terça-feira, 27 de agosto de 2019

o executivo


o executivo

cap.1 – preâmbulo do epílogo   
cap.2 – o zoológico
cap.3 – epílogo do preâmbulo
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adversão 1ª - o texto que segue vai em ‘minusculização’, pois nada é maior nem menor, nada, a maiúscula por exemplo.
adversão 2ª - não existe epílogo porque tudo é recomeço; só existe a ideia absurda do absoluto; portanto o início podemos tomá-lo apenas na sua continuação, não havendo interrupção nunca; enquanto o fim é um abuso da linguagem no parar um pouco em cansaço do movimento; assim visto a formalização acima em três capítulos: somente formalização na roda viva...
adversão 3ª - estas linhas pretendem virar obra de arte, não lição de moral.

cap. 1 -  preâmbulo do epílogo
o herói, toda estória tem um ou mais heróis um deles sendo o principal aqui o caso, herói negativo mesmo porque o mundo anda cansado com tantos positivos e na prática até parecendo haver bem mais os algozes que são vítimas ou praticam a ‘vitimia’, ou seja este vocábulo inventado agora a dizer o fazedor de vítimas.  deu para entender?  também entender para quê! vamos em frente.  trata-se dum executivo duma certa multinacional ou titerezinho dum imperador poderoso lá longe, desse tipo que desconhecemos donde é quem é e até que ponto manda na gente a gente sendo uma fraçãozinha dos bilhões no planeta. enfim é um chefe, encontra-se no seu escritório tido por central mas a rigor apenas subchefia da chefia geral global internacional ultranacional contudo ninguém comete o absurdo em pensar nisso e assim o executivo vira chefe.  a submissão olha pro lado do chefe e da situação dela e do chefe e também da condição geral que se olha e não se vê vendo, olha com temor respeito ou temor respeitosamente como se respeita o dinheiro sobretudo a nota verde com um ícone de peruca se rindo dela.  bem.  olha ela a montanha que avassala com sua corpulência sua mesa.  a mesa também mas mais o chefe grandalhão claro, claro, dolicocéfalo claro, claros olhos azuis que não se digna sequer olhar ao mundinho ali a seu redor;  enfim o chefe é volumoso;  a mesona igualmente volumosa quem sabe mais a abarcar o quê abarca;  trata-se duma mesona dessas grandes com placa de vidro em cima em baixo avisos retratos, um é mais familiar que os outros domésticos: um dos seus filhos desses que um dia a família fazer virar doutor imperador essas coisas e a moto não permitiu, donde se deduz que a motocicleta dessas com mil e tantas cilindradas é ainda mais poderosa que as famílias poderosas;  e então o chefão se torna ao seu próprio ver chefãozinho e vê a foto com saudade; tem mais retratos de outros parentes mais e outras, muitas esposas, ex-esposas e daí revê no cineminha da cabeça os tormentos as crises os divórcios e as separações com os respectivos processos...  ih os processos!  ai os processos ali, tem mil deles em cima de sua escrivaninha empilhados abarrotando o todo, processos com os debaixo claro que são os primeiros a necessitar anuência cuidado análise vistoria que seja porém cuidado atenção ou descaso, em suma a ser vistoriados quiçá carimbados assinados despachados, o boy vaivém no seu vai e vem pesado com tantos papéis, ora será seria que o mundo agora não acabasse em fogueira de papéis e aí não poderia inverter no sentido de o primeiro virar segundo dilúvio apagando o segundo agora primeiro num fogaréu a queimar papéis ah quanta besteira a gente pensa pois o chefão não passa de gente, gente classificada grande poderosa todavia gente;  tem o boy tem a secretária, a secretária acabou de colocar uma pasta por cima em cima dos processos mais velhos e com primazia, ela depositou uma certa pasta prenhe de papéis, um vistoso processo a despachar, antes com análise criteriosa, se possível;  ela, ah a secretária.  a secretária não chega para ver o andamento dos parados abarrotados papéis, só a depositar um deles a mais para enriquecer os calhamaços ao chefe vendo ele aquilo horrorizado.  ela, não eles, é bela, as outras mulheres secretárias ou não foram belas, belas as ex-esposas todas e belas as domésticas das quais abusou anos seguidos para se distrair; é tão ou mais bela que as outras que teve em vários países pelos quais destacado a servir na arte de mandar.  ela é mais.  sorri em graça e beleza, embora da gente nativa nada bela.  antes a gente da terra uns macacoides a imitar gente nos hábitos língua e necessidades da civilização, contudo a secretária é bonita, duma beleza sui generis pois o que deixa as outras mulheres feias faz nela a beleza talvez suprema.  é baixa na estatura e esguia, rápida nos movimentos no entanto sensual ou por isso sensual, trejeitosa e com muita filigrana no trato e o mais curioso a se empinar belamente atraentemente como deusa em cima dos saltos caprichando no andar.  puxa vida, até fazendo o sonho sonhar sonhando um sonho!  ah essa secretária...  o melhor nisso é seu olhar e o dizer, os quais prometem muito, tudo quem sabe, e negam ao mesmo tempo.  estaca a secretária, resvala a vista na pilha da escrivaninha do doutor e examina de fato o doutor, se o doutor estaria a examiná-la comê-la com os olhos... e está.  sorri outra vez.  quase nada fala, pouco pode transmitir em nossa língua culta pensa o homem, só conhecendo bem a sua língua e a dos outros mequetrefes ali e no país.  assim mesmo diz que se põe à disposição do chefe, o chefe agradece extasiado ou é que os meses o afundaram na solidão e na necessidade e por isso hiperbolizando a mulher que tem ao seu lado.  ela chegara exalando seu cheiro, cheira ele aquele cheiro fragranciado do perfume desconhecido, desconhecido dele, atrativo embora e sonha;  sonha um dia poder conquistá-la, mesmo sendo uma fêmea daquela sub-raça.  não obstante vem-lhe o sentimento de temor do tipo: será ainda poderei mostrar a essa submissa criatura meu machismo! não sabe se pode sequer responder, e mesmo o que dirá a contento.  agora olha vê observa ‘come’ até aquela jovem insinuante e de rara beleza.  foge então do constrangimento, mexe com seus papéis, como interessado, preocupado, ocupado...  será casada? se pergunta e se responde “isso pouco importa”, importa-lhe no momento sonhar nesse agora.  fá-la-ei permanecer ajudar-me até tarde amanhã;  olha nessas intenções o sofá o tapete felpudo e macio olha o ambiente no salão de escritório como a pedir anuência aos seus planos e desejos.  vai enfim propor-lhe um serão a desafogar aquela inundação de papéis a exigir um como fim de mundo, uma arca a esse final.  examina mais uma vez a moça, a moça faz um trejeitinho gostoso faz a seguir um meneio de cabeça em cumprimento e se vai, fecha educado a porta trancando lá na sala o chefe.    ele ainda a pensar o como será noutro dia (noite) o diálogo dele com um ser belo mas de parcas palavras em nossa língua superior e sofisticada.  é sempre assim nos ameaços e nos sonhos, diário, com a linda secretária.  essa mulher carismática tem servido além da concupiscência ao chefe para comunicação com a arraia-miúda na empresa, pois que ela se comunica em fala rápida com seus soquinhos guturais, que é o ótimo dessa péssima língua bárbara nacional, à sua gente ali empregada, é espécie de intérprete de sua gente grosseira, porém empregada como fosse um prêmio no país do subemprego do desemprego do desespero, em suma transmite a secretária à gente miúda dos lances de baixo da escada as ordens reais através do executivo.  o executivo dá-lhe instruções, a jovem passando isso aos sub-homens no que se deve fazer; e supõe o chefe que o faça a contento, haja vista a expressão de espanto dos aborígenes e o imediato cumprimento em correria dos braçais.  ri disso por dentro o sério executivo;  agradece educada civilizada primeiro-mundistamente aquela lugar-tenente ou apenas formosa secretária e torna ele em chefe aos seus afazeres, agora bem pouco afazer mais de fato a acumular afazer.  Assim examina de novo aquela montanha cujo pico é pouso da última pasta com novo processo que a belíssima criatura depositou em agrado ao seu chefe imediato.  o pico anda alto e não anda lá nos píncaros, ele se mexe cá em baixo na cadeira giratória de ‘nhec-nhecar’ importância e mostrar autoridade.  contudo não mexe uma palha na pilha na solução do problema ao menos no andamento a desavolumar o volume do colosso dessa montanha de processos.  encontra-se exausto e demais cansado numa soma de meses de anos de milênios que não têm piedade da pressa e das necessidades.  assim o executivo chega ao ponto extremo no enfaramento a berrar quase seu enfado.  quase agora, isto é hoje em dia nos dias que correm, agora quase nem sai da fortaleza sequer para almoçar não janta séculos por ordem médica e do regime, recebe a ingerir pelos olhos e pelo nariz a refeição frugal não fosse riquíssima do restaurante de primeiro-mundo encastuado nesse inferno cheio de sub-homens por todo lado;  quase deixando a maior parte ainda ao lixo e ao pessoal da limpeza ter o que fazer a fazer juz ao salário, enquanto rosna baixo os ininteligíveis de seu dialeto de macaco melhorado, despiorado.  enquanto isso o executivo come mais por desencargo de consciência e larga solitário a giratória e sobretudo a carga da carga da mesa e então chama pelo telefone interno o motorista, naturalmente se valendo da língua da língua da secretária a transmitir na língua deles;  convoca o motorista, desce ao motorista e ainda desce ruminando suas coisas dentro do elevador privativo.  chega vê seu chofer.  o chofer é um nativo grosseiro semelhando os outros com a diferença em saber meia dúzia de vocábulos da língua superior e dominante no planeta, espécie de língua franca que todos são obrigados se não a falar entender ou se submeter como entendimento, enquanto a massa assombrada com aquela sabedoria do condutor do carro oficial sabendo pronunciar errado nove ou dez palavras daquele embrulho civilizado.  aliás não precisa sequer dez pois seu chefe e chefe de todos não discutiria negócios nem se lembra aqui filosofia.  entende no entanto as que estão ligadas à sua função e assim liga a ignição funciona a limousine, um automóvel esdrúxulo nesse fim de mundo como quê um trem de alto luxo um pouco mais curto e com um módulo de linguiça mais longo que os demais nas composições populares.  assim aos olhos populares lhes parece também um rei o piloto da limusine, embora ele grunhe igual a eles no som bastardo de sua gente, que o doutor pensa subgente.  entra na limusine aquele doutor que parece um santo semelhando como o sacerdote descreve um santo das alturas do firmamento, e o executivo de qualquer forma é mesmo um ser poderoso.  entra, assenta, examina aquele escritório móvel quase ambulante com seu parco e suficiente mobiliário, que não tem as pilhas mas apenas duas ou três pastas, as mais necessitadas de cuidados e mais inadiáveis, olha o aparelho de televisão, examina apetrechos, cuida do espelho o qual cuida de sua aparência, experimenta o pente, ajeita a cabeleira loura dolicocéfala, aplica-se desodorante, passa o lenço, corrige as vestes, se vê se revê com olhos azuis o verde que deveria cobrir suas esperanças porém nota o negror de cansaço em olheiras e expressão do desgaste.  no entanto ali dentro o ambiente ainda é suportável, pois a tevê mostra agora o exterior pesado escuro vermelho, o vermelho da violência...
foi a custo o se fazer entender pelo lacaio na direção da limusine defendida pelos vidros fumês, o doutor também escondido atrás de seus óculos escuros.  enfim o motorista compreende a ordem liga o veículo, saem lentamente e entram no caos que é o trânsito do centro nessa maluca capital, isso lembrando o mesmo inferno nas outras capitais para onde destacado o executivo anteriormente;  para não fugir à regra do excesso de população e de problemas.  entende o motorista que o chefe deve deixar o acúmulo de responsabilidades, quer fugir delas.  essa situação atira o executivo às lembranças das outras megalópoles e dos seus ex-casamentos e suas complicações: escrivães papéis juízes pensões complicações e a par complicações no trabalho ao degustar o desgastar e desmanchar as montanhas de processos dos quais pretendendo fugir agora.  o carro se movimenta para anda para, encrencas semáforos a grita do povo deselegante e bárbaro a violentar o direito e a civilização querendo virar gente e ainda por cima gente civilizada.  nisso percebe vendedores oferecendo e crianças pedindo, implorações e ofensas; então o chofer lá na frente fecha de vez o seu vidro, gruda-se ao volante, enquanto o doutor lá atrás olha o movimento e teme.   próximo ao veículo andarilhos e conduções os cheiros as poluições, dentro o chefe examina a tela a tela mostra como prêmio às violências perto as guerras longe tornadas ordinárias com a frequência e mostra também no país a violência miúda em crimes sangues ofensas.  as ruas prosseguem congestionadas e não prosseguem: param, todos param, param mesmo os semáforos com seus apagões e desencontrões, ou desatendidos;  à vista um que outro carro novo importado ostensivamente rico e a maioria de veículos aos pedaços caindo de velhos cacos atravancando o atravancado das ruas com nomes pomposos de alamedas, gritaria geral não entendimento individual.  deslocam-se lentamente e o cinema da vida mostra a loucura motorizada a se mexer e a passar na mesma lerdeza dos casebres;  são moradias de lata e de restos de construção, umas em cima das outras em coito aberrante da pobreza e da loucura, parecendo esses prédios em disputa num concurso de feiura e de miséria em que todos merecem o prêmio arquitetônico;  os cheiros agridem os sons agridem o todo agride e agride até seu próprio sofrimento...  entretanto naquele perto naquele momento naquele sofrer o ambiente o ambiente é o que fere mais ao doutor.  sofre, ultrajado, os vendedores mal trajados a agredir a paz.  quando o mequetrefe ao volante fechou o vidro da janela de sua porta do carro do patrão o lacaio não se fechou;  olhou em soslaio ao chefão impávido no compartimento de trás, mas o executivo ordena o prosseguir viagem naquela procissão às cortes infernais e prosseguem horas assim por horas infindáveis.  
o chefe na opinião debaixo é qual um paxá vitorioso, não um ser corroído pelos vermes da preocupação e o acúmulo de fracassos matrimoniais quiçá a sofrer ingerências de outros chefes e de outros paxás no supermundo dos negócios.  contudo o executivo olha as acusações de seus volumosos processos cujos dois ou três representantes descansam na banqueta dentro da limusine à sua vista; e olha também para a televisão de bordo e enquanto ouve já não olha para ver o que se sabe existir que é a confusão no trânsito que os retém; vê interiormente as bombas as guerras as ameaças as trapaças à paz mundial, ouve nitidamente o bate-boca dos maiorais da língua a se desaforar em incompreensão;  e que dizer da língua que fisicamente é a maior arma a destruir o povo moralmente...  e se cala, mas já calado mudo monologando absorto quase: que posso fazer!  se indaga aquele pobre rico rei.  nada faz, examina se está pelo menos ali dentro bem com a opinião do espelho.  o outro mostra em seus vidros reflexos um crânio dolicocéfalo com seus olhos azuis, a arrumar ajeitar a cabeleira alourada aparada no melhor dos profissionais em meio àquela barbárie onde eventualmente reside ou estaciona.  anda o carro, anda um pouco.  vira-se para a janela escura o homem para ver o movimento das escuras pessoas motorizadas ou a pé, gente sentada gente discursando naquela algaravia, gente rindo, crianças daquela gente daquela sub-raça;  nativos descalços pequenos sujos e de olhos como riscados e expressão mongoloide e de aparência mona.  nisso compara seu chofer e constata um macaco também porém um mono melhorado pelo uniforme e por dominar duas ou três expressões da super-raça;  o homezinho vai duro feito um boneco, atento aos desaforos do trânsito e no meio do caos.  não pode fugir a uma grotesca comparação olhando o mequetrefe fardado na direção do carro, uma analogia com sua secretária, embora ela com tais traços entretanto bonita apetitosa enquanto o boneco passado em idade sugere a estupidez e a boçalidade, o horror na visão.  além pelo chofer lhe parecer medroso e se postar como não mais que um capacho.  por fim, achando já insuportável a situação no veículo, grita pelo subalterno e repete o quanto pode e nisto chega a usar tentar usar algumas palavras nativas que aprendeu naquele contato meses, para que o mesmo compreenda;  assim entende um pouco aquele poliglotismo de expediente, ao menos que é preciso fugir do caos por travessas ermas.  viajam horas na periferia quase lúgubre e duma pobreza mais pobre que a miséria da pobreza da zona central congestionada e assim chegam a uma área fresca longe do abafo caloroso do centro da capital, tratando-se duma área aberta e silenciosa;  o lacaio anuncia como possível anunciar: o zoológico.  ora, um jardim zoológico não deixa de ser um lugar bom a fugir da caótica civilização e de seus reles imitadores com seus políticos chefes empresários e medos.

cap. 2 – o zoológico
enfim estão em meio à clareira árvores em torno.  abre a porta ao chefe o criado, sem mesura mas com decência.  desce o doutor, se espreguiça como qualquer mortal se pensando ou não imortal porém poderoso, se espreguiça pelo longo encolhimento dentro, fora aspira aquele ar cheio de cri-cris piados e flores silvestres.  aos poucos o executivo se distancia do seu carro, enquanto o chofer permanece ali de prontidão como é seu mister, chocando o veículo, o chefe o vê nessa atividade já vários metros e balança a cabeça negando ou aceitando a tarefa do subalterno.  começa a ouvir não muito longe os sons da mata à medida que afina a audição, andando com prazer naquele início de liberdade não vigiada;  de repente se depara com um lago imenso a refletir o sol e as aves;  são garças e outras pernaltas que não mais se espantam com a hostilidade humana costumeira e ainda assim resolvem alçar voo em revoada a branquear o céu e o horizonte a se perder.  sorri então pela primeira vez no dia a visita importante.  continua a se deslocar naquela atividade que desde o início já lhe faz bem, sente uma indizível paz;  o sol também sorri e decerto não por se livrar da irritação da poluição da chateação do ramerrão atulhado de processos.   prossegue o caminhar do visitante da alta cúpula dirigente, continua ainda ouvindo a algazarra das aves e de outros bichos pequenos.   para um pouco a observar os recantos dos animais de grande porte, acha o rinoceronte desgracioso, nota a parte dos elefantes e descobre um em vaivém de tromba qual pêndulo de relógio antigo e aí se lembra e pensa no seu último psiquiatra quando se habituou com analistas e a fazer malhação acertando o físico, ainda no estrangeiro, noutro país estrangeiro;  então ri-se do elefante da tromba e do sábio, ri-se de si mesmo inclusive, ri da vida, da existência.    todavia não para, deixa violentamente para trás o analista e suas embromações, deixa outras secretárias que o tornaram refém de tratamentos médicos dos espertalhões;  no pensar para para encontrar a nova bela eficiente sensual secretária, ali, agora lá no centro caótico com suas pilhas volumosas e malfadadas de papéis, isso em mero átimo de instante, na corrida impressionantemente rápida do pensamento, volta acordando no urro de outros animais pesados em outras ilhas e cantos fechados próximos.  nesse momento avista a moradia do gorila.   um só morador, certo lago a impedir a coragem do animalão, a cerca de arame onde estão as visitas.  são mil, tem grupo de meninos decerto escolares, visto o uniforme, em gritaria;  crianças e mesmo adultos naqueles apupos costumeiros e no falar desencontrado risota gargalhar grito, fazem uma que outra imitação do vulto negro nervoso lá além do lago mal cheiroso;  garotos e garotas atiçam o macacão peludo, umas pessoas adultas se pensam crianças e fazem o mesmo;  vão além: atiram objetos, atiram frutas e cascas de fruta enganosamente, chegam a atirar pedras no bicho;  o dono da casa – a rigor de aluguel ou só temporária enquanto não o transportam a outro local ou não lhe oferecem uma fêmea a dividir as tristezas da prisão;  o dono anda nervoso e anda de lá pra cá de cá pra lá impaciente, brabo, desvia-se o quanto pode das balas que o saraivam, toma o que podendo e atira por sua vez na gente, o executivo vê nativos subgente em alvoroço e a brincar naquela estranha diversão.   deve até ser a opinião do mono enfurecido e solitário...  o doutor observa ser um ser grotesco negro peludo enorme desengonçado e nervoso se não completamente neurótico e quem sabe já a precisar também analista como foi seu caso.   arremessa o selvagem igualmente objetos ao deus-dará visando a plateia;  todos riem, certamente ele chora por dentro por fora urra na sua língua e tem ímpetos de estraçalhar a torcida gozadora.  acerta enfim naquele erro alguns visitantes, o que faz com que todos recuem e até fujam.   permanece o executivo, com certeza a turba a se divertir nessa altura já vendo outros prisioneiros para desfastio.   o lugar do macaco anda sujo de pipoca e guloseima espalhadas;  mas lá longe onde está o gorila colossal ainda é mais sujeira e decerto malcheiroso, ah, pensa o executivo, quando chegaria o tratador! noutro dia noutra manhã noutra tarde.   o alto funcionário em fuga de processos e papéis não esperou para constatar, resolveu num ato talvez de loucura galgar o gradil, pular doutro lado, margear a custo escorregando se segurando em não cair na água barrenta do lago isolante e por fim chegar triunfalmente à área proibida do gorila!   uma temeridade sem tamanho.  tem agora pela frente um bem constituído espécime de gorila, curioso inicialmente por aquela visita inesperada e quem sabe indesejável.  assim mesmo venceu seu instinto de curiosidade e ficou pasmado examinando aquele bicho parecido consigo embora branquelo e de olhos azuis.   o doutor riu-se, gargalhou inclusive, da ingenuidade do selvagem a analisá-lo de tão perto quase a cheirá-lo...   então se aproximou mais do brutamontes e de repente...  de repente, embora notando a observação que o animal fazia sobre si, de repente aquele ser de testa curta na cabeça pequena encimando um corpanzil só músculos e pelos negros, de repente gruda-lhe nos cabelos claros fartos e arranjados cuidados em capricho, despenteia-se é óbvio;  puxa-o arrasta-o igual faziam os homens-macacos a segurar sua fêmea em presa e o leva puxando arrastando até o lugar mais escondido de seu lar, onde o tratador frequente depositava alimentos, somente atirando de longe temente decerto aquele brutal macaco...   o executivo agora presa do gorila não observa bem o recinto para onde levado, mais se precupando na defesa a se espernear apesar de arrastado como mera coisa...  noutro repente tão quanto os demais ‘de repentes’ inexplicáveis, o selvagem penetra com sua presa por uma das paredes de granito sólido e quando percebe o homem já estão ambos em infecto cômodo incômodo no interior da pedra colossal que cercava o antro do gorila.   olha apavorado, se solta enfim do animal, o animal ficando com enorme mecha dos cabelos louros na ‘monzorrona’ direita.   agora fazem como a caça e o caçador, aquela foge sempre este investe sempre.   o civilizado de anel de graduação nos dedos começa a jogar o que encontra no oponente, até não achar mais nada para atirar e manter longe o caçador;  nisso o celular toca certa música imitando o refino clássico como tilintar em chamada;    alô, a secretária, diz ela que pôs mais um processo na mesa para quando o retorno do chefe, vai acrescer fornecer detalhes da operação acrescendo sempre mais, mais o gorila se achega e o executivo desesperado e em afogadilho atira a secretária nele, erra, o gorila cobrador pisoteia o celular fá-lo mil pecinhas mil pedacinhos e assim deixa a civilização muda!   avança rumo à caça, a caça foge pra lá, novo avançar foge pra cá;   em desespero no seu máximo desespero resolve ir atirando o anel e outros objetinhos sobrantes e por fim os próprios pertences a si colados com suor: suas peças de roupa, acaba nu e aí se vê ridículo estando nu calçado;   toma por final cada um dos sapatos, importados pois tudo no homem é importado e cheio de grifes no ambiente grosseiro dos nativos com quem vive meses, arremessa os sapatos e as meias na oposição, já atirara a bala dos óculos, os escuros para ver o mundo e os de lentes para não enxergar bem e assim fica meio cego além do mais.   atira e erra, agora só vendo um vulto enorme preto musculoso cobrador enfezado e disposto, disposto até às últimas consequências para domar a caça;    sua rudeza sua brutalidade sua ferocidade crescem em razão do tempo gasto à conquista e da luta da caça arisca em sua própria defesa...   agora não tem o doutor pelado nada de seu que possa virar arma, a língua seria fatal e não funcionando com o gorila, o qual não fala sequer a dos aborígenes nativos que dirá a entender um idioma casto e com altíssimo nível de primeiro mundo!    então a caça se serve dalgum objeto encontrado ao acaso enquanto foge do caçador cobrador exasperado e faminto, assim um objeto no solo alcançado atirado passa de raspão enfurecendo ainda mais o gorila.    aproximam-se, encurtam-se as distâncias entre oponentes, até que o homem fica encantonado na pedra fria sem possibilidade a fugir, já o gorila horrendo despeja qual seta envenenada seu hálito na presa, gruda-a...  o executivo desfalece nesse ponto.    logo desperta e vê o macacão alegre a se bater no peito cabeludo de macho ciente de seu vigor e mando na mágica rocha dessa prisão...   nesse interior o executivo a imaginar será que a tempestade passou?   e prostra-se em solidão.   um dia ou uma noite, a que horas!   nada tendo mais sentido nem o calendário, a escuridão e no caso a semiescuridão elimina o calendário;   no profundo da rocha acorda por fim o ex-executivo e conscientiza a nova situação de prisioneiro dum gorila...    meses depois nota um porém esquisito, sua barriga!   não podendo explicar a coisa, especialmente pela parca alimentação a presa recebendo;   a par disso cresciam igualmente seus seios a espantá-la.    não podia encontrar parâmetro plausível ao fenômeno e agora em já se acostumando com tanta interrogação que a ela não adiantava se fazer.   um dia teve o desprazer de não enxergar bem, e mais algumas horas desceu um amontoado de sangue e músculos ao sangue e assim nascia um filho...   tal esdrúxula mãe deu à luz e limpou como sabendo seu macaquinho.   mais para diante o homem notou como único traço seu na cria: os olhinhos azuis, a cria não era dolicocefalinho nem tendo fios louros quando brotaram os cabelos e sim pelos negros.   logo faltariam fraldas e sobrariam traquinagens do bebê, a se desenvolver como gente grande a pequena criatura.   os cuidados maternais foram o corriqueiro por corriqueiro, com muito amor.   a criaturinha crescia e cresciam rápido suas habilidades – muito cedo virou um expert em caverna, conhecia cada vão cada sinuosidade e brincava com tudo, inclusive com os pertences de mamãe que sobraram na turbulência da existência como as rotas vestes de executivo, anteriormente viradas fraldas e a cheirar xixi de criança.    agora era educar ensinar o filhote de gorila com homem.   no entanto o macaquinho debalde repetições maternas não conseguia pronunciar bem as coisas e o fazia engraçado; mui arteiro.    uma vez entre presentes trazidos ao filho pelo macaco veio um molho de chaves, claro objeto sem serventia, além de chocalhar e tilintar engraçadinho segundo o presenteado;   o que ocasionou sorrisos maternais e beijos naturalmente.   a vida prosseguia, a rotina também entretanto foi de certa forma quebrada: uma noite, devera ser noite o civilizado não sabia mais o que sabia, numa noite resolveu experimentar as chaves do molho entre brinquedos quebrados que a civilização ofertara a iludir o animal irracional e selvagem peludo de cabeça pequena e testa curta franzida.   então o gorila saíra pela parede de granito como sempre o fazia e não mais voltando!   o humano agora já sentia falta do outro...  por isso, em vão disfarçou sua falta de graça com a graça do macaquinho.   nessa altura já ambos passavam quase fome.   o homem resolveu lutar, nada mais enxergando além no lar ou prisão em que se tornava a semi-solidão de sua casa;   percebia frestas poucas em cima inalcansáveis por onde a fraca luminosidade e o ar, o restante eram pedra e escuridão, nadinha mais.   nisso foi o tomar o molho das mãos do filhote e se pôs feito louco a experimentar as chaves várias.   quase derrubou de alegria o menino então sugando ainda o seio materno quando deparou-se com uma delas, a qual penetrou na rocha e à pressão fendeu a parede e daí abriu um buraco à quisa de porta!   assim fugindo o homem e o filho.

cap.3 - epílogo do preâmbulo
foi ao homem uma surpresa enorme, o filho olhava curioso, queria descer do colo materno mais as ancas do homem que realmente colo, desejava descer e remexer aquele parque de diversão lá fora como soava a si;  porém ficou retido preso ao corpo da mãe à força.   o homem indagou como se o filho pudesse saber: “onde está meu gorila!” tudo ali no abandono, o lago seco com uma ou outra poça barrenta e lodosa a sumir;  pedras soltas badulaques imprestáveis e variados, partes da construção a ruir – um cenário escatológico, ruínas ao céu aberto.   assim se pôs o humano a chorar seu macaco...  contudo a situação deplorável foi vencida: requeria lutar, reagir.   e também como saber das ignorâncias se ninguém a dar notícia, nenhum tratador; igualmente nenhum visitante.  olhou para o filhote e não disse mas vendo já um órfão;  outra vez as lágrimas, agora chorava fácil como criticara antes os nativos em sua emotividade aflorada nesse imenso submundo.  ajeitou melhor para não cair o menino a escorregar, ainda grudado nas ancas maternas e a esfregar-se na mãe e ao mesmo tempo o polegarzinho na boca, tudo como hábito ou cacoete, cacoetezinho;   e assim andou andou, lembrando-se do caminho que fizera anteriormente, em sentido contrário agora.   vestira seus trapos de executivo.   andou até encontrar a limusine.   o nativo chofer ainda a lustrar o veículo ajeitando o carro;   o executivo e sua criança – e por abuso na linguagem não se poderia tratá-la ‘executivinho’! – enfim o par entrou no luxuoso compartimento traseiro, ambos ajudados pelo serviçal.   dentro o chefe se arruma como pode, aplica desodorantes e perfumes caros, caros ao bem-estar da civilização;   nisso a criancinha se encantou com os invólucros e os coloridos berrantes do quarto ou sala movente.   enquanto isso o executivo olha o espelho que o olha também, nada indignado ou talvez um pouco surpreso.   então o macaquinho percebe o espelho e igualmente quer se ver como é bonito, faz momices engraçadas, inclusive o motorista em vendo a cena não suporta seu próprio fleugma aquém do britânico é claro e semelhante circunspecção, não suporta a impassibilidade até aí contida e ri (decerto entre os seus depois iria narrar pilheriar gargalhar a contento, agora a responsabilidade diante do doutor;  oh, como aguentar ver a graça dum macaquinho!)  neste ponto e ainda a arrumar seus andrajos civilizatórios o executivo ordena a volta ao escritório;   passou as ordens ora em meias palavras nativas que aprendeu a custo ao longo nesses anos, ora em gringo de alto coturno e pureza;  no entanto pela entonação da chefia e pela mímica dela o subalterno entende funciona aciona e sai e quase corre com sua limusine.   em soslaio dá umas escapadas a observar a dupla lá trás: o filho suga o seio materno com volúpia, o executivo dormita pelo cansaço físico.   por fim o garotinho suga o outro seio do pai arrota e dorme igual, antes fizera micagens que fizeram o aborígene fardado novamente rir.   seguem rumo ao centro entremeio o trânsito sempre caótico e feroz mas que em vão quer fustigar o executivo e o filho: ambos dormem a sono solto, o pai ronca o filho ronquinha.   desperta o executivo quase ao chegar aos pés do arranhacéu disparado às nuvens;  olha o dorminhoquinho ternamente.   de novo acorda o menino, suga faminto o seio do pai, faz gracinhas e dorme de vez.  o pai penteia-se ao espelhinho dentro da limusine, se arruma como possível, sequer se interessa em ligar a tevê saber o que no mundo até aí se passou, ver ouvir as violências em rotina e sobretudo não desejando ver as propagandas veiculadas comumente.    grita ao chofer pisar mais no acelerador, porque tem pressa – pois leu em seu cérebro montanha de papéis a dar despacho – vamos ligeiro, diz a gringar ao mequetrefe, vamos ligeiro repete, que o serviço no escritório anda parado atrasado acumulado!   o serviçal fardado não entende aqueles altos embrulhos de língua, supondo entretanto precisar ir mais rápido, no que acerta o quanto erra o congestionamento de veículos e suas buzinas nervosas e enfim a loucura da megalópole.   enquanto sofre o engarrafamento e os tormentos a isso ligado se atormenta em se pôr a lembrar o executivo, relembrar melhor dizer, relembrar as coisas atinentes à sua responsabilidade e nesse momento entra a secretária, a qual achava uma gostosura embora de traços escuros dos nativos porém sensual.   pensa na central de serviço entretanto num repente vê o filho e a preocupação com ele daí por diante, relanceia o futuro e antevê e se vê a dar despachos e ao mesmo tempo tratando o menino.   então imagina uma boa possibilidade: e se a secretária aceitar agora ser babá de meu filho!   vence a limusine o trânsito o sol a chuva o grito a confusão a violência... tudo apenas despiorando e ainda assim ruim.   chegam.  o macaquinho se nega medroso a entrar no elevador e gruda mais ao seio materno, então o executivo se vê na contingência de subir pelo caracol da escada até ao vigésimo, chega estourando e suarento à porta do escritório.
estão diante da porta da chefia, realmente subchefia, o centro de fato no centro do mundo e da civilização.   entra com seu filhinho, vê, derrotado mas calmo ou apenas aceitante no consumado, as pilhas na mesona luxuosa à espera...   encontra em aguardo os mequetrefes nativos.  diz como podendo à secretária transmitir como pode ela aos nativos que se dispersem e para irem aos seus altos postos a fim de a central do desmando manter o mando para este continuar mando;  que se dirijam aos seus postos de trabalho, para que possa ele, executivo doutor etc. e tal, trabalhar em paz à paz do planeta e sobretudo do planeta ocidental.   ela embrulha a língua com seus iguais ou apenas semelhantes, sorri ao chefe, o qual poderia pensar que a jovem sensual quarentona pudesse haver bolado um projeto para ambos a sós;  todavia ela não olha o sofá nem o tapete felpudo onde pisa, olha apenas para os lados do chefe.   não mostra ter havido plano algum, ou sim, quem sabe a mente dos outros?  simplesmente olha para o chefe e sorri porém ao macaquinho a trepar revirar remexendo em tudo, mesmo nas pastas de papéis quase a derrubar as pilhas.   em tudo.   e não é uma gracinha?
Marília   fevereiro  2010



         



           

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