Uma
Estória Suborna a Aposentadoria de
um Escritor
1° - Introito
curto. Ontem, minto, anteontem, já havendo antes avisado todo mundo
desconhecido haver parado de rabiscar porcarias; sabendo-se embora que uma
estória e mais as bem-comportadas não ultrapassam limites superiores e menos os
inferiores – eis que dá a cara uma. Uma!
A
gente deseja comportar-se à altura como fosse a gente um nada; um nada que fala
come defeca dorme sonha, sonha parcamente que seja, seja dormindo por força da
natureza seja acordado a criar sempre num sonho absurdo para não morrer ou só
existir um pouquinho em pesadelo manso da vaidade e... ah ih oh uh por que não
tê-la se a vaidade é característica humana! a gente tem e pronto; não tem gente
na gente conhecida e bem conhecida por sua ignorância ou tão só se apresentando
tímida mas a publicar contos novelas e romances? tem sim gente assim, tal gente
a cumprir o mando dessa característica tão negativa quiçá positiva, conforme o
caso: este positiva o negativo.
Eis
que surge (surge uma estória abobalhada a impor-se ou somente aparecendo por
aparecer como ninguém tendo nada com isso e às vezes nem se notando a
bobinha... Não isso:) ei-la na forma natural de se mostrar, existindo se não na
pele nos olhos, na cara da gente.
Bem,
para não contar a estória ou já o fazendo porque não se pode fugir da realidade
que se vê se sente se sofre mesmo! para tanto em tanto não fazendo esforço a me
calar, narro primeiramente como foi que a dita cuja apareceu. Apenas vênia peço
posso? passo a narrar ou descrever o como da coisa. No entanto – aqui novo
pedido de vênia – no entretanto fá-lo-ei noutro capítulo.
2° - Um, dois,
dois pra lá, três pra cá, alevanta abaixa aspira solta respira descansa
cansa... ah, fazia um escritor naquele tempo, importa lá qual tempo importa o
escritor, fazia sua ginástica matinal. Matinal!? qual o quê. Exercício físico madrugando
pois nem a claridade se mostrava, quando ela apareceu...
Eu,
eu? eu existo, ou não poderia narrar o absurdo do que vi aí aqui na frente; um,
dois, dois pra lá, três pra cá e tudo o mais na sistemática ginástica nada
escolástica e até mundana como só o homem do povo consegue fazer: faz um dia,
assim como se promete não comer tanto açúcar tanta gordura tanto volume em
tanta massa a abarrotar o prato se envergonhando no restaurante popular, aí
todo mundo se volta pra gente e a gente bedelha o bedelho de todo mundo olhando
a montanha: que é que vocês têm com isso! isso posto ainda completa: “sou eu
não vocês quem pagará a conta no caixa”. Deixemos todo mundo nesse ver-nos na
batalha campal mirando a gente deglutir feijão arroz e qualquer proteína.
Enfim
fazia ginástica a driblar o escuro o cinza o sol o frio o vento o tudo o nada
lá fora, aqui dentro nos lances a chupar ar soltar ar flexionar membros remexer
juntas em fazer com isso barulhinhos na secura – o sargentão no exército dizia
estarmos quebrando pés de milho na roça quando na educação física mas ele era
um gozador e agora estou sozinho e mal acompanhado da cena que presencio na rua
– em suma me sacolejava nos movimentos da ginástica, quando ela apareceu... ela
a estória? ela a estória.
Forço
um pouco meus gestos, alevanto-me nas pontas dos pés, sugo o ar bebo o ar como
o todo lá de fora, encho os pulmões a quase estourar e daí, cansado ou só
obedecendo imposição técnica de educação corpórea, solto o ar preso; ele feliz
da vida sai estrondosamente e decerto aquece ou malcheira (se não existir
malcheirar a gente inventa para agradar o ar preso-solto) malcheira o ambiente
enquanto prometo e imediato me ponho a repetir a dose: um dois três pra lá etc.
e tal e é quando ela surge! ela a estória? não, ela a Luzia. Quem a Luzia. Quer
saber? leia a estória, pois ela surgiu... A Luzia? a estória da Luzia. Ninguém
ainda sabendo que a jovem se chamando no cartório Luzia, ou melhor: eu não
sabia, sabia o avô, sabia sábia a avó, sabia claro saber sabia a mãe da moça o
pai não e nunca a mãe contou a ele e pra quê saber se andando por aí perdido ou
preso e por isso mais perdido, sequer o homem tendo conhecimento que uns carinhos
por cima duma qualquer mulherinha pudesse ter engendrado uma bela garota; em
menina a mãe da menina fora linda e agora o desgaste dessa mãe da rapariga
(cuidado temamos certas conotações ligadas à interpretação dessa palavra) agora
o tempo deixa a pobre senhora apenas mulher mais ou menos sofrida e assim as
duas fêmeas da espécie somente bonitas ou passáveis; o que não resume tais
existentes a viver existência de fantasias sofrimentos e inclusive
constrangimentos, estes que são sofrimentozinhos delicados educados contidos em
sua vergonha.
Acabo
meus exercícios, doem juntas todas juntas na dor e no cansaço e... não, não
acabo: ela não deixa.
Ela
a estória?
Ela
a Luzia?
Elas
ambas.
E
os outros também, visto não existirmos e não existir alguém sem o parâmetro do
existir dos outros em torno, dos quais o terceiro capítulo se encarregará
mostrar.
3° - Uma parada
para descanso, não em minha ginástica caipira e feita sem ordem num ferir
técnicas e ciências; admitidos abusinhos e esquecimentos; por exemplo, tem dia
que faço tem outro que me esqueço fazer; num faço de manhã, noutro vou tratar
outras coisas e me esqueço da coisa lembro tarde ou faço exercício de tarde ou
então não faço coisa alguma estourada a hora, ora não me exercito por semana
ora retomo a manhã ou faço à tarde, ótimo à persistência caipira. Às vezes não,
não é por nada de tudo, tudo em nome do pretexto sem causa aparente; ou então
estou a executar exercício e não acabo a série por causa dela. Da estória? da
estória dela e por causa mesmo dela, do que vejo saindo creio ouço sobre ela e
até ouvindo a voz dela. Tem uma vozinha, não me referindo agora à velha dona
Maria, senhora pequena tolerante e a querer enquadrar-se como autêntica cristã
– o Cristo não afirmou o amor sem condição e sem condição também a tolerância?
A velha pratica os postulados do amor e da tolerância agasalhando recebendo a
neta, não obstante apupos da realidade e da oposição a tentar impedir o feito
cristão de Maria. Não vou antecipar que inclusive a própria genitora da jovem
seja declaradamente sua opositora. Está dito.
Portanto
suspendo minha ginástica diante o quadro visto da janela quando chupava o ar
puro, impuro pela chegada dos integrantes da estória, essa enxerida que
apareceu do nada do quase nada a atrapalhar o anterior casamento de minha aposentadoria
como contador de estórias, quiçá a mostrá-las a outrem para satisfazer a sanha
de minha vaidade, a vaidade que os teimosos teimam dizer uma característica humana
e a fim de não deixar ser gente, o escriba gente. Suspendo a ginástica, fecho a
janela de passar ar puro, envergonhado agora pela vergonha que a educação nos
manda expressar fechando olhos, estes da casa e não os meus bem abertos;
encosto portanto as partes da janela para não me verem que vejo o que vejo (e
como!) o que fazem; visto ser coisa feia e condenável assistir a briga de vizinhos...
Mais não digo, digo apenas no quarto capítulo.
4° - À
sorrelfa... será que foi à sorrelfa? sim foi, eu mero ser existente sequer
pensando nela, nela estória? nela menina morena aqueles oculões na frente dos
olhos pequenos – tem gente que usa óculos normais, o comum do ser deixa normal
de tanto se ver e a gente fica a pensar parte a parte como parte da natureza e
não é absolutamente o caso dela, dela estória? caso dela Luzia, morena magra
(claro, visto não comer ou seja: nunca a vi comer, para ficar mais claro) magra
sim, não se pense esquelética, morena sem aqui recursos de linguagem
sem-vergonha ou de má-fé a sugerir negruras e aliviar a má-fé numa expressão
“morena” para não ferir educação e isto se vê quando alguém se dirige a um
herdeiro da sofrida África negra; até a palavra preto é proibida a evitar
conotações maldosas e algum processo judicial na cacunda da gente... Não. Não
Luzia, um caso de morena branca queimada pelo sol do milênio incidente nos seus
ancestrais, tanto assim que a mãe bonita desgastada de Luzia é também branca,
branca bronca, nisto um lembrete porque ofendera os próprios pais: “vocês,
falou a Joana, vocês irão se arrepender dar guarida a essa peste (peste ou
Luzia): verão o mundo de machos sem-vergonha todos dias – exagerou a mãe da
filha à mãe dela – todos vagabundos a procurar Luzia!” Se arrependerão logo em
dar guarida a esas... (então se xingou bravamente e é preciso esclarecer que a
mãe tocara a Luzia de sua casa recentemente, auxiliada pelo esposo).
Contudo
a mãe da filha, da filha da mãe, a mãe se enganara até ontem, minto, anteontem
ou mesmo trasanteontem quando a diabinha me trouxe, a romper uma decisão de
jamais voltar escrever contos novelas romances daqui (daquele de lá) por
diante, me trouxe a cena que vi, manchando minha promessa. Aos amigos
inexistentes e em falta deles os desconhecidos que passam aí na rua dos buracos
em asfalto rachando rachado, a eles garantira haver parado a loucura tornando
ao estado normal da gente, o escriba se pensando gente.
Como
andava o autor destas bobagens presente à cena... não a cena de hoje, ontem,
anteontem, trasanteontem: a cena anterior da mãe pondo em dúvida a moral da
filha única dela, mãe, não a moral da filha pois que atribuindo a filha dela
vir duma prostituta, assim mesmo amada do Mestre se diz; portanto Joana se
xingando a xingar Luzia, além de acusar seus próprios pais Zé e Maria de
burrice aceitando acatando uma rameirazinha na casa e a esperar mil homens, se
bem que nesse mal agora a cena mostrara-me apenas dois postulantes a conquistadores...
Retomemos: como estava o escriba presente naquele passado no dia ainda noite
buliçosa dessas de berros, Joana mãe de Luzia gritava qual mundana, embora recatada
mormente quando em visita aos pais e a trazer o marido e os filhos, sem a filha
porque Luzia a única na casa da mãe e do padrasto enquanto que os manos seus
são mui machos e tendo ainda um pequeno como raspa do tacho que não imagina ser
machinho e precisar defender a espécie contra a oposição feminina da irmã da
mãe e das outras no mundo como requer o mundo; gritava berrava estertorava
arrebentava meus ouvidos e as orelhas doutros vizinhos e a chocar uma vila pacata
a pensar bem do casal silencioso de velhinhos aí da frente, a frente de minha
janela por acaso indiscreta. Berrava o absurdo sem solução. Os absurdos não têm
solução. O caso específico da Luzia parece não ter solução.
Maior
abandonada, a moça arranjou emprego e encrencas ao longo de curto período aí em
frente residindo. É provável ser fácil arranjar encrenca; ao menos mais com
mais encrencas outras pois que deve haver alguma paz num viver empregada, indo
ao serviço e tornando ao sossego da paz do lar doce lar, aqui um emprestado a
si pelos avós pobres; pobres e trabalhadores porque como sobreviver da
aposentadoria de salário mínimo uma família simples e necessitada? Então Maria
retalha e cose roupas de fora e seu consorte com pouca sorte, sabe-se, procura
recicláveis para vender e recolher moedinhas à sobrevivência. Acontece que nos
últimos meses aparece outra boca. Sim, come pouco, gasta bastante a ficar mais
bonita, tem vez que se pensa menos feia, talvez abuse na economia ou é que a
volubilidade do pensamento da vizinhança atribua uma possível exploração dos
seus homens – o fato é que Luzia é modesta e contida. Assim sobrando como sobra
negativa apenas seus desandos apesar de tornar apenas uma vez na semana passada
quase em coma alcoólico, sendo trazida por gente de boa vontade ao vê-la na sarjeta;
e imediatamente levada ao pronto-socorro após entrega da neta aos avós na madrugada
fria. Demais dias são noites normais ao recolhimento do cansaço dessa jovem
infeliz. Volta grita gritinho educado Maria num som “vó!” e a velha abre-lhe o
portãozinho de gente, tendo o portão de carro no imóvel sem uso dada a pobreza
sem miséria dos velhotes parentes. Entra. Some, mergulha no silêncio da
madrugada, do gasto do abuso talvez de sua noite após o horário de trabalho e
no silêncio do ciciado a esconder um provável escândalo; isto porque a família
de idosos é religiosa e educada: engolirá decerto o sofrimento, todo sofrimento
no mundo não deveria ser de exportação, poderia tão só ser um abominável
embutido contido dentro de quatro paredes. Contudo não é assim o mundo. Nem o
mundinho de José e Maria; onde esta mais fala e fala mais à vizinha confidente
que a José, José menos apita, porém brabo fala alto além da normalidade ou do
costume contra as injustiças do mundo, como por exemplo o de um comerciante que
lhe abusa dos bolsos... De resto o homenzinho silencia ou comenta baixo com sua
Maria, mesmo e sobretudo os desmandos da neta, terceira habitante do lar nessa
rua de buracos no asfalto rachado rachando.
Racharam
o mundo...
5° - No exato
momento em que pensava o mundo, o mundo na amostra que se oferecia não expondo
ainda as rachaduras no leito do asfalto sujo (porque ninguém imaginaria parar o
povo que passa à noite e atira a esmo pedra detrito resto e demais sujidades às
residências limparem de manhã, antes que isso o morador vive a lamentar a morte
da educação do povo) não expondo pelo escuro do claro que se desenhava no horizonte;
nesse momento eles chegam... não, ele chega, ele o mais afoito entre
conquistadores de jovens luzias ou não luzias; ele ‘tataratando’ sua moto,
curiosamente não mui barulhenta e isto não em respeito à vizinhança que dorme e
nem mesmo por outro lado a acordar chamar implorar não propriamente e sim a
impor, até exigindo Luzia. Imediato, entre um e dois e três e aspiração e
expiração numa ginástica caipira se bem me lembro, imediato parei num mero
recreio bem-vindo visto não estar naquele instante com vontade flexionar-me –
tem vez que a gente não se importa cresça o ventre por mil cervejas, cresça ou
estufe como queiram: não tem movimento que faça de fato parar o inchaço da
barriga, a gente justifica assim e assim suspende os lances e além do mais a
ginástica não é grande problema. Suspendo a ginástica ao escutar o chamado,
logo julgando fosse o seu ‘mototaxista’, ela tem certa preferência por um
profissional e esse vem diário para levá-la ao trabalho, no retorno não posso
garantir seja o mesmo, não propriamente
por andar em aposentadoria na criação de estórias mas simplesmente por andar
dormindo e não a vejo chegar entrar sumir no portãozinho e no corredor e deste
ao fim nos fundos da casa dos avós e agora dela também; contudo a chegada do
rapaz manhãzinha isso posso até cronometrar e adivinhar. Sobe à garupa, antes
bota o penico na cabeça... brinco sempre com quem se pode brincar que o
capacete cor de rosa dela e o doutra cor doutrem me parece um urinol de cabeça
pra baixo; tal brincadeira me livra ter saudade do vício eterno de escrever, do
qual já dissera estar aposentado e me lembro relembro então haver chegado a
Luzia e a estória da Luzia a romper quebrar desvirginar uma aposentadoria
recente decente demente diz-me matreira a estória da Luzia, a Luzia ali na
frente a roncar, não: a dormir ou já se apressando se vestindo engolindo o café
adocicado de Maria (isto suposição por força da experiência caipira, porque
todas casas caipiras de antanho faziam café fraco forte no adoçar; dona Maria
ex-roceira e daí a conclusão nada apressada, prossigamos:) Então ela abre-fecha
o portãozinho, não diz melifluamente “a sua bênção vovó querida” nem mesmo
tchau, secarrona; bate a folha do portão no batente numa forma mais ou menos escandalosa
e deseducada, e a seguir pula na garupa do seu homem do momento, compreensível
por sinal; ele ‘tatarata’ o peso, pesinho, dela agora, arranca a acelerar mais
a barulheira da barulhenta e somem por entre os rachos rachados rachando no
asfalto desta rua.
Porém
o costumeiro mototaxista não era, era aviso enganoso. Depois saberia pior do
que enganoso... Antes fosse o motociclista conhecido porque poderia o escriba
em descanso e na aposentadoria merecida continuar o exercício, interrompeu a
ginástica sem ao menos suar um pouco. Vê então um dos homens da Luzia em carne
e osso como se diz. Mais ainda, brabo. Chama grita impõe assusta o mundo, até
ouvindo isso os passantes passando a madrugar ao trabalho ou às suas respectivas
ocupações a pé em moto em carro mas ninguém notando decerto, não sendo alguém
ali pertinho a fazer ginástica e possivelmente o casal de velhos. Todavia a
princesa não deu as caras ao caro príncipe bobamente encantado. Este vocifera,
promete, antes sugerira e quase falou manso pra não espantar com certeza a
vítima. Cansa. Toma o veículo já desligado liga balança a cabeça e se vai.
Volta! Entremeio vem outro e segundo conquistador... Ela não escuta este novo
herói de novela fracassada, ou enfim igualmente não atende; terá falado
comentado com os avós sua temência; a gente supõe haver conversado com os seus,
suposição apenas; o que minutos mais fica claro quando ocorre um desastre... O
primeiro torna e encontra o segundo pleiteante pleiteando o que pleitear junto
uma bela; e não aprecia. Apreciar? qual o quê. Se desaforam, se ofendem, se
xingam e aqui aparece uma novidade velha como o mundo – o linguajar da malta
maltrapilha ou pior: mancomunada com o mundo do crime, droga furto assalto
assassinato e demais coisinhas miúdas na má-fé, isto que o vulgo defende com a
expressão “levar vantagem em tudo”. Para encurtar ao entendimento, primeiro do
escritor folgado e ora na aposentadoria a se convencer, por nada ter que fazer
ou não; por isso se perguntando que tal uma ginastiquinha? Depois esclarecendo
para quem tenha coragem ler a loucura. Já sendo uma loucura parar abrir a porta
à estória, esta estória duma frágil jovem de nome Luzia magrinha moreninha atrevidinha
atrativinha, diria safadinha a mãe da filha com dedo em riste a acusar sua mãe
avó da neta por esse estado das coisas.
A
linguagem desses dois meliantes, o João e o José, merece uns reparos. Não foi
por isto que se rompeu uma sólida aposentadoria dum intelectual em pleno
exercício físico contrário e afrontoso se não às cervejas às barrigas. É que a
gente é só ligar a televisão (não a enlouquecer) é só premer o comutador
imediato surge além da propaganda casos de violência e crime envolvendo drogas
e drogados. Os heróis depoentes e ainda não presos ou presos mas soltos pela
injustiça (o velho hábito: a polícia prende, a justiça solta e manda prender de
novo e novamente dá soltura); enfim os participantes apreciando talvez aparecer
no vídeo tagarela ou se calam por instrução do advogado ou somem para sempre
após blá-blá-blá entretanto permanece o conhecimento da coisa. Até o ‘gingado’
de suas vozes é costumeiro, cultural? a enriquecer o cotidiano e o folclore
desta época; são as vozes dos que se tratam ‘nóias’ e dos traficantes pequenos nesse grande mundo bandido. Tem um
certo quê de sons e palavras características nesse linguajar, de modo que tanta
vulgaridade chega a ser marca quase registrada a dar o conceito desse tipo de
gente, gente também sim assim como o escriba é gente, sem usar dessa forma barata
de se expressar. Enfim uma língua de presídio. Desse tipo o diálogo entre os
dois conquistadores ali nesta frente frente à frente se metralhando com vozes
gingadas; não bem diálogo, este sendo momento em que se põe a limpo educadamente
no possível as coisas dentro da compreensão civilizada. Não! aqui é a barbárie
a grosseria solta destravada e suja, de língua medonha no palavreado de baixa
categoria da sub-camada social, a fala da ralé mais desprezível na opinião
burguesa decente e temerosa, esta gente que se diz condenada à prisão no lar enquanto
livre a bandidagem! Pode até não ser assim, assim se expressa o pequeno
burguês, não só nesta periferia mas em qualquer lugar onde o burguês estiver. O
fato essencial é que ambos discutidores usam dessa sub-linguagem no diálogo que
travam, bem agressivo e inclusive perderia a condição de diálogo à chegada dos
dois velhos ao portão, sobretudo com as instâncias de José, o velho avô, a
pedir que tanto o xará quanto João se demovessem se fossem dali com respeito e
tal; quase imediato vem para junto deles a presa Luzia a discutir com ambos,
ambos desejando certamente cada um por seu direito ser o melhor vilão! Portanto
não mais a conversa um diálogo, não são apenas dois seres a se falar porém com
certeza agora todos a se desfeitear, mais os homens desfeiteando a princesa
pomo da discórdia ou pivô do rebuliço...
Virou
um imbróglio, primeiro bem caracterizado e depois com ótimas apelações à
turbulência das vozes e da agressão física!
Os
conquistadores baratos se puseram a empurrar-se, mormente o mais forte deles
contra o mais fraco; minutos incontáveis se socaram se esbofetearam, parando
vez que outra a indagar à princesa quem seu favorito; isto num palavreado
inteligível aos três, demonstrando a baixaria na minha frente. Em dado instante
ultrapassam limites, extrapolando inclusive o linguajar com sonoros palavrões!
A própria ‘inatacável’ pivô da questão em vias de fatos tendendo já ao crime
(felizmente no caso não havendo arma ou...) ela mesmo solta ofensas chãs contra
os dois pretendentes. Ao final iria acrescer num alto e bom som que por ambos
rapazes serem tão desclassificados mereceriam morrer, aí contida pelos seus, o
choro de Maria se ofendendo na sua concepção religiosa e segura também pelo
avô, o qual ficou do princípio ao fim indo de cá pra lá de lá pra cá a tentar
conter aqueles brutos, ele miúdo de físico fraco e velho, portanto outra vez
fraco. Acusações e defesas-acusações atingiram altos decibéis, curiosamente sem
aplausos, claro, não claro totalmente por não haver aparecido curiosos, amiúde
farejando entreveros na rua, quem sabe também escondidos pelas frestas de suas
respectivas janelas...
Nesse
vai-não-vai o velho José, cansado de intimar e não podendo segurar o José novo
e também o adversário talvez inimigo a pararem e partir deixando na paz
possível a vila; então correu como pôde ao vizinho: “seu Tonho, chamou, chame a
polícia!” Alerta suficiente aos ouvidos dos briguentos, sem contudo acalmá-los.
Um deles, o João Conquistador parece, tenta escalar a muralha da residência
pobre, voar por cima da princesa lá no quintal do imóvel, para tirar tudo a
limpo. Puxado com esperneamento pra baixo pelos Zés velho e novo, desce enfurecido
e tenta socar violentamente o rival. Nisso entra na confusão a interessada e
semelhante leva sopapo do mais nervoso, cai, cai igualmente socado o rival e
agora estando a começar uma sessão de chutes e o pisoteio, quando o vizinho
aparece na sua motocicleta dizendo que a lei vinha vindo!
Os
conquistadores então se acalmam um pouco. Nesse ponto e a seguir vem se não um
acordo formal final e feliz, um final talvez de humor duvidoso. Não se
esperando o escritor desaposentado concluir “e viveram felizes para todo e
sempre” no caduco estilo de era uma vez.
6° - Não tem
mais vez “era uma vez” nas conclusões apressadas, visto andar já o epílogo da
cena – a deixar desconcertada até uma estória de luzia, imprevistas estória e
luzia. Luzia decerto presenciando um fim inesperado... Ambos invasores conquistadores
batedores quiçá vencedores-perdedores se puseram à desocupação da área de
embate e fogem... Ocorrendo um inusitado: a motoca de um dos brigões, ofendida
por não participar dos murros, não quer funcionar. Então o mais fraco ou o mais
forte da dupla contendora se põe a empurrar o veículo magrela a fim de pegar no
tranco; daí, funcionando, sobe na garupa do inimigo, a desaparecerem na ameaça
do aparecimento da polícia, a polícia sem pressa e sempre inimiga dos inimigos...
De
fato a lei chega. Matraca confabula com seu Zé Velho sobre o assunto do pedido
de intervenção legal, preenche sabiamente suas fichas técnicas tidas e ditas
‘beós’ e se vai. A única vítima, caso não sejam vítimas a estória nem a
ginástica, a principal vítima já se surrupiara antes trepada na garupa do seu mototaxista
habitual; não ficaria a constatar a cor do carro oficial da lei... Constatar
não: registrar, pois registrar é próprio de aposentadorias e das loucuras.
Marília abril
2014
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