sábado, 24 de agosto de 2019

Uma Estória Suborna a Aposentadoria de um Escritor


Uma Estória Suborna a Aposentadoria de
um Escritor

- Introito curto. Ontem, minto, anteontem, já havendo antes avisado todo mundo desconhecido haver parado de rabiscar porcarias; sabendo-se embora que uma estória e mais as bem-comportadas não ultrapassam limites superiores e menos os inferiores – eis que dá a cara uma. Uma!
A gente deseja comportar-se à altura como fosse a gente um nada; um nada que fala come defeca dorme sonha, sonha parcamente que seja, seja dormindo por força da natureza seja acordado a criar sempre num sonho absurdo para não morrer ou só existir um pouquinho em pesadelo manso da vaidade e... ah ih oh uh por que não tê-la se a vaidade é característica humana! a gente tem e pronto; não tem gente na gente conhecida e bem conhecida por sua ignorância ou tão só se apresentando tímida mas a publicar contos novelas e romances? tem sim gente assim, tal gente a cumprir o mando dessa característica tão negativa quiçá positiva, conforme o caso: este positiva o negativo.
Eis que surge (surge uma estória abobalhada a impor-se ou somente aparecendo por aparecer como ninguém tendo nada com isso e às vezes nem se notando a bobinha... Não isso:) ei-la na forma natural de se mostrar, existindo se não na pele nos olhos, na cara da gente.
Bem, para não contar a estória ou já o fazendo porque não se pode fugir da realidade que se vê se sente se sofre mesmo! para tanto em tanto não fazendo esforço a me calar, narro primeiramente como foi que a dita cuja apareceu. Apenas vênia peço posso? passo a narrar ou descrever o como da coisa. No entanto – aqui novo pedido de vênia – no entretanto fá-lo-ei noutro capítulo.

- Um, dois, dois pra lá, três pra cá, alevanta abaixa aspira solta respira descansa cansa... ah, fazia um escritor naquele tempo, importa lá qual tempo importa o escritor, fazia sua ginástica matinal. Matinal!? qual o quê. Exercício físico madrugando pois nem a claridade se mostrava, quando ela apareceu...
Eu, eu? eu existo, ou não poderia narrar o absurdo do que vi aí aqui na frente; um, dois, dois pra lá, três pra cá e tudo o mais na sistemática ginástica nada escolástica e até mundana como só o homem do povo consegue fazer: faz um dia, assim como se promete não comer tanto açúcar tanta gordura tanto volume em tanta massa a abarrotar o prato se envergonhando no restaurante popular, aí todo mundo se volta pra gente e a gente bedelha o bedelho de todo mundo olhando a montanha: que é que vocês têm com isso! isso posto ainda completa: “sou eu não vocês quem pagará a conta no caixa”. Deixemos todo mundo nesse ver-nos na batalha campal mirando a gente deglutir feijão arroz e qualquer proteína.
Enfim fazia ginástica a driblar o escuro o cinza o sol o frio o vento o tudo o nada lá fora, aqui dentro nos lances a chupar ar soltar ar flexionar membros remexer juntas em fazer com isso barulhinhos na secura – o sargentão no exército dizia estarmos quebrando pés de milho na roça quando na educação física mas ele era um gozador e agora estou sozinho e mal acompanhado da cena que presencio na rua – em suma me sacolejava nos movimentos da ginástica, quando ela apareceu... ela a estória? ela a estória.
Forço um pouco meus gestos, alevanto-me nas pontas dos pés, sugo o ar bebo o ar como o todo lá de fora, encho os pulmões a quase estourar e daí, cansado ou só obedecendo imposição técnica de educação corpórea, solto o ar preso; ele feliz da vida sai estrondosamente e decerto aquece ou malcheira (se não existir malcheirar a gente inventa para agradar o ar preso-solto) malcheira o ambiente enquanto prometo e imediato me ponho a repetir a dose: um dois três pra lá etc. e tal e é quando ela surge! ela a estória? não, ela a Luzia. Quem a Luzia. Quer saber? leia a estória, pois ela surgiu... A Luzia? a estória da Luzia. Ninguém ainda sabendo que a jovem se chamando no cartório Luzia, ou melhor: eu não sabia, sabia o avô, sabia sábia a avó, sabia claro saber sabia a mãe da moça o pai não e nunca a mãe contou a ele e pra quê saber se andando por aí perdido ou preso e por isso mais perdido, sequer o homem tendo conhecimento que uns carinhos por cima duma qualquer mulherinha pudesse ter engendrado uma bela garota; em menina a mãe da menina fora linda e agora o desgaste dessa mãe da rapariga (cuidado temamos certas conotações ligadas à interpretação dessa palavra) agora o tempo deixa a pobre senhora apenas mulher mais ou menos sofrida e assim as duas fêmeas da espécie somente bonitas ou passáveis; o que não resume tais existentes a viver existência de fantasias sofrimentos e inclusive constrangimentos, estes que são sofrimentozinhos delicados educados contidos em sua vergonha.
Acabo meus exercícios, doem juntas todas juntas na dor e no cansaço e... não, não acabo: ela não deixa.
Ela a estória?
Ela a Luzia?
Elas ambas.
E os outros também, visto não existirmos e não existir alguém sem o parâmetro do existir dos outros em torno, dos quais o terceiro capítulo se encarregará mostrar.

- Uma parada para descanso, não em minha ginástica caipira e feita sem ordem num ferir técnicas e ciências; admitidos abusinhos e esquecimentos; por exemplo, tem dia que faço tem outro que me esqueço fazer; num faço de manhã, noutro vou tratar outras coisas e me esqueço da coisa lembro tarde ou faço exercício de tarde ou então não faço coisa alguma estourada a hora, ora não me exercito por semana ora retomo a manhã ou faço à tarde, ótimo à persistência caipira. Às vezes não, não é por nada de tudo, tudo em nome do pretexto sem causa aparente; ou então estou a executar exercício e não acabo a série por causa dela. Da estória? da estória dela e por causa mesmo dela, do que vejo saindo creio ouço sobre ela e até ouvindo a voz dela. Tem uma vozinha, não me referindo agora à velha dona Maria, senhora pequena tolerante e a querer enquadrar-se como autêntica cristã – o Cristo não afirmou o amor sem condição e sem condição também a tolerância? A velha pratica os postulados do amor e da tolerância agasalhando recebendo a neta, não obstante apupos da realidade e da oposição a tentar impedir o feito cristão de Maria. Não vou antecipar que inclusive a própria genitora da jovem seja declaradamente sua opositora. Está dito.
Portanto suspendo minha ginástica diante o quadro visto da janela quando chupava o ar puro, impuro pela chegada dos integrantes da estória, essa enxerida que apareceu do nada do quase nada a atrapalhar o anterior casamento de minha aposentadoria como contador de estórias, quiçá a mostrá-las a outrem para satisfazer a sanha de minha vaidade, a vaidade que os teimosos teimam dizer uma característica humana e a fim de não deixar ser gente, o escriba gente. Suspendo a ginástica, fecho a janela de passar ar puro, envergonhado agora pela vergonha que a educação nos manda expressar fechando olhos, estes da casa e não os meus bem abertos; encosto portanto as partes da janela para não me verem que vejo o que vejo (e como!) o que fazem; visto ser coisa feia e condenável assistir a briga de vizinhos... Mais não digo, digo apenas no quarto capítulo.

- À sorrelfa... será que foi à sorrelfa? sim foi, eu mero ser existente sequer pensando nela, nela estória? nela menina morena aqueles oculões na frente dos olhos pequenos – tem gente que usa óculos normais, o comum do ser deixa normal de tanto se ver e a gente fica a pensar parte a parte como parte da natureza e não é absolutamente o caso dela, dela estória? caso dela Luzia, morena magra (claro, visto não comer ou seja: nunca a vi comer, para ficar mais claro) magra sim, não se pense esquelética, morena sem aqui recursos de linguagem sem-vergonha ou de má-fé a sugerir negruras e aliviar a má-fé numa expressão “morena” para não ferir educação e isto se vê quando alguém se dirige a um herdeiro da sofrida África negra; até a palavra preto é proibida a evitar conotações maldosas e algum processo judicial na cacunda da gente... Não. Não Luzia, um caso de morena branca queimada pelo sol do milênio incidente nos seus ancestrais, tanto assim que a mãe bonita desgastada de Luzia é também branca, branca bronca, nisto um lembrete porque ofendera os próprios pais: “vocês, falou a Joana, vocês irão se arrepender dar guarida a essa peste (peste ou Luzia): verão o mundo de machos sem-vergonha todos dias – exagerou a mãe da filha à mãe dela – todos vagabundos a procurar Luzia!” Se arrependerão logo em dar guarida a esas... (então se xingou bravamente e é preciso esclarecer que a mãe tocara a Luzia de sua casa recentemente, auxiliada pelo esposo).
Contudo a mãe da filha, da filha da mãe, a mãe se enganara até ontem, minto, anteontem ou mesmo trasanteontem quando a diabinha me trouxe, a romper uma decisão de jamais voltar escrever contos novelas romances daqui (daquele de lá) por diante, me trouxe a cena que vi, manchando minha promessa. Aos amigos inexistentes e em falta deles os desconhecidos que passam aí na rua dos buracos em asfalto rachando rachado, a eles garantira haver parado a loucura tornando ao estado normal da gente, o escriba se pensando gente.
Como andava o autor destas bobagens presente à cena... não a cena de hoje, ontem, anteontem, trasanteontem: a cena anterior da mãe pondo em dúvida a moral da filha única dela, mãe, não a moral da filha pois que atribuindo a filha dela vir duma prostituta, assim mesmo amada do Mestre se diz; portanto Joana se xingando a xingar Luzia, além de acusar seus próprios pais Zé e Maria de burrice aceitando acatando uma rameirazinha na casa e a esperar mil homens, se bem que nesse mal agora a cena mostrara-me apenas dois postulantes a conquistadores... Retomemos: como estava o escriba presente naquele passado no dia ainda noite buliçosa dessas de berros, Joana mãe de Luzia gritava qual mundana, embora recatada mormente quando em visita aos pais e a trazer o marido e os filhos, sem a filha porque Luzia a única na casa da mãe e do padrasto enquanto que os manos seus são mui machos e tendo ainda um pequeno como raspa do tacho que não imagina ser machinho e precisar defender a espécie contra a oposição feminina da irmã da mãe e das outras no mundo como requer o mundo; gritava berrava estertorava arrebentava meus ouvidos e as orelhas doutros vizinhos e a chocar uma vila pacata a pensar bem do casal silencioso de velhinhos aí da frente, a frente de minha janela por acaso indiscreta. Berrava o absurdo sem solução. Os absurdos não têm solução. O caso específico da Luzia parece não ter solução.
Maior abandonada, a moça arranjou emprego e encrencas ao longo de curto período aí em frente residindo. É provável ser fácil arranjar encrenca; ao menos mais com mais encrencas outras pois que deve haver alguma paz num viver empregada, indo ao serviço e tornando ao sossego da paz do lar doce lar, aqui um emprestado a si pelos avós pobres; pobres e trabalhadores porque como sobreviver da aposentadoria de salário mínimo uma família simples e necessitada? Então Maria retalha e cose roupas de fora e seu consorte com pouca sorte, sabe-se, procura recicláveis para vender e recolher moedinhas à sobrevivência. Acontece que nos últimos meses aparece outra boca. Sim, come pouco, gasta bastante a ficar mais bonita, tem vez que se pensa menos feia, talvez abuse na economia ou é que a volubilidade do pensamento da vizinhança atribua uma possível exploração dos seus homens – o fato é que Luzia é modesta e contida. Assim sobrando como sobra negativa apenas seus desandos apesar de tornar apenas uma vez na semana passada quase em coma alcoólico, sendo trazida por gente de boa vontade ao vê-la na sarjeta; e imediatamente levada ao pronto-socorro após entrega da neta aos avós na madrugada fria. Demais dias são noites normais ao recolhimento do cansaço dessa jovem infeliz. Volta grita gritinho educado Maria num som “vó!” e a velha abre-lhe o portãozinho de gente, tendo o portão de carro no imóvel sem uso dada a pobreza sem miséria dos velhotes parentes. Entra. Some, mergulha no silêncio da madrugada, do gasto do abuso talvez de sua noite após o horário de trabalho e no silêncio do ciciado a esconder um provável escândalo; isto porque a família de idosos é religiosa e educada: engolirá decerto o sofrimento, todo sofrimento no mundo não deveria ser de exportação, poderia tão só ser um abominável embutido contido dentro de quatro paredes. Contudo não é assim o mundo. Nem o mundinho de José e Maria; onde esta mais fala e fala mais à vizinha confidente que a José, José menos apita, porém brabo fala alto além da normalidade ou do costume contra as injustiças do mundo, como por exemplo o de um comerciante que lhe abusa dos bolsos... De resto o homenzinho silencia ou comenta baixo com sua Maria, mesmo e sobretudo os desmandos da neta, terceira habitante do lar nessa rua de buracos no asfalto rachado rachando.
Racharam o mundo...

- No exato momento em que pensava o mundo, o mundo na amostra que se oferecia não expondo ainda as rachaduras no leito do asfalto sujo (porque ninguém imaginaria parar o povo que passa à noite e atira a esmo pedra detrito resto e demais sujidades às residências limparem de manhã, antes que isso o morador vive a lamentar a morte da educação do povo) não expondo pelo escuro do claro que se desenhava no horizonte; nesse momento eles chegam... não, ele chega, ele o mais afoito entre conquistadores de jovens luzias ou não luzias; ele ‘tataratando’ sua moto, curiosamente não mui barulhenta e isto não em respeito à vizinhança que dorme e nem mesmo por outro lado a acordar chamar implorar não propriamente e sim a impor, até exigindo Luzia. Imediato, entre um e dois e três e aspiração e expiração numa ginástica caipira se bem me lembro, imediato parei num mero recreio bem-vindo visto não estar naquele instante com vontade flexionar-me – tem vez que a gente não se importa cresça o ventre por mil cervejas, cresça ou estufe como queiram: não tem movimento que faça de fato parar o inchaço da barriga, a gente justifica assim e assim suspende os lances e além do mais a ginástica não é grande problema. Suspendo a ginástica ao escutar o chamado, logo julgando fosse o seu ‘mototaxista’, ela tem certa preferência por um profissional e esse vem diário para levá-la ao trabalho, no retorno não posso garantir seja o mesmo, não  propriamente por andar em aposentadoria na criação de estórias mas simplesmente por andar dormindo e não a vejo chegar entrar sumir no portãozinho e no corredor e deste ao fim nos fundos da casa dos avós e agora dela também; contudo a chegada do rapaz manhãzinha isso posso até cronometrar e adivinhar. Sobe à garupa, antes bota o penico na cabeça... brinco sempre com quem se pode brincar que o capacete cor de rosa dela e o doutra cor doutrem me parece um urinol de cabeça pra baixo; tal brincadeira me livra ter saudade do vício eterno de escrever, do qual já dissera estar aposentado e me lembro relembro então haver chegado a Luzia e a estória da Luzia a romper quebrar desvirginar uma aposentadoria recente decente demente diz-me matreira a estória da Luzia, a Luzia ali na frente a roncar, não: a dormir ou já se apressando se vestindo engolindo o café adocicado de Maria (isto suposição por força da experiência caipira, porque todas casas caipiras de antanho faziam café fraco forte no adoçar; dona Maria ex-roceira e daí a conclusão nada apressada, prossigamos:) Então ela abre-fecha o portãozinho, não diz melifluamente “a sua bênção vovó querida” nem mesmo tchau, secarrona; bate a folha do portão no batente numa forma mais ou menos escandalosa e deseducada, e a seguir pula na garupa do seu homem do momento, compreensível por sinal; ele ‘tatarata’ o peso, pesinho, dela agora, arranca a acelerar mais a barulheira da barulhenta e somem por entre os rachos rachados rachando no asfalto desta rua.
Porém o costumeiro mototaxista não era, era aviso enganoso. Depois saberia pior do que enganoso... Antes fosse o motociclista conhecido porque poderia o escriba em descanso e na aposentadoria merecida continuar o exercício, interrompeu a ginástica sem ao menos suar um pouco. Vê então um dos homens da Luzia em carne e osso como se diz. Mais ainda, brabo. Chama grita impõe assusta o mundo, até ouvindo isso os passantes passando a madrugar ao trabalho ou às suas respectivas ocupações a pé em moto em carro mas ninguém notando decerto, não sendo alguém ali pertinho a fazer ginástica e possivelmente o casal de velhos. Todavia a princesa não deu as caras ao caro príncipe bobamente encantado. Este vocifera, promete, antes sugerira e quase falou manso pra não espantar com certeza a vítima. Cansa. Toma o veículo já desligado liga balança a cabeça e se vai. Volta! Entremeio vem outro e segundo conquistador... Ela não escuta este novo herói de novela fracassada, ou enfim igualmente não atende; terá falado comentado com os avós sua temência; a gente supõe haver conversado com os seus, suposição apenas; o que minutos mais fica claro quando ocorre um desastre... O primeiro torna e encontra o segundo pleiteante pleiteando o que pleitear junto uma bela; e não aprecia. Apreciar? qual o quê. Se desaforam, se ofendem, se xingam e aqui aparece uma novidade velha como o mundo – o linguajar da malta maltrapilha ou pior: mancomunada com o mundo do crime, droga furto assalto assassinato e demais coisinhas miúdas na má-fé, isto que o vulgo defende com a expressão “levar vantagem em tudo”. Para encurtar ao entendimento, primeiro do escritor folgado e ora na aposentadoria a se convencer, por nada ter que fazer ou não; por isso se perguntando que tal uma ginastiquinha? Depois esclarecendo para quem tenha coragem ler a loucura. Já sendo uma loucura parar abrir a porta à estória, esta estória duma frágil jovem de nome Luzia magrinha moreninha atrevidinha atrativinha, diria safadinha a mãe da filha com dedo em riste a acusar sua mãe avó da neta por esse estado das coisas.
A linguagem desses dois meliantes, o João e o José, merece uns reparos. Não foi por isto que se rompeu uma sólida aposentadoria dum intelectual em pleno exercício físico contrário e afrontoso se não às cervejas às barrigas. É que a gente é só ligar a televisão (não a enlouquecer) é só premer o comutador imediato surge além da propaganda casos de violência e crime envolvendo drogas e drogados. Os heróis depoentes e ainda não presos ou presos mas soltos pela injustiça (o velho hábito: a polícia prende, a justiça solta e manda prender de novo e novamente dá soltura); enfim os participantes apreciando talvez aparecer no vídeo tagarela ou se calam por instrução do advogado ou somem para sempre após blá-blá-blá entretanto permanece o conhecimento da coisa. Até o ‘gingado’ de suas vozes é costumeiro, cultural? a enriquecer o cotidiano e o folclore desta época; são as vozes dos que se tratam ‘nóias’ e dos traficantes pequenos nesse grande mundo bandido. Tem um certo quê de sons e palavras características nesse linguajar, de modo que tanta vulgaridade chega a ser marca quase registrada a dar o conceito desse tipo de gente, gente também sim assim como o escriba é gente, sem usar dessa forma barata de se expressar. Enfim uma língua de presídio. Desse tipo o diálogo entre os dois conquistadores ali nesta frente frente à frente se metralhando com vozes gingadas; não bem diálogo, este sendo momento em que se põe a limpo educadamente no possível as coisas dentro da compreensão civilizada. Não! aqui é a barbárie a grosseria solta destravada e suja, de língua medonha no palavreado de baixa categoria da sub-camada social, a fala da ralé mais desprezível na opinião burguesa decente e temerosa, esta gente que se diz condenada à prisão no lar enquanto livre a bandidagem! Pode até não ser assim, assim se expressa o pequeno burguês, não só nesta periferia mas em qualquer lugar onde o burguês estiver. O fato essencial é que ambos discutidores usam dessa sub-linguagem no diálogo que travam, bem agressivo e inclusive perderia a condição de diálogo à chegada dos dois velhos ao portão, sobretudo com as instâncias de José, o velho avô, a pedir que tanto o xará quanto João se demovessem se fossem dali com respeito e tal; quase imediato vem para junto deles a presa Luzia a discutir com ambos, ambos desejando certamente cada um por seu direito ser o melhor vilão! Portanto não mais a conversa um diálogo, não são apenas dois seres a se falar porém com certeza agora todos a se desfeitear, mais os homens desfeiteando a princesa pomo da discórdia ou pivô do rebuliço...
Virou um imbróglio, primeiro bem caracterizado e depois com ótimas apelações à turbulência das vozes e da agressão física!
Os conquistadores baratos se puseram a empurrar-se, mormente o mais forte deles contra o mais fraco; minutos incontáveis se socaram se esbofetearam, parando vez que outra a indagar à princesa quem seu favorito; isto num palavreado inteligível aos três, demonstrando a baixaria na minha frente. Em dado instante ultrapassam limites, extrapolando inclusive o linguajar com sonoros palavrões! A própria ‘inatacável’ pivô da questão em vias de fatos tendendo já ao crime (felizmente no caso não havendo arma ou...) ela mesmo solta ofensas chãs contra os dois pretendentes. Ao final iria acrescer num alto e bom som que por ambos rapazes serem tão desclassificados mereceriam morrer, aí contida pelos seus, o choro de Maria se ofendendo na sua concepção religiosa e segura também pelo avô, o qual ficou do princípio ao fim indo de cá pra lá de lá pra cá a tentar conter aqueles brutos, ele miúdo de físico fraco e velho, portanto outra vez fraco. Acusações e defesas-acusações atingiram altos decibéis, curiosamente sem aplausos, claro, não claro totalmente por não haver aparecido curiosos, amiúde farejando entreveros na rua, quem sabe também escondidos pelas frestas de suas respectivas janelas...
Nesse vai-não-vai o velho José, cansado de intimar e não podendo segurar o José novo e também o adversário talvez inimigo a pararem e partir deixando na paz possível a vila; então correu como pôde ao vizinho: “seu Tonho, chamou, chame a polícia!” Alerta suficiente aos ouvidos dos briguentos, sem contudo acalmá-los. Um deles, o João Conquistador parece, tenta escalar a muralha da residência pobre, voar por cima da princesa lá no quintal do imóvel, para tirar tudo a limpo. Puxado com esperneamento pra baixo pelos Zés velho e novo, desce enfurecido e tenta socar violentamente o rival. Nisso entra na confusão a interessada e semelhante leva sopapo do mais nervoso, cai, cai igualmente socado o rival e agora estando a começar uma sessão de chutes e o pisoteio, quando o vizinho aparece na sua motocicleta dizendo que a lei vinha vindo!
Os conquistadores então se acalmam um pouco. Nesse ponto e a seguir vem se não um acordo formal final e feliz, um final talvez de humor duvidoso. Não se esperando o escritor desaposentado concluir “e viveram felizes para todo e sempre” no caduco estilo de era uma vez.

- Não tem mais vez “era uma vez” nas conclusões apressadas, visto andar já o epílogo da cena – a deixar desconcertada até uma estória de luzia, imprevistas estória e luzia. Luzia decerto presenciando um fim inesperado... Ambos invasores conquistadores batedores quiçá vencedores-perdedores se puseram à desocupação da área de embate e fogem... Ocorrendo um inusitado: a motoca de um dos brigões, ofendida por não participar dos murros, não quer funcionar. Então o mais fraco ou o mais forte da dupla contendora se põe a empurrar o veículo magrela a fim de pegar no tranco; daí, funcionando, sobe na garupa do inimigo, a desaparecerem na ameaça do aparecimento da polícia, a polícia sem pressa e sempre inimiga dos inimigos...
De fato a lei chega. Matraca confabula com seu Zé Velho sobre o assunto do pedido de intervenção legal, preenche sabiamente suas fichas técnicas tidas e ditas ‘beós’ e se vai. A única vítima, caso não sejam vítimas a estória nem a ginástica, a principal vítima já se surrupiara antes trepada na garupa do seu mototaxista habitual; não ficaria a constatar a cor do carro oficial da lei... Constatar não: registrar, pois registrar é próprio de aposentadorias e das loucuras.
Marília   abril  2014 



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