quinta-feira, 11 de julho de 2019

A Família Eleita


A Família Eleita

Introito
É voz corrente possa haver povo escolhido. Segundo os teóricos desse povo o povo é eleito pelos deuses; se tais profetas optarem pelo monoteísmo, a gente privilegiada, em meio ao mundo ignorante e desgraçado, vira nação de guerreiros e o  deus se torna general dos exércitos. É possível seja o caso judeu. Do velho judeu, o novo terá descoberto que um deus para ser Deus precisará ser absolutamente Justo e demonstrar amor para com todos indistintamente, inclusive para com o mundo ignorante e desgraçado do gentio não iniciado. Continuando por este caminho partiremos a um tratado teológico, longe, bem longe, das pretensões do escrevinhador. E tudo isso vem em razão do fato da descoberta ( sim deve ser mérito do rabiscador) da eleição não de um povo, mas de uma família.
Partamos à defesa desta tese.
Naturalmente o proprietário da caneta verde comprada no bazarzinho da esquina e registrando tal eleição conta, não com segurança técnica nem provido de profecias, não: somente com a tecnoprofecia honrosa da fuga literária. Mesmo porque, por que aos poetas devemos permitir as licenças-poéticas! Permitir-se-á também a um prosador, literalmente prosador, que o escrevinhante lembrado é bem prosa; e para ele apenas existe uma tortura válida: perder a língua. Bem, desenliemos este mal a partir do próximo parágrafo. Ponto.
Em tarde muito inspirada de um desocupado (referência ao escrevinhador) o desocupado resolveu trabalhar, não trabalhar propriamente, inclusive a ideia dava-lhe calafrio, trabalhar em cima da ideia da Família Escolhida. Andou olhou parou virou tornou a olhar e descobriu um homenzinho assim, não maior. Estava diante do chefe do clã! e não sabia que fosse o patriarca e ainda desconhecia poder existir uma família daquela. Em geral nós vamos ao longo do tempo tomando consciência das partes, juntamos mais para diante as parcelas conhecidas (é claro apenas o que supomos conhecer para posteriormente descobrirmos não saber quase nada) juntamo-las e nos surpreendemos dominar o todo! Oh quanta capacidade em observação. Às vezes o todo nos vem ao conhecimento completo e total (isto é inadequado, não existe ideia total de algo) quando não mais existe, quer dizer, nem o total ou nós, ou o total das parcelas e nós integralmente. Ah chega de embananar filosofias; deve ser culpa da caneta verde, verde pode ser belo mas falso. O homem...
O homem convidou, após conversa vai conversa vem, convidou o escrevinhador atarefado a procurarem casa para alugar: ambos viviam solitários no quarto de hotel em cidade bela mas pequena distante da região de seus respectivos domicílios. Bem entendido, um era do Norte do Estado outro do Oeste; além do mais trabalhavam os dois personagens na Educação. A propósito, um era bem mal educado e rebelde e ateu ainda por cima (melhor dizer por baixo). Fica chato falar ser o referido ‘um’ o escrevinhador mui atarefado; todavia que faremos da verdade, atiramo-la à rua da amargura? O patriarcazinho não, chegava a ser místico. Místico, sofredor, pobre, e funcionário público, o que na opinião dos próprios funcionários é um desastre sem tamanho. O mequetrefe da caneta verde no entanto... péra-lá, deixemos o besta do rabiscador: estamos aqui empenhados em saber do Patriarca da Família Eleita, não mais.
Encontrado seu homem o homem baixinho resolveu convencê-lo a alugar residência; e conseguiu convencer e alugar. Por sorte, creia-se ou não na sorte lotérica, sobraram em sorte: acharam uma em boas condições, mobilada, o que não é comum no interior, na capital... deixemos a capital. Naturalmente contaram com ajuda da Turca. A Turca era bela. Eles não a viram, viram o retrato dela rindo na parede da sala. De quem? ora, do esposo. Este montara em sociedade uma fábrica de móveis, o sócio pensou que a bela senhora estivesse arrolada entre os bens da sociedade. Quando o marido descobriu eles haviam partido com amor e dinheiro por conta da fábrica. Amargurado largou a moradia e fugiu por sua vez sozinho, deixando a propriedade e os outros bens aos pais para tomarem conta, até que o advogado o juiz o credor e o governotodos famintos como é sabido – se apossassem de tudo. Enquanto, foi lar doce lar de patriarcas e escritores. Essa a breve história do achado para aqueles perdidos solitários.


Cap.I – Achemos Agora a Família

Achemo-la, isso é o que interessa. O Patriarca vivia se comunicando com sua Família; gastava fortunas telefônicas. Ao tempo não existiam fichas nem cartões, a telefonista inclusive enrubescia quando ele vinha, de tanto vir, ele o chefinho a entrar na loja e depois na cabina para ligar aos seus. Posteriormente comentava em casa da Turca com o companheiro, havendo chegado da ligação ainda agoniante pelos dramas ouvidos. O amigo ajuntou partes e concluiu por um grande sofrimento de seu companheiro. Profundo sofrer pela gente dele no Norte. A mulher, essa, dizia, era descontrolada. Imagine, falava, quando visito meu pessoal quer que bata no filho do meio, o mais velho do meio, tinha o mais novo do meio. Chamemo-lo Zico, realmente era João mas como meninão era Joãozico, entenda-se. Zico portanto é mentira, provando que a mentira é verdade. Ele bebia brigava chutava a porta; na ocasião apenas fugia da escola e gastava muito do pouco dinheiro do pai, grave aos assalariados. Bater nele, corrigi-lo. Porrete, quando o genitor vinha para casa com saudade da filharada! A matriarca, Dona Zizi, gritava pelo mais-novo-do-meio e ele não vinha; então jogava o esposo contra o filho mais-novo-do-meio, o , nome mais curto para um problema mais longo. O chegava, discutiam pai e filho, este ligeiramente bebum. Depois, madrugadão xingava o genitor, a mãe tinha xingado quinzena inteira, agora era a vez do pai. Após os impropérios desfeiteava as manas, subia o pavimento de cima do sobradinho, tomava o rádio (mais tarde compraram televisão) atirava o aparelho de cima buf! aqui em baixo, derrubava o guarda-roupa, depois batia a porta e ia dormir porque ninguém é de ferro. Os pais ficavam em lástima na sala. O mais velho não fazia isso, o primogênito era apenas louco. Louco pacífico. Tão só comia demais tinha insônia demais e fumava demais, por uns quatro maços por noite havendo para ele noite, noite e dia trancado no quarto e queimando a roupa de cama com bitucas acesas. Enfim, um lindo inferno. Todavia as garotas eram boas. A mais velha, exceto o psiquiatra os psicotrópicos e olhares de zumbi, era normal. O que é mesmo normal! nos esquecemos ou não somos bons em definições. E tinha a menina pequena de dois aninhos, caçula da família; “vô Polanga!” falava gritado, queria sempre ir com papai no retorno ao trabalho lonjão. Voltava sim, arrasado, a choramingar a desabafar junto do amigo... ah, comprometamo-nos não falar mais no escrevinhador.


Cap.II – Um Sonho na Casa da Turca

Parecia um sonho. Era ao menos uma realidade dopada. Exato. Boa imagem. A gente até começa a pender pro lado do escrevinhador, por usar expressões tão poéticas. Contudo é provável que ele tivesse sonhos, pois dormia como pedra. E pior nesse pior: roncava. Deixemos os roncos incomodando a casa da Turca inteirinha, voltemos ao Patriarca. É o que interessa nestes escritos, não foi assim que combinamos? Ficavam os dois em intermináveis conversas, varando a noite, noite de trabalho intenso para os músicos.
De fato havia sons intermináveis, como a conversa dos homens, sons de violino. Daí surge uma questãozinha: tocariam cordas os dois sujeitos? não, os pernilongos tocavam sem parar. Esclareçamos, não deve ser bem assim: um toca, cansa; outro ‘inha’ o instrumento e cansa; então outro pernilongo retoma o  arco e cansa, vem outrinho e outro mais, um enxame gritando nos ouvidos! Tem aqui dois senões: será que reunião de pernilongo é enxame? e ‘inha’ existe? Procurar no Aurélio. O do escrevinhador (ói ele travêis!) anda ensebado, com orelhinhas nas pontas das páginas, é um gastar ponta de língua a umidecer dedo para desgrudar as folhas, ah que horror; e ainda por baixo (por cima seria expressão absurda) faltando folhas inteiras sobretudo na letra ‘M’ que se usa mais (será que todo mundo usa mais essa!) Mais muito mais dor de cabeça na pesquisa. Assim acabaria o sono e por conseguinte o sonho, o sonho na casa da Turca, muito bela como foi dito. Curioso, Dito era o mano Benedito do Patriarca, ele gastou orelhas do amigo tanto falar no “meu mano” dele, ah por sinal um sujeitinho petitico também e briguento pra valer. E afinal terá ‘inha’; é o som que a praga dos pernilongos faziam com seus violinos, fosse viola e melhor violoncelo, grosso, irritava menos. Noite toda: conversa de amigos e recital dos inimigos dos amigos. Aqui é apropriado falar em “durma-se com um barulho desses”; aliás não era bem dormir, o amigo escrevinhador quase dormia ouvindo, o amigo-Patriarca é quem falava sem parar! Ah que motorzinho potente possuía o chefe daquela família maluca, que motor. Depois muitas horas após sua conferência aos ouvidos-escrevinhadores ia deitar-se, dormir não, ficava deitado a ouvir os roncos do outro quarto; se levantava, acendia a luz, acendia o cigarro, tomava um pano e o atirava nas paredes e teto a matar pernilongos, mesmo porque alguém precisa levar as culpas desta vida. Mas, curioso, nunca nunquinha tentou emudecer os roncos do colega de infortúnio com o pano mata-mosca, nunca, verdade seja dita. Existia barulhando ainda a casa da Turca (será que foi dito ser bela? fujona e safada se falou, e bela! pelo sim pelo não: era bela, tinha uns lábios sensuais, cabelos negros e curtos, olhos buliçosos como a dizervocê não sabe de nada...” essa a Turca. Que a Turca estará fazendo em meio  a sons fininhos e agudos de violino e grave de serrote roncador! Pôxa, chega de barulho, tornemos ao outro barulho:) sim existia barulhando a casa outro gerador de torturas: o radinho de pilhas japonês ele, brasileiras as pilhas, brasileiras fabricadas com matéria prima nacional por trabalhadores nacionais e lucro certo norte-americano. De um lado o ronco do amigo, doutro o rádio do amigo do amigo e – com direitos democráticos à toda casa e os dois companheiros embora cada qual em seu quarto – os pernilongos de longas pernas e trombinhas e mais longos sons. Enfim um concerto sem conserto para agrado das multidões.
No entanto o dia melhorava o ambiente naquele ambiente, a Casa da Turca. A propósito, como é que poderia se chamar a mulher turca? nunca souberam; poderiam indagar ao sogro dela, nessa altura deveria ter outro sogro; não indagaram. Não obstante ficavam gozando a malandra personagem na foto da parede. O Patriarca encontrou no banheiro um frasco com líquido para higiene íntima feminina. Desde o achado puseram o nome no fluido de ‘Vaginite' e ele passou a enriquecer as piadas dos dois rapazes. Ah que boca! Parece que homem é um bicho sem-vergonha mesmo, como aprecia falar besteira. Noutra encarnação melhor nascer mulher, ser a besteira... Todavia como estávamos iniciando o parágrafo, ao dia a coisa melhorava bem. Os pernilongos iam dormir preparando-se para chupar os dois à noite. e eles iam remexer o quintal da casa. (Péra-lá, e não trabalhavam? como é que vinha o pão de cada dia! E isso é interrupção que se faça em pleno capítulo de Sonho na Casa da Turca... voltemos ao quintal:) No quintal tinha abacateiro, tinha jaboticabeira, tinha laranjeira e até horta para benefício geral dos inquilinos e, para malefício também com direito geral, tinha uma fossa semiaberta fedorando o ar de todos. Eles subiam nas árvores feito moleques, apanhando frutas e inventando causos. Porém havia um porém: o abacateiro começava no limiar da fossa. O amigo baixinho seja fugindo de sua realidade na família seja por ser muito inventivo mesmo, inventava uma estória cuja conclusão era o despencar na estimada fossa! e pior, a consequência – via seu nome publicado no jornal da vilaprofessor do Estado afunda no cocô!” Caíam na gargalhada. Outros momentos interessantes vividos era o fato de que o Patriarca possuía memória espantosa, declamava poemas da literatura brasileira e da portuguesa. Falava sem parar nos clássicos. O restante do tempo dos amigos ficava gasto em fazer contas das contas atrasadas e falar mal do governo, atividade de extraordinária importância ao lazer do cidadão brasileiro, todo mundo sabe disso. Entremeavam esse lazer em todas horas, como na hora do leite de granja preparado pela senhoria aos inquilinos, ou no fazer a sopa emplastrando o fogão deixado novinho pela Turca. Falaram as más-línguas, quando a dupla se mudou dali, ter sido necessário tirar a acumulada sujeira com espátula! Pobrezinhos deles, homem, dizem as intrigantes fêmeas dos homens, homem é porcalhão. Quanta mentira. Era verdade. Outra seria a de que os sujeitos dependuravam excessiva quantidade de cuecas e peças masculinas no fio de varal, mal lavadas sem corar e não suficientemente esticadas. Era outra mentira verdadeira. Enfim, tape-se, se se puder, as bocas das línguas viperinas...
Dessa forma deixaram o lar daquela Turca bela que suscitara meses de sonhos e estórias. Cada um para seu lado. Até novo encontro.


Cap. III – Bem Entendido, Não no Hospício

Poderíamos dizer que foi demorado o tempo até esse encontro. Não podemos falar assim por causa do tempo. Mau tempo, bom tempo? Em geral o homem distorcidamente essa questão e não medita, não tem medida para ela; frequente vezes toma a consequência pela causa, diz que calor, precisa chover para esfriar, mas não sabe que é a onda fria que provoca em choque com a massa quente a chuva e não esta que redunda no esfriamento. Além do mais fala “tá frioou “tá calor” julgando que todos estejam com frio  ou sentindo calor; deveria dizer: “estou sim com frio”. Pois o ser é o ser do mundo, o centro do Planeta, do Universo. Era com estas ideias que o escrevinhador – mil e uma vezes impedido em tomar espaço do Patriarca, porém está aqui, enxeridoesse dito escrevinhador reencontrou o amigo da Casa da Turca.
Foi um encontro casual. Não casual, casual não existe. Coloquemos as coincidências fora; valeria até arrancar a folha do dicionário conhecido por Aurelião em que se encontra a palavra, caso não fôra ainda perdida como ajuizamos noutro capítulo; e além do mais não está em ‘M’ o vocábulo porém na letra ‘C’; caso em que, positivo, ocorreria o negativo, pois tiraríamos a folha da coincidência, nadinha por coincidência, prejudicaríamos outras palavras ali escritas, precisaríamos tomar emprestado  um dicionário do vizinho não sabendo sequer ele tivesse pai-de-burrros essa gente é ignorante e nãovalor à cultura; ainda mais nesse menos nos colocarmos contra empréstimos: de sabão arroz farinha mulher feijão máquina de escrever disco dicionário, sim o Aurélio, melhor ficar sem a folha da coincidência e consultar o livro completo na Biblioteca Municipal que é pública porque o... ah leitor você tem razão: e o Patriarca? Estamos em pleno reencontro de amigos. Não por pura coincidência.
Como vai amigo! deve ter sido assim, com trocas de abraços (juras de amor não cabem). Antes ocorreu encontrar um amigo ao outro graças ao correio, instituição de grande prestígio nacional na época; um escreveu ao outro amigo por estar se transferindo ao Norte, mais precisamente para a velha e sólida cidade do Patriarca. Este respondeu com belíssimo atraso ao colega, a tal ponto que o primeiro foi indagar do segundo se não iria responder-lhe a missiva, desnecessário então em vista de se encontrarem abraçados, sem juras de amor. Não importa; importa haverem ficado felizes pelo reencontro após anos. Neste ponto pedimos vênia (assim falam os causídicos?) ao leitor, a fim de contar breve história do escrevinhador para entender melhor esse reencontro. Prometendo ser a última baixaria cometida por estas linhas, trazendo esse personagem atrapalhado. Última, estamos entendidos?
O amigo do nosso querido Patriarca, vindo do Velho Oeste, leia-se Estado, dessolteirizou-se, arranjou uma doidinha (o que prova ser verdade que mulher não casa com sapo porque não sabe qual o macho, dizem por ) arranjou um casal de filhos com ela, sendo opinião dos pais as criaturas mais lindas e inteligentes do milênio; e mudou-se para a velha e bela cidade do Patriarca e sua Família. assentados os novos moradores, o amigo escrevinhador  (que estamos despedindo a pedido do leitor, mas sabendo o que dito leitor sentirá remorso e talvez saudade com certeza do pobre animal!) esse escrevinhador foi então visitar o amigo residente Patriarca e sua Loucafamília. O que foi assaz interessante. Melhor seria deveras? fica então deveras.
Ah que saudade, disseram. As apresentações. Em verdade se deve pôr reapresentação, a gente costuma se esquecer no dia imediato as apresentações, quando estamos revendo alguém, formalizado o muito prazer, nos lembramos haver visto o freguês antanho. Foi o caso. Sim, disseram, nos conhecíamos. Contudo falou o visitante: como a Zoilinha cresceu, virou Zoila e olha companheiro: cuidado com os gaviões, pois é uma linda jovem. Era. que o sujeito desconhecia o conselho de um dos deuses gregos no trato com mulheresnunca elogiar uma perto doutra, nunca. E a Regina estava pertinho, ele se esqueceu de elogiar-lhe os olhos e as mãos, únicos predicados da mais velha. Assim comprou uma briga, ao menos uma aversão da moça contra si. Nas apresentações, a da senhora Dona Zizi foi tudo bem, a gente conquista a mãe pela graça da caçula, fato consumado. Porém como Dona Zizi não estava com boa aparência, mentiu. Ela sorriu suas banhas embora não se esquecesse de  infringir ao amigo do esposo uma coleção quase completa de suas doenças (nunca sendo completa, neste ponto o ser humano se supera a cada ano de vida...) provocando compunção no infeliz que precisou lamentá-las, deixando a senhora feliz na sua total tristeza. Gente. Gente é isso. Agora, com os rapazes, os três garotões do Patriarca, este assinando Souza não se sabe por parte de mãe se de pai, com os rapazes foi diferente o cerimonial. Não iríamos, dadas as características deles, imaginar apertos de mãos e salamaleques mais. Não. Foi até fácil: não houve coisa alguma; ninguém veio cumprimentar o amigo do pai. O mais velho, o Biro, não saía do quarto vinte e quatro horas em não ser para ir ao banheiro, não a tomar banho é óbvio. Não tomava nem se deixava lavar! Então por que se diz banheiro! banheiro deveria existir para banho e não é assim em casa pobre e remediada; e quanto às ricas, oh não avancemos no desconhecido. O Biro fazia o quefazer e voltava à cela, mal cheirosa cela fedendo a cigarro e coisas mais; às vezes fazendo nela mesmo, pra que ir ao banheiro! Daí deduzimos não ter ido abraçar o escrevinhador, o qual, constrangido a esta altura da narrativa estando expulsinho da silva destas maltraçadas linhas. Não. Agora, os outros dois do meio, João e , não puderam comparecer ao encontro social do amigo paterno: estavam escondidos. Havia um como acordo não firmado em que se firmavam: quando tem gente de fora, sempre um perigo à vista, quando tem gente, a gente se esconde e pronto. O do meio mais velho, o João, se escondia de preferência no quintal sendo boa oportunidade a fugir de casa: fumar pensar xingar baixinho. o ficou estirado no  sofá da saleta de tevê, haviam adquirido esse instrumento formador-deformador do pensamento globalizante para a Família. Por isso não apareceu apertar mãos. Sempre foi essa a atitude dos filhos machos do Patriarca perante visitas. O mais comum entretanto era a bebedeira; ou por outra, o curtir o álcool, pois visita costuma vir de dia ou início de noite, horário impróprio aos rapazes; porque as carraspanas ocorriam geralmente à noite. As madrugadas do Patriarca, ele mesmo dizia ao amigo íntimo, agora ali tão próximo, as madrugadas eram terríveis: era tirar os filhos da delegacia policial, era tentar evitar o delegado, era procurar não provocar escândalo à vizinhança, era interceder junto às filhas e esposa para que não sofressem além do suportável. Enfim um drama completo vivido pelo infeliz pai, o amigo do escrevinhador.
Contudo essa apenas amostra dum reencontro. Melhor saber mais das relações de ambos amigos nos anos que viriam. E vieram mesmo.


Cap. IV – Anos Doirados

Por que razão não se uniformiza a ortografia? ouro oiro, toicinho toucinho. Todo mundo deveria escrever dourado; e pronto. Oh quando o escrevinhador (olha ele de novo!) quando for rei, Rei, acaba com a mixórdia. Enquanto não, não percamos tempo – vejamos os amiguinhos. Aliás ‘amiguinhos’ é bem posto: se o patriarca era miudinho, o escrevinhador ( enxerido) era ele ainda mais; melhor: menos. Em estatura em cultura em moral e até em idade, porque ficava atrás do amigo quatorze anos. Então falemos amiguinhos, sem diminuir a verdade. Em verdade esta é absoluta: nunca pode ser aumentada nunca diminuída sem deixar de ser verdade. Esta é uma verdade.
Uma verdade dourada? Até que sim. Os amigos se visitaram muitas vezes... não, se visitaram não, o amigo visitante agora também morador visitava amiúde o outro; o Patriarca era uma espécie nada em extinção de sujeito que não sai de casa saindo apenas na sua aposentadoria para fazer compras e pagar dívidas de casa; enquanto o ex-visitante é quem escapava da ativa no trabalho em escapulidas para conversar com seu dileto companheiro. Essa a verdade.
No entanto isto também foi verdadeiro: travaram uma amizade linda de se ver, como irmãos. Dourada como se falou. Agora como irmãos é um tanto abusivo porque os irmãos de sangue às vezes chegam ao sangue no brigar, sobretudo na infância. Eles não, eram laços amigos. Com o tempo, as contínuas conversas, se entenderam bem. O escrevinhador (vamos nomeá-lo amigo-B para não ficar dando-lhe pontapé no traseiro toda hora, pois dá a impressão não sair da nossa cacunda, vira amigo-B) ele começou a ter certas necessidades interessantes, procurando o Patriarca (chamá-lo-emos amigo-A em oposição, sem ser qualquer oposição ao amigo-B) procurando portanto o amigo para esclarecê-lo. Esclareçamos primeiro. ‘B’ era ateu, como foi traçado noutro capítulo; onde morava sofreu um acidente de trânsito e pegou férias longas no hospital e depois encaixotado em gesso. Então passou a pesar seu pesar e a pensar: como não existir uma Força maior que a insignificância humana! poderia o homem produzir tudo da grandiosidade da parte do Universo entendido por essa insignificância que é o homem!? Pode a parte insignificante produzir – e explicar ainda por cima – o todo, quer dizer, o Grandioso? Estava nessas questões fundindo o cérebro quando se transferiu para o Norte, a morar no mesmo local de ‘A’, como foi mencionado. Agora em intermináveis bate-papos ‘B’ foi convidado por ‘A’ a visitar uma amiga em casa de quem se fazia experiências espiritistas. Curioso, foi. Embora rebelde e desconfiado, viu examinou pesou mediu concluiu pela possibilidade; ao menos  abriu-se ao estudo do assunto. Começou para ‘B’ um novo mundo. Tomou livros emprestado, adquiriu outros e fundamentou tudinho num trabalho sólido. Sempre com ajuda do amigo A. Formaram uma equipe para angariar pão-velho junto às padarias, naquele tempo padaria agora é panificadora o vocábulo mais usado; daí levando numa Kombi de uma instituição o produto a ser distribuído aos miseráveis por outras equipes de assistência. Meses anos. Foi a base do reforço da bela amizade A-e-B. Durante a viagem, pois era uma verdadeira viagem o trabalho de captação do pão amanhecido, reforçaram seus laços e definiu-se a amizade, do tipo eterno, como os humanos entendem. Envelheceram juntos, vivenciaram mutuamente seus dramas; e retomaram suas conversas intermináveis de antanho, mudando tão só o ambiente, passando da Casa da Turca para o veículo de apanhar pão. Dentro dele falavam, brincavam, gozavam como meninos que se estimam. Irmãos.


Cap.V – Os Irmãos se Separam

Não se fala aqui em briga nem ao menos em desentendimento. A primeira coisa a pensar, nestes tempos poluídos, quando separação, é a briga. De jeito nenhum. Impossível amigos verdadeiros brigarem; e mesmo se separarem: nãolugar no Planeta onde se esconder de uma amizade sincera. Ocorreu simplesmente que ‘B’ se mudou do Norte, numa parecença assim com cigano, tão mudancista era o sujeito; porém aqui daremos aquiescência a ele: sua companheira fugiu-lhe, fugiu ele do ambiente que lembrava sua desdita. E voltou para o Oeste original. Não restava outra alternativaseparação dos amigos. Física. Continuaram as relações. Até que um dia, a gente costuma usar a expressãobelo dia’ o que nem sempre convém, um dia voltou. Um dia voltou à terra de ‘A’ a tratar suas coisas, coisas que não nos compete remexer; então reviu o íntimo.
Foi num domingo, dia de preguiça. Não, a preguiça ocorre ser inventada para a segunda, domingo é dia de missa. Todavia ‘A’ não fora à missa, não era católico, o que subentendemos nas práticas de assistencialismo espírita. Nem ‘B’, analisamos a questão também. Assim mesmo não o encontrou no lar. O Sr.’A’? foi às compras, comprar misturinha, falou a empregada. Não tinha importância, sabia o amigo almoçar tarde, mais tarde que ele. Esperou andando ao deus-dará e voltou para se reverem. Foi uma alegria enorme, fazia anos  uns cinco ou mais não se abraçavam. Daí uma descontração própria de tais pessoas, um recontar mazelas sabidas, algumas agravadas senão todas. Repuseram seus ais, suas alegrias. Relembraram com saudades o trabalho do pão, riram suspiraram. Você se lembra, diz ‘A’, como voltávamos meia noite cansados, brancos do da farinha! eu chegando em casa e ainda precisava sair com o meu filho, ele me aguardava para iniciar seus passeios, ia pra ia para , bêbado, não se cansava, enquanto o pai estava literalmente estafado! não ‘B’, como eu sofria! Sabia sim, conhecia os dramas. Continuava ‘A’: e o João, outro dia atirou o aparelho de tevê do andar de cima a espatifar-se aqui na sala. É isso, vexame. viu coisa pior? O amigo B respondendo a monossilabar, nunca conseguia mais que isso, ‘A’ falava pelos dois qual disco, um disco gasto e nervoso, sem parar; B entendia sua função de bom-ouvido, cabível aos confidentes, e sofria o sofrer do amigo. ‘A’ prosseguia, não fora interrompido: quinta-feira foi um deus nos acuda, eu e a Zizi aguentamos a bebedeira dos dois, o então chegou meia-noite trançando pernas e se esborrachou em nossa cama de atravessado! pudemos nos deitar quando se  curou às cinco horas da manhã! é assim nossa cruz. Tadinho, pensou B, mas que fazer? Procurou tirar ‘A’ da lama indagando sobre o netinho. O amigo sorriu aliviado, ah o neto... contou as gracinhas do presente ofertado aos velhos pais pela filha Zoila. Daí chegou Zizi a cumprimentar a visita. Ele se assustou com a senhora, conhecera-a baixa e gorda, balofa até; agora tinha diante de si uma velhota encarquilhada pequena em pele e ossos! O esposo explicou o sofrer da companheira e rematou: pesava noventa quilos, está com quarenta! O amigo B procurou algo a amenizar a embaraçante situação. Foi salvo por um pedinte da rua. O amigo foi atendê-lo, não tinha nada no bolso a ofertar; no fim do mês sempre sem tostão... Pensou B, meu pobre amigo não mudou em suas finanças desde nosso viver na Casa da Turca. Mais uma conversinha a despertar mal-estares. Aproveitou a indagar sobre o primeiro neto do casal, deveria estar grande, conhecera apenas um adolescente. ‘A’ respondeu ter se casado e emigrado para a Áustria, viera ver o pai dele, o João, este sequer apareceu na sala rever o filho! o pobre – abandonado pelo pai antes e depois pela mãe, a infeliz esposa de João – se foi para o estrangeiro. Felizmente havia o garotinho de Zoila. E destampou sua comporta a falar as graças da criança. Nessa altura B sentia algo desagradável dentro de si. Levantou-se. Pegou sua Olympus: uma foto de ‘A’ para B estragar com sua arte...

         
Cap.VI – Volta à Volta: Ruminações

O coletivo se deslocava depressa: sem pressa de chegar por não ver o caminho, o pensamento de B, antigo escrevinhador tão enxerido quanto expulso por leitores em virtude suas medidas passando das medidas, ‘B’ voava veloz no seu mundo de dentro. Indiferente às plantações de cana e à imensidão de  canaviais que desfilavam apressadíssimos na vitrine da janela do seu ônibusele ouvia sem ouvir sem ver, assustado com o turbilhão do sofrer alheio, alheio ele à possível sofrência dos passageiros ali lado a lado de si. Como, se perguntava, pode um sujeito estar tão sujeito a uma família como a do amigo ‘A’, o Patriarca! Não tinha resposta. Horas de indagações, horas ali no comboio revendo o cineminha de uma grande amizade; diante sua pequenez, impressionada por não poder contribuir para o amigo sair dessa crise constante... Era uma  pequena eternidade em sofrimento, o qual sempre atinge a nós mesmos quando atinge amigos. Sentiu-se incapaz e insignificante. lembrou-se da Eleição. Havia proposto a possibilidade da escolha pela divindade não dum povo mas do povo de uma família. A Família do amigo A, ‘A’ era o emérito Patriarca de seu clãzinho. Porque, falou bem alto B para sua combalida consciência, porque a Família pode ter sido escolhida por um deus mau, portanto não-Deus, para depuração através da sofrência e pelas sofrências encadeadas e sem fim (ocorreu-lhe não existir o sem fim) – especialmente a ferir o chefe, no episódio: ‘A’. Estaríamos diante do caso de uma Legião de ‘demônios’ obsedando os membros familiais, mais precisamente a atingir ‘A’!? Andava nesse fervilhar quando gritaram o nome de ‘B’, queriam saber se trouxera solução a seus próprios dramas. Entrava a condução na acanhada rodoviária de sua cidade, cada um de seus problemas pretendia ser o maior e o mais importante. Porque todos sabemos o quanto os problemas são vaidosos. Quase deu um chute na mala, pra de pesada. No entanto seria o tipo da atitude idiota. Não seria?
Marília   setembro  2001
         
         
         

         



           

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