o executivo
cap.1 – preâmbulo do epílogo
cap.2 – o zoológico
cap.3 – epílogo do preâmbulo
- - -
adversão
1ª - o texto que segue vai em ‘minusculização’, pois nada é maior nem menor,
nada, a maiúscula por exemplo.
adversão
2ª - não existe epílogo porque tudo é recomeço; só existe a ideia absurda do
absoluto; portanto o início podemos tomá-lo apenas na sua continuação, não
havendo interrupção nunca; enquanto o fim é um abuso da linguagem no parar um
pouco em cansaço do movimento; assim visto a formalização acima em três
capítulos: somente formalização na roda viva...
adversão
3ª - estas linhas pretendem virar obra de arte, não lição de moral.
cap. 1 - preâmbulo
do epílogo
o herói, toda estória tem um ou mais heróis um
deles sendo o principal aqui o caso, herói negativo mesmo porque o mundo anda
cansado com tantos positivos e na prática até parecendo haver bem mais os
algozes que são vítimas ou praticam a ‘vitimia’, ou seja este vocábulo
inventado agora a dizer o fazedor de vítimas.
deu para entender? também
entender para quê! vamos em frente.
trata-se dum executivo duma certa multinacional ou titerezinho dum imperador
poderoso lá longe, desse tipo que desconhecemos donde é quem é e até que ponto
manda na gente a gente sendo uma fraçãozinha dos bilhões no planeta. enfim é um
chefe, encontra-se no seu escritório tido por central mas a rigor apenas
subchefia da chefia geral global internacional ultranacional contudo ninguém
comete o absurdo em pensar nisso e assim o executivo vira chefe. a submissão olha pro lado do chefe e da
situação dela e do chefe e também da condição geral que se olha e não se vê
vendo, olha com temor respeito ou temor respeitosamente como se respeita o
dinheiro sobretudo a nota verde com um ícone de peruca se rindo dela. bem.
olha ela a montanha que avassala com sua corpulência sua mesa. a mesa também mas mais o chefe grandalhão
claro, claro, dolicocéfalo claro, claros olhos azuis que não se digna sequer
olhar ao mundinho ali a seu redor; enfim
o chefe é volumoso; a mesona igualmente
volumosa quem sabe mais a abarcar o quê abarca;
trata-se duma mesona dessas grandes com placa de vidro em cima em baixo
avisos retratos, um é mais familiar que os outros domésticos: um dos seus
filhos desses que um dia a família fazer virar doutor imperador essas coisas e
a moto não permitiu, donde se deduz que a motocicleta dessas com mil e tantas
cilindradas é ainda mais poderosa que as famílias poderosas; e então o chefão se torna ao seu próprio ver
chefãozinho e vê a foto com saudade; tem mais retratos de outros parentes mais
e outras, muitas esposas, ex-esposas e daí revê no cineminha da cabeça os
tormentos as crises os divórcios e as separações com os respectivos
processos... ih os processos! ai os processos ali, tem mil deles em cima de
sua escrivaninha empilhados abarrotando o todo, processos com os debaixo claro
que são os primeiros a necessitar anuência cuidado análise vistoria que seja
porém cuidado atenção ou descaso, em suma a ser vistoriados quiçá carimbados
assinados despachados, o boy vaivém no seu vai e vem pesado com tantos
papéis, ora será seria que o mundo agora não acabasse em fogueira de papéis e
aí não poderia inverter no sentido de o primeiro virar segundo dilúvio apagando
o segundo agora primeiro num fogaréu a queimar papéis ah quanta besteira a
gente pensa pois o chefão não passa de gente, gente classificada grande poderosa
todavia gente; tem o boy tem a
secretária, a secretária acabou de colocar uma pasta por cima em cima dos
processos mais velhos e com primazia, ela depositou uma certa pasta prenhe de
papéis, um vistoso processo a despachar, antes com análise criteriosa, se
possível; ela, ah a secretária. a secretária não chega para ver o andamento
dos parados abarrotados papéis, só a depositar um deles a mais para enriquecer
os calhamaços ao chefe vendo ele aquilo horrorizado. ela, não eles, é bela, as outras mulheres
secretárias ou não foram belas, belas as ex-esposas todas e belas as domésticas
das quais abusou anos seguidos para se distrair; é tão ou mais bela que as outras
que teve em vários países pelos quais destacado a servir na arte de
mandar. ela é mais. sorri em graça e beleza, embora da gente
nativa nada bela. antes a gente da terra
uns macacoides a imitar gente nos hábitos língua e necessidades da civilização,
contudo a secretária é bonita, duma beleza sui generis pois o que deixa
as outras mulheres feias faz nela a beleza talvez suprema. é baixa na estatura e esguia, rápida nos movimentos
no entanto sensual ou por isso sensual, trejeitosa e com muita filigrana no
trato e o mais curioso a se empinar belamente atraentemente como deusa em cima
dos saltos caprichando no andar. puxa
vida, até fazendo o sonho sonhar sonhando um sonho! ah essa secretária... o melhor nisso é seu olhar e o dizer, os
quais prometem muito, tudo quem sabe, e negam ao mesmo tempo. estaca a secretária, resvala a vista na pilha
da escrivaninha do doutor e examina de fato o doutor, se o doutor estaria a
examiná-la comê-la com os olhos... e está.
sorri outra vez. quase nada fala,
pouco pode transmitir em nossa língua culta pensa o homem, só conhecendo bem a
sua língua e a dos outros mequetrefes ali e no país. assim mesmo diz que se põe à disposição do
chefe, o chefe agradece extasiado ou é que os meses o afundaram na solidão e na
necessidade e por isso hiperbolizando a mulher que tem ao seu lado. ela chegara exalando seu cheiro, cheira ele
aquele cheiro fragranciado do perfume desconhecido, desconhecido dele, atrativo
embora e sonha; sonha um dia poder
conquistá-la, mesmo sendo uma fêmea daquela sub-raça. não obstante vem-lhe o sentimento de temor do
tipo: será ainda poderei mostrar a essa submissa criatura meu machismo! não
sabe se pode sequer responder, e mesmo o que dirá a contento. agora olha vê observa ‘come’ até aquela jovem
insinuante e de rara beleza. foge então
do constrangimento, mexe com seus papéis, como interessado, preocupado,
ocupado... será casada? se pergunta e se
responde “isso pouco importa”, importa-lhe no momento sonhar nesse agora. fá-la-ei permanecer ajudar-me até tarde
amanhã; olha nessas intenções o sofá o
tapete felpudo e macio olha o ambiente no salão de escritório como a pedir
anuência aos seus planos e desejos. vai
enfim propor-lhe um serão a desafogar aquela inundação de papéis a exigir um
como fim de mundo, uma arca a esse final.
examina mais uma vez a moça, a moça faz um trejeitinho gostoso faz a
seguir um meneio de cabeça em cumprimento e se vai, fecha educado a porta
trancando lá na sala o chefe. ele
ainda a pensar o como será noutro dia (noite) o diálogo dele com um ser belo
mas de parcas palavras em nossa língua superior e sofisticada. é sempre assim nos ameaços e nos sonhos,
diário, com a linda secretária. essa
mulher carismática tem servido além da concupiscência ao chefe para comunicação
com a arraia-miúda na empresa, pois que ela se comunica em fala rápida com seus
soquinhos guturais, que é o ótimo dessa péssima língua bárbara nacional, à sua
gente ali empregada, é espécie de intérprete de sua gente grosseira, porém
empregada como fosse um prêmio no país do subemprego do desemprego do
desespero, em suma transmite a secretária à gente miúda dos lances de baixo da
escada as ordens reais através do executivo.
o executivo dá-lhe instruções, a jovem passando isso aos sub-homens no
que se deve fazer; e supõe o chefe que o faça a contento, haja vista a
expressão de espanto dos aborígenes e o imediato cumprimento em correria dos
braçais. ri disso por dentro o sério
executivo; agradece educada civilizada
primeiro-mundistamente aquela lugar-tenente ou apenas formosa secretária e
torna ele em chefe aos seus afazeres, agora bem pouco afazer mais de fato a
acumular afazer. Assim examina de novo
aquela montanha cujo pico é pouso da última pasta com novo processo que a
belíssima criatura depositou em agrado ao seu chefe imediato. o pico anda alto e não anda lá nos píncaros,
ele se mexe cá em baixo na cadeira giratória de ‘nhec-nhecar’ importância e mostrar
autoridade. contudo não mexe uma palha
na pilha na solução do problema ao menos no andamento a desavolumar o volume do
colosso dessa montanha de processos.
encontra-se exausto e demais cansado numa soma de meses de anos de
milênios que não têm piedade da pressa e das necessidades. assim o executivo chega ao ponto extremo no
enfaramento a berrar quase seu enfado.
quase agora, isto é hoje em dia nos dias que correm, agora quase nem sai
da fortaleza sequer para almoçar não janta séculos por ordem médica e do
regime, recebe a ingerir pelos olhos e pelo nariz a refeição frugal não fosse
riquíssima do restaurante de primeiro-mundo encastuado nesse inferno cheio de
sub-homens por todo lado; quase deixando
a maior parte ainda ao lixo e ao pessoal da limpeza ter o que fazer a fazer juz
ao salário, enquanto rosna baixo os ininteligíveis de seu dialeto de macaco melhorado,
despiorado. enquanto isso o executivo
come mais por desencargo de consciência e larga solitário a giratória e
sobretudo a carga da carga da mesa e então chama pelo telefone interno o motorista,
naturalmente se valendo da língua da língua da secretária a transmitir na
língua deles; convoca o motorista, desce
ao motorista e ainda desce ruminando suas coisas dentro do elevador
privativo. chega vê seu chofer. o chofer é um nativo grosseiro semelhando os
outros com a diferença em saber meia dúzia de vocábulos da língua superior e
dominante no planeta, espécie de língua franca que todos são obrigados se não a
falar entender ou se submeter como entendimento, enquanto a massa assombrada
com aquela sabedoria do condutor do carro oficial sabendo pronunciar errado
nove ou dez palavras daquele embrulho civilizado. aliás não precisa sequer dez pois seu chefe e
chefe de todos não discutiria negócios nem se lembra aqui filosofia. entende no entanto as que estão ligadas à sua
função e assim liga a ignição funciona a limousine, um automóvel
esdrúxulo nesse fim de mundo como quê um trem de alto luxo um pouco mais curto
e com um módulo de linguiça mais longo que os demais nas composições populares. assim aos olhos populares lhes parece também
um rei o piloto da limusine, embora ele grunhe igual a eles no som bastardo de
sua gente, que o doutor pensa subgente.
entra na limusine aquele doutor que parece um santo semelhando como o
sacerdote descreve um santo das alturas do firmamento, e o executivo de
qualquer forma é mesmo um ser poderoso.
entra, assenta, examina aquele escritório móvel quase ambulante com seu
parco e suficiente mobiliário, que não tem as pilhas mas apenas duas ou três
pastas, as mais necessitadas de cuidados e mais inadiáveis, olha o aparelho de
televisão, examina apetrechos, cuida do espelho o qual cuida de sua aparência,
experimenta o pente, ajeita a cabeleira loura dolicocéfala, aplica-se
desodorante, passa o lenço, corrige as vestes, se vê se revê com olhos azuis o
verde que deveria cobrir suas esperanças porém nota o negror de cansaço em
olheiras e expressão do desgaste. no
entanto ali dentro o ambiente ainda é suportável, pois a tevê mostra agora o
exterior pesado escuro vermelho, o vermelho da violência...
foi a custo o se fazer entender pelo lacaio na
direção da limusine defendida pelos vidros fumês, o doutor também escondido
atrás de seus óculos escuros. enfim o
motorista compreende a ordem liga o veículo, saem lentamente e entram no caos
que é o trânsito do centro nessa maluca capital, isso lembrando o mesmo inferno
nas outras capitais para onde destacado o executivo anteriormente; para não fugir à regra do excesso de
população e de problemas. entende o motorista
que o chefe deve deixar o acúmulo de responsabilidades, quer fugir delas. essa situação atira o executivo às lembranças
das outras megalópoles e dos seus ex-casamentos e suas complicações: escrivães
papéis juízes pensões complicações e a par complicações no trabalho ao degustar
o desgastar e desmanchar as montanhas de processos dos quais pretendendo fugir
agora. o carro se movimenta para anda
para, encrencas semáforos a grita do povo deselegante e bárbaro a violentar o
direito e a civilização querendo virar gente e ainda por cima gente
civilizada. nisso percebe vendedores oferecendo
e crianças pedindo, implorações e ofensas; então o chofer lá na frente fecha de
vez o seu vidro, gruda-se ao volante, enquanto o doutor lá atrás olha o
movimento e teme. próximo ao veículo
andarilhos e conduções os cheiros as poluições, dentro o chefe examina a tela a
tela mostra como prêmio às violências perto as guerras longe tornadas ordinárias
com a frequência e mostra também no país a violência miúda em crimes sangues
ofensas. as ruas prosseguem
congestionadas e não prosseguem: param, todos param, param mesmo os semáforos
com seus apagões e desencontrões, ou desatendidos; à vista um que outro carro novo importado
ostensivamente rico e a maioria de veículos aos pedaços caindo de velhos cacos
atravancando o atravancado das ruas com nomes pomposos de alamedas, gritaria
geral não entendimento individual.
deslocam-se lentamente e o cinema da vida mostra a loucura motorizada a
se mexer e a passar na mesma lerdeza dos casebres; são moradias de lata e de restos de
construção, umas em cima das outras em coito aberrante da pobreza e da loucura,
parecendo esses prédios em disputa num concurso de feiura e de miséria em que
todos merecem o prêmio arquitetônico; os
cheiros agridem os sons agridem o todo agride e agride até seu próprio
sofrimento... entretanto naquele perto
naquele momento naquele sofrer o ambiente o ambiente é o que fere mais ao
doutor. sofre, ultrajado, os vendedores
mal trajados a agredir a paz. quando o
mequetrefe ao volante fechou o vidro da janela de sua porta do carro do patrão
o lacaio não se fechou; olhou em soslaio
ao chefão impávido no compartimento de trás, mas o executivo ordena o
prosseguir viagem naquela procissão às cortes infernais e prosseguem horas
assim por horas infindáveis.
o chefe na opinião debaixo é qual um paxá
vitorioso, não um ser corroído pelos vermes da preocupação e o acúmulo de
fracassos matrimoniais quiçá a sofrer ingerências de outros chefes e de outros
paxás no supermundo dos negócios. contudo
o executivo olha as acusações de seus volumosos processos cujos dois ou três
representantes descansam na banqueta dentro da limusine à sua vista; e olha
também para a televisão de bordo e enquanto ouve já não olha para ver o que se
sabe existir que é a confusão no trânsito que os retém; vê interiormente as
bombas as guerras as ameaças as trapaças à paz mundial, ouve nitidamente o
bate-boca dos maiorais da língua a se desaforar em incompreensão; e que dizer da língua que fisicamente é a
maior arma a destruir o povo moralmente...
e se cala, mas já calado mudo monologando absorto quase: que posso
fazer! se indaga aquele pobre rico
rei. nada faz, examina se está pelo
menos ali dentro bem com a opinião do espelho.
o outro mostra em seus vidros reflexos um crânio dolicocéfalo com seus
olhos azuis, a arrumar ajeitar a cabeleira alourada aparada no melhor dos
profissionais em meio àquela barbárie onde eventualmente reside ou
estaciona. anda o carro, anda um
pouco. vira-se para a janela escura o homem
para ver o movimento das escuras pessoas motorizadas ou a pé, gente sentada
gente discursando naquela algaravia, gente rindo, crianças daquela gente
daquela sub-raça; nativos descalços
pequenos sujos e de olhos como riscados e expressão mongoloide e de aparência
mona. nisso compara seu chofer e constata
um macaco também porém um mono melhorado pelo uniforme e por dominar duas ou
três expressões da super-raça; o
homezinho vai duro feito um boneco, atento aos desaforos do trânsito e no meio
do caos. não pode fugir a uma grotesca
comparação olhando o mequetrefe fardado na direção do carro, uma analogia com
sua secretária, embora ela com tais traços entretanto bonita apetitosa enquanto
o boneco passado em idade sugere a estupidez e a boçalidade, o horror na
visão. além pelo chofer lhe parecer
medroso e se postar como não mais que um capacho. por fim, achando já insuportável a situação
no veículo, grita pelo subalterno e repete o quanto pode e nisto chega a usar
tentar usar algumas palavras nativas que aprendeu naquele contato meses, para
que o mesmo compreenda; assim entende um
pouco aquele poliglotismo de expediente, ao menos que é preciso fugir do caos
por travessas ermas. viajam horas na
periferia quase lúgubre e duma pobreza mais pobre que a miséria da pobreza da
zona central congestionada e assim chegam a uma área fresca longe do abafo
caloroso do centro da capital, tratando-se duma área aberta e silenciosa; o lacaio anuncia como possível anunciar: o
zoológico. ora, um jardim zoológico não
deixa de ser um lugar bom a fugir da caótica civilização e de seus reles imitadores
com seus políticos chefes empresários e medos.
cap. 2 – o zoológico
enfim
estão em meio à clareira árvores em torno.
abre a porta ao chefe o criado, sem mesura mas com decência. desce o doutor, se espreguiça como qualquer
mortal se pensando ou não imortal porém poderoso, se espreguiça pelo longo encolhimento
dentro, fora aspira aquele ar cheio de cri-cris piados e flores
silvestres. aos poucos o executivo se distancia
do seu carro, enquanto o chofer permanece ali de prontidão como é seu mister,
chocando o veículo, o chefe o vê nessa atividade já vários metros e balança a
cabeça negando ou aceitando a tarefa do subalterno. começa a ouvir não muito longe os sons da
mata à medida que afina a audição, andando com prazer naquele início de liberdade
não vigiada; de repente se depara com um
lago imenso a refletir o sol e as aves;
são garças e outras pernaltas que não mais se espantam com a hostilidade
humana costumeira e ainda assim resolvem alçar voo em revoada a branquear o céu
e o horizonte a se perder. sorri então
pela primeira vez no dia a visita importante.
continua a se deslocar naquela atividade que desde o início já lhe faz
bem, sente uma indizível paz; o sol
também sorri e decerto não por se livrar da irritação da poluição da chateação
do ramerrão atulhado de processos. prossegue o caminhar do visitante da alta
cúpula dirigente, continua ainda ouvindo a algazarra das aves e de outros
bichos pequenos. para um pouco a observar os recantos dos
animais de grande porte, acha o rinoceronte desgracioso, nota a parte dos
elefantes e descobre um em vaivém de tromba qual pêndulo de relógio antigo e aí
se lembra e pensa no seu último psiquiatra quando se habituou com analistas e a
fazer malhação acertando o físico, ainda no estrangeiro, noutro país
estrangeiro; então ri-se do elefante da
tromba e do sábio, ri-se de si mesmo inclusive, ri da vida, da existência. todavia não para, deixa violentamente para
trás o analista e suas embromações, deixa outras secretárias que o tornaram
refém de tratamentos médicos dos espertalhões;
no pensar para para encontrar a nova bela eficiente sensual secretária,
ali, agora lá no centro caótico com suas pilhas volumosas e malfadadas de
papéis, isso em mero átimo de instante, na corrida impressionantemente rápida do
pensamento, volta acordando no urro de outros animais pesados em outras ilhas e
cantos fechados próximos. nesse momento
avista a moradia do gorila. um só
morador, certo lago a impedir a coragem do animalão, a cerca de arame onde
estão as visitas. são mil, tem grupo de
meninos decerto escolares, visto o uniforme, em gritaria; crianças e mesmo adultos naqueles apupos
costumeiros e no falar desencontrado risota gargalhar grito, fazem uma que
outra imitação do vulto negro nervoso lá além do lago mal cheiroso; garotos e garotas atiçam o macacão peludo,
umas pessoas adultas se pensam crianças e fazem o mesmo; vão além: atiram objetos, atiram frutas e
cascas de fruta enganosamente, chegam a atirar pedras no bicho; o dono da casa – a rigor de aluguel ou só
temporária enquanto não o transportam a outro local ou não lhe oferecem uma
fêmea a dividir as tristezas da prisão;
o dono anda nervoso e anda de lá pra cá de cá pra lá impaciente, brabo,
desvia-se o quanto pode das balas que o saraivam, toma o que podendo e atira
por sua vez na gente, o executivo vê nativos subgente em alvoroço e a brincar
naquela estranha diversão. deve até ser a opinião do mono enfurecido e
solitário... o doutor observa ser um ser
grotesco negro peludo enorme desengonçado e nervoso se não completamente
neurótico e quem sabe já a precisar também analista como foi seu caso. arremessa o selvagem igualmente objetos ao
deus-dará visando a plateia; todos riem,
certamente ele chora por dentro por fora urra na sua língua e tem ímpetos de
estraçalhar a torcida gozadora. acerta
enfim naquele erro alguns visitantes, o que faz com que todos recuem e até
fujam. permanece o executivo, com certeza a turba a
se divertir nessa altura já vendo outros prisioneiros para desfastio. o lugar
do macaco anda sujo de pipoca e guloseima espalhadas; mas lá longe onde está o gorila colossal
ainda é mais sujeira e decerto malcheiroso, ah, pensa o executivo, quando
chegaria o tratador! noutro dia noutra manhã noutra tarde. o alto
funcionário em fuga de processos e papéis não esperou para constatar, resolveu
num ato talvez de loucura galgar o gradil, pular doutro lado, margear a custo
escorregando se segurando em não cair na água barrenta do lago isolante e por
fim chegar triunfalmente à área proibida do gorila! uma
temeridade sem tamanho. tem agora pela
frente um bem constituído espécime de gorila, curioso inicialmente por aquela
visita inesperada e quem sabe indesejável.
assim mesmo venceu seu instinto de curiosidade e ficou pasmado
examinando aquele bicho parecido consigo embora branquelo e de olhos azuis. o doutor riu-se, gargalhou inclusive, da
ingenuidade do selvagem a analisá-lo de tão perto quase a cheirá-lo... então
se aproximou mais do brutamontes e de repente... de repente, embora notando a observação que o
animal fazia sobre si, de repente aquele ser de testa curta na cabeça pequena
encimando um corpanzil só músculos e pelos negros, de repente gruda-lhe nos
cabelos claros fartos e arranjados cuidados em capricho, despenteia-se é
óbvio; puxa-o arrasta-o igual faziam os
homens-macacos a segurar sua fêmea em presa e o leva puxando arrastando até o
lugar mais escondido de seu lar, onde o tratador frequente depositava alimentos,
somente atirando de longe temente decerto aquele brutal macaco... o
executivo agora presa do gorila não observa bem o recinto para onde levado,
mais se precupando na defesa a se espernear apesar de arrastado como mera
coisa... noutro repente tão quanto os
demais ‘de repentes’ inexplicáveis, o selvagem penetra com sua presa por uma
das paredes de granito sólido e quando percebe o homem já estão ambos em
infecto cômodo incômodo no interior da pedra colossal que cercava o antro do
gorila. olha apavorado, se solta enfim do animal, o
animal ficando com enorme mecha dos cabelos louros na ‘monzorrona’
direita. agora fazem como a caça e o
caçador, aquela foge sempre este investe sempre. o
civilizado de anel de graduação nos dedos começa a jogar o que encontra no
oponente, até não achar mais nada para atirar e manter longe o caçador; nisso o celular toca certa música imitando o
refino clássico como tilintar em chamada;
alô, a secretária, diz ela que pôs mais um processo na mesa para quando
o retorno do chefe, vai acrescer fornecer detalhes da operação acrescendo
sempre mais, mais o gorila se achega e o executivo desesperado e em afogadilho
atira a secretária nele, erra, o gorila cobrador pisoteia o celular fá-lo mil
pecinhas mil pedacinhos e assim deixa a civilização muda! avança
rumo à caça, a caça foge pra lá, novo avançar foge pra cá; em
desespero no seu máximo desespero resolve ir atirando o anel e outros objetinhos
sobrantes e por fim os próprios pertences a si colados com suor: suas peças de
roupa, acaba nu e aí se vê ridículo estando nu calçado; toma
por final cada um dos sapatos, importados pois tudo no homem é importado e
cheio de grifes no ambiente grosseiro dos nativos com quem vive meses, arremessa
os sapatos e as meias na oposição, já atirara a bala dos óculos, os escuros
para ver o mundo e os de lentes para não enxergar bem e assim fica meio cego
além do mais. atira e erra, agora só vendo um vulto enorme
preto musculoso cobrador enfezado e disposto, disposto até às últimas consequências
para domar a caça; sua
rudeza sua brutalidade sua ferocidade crescem em razão do tempo gasto à
conquista e da luta da caça arisca em sua própria defesa... agora não tem o doutor pelado nada de seu
que possa virar arma, a língua seria fatal e não funcionando com o gorila, o
qual não fala sequer a dos aborígenes nativos que dirá a entender um idioma
casto e com altíssimo nível de primeiro mundo!
então a caça se serve dalgum objeto encontrado
ao acaso enquanto foge do caçador cobrador exasperado e faminto, assim um
objeto no solo alcançado atirado passa de raspão enfurecendo ainda mais o
gorila. aproximam-se, encurtam-se as distâncias entre
oponentes, até que o homem fica encantonado na pedra fria sem possibilidade a
fugir, já o gorila horrendo despeja qual seta envenenada seu hálito na presa,
gruda-a... o executivo desfalece nesse
ponto. logo
desperta e vê o macacão alegre a se bater no peito cabeludo de macho ciente de
seu vigor e mando na mágica rocha dessa prisão... nesse
interior o executivo a imaginar será que a tempestade passou? e prostra-se
em solidão. um dia ou uma noite, a que
horas! nada tendo mais sentido nem o calendário, a
escuridão e no caso a semiescuridão elimina o calendário; no
profundo da rocha acorda por fim o ex-executivo e conscientiza a nova situação
de prisioneiro dum gorila... meses depois nota um porém esquisito, sua barriga!
não podendo explicar a coisa, especialmente
pela parca alimentação a presa recebendo; a par
disso cresciam igualmente seus seios a espantá-la. não podia encontrar parâmetro plausível ao
fenômeno e agora em já se acostumando com tanta interrogação que a ela não
adiantava se fazer. um dia teve o desprazer de não enxergar bem, e
mais algumas horas desceu um amontoado de sangue e músculos ao sangue e assim
nascia um filho... tal esdrúxula mãe deu à luz e limpou como
sabendo seu macaquinho. mais para diante
o homem notou como único traço seu na cria: os olhinhos azuis, a cria não era
dolicocefalinho nem tendo fios louros quando brotaram os cabelos e sim pelos
negros. logo faltariam fraldas e sobrariam
traquinagens do bebê, a se desenvolver como gente grande a pequena
criatura. os cuidados maternais foram o corriqueiro por
corriqueiro, com muito amor. a
criaturinha crescia e cresciam rápido suas habilidades – muito cedo virou um expert
em caverna, conhecia cada vão cada sinuosidade e brincava com tudo,
inclusive com os pertences de mamãe que sobraram na turbulência da existência
como as rotas vestes de executivo, anteriormente viradas fraldas e a cheirar
xixi de criança. agora era educar ensinar o filhote de gorila
com homem. no entanto o macaquinho debalde repetições
maternas não conseguia pronunciar bem as coisas e o fazia engraçado; mui
arteiro. uma vez
entre presentes trazidos ao filho pelo macaco veio um molho de chaves, claro objeto
sem serventia, além de chocalhar e tilintar engraçadinho segundo o
presenteado; o que ocasionou sorrisos maternais e beijos
naturalmente. a vida prosseguia, a rotina também entretanto
foi de certa forma quebrada: uma noite, devera ser noite o civilizado não sabia
mais o que sabia, numa noite resolveu experimentar as chaves do molho entre
brinquedos quebrados que a civilização ofertara a iludir o animal irracional e
selvagem peludo de cabeça pequena e testa curta franzida. então o
gorila saíra
pela parede de granito como sempre o fazia e não mais voltando! o
humano agora já sentia falta do outro...
por isso, em vão disfarçou sua falta de graça com a graça do macaquinho.
nessa altura já ambos passavam quase
fome. o homem resolveu lutar, nada mais enxergando
além no lar ou prisão em que se tornava a semi-solidão de sua casa; percebia
frestas poucas em cima inalcansáveis por onde a fraca luminosidade e o ar, o
restante eram pedra e escuridão, nadinha mais.
nisso foi o tomar o molho das
mãos do filhote e se pôs feito louco a experimentar as chaves várias. quase derrubou de alegria o menino então
sugando ainda o seio materno quando deparou-se com uma delas, a qual penetrou
na rocha e à pressão fendeu a parede e daí abriu um buraco à quisa de porta! assim
fugindo o homem e o filho.
cap.3 - epílogo do preâmbulo
foi
ao homem uma surpresa enorme, o filho olhava curioso, queria descer do colo
materno mais as ancas do homem que realmente colo, desejava descer e remexer
aquele parque de diversão lá fora como soava a si; porém ficou retido preso ao corpo da mãe à
força. o homem indagou como se o filho pudesse saber:
“onde está meu gorila!” tudo ali no abandono, o lago seco com uma ou outra poça
barrenta e lodosa a sumir; pedras soltas
badulaques imprestáveis e variados, partes da construção a ruir – um cenário
escatológico, ruínas ao céu aberto. assim se pôs o humano a chorar seu macaco... contudo a situação deplorável foi vencida:
requeria lutar, reagir. e também como saber das ignorâncias se ninguém
a dar notícia, nenhum tratador; igualmente nenhum visitante. olhou para o filhote e não disse mas vendo já
um órfão; outra vez as lágrimas, agora
chorava fácil como criticara antes os nativos em sua emotividade aflorada nesse
imenso submundo. ajeitou melhor para não
cair o menino a escorregar, ainda grudado nas ancas maternas e a esfregar-se na
mãe e ao mesmo tempo o polegarzinho na boca, tudo como hábito ou cacoete,
cacoetezinho; e assim andou andou, lembrando-se do caminho
que fizera anteriormente, em sentido contrário agora. vestira seus trapos de executivo. andou
até encontrar a limusine. o nativo chofer ainda a lustrar o veículo
ajeitando o carro; o executivo e sua criança – e por abuso na
linguagem não se poderia tratá-la ‘executivinho’! – enfim o par entrou no
luxuoso compartimento traseiro, ambos ajudados pelo serviçal. dentro
o chefe se arruma como pode, aplica desodorantes e perfumes caros, caros ao
bem-estar da civilização; nisso a criancinha se encantou com os
invólucros e os coloridos berrantes do quarto ou sala movente. enquanto
isso o executivo olha o espelho que o olha também, nada indignado ou talvez um
pouco surpreso. então o macaquinho percebe o espelho e
igualmente quer se ver como é bonito, faz momices engraçadas, inclusive o
motorista em vendo a cena não suporta seu próprio fleugma aquém do britânico é
claro e semelhante circunspecção, não suporta a impassibilidade até aí contida
e ri (decerto entre os seus depois iria narrar pilheriar gargalhar a contento, agora
a responsabilidade diante do doutor; oh,
como aguentar ver a graça dum macaquinho!)
neste ponto e ainda a arrumar seus andrajos civilizatórios o executivo
ordena a volta ao escritório; passou as
ordens ora em meias palavras nativas que aprendeu a custo ao longo nesses anos,
ora em gringo de alto coturno e pureza;
no entanto pela entonação da chefia e pela mímica dela o subalterno
entende funciona aciona e sai e quase corre com sua limusine. em soslaio dá umas escapadas a observar a
dupla lá trás: o filho suga o seio materno com volúpia, o executivo dormita
pelo cansaço físico. por fim o garotinho suga o outro seio do pai arrota
e dorme igual, antes fizera micagens que fizeram o aborígene fardado novamente
rir. seguem rumo ao centro entremeio o trânsito
sempre caótico e feroz mas que em vão quer fustigar o executivo e o filho:
ambos dormem a sono solto, o pai ronca o filho ronquinha. desperta
o executivo quase ao chegar aos pés do arranhacéu disparado às nuvens; olha o dorminhoquinho ternamente. de
novo acorda o menino, suga faminto o seio do pai, faz gracinhas e dorme de
vez. o pai penteia-se ao espelhinho
dentro da limusine, se arruma como possível, sequer se interessa em ligar a
tevê saber o que no mundo até aí se passou, ver ouvir as violências em rotina e
sobretudo não desejando ver as propagandas veiculadas comumente. grita ao chofer pisar mais no acelerador,
porque tem pressa – pois leu em seu cérebro montanha de papéis a dar despacho –
vamos ligeiro, diz a gringar ao mequetrefe, vamos ligeiro repete, que o serviço
no escritório anda parado atrasado acumulado! o
serviçal fardado não entende aqueles altos embrulhos de língua, supondo
entretanto precisar ir mais rápido, no que acerta o quanto erra o congestionamento
de veículos e suas buzinas nervosas e enfim a loucura da megalópole. enquanto sofre o engarrafamento e os tormentos
a isso ligado se atormenta em se pôr a lembrar o executivo, relembrar melhor
dizer, relembrar as coisas atinentes à sua responsabilidade e nesse momento
entra a secretária, a qual achava uma gostosura embora de traços escuros dos
nativos porém sensual. pensa na central de serviço entretanto num
repente vê o filho e a preocupação com ele daí por diante, relanceia o futuro e
antevê e se vê a dar despachos e ao mesmo tempo tratando o menino. então
imagina uma boa possibilidade: e se a secretária aceitar agora ser babá de meu
filho! vence a limusine o trânsito o sol a chuva o
grito a confusão a violência... tudo apenas despiorando e ainda assim
ruim. chegam.
o macaquinho se nega medroso a entrar no elevador e gruda mais ao seio
materno, então o executivo se vê na contingência de subir pelo caracol da
escada até ao vigésimo, chega estourando e suarento à porta do escritório.
estão diante da porta da chefia, realmente
subchefia, o centro de fato no centro do mundo e da civilização. entra
com seu filhinho, vê, derrotado mas calmo ou apenas aceitante no consumado, as
pilhas na mesona luxuosa à espera... encontra em aguardo os mequetrefes
nativos. diz como podendo à secretária
transmitir como pode ela aos nativos que se dispersem e para irem aos seus
altos postos a fim de a central do desmando manter o mando para este continuar
mando; que se dirijam aos seus postos de
trabalho, para que possa ele, executivo doutor etc. e tal, trabalhar em paz à
paz do planeta e sobretudo do planeta ocidental. ela embrulha a língua com seus iguais ou
apenas semelhantes, sorri ao chefe, o qual poderia pensar que a jovem sensual
quarentona pudesse haver bolado um projeto para ambos a sós; todavia ela não olha o sofá nem o tapete
felpudo onde pisa, olha apenas para os lados do chefe. não
mostra ter havido plano algum, ou sim, quem sabe a mente dos outros? simplesmente olha para o chefe e sorri porém
ao macaquinho a trepar revirar remexendo em tudo, mesmo nas pastas de papéis
quase a derrubar as pilhas. em tudo.
e não é uma gracinha?
Marília fevereiro 2010
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