A Família Eleita
Introito
É
voz corrente
possa haver povo
escolhido. Segundo os teóricos desse povo
o povo é eleito pelos
deuses ; se tais
profetas optarem pelo
monoteísmo , a gente
privilegiada, em meio
ao mundo ignorante
e desgraçado , vira
nação de guerreiros
e o deus
se torna general dos exércitos. É possível seja o caso
judeu . Do velho
judeu , o novo
terá descoberto que
um deus
para ser Deus precisará ser absolutamente Justo
e demonstrar amor
para com todos indistintamente ,
inclusive para com o mundo ignorante e desgraçado
do gentio não
iniciado . Continuando por este caminho partiremos a um
tratado teológico ,
longe , bem longe , das pretensões
do escrevinhador. E tudo isso vem em razão do fato
da descoberta (aí sim
deve ser mérito
do rabiscador) da eleição não de um povo , mas de
uma família .
Partamos
à defesa desta tese .
O
homem convidou, após
conversa vai conversa
vem, convidou o escrevinhador atarefado a procurarem casa
para alugar : ambos viviam solitários
no quarto de hotel em cidade bela mas pequena distante da região
de seus respectivos
domicílios . Bem
entendido , um
era do Norte
do Estado outro
do Oeste ; além
do mais trabalhavam os dois
personagens na Educação .
A propósito , um
era bem mal educado e rebelde
e ateu ainda
por cima (melhor
dizer por baixo ). Fica chato
falar ser o referido ‘um ’ o escrevinhador mui
atarefado; todavia que
faremos da verdade , atiramo-la à rua da amargura? O patriarcazinho não ,
chegava a ser místico. Místico, sofredor, pobre ,
e funcionário público, o que na opinião dos próprios
funcionários é um
desastre sem
tamanho . O mequetrefe
da caneta verde
no entanto ... péra-lá, deixemos o besta do rabiscador: estamos aqui
empenhados em saber
do Patriarca da Família
Eleita, não mais .
Encontrado
seu homem
o homem baixinho resolveu convencê-lo a alugar residência ; e
conseguiu convencer e alugar .
Por sorte ,
creia-se ou não
na sorte lotérica ,
sobraram em sorte :
acharam uma em boas condições ,
já mobilada, o que
não é comum
no interior , na capital ...
deixemos a capital . Naturalmente
contaram com ajuda
da Turca. A Turca era bela . Eles não a viram, viram o retrato
dela rindo na parede da sala . De quem ? ora , do esposo . Este montara em
sociedade uma fábrica
de móveis , o sócio
pensou que a bela
senhora estivesse arrolada entre
os bens da sociedade .
Quando o marido
descobriu eles haviam partido com amor e dinheiro por conta da fábrica . Amargurado largou a moradia
e fugiu por sua
vez sozinho ,
deixando a propriedade e os outros bens aos
pais para
tomarem conta , até
que o advogado
o juiz o credor
e o governo – todos
famintos como
é sabido – se apossassem de tudo . Enquanto ,
foi lar doce lar de patriarcas e
escritores. Essa a breve história do achado para aqueles perdidos solitários.
Cap.I
– Achemos Agora a Família
Achemo-la,
isso é o que interessa. O Patriarca vivia se comunicando com sua Família;
gastava fortunas telefônicas. Ao tempo não existiam fichas nem cartões , a telefonista
inclusive enrubescia quando
ele vinha ,
de tanto vir ,
ele o chefinho a entrar
na loja e depois
na cabina para ligar
aos seus . Posteriormente
comentava em casa
da Turca com o companheiro ,
havendo chegado da ligação
ainda agoniante pelos
dramas ouvidos .
O amigo ajuntou partes
e concluiu por um
grande sofrimento de seu companheiro .
Profundo sofrer
pela gente
dele lá no Norte .
A mulher , essa, dizia, era descontrolada. Imagine, falava, quando visito meu
pessoal quer
que bata
no filho do meio ,
o mais velho
do meio , tinha
o mais novo
do meio . Chamemo-lo Zico, realmente era
João mas como
meninão era Joãozico, entenda-se. Zico portanto é mentira , provando
que a mentira
é verdade . Ele
bebia brigava chutava a porta ; na ocasião apenas
fugia da escola e gastava muito do pouco dinheiro do pai , grave aos assalariados .
Bater nele, corrigi-lo. Porrete ,
quando o genitor
vinha para casa com saudade da filharada! A matriarca ,
Dona Zizi, gritava pelo
mais-novo-do-meio e ele não vinha ; então jogava o esposo contra o filho
mais-novo-do-meio, o Zé , nome mais curto para um problema mais longo . O Zé chegava, discutiam pai
e filho , este
ligeiramente bebum. Depois ,
madrugadão xingava o genitor , a mãe tinha já xingado quinzena
inteira , agora
era a vez
do pai . Após
os impropérios desfeiteava as manas,
subia o pavimento de cima do sobradinho, tomava o rádio (mais tarde compraram
televisão ) atirava o aparelho lá de cima buf! aqui em baixo ,
derrubava o guarda-roupa , depois batia a porta
e ia dormir porque
ninguém é de ferro .
Os pais ficavam em
lástima na sala .
O mais velho
não fazia isso ,
o primogênito era
apenas louco .
Louco pacífico .
Tão só comia demais tinha
insônia demais
e fumava demais , aí
por uns quatro
maços por
noite havendo para
ele só
noite , noite
e dia trancado no quarto
e queimando a roupa de cama
com bitucas acesas. Enfim ,
um lindo
inferno . Todavia
as garotas eram boas. A mais velha , exceto o psiquiatra os psicotrópicos
e olhares de zumbi ,
era normal .
O que é mesmo
normal ! já
nos esquecemos ou
não somos bons
em definições .
E tinha a menina
pequena de dois
aninhos, caçula da família ;
“vô Polanga!” falava gritado, queria sempre
ir com papai no retorno
ao trabalho lá
lonjão. Voltava sim , arrasado, a choramingar a desabafar junto do amigo ...
ah, comprometamo-nos não falar
mais no escrevinhador.
Cap.II
– Um Sonho
na Casa da Turca
Parecia
um sonho .
Era ao menos
uma realidade dopada. Exato .
Boa imagem . A gente
até já
começa a pender
pro lado do escrevinhador, por usar expressões tão poéticas . Contudo
é provável que
ele só
tivesse sonhos , pois
dormia como pedra .
E pior nesse pior :
roncava. Deixemos os roncos incomodando
a casa da Turca inteirinha, voltemos ao Patriarca . É o que
interessa nestes escritos , não foi assim que combinamos? Ficavam os dois
em intermináveis
conversas , varando a noite , noite de
trabalho intenso para os músicos .
De
fato havia sons
intermináveis , como
a conversa dos homens ,
sons de violino .
Daí surge uma questãozinha: tocariam cordas
os dois sujeitos ?
não , os pernilongos
tocavam sem parar .
Esclareçamos, não deve ser
bem assim : um toca , cansa; outro ‘inha’ o instrumento
e cansa; então outro
pernilongo retoma o arco e
cansa, vem outrinho e outro mais , um enxame gritando nos
ouvidos ! Tem aqui
dois senões :
será que reunião
de pernilongo é enxame ?
e ‘inha’ existe? Procurar no Aurélio. O do escrevinhador
(ói ele travêis!) anda
ensebado, com orelhinhas nas pontas das páginas ,
é um gastar
ponta de língua a umidecer dedo para desgrudar as folhas , ah que horror ; e ainda
por baixo (por
cima seria expressão
absurda ) faltando folhas
inteiras sobretudo na letra
‘M’ que se usa
mais (será que todo
mundo usa
mais essa!) Mais
muito mais
dor de cabeça na pesquisa . Assim acabaria o sono
e por conseguinte
o sonho , o sonho
na casa da Turca, muito
bela como
foi dito . Curioso ,
Dito era
o mano Benedito do Patriarca ,
ele gastou orelhas
do amigo tanto
falar no “meu
mano ” dele, ah por
sinal um
sujeitinho petitico também e briguento pra
valer . E afinal
terá ‘inha’; é o som que a praga dos
pernilongos faziam com
seus violinos ,
fosse viola e melhor
violoncelo , grosso ,
irritava menos . Noite
toda : conversa
de amigos e recital
dos inimigos dos amigos .
Aqui é apropriado
falar em
“durma-se com um
barulho desses”; aliás
não era
bem dormir , o amigo escrevinhador quase
dormia ouvindo, o amigo-Patriarca é quem
falava sem parar !
Ah que motorzinho potente
possuía o chefe daquela família
maluca , que
motor . Depois
muitas horas após
sua conferência
aos ouvidos-escrevinhadores ia deitar-se, dormir não , só ficava deitado a ouvir os roncos do outro
quarto ; aí se
levantava, acendia a luz , acendia o cigarro , tomava um
pano e o atirava nas paredes e teto
a matar pernilongos ,
mesmo porque
alguém precisa
levar as culpas
desta vida . Mas ,
curioso , nunca
nunquinha tentou emudecer os roncos
do colega de infortúnio
com o pano mata-mosca, nunca , verdade seja dita . Existia barulhando ainda
a casa da Turca (será que foi dito ser bela ? fujona e safada já se
falou, e bela ! pelo
sim pelo não : era bela , tinha uns
lábios sensuais ,
cabelos negros
e curtos , olhos
buliçosos como
a dizer “você não sabe de nada ...”
essa a Turca. Que a Turca estará fazendo
em meio a sons
fininhos e agudos de violino e grave
de serrote roncador! Pôxa, chega de barulho ,
tornemos ao outro barulho :)
sim existia barulhando a casa outro gerador de torturas :
o radinho de pilhas japonês ele , brasileiras as pilhas ,
brasileiras fabricadas com matéria prima nacional por trabalhadores nacionais
e lucro certo
norte-americano . De um
lado o ronco
do amigo , doutro o rádio
do amigo do amigo
e – com direitos
democráticos à toda
casa e os dois
companheiros embora
cada qual
em seu
quarto – os pernilongos
de longas pernas e trombinhas e mais longos sons . Enfim um concerto sem conserto para
agrado das multidões .
No
entanto o dia
melhorava o ambiente naquele ambiente , a Casa
da Turca. A propósito , como
é que poderia
se chamar a mulher
turca? nunca souberam; poderiam indagar ao sogro dela,
nessa altura deveria ter
outro sogro ;
não indagaram. Não
obstante ficavam gozando a malandra personagem
na foto da parede .
O Patriarca encontrou no banheiro um frasco com líquido para higiene
íntima feminina .
Desde o achado
puseram o nome no fluido de ‘Vaginite' e
ele passou a enriquecer
as piadas dos dois
rapazes . Ah que
boca ! Parece que
homem é um
bicho sem-vergonha
mesmo , como
aprecia falar besteira .
Noutra encarnação melhor
nascer mulher ,
ser a besteira ...
Todavia como
estávamos iniciando o parágrafo , ao dia a coisa melhorava bem . Os pernilongos
iam dormir preparando-se para
chupar os dois à noite . e eles
iam remexer o quintal
da casa . (Péra-lá, e não trabalhavam? como
é que vinha
o pão de cada dia! E isso é lá interrupção que se faça em pleno capítulo
de Sonho na Casa
da Turca... voltemos ao quintal :) No quintal tinha abacateiro , tinha
jaboticabeira, tinha laranjeira
e até horta
para benefício
geral dos inquilinos
e, para malefício
também com
direito geral ,
tinha uma fossa
semiaberta fedorando o ar de todos . Eles
subiam nas árvores feito
moleques , apanhando frutas
e inventando causos . Porém havia um porém : o abacateiro
começava no limiar da fossa . O amigo
baixinho seja fugindo de sua realidade na família
seja por ser muito inventivo
mesmo , inventava uma estória cuja conclusão
era o despencar
na estimada fossa ! e pior , a consequência – via seu nome
publicado no jornal da vila “professor do Estado afunda no cocô !”
Caíam na gargalhada . Outros momentos
interessantes vividos era o fato de que o Patriarca possuía memória espantosa,
declamava poemas da literatura brasileira e da portuguesa. Falava sem parar nos clássicos .
O restante do tempo dos amigos ficava gasto
em fazer contas das contas
atrasadas e falar mal
do governo , atividade
de extraordinária importância
ao lazer do cidadão
brasileiro , todo
mundo sabe disso. Entremeavam esse lazer em todas horas ,
como na hora
do leite de granja
preparado pela
senhoria aos inquilinos, ou no fazer a sopa emplastrando o fogão
deixado novinho pela Turca. Falaram as
más-línguas, quando a dupla se mudou dali, ter
sido necessário tirar a
acumulada sujeira
com espátula !
Pobrezinhos deles, homem , dizem as intrigantes fêmeas dos homens, homem
é porcalhão . Quanta
mentira . Era verdade . Outra seria
a de que os sujeitos
dependuravam excessiva quantidade
de cuecas e peças
masculinas no fio de varal , mal
lavadas sem corar
e não suficientemente
esticadas . Era
outra mentira
verdadeira. Enfim , tape-se, se se puder,
as bocas das línguas
viperinas...
Dessa
forma deixaram o lar
daquela Turca bela que
suscitara meses de sonhos e estórias . Cada um para seu lado . Até novo encontro .
Cap.
III – Bem Entendido ,
Não no Hospício
Poderíamos
dizer que foi
demorado o tempo até
esse encontro .
Não podemos falar
assim por
causa do tempo .
Mau tempo ,
bom tempo ?
Em geral
o homem vê
distorcidamente essa questão e não
medita, não tem medida
para ela ;
frequente vezes toma
a consequência pela causa ,
diz que calor ,
precisa chover
para esfriar , mas não sabe que é a onda fria que provoca
em choque
com a massa
quente a chuva
e não esta que
redunda no esfriamento . Além do mais fala “tá frio ” ou “tá calor ”
julgando que todos
estejam com frio ou
sentindo calor ; deveria dizer :
“estou sim com
frio ”. Pois o
ser é o ser do mundo , o centro
do Planeta , do Universo .
Era com
estas ideias que o escrevinhador – mil e uma vezes
impedido em tomar
espaço do Patriarca ,
porém está aqui ,
enxerido – esse
dito escrevinhador reencontrou o amigo da Casa
da Turca.
Foi
um encontro
casual . Não
casual , casual
não existe. Coloquemos as coincidências fora ;
valeria até arrancar
a folha do dicionário
conhecido por
Aurelião em que
se encontra a palavra ,
caso não
fôra ainda perdida como
ajuizamos noutro capítulo ; e além do mais não está em ‘M’
o vocábulo porém na letra
‘C’; caso em
que , positivo ,
ocorreria o negativo , pois
tiraríamos a folha da coincidência , nadinha por
coincidência , prejudicaríamos outras palavras ali escritas , precisaríamos tomar
emprestado um
dicionário do vizinho
não sabendo sequer
ele tivesse pai-de-burrros essa gente é ignorante
e não dá valor
à cultura ; ainda
mais nesse menos
nos colocarmos contra
empréstimos : de sabão
arroz farinha
mulher feijão
máquina de escrever disco dicionário ,
sim o Aurélio, melhor
ficar sem a folha da coincidência
e consultar o livro
completo na Biblioteca
Municipal que é pública
porque o... ah leitor
você tem razão :
e o Patriarca ? Estamos em pleno reencontro de amigos .
Não por
pura coincidência .
O
amigo do nosso
querido Patriarca ,
vindo do Velho Oeste ,
leia-se Estado , dessolteirizou-se,
arranjou uma doidinha (o que prova ser verdade
que mulher
só não
casa com
sapo porque
não sabe qual
o macho , dizem por
aí ) arranjou um
casal de filhos
com ela ,
sendo opinião dos pais
as criaturas mais
lindas e inteligentes do milênio ; e mudou-se para a velha e bela cidade do Patriarca
e sua Família .
Já assentados os novos
moradores, o amigo escrevinhador (que
estamos despedindo a pedido do leitor , mas
sabendo o que dito
leitor sentirá remorso
e talvez saudade
com certeza
do pobre animal !)
esse escrevinhador foi então visitar o amigo residente Patriarca
e sua Loucafamília. O que foi assaz
interessante. Melhor seria deveras ? fica então
deveras .
Ah
que saudade ,
disseram. As apresentações . Em verdade se deve pôr reapresentação, a gente
costuma se esquecer no dia
imediato as apresentações ,
quando estamos revendo alguém , já
formalizado o muito prazer, nos
lembramos haver visto
o freguês antanho .
Foi o caso . Sim ,
disseram, já nos
conhecíamos. Contudo falou o visitante : como
a Zoilinha cresceu, virou Zoila e olha companheiro : cuidado
com os gaviões ,
pois é uma linda
jovem . Era .
Só que
o sujeito desconhecia o conselho
de um dos deuses
gregos no trato
com mulheres
– nunca elogiar
uma perto doutra, nunca .
E a Regina estava pertinho, ele se
esqueceu de elogiar-lhe os olhos e as mãos , únicos predicados da mais
velha . Assim
comprou uma briga , ao menos uma aversão
da moça contra
si . Nas apresentações ,
a da senhora Dona
Zizi foi tudo bem ,
a gente conquista
a mãe pela
graça da caçula ,
fato consumado .
Porém como
Dona Zizi não
estava com boa aparência ,
mentiu. Ela sorriu suas
banhas embora
não se esquecesse de infringir ao amigo do esposo uma coleção quase completa de suas
doenças (nunca sendo completa ,
neste ponto o ser humano se supera a cada
ano de vida ...)
provocando compunção no infeliz que
precisou lamentá-las, deixando a senhora feliz na sua total tristeza . Gente . Gente é isso . Agora , com os rapazes ,
os três garotões do Patriarca ,
este assinando Souza não se sabe por
parte de mãe
se de pai , com
os rapazes foi diferente
o cerimonial . Não
iríamos, dadas as características deles,
imaginar apertos
de mãos e salamaleques
mais . Não .
Foi até fácil :
não houve coisa
alguma; ninguém veio
cumprimentar o amigo
do pai . O mais
velho , o Biro, não
saía do quarto vinte e quatro
horas em não
ser para ir
ao banheiro , não
a tomar banho
é óbvio . Não
tomava nem se deixava lavar !
Então por
que se diz banheiro !
banheiro deveria existir
só para banho e não é assim em casa pobre e remediada ; e quanto
às ricas, oh não
avancemos no desconhecido . O Biro fazia
o quefazer e voltava à cela , mal cheirosa cela fedendo a cigarro
e coisas mais ;
às vezes fazendo nela mesmo , pra que ir ao banheiro ! Daí deduzimos não
ter ido abraçar o escrevinhador, o qual ,
constrangido a esta altura da narrativa estando expulsinho da silva destas
maltraçadas linhas . Não .
Agora , os outros
dois do meio ,
João e Zé , não
puderam comparecer ao encontro
social do amigo
paterno : estavam escondidos. Havia um como acordo não
firmado em que
se firmavam: quando tem gente de fora , sempre um perigo à vista ,
quando tem gente ,
a gente se esconde e pronto . O do meio
mais velho ,
o João, se escondia de preferência no quintal sendo boa oportunidade
a fugir de casa :
fumar pensar xingar baixinho. Já o
Zé ficou estirado no sofá
da saleta de tevê ,
já haviam adquirido esse
instrumento formador-deformador do pensamento globalizante para
a Família . Por
isso não
apareceu apertar mãos .
Sempre foi essa a atitude
dos filhos machos
do Patriarca perante
visitas . O mais
comum entretanto
era a bebedeira ;
ou por
outra , o curtir
o álcool , pois
visita costuma vir
de dia ou
início de noite ,
horário impróprio
aos rapazes ; porque
as carraspanas ocorriam geralmente à noite .
As madrugadas do Patriarca ,
ele mesmo
dizia ao amigo íntimo ,
agora ali
tão próximo ,
as madrugadas eram terríveis :
era tirar
os filhos da delegacia
policial , era
tentar evitar o delegado , era procurar não provocar escândalo à vizinhança , era
interceder junto
às filhas e esposa para
que não
sofressem além do suportável. Enfim um drama completo vivido pelo infeliz pai , o amigo do escrevinhador.
Cap.
IV – Anos Doirados
Uma
verdade dourada ? Até que sim . Os amigos
se visitaram muitas vezes ... não , se visitaram não ,
o amigo visitante
agora também
morador visitava amiúde o outro ; o Patriarca
era uma espécie
nada em
extinção de sujeito
que não
sai de casa saindo apenas
na sua aposentadoria
para fazer compras e pagar dívidas de casa ;
enquanto o ex-visitante é quem escapava da ativa
no trabalho em
escapulidas para
conversar com
seu dileto
companheiro . Essa a verdade .
No
entanto isto
também foi verdadeiro :
travaram uma amizade linda de se ver , como irmãos . Dourada como se
falou. Agora como
irmãos é um
tanto abusivo porque
os irmãos de sangue
às vezes chegam ao sangue
no brigar , sobretudo na
infância . Eles
não , eram laços
amigos . Com
o tempo , as contínuas conversas , se entenderam bem .
O escrevinhador (vamos nomeá-lo amigo-B para não ficar dando-lhe pontapé no traseiro
toda hora ,
pois dá a impressão
não sair da nossa cacunda , vira amigo-B) ele
começou a ter certas
necessidades interessantes, procurando o
Patriarca (chamá-lo-emos amigo-A em oposição , sem ser qualquer oposição ao amigo-B) procurando portanto
o amigo para
esclarecê-lo. Esclareçamos primeiro . ‘B’ era ateu , como foi traçado noutro capítulo ;
onde morava sofreu um
acidente de trânsito
e pegou férias longas no hospital
e depois encaixotado em gesso . Então passou a pesar seu pesar e a pensar : como não existir uma Força maior que a insignificância humana ! poderia
o homem produzir
tudo da grandiosidade
da parte do Universo
entendido por
essa insignificância que
é o homem !? Pode a parte
insignificante produzir
– e explicar ainda
por cima
– o todo , quer
dizer , o Grandioso ?
Estava nessas questões fundindo o cérebro quando
se transferiu para o Norte ,
a morar no mesmo
local de ‘A’, como
foi mencionado. Agora em intermináveis
bate-papos ‘B’ foi convidado
por ‘A’ a visitar
uma amiga em
casa de quem
se fazia experiências espiritistas . Curioso ,
foi. Embora rebelde
e desconfiado , viu examinou pesou mediu concluiu pela possibilidade; ao menos abriu-se ao estudo
do assunto . Começou para
‘B’ um novo mundo . Tomou livros
emprestado, adquiriu outros e
fundamentou tudinho num trabalho sólido . Sempre com ajuda do amigo A. Formaram uma equipe
para angariar pão-velho junto às padarias ,
naquele tempo padaria
agora é panificadora
o vocábulo mais
usado; daí levando numa Kombi de uma instituição
o produto a ser
distribuído aos miseráveis por outras equipes
de assistência . Meses anos . Foi a base
do reforço da bela
amizade A-e-B. Durante
a viagem , pois
era uma verdadeira viagem
o trabalho de captação do pão amanhecido, reforçaram
seus laços
e definiu-se a amizade , do tipo eterno , como os humanos
entendem. Envelheceram juntos ,
vivenciaram mutuamente seus dramas ; e retomaram suas
conversas intermináveis
de antanho , mudando tão só o ambiente ,
passando da Casa da Turca para o veículo de apanhar pão.
Dentro dele falavam, brincavam, gozavam como meninos que se estimam. Irmãos .
Cap.V
– Os Irmãos se Separam
Foi
num domingo , dia
de preguiça . Não ,
a preguiça ocorre ser
inventada para a segunda ,
domingo é dia
de missa . Todavia
‘A’ não fora à missa ,
não era
católico , o que
subentendemos nas práticas de
assistencialismo espírita . Nem
‘B’, já analisamos a questão
também . Assim
mesmo não
o encontrou no lar . O Sr.’A’? foi às compras , comprar
misturinha, falou a empregada . Não tinha importância , sabia o amigo
almoçar tarde ,
mais tarde
que ele .
Esperou andando ao deus-dará e voltou para se reverem. Foi uma alegria
enorme , fazia anos uns cinco
ou mais
não se abraçavam. Daí uma descontração própria
de tais pessoas ,
um recontar mazelas sabidas, algumas agravadas senão todas. Repuseram seus
ais, suas alegrias .
Relembraram com saudades
o trabalho do pão , riram
suspiraram. Você se lembra, diz ‘A’, como voltávamos meia
noite cansados, brancos
do pó da farinha !
eu chegando em
casa e ainda
precisava sair com
o Zé meu
filho , ele
me aguardava para
iniciar seus
passeios , ia pra
lá ia para cá , bêbado , não se cansava, enquanto
o pai estava literalmente
estafado! não ‘B’, como
eu sofria! Sabia sim ,
conhecia os dramas . Continuava ‘A’: e o
João, outro dia
atirou o aparelho de tevê lá do andar de cima a
espatifar-se aqui na sala . É isso , só vexame . Já viu coisa pior ? O amigo B
respondendo a monossilabar, nunca
conseguia mais que
isso , ‘A’ falava pelos
dois qual disco , um disco gasto e nervoso , sem parar ; B entendia sua
função de bom-ouvido, cabível aos confidentes ,
e sofria o sofrer do amigo .
‘A’ prosseguia, não fora interrompido : quinta-feira
foi um deus nos acuda, eu e a Zizi aguentamos a bebedeira
dos dois , o Zé
então chegou meia-noite
trançando pernas e se esborrachou em nossa cama de atravessado! só
pudemos nos deitar
quando se curou às cinco
horas da manhã !
é assim nossa
cruz . Tadinho, pensou B, mas que fazer ? Procurou tirar ‘A’ da lama indagando sobre
o netinho. O amigo sorriu aliviado, ah o
neto ... contou as gracinhas do presente ofertado aos velhos
pais pela
filha Zoila. Daí chegou Zizi a cumprimentar a visita .
Ele se assustou com
a senhora , conhecera-a baixa
e gorda , balofa
até ; agora
tinha diante
de si uma velhota encarquilhada pequena em pele
e ossos! O esposo explicou o sofrer
da companheira e rematou: pesava noventa
quilos , está com
quarenta! O amigo B procurou algo a amenizar a
embaraçante situação . Foi salvo por um pedinte da rua . O amigo
foi atendê-lo, não tinha
nada no bolso
a ofertar ; no fim
do mês sempre
sem tostão ...
Pensou B, meu pobre
amigo não
mudou em suas
finanças desde nosso
viver na Casa
da Turca. Mais uma conversinha a despertar mal-estares .
Aproveitou a indagar sobre
o primeiro neto
do casal , já
deveria estar grande ,
conhecera apenas um
adolescente . ‘A’ respondeu ter se casado e
emigrado para a Áustria, viera ver
o pai dele, o João, este
sequer apareceu na sala
rever o filho !
o pobre – abandonado pelo
pai antes
e depois pela
mãe , a infeliz
esposa de João – se foi para
o estrangeiro . Felizmente
havia o garotinho de Zoila. E destampou sua
comporta a falar
as graças da criança .
Nessa altura B já
sentia algo desagradável dentro de si .
Levantou-se. Pegou sua Olympus: uma foto de ‘A’ para B estragar com sua arte ...
Cap.VI
– Volta à Volta :
Ruminações
O
coletivo se deslocava depressa : sem pressa de chegar por não ver o caminho , o pensamento de B, antigo
escrevinhador tão enxerido
quanto expulso
por leitores
em virtude
suas medidas
passando das medidas , ‘B’ voava veloz no seu mundo lá de dentro . Indiferente
às plantações de cana
e à imensidão de canaviais
que desfilavam apressadíssimos na vitrine da janela
do seu ônibus
– ele ouvia sem
ouvir sem ver , assustado com o turbilhão do sofrer alheio , alheio ele à possível
sofrência dos passageiros ali lado a lado de si . Como , se perguntava, pode um
sujeito estar tão sujeito a uma família como a
do amigo ‘A’, o Patriarca !
Não tinha
resposta . Horas
de indagações , horas
ali no comboio
revendo o cineminha de uma grande amizade ; diante
sua pequenez ,
impressionada por não
poder contribuir para o amigo sair dessa crise constante ... Era
uma pequena
eternidade em
sofrimento, o qual sempre
atinge a nós mesmos
quando atinge amigos .
Sentiu-se incapaz e insignificante .
Aí lembrou-se da Eleição .
Havia proposto a possibilidade da escolha
pela divindade
não dum povo
mas do povo
de uma família . A Família
do amigo A, ‘A’ era
o emérito Patriarca
de seu clãzinho. Porque ,
falou bem alto
B para sua
combalida consciência , porque a Família só pode ter sido escolhida
por um
deus mau ,
portanto não-Deus, para
depuração através da sofrência e pelas
sofrências encadeadas e sem fim (ocorreu-lhe
não existir o
sem fim) – especialmente a ferir o chefe , no episódio : ‘A’. Estaríamos diante
do caso de uma Legião
de ‘demônios ’ obsedando os membros familiais, mais
precisamente a atingir
‘A’!? Andava nesse fervilhar quando
gritaram o nome de ‘B’, queriam saber se trouxera solução a seus próprios dramas . Entrava a condução
na acanhada rodoviária
de sua cidade ,
cada um
de seus problemas
pretendia ser o maior
e o mais importante .
Porque todos
sabemos o quanto os problemas
são vaidosos .
Quase deu um
chute na mala ,
pra lá
de pesada . No entanto
seria o tipo da atitude
idiota . Não
seria?
Marília setembro
2001
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