Casamento e a Fita de Casamento
♀♂1° - Chovia a cântaros, o capiau não sabendo quê
que é cântaro então a dizer à família São Pedro lavava o céu, antes arrastara
os móveis pra não molhar ao abrir torneiras, um barulhão medonho, inclusive
tendo corisco, o raio o pessoal a descrever com olhos que a terra haverá
insaciável um dia de comer, como sendo certa machadinha, a prova: lascou uma
vez de fora em fora a paineira na margem da estrada. E aí, lógico, a gente fica
num medo e pavor, as mulheres a mandar os filhos pra baixo da mesa antes delas
mesmas irem a convencer Santa Bárbara para não permitir tempestade, com suas
ladainhas; enquanto os homens, que homem é macho pra burro, eles a olhar firmes
o tempo a desabar mas agora já desabava. Chovia a cântaros.
A
pergunta que se punha era agora se não atrapalharia as bodas (mais uma vez o
capiau em não entender, loguinho pensando fossem as fêmeas dos bodes; e aí
melhor registrar casório e pronto). Pronto, a confusão formada.
Na
roça há confusão quando chove durante o casamento, é a estrepolia que degenera
em alegres dizeres por causa do molhar a santificação dos nubentes, mais ou
menos assim: os noivos comeram na panela; quer dizer, atrapalhou a festa o
baile da festa a facada no desentendimento no final do baile da festa, festa de
matrimônio. Naquele tempo. Agora do hoje o êxodo rural chutou o capiau à
cidade, não se discute aqui razões tão só a coisa; e sendo assim o enlace ocorrendo
nos moldes urbanos.
Chegam
os convidados.
Um
minuto de esclarecimento, menos de hora. Os convidados não puderam ir ver o
padre o juiz os outros convidados e a noiva (o vestido dela, se tremeu, se
cantou vitórias) e o noivo (se virou marido, antes olhou o futuro e já presente
sogro brabo pra danar). Não puderam ir lá lonjão e aqui entra a crise nacional
e o desemprego nacional presente no país do futuro. Não foram não. Aí a noiva
tornada esposa ficou com peninha deles, mais dos parentes dela entre os
convidados lá lonjão do lonjão dela – então enviou uma fita gravada do cerimonial,
a todos participarem da felicidade geral da nação. Com senãozinho: somente um
dos familiares possuindo aparelho de rolar o filme a se ver na tevê, esta
ficando em cordialidade calada nos seus anúncios e porcarias mais só para ver a
cara dos capiaus convidados.
Aqui
reatamos a chegada dos convidados ao casamento.
♂♀
2° - Chegam os convidados.
Tinha
capiau velho de bengala nova; tinha criança a meninada não deixa a gente ver
direito ou pergunta demais ou não indaga e bagunça o coreto com barulho mexer
brigar entre si as mães beliscando prometendo olhando feio e batendo para
provar na prática a teoria é outra; tinha machos (ui!) tinha fêmeas e
indefiníveis no ramo dos sexos; tinha pobre e rico; tinha de todos matizes e
segmentos sociais naquela amostra da comunidade mas isto não vindo ao caso. O
caso é estarem reunidos, curiosos, ansiosos até pra ver o casamento parente,
parenta lá das lonjuras do lonjão, mesmo porque se prometia, prometendo pelo
correio e mais pelo telefone que é um mal da época, tão necessário hoje quanto
a prostituição noutra época – sim
prometeram os parentes de lá aos parentes de cá mostra não só dos
nubentes alianças padres juízes de paz (quê será paz!) não só vista do
casamento em si no seu cerimonial quanto a mostra da parentela do lá lonjão; uma
quase revisita necessária ao mando da saudade.
Por
isso reunidos em volta da rainha cantando de galo de nossos tempos, a
televisão.
♀♂
3° - Liga, fulana. Ligou. Restos doutros restos de filme, embaciamentos,
esclareceres e finalmente o casamento.
Ah
diz o narrador, entremeado pela esposa no ato já consumado e melhor se se
pusesse consumatum est a elevar o padrão
para o capiau assistente desentender melhor; a esposa fala; e o sobrinho, tem
sempre um sobrinho e têm os vizinhos e parentes outros a igualmente bicar, a
ponto do narrador também registrador gritar um basta, ou todo mundo ninguém se
entende, menos os curiosos ansiosos parentes do lado de cá vendo. Ah, diz o
narrador (e se cala, no máximo segurando a filmadora para mostrar quê mostrar)
ah diz – desiste e deixa a mulher tagarelando, mesmo porque é mentira deslavada
que mulher fala mais que, matracando o
contar. Conta.
Isto
é minha casa – corrige constrangida depois – nossa casa. Esta a cozinha. Vemos
nós aqui doutro lado de fora o dentro da tevê: o fogão a vassoura a cadeira a
panela o pano de limpar aquelas horríveis gorduras e sujidades mais ajuntam tonelam
a superfície restos da fumaça das fervuras frituras amarguras a impregnar quem
perto fazendo a boia e se depositando nos lados do fogão é lógico e nas paredes
a grudar tudinho e aí se vê o bendito pano de limpeza que se supõe fedendo a
sabão e liposidades e a mofo mas a ingrata televisão não fede o cheiro, mostra
o mostrar. Mostra o micro-ondas o tostador de pão ou coisa assim, mostra o
liquidificador o ventilador o amolador de facas que não se usa: mais barato
comprar nova afiada na promoção do supermercado. Mostra a porta, sem que se
saiba de saída ou de entrada, aberta – a narradora nem o moleque bicando a
narração adulta esclarecem; somenos; prossigamos. Mostra a fita o banheiro.
Limpo já descargado, o rolo lindo de morrer, toalhas pra banho toalhas pras
fuças, o chão em piso frio. Tudo sem cheiro, ainda será necessário inventar um
televisor, não que cheire credo em cruz não: que mostre o cheiro de fragrâncias
e fedores condizentes, ou nos distanciamos da realidade e nos virtualizamos.
Ah! – este um ah com exclamação – tem o bendito micro. O computador ria gargalhava
até suas virtualidades e travas num dos cômodos da residência, não podendo ser
nem na cozinha a impregnar-se das gorduras nem no banheiro que inclusive serve
também a banho e ninguém é louco pôr máquina louca a cheirar impregnações na
privada. Contudo a memória das imagens não devolve agora a imagem do onde
esconde escondendo-se o computador à vista arregalado a dizer “tô aqui: ó” dizendo
ser ou na sala, pobre não tem escritório pra essas coisas, o escritório se muda
ao quarto (lugar de dormir e fazer nenê) ou o escritório e a parafernália de
escritório inclusive computador-travador, para a sala. A memória não sabe. Aí a
narradora fala (o menino bica o falar) e o narrador-mudo filma o quarto. A
cama! ah a cama... O criadinho-mudo mais que o filmante consorte, um
puf-nunseipraquê, chinelos, “chinelas” corrige o moleque querendo falar fino
falando grosso já. A cadeira pra pôr livros e trecos, essa não sendo de se
sentar, lugar de sentar-se é na sala ou na cozinha comendo o grude que a cara-metade
não sabe desaperfeiçoar. Linda cadeira. E tem coberta cobertor cobertinha e
lençóis e mais chinelos (corrige corrigindo a narradora o sobrinho: “chinelas”
ela concorda, ou não fala mais). Mostra mais quesitos sobretudo o guarda-roupa
só ele tomando não o quarto: a casa inteira, casa de pobre é assinzinha de
tantadurinha não cabendo nada. Quase nada. Aí vem a sala. Mostra o narrador não
falante por intermédio da mui falante narradora, consoante o menino bicante a
sala! De visita? pobre tem visita! Recebe alguma? quando, quando estiver de
manhã num de tarde noutro de noite no terceiro serviço! De madrugada visita não
aprecia usar de suas prerrogativas. E os de cá veem os de lá no mostrar
indicando isto é o sofá (o moleque pufa pula esborracha-se no fofo em provar
por A+B os as+bês das coisas) isto é a mesinha de centro, que tá num canto
abarrotada de livros e ai... as indefectíveis fotografias, no caso tiradas por
profissionais nababescamente pagas e honorariadas, se fosse o costumeiro amador
cortamos cabeças ou pés, tadinhos dos noivos!
E
aqui (meu Deus até que enfim!) entra o casório, que aparentemente não deverá
fazer os participantes comerem na panela.
♂♀
4° - E os convidados. Eles afoitos, ansiosos a se mexer remexer em frente de
sua alteza a rainha-televisão. “cala a boca moleque”; e os velhos ameaçam suas
bengalas e o menino sabe de saber que o vô não bate ralha; e as mulheres conversam
entremeio suas coisas “cala a boca menino” e falam mais coisas e homens e mulheres
ansiosos pra ver quê ver, que é ver as cenas circunstanciadas do matrimônio com
padres juízes convidados dos noivos e, logiquinho, os casadoiros presentes, os
presentes olham aflitos de verdade “cala essa boca ou...” E as crianças
cruzando adultos videntes, os quais só veem mesmo a tela nada mais, elinhas a
passar correndo na frente por entremeio pernas da gente grande, de baixa
estatura e boa vontade, a meninada além do mais a brigar entre si “cala a boca,
menino!” não tem exclamação admiração interrogação reticências a conter ponto em
final à boca moleca e o moleque: “é ela foi ela que...” Aí ninguém se entende a
entender agora, agora é de fato o casamento. O enlace matrimonial entre a primogênita
familial com todos necessários pedigrís dos nobres troncos, parenta querida e o
mais novo querido em ganho de família, o noivo novo parente – eles a aparecer
no vídeo!
Ou
pros quintos, ou vamos finalmente à cerimônia nupcial?
♀♂
5° - Vamos pros quintos da estória entitulada “Casamento e a Fita de Casamento”.
Atenção.
Movimento. Ação.
O
mostrador, um não se sabe quem de gabarito a filmar, pois antes o narrador era
o mostrador da casa à esposa narrar e ao sobrinho bicar as suas coisas nas
coisas da fita voltada ao público convidado parente aquizão do lá lonjão se
casante; o mostrador, ou a máquina filmadora, mostra o seguinte.
Chegam
os convidados. Entre tais tais outros ou por convidados e xeretas e curiosos ou
somente funcionários aplicados não só a assinar ponto mas trabalhando, já
fardados. Têm outros oficiais, sobretudo um padre que é bacharel e não passou
na OAB virou Delegado de Polícia. É a autoridade máxima, faz o padre e o juiz
ao mesmo tempo.
Diz
– está iniciada a sessão. Olham. Veem. Veem Elinha linda de morrer em vestido
branco e grinalda, tem as meninas como jovens acompanhantes, ah são as damas de
companhia. Aflita, treme emoções; nunca casou antes, tadinha, virgem (Virgem
Santa!) é nova e bela, aspirante ao cargo de esposa letra A, alínea B, livro de
ponto C, tudo ótimo num país de desempregados que tem sua empresa estatal
petrolífera como a 12ª em potência no Planeta e ganha de muitos outros povos em
saúde analfabetismo e miséria; a para-esposa não pensando nisso pensando no
cerimonial que vem à frente. O público de cá, ansioso, o de lá, assistindo – os
interessados olham a fina flor do sexo feminino a se casar, ela aflita. Não
chega o noivo! Sempre assim, alguém atrasa geralmente ela porém aqui ele, o
varão.
Chega.
Não
o noivo. O pai da moça, virgem, virgem santa! Está incomodado, cofia os
bigodões, coça não sei que parte do corpanzil, nervoso, o genro, futuro genro,
não chega. Olha a indagar à autoridade. O Delegado mostra firmeza, diz com
olhar “sim, por que não!” a dizer quem pode com a lei!! Por desencargo de
consciência dá ordens a uns mequetrefes fardados, e o que tem de secretas sem
fardas! e os mequetrefes saem correndo ver se tudo anda nos conformes certinho
com a lei, a exigir a lei cumprida. Voltam.
Voltam.
Vêm com eles mais meia dúzia de milicos; em meio aos soldados o noivo.
Elão
tá aflito. Não quer andar, anda medrosamente, empurrado puxado pelos meganhas,
se esperneia até, ao entrar e se defrontar com o altar, falta ar. A Delegacia
encontra-se enfeitada pelos cerimoniais do cerimonial: ao fundo têm as celas e
prisões mais, grades gradões gradis e sujeira; entre a sujeira prisioneiros
empacotados um em colo doutro outros espremidos noutros e põem as mãos pra fora
não podendo enfiar o corpo todo e então fazem o característico gesto para
mostrar sobrelotação; olham pra fora e veem o Noivo a vir carregado arrastado
empurrado para dentro daquela solene igreja, a ser ou presidiário novíssimo ou
casado levado pela consorte, ele sem sorte poderá pensar, levado à prisão domiciliar,
quem sabe se não a aguardar sursis do juiz! Olham, veem o cerimonial.
O
Delegado: é de gosto a Senhorita Elinha Virgem Virgem Santa! aceitar em Sagrado matrimônio o Senhor Doutor Elão da
Silva?
Sim
(primeiro olhou em soslaio o ventre, amém).
O
Delegado, agora não a sorrir porém de cara fechada, olhando de soslaio ao Pai
da Moça a cofiar os bigodões, aí já tendo tirado em público a gravata
enforcante aflito e não adiantou à Mãe da Noiva estrilar esse escândalo no meio
do outro escândalo; o Pai da Virgem muxoxa concordar no não tem jeito e
novamente o Delegado:
É
de gosto o Senhor Doutor Elão da Silva desposar em santo matrimônio à Senhorita
Elinha Virgem Virgem Santa!?
Silêncio.
Expectativa. Convidados aflitos e ansiosos os de cá torcendo nem se fale, os de
lá lonjão também na Cadeia Pública). Silêncio. Silêncio ainda. Os presos gritam
xingam gozam apupam infernam o ambiente de enlace, estragam o cerimonial tão
bonito, assustam inclusive as damas de companhia e aí a Noiva treme temores sua
suas vestes brancas imaculadas na pureza...
Repete
Sua Alteza Autoridade:
É
de gosto... tró-ló-ló tró-ló-ló e espera.
O
Noivo sua em bicas, olha as mãos os músculos soldados, olha a gritaria lá nos fundões
seus futuros coleguinhas de trabalho como diz na tevê o Sílvio sorrindo o Noivo
a chorar. Sua olha antevê volta-se à autoridade de cara feroz e à feroz cara do
Futuro Sogro; força um pouco ver se escapa, os soldados segurando a balançar
algemas garruchas fuzis metralhadoras AR-15 entradas em contrabando
via-Paraguai ou na cara da gente pelo aeroporto ou com ajuda do mar. Pensa.
Logo,
existe. Não resiste não.
Sim.
O
Delegado:
Eu
os declaro Marido e Mulher, tró-ló-ló pra encher o saco das orelhas, donde se
sobressai a expressão “a noiva passará a assinar Dona Elinha Virgem Virgem
Santa! da Silva”. E se ouve o hino ao casamento de Mendelssohn-Bartholdy desde
lá pro lado lonjão de cá na tela; o povo se confraterniza, parabéns pra cá parabéns
de lá.
Encerrada
a luta em poucos assaltos ou com empate técnico por pontos sem nocaute.
♂♀
6° - Encerrada a luta. A guerra perdura pelos tempos e tempos.
A
tempo desligaram o vídeo, que já estava enfim embaralhando tudo e havia uns
sons-zinhos engraçados a misturar câmeras lentas e câmaras rápidas não se
entendendo mais nada, para dar tempo quem sabe a torcer orelha de menino, moleque?
nem o capeta pode.
Assim
o público de cá a sorrir, mortas as saudades e suculentado com brilhante
cerimonial de casamento, se dispersa engolido ou pelo leão ou por outros
impostos e afazeres, quiçá suas dores.
Marília outubro
2004
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