de tanta mixórdia em cartórios, nas prefeituras, nas igrejas; fazendo o homem usar e fazer valer seus direitos de tribuno? sem esquecer as impunidades das imunidades parlamentares, é claro. Para outros, também línguas viperinas, essa glória do Congresso teria contraído a doença vegetal (ou seja a valorização genealógica) de seus amigos no Parlamento e da alta esfera burguesa, infestada de novos-ricos por todos os lados.
É um caso a pensar.

Descoberta do Escrivão Caminha

Um dia o Senador, já um tanto grisalho e com uma semicalva indecorosa, sentiu-se nobre. Não um fazendeiro nobre; ele muitas vezes fazendeiro. Sem títulos é verdade; nem Comendador nem nada. Porém muito fazendeiro. Com ações na Bolsa, controle sobre certas campanhias; eram tantas. Sem título e nem reconhecimento. Sentiu-se nobre. Talvez depois daqueles convites às reuniões das altas esferas, regadas a uísque cerimonial e tudo. Podia que não lhe dessem um título, porém estava presente um autêntico nobre quatrocentão; ele. Porte, dinheiro, ele. Não podia dizer sequer estar ligado a algum daqueles lindos heróis dos séculos XVI e XVII. No entanto tinha de estar ligado. Convenceu-se ser um galho importante... só a árvore boa produz bons frutos, disse a Bíblia. Portanto... era buscar. Tentou. E não conseguiu nenhuma fácil ligadura nobre. Teve de encontrar alguém que fizesse o serviço para ele; e para o mundo também; ora, para que serve o dinheiro?
Assim contratou um homem. É assim que Caminha entra nesta narrativa.
Chamava-se Vitorino, um bigodinho ralo, dente cariado em exposição e clamando por dentista. Escrivão. Veio pelo “anúncio publicado na ‘Folha’ de ontem”. Ouviu o tró-ló-ló que o patrão devia fazer mesmo, recebeu refeição; foi deixado à vontade, como fazem os coronéis. O salário era atrativo, mais do que a ambição vitorina esperava; muito maior do que sua inteligência comportava. Entretanto – que se credite a ele – o escriba era dócil mas trabalhador.
         

A Busca Desesperada

O mais grave problema numa pesquisa é saber o que procurar. Vitorino consumiu uma semana bem alimentada, na procura do saber o que buscar. Usou até dicionário. Pagou a comida.
Na outra semana descobriu o que descobrir definitivo: os parentes famosos do importante Senador. Até na quinta-feira não encontrara grandes coisas; porém foi anotando anotando. Logo teve de pedir verbas novas para viagens, pois na capital nada constava de meritório à Sua Excelência; mesmo algo registrado em seu nome, de pouca ou sem importância; em não ser lançamentos do fisco, quase nunca abonadores...
Partiu direto para Caramimbó, lá no Sertão imenso. Direto por muitos caminhos direções e conduções. Acabou no lombo de um burrico; e aqui o burrico entrou numa árvore genealógica! No lombo de um jegue; o de cima, por desacostume, teve de permanecer uma semana de pernas abertas incontroláveis, e sem dormir com as dores. Descansou e começou no grande trabalho de pesquisa.
O escrivão Vitorino não era tão desprovido de inteligência como se possa crer, não. Tanto é que levou consigo, entre malas e embrulhos, a tradução do livro “Árvore Genealógica de Don Pedro García y García Lopez Acebeo de Portillos”, figura desconhecida do escrivão, e certamente do leitor. Queira desculpar-me. Isso equivaleu a uma das primeiras investidas, ou seja: saber o que é uma árvore genealógica; para montar a do Coronel Liberiano. Quanto à leitura, foi tarefa de semanas.
Nada mais edificante do que iniciar pelo princípio; Vitorino sabia disso. Começou pelo que supunha ser a primeira geração conhecida dos Prates Silva; de trás para diante, naturalmente. Foi à procura de dados no Município e depois nos distritos arredores. Gastou nesse trabalho três lápis, deixou a borracha de apagar redondinha e minúscula, aprendeu (se já não soubesse) a morder a extremidade do lápis, a deixá-la esbranquiçada e úmida. Muito trabalho equivalido ao descanso na Pensão de Dona Loló, agradável recinto, onde se cruzavam várias garotas (acabou casando-se com a Josefa Cozinheira, todavia isso não interessa aqui). Descanso e amor. Mas voltemos à árvore.
O que encontrou? Dos ancestrais nada, por enquanto; sobre Liberiano alguma coisinha. O Senador era fazendeiro muito respeitado, bom, prestigioso e religioso. Também acusado de ladrão de gado pelos inimigos políticos da pouca gente ligada ao PS (Partido do Sim); o mais era governista e se filiava politicamente ao PSS (Partido do Sim, Senhor) o do Coronel. O resto dos parentes da mesma geração do Senador, sucumbira de tuberculose peste bicheira desarranjo intestinal e faca. O Coronel ficara só no mundo; o punhal, sobretudo o punhal, havia eliminado os Prates e os Silva, os Prates Silva, e de gorjeta os Pinheiros ligados aos Prates. Somente o Coronel. Não deixaram um nomezinho sequer honroso como dote. Nem deste tamanhinho. E como as águas estivessem quentes ainda, a fogueira alimentada pelos politicoides do PS, então Vitorino resolveu ficar na única certeza: o Coronel. Contudo deu trabalhão; consumiu cadernos e mais cadernos – dois meses de cadernos!

As Pegadas de Saknussemm

Mais para diante encontrou alguma coisa e pôs na mala. Tornou à papelama. Voltou-se para os dados que achou, analisando as gerações anteriores do homem. E encontrou muitas. Vitorino achava ter muitas. Trabalhava denodadamente, um Professor Lidenbroock nas pegadas dos Prates Silva, espécie de Saknussemm de faca na cintura, ludibriando a Vitorino no caminho ao Centro da Terra. É pena ao coitado. É pena também Júlio Verne não estar à disposição para escrever esta narrativa! Outra vez queira desculpar-me. Que fazer? Voltemos aos ancestrais do Senador Liberiano.
Encontrou e anotou uma chuva de joôes-ninguém, enxurrada, inundação. Todos se igualavam em dois aspectos: na covardia e na valentia (que é também uma versão do medo). E os achou com todos os nomes. Registrou um por um. Mas não ficava bem; porque quase sempre analfabetos e ignorantes. Por isso a maior parte da documentação foi encontrada nas igrejas – instituição muito voltada para o registro do povão; mesmo porque todos eram batizados, embora não pagassem impostos e não estivessem nas relações fazendárias. Nunhum grande literato ou pintor arquiteto ou doutor. De outro lado, registrou nomes famosos, que fizeram o trajeto de vida tendo parada e descanso na polícia. Anotou, para mostrar serviço ao patrão, aspectos de sua família, de geração a geração: concubinatos, taradismos; comerciantes espúrios, gigolôs – a miséria moral de uns trezentos anos. E trezentos não são brincadeira! Lidenbroock estava cansado. Alguns desses belos exemplares pulavam de miseráveis joôes-ninguém a heróis na sociedade; nenhum tinha deixado nome na História. Ciência mão-fechada essa tal de História! Restava a afirmação dos antropólogos: o índio é bom.
Lá se foram seis meses de caderno! Qualquer dia o Coronel vinha cobrar serviço dele; ou talvez mesmo houvesse se esquecido de Vitorino... Restava o indígena.
         

O Bom Índio à Casa Torna

De chofre, quase de chofre, estava nosso Lidenbroock perdido no século XVI procurando um famoso Prates qualquer. Nem que fosse para demonstrar trabalho intelectual.
Daí encontrou o nativo nu pescando na lagoa, caçando onça e piolho, ou sendo caçado por ambos. Sem precisar de nome. Sem história. Vitorino não andava versado em Pré-História. Foi preciso inventar. E ele inventou.
Dessa forma é que apresentou ao Senador Coronel Liberiano Praxedes de Prates Silva, maçudos cadernos de anotações, e um último a limpo, contando ao grande político quem ele era, embora já soubesse ser enorme. Conseguiu descobrir estar aparentado o Coronel Liberiano ao grande Ararigbóia, índio corajoso; daí seus traços mongoloides. Ainda soube o homem ligar-se aos maiorais da História dos Homens Brancos – a todos com o apelido Silva ou Prates; e os sem Prates nem Silva: de D.Manoel Venturoso ao Último Presidente Desventuroso... quase todos sem Prates e sem Silva, no entanto parentes de longe por parte de Adão e Eva.
Assim, o Coronel não estava sequer mentindo na sessão do Clube das Vacas, para encontro do novorriquismo na capital – ao apresentar suas conquistas genealógicas, já que todos somos irmãos. É natural não ter mencionado seus parentes tarados, comerciantes espúrios e gigolôs, sendo eles valentões ou moleirões – mas acontece que ninguém perguntou deles; e quem não pergunta na hora, que se cale para todo o sempre. Amém.
São Paulo    março  1978


         



           

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