quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Sumiço de Na


Sumiço de Na

- Um desaparecimento
Não existe na filosofia do homem do povo isso... ou seja atirei, diz o popular, atirei no que vi e acertei no que não vi? E julga brilhante sua tirada, imaginando-se um gênio ou apenas original. Talvez fosse o caso da Daiene. Antes, claro, antes Daiene nascera, no escuro, visto vir à luz segundo a mãe dona Maria numa noite tempestuosa, tempestuosa ao parto e ao tempo num tempo de chuvarada de verão; e à situação também porque advinda duma crise na família – aquele negócio das línguas ferinas dos parentes a garantir baratamente uma solução ao engravidamento da mãe solteira abandonada no malfeito pelo malfeitor: a Daiene deve (deveria, deviam dizer) deve ela abortar. Neste ponto entraria e entrou de fato, neste ponto os conselhos da comadrice “comadre Maria, dá pra menina umas garrafadas...” enfim receitavam beberagens e até indicavam endereços de bruxas sábias no mister de expulsar indesejáveis criaturinhas. Naturalmente no falatório acresciam os do sangue e sem sangue, quer dizer gente quase de fora, de dentro por ter se unido ao parente do sangue de Maria e de seu Zé; esses agregados enriqueciam os comentários pobres no sentido ser bom à família que o explorador que se aproveitara da inocência de Daiene enchendo-lhe o bucho com o crime do pecado – que o bandido se fosse mesmo, que sumisse; e – aqui a questão da interrupção dessa corrupção então sem solução – e que o feto fosse arrancado jogado aos porcos (oh que diabo o pensar do povão pois porco não come criancinha... ou come!?) Enfim que se devolvesse a pureza à menina mãe, na ocasião nos quatorze aninhos ainda. Ah cada absurdo no pensamento da arraia-miúda.
Contudo não deu certo esse errado, deu certo foi o errado e dessa maneira vagiu a Nayara, assim mesmo com ipsilone no registro feito como filho natural de Daiene da Silva Gonçalves, Silva de Maria e Gonçalves de seu Zé, o sobrenome do malfeitor, bem feito! afiançariam os parentes, o sobrenome dele nem chegou a ser ventilado.
Nasceu aprumou cresceu virou moça a Nayara, Na para os de casa. Agora com seus quatorze anos também, igual à Daiene mãe dela ao lhe dar à luz. Daiene tendo no registro civil a forma de dois enes, reduzidos a um para não atrapalhar este texto. Aliás a família de Maria e José havia optado em Daiane e não Daiene, que seria a pronúncia errada de Diana em inglês, o inglês na época vencia o francês como língua franca na pátria do cruzeiro, dinheiro que viraria cruzado e depois o cruzado-novo, mais forte e enfraquecido frente ao real do real que vige hoje. Todavia as linhas fogem ao objetivo do texto, tornam elas à luz de Nayara no parto crítico de Daiene, quatorze anos antes do depois que é agora.
Agora Daiene anda preocupadíssima pelo desaparecimento da filha Na, a qual faz dias não aparece lá na rua da Esperança, na periferia da modesta urbe interiorana. Não tão pequena pois estufara um pouco, até ao ponto de a população desconhecer essa e outras vias públicas longe do centro, só a gente do bairro sabe direitinho onde e mais ainda os meninos do grupo escolar passando na rua em anarquia e a arrastar matulas com rodinhas na tagarelice, num entusiasmo de fazer inveja na volta das aulas e um pouco menos barulhentos antes, antes das sete da manhã, na hora de a sineta mandar abrir o portão da escola. Todo comentário em vista do fato de numa cidadezinha do interior se conhecerem e saberem direito os habitantes onde dita ou possível rua se encontra. A urbe de Daiene, de Na, de Maria, de José, cresceu se avolumou sem virar algo notório no mapa do planeta.
A verdade: Nayara sumiu do mapa!

- O primeiro dia
Dona Daiene demonstra incômodo diante da situação. Que aliás é uma repetição, porque a filha já praticara anteriormente a feiura de ficar sem retornar por duas ou três vezes; originando aquele negócio da gente chamar abrir a porta entrar varejar o quarto e nada da garota. Agora é agora e agora dói mais, a preocupação aumenta com a experiência que a gente acumula e pelas atrapalhações da vivência anos a fio. Verdade que isso não é tão problemático à vista, riginando s uma repetição poruqvisto serem quatorze anos de relação. Todavia se se considerar os atritos destes últimos dois anos... bem, a coisa muda. Daiene não sabe o que fazer; procurara – antes entrando nos aposentos da jovem revirando tudo em busca de pistas, aliás fora o que dissera aos conhecidos, os quais sugeriram em resposta aguardar mais procurar melhor estender as buscas aos amigos da filha, enfim fazer o que costumeiramente dizemos aos outros a fim de contribuir um pouco pra diminuição das ânsias maternas – já procurara vasculhara toda a casa e mesmo indo ao absurdo de visitar pontos de sabidamente não achar ninguém; isto porque a gente põe cada coisa na cabeça, na hora do desespero. Conversara com as vizinhas, espécie de comadres a habitualmente trocar ideias ou meras conversas-fiadas na varrição da calçadinha ou no pôr a sacola de lixo no dia de lixeiro; já sim, sem resultado visto ninguém haver visto Na, nem ontem nem trasanteontem hoje menos que ontem. Indagaram as mulheres próximas sobre se o marido não tendo alguma pista... Descartou a vizinha da vizinha o alvitre, por ser mais embrulhada a coisa do que aparenta ser... Em resumo, tudo foi divulgado mas divagando algumas sobre o cerne da questão, sem solução. Em não ser servindo a análise vizinha a aliviar um pouco o coração da mãe: as mulheres sabem sentir com profundidade o sofrimento materno. Não que Daiene não possa com isso haver ficado menos tensa; porque uma questão humana bem inteligível. Contudo não resolvendo o caso, o caso sendo que Na ou dormira fora de casa ou saíra de casa sem avisar. Sumiu.
Em verdade, isso o peso das primeiras horas, pois a experiência (a de saber nos outros é uma situação diferente do sentir na pele...) a experiência prova que os jovens não têm a cabeça no lugar e quase sempre após seus deslizes tornam ao lar, doce lar se diz. Semelhante o filho pródigo. O caso parecia entretanto não ter solução, ao menos nas primeiras horas do desaparecimento; porque já fazendo meio dia que a genitora flagrara o quarto vazio da filha. E aqui entram as ilações nem sempre respondíveis e aquelas sentenças banais para mostrar a presença de quem as façam e para encher o tempo (não a fim de solucionar o drama do coração e secar possíveis lágrimas).
Para Daiene – ia tarde a noite do dia – infelizmente apenas o primeiro dia e haveriam outros dias posteriores; em resumo já bem adiantadas as horas da noite e ainda sem saber algo, aparentava assim, sem solução ao drama do sumiço da moça. Quantos não lhe apareceram na moradia a indagar o óbvio, a irritar inclusive e ainda aqui a gente precisa ser educado ou religioso ou bom cidadão e responder com boas maneiras. Enfim essa a situação desde às sete da manhã ao notar o quarto em silêncio, até altas horas da noite, de fato sendo madrugada – nadinha positivo nesse negativo!
O fato era, é, que ninguém sabia de Nayara, Na aos de casa; nem habituais fontes de informação como amigas colegas funcionários da escola, a garota na primeira série do curso colegial numa escola pública, nem eles dando pistas. A rua então... sequer o bairro. Restava não descartar informes policiais; como se sabe a polícia e sua burocracia sempre a gente deixa para o fim, em não dar demais atenção a uma coisa que a gente supõe corriqueira... aquela questão: um dia aparece, o filho pródigo ou não torna e se esclarece as incógnitas e ainda se perdoa, mormente o coração dos de sangue, mais permeáveis e propensos ao perdão, haja necessidade a perdoar. Nada que o sol não tenha assistido; talvez sorrindo dos pobres mortais. O fato de fato era que ninguém sabia dela.
Além da gente do bairro, chegaram os parentes de fora, isto é de sangue, trazendo consigo os acrescidos vindo à família por casamento, os parentes de longe (de perto pois dentro do perímetro urbano) eles se reuniram em casa dela. Antes de tratar do assunto e mesmo antes de chegarem à vila, se passaram as falhas ou faltas no caso o sumiço de Na, a filha única de Daiene, da tia Maria, essa; reuniram-se junto à casa de Daiene, a consolá-la (e dar lá alguns palpites, os parentes não são sóbrios nesses casos...) ou assim ou a pedir maiores e melhores minúcias sabidas de longa data entre parentes e por vezes desconhecidos até por vizinhos em paredes-meias... Chegaram, das três horas da madrugada em diante até ao sol quente carros pararam na frente do número 122 da rua da Esperança na esperança frustrada, frustrada em não ser no sobejo do que familiares conhecem e que raramente os de fora longe e próximo poderiam ter ouvido e mesmo até observado. Os de laços sanguíneos sabem até mentir verdades que se possa plantar ou esconder, se for o caso de não divulgar (mormente pela imprensa e aqui é apenas um sumicinho sem pretensão, segundo o vulgo, visto não ser a opinião dos que sofrem uma perda). Entre tais visitantes, inoportunos dizem os cansaços e as repetições, tais pessoas nem sempre com diplomacia, aparando o ferino nas palavras e assim Daiene teve que ouvir o que se reputa como desaforos talvez; são coisas que se não diz e que dizem os achegados como por exemplo o mau exemplo de Pedro...
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Pedro, que não se ofenda a memória... Sim, Daiene nesse primeiro dia do já distante sumiçojá distânciaam, Daiene nesse pr de Na, pensava, lembrava lembrando-se de Pedro, uma lembrança que se deseja não mais lembrar. Não obstante essa memória quase fugidia (e teimosa permanece ao mesmo tempo) a memória do companheiro... não obstante o pensamento era como se fala comumente um esquecer ‘obrigatório’ ao menos desejado obrigado, meio imposto enfim, a tudo que refletisse o homem... Não obstante andava centrada na filha – na filha deles! ora como nos atingem sempre o monoideísmo, as ideias fixas, a gente quer fugir, ansia escorrega e é vencido pois que tudo leva empurra atrai segura-nos no problema central... Não obstante era necessariamente em Na o pensamento: Nayara não se encontrava nem no seu quarto nem em seu lar (doce lar?) – que fosse estar para brigar! discutir raspar incomodar-se mãe com filha filha com mãe... nas coisas miúdas do dia a dia no passar dos dias, mil dias de conflitos e choques baratos, desses de se pôr a se envergonhar diante dos vizinhos perto, longe eles saberem causas ‘sabendo’ por alto as consequências... Mil, mil e um.
Agora – e trata-se já do segundo dia na madrugada do segundo após o primeiro da fuga... (isso mesmo, pensou mais rápido que a rapidez do pensamento a mãe: isso mesmo, por que não lembrei a fuga! belíssima saída a esta horrorosa entrada...) Então, no agora da madrugada, machucada ainda Daiene pelos acontecimentos da véspera, pensava como próprio das mães dos filhos “que seria dela, como estará passando Na neste momento”, mais ou menos assim se poderia dizer dizendo da filha, posta sempre por si como sua algoz; enquanto que do lado de lá o algoz se pensando vítima dos abusos de Daiene... mui além daquela conversinha entre adolescentes reunidos como que diante um confessionário “ela não gosta de mim, Sila” e Sila: “igual meu caso: minha mãe me detesta”; aliás a amiga detestava por sua vez os pronomes ou desconhecendo afirmava “a mãe detesta eu” porém isso pormenor e não espanta amigos, as amigas se entendiam. Agora, na madrugada, qual toda genitora ferida nas profundezas do coração, Daiene podendo dialogar com as interferências dos seus dois eus que temos dentro de nós e que outrem sequer supõe sobre nosso pensamento (sim o ser humano é contraditório e pior: um desconhecido, pretensamente emudecido). Fazia frio na madrugada indormida e a mãe pondo – terá posto! – ela, como estará Nayara, sentindo frio! Contudo é um sentimento fugaz porque se põe a reproduzir uma intervenção, embaraçosa diga-se de passagem, bem embaraçosa, duma vizinha e depois reafirmada fixada a ofensa (a ela ofensa:) a gente quer esquecer, a gente de fora quer e procura e consegue fazer a gente lembrar... enfim dona Maria do 131 indagara sobre o mau exemplo de Pedro, “seu Pedro não mais deu as caras?”
Isso empurra atira fixa Daiene no homem a si indesejável indesejado.
Nas discussões quase homéricas entre mãe e filha ou entre filha e mãe (é só escolher a melhor forma...) nelas, anos, se encaixava Pedro Trovão. Trovão por quê? o empresário de meia pataca (crítica da oposição daienesca) esse comerciante desconhecia segredos e silêncios. Isto é, falava às orelhas do mundo inteiro estando a falar às orelhas ali pertinho da mulher, a mulher que as comadres garantiam não ser mulher, quer dizer esposa de verdade do safado; não era esposa abençoada no padre e inscrita nas leis do país no cartório; inclusive usavam a expressão ‘casados na igreja verde’, coisas do povão. E aqui entram lances desagradáveis e proibitivos (ninguém de sã consciência poderia fechar ouvidos e bem pior que isso – calar a língua do povo...)
São lances que deveriam ser não mais que pruridozinhos entre paredes mas que o vozeirão altão de Trovão exporta além dos tijolos da residência, para lá doutro lado, onde está a oposição do mundo, o mundo das vizinhas. Sim, naturalmente os machos de suas fêmeas, da mesma espécie, eles também têm orelhas (e até línguas...) porém convém por bem entender que as mulheres no rodar do tempo do mundo, sempre pegaram no pé (expressão popular ainda em voga, infelizmente) sempre no das outras mulheres, raramente se recordando que os machos, aqui sem espécie... que eles igualmente falam as coisas sem pesar e pensar. E dá encrenca? sim, muita, muitas vezes. Pedro bravejava, mormente libado, lidando com um bar, lanchonete na linguagem de hoje, onde é fácil vender bebidas e bebericar ao mesmo tempo com fregueses (dir-se-ia clientes!) e daí na volta, volta aos braços de Daiene, encontrava a língua dela, quase sempre a falar lembrar cutucar machucar até, pisando com Na... Reagia Pedro numas trovoadas nuns sons à altura que Daiene merecesse, gritando quase de propósito (de ofendê-la? claro, e também:) para toda a vila saber; e a vizinhança agradecia decerto a deferência do recado; o qual certamente noutro dia, dia de colocar o lixo na lixeira, aquele negócio do dia de passar o carro do lixeiro; nesse momento trocando conversa-fiada as comadres se falassem e Daiene se calando; óbvio: conversando todas inclusive dona Daiene do 122, a falar sobretudo, mormente sobre a ladrona, a prefeitura, e menos que menos que é nada, sobre a pauta dos entreveros no lar, doce lar, do 122 em a noite anterior.
Ora ora, o silêncio não esconde nenhuma verdade.
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Uma é que Na sumira. Sumira como que por encanto. Nada se sabendo, por maior e mais sério levantamento no levantamento levado a efeito; e nessa altura em que todo o bairro, os conhecidos embora aqui bem reduzido o número dos conhecedores dos moradores do 122 na rua da Esperança (ah lembrança safada: o povo diz a esperança é a última que afunda na cena do navio a soçobrar...) Porque Na, embora mocinha, não tendo muitos amigos na rua, meio tolhida quieta, sorridente entretanto; Daiene é segura curta breve no seu dizer, talvez contida ou medrosa porque as bocas temem as línguas... E Pedro? o pai da filha e realmente ligado à mãe da filha (havia uma das comadres a garantir de pés juntos não ser filha desse pai mas doutro doutra cidade, de preferência no caso: longe). Esse Pedro trovejava bem porém não dizendo o que pobres e famintas orelhas desejavam esclarecer... ao menos não dizendo o suficiente, suficiente apenas na altura do som... Enfim ele também guardando proporções e não cultivando amizades ali; ou seria caso de estreitamentos sentimentais o “bom-dia, vizinho”; ou no seu comum responder sem concluir “beleza!” uma expressão muito boba a completar um diálogo ou só ‘diálogo’ com estranhos vizinhos; estranho... Assim os laços da família no bairro, ou antes: na rua, não cultivando esperanças e nenhuma solidez, ao menos em proposta à duração.
Agora, diante do drama que se instaurou com o sumiço de Na, até se pode admitir um certo interesse, curiosidade bastante, no entanto ainda aí de pequena envergadura, além é claro do apego dos próximos (distantes) na solidariedade desperta no problema tão flagrante.
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Um vizinho abelhudo, desses que se metem e mentem curiosidades pois tendo muito mais olhos compridos do que aparentam; tal peça, mais precisamente o do número 132, da mesma rua da Esperança na periferia rica da não tão rica urbe, talvez menos pobre comparando à riqueza da zona central da cidade – esse, esse agora ouvindo uma verdadeira batalha lingual de Trovão querendo ganhar no grito essa guerra contra outra voz nada macha pra valer no entanto macha baixa e incisiva na digladiação ali na casa 122, da Daiene, nada caçadora deusa então longe, perto ambos discutiriam. Se bem que na discussão estando igual amigos; nada de faca de polícia e, mesmo de alarde visto ser visto frequente no bairro as altercações e o Pedro dirá, com toda certeza, dirá ao final da batalhinha não sangrenta “beleza!” Ah, Trovão fala tão alto que parece ao metediço vizinho andar só da silva e aqui pareceria louco e a casa um manicômio. Resumindo, discutem os amigos sem que a vizinhança entenda sobre o que, e se a esposa ali presente o Trovão não trovejaria, antes que isso isto: falando com compostura e quase alta educação em baixa voz... Ouviria menos ainda a batalha, desentenderia ainda mais. Contudo não é agora, é anterior, é de antes, de ontem.
Ontem, anos atrás, aí por uns quatorze anos talvez mais talvez menos, o mais para agradar (ou a confundir!) a satisfazer enfim a boca da comadre a garantir ele não ser o genitor da infeliz Nayara – ué, infeliz por quê? fica isto pra depois... – então o Pedro encontrou-se com Daiene, a jovem morena que tentaria sem precisar demais força flechá-lo. Terá dado padre, cartório, não deu festa com certeza porque a família não deu mesmo festa: ou apenas ocorrendo a igreja verde aludida. Terá dado à luz a mãe à filha igualzinho a mãe... bem entendido: parecidíssimo ambas, a tanto ocorrer o habitual a cansar o sol por ver a mesma coisa por milênios que é o povo comentar na cara do freguês “a filha parece a mãe” (isto válido para a beleza aprimorada e a aprimorada feiura também). Na verdade, na medida em que Na cresce e se aprimora nos encantos feminis, mais próxima fica do físico de Daiene. Na igualmente morena... ah sim os hipócritas de plantão, a fim de não ferir frontalmente um negro o apelida “moreno” entretanto não se aplica tal às duas belezas femininas, mãe e filha, pois são desse tipo de gente com perfil europeu de traços finos, brancos ou mais ou menos brancos e não ornaria aqui fossem louras. Não. São de cabelos escuros e de pele escura, parecendo mais queimadas do sol (o sol sorriria, brincalhão) sem sinais afrobrasileiros, quem sabe mais tendente à textura de pele indígena. São – agora mãe em teimar não mostrar idade e na idade de vinte e oito setembros, aniversaria em setembro, nessa idade não sendo de fato velha, fora a língua porque tem pimenta tal qual velhota que se irrita fácil com tudo critica tudo, no tudo todos safados Trovões... E, a encostar nessa ‘matrona’ (ai, quanto abuso!) a virgem Na tem o resto da compleição: estatura ossatura musculatura, a magreza exposta em ambas; e um quê, um que dá e mostra certo atrativo. Há uma época em que se voltam para a mulher que passa em passos medidos, ginga, trejeiteia (não tem! agora tem trejeitear, pronto) enfim todos machos se voltam ao doce que desfila na avenida apenas para lhes encher os olhos da boca. Contanto se parecerem, as comadres comentariam – lá vão as duas irmãs – não comentam, não por não comentar e é o que mais fazem mas porque ambas mesmo fossem siamesas nunca apareceram juntas... Juntas! capaz, pois não se tragaram nunca também. Antes se morderam por longos quatorze anos. Não. Isto abuso porque em menininha Na não tendo capacidade (nem razão, razões...) a enfrentar Daiene. A coisa esquentou nos últimos dez anos e mais a ferver os dentes nestes dois próximos passados ao sumiço da menina, já incorporada do saber-se mulher e mulher bela. Esquentou ferveu. Derramou... E por fim o sumiço da beldadezinha.
Contudo o lar existindo, a família constituída, a casa respeitada; decerto os impostos pagos embora abusos da ladrona. O normal – o comum, normal é palavra demais exigente – o normal no burgo, na sua periferia menos pobre; a pobre é miserável e mais abaixo do bairro deles; não dispondo esta nenhum dos benefícios concedidos, sonegados muita vez à periferia rica pela ladrona, a rica onde mora a família de Trovão, ou por outra e com mais categoria: de Daiene e nada de Nayara.
No bairro deles, mais precisamente na Esperança 122, nela e dela ouve-se murmúrios de vozes femininas, finos mas agradáveis (tem mulher que afina mais a voz fina e irrita a gente. Não:) ambas belezas morenas falam entre o fino e o grave; e mais grave e altissonante a do chefe da família. Nisso seria preciso aprofundar, visto necessário saber e pensar para descobrir quem é o macho da casa, às vezes é mesmo o macho, porém a estatística tem forçado hoje registrar chefia a outro membro, tirando a do homem.
Aí está o porquê na coisa. Ela, não a coisa, a Daiene, a Daiene raspa um pouco, cria problema ao marido. (As comadres afirmam que não é, e não importa:)  Ele chega estaciona encosta o carro – velho usado lavado lustrado embelezado no fim de semana, limpo lindo como um deus, é o deus de um pequeno-burguês de periferia rica, caracterizado por ter carro casa própria e prestações vencidas na Caixa e na garagem que vende veículos usados. Para, quase queima a guia na sarjeta da Esperança; entra em casa, fulo (assim dizem populares quando a gente anda a espumar de raiva) nem fecha a porta do seu deus e já vai gritando (a quem! à Na à mulher?) “está faltando uma peça!” realmente pronuncia não bem ‘está’ e sim ‘tá’, comendo sílaba nada por raiva, o popular fala assim. Põe os objetos no chão, conta, reconta, dispara o resmungo e daí vem ela. A ele: “o que foi que eu fiz errado agora!” no errado acerta carregando na palavra para chamar atenção e pilhar o parceiro no julgamento apressado. E completa: nem fui eu quem conferiu, nuntava aqui quando chegou a mercadoria. Não foi inventado o vocábulo nuntava pois o homem do povo diz desse jeito; e todos entendem. Ele entende, fica sem graça, desconversa, lembra outra coisa de domínio no universo da família. Trovão adquire sempre uns artigos, decerto coisas de comer entregues por uma caminhonete duma empresa produtora. Chega o veículo, chama o dono, o qual certamente trovoa noutra freguesia. Alguém da casa recebe e confere, supõe-se. Agora faltou uma peça...
Atritos desses, seja no convívio familial seja quando no trabalho pois Daiene empregada em não se sabe o quê; às vezes faz horas extras na lanchonete, às vezes no lar a regar a sujeira de Dóque, Dóque? o vira-latas ladrador da área. Raro ela conversar com vizinhas e nunca na vizinhança. A coisa se desenrola mesmo dentro das quatro paredes, quer dizer desentendimentos se desentendimento houver. Não podem ir além vizinhos e comadres; talvez mais afeitos os parentes e os conhecidos. Agora conhecidos e parentes se amontoam nos interesses fustigados (a curiosidade tem um prurido curioso por sua vez que é essa fustigação). E assim aparecem agora, não para saberem e é possível já saibam sobre brigas e desentendimentos no casal e sabem com maestria sobre as intrigas... Os íntimos se reunem agora é pelo sumiço de Na...

3° – Segunda semana     
Reunem-se os parentes de sangue, os somente aparentados, os conhecidos agregados, os íntimos, enfim ajuntam-se em casa dela... mas por que em casa dela não dele, dele o macho da espécie machista? A resposta, convincente ou divergente, a resposta seria a de que uma casa é mesmo da mulher e não do chefe de família, aquele tido por dono da casa. Aqui neste ponto do texto, que vive a se intrometer, imiscui-se a paciência: a esclarecer que é necessário esperar as linhas futuras. Contudo, num ajuntamento há sempre os afoitos – numa reunião na ocasião na situação de confusão da casa em que tal casa se encontra, aqui temos igualmente afoitos, aguardemos com paciência. Nessa casa não se acha no momento e faz tempo, já antes da primeira semana e agora estamos na segunda semana, final da semana, ainda no início do drama do sumiço de Nayara; dessa casa Trovão igualmente sumira... o que não vem a ser algo tão chocante e sendo até previsto visto as brigas diárias do casal e portanto Daiene é então o único vivente, ou sobrevivente, com o qual a parentela se reune, esses afoitos visitantes. Uns falam falam falam brabos; tem gente que nem mordendo ferindo sangrando a língua e a escorrer a saliva numa baba braba avermelhada: ainda assim não se cala! Outros se calam a outrem dar o recado, falam apenas quando da respiração (ninguém é de ferro, ora!) enfim nos momentos em que tia Jacira, a mais feroz, suspende sua arenga. Tem no meio desse meio certa pessoa que dá exemplo de lisura, de educação, coisas assim ou de paciência ou de impedimento por ser mudo, Geraldo é mudo de nascença, aprendera a comunicação por sinais; os outros são analfabetos em libra não entendê-lo-iam e daí não dizendo o que pensa do problema principal, o sumiço da prima segunda Na. Esse não ajuda a esquentar a discussão; olha apenas e participa se voltando ora a um falante falador (não escutador...) ora a outro, outra no caso sendo a tia Jacira.
Assim mesmo, quer dizer sem Pedro o grande trovejador e não interessa agora o porquê da ausência; presentes os interessados, assim mesmo seu santo e lembrado nome vive à baila na reunião familial pois se trata do caso em discussão do desaparecimento de sua filha... tem uma vizinha, comadre de pés juntos jurando não ser dele – o negócio da gente saber tudo que ocorre no mundo estando fora do mundo porém tendo já o direito de garantir o fato – e se não for é ao menos filha doutro pai, todos temos genitores, conhecidos ou não. Não é, afirma, nem casados os dois eram e daí o sujeito deu no pé... ora, a senhora, diz a comadre a outra vizinha, a senhora não acha que ninguém aguentaria realmente a gritoninha do 122!? Esta referência por haver Daiene extrapolado a agudez nos seus gritos num dia numa discussão num malfeito do malfeitor, aqui Trovão surge imprevistamente como mocinho todavia bandido a gritar menos que Daiene – enfim uma prática não comum nos entreveros do lar ‘doce’ lar, ela gritando mais alto que Trovão; isto lhe valendo agora o epíteto ‘gritoninha do 122’.
Enfim os íntimos (ah, é preciso um dia a gente pôr pingos nos ii e abrir uma discussão, sem nenhum mudo a palpitar na coisa, abri-la a analisar bem o que seja de fato os íntimos dos íntimos; não agora, agora:) os íntimos querem saber mais da fuga de Nayara. Nessa altura a mãe da menina pusera já, seja como autodefesa seja por esgotados os recursos por semanas no desaparecimento, essa questão da fuga. Tem mais um porém que são as lágrimas maternas haverem secado, embora isto seja mentira porque a verdade é o coração materno arrasado sempre sangrar à mera lembrança da perda duma filha, que dirá quando o íntimo agora a relembrar falar esticar abrir cutucar escarafunchar revirar a ferida, apesar ser o momento e causa da reunião nada apressada, por ser rotineiro os parentes reabrirem machucaduras e feridas; é próprio dos parentes isso.
Uns deles conseguiram praticar um milagre no absurdo – enquanto o grupo discutindo (no bom sentido, ninguém iria magoar, e já magoando... a mãe da filha relembrando a fuga da filha) – uns chegaram a, deixando de lado aquele apetitoso e triste debate, chegaram a ir na qualidade de gente de casa entrando no íntimo da casa, a vasculhar as últimas pistas de Na no quintal (e aqui viram umas sujeiras praticadas pelo desleixo doméstico...) no prédio nas dependências dele e mais detidamente vistoriando o quarto de Nayara sem Nayara. O guarda-roupa, as roupas, os sapatos, os objetos e objetinhos da coleção de Na, seus bibelôs, e a remexer naquilo que a gente fala “porcariada” por não ter valor mundano e comercial ou exatamente por ser demais mundano; em resumo sem uso prático. Examinaram como fossem peritos, sherlocks de periferia, os cadernos da garota, na sua letra caprichada muito embora feia por falha (ou falha da caneta; uma página sendo a lápis quase sumido igual a ‘sumida’...) Fixaram-se nos dizeres, tentaram achar ali, na interpretação de bons detetives, as razões da fuga... Enfim fizeram buscas absurdas nesse absurdo, como fora possível antes escapar aos olhos maternos, os de Daiene, algo ainda mais importante do que a interessada genitora e que ela não pudesse haver encontrado. Retornaram à equipe de discussão onde continuava a discussão, discussão sem fim. o caso ainda iria ser tratado melhor e mais profundamente, inclusive nessa altura com empenho policial. Isto inevitável num caso de ausência sem explicação e piormente sem provas materiais a encher os autos e acumular papéis ao fim do mundo, aqui não em dilúvio sim num fogaréu...
(Jacira deitando fogo pelas ventas:) "mas Da, ocê num percebeu nada nessa relação dela com o bandido!” O bandido tratado pelo coloquialismo da tia, essa expressão levanta primeiro o drama da sobrinha Daiene e depois a atenção do auditoriozinho de meia dúzia de íntimos ali unidos a destrinçar o desaparecimento de Nayara, esta a fugir na calada da noite decerto, rumo ao rumo desconhecido (nem o encalço policial resolvendo o imbróglio...)
Toda vez que temos puxadas as orelhas, mesmo seja pela bondade aparente própria e intrínseca dos parentes próximos; ainda aí ficamos ofendidos. Pior: justificamos as faltas num mostrá-las apenas deslizes, como fosse um abatimento na conta da falta. Gente. Daiene desandou amaciar seus pecados através dos pecados da oposição. O que relativamente fácil, fácil ou sem as agruras do buril da verdade... Narrou aos ouvidos ouvintes os anos da tragédia do lar pelos abusos dessa mesma oposição, pilhada muita vez exagerando na sonância de voz; numa espécie de vencer no grito. Isto mero esclarecimento porque na normalidade das horas e das relações, “com os de fora”, grita por sua vez Daiene, Trovão no momento se não falando manso e baixo, ao menos educadamente. Aliás, que burrice sem tamanho um comerciante numa lanchonete ou lá no escritório a justificar a crise e o atraso nos pagamentos seja à ladrona seja ao Estado seja à União, enfim tratando com fregueses ou funcionários questões do fisco – ele usasse gritos para atrair orelhas dos outros! Em casa, outro caso: Trovão arrotando poderes; entretanto baixando a voz, pilhado em erro por Daiene. Todavia agora a mulher do homem relembra – justifica ou acusa ou releva ou ofende sua honra, a dele, por crimes que praticou em cima dela, a pobre. Podres, isso: revisita os podres da família, sobretudo a desejar ganhar se não o indulto o voto da parte feminina dos ali na cozinha reunidos, a sala às moscas, ela de pé, a tia cansada velha gasta e cansada talvez de língua e pernas com nádegas na cadeira de pau velha e meio insegura (a cadeira, a tia empertigada) meio desarmonizada e daí a sobrinha se aproveita do momento “vê a cadeira! o bruto sequer arranjava, sequer apertando as porcas e os parafusos, batendo um martelo” vê, a cadeira descadeirada? todos riem, até o mudo o qual não ouvira também surdo; riem em pausa no contar o ringue do lar, doce lar.
Contudo, onde mais pegando a engrenagem da familinha, onde mais, muito mais na questão moral! Ah isso sim ganhando ela, a dona da casa diante de seus íntimos, ela a ganhar fácil a compreensão da parte feminina daquele auditório de cozinha. Ele, ela disse, me traiu sempre nesses quinze anos! Quinze, nisto exagero duma pessoa muitíssimo ferida. Nos últimos anos a coisa piorou. Neste ponto o texto teme não os tês mas o constrangedor de o caso moral ser ainda mais imoral, visto poder entender-se e até perdoar: a gente perdoa mais estando longe, perto não... e Daiene ali ao alcance dos olhos parentes, nada pacientes até indignados, o que reacende uma fogueira... Daiene repete insiste no delito de adultério e prepara o bote mais flagrante e consagrador no flagrante que diz haver pilhado a oposição (e isso não ajudaria explicar a fuga dela! não de Daiene, da oposição da esposa?) A vítima diante parentes ali a discutir o tudo o nada o quem sabe – põe a causa verdadeira ou irrecusável ou absoluta ou peremptória da fuga do seu parceiro, exato no instante em que mais precisaria dele visto ficar só a sorver o sumiço da filha. E aventa ser igualmente o motivo provável dos desentendimentos do casal nos últimos anos. Flagrei (disse de fato “peguei”) flagrei o bruto beijando carinhando a Nayara!

4° - Terceiro mês
Trovão preferiu não dar sinais de suas graças nos primeiros meses após a tragédia; e seriam duas tragédias: o desaparecimento de Nayara, como primeira, e loguinho nos primeiros dias a segunda entre acontecimentos trágicos, que fora sua fuga. É questão a se pensar, por que alguém perde quando perde um inimigo! enfim um sujeito não confiável. Na dita reunião familial, tia Jacira foi curta e grossa coloquiando inclusive ofensas numa frase a causar riso por fora dor e sofrimento por dentro (dentro no coração de Daiene) “Ocê, sua burra! nunca desconfiou do aproveitadorzinho?” Postas as palavras desse jeito fica parecendo um tatauzinho um anãozinho um tampinha o Trovão. Não. Um homem alto porém não parecendo gente branca de muita estatura e corpulência, a corpulência pode confundir os centímetros. Sobressaía, não obstante parecendo uma vareta, apesar de fortalhão; quer dizer, isso quando ao lado da esposa (a comadre vizinha... deixa pra lá) fazendo um par engraçado: ele branco altão e ela morena baixa pequena magra. Estando ambos e acrescido a filha no mesmo tamanho da mãe, semelhava a família pronta ao retrato (aquele negócio do “olha o passarinho” do flash). E nisto Na preferindo sempre pousar do outro lado da genitora com o pai no meio delas; nunca tirara nem tiraria foto junto de sua oposição, seu desafeto, e se tivesse que fixar cena à posteridade com a mãe, fá-lo-ia mostrando ou se traindo a expor uma alegria inventada não sentida... O contrário do contrário verdadeiro, Daiene dispensaria sair na mesma foto com Na.
Nesse terceiro mês da tragédia do sumiço da filha, Daiene se mostra não propriamente apaziguada, talvez indiferente ao caso; caso aqui absurdo porque sempre aparentando sofrimento profundo, era uma sentimental criatura; agora experimenta singular (e triste...) situação. Não lhe cobram informes toda hora como nas primeiras semanas e ela vive só... as comadres entre si negam e se precisar inventam modelam embelezam a feiura dela, moral bem entendido, pois continua a mesma Daiene, apenas exibe um sofrimento não explicado, explicável porque ninguém pode estar num mar de rosas no tudo azul perdendo um ser caro a si; um não: dois – isso sem mostrar na feição na fisionomia. Que de resto devera mesmo versar o cansaço e afundamento... o contrário chocaria a rua da Esperança. Quase não para mais ao bate-papo, varre quando varre ou dá as costas à língua comadre e deixa acumular resíduos, o vento e a passagem da meninada fazendo sua parte e papel nos papéis a voar juntados. Quase mesmo não fica na calçadinha: vive, agora a ir ao trabalho (onde?) e claro não ir em hora extra à lanchonete do marido; a tornar de lá à casa 122. Não se ouve sua voz em não ser ralhando Dóque, o qual não responde; ou por outra, tristonho lamenta uiva a falta da mãe (decerto cachorro imagina que a mãe de Na, sua irmã que tanto o carinhava, que a mãe seja sua mãe também). Daiene é um pouco carrancuda ou indiferente perante o animal. Não. É mais ou menos derrotista e anda derrotada pelas agruras da vida nestes meses, não sendo de cara fechada propriamente mas apenas assim com o pobre cão. Ainda lava suas lágrimas no corredor da casa e daí sai ao passeio público em público pra limpar a sujeira escorrida na sarjeta, não para conversar com a gente de fora aquilo que só deve ser da gente de dentro; aqui parentes que não mais amiudaram visitas, já quase sem esperar belas tragicidades... Certamente cultiva amigos na área do emprego, no seu ganha-pão; elas usam o verbo abusar na fala sobre a vizinha, um abuso com certeza porque ninguém sabe nada além do que vê no bairro. Não obstante no abuso poderiam dar-se com os burros n’água (isto da filosofia caipira) quer dizer, encontrar o que desejam saber de Daiene: um amor escuso por exemplo, apenas constatam as comadres fatos na Esperança e daí talvez possam esbarrar com alguma novidade mais apimentada. Ficam na suposição...
Todavia o pessimismo que a moradora exibe nestes últimos meses não animaria demais a imaginação dos que a veem e dizem conhecê-la. Aqui um ponto a ser atirado ao futuro explicar, porque todo mundo afiança conhecer alguém e no entanto é apenas um ‘conhecer’: ninguém conhece ninguém, a fundo ninguém. O que haveria no interior daquela mulher morena magra pequena e com expressão de tanto sofrer ou só descrente! Inclusive os da família – ela não tem mais família, a família desintegrou-se, a filha sumiu o marido sumiu, o Dóque não conta – os da família, os do sangue ou sem sangue, apócrifos, e ainda tendo os ditos conhecidos, todos candidatos a conhecer Daiene a fundo. Esses também não sabem mais do que ela lhes oferta como fatos, fatos sem novidade o que afasta os pouco mais de dezena de íntimos que rareiam aparecer ou nunca mais vindo. Sabem, é lógico, sobre outros acontecimentos ou vivências no trabalho dela, o trabalho fornecedor dos meios de pagar contas comer vestir e a fornecer também dinheiro a adquirir medicamentos... Ultimamente e inclusive antes da perda de Na já tomava remédios fortes, ela um ser comum com necessidades comuns; porém após a saída da filha e a fuga de Trovão ela virou uma freguesa de psicotrópicos, largamente até concedidos pelo receituário médico. Não será, ou não estará por baixo dessa situação o envelhecimento da senhora...
Daiene da Silva Gonçalves, Silva de Maria e Gonçalves de José, falecidos mais de ano, Daiene envelheceu alguns anos nesses meses... Oh como isso! essa constatação alegra sobremaneira as comadres, uma, não: duas delas é só pelancas e cosméticos, cirurgias não por serem tão pobretonas quanto a gritoninha, e a gritoninha nestes tempos muda...
Aliás a sofredora mulher não é nada, por sem língua, decerto fala quando vez por outra procura parentes, não vindo quase mais eles em visita, enfim quando vai visitar alguém. A desabafar, diria algo; diz entretanto não diz tudo. Ora, isso novidade? as pessoas que pensam pesam sabem, as que têm experiência (positiva-negativa) essas sabem com dificuldade e de má vontade abrir a boca. Isto faz recair no conceito provisório de íntimo. No entanto todos na humanidade precisando confidente. Impossível a gente não levar para o túmulo mais um pouco do muito que julgamos saber.
Tem um outro viés que atinge Daiene, a solitária do 122. Ultrapassando seu negativismo dos meses a passar e a ultrapassar o terceiro após a tragédia talvez as tragédias que se abateram sobre sua cabeça, poder-se-ia notar um leve interesse religioso nessa mulher tão arisca. Leve, pois nunca teve tal característica. Sim tem certas mulheres, tendo dois exemplares entre as comadres vizinhas assim, do tipo de gente que não sai da cauda da batina; isto transposto às novas denominações contestadoras da religião ocidental secular, milenar até. Não Daiene e isso esclarece o fato de nunca haver induzido Na à frequência no templo. Elas, sempre as línguas livres quiçá abusadas, elas acusando ambas como ateias (longe das vítimas mãe e filha) e quanto ao homem da casa, Trovão era na rua
em que morava um diabo descrente e irreverente. Agora não: ela sobe à igreja do bairro na missa domingueira, curiosamente à noite, quase a se mostrar. Parece no entanto que Daiene prefere se esconder.
E não há maior e melhor e mais confiável esconderijo que a mente.

5° - Quarto ano
Daiene meses anos tempos já passados, vencidos... vencidos! encontrava-se naquilo que o homem do povo garante ao mundo do seu mundinho ser a fossa. Enfim vivendo uma depressão, do tipo de quase abismo, escuro profundo destruidor sem resposta e cheio de proposições negativas, quando se lembrou ou fora exatamente por se lembrar da morte da filha única (única a perdurar viva, abortos não contou, somaria negativos a aumentar o pessimismo! sim, ampliou congestionando o débito). Ora, a morte, assim posta meio repentinamente, não seria por demais chocante? Ela não pensa desse jeito, contudo pensava nisso. Não levara antes em conta a possibilidade de Na haver tão só sumido a tornar um dia... não entraria nesse ponto num possível desespero, desespero amigo da fossa; sim não entraria nessa altura a missiva vinda do exterior, parece que do Chile do Paraguai, enfim o paradeiro e notícias, umas linhas caprichadas que diziam, além daquilo comuníssimo “fulana manda lembranças...” e sobretudo narrando sobre Nayara, Na encontra-se bem aqui (lá) e com saudades promete um dia retornar à pátria, estreitar em laços benfazejos o coração materno? Onde Daiene haveria então posto a cabeça – decerto disparada pela solidão por causa do abandono do amor de sua vida, conhecido no bairro na Esperança no 122 e mais na vizinhança faladeira como Trovão, Pedro Trovão; um moço por moço ainda, um esquisitoide não cumprimentando quase a gente (queixa vizinha, talvez com base) e que após uma discussão em meio a mil discussões e além das habituais ofensas mútuas, daí mais trovejante ou já como tempestade inesperada, se foi a “cantar pneus” garantiram elas, se foi, a nunca mais voltar para a gritoninha.
Aqui o texto deseja explicar os pneus das comadres. Os jovens e adultos apressados, nervosos ou impensadamente saem às carreiras nos seus carrões último tipo e ainda a cheirar agência de carros zero quilômetro – e mais presentemente com suas motocicletas o que incomum na época da solidão de Daiene – e partem tão rápido que marcam e deixam o cheiro da borracha desgastada no asfalto... ora, no da Esperança a ladrona sequer tapa os buracos com piche novo e pior o caso da periferia pobre miserável sem água sem esgoto sem pavimentação nas ruas, não o caso do bairro de Trovão que deixou de vez a Esperança na esperança de trovejar longe dali, depois de ofender profundamente a esposa (elas: não era esposa coisa alguma, Trovão tapa-lhes a boca, sai, canta pneus riscando as rodas no asfalto negro como perda que ele ganhava e some por final).
Quer também explicar a carta da irmã mais velha, Daiene seria a caçulinha de Maria e seu Zé, uma correspondência que Daiene entregou... Não. Não isso, apenas exibiu no distrito policial no ato de pedir darem baixa ou a retirar a queixa registrada no bê-ó da repartição, visto haver finalmente e a descançar um coração materno demais sofredor (isto se compreende bem) e para se desobrigar diante da lei, ou só a fugir de examinar a relação enorme e terrível de milhares de outros desaparecimentos no país; ou mais com certeza e sem dúvida o que ia lá dentro de sua mente: que as autoridades não inventassem mais de aparecer na Esperança a indagar tentar esclarecer a fuga o sequestro o sumiço da filha. Nisto cabendo o tormento visto ser tormento a remexer cavoucar ferir lá dentro do coração de mãe, ainda a sangrar, porque os anos não curam (de fato) a perda de um filho embora no seu caso passados uns anos. Além do mais, aquela chateação de rever mil retratos de jovenzinhas desaparecidas, a sorrir muita vez à câmara fotográfica... e a pedir, não: as autoridades chegaram ao abuso de confiscar fotos de Na, como uma guardada e a registrar certa boneca assustada espremida nos braços delinha, então uma gracinha e daí, lógico e compreensivo Daiene verter lágrimas, ferindo constrangendo mesmo o funcionário a abordá-la. Essa carta, essa a carta aludida que o correio trouxe do estrangeiro e longe postada (se bem que Daiene não mostrasse o envelope nem o carimbo no selo, só as folhas escritas pela mana). Aliás já fazendo um ano e pouco a prova do encontro, via correio é lembrado, ainda assim o achado da perdida... Outro porenzinho, muito corriqueiro nos meios se não oficiais oficiosos, de os agentes funcionais quase não mais encontrar os documentos em que a família desesperada ou sofrida registrara o desaparecimento dum ente querido; no caso o sumiço de Nayara.
Mas voltemos ao estado de espírito ou situação sentimental da mãe dela; naquilo convencionado como fossa. Daiene anteriormente, uns poucos anos atrás, exato os dias críticos nos quais constatara o espanto – e nisto com ajuda dos olhos e dos ouvidos de Trovão presente e dos vizinhos deles; e depois ainda com os lamentos diante íntimos de sangue e sem sangue, pouco importa, importa é o coração – concluíra pelo desaparecimento; vasculhara o quarto da filha, limpara, pusera ou repusera no lugar objetos da triste lembrança de Na; a questão de ficar vendo revendo sofrendo diário ao contato visual das coisinhas a remexer o coração da gente; aqui se expulsando atritozinhos na relação perdoando-se deslizes... enfim deixara o aposento em ordem, quiçá em condições à volta da menina, não sabendo o futuro; o futuro sem pressa acumularia alguns anos, anos antes do sentimento da mãe e é mentira que uma perda tão grande se apequene e não caleje os fundos da gente – nunca sumirá a imagem cultivada numa família que se ama!
Agora, quer dizer nos dias da constatação da saída de Nayara, agora Daiene está sozinha, não pode contar mesmo com seu parceiro, que não obstante os disparos das comadres era sim o companheiro dela porém consta que ele se foi, sem se despedir ou despedido na última briga do casal. Em resumo: está sozinha sequer pode falar sobre o assunto com esse íntimo, deixemos a igreja-verde das vizinhas, Trovão era suas orelhas no momento ingrato do sumiço da filha. Agora a esposa está só.
Olha o quintal... Uma área mais ou menos largada, avessa inclusive à vassoura comezinha pois usada, quando usada, apenas a limpar a calçadinha pra alimentar decerto as observações maliciosas e em contrário delas contra ela, ela Daiene. É a sujeira espalhada: folhas secas, objetos mil, papéis e outros desserviços a rolar ao vento à chuva à seca o sol a noite, a noite do tempo... Acúmulo. Cada vez Daiene observava aquilo; e retomava sua rotina, não iria esperar que a oposição fizesse o serviço de faxina quando nem o martelo empunhava numa tarefa de homem para acertar do ‘desmunheco’ da cadeira – iria então limpar o ambiente! Há inclusive num dos cantos do quintal ao lado da única árvore do terreno verdadeira montanha (diz assim o exagero) um monte apreciável de lixo, nunca retirado.
Um dia resolveu, resoluta mulher, um dia tomou decisão de faltar ao serviço para o trabalho de limpeza daquilo que tanto a incomodava. Usou certa pá e quis fazer um buraco, remover a terra e remover o lixo com ele tapando a terra; qual avestruz, que se diz por aí enfia a cabeça no solo para não ver o desastre acima do solo... Fracassou. A ave? ambas. Daiene não pôde com o solo duro, nem força nem traquejo tendo; nem paciência nem persistência; nem tempo, perdera tempo e gastara a falta ao trabalho que era seu ganha-pão, ao tempo que dedicaria à tarefa de faxina (ou túmulo a enterrar sujeira não mais olhar o entulho). Pegou uma revista ou ligou a televisão, não para ficar enraivecida com propagandas mas a encher o resto do tempo. Noutro dia esse ser curioso retomaria o emprego e a rotina...
Depois resolveu contratar o João a cavar uma valeta e enterrar o lixo no acúmulo da casa. O João não passando de um desses tipos folclóricos que toda cidade interiorana exibe. Esse homem falante simplório amigo de todo mundo, ela o contratou para o mister em que falhara; aliás a sociedade não achando isso tarefa feminina. Daiene não levando muito em conta a opinião da vizinhança nem por isso deixou de chamar o João e permaneceu toda a jornada a vê-lo cavar e depois atirar no buraco uma porção do entulho. Ficou como que a fiscalizar a operação do servidor, não arredando pé enquanto o mesmo na tarefa – ora parava a conversar fiado com a ‘patroa’ ora parava a fumar cuspir soar e beber, água embora cheirasse a caninha...
Oh, foi como limpar o cérebro congestionado pelos venenos que recebemos como contribuição das pessoas que nos cercam; e mais ainda cheio de veneno que a gente mesmo produz, numa espécie de suicídio não aparente... O quintal ficara após a limpa do trabalhador como que um paraíso: limpo, o ar respirável agora, até parecendo haver crescido na sua área! os insetos adoraram voejaram se soltaram e os rasteiros se estenderam no solo. Ela, a dona visto ser dona antes e proprietária após a fuga de Trovão; ela teve uma sensação de quase libertação, isto um exagero; sentia-se então melhor nessa visão. Todavia nem toda área ficou livre desse lixo tempo acumulado, com as ferramentas de João. Isto porque orientou o operário a deixar apenas pouca porção da matéria já curtida no vão aberto. E justificou quando o homem se dispôs noutra semana voltar ali e enterrar o resto do entulho: Não precisa, sr.João, eu mesma jogarei facilmente o que ficou pra fora. Pagou. O assalariado se foi, contando cédulas, então de cruzeiros ou cruzados.
Tornou a rotina a habitar e permaneceu morando no imóvel 122.

6° - Quinto sinal de interrogação
Aqui o texto não se valendo dos sinais gráficos na pontuação, a explicar os mais abaixo ou mais acima nestas vidas conturbadas... Todavia o primeiro ponto de interrogação é o caso de Daiene, a morena que expulsou o Trovão antes que despejasse a chuva e melhor nesse pior a tempestade; é enfim o caso dela, ela devendo pelos anos de pacificação no doce amargo lar não se irritar mais por experiente, embora necessidade de brigar; e agora não poderiam se atingir – ou poderiam! – não podendo ter Na ali a brigarem, discutirem feio e nunca uma discussão no mau sentido seria bela, discutindo ambas a filha a usar palavras formalmente pesadas mas sem descambar à grosseria; já a mãe sim usando de palavras chulas, onde o melhor artisticamente modulado seria um “cala a boca!” porém que degringolava sempre em nome feio e uma vez se traiu a mãe se xingando e poderia usar o manso “filha da mãe” bem mais culto à gente educada. É portanto o caso de Daiene não poder brigar sozinha, espantado e fora o que fora seu companheiro, expulso como dito. A completar essa ideia vem um esdrúxulo: ela não tendo mais as razões do passado no presente, deveria, apaziguada, engordar... Emagrecia mais e mais... anos já e já secando. Ora, a moça, ainda moça, não jovenzinha e sim moça, ela encolhia. Ocorre precisar ser registrado que uma das características da mãe era ser morena pequena magra, toda a vida assim, assim mais assim agora; enquanto a filha também por toda existência pequena magra morena – quer dizer nos quatorze anos em que a casa teve o conforto de sua convivência, se bem que ao desconforto da mãe... Esta, num intermédio de sofrimento, por ficar sabendo duma traição do esposo com uma vizinha donde moravam antes de Daiene adquirir a casa 122 na Esperança, sendo ela magra conseguiu ficar ainda mais! Nisso teve anos as orelhas da filha para se lastimar, apenas lastimar (não perdoar) porque Daiene era dura de coração. Emagreceu, o tempo permitiu (não o esquecimento não) permitiu retomar a rotina da casa. Naturalmente isso não foi exportado para o dia do lixo e da varrição e da conversa amena lá fora; tem coisa que é segredo de Estado até à cova. O curioso é que, sem os danos que uma convivência conflitante traz, fugindo do lar pai e filha, esta estaria em boas mãos segundo parentes, nem tia Jacira ali mais a cobrar coisas indevidas, ou seja que lhe não tocava mas só às quatro paredes; nem sendo para com sua colher torta pedir explicações; paremos com parentes! que se acham com direito a remexer a podridão que só pode exalar da gente para o interior do amargo, quer dizer doce lar; paremos ao menos com a tia, a tia morreu e inclusive o coração duro de Daiene amolecendo um pouco chorou junto dos outros íntimos no enterro. Nem a tia mais. No entanto ainda mantinha certa mágoa, não da língua dos de sangue, sentia o haver sido traída pela melhor amiga doutro bairro... melhor, afirma a distância, melhor pois que Daiene não suportava ex-vizinhos; tanto que se mudaram, Trovão comprou na Esperança, com o dinheiro economizado pela esposa; (havia uma das comadres, após os sumiços de Na antes e Trovão depois, a dizer dela ser exposa, pra rirem da desgraça alheia, coisa facílima). Nova residência velha ferida jamais fechada nem perdoada.
A casa agora bem, obrigado. Obrigada ela, não a casa, a solitária as vizinhas teimando entre si descobririam algum amor oculto ou escuso, prefeririam esta forma àquela... E estando abrigada, além de bem empregada (onde! perguntavam e a interessada fornecendo referências insuficientes à tanta orelha...) percebendo salário desmedidamente alto, sem saberem quanto ganhando a vizinha, a antiga gritoninha. E pairava incógnita o medonho que era, segundo elas, ela estar dentro duma fortaleza duma prisão de segurança máxima ou dentro dum convento... ah quanta imaginação.
De fato – e eis aqui a segunda interrogação – para que muralhas num prédio pequeno de pequeno-burguês. Trovão gastara um tesouro cercando a casa a estar mais bem guardado (preso?) abusando das economias da ainda não exposa. Construiu, quer dizer contratou pedreiros para tanto: elevou o muro da propriedade em três fiadas, e desconfiado mais duas... Não contente pôs (tudo os profissionais da área, mui mal pagos, Trovão era o que dizia a vizinhança “munheca” desses difícil combinar e piormente pagar a conta...) pôs arame farpado em cima; nos lados das propriedades vizinhas que no seu parecer eram linguarudas; poria cerca elétrica a se defenderem dos ladrões, bandidos, violentos, violência e temor à violência; poria não existindo a opção à época. Tudinho pago pelas burras da patroa. Aumentou nos fundos também com blocos e arame farpado; à frente de sua casa, dele? dela, no entanto cercou essa frente dando para a Rua Esperança com gradil alto a impedir entrada. E se foi, e ficou a mulher. Mas tanta fortificação para quê? Decerto, soubessem, diriam, ainda a criticá-la, decerto para proteger a montanha de lixo que essa porca ajunta em coleção no quintal... Sim, ninguém tem nada com os atos dos outros. Ocorre entretanto algo estranho: Daiene nunca precisou bem isso.
De repente as casas perto começaram ouvir o ‘saudável’ som de desmanche, arrastar de objetos, chegada de caminhões trazendo material de construção – areia pedra cimento barras de ferro, enferrujado, e o barulho de conversa de operários e de choque de ferramentas (além da canzarra ladrar irritada) além do sonzinho chato de rodas de carinho de pedreiro apelando à graxa; enfim correlatos, as tralhas de reforma. No lixo no dia do lixo Daiene informou secamente às curiosas criaturas uma reforminha no quintal, no chão do quintal. Ora, pedira esclarecimento um marido à noite após o agito daquela tarde da chegada dos trabalhadores, ora bolas, disse a língua macha dessa comadre, para que barras de ferro se é concretagem no solo!? não se usa ferro nisso... Uh, pensou comadre, mais uma pimenta que levarei ao conselho, a elas, mais um inexplicado nesse rolo da gritoninha... Realmente andava pairando no ar um mistério, algo esquisito na reforma de Daiene e antes disso tudo, tudo o que formalizado na construção de verdadeira fortaleza... Enfim a realidade não se convencia dum absurdo desse tamanho. Porém não seria tanto assim, sendo esta mera terceira interrogação pois comum e valendo o sinal tanto quanto à exclamação ao ponto final às reticências.
A quarta uma indignação geral no bairro dessa periferia rica da urbe acanhada interiorana, onde nem todos se conhecem e não conhecem tudo como nas palmas das mãos, afirmando no entanto o contrário os habitantes. Normalmente aquele mundinho do contar as coisas a incluir mais isso na conversa-fiada contra a ladrona. Porque apesar de irritar o remexer na construção de Daiene, algo em si andava irrespondível... ah há uma observação válida a isto: não se deve fazer indagações ou inoportunas ou melindrosas a outrem. Tem coisas que se pensa, às vezes se põe à boca pequena e não se diz; ou apenas, não se podendo provar... aqui, nunca se garante haver dito (mui comum no testemunho ocular dum crime, quando a testemunha não quer se comprometer diante da lei e geralmente afirma não ter andado próximo ao local...) Resumindo, não perguntavam as vizinhas e menos seus maridos, aquele negócio de homem com homem mulher com mulher; não pediam esclarecimento a Daiene no porquê de ela estar presente em tudo todos momentos no trato com sua propriedade – permanecia qual autoridade fiscalizadora sempre: na limpeza, no buraco do João, na entrega do material, na concretagem do solo. No caso uma questãozinha, uma das comadres a pronunciar engraçado questão por “qüestã” ainda mantendo o trema que a Reforma Ortográfica depois assassinaria e ainda válido então; sim um senão. Por qual motivo a dona da casa, sozinha e sem filhos “ué, e a filha?” sumira, sumiu, não conta, contaria já sendo adulta! quer dizer de quatorze anos? Não dona Teresa, não tem Daiene crianças para brincar no quintal ora cimentado limpo lindo reto plano – quer dizer, eu nunca vi lá dentro. Pois é os meninos aqui brincam e brigam na rua e ela não tem filhos a bater bola no quintal sem um verde, só resta a árvore dela. Os sobrinhos e os filhos dos amigos nunca vieram em visita. Não é estranho! Uma comadre mais desaforada ou cheia de ditos chãos: aí tem dente de coelho...
A quinta... bem, tem também o porém da quinta. Mais grave ou mais escondida ou mais tendo que esconder ou se esconder, esconder-se-á no alinhavo desde texto com linhas acabando nas reticências. Ou apenas promessas a revelar as verdades no último entre os capítulos.

7° - Sexta entre as reticências
O texto promete inconclusões nas verdades admitidas e nas inverdades que se interponham. Ele se dispõe a apenas reticenciar.
Daiene tapara os olhos do mundo com muralhas altas e intransponíveis. Não poderia talvez tapar orelhas dele, por mais silêncio fizesse pisando em solo de pelicas, sustendo mesmo (mesmo fosse possível, impossível) suspendendo até a respiração. Não podia, constatava assim, não poderia enfrentar os sons e quase sempre sons em língua estrangeira, ininteligível a si, sons detonados desde os canhões disparados pelos jovens do pedaço – eles livres, visto as mães a escutar novelas os pais assistindo também na tevê jogos de futebol. Então se esbaldava a nova geração nos ritmos e danças. E o som chegava ao 122, penetrava os segredos dela, entrava furtivamente no seu quarto de viúva de marido vivo, na metade vazia da cama, no colchão de casal solteiro, nos lençóis de cobrir o corpo morno moreno magro com as orelhas protegidas pelo travesseiro. O travesseiro de pensar... Pensava pensava pensava... punha sua vida – aqui mera existência não tão longa e de menos de quarenta anos – punha tudo na balança e então pesando demais um dos pratos... piormente o do mal praticado o mal feito, se realmente houvesse tido culpa no cartório pelos seus atos. Tal pensamento igual os sons entrava sem ser convidado, como fosse dono daquela casa na rua Esperança. Era... O resto a azucrinar-lhe, as línguas delas as orelhas delas os olhos de todos e sempre as cantorias desde os lares em torno onde a juventude reina e desejando e conseguindo perfurar as muralhas. Felizmente a música não desejando saber informes da vida da viúva, seria sozinha? poderiam os meninões indagar, mas não viam nada além de seus respectivos umbigos (ah o umbigo, o umbigo da gente comum é ainda mais forte que a morte! ultrapassa a morte do corpo e perdura no pensamento; apenas se vendo, não a outrem...) viam-se se vendo somente os jovens; essa a abordagem da visão deles; assim, sem perigo para ao menos supor existir aquela triste solidão (toda solidão é o interior triste, embora possa passar a outrem desde o prato do toca-discos árias alegres...) Uma coisa porém não entrando abusivamente na Esperança com sua desesperança, pois que saía do próprio número 122. Isto o inferno que a moradora ‘desfrutava’, ‘curtia’, sem partilhar com a vizinhança. Se numa hipótese (aqui já a dose de falsidade) se elas perguntassem a ela, fulana, diriam comadres irreverentemente, fulana: o que tem aí dentro desse cérebro a fervilhar! Responderia? e caso positivo, não usaria o baixo calão igual no trato à filha? oh a Nayara... Ah o inferno particular nesse particular... porque não havendo maior gritaria, maior inclusive que os sons atrapalhados dos jovens e a bateria ritmada duma alta civilização consumidora consumida consumada a impor seu gosto, extirpando a paz (a paz fosse tão só o silêncio ou ausência da guerra do dia, da vez, que vomita a televisão ao povo sem cultura formada...) Não há maior gritaria que a voz dentro da mente culpada, decerto culpada e num pior: não tendo confidente a despejar sua loucura.
Daiene pensava. E ao pensar sofria, agora sofre. Sonha no sono. Pesadela no sonho. E se o sonho for realidade! Agora sofre. Está nos primeiros dias daquela noite dos meses passados perfazendo anos a um travesseiro com cheiro de gente, na quenturinha da gente; a gente a se esconder não apenas de sons nos estardalhaços, a se esconder não só dos olhos das orelhas dos curiosos moradores do bairro; da visão dos que passam e possam ouvir o que não devem ou não precisam – foge do convívio até, foge a se esconder inclusive daqueles raiozinhos de claridade que se assopram para dentro do quarto dela, dessa viúva; se esconde não obstante presente uma fronha amiga dum travesseiro inimigo, por seus caroços ou vãos marcados na pressão diária duma cabeça de pensar (ah a cabeça não tem obrigação e até imposição de pesar sofrer e pensar e daí novamente sofrer!) de imaginar, a amenizar aqui vocábulos, de ser forçada a se lembrar e portanto a viver-reviver seu próprio inferno. Nisso não dá para se esconder atrás da pedra insegura do imaginário. Ali, lá no quarto solitário próximo duma rua em que rolam barulhentos carros dos pobres se pensando burgueses, onde ainda não havia celulares a se distrair e melhor trair a verdade pelo virtual, lá ali aí agora grita! Daiene grita e se assusta, inclusive se indaga “não terão os outros viventes ouvido!” imediato ligou-se a elas, temia demais suas línguas, e nesse momento na Esperança só cães poderiam escutá-la. A mulher gritara com toda a força dos seus pulmões – assassina!
Eram os primeiros dias, tomados agora nos últimos dias... Era o sumiço de Nayara. E se indagavam sobre os destinos sobre as circunstâncias, aventavam até se pôr ao recurso final de chamar a polícia – e aí a morena magra Daiene a temer rebuscassem as autoridades farejando restos e vestígios do que fora talvez a magra morena Nayara, que em casa era chamada simplesmente Na – e por isso tremeu nas bases.  O temor é o maior inimigo do próprio medo e o transforma em horror, com ajudazinha da imaginação então desvairada. Não obstante, condenava-se tendo uma fronha de algodão a cheirar cheiro azedo de suor de gente, ainda gente, se defendia a mulher. Condenava-se não pelo furor na cobrança de um ato indigno, que hoje não podendo garantir a si mesma haver levado a efeito... Condenava-se agora pelo ontem da frieza que usou a esconder provas. Num átimo que o pensamento permite, se viu a embalar no quarto os quartos nos sacos, a transportar os pedaços, a atirar no poço de João os restos, a encobrir o crime na madrugada gelada com a parte do entulho a deixar a árvore indignada, a tornar tudo em silêncio, o silêncio não inconfidente mas amigo da paz de um ‘dever’ cumprido. Após, dentro ainda desse átimo de tempo e de lembrança de memória se não ofendida defendida pelos seus olhos dos olhos e das orelhas do mundo... ainda pegou carona no pensamento infelizmente não fugidio mil vezes redundante e repetente, lembrando-se da frieza de no dia seguinte, melhor no pior: na manhã da madrugada bem indormida bem rolada – ainda com força e disposição indo confirmar o ‘fim’ do delito, acertando com uma enxada o terreno no quintal calado. Alguém ali perto já ouvia o som da viola, com um galinho a ‘cucurucar’ na gravação no programa sertanejo do rádio rouquenho, o quintal sim calado, fora naturalmente os grilos.
A onda de cobrança prosseguiu... e aquilo que seria seu inferno, ainda lhe devolveu o horrível e macabro (agora pra si) daquela ferocidade impropriamente abusiva duma genitora contra sua filha: dopara antes a vítima, a que apelidou algoz; horas depois despedaçaria Na; acondicionaria as postas na geladeira, arrastadas até à cozinha. Donde as encaminhou no dia imediato à vala de João. Os pedreiros, inocentes criaturas, eles selaram a verdade com a mentira do concreto. E se Nayara não fosse de fato a traidora... não deveria haver esquartejado antes que ela o adúltero?
E se tivesse tido alguma irmã – Maria abortara todos filhos, Daiene sobrara ao corte da morte em matança na família – se, será que teria coragem tomá-la por confidente!?
Marília   outubro  2016

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