O Inferno no Paraíso
I - Introito
Cap.1 - Introito estreito
Abrem-se a porta a janela acanhadas embora – e o
sol penetra aquele recanto do Paraíso... O astro-rei ou seus raios luminosos a
clarear então as entranhas, estranhas ao ser incomum (ou até pelo contrário o comum)
o qual circula na via pública lá no exterior e barulha mais que os veículos
ainda o barulho já grande das aves perto, longe de afugentar a paz. Penetra o
chão os recantos o ar o belo daquele recinto e ilumina o todo – assim como de
repente aparecesse um "faça-se a luz" e a luz se fazendo! O
Paraíso... mas eis que surge um diabo...
Poder-se-ia agora chegar abusivamente ao esdrúxulo
da conclusão de que o paraíso está cheio de diabinhos e o inferno com muitos
santinhos (do pau oco) porém ainda é cedo para tal abuso; portanto devagar com
o andor.
Cap.2 - A Flora no Paraíso
A área da instituição, pois uma instituição, é
grande; ou a gente que a vê é pequena. Terá uns oito mil metros quadrados. No
entanto se apresenta como um prado verdejante, um gramado irregular onde a vegetação
aparada dá uma sensação de descanso, de paz. Árvores muitas, muitas
centenárias; o comum nas zonas de serra: há pinheiros e as nativas na região
como o angico; além de fruteiras, também as comuns como cítricos abacateiros
mangueiras bananeiras etc.., demais et cetera,
aqui num abuso de linguagem. Tudo sujeito à natureza e suas intempéries tais o frio
o calor a chuva a seca, agora anda mui seco. Como interessa ao texto mais a
Fauna na Flora que a flora na fauna, partamos aos animais.
Cap.3 - Fauna
na Flora
Variadíssima a fauna, os viventes no Paraíso. Posto
o Paraíso ser local de descanso aos cansados de corpo e alma, ou esta mais
sofrida pela mente enferma, a instituição apresenta-se na forma duma comunidade
tendo elementos variados em sua tendência e em sua apresentação. Tem, tem não:
sobram os elementos humanos de boa vontade (dependentes sim, e de boa vontade)
e tendo, lamentavelmente, outros, poucos ainda bem nesse mal, do tipo brigado
com o mundo; e por isso criando ambiente desfavorável ou... diria feio ruim ou
qualquer outra expressão que se equivalha. Em meio a este grupo do mal, um dos
elementos a pontificar (ainda no mal sentido) passará a ser 'a dona da bola'
nestas páginas; não se esquecer aqui neste ponto do texto estarmos no país do
futebol. Partamos a essa curiosa figura.
II – Um Diabo entre
Anjos...
Cap.4 - Preâmbulo
Personagem que aponta conta canta de santa desconta
apronta, nem sequer a supor estar ofendendo outrem, como fora ela o centro do
mundo. Quando por um descuido do tipo egocêntrico em que se revela diário se
pega reconhecendo uma ofensa feita, aí desanda a pedir perdão como santinha;
logo se esquece disso e dispara novo xingar (o mais comum é 'atirar' no público
nomes feios...) Fisicamente se apresenta com vestimenta espalhafatosa de cores
negras, um chale, uma bolsa gasta, uma almofada encardida usadíssima – daí
deposita tudo isso onde esteja, mesmo em cima da mesa de refeição, provocando
insatisfação no público, composto este a bem da verdade por seus iguais
dessemelhantes. A voz é a de uma velha acabada fraca impertinente. Isto o sinal
diário como sua marca registrada...
Cap.5 - O Diálogo ou apenas o Dialogante
Sim, dialogante ou seriam dialogantes pois vários colegas
reagem investem criticam mordem ou tão só atiram-lhe bolotinhas de papel a fim
de mexer com ela. Ela? a Lourdes. Ele? o Bedelheiro. Este parece que se mete
vezes mil na função de anteparo entre o público ferrenhamente contestador e a
'vítima' (também sua 'vítima', ele é nada parcimonioso). Contudo esta confusa
estória não pode ser encerrada com meia dúzia de palavras; assim haverá adiante
o desenvolvimento do texto.
III - O Inferno no
Paraíso
Cap.6 - A sordidez duma personagem
Parece, se nisto não exagero no exagero, parece a
nós outros conviventes no Paraíso que ela, a velhota Lourdes, faz questão em
ser um ser chato; e isto parece também ser uma forma rude de iniciar um texto
de angelitudes mais. Já a colocaríamos de saída como sendo um monstro; e talvez
seja de fato uma alternativa correta. Dando a impressão que a nossa colega se
faça desse jeito apenas no intuito de atingir a chatice extrema. Eu, Bedelheiro
da Silva, narrador e na qualidade de representante de meus iguais aqui no
interior do Paraíso, pareço desde agora a favor do contra. Quer dizer,
represento a turma contrária à Lourdes... O relato a seguir poderá reforçar meu
pensamento, nosso diria pra ser correto. Veremos que a mulher – pois não
obstante é mulher embora descontos por aquilo que admitimos seus defeitos –
veremos que ela não se importa sujar a água dos outros; e fá-lo a usar
pornografia! Se é grave? claro que é, visto no público termos senhoras (com
mente cansada sim e repetitivos seres decentes) tais senhoras receberam
educação e moral religiosas; o mesmo se podendo afirmar dos machos não mais 'muito
pra valer' e a destacar que os adões sempre foram mais desabridos que suas companheiras
não só quando eram moleques: o homem aceita por séculos não se desmanchar ao
ouvir palavrão e obscenidades; no entanto os adões também se ofendem ou dizem
se ofender diante o palavrório de Lourdes. A qual tem uma língua ferina, e é tão
ferina essa boca suja que o Bedelheiro resolve cortar o 'o' da velha, e
chamá-la daqui por diante só 'Lurdes'. Por vezes inclusive sente necessidade em
tratá-la 'Capeta' ou 'Diacha', Diacha sendo a amásia do Diacho, nome caboclo do
Diabo. Visto a mesma parecer ter o diabo no couro, ao menos na boca – a qual
sabemos que foi criada e posta a beijar e transmitir o belo a carícia o bem.
Bem, prossigamos.
Para basear as afirmativas acima, abaixo usaremos
não só de preferência o linguajar que usa, ela usa (nós também, pois desejamos
responder à altura a ofensa...) mas pondo desde já uns pinguinhos nos ii: citando
umas feiuras na Capeta. É porcalhona, faz bolotas de caca, quer dizer mucosa
seca a desobstruir as fossa nasais, toma a sujeira e se limpa na mesa de refeição
onde estamos todos. Mais? por enquanto um maisinho: após limpa e até lambe seu
prato em público; claro ser o próprio prato não os nossos respectivos (aqui
daria briga revolta revolução guerra e eu Bedelheiro então me candidatando a
voluntário e até mercenário nesse exército; queiram-me ler bonzinho!)
Botemos mais alguma coisa? Ah vejamos seu porte
físico. Diria como toda oposição fala para enfear a oposição ser ela horrenda
feia desconexa, para errar manchar a verdade – porque fora o fato dito como
desconexa; tem elinha traços belos e no todo sendo mignon, baixinha pezinhos graciosinha moreninha como a maioria
brasileira miscigenada; queimada de sol se se quiser dizer. O perfil mostra que
em jovem (ah! há quanto tempo...) deve ter sido bonita e provocado ciúmes –
aliás é ciumenta até hoje e portanto mereceu ser pivô do ciúme de namorados e
esposos; esposos que nos lembra o terrível repetir de sua história ou estória
deturpada narrada por mente valente e doente, isto diremos noutros parágrafos.
Enfim nos parece, num julgamento nada tendencioso, ela ser delicada (excetuando
a boca suja...)
Tem disso posto até aqui no texto e muito mais,
pois pretendemos incluí-la noutros momentos; ou momentos doutros personagens –
a Lurdes sempre entrando como capeta, a espetar com a língua pornográfica a
pureza dos colegas, pureza discutível.
Chega por enquanto, a finalizar um capítulo sórdido.
Cap.7 - Novas velhas atrapalhações
A gente sempre encara como novas as surpresas que
nos aparecem, podem até serem velhíssimas em se tratando da Capeta. Isto porque
é provável que sejam meros inusitados na personalidade dessa personalidade a
que chamamos Diacha. Vejamos os ui da questão.
Há sempre um aspecto dela que nos fere, digamos que
nós no Paraíso temos certa birra com tudo que divulga ou faz essa colega. Por
exemplo expressões que repete (todos velhos repetem, não é este o ponto nevrálgico,
todos e também ela todavia ela é quem nos sugere a dita birra:) berra repete e
repete diário na mesa de refeição "oh Pedro!" e emenda você chegou?
você está comendo? você está com frio? porém fá-lo a gritar espantar comensais
quietos e respeitadores do alimento que ingerem. Então todos olham todos
condenam poucos falam estarem indignados pelo desrespeito. Ela prossegue na sua
arenga em alta voz... E o Pedro aí berrado pela capeta? esse mero papagaio,
realmente uma arara sem sexo visto nunca sabermos quem o homem quem a mulher nessa
bela ave azul de penas espalhadas numa gritaria contra gaviões oportunos,
inoportunos. Está lá fora separado de nós aqui dentro a mastigar e condenando
com olhares a ofensora do silêncio. Com olhares é certo, mas alguns integrantes
no refeitório respondem gozam criticam em alto; um deles, o Eli, grita por sua
vez para feri-la "eis a centopeia!" A 'centopeia' prossegue ainda seu
diálogo de mentirinha porque a arara nem ouve a velhota lá dentro do prédio. E,
como não fosse consigo a tirada, emenda: "não vem a comida! eu tô com
fome". Comida e remédio; como recebemos cada qual seu medicamento ela
também mas derruba comprimidos no chão e passa a procurar e fá-lo falando (aliás
o homem comum fala sempre o que provavelmente pensa e não pensa para falar).
Agora é noite, o passar à noite, o jantar, janta
como falamos caipiras. Então 'vê' uma ponte e carros na ponte de luz acesa, um,
insiste toda vez, um com farol fraco e a piscar – então olhando de pé na mesa o
que ninguém percebe na imaginação dela – e vejam a represa (inexistente na
região...) Senta-se, uns balançam a cabeça negativando seus berros, para tudo
gritando não sabe falar na altura de um homem educado tal mulher. Nesse ponto derruba
seu copo escorre o líquido na mesa. Ah, nada mais natural na Lurdes.
Lá num belo dia e isso ocorre muito, todos reunidos
no refeitório nos assusta a cantar nada desafinada trecho dum sucesso do cantor
Leonardo "quando você chegar de roupa molhada etc. " alto como a
falar com a arara Pedro. Ah, já nem se nega mais, tanto o repetir a cena. Ela
não presta sequer atenção nos opositores, repete e repete o último verso da
canção como fora o próprio cantor popular mui ouvido na sala contígua, que é de
estar e onde os hóspedes se esborracham nos sofás.
Esse o costumeiro no Paraíso. Todavia temos mais
substância em tal veio de tesouros...
Cap.8 - Novas também velhas azucrinações
Tem um dado interessante ao caracterizar a Lurdes,
aqui tão bem tratada ou mal, que é a questão religiosa. Nosso povo sabe-se é na
maioria católico, igualmente isso se manifesta no Paraíso; contudo ela se diz
testemunha de Jeová, inclusive voltou duma visita a familiares também desse
credo, visitou salões da doutrina e passou a repetir uma citação bíblica, diário:
Mateus 24, 14"E será pregado este evangelho do reino por todo o
mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim". Até aqui
nenhum óbice, fora repetições ao cansaço... Ocorre entretanto que imediato
despejando essa 'crente' o despautério dos xingamentos, xingamentos estes podendo
às vezes antecipar a citação evangélica. Um despropósito realmente. Por isso a
oposição em comentários desairosos lembra sua pregada condição religiosa; ela então
se corrige imediato e até poderia acontecer pedir perdão, de boca, imediato
também retoma o palavrão seja lá dirigido a quem for, ou mesmo à lembrança de
uma de suas memórias, como um determinado irmão baiano tal qual ela mesma e daí
impera trovejante e arrasadora: "fulano, esse meu irmão! um corno ladrão,
roubou minha casa" etc., não para mais até ser 'desescutada', as orelhas
em torno fazem 'vistas grossas' à demência da demente.
Todavia
temos mais fatores a caracterizá-la.
Entre
as repetições aludidas uma acontece a miúdo. O caso de sua viuvez, isso
ocorrido sabe-se lá por dezenas de anos e lembrado agora as duas perdas. A do primeiro marido que lhe deu um tapa na
cara lá na Bahia (chora ainda por causa do tapa); e imediato fala do segundo,
um mineiro espécie de anjo em bondade; nessa altura da lembrança narra a internação
e morte do esposo, por causa de remédio errado do médico; aí despenca a atirar
o profissional no inferno! e despenca a chorar outra vez, sem verter lágrima...
O público, nós, sabe de cor e salteado causas e efeitos desse drama.
Tendo nisso a agravante de, cinco minutos após expor o seu problema, tomar
outro ouvinte e repetir a dose. É de fato dose afirmo Bedelheiro.
Não é
invenção de Lurdes essa maneira de ser, visto a situação ser o mais comum em
idosos, os quais se esquecem rápido haver falado sobre algo; daí repetindo
feito papagaio. A condição sequer rebaixaria a velha; ocorrendo no entanto que
o teor pornográfico ofensivo grotesco ferino grosseiro chão violento de sua
língua – tudo isso ofendendo até os que não têm berço em nosso publiquinho;
publiquinho, não somos um auditório educado e exigente. Lamentavelmente nos
'pegamos' bem nos atritos com ela.
Por
essas razões a Diacha é indesejada; e parece indesejável entre mulheres, causando também certa repugnância
na ala masculina.
Assim caminha o mundinho, nosso Paraíso.
Cap.9 – Mais algumas extravagâncias
Prossigamos neste relato alfinetando algumas picuinhas
da extravagante Lurdes. Parece aos apressados que o Bedelheiro esteja apenas
desejando pegar no pé, aliás tem ela um pezinho até gracioso, e 'pegar no pé' é
um dizer chão aqui no povo debaixo. Não. Não isso mas também isso. Vejamos que
esteja a Bruxa (nosso lado feminino parece que adora tratá-la assim) que esteja
a bruxa santamente quieta e ensimesmada sentada debochada na cadeira
desarmônica posta na mesa; quietinha. De repente sai-se com esta: acorda e reclama
pelo prato cheio ou reclama por haver pouca comida na sua vasilha, então já
fria, enquanto a gente restante na mesa haja deglutido silenciosa ou falando
entre si. Coisinhas assim nem mais chocam. Contudo há choques grandes quando em
determinado dia ela parece com o diabo no couro (assim diz a gente comum). São
atritos entre as servidoras e Lurdes, que se tornam conflitos de grandes
grosserias e no melhor dos estilos, cheios de apartes e muito nome feio com mútuas
acusações; "elas, diz a 'vítima', essas frescas, põem tudo na mesa dos homens,
as ignorantes, enquanto a besta aqui fico esperando!" e acresce desbocada,
por terem eles mandioca... vão vão, suas nojentas, vão todas pegar a mandioca
dos homens! Isto, ou seja a rixa entre elas, isto porque anteriormente fora
flagrada lambendo prato na mesa, recebendo crítica dum colega de sofrimento na
sua mesa; o que resultou em gritos baixos das mulheres na indignação e resultou
nas também sempre tímidas acusações delas (agora não simplesmente pelos olhares
condenatórios); em meio ao bate-boca uma servidora diz a ser ouvida pela
interessada: "vou chamar a Regina (filha de Lurdes e conclui:) isso ela
faz por ser testemunha de Jeová..." A crítica gera quase uma briga de
cachorro grande. Alguns outros conflitos semelhantes acontecem no quarto onde a
fulana dorme, conflitos que não passam duns desentendimentos corriqueiros entre
internas a dormir no mesmo aposento. Sim, porque todas são internadas na
instituição a que chamamos Paraíso; e não seriam seres diabólicos num paraíso!?
Novo dado que se pode intuir vendo o diário desenrolar
nas desarmonias é com respeito ao pensamento dessa mulher sofrida, pois Lurdes
demonstra ser sofredora e haver passado por anos difíceis na sua trajetória. Se
bem o mal de não se fazer atrativa e simpática no dia a dia de nossa
instituição. Enfim volta e meia expõe o que pensa, algo por vezes chocante como
"por que não cortam essas árvores fazendo sombra?" e outros mais
alardes de sua filosofia curta. Um é sobre a geração de filhos, mesmo na sua
família. Que bom meu segundo genro e minha filha não ter filhos, filhos no mundo
que está aí!? Então desembesta a recontar parentes (como todos ouvimos entra
semana sai semana). A Regina com duas crianças... dá nomes desce a detalhes,
entra na intimidade dos íntimos, descreve o apartamento, conta dos vizinhos, em
todo mundo desce o pau (outra expressão popular usadíssima) manda o porrete na
rua inteira e descamba de novo a pichar o corno do irmão baiano que lhe tomou a
residência herdada do santo mineiro seu marido. Isso acontece durante todo ano.
Não obstante, prova por a-mais-bê ser briguenta não
só de língua. Uma vez enfrentou uma servidora da casa na tarefa humanitária de
higienizá-la. Negou-se aos gritos aceitar ser levada ao banho... xingou a moça,
arranhou a funcionária. Aliás já tendo alguma lembrança rixosa com a mesma
servidora por se apossar de vestes das outras internas do seu quarto. Noutra
ocasião e com a mesmíssima servidora se encrencou; por haver guardado um troço
de suas fezes na bolsa... enrolando a coisa em papel higiênico; descoberta, as demais
empregadas testemunharam o malfeito e abriram o bico... Assim a Lurdes passou a
ser gozada por isso e outras coisas em público, dando bate-boca e xingamento entre
ela e Régis, um colega mui gozador. Por fim admitiu a falcatrua, xingou o mundo
e imediato orou por Jeová, imediato também voltou a xingar o publiquinho;
pornográfica e grossa, a cimentar sua má fama neste seu terceiro abrigo, tendo
já passado e decerto com o mesmo 'brilhantismo' por outras casas de repouso.
O Bedelheiro, e creio também os olhos dos outros
participantes do grupo, vê a Diacha como asquerosa, o que nada belo moralmente
falando. Porém é assim. Com alguma razão. Uma vez numa confissão me prontifica gostar
demais do genro e até fez a barra da calça pra ele "de graça!" bradou,
e por causa disso deu-lhe emprestada sua dentadura de cima... (ela se referindo
à prótese) o que um dado nojento. Enfim é o tipo que numa imagem talvez abusiva
me parecendo qual agulha a costurar suas linhas tortas, pornográficas reafirmo,
penetra em todo canto neste Paraíso, ou a comprar briga gratuita ou
simplesmente a procurar encrencas pros lados dos anjos... e que anjos!
Cap.10 – Santos e Anjos
Sim
sim, longe serem angélicas criaturas... isto é, na casa de repouso ou abrigo se
se quiser chamar não há santos; até em contrário visto o quanto se narra de
positivo que no tempo de jovens fizeram; positivo que interpreto muita vez por
'positivo' ou seja de fato perfeito somente nas imperfeições humanas, humanos
que são hoje e eram ainda as pessoas na juventude laaaaá longe no tempo.
Contudo, bravateiam e a gente tem que concordar 'concordando' no mundo do
absurdo em que se perdem os seres deste sofrido planeta.
Mas
vamos agora mesmo ao relato do pessoal neste Paraíso, onde pessoas em confronto
diário e com desaforos mútuos rixas e conversas-fiadas, levando sempre ao mesmo
tema que a presença da Diaba Capeta Diacha Bruxa ou simplesmente Lurdes ou
ainda "Lourdes" como reza no contrato que a família dela paga
absolutamente dia dez aos dirigentes da Casa; que tal presença revela e se não
releva, dito melhor não relevamos, confesso (envergonhado!) também não relevo.
Bem. Somos uns trinta hóspedes ou albergados ou qualquer outra expressão que o valha;
somos pessoas cansadas sempre, ainda quando mentes lúcidas e estas sendo
pouquíssimas, enquanto o restante de cérebros definhando e mais sonhando um
ideal no ideal de tornar ao lar doce lar muita vez azedo lar... Acham-se enfim
como que provisoriamente os membros encostados no asilo (a direção reprova a
palavra e exige seja "residência da terceira idade") bedelho meu
bedelho a retificar: quarta ou quinta idade para muitos idosos. Oh deixa pra lá.
Nesse conjunto de indivíduos, ao menos entre os lúcidos, queremos se não
trucidá-la e isto mui forte expressão, no mínimo irritá-la, como se faz com um
adversário de estimação.
Às
vezes basta um cumprimento mal posto a disparar a briga quiçá guerra... Certa
vez ela entra e responde a um colega
o cumprimento no salão e comenta: "já tomei banho hoje!" imagem do mundinho
dela. Ora, seu ser egocêntrico é tão desenvolvido que supõe ou mostra achar-se
o centro de tudo, até do Universo. Inclusive num mero 'bom-dia' interpõe o que
apenas a si pode interessar e não a outrem. Isso e isto provocando uma jornada inteira
de gozação e provocação dos 'inimigos', bate-boca; posteriormente a esse conflitinho
houve um desabafo ao sol nas cadeiras lá fora, uma série de integrantes a se
refestelar no calor e a contar suas lorotas e desejos insatisfeitos. Tudo começa
pelo Régis contra Lurdes. Nisso os idosos reunidos como que num Conselho dos
Velhos, ou seriam conselheiros; enfim uma reunião informal embora quase no
horário do almoço. Ali temos o cadeirante Manu, mui tagarela e repetitivo; o
citado Régis ferrenho adversário da Diacha; uma portuguesa, que sempre reage
aos nomes feios da 'heroína'; a Zula, a Jeru, a chamada Gouveia, todas mulheres
repetitivas; o Yon um tipo de coreano doente e quase mudo; o Inácio, este um
nissei de coração enorme de menininho e mui simpático à Bruxa; o José japonês,
com nome brasileiro e que a circular pelos participantes rumina contra ela; o
Catarino, um negro pacífico e impassível; o Eli, sujeito que não para quieto e
é declaradamente inimigo da Diaba, dando sempre de longe bicadas nela. Todos
esses conselheiros fora do prédio e ao sol comentando. Os outros moradores e
conviventes estão nesse momento dentro do Salão vendo tevê e ouvindo rádio, tudo
numa programação horrorosa... Os do exterior falam, lembram, acusam, debatem,
uns debandam outros permanecem a discutir o como a velhota fere seus delicados
ouvidos; ou são mesmo ofendidos pelos impropérios; impropérios ou tão somente
palavras gratuitas ditas ou saídas sem reserva nem crítica dela, sempre contra
eles, quer dizer nós! Contudo, a que resultado chegamos? Ah quase parecendo uma
reunião inflamada de estudantes universitários, no caso a maioria inculta vinda
do povo também inculto. Ou seja, não conduzindo a nada útil, sendo conversa
apenas. Todavia o inimigo é comum a todos na reunião improvisada. Daí ela vem
se juntar às cadeiras ao sol e recebe se não vaia a indiferença da maioria e uns
cutucões da minoria apreciando o circo pegar fogo! Então no grupo se discute,
ou se continua a discussão de anteriores desavenças. É, foi isso. Ah que anjos.
Entretanto não se vive onde se vive apenas de confrontos
e trucidamentos (aqui simbólico, não pensemos mais absurdos nesse absurdo
narrado...) Há momentos de paz ou quem sabe tão só de respeito em presença dessa
velha. Em exemplo temos cenas diárias as quais a Diacha grita na hora do café o
pão gostoso do padeiro "nota mil" eu escuto, continua o elogio, o
entregador às seis horas tocar campainha. Noutro dia, este de frio medonho, ela
em pleno almoço o feijão o arroz a mistura a fumegar, a Bruxa despenca a cantar
dançar, diz alto haver tirado foto beijando o cantor Djavan; depois afirma também
em voz alta gostar dos homens presentes; e aí e isso próprio dos loucos, faz
declaração de amor ao tímido Catarino (este desconversa e amua) e insiste ainda
apreciá-lo por ser moreno, a cor do segundo e mineiro marido; e por ser a cor
de Jeová-Deus... Yon 'grosna' um som olha enraivecido e fala enojado contra ela
em sua língua, a qual nós não compreendemos. Noutro momento uma enfermeira apara
sua unha e ela quer guardar as pontas cortadas... um absurdinho semelhante. Noutra
ocasião ainda aquiesce num diálogo, coisa rara nela, e elogia conversa de
outrem a falar de amizade e amor. Não é totalmente desprovida de boa vontade.
De repente, tratando-se de novo assunto, nem ouve e rasga elogios às mãos e aos
pés do Régis e a si mesma: "ah meu rosto é belo". Com razão pois tem
belos traços; suponho inclusive que a filha Regina nunca vista aqui seja o
retrato da mãe quando jovem, decerto a provocar então ciúme e o tapa do
primeiro esposo; porém isto uma suposição.
Foram várias as repetições descritas nesta
narrativa, sobejo repeti-las. No entanto, mais a aproveitar um comentário a ser
exposto, o Bedelheiro recorda o atraso proposital das servidoras em pôr seu
prato, antes a servir seus colegas, tendo sempre a fala dela criticando a
primazia aos machos na refeição, ela a esperar; as servidoras dizem a
provocá-la ficar por último pelas suas reclamações... E a "besta
aqui" fica pro final ?! Comento
baixinho com os meus companheiros para não provocar discordância "não
acham que nunca a expressão besta
apocalítica coube tão bem como na Lurdes?" Sorriem. Sim, também eu não
sou flor que se cheire.
Temos aqui nesta instituição umas coisas que ferem
o bom senso as delicadezas as finezas que aprendemos na escola da vida, no caso
ligadas a essa irritante colega de infortúnio, isto visto ela ser um ser
sofredor tanto quanto nós. Vou Bedelheiro ser mais direto curto e grosso, ao
menos no linguajar sonante do povão, esbanjador na linguagem coloquial.
Lembro aqui uma pequena e informal entrevista a que
ela me submeteu uma vez, estando este seu colega como que lagarto a tomar sol
nas cadeiras postas a esmo no fundo do prédio. Sozinho então, vigiava os pássaros
na relva verde, para que não se bicassem num entreverinho deles... aí ela
aportou. Eu andava num mundo de sonhos no oceano da existência e ela, a Lurdes,
quase me mata de susto quando se aboleta na cadeira a meu lado e se põe a me
'entrevistar'. Quem temer um absurdo absoluto, feche desde já as orelhas para
não ler o despropósito no parágrafo seguinte.
Oh Bedelheiro – ela nunca em meses de convívio
conseguiu saber meu belo nome, tanto que forjei aqui o apelido, ela pronunciou
"ocê" – ocê acha que devo pôr vestido ou saia pra cagar!? pois não
deu de calças (masculinas) eu agacharia aí no gramado (indica o fundo do
Paraíso) e faria... porque dia sim dia não faço cocô . Seria outra igual
Sakiko? me indaguei atrapalhado com o despropósito ouvido. Explico. Tem uma
japonesinha neste lugar, que frequente urina e defeca em nossa presença quando
pomos nossas lorotas em dia; elinha 'desaperta' em público por ser maluca ou
por sequer notar gente próximo. No caso dessa consulta diaba a este
conselheiro, devo ter respondido qualquer bobagem que caiba dentro da absurdidade.
Para concluir, modelo como puder dois fatos observados
ligados a ela, bem menos chocantes que os acima. Brincamos em gozação com ela
de várias formas e uma é o matrimônio, assunto que lhe agrada deveras. Então
propuseram uns colegas união dela com o japonês Inácio... a pobre acreditou e
se pôs a sonhar, ela demais necessitada se mostra na falta de homem. Dias
sonhou alto. Pior: o noivo creu! imaginou até possuir um carro para levar a
noiva ao altar. Ora, o noivo desconhece a própria idade nem tendo ideia onde
nasceu. O idílio foi engolido por outras gozações dos gozadores eventuais. O
segundo fato é tão prosaico quanto o anterior e revela a irritação e a prevenção
que os moradores seus colegas têm com ela. Liga ou desliga se estiver ligada a
luz por onde transite dentro do edifício da instituição. No caso desligou o
interruptor da mesa onde Maria portuguesa sentada, quando de passagem. Foi um
bate-boca dentro dos conformes. Então volta do seu quarto, tendo decerto ruminado
haver desfeiteado a colega, tornando desse aposento, pede desculpas em altos
brados; faz mais: abraça beija a colega. Sim, não é tão despojada de boa
vontade. Porém não posso garantir ser a opinião dos demais residentes.
Curiosa conclusão no estudo dos participantes do Paraíso.
Os idosos todos desejam retornar à casa, ao seu antigo ambiente. A Lurdes é uma
idosa e vive a morrer suas lembranças suas necessidades e inclusive mostra ânsia
de tornar. Agora, neste momento, surgiu a nosso ver uma oportunidade e tanto:
sua família a levou embora. Nós nos confidenciamos e torcemos que o afastamento
possa ser definitivo... Mas, como é mesmo a fala do povo sábio!? O futuro a
Deus pertence.
IV – Final: Paraíso no Inferno
Trina o trim da campainha da porta da rua do mundo
e se atende; uma servidora da instituição em azáfama no drama do atendimento a
idosos ou somente pacientes impacientes; deixa momentâneo para atender o sinal
da chegada os seus velhos, estes a dizer ou calar suas coisas – uns contam em
ótima bravata como são bons, conquistadores, belos, puros, honestos e credores
nos desandos do mundo lá fora como fosse assim hoje em dia; outros só lamentam
seus ais, independendo agora serem ex-homens ex-mulheres, puros honestos vencedores
etc. e tal como antes (antes de entrarem para esta confraria esquisita dita explícita
de repouso...) todos se julgando estar apenas de passagem, quiçá garantindo aos
ouvidos escutadores irem loguinho poder errar direito no mundo de agora, embora
na hora não valham sequer décimo do que foram, se foram...
Chega a funcionária à porta no final do corredor,
abre deixa entrar (por conhecidas e serem mulheres, se olham se beijam se
picarão decerto futuramente, diz o machismo bedelheiro...) Entra. Penetra
aquele santuário e chega ao salão de estar onde a velharia, a velharia ou se
mede ou se conta o que contar e então, na expectativa de quem terá chegado, os
'hóspedes' se indagam "alguma visita pra mim?" e caso não tivesse
saído antes a Lurdes, esta é quem teria corrido enxerir a porta o trinado a
visita; agora, ora, fora ela... Entra, aparece na sala plena um ser pleno de
vida e beleza, a Regina! Regina em
latim, Rainha. Tão bela tão fêmea tão plena que ocasiona alvoroço (mormente
entre os ex-homens a se pensar machos pra valer:) Os homens alguns babam,
outros olham e se olham a marcar espaço e veem extasiados a beldade, toda ela é
curva é macia é sugestão é pecado mas isto não conta aos olhos famintos, descamisados
embora e desvalidos com certeza. Já as fêmeas da espécie 'ex' também qual eles
ali a babar, elas já analisam os cortes as vestes a moda (a si fora de moda) se
vive Regina na moda, se é digamos uma exibida mal vestida.
Nisso... ah, ih, oh, uh, ai-ai-ai!!! e não é que
junto à princesa em leveza e beleza chega de volta a Bruxa!
A Lurdes com travesseiro óculos touca toalha bolsa se
arrasta nos pés e já grita: "oh Pedro!"
Um dos velhinhos sequer nota a Diacha, vidrado na
filha dela, só curvas, perigosas curvas! e comenta pensando falar baixinho
gritado num ouvido ex-macho surdo e terá que repetir "oh que gostosa esplendorosa
maliciosa, vaidosa por que não!"
Itapecerica da Serra outubro
2017
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