domingo, 18 de agosto de 2019

O Inferno no Paraíso


O Inferno no Paraíso

I - Introito
Cap.1 - Introito estreito
Abrem-se a porta a janela acanhadas embora – e o sol penetra aquele recanto do Paraíso... O astro-rei ou seus raios luminosos a clarear então as entranhas, estranhas ao ser incomum (ou até pelo contrário o comum) o qual circula na via pública lá no exterior e barulha mais que os veículos ainda o barulho já grande das aves perto, longe de afugentar a paz. Penetra o chão os recantos o ar o belo daquele recinto e ilumina o todo – assim como de repente aparecesse um "faça-se a luz" e a luz se fazendo! O Paraíso... mas eis que surge um diabo...
Poder-se-ia agora chegar abusivamente ao esdrúxulo da conclusão de que o paraíso está cheio de diabinhos e o inferno com muitos santinhos (do pau oco) porém ainda é cedo para tal abuso; portanto devagar com o andor.

Cap.2 - A Flora no Paraíso
A área da instituição, pois uma instituição, é grande; ou a gente que a vê é pequena. Terá uns oito mil metros quadrados. No entanto se apresenta como um prado verdejante, um gramado irregular onde a vegetação aparada dá uma sensação de descanso, de paz. Árvores muitas, muitas centenárias; o comum nas zonas de serra: há pinheiros e as nativas na região como o angico; além de fruteiras, também as comuns como cítricos abacateiros mangueiras bananeiras etc.., demais et cetera, aqui num abuso de linguagem. Tudo sujeito à natureza e suas intempéries tais o frio o calor a chuva a seca, agora anda mui seco. Como interessa ao texto mais a Fauna na Flora que a flora na fauna, partamos aos animais.

Cap.3 -  Fauna na Flora
Variadíssima a fauna, os viventes no Paraíso. Posto o Paraíso ser local de descanso aos cansados de corpo e alma, ou esta mais sofrida pela mente enferma, a instituição apresenta-se na forma duma comunidade tendo elementos variados em sua tendência e em sua apresentação. Tem, tem não: sobram os elementos humanos de boa vontade (dependentes sim, e de boa vontade) e tendo, lamentavelmente, outros, poucos ainda bem nesse mal, do tipo brigado com o mundo; e por isso criando ambiente desfavorável ou... diria feio ruim ou qualquer outra expressão que se equivalha. Em meio a este grupo do mal, um dos elementos a pontificar (ainda no mal sentido) passará a ser 'a dona da bola' nestas páginas; não se esquecer aqui neste ponto do texto estarmos no país do futebol. Partamos a essa curiosa figura.

II – Um Diabo entre Anjos...
Cap.4 - Preâmbulo
Personagem que aponta conta canta de santa desconta apronta, nem sequer a supor estar ofendendo outrem, como fora ela o centro do mundo. Quando por um descuido do tipo egocêntrico em que se revela diário se pega reconhecendo uma ofensa feita, aí desanda a pedir perdão como santinha; logo se esquece disso e dispara novo xingar (o mais comum é 'atirar' no público nomes feios...) Fisicamente se apresenta com vestimenta espalhafatosa de cores negras, um chale, uma bolsa gasta, uma almofada encardida usadíssima – daí deposita tudo isso onde esteja, mesmo em cima da mesa de refeição, provocando insatisfação no público, composto este a bem da verdade por seus iguais dessemelhantes. A voz é a de uma velha acabada fraca impertinente. Isto o sinal diário como sua marca registrada...

Cap.5 - O Diálogo ou apenas o Dialogante
Sim, dialogante ou seriam dialogantes pois vários colegas reagem investem criticam mordem ou tão só atiram-lhe bolotinhas de papel a fim de mexer com ela. Ela? a Lourdes. Ele? o Bedelheiro. Este parece que se mete vezes mil na função de anteparo entre o público ferrenhamente contestador e a 'vítima' (também sua 'vítima', ele é nada parcimonioso). Contudo esta confusa estória não pode ser encerrada com meia dúzia de palavras; assim haverá adiante o desenvolvimento do texto.

III - O Inferno no Paraíso
Cap.6 - A sordidez duma personagem
Parece, se nisto não exagero no exagero, parece a nós outros conviventes no Paraíso que ela, a velhota Lourdes, faz questão em ser um ser chato; e isto parece também ser uma forma rude de iniciar um texto de angelitudes mais. Já a colocaríamos de saída como sendo um monstro; e talvez seja de fato uma alternativa correta. Dando a impressão que a nossa colega se faça desse jeito apenas no intuito de atingir a chatice extrema. Eu, Bedelheiro da Silva, narrador e na qualidade de representante de meus iguais aqui no interior do Paraíso, pareço desde agora a favor do contra. Quer dizer, represento a turma contrária à Lourdes... O relato a seguir poderá reforçar meu pensamento, nosso diria pra ser correto. Veremos que a mulher – pois não obstante é mulher embora descontos por aquilo que admitimos seus defeitos – veremos que ela não se importa sujar a água dos outros; e fá-lo a usar pornografia! Se é grave? claro que é, visto no público termos senhoras (com mente cansada sim e repetitivos seres decentes) tais senhoras receberam educação e moral religiosas; o mesmo se podendo afirmar dos machos não mais 'muito pra valer' e a destacar que os adões sempre foram mais desabridos que suas companheiras não só quando eram moleques: o homem aceita por séculos não se desmanchar ao ouvir palavrão e obscenidades; no entanto os adões também se ofendem ou dizem se ofender diante o palavrório de Lourdes. A qual tem uma língua ferina, e é tão ferina essa boca suja que o Bedelheiro resolve cortar o 'o' da velha, e chamá-la daqui por diante só 'Lurdes'. Por vezes inclusive sente necessidade em tratá-la 'Capeta' ou 'Diacha', Diacha sendo a amásia do Diacho, nome caboclo do Diabo. Visto a mesma parecer ter o diabo no couro, ao menos na boca – a qual sabemos que foi criada e posta a beijar e transmitir o belo a carícia o bem. Bem, prossigamos.
Para basear as afirmativas acima, abaixo usaremos não só de preferência o linguajar que usa, ela usa (nós também, pois desejamos responder à altura a ofensa...) mas pondo desde já uns pinguinhos nos ii: citando umas feiuras na Capeta. É porcalhona, faz bolotas de caca, quer dizer mucosa seca a desobstruir as fossa nasais, toma a sujeira e se limpa na mesa de refeição onde estamos todos. Mais? por enquanto um maisinho: após limpa e até lambe seu prato em público; claro ser o próprio prato não os nossos respectivos (aqui daria briga revolta revolução guerra e eu Bedelheiro então me candidatando a voluntário e até mercenário nesse exército; queiram-me ler bonzinho!)
Botemos mais alguma coisa? Ah vejamos seu porte físico. Diria como toda oposição fala para enfear a oposição ser ela horrenda feia desconexa, para errar manchar a verdade – porque fora o fato dito como desconexa; tem elinha traços belos e no todo sendo mignon, baixinha pezinhos graciosinha moreninha como a maioria brasileira miscigenada; queimada de sol se se quiser dizer. O perfil mostra que em jovem (ah! há quanto tempo...) deve ter sido bonita e provocado ciúmes – aliás é ciumenta até hoje e portanto mereceu ser pivô do ciúme de namorados e esposos; esposos que nos lembra o terrível repetir de sua história ou estória deturpada narrada por mente valente e doente, isto diremos noutros parágrafos. Enfim nos parece, num julgamento nada tendencioso, ela ser delicada (excetuando a boca suja...)
Tem disso posto até aqui no texto e muito mais, pois pretendemos incluí-la noutros momentos; ou momentos doutros personagens – a Lurdes sempre entrando como capeta, a espetar com a língua pornográfica a pureza dos colegas, pureza discutível.
Chega por enquanto, a finalizar um capítulo sórdido.

Cap.7 - Novas velhas atrapalhações
A gente sempre encara como novas as surpresas que nos aparecem, podem até serem velhíssimas em se tratando da Capeta. Isto porque é provável que sejam meros inusitados na personalidade dessa personalidade a que chamamos Diacha. Vejamos os ui da questão.
Há sempre um aspecto dela que nos fere, digamos que nós no Paraíso temos certa birra com tudo que divulga ou faz essa colega. Por exemplo expressões que repete (todos velhos repetem, não é este o ponto nevrálgico, todos e também ela todavia ela é quem nos sugere a dita birra:) berra repete e repete diário na mesa de refeição "oh Pedro!" e emenda você chegou? você está comendo? você está com frio? porém fá-lo a gritar espantar comensais quietos e respeitadores do alimento que ingerem. Então todos olham todos condenam poucos falam estarem indignados pelo desrespeito. Ela prossegue na sua arenga em alta voz... E o Pedro aí berrado pela capeta? esse mero papagaio, realmente uma arara sem sexo visto nunca sabermos quem o homem quem a mulher nessa bela ave azul de penas espalhadas numa gritaria contra gaviões oportunos, inoportunos. Está lá fora separado de nós aqui dentro a mastigar e condenando com olhares a ofensora do silêncio. Com olhares é certo, mas alguns integrantes no refeitório respondem gozam criticam em alto; um deles, o Eli, grita por sua vez para feri-la "eis a centopeia!" A 'centopeia' prossegue ainda seu diálogo de mentirinha porque a arara nem ouve a velhota lá dentro do prédio. E, como não fosse consigo a tirada, emenda: "não vem a comida! eu tô com fome". Comida e remédio; como recebemos cada qual seu medicamento ela também mas derruba comprimidos no chão e passa a procurar e fá-lo falando (aliás o homem comum fala sempre o que provavelmente pensa e não pensa para falar).
Agora é noite, o passar à noite, o jantar, janta como falamos caipiras. Então 'vê' uma ponte e carros na ponte de luz acesa, um, insiste toda vez, um com farol fraco e a piscar – então olhando de pé na mesa o que ninguém percebe na imaginação dela – e vejam a represa (inexistente na região...) Senta-se, uns balançam a cabeça negativando seus berros, para tudo gritando não sabe falar na altura de um homem educado tal mulher. Nesse ponto derruba seu copo escorre o líquido na mesa. Ah, nada mais natural na Lurdes.
Lá num belo dia e isso ocorre muito, todos reunidos no refeitório nos assusta a cantar nada desafinada trecho dum sucesso do cantor Leonardo "quando você chegar de roupa molhada etc. " alto como a falar com a arara Pedro. Ah, já nem se nega mais, tanto o repetir a cena. Ela não presta sequer atenção nos opositores, repete e repete o último verso da canção como fora o próprio cantor popular mui ouvido na sala contígua, que é de estar e onde os hóspedes se esborracham nos sofás.
Esse o costumeiro no Paraíso. Todavia temos mais substância em tal veio de tesouros...

Cap.8 - Novas também velhas azucrinações
Tem um dado interessante ao caracterizar a Lurdes, aqui tão bem tratada ou mal, que é a questão religiosa. Nosso povo sabe-se é na maioria católico, igualmente isso se manifesta no Paraíso; contudo ela se diz testemunha de Jeová, inclusive voltou duma visita a familiares também desse credo, visitou salões da doutrina e passou a repetir uma citação bíblica, diário: Mateus 24, 14"E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim". Até aqui nenhum óbice, fora repetições ao cansaço... Ocorre entretanto que imediato despejando essa 'crente' o despautério dos xingamentos, xingamentos estes podendo às vezes antecipar a citação evangélica. Um despropósito realmente. Por isso a oposição em comentários desairosos lembra sua pregada condição religiosa; ela então se corrige imediato e até poderia acontecer pedir perdão, de boca, imediato também retoma o palavrão seja lá dirigido a quem for, ou mesmo à lembrança de uma de suas memórias, como um determinado irmão baiano tal qual ela mesma e daí impera trovejante e arrasadora: "fulano, esse meu irmão! um corno ladrão, roubou minha casa" etc., não para mais até ser 'desescutada', as orelhas em torno fazem 'vistas grossas' à demência da demente.
Todavia temos mais fatores a caracterizá-la.
Entre as repetições aludidas uma acontece a miúdo. O caso de sua viuvez, isso ocorrido sabe-se lá por dezenas de anos e lembrado agora as duas perdas. A do primeiro marido que lhe deu um tapa na cara lá na Bahia (chora ainda por causa do tapa); e imediato fala do segundo, um mineiro espécie de anjo em bondade; nessa altura da lembrança narra a internação e morte do esposo, por causa de remédio errado do médico; aí despenca a atirar o profissional no inferno! e despenca a chorar outra vez, sem verter lágrima... O público, nós, sabe de cor e salteado causas e efeitos desse drama. Tendo nisso a agravante de, cinco minutos após expor o seu problema, tomar outro ouvinte e repetir a dose. É de fato dose afirmo Bedelheiro.
Não é invenção de Lurdes essa maneira de ser, visto a situação ser o mais comum em idosos, os quais se esquecem rápido haver falado sobre algo; daí repetindo feito papagaio. A condição sequer rebaixaria a velha; ocorrendo no entanto que o teor pornográfico ofensivo grotesco ferino grosseiro chão violento de sua língua – tudo isso ofendendo até os que não têm berço em nosso publiquinho; publiquinho, não somos um auditório educado e exigente. Lamentavelmente nos 'pegamos' bem nos atritos com ela.
Por essas razões a Diacha é indesejada; e parece indesejável entre mulheres, causando também certa repugnância na ala masculina.
Assim caminha o mundinho, nosso Paraíso.

Cap.9 Mais algumas extravagâncias
Prossigamos neste relato alfinetando algumas picuinhas da extravagante Lurdes. Parece aos apressados que o Bedelheiro esteja apenas desejando pegar no pé, aliás tem ela um pezinho até gracioso, e 'pegar no pé' é um dizer chão aqui no povo debaixo. Não. Não isso mas também isso. Vejamos que esteja a Bruxa (nosso lado feminino parece que adora tratá-la assim) que esteja a bruxa santamente quieta e ensimesmada sentada debochada na cadeira desarmônica posta na mesa; quietinha. De repente sai-se com esta: acorda e reclama pelo prato cheio ou reclama por haver pouca comida na sua vasilha, então já fria, enquanto a gente restante na mesa haja deglutido silenciosa ou falando entre si. Coisinhas assim nem mais chocam. Contudo há choques grandes quando em determinado dia ela parece com o diabo no couro (assim diz a gente comum). São atritos entre as servidoras e Lurdes, que se tornam conflitos de grandes grosserias e no melhor dos estilos, cheios de apartes e muito nome feio com mútuas acusações; "elas, diz a 'vítima', essas frescas, põem tudo na mesa dos homens, as ignorantes, enquanto a besta aqui fico esperando!" e acresce desbocada, por terem eles mandioca... vão vão, suas nojentas, vão todas pegar a mandioca dos homens! Isto, ou seja a rixa entre elas, isto porque anteriormente fora flagrada lambendo prato na mesa, recebendo crítica dum colega de sofrimento na sua mesa; o que resultou em gritos baixos das mulheres na indignação e resultou nas também sempre tímidas acusações delas (agora não simplesmente pelos olhares condenatórios); em meio ao bate-boca uma servidora diz a ser ouvida pela interessada: "vou chamar a Regina (filha de Lurdes e conclui:) isso ela faz por ser testemunha de Jeová..." A crítica gera quase uma briga de cachorro grande. Alguns outros conflitos semelhantes acontecem no quarto onde a fulana dorme, conflitos que não passam duns desentendimentos corriqueiros entre internas a dormir no mesmo aposento. Sim, porque todas são internadas na instituição a que chamamos Paraíso; e não seriam seres diabólicos num paraíso!?
Novo dado que se pode intuir vendo o diário desenrolar nas desarmonias é com respeito ao pensamento dessa mulher sofrida, pois Lurdes demonstra ser sofredora e haver passado por anos difíceis na sua trajetória. Se bem o mal de não se fazer atrativa e simpática no dia a dia de nossa instituição. Enfim volta e meia expõe o que pensa, algo por vezes chocante como "por que não cortam essas árvores fazendo sombra?" e outros mais alardes de sua filosofia curta. Um é sobre a geração de filhos, mesmo na sua família. Que bom meu segundo genro e minha filha não ter filhos, filhos no mundo que está aí!? Então desembesta a recontar parentes (como todos ouvimos entra semana sai semana). A Regina com duas crianças... dá nomes desce a detalhes, entra na intimidade dos íntimos, descreve o apartamento, conta dos vizinhos, em todo mundo desce o pau (outra expressão popular usadíssima) manda o porrete na rua inteira e descamba de novo a pichar o corno do irmão baiano que lhe tomou a residência herdada do santo mineiro seu marido. Isso acontece durante todo ano.
Não obstante, prova por a-mais-bê ser briguenta não só de língua. Uma vez enfrentou uma servidora da casa na tarefa humanitária de higienizá-la. Negou-se aos gritos aceitar ser levada ao banho... xingou a moça, arranhou a funcionária. Aliás já tendo alguma lembrança rixosa com a mesma servidora por se apossar de vestes das outras internas do seu quarto. Noutra ocasião e com a mesmíssima servidora se encrencou; por haver guardado um troço de suas fezes na bolsa... enrolando a coisa em papel higiênico; descoberta, as demais empregadas testemunharam o malfeito e abriram o bico... Assim a Lurdes passou a ser gozada por isso e outras coisas em público, dando bate-boca e xingamento entre ela e Régis, um colega mui gozador. Por fim admitiu a falcatrua, xingou o mundo e imediato orou por Jeová, imediato também voltou a xingar o publiquinho; pornográfica e grossa, a cimentar sua má fama neste seu terceiro abrigo, tendo já passado e decerto com o mesmo 'brilhantismo' por outras casas de repouso.
O Bedelheiro, e creio também os olhos dos outros participantes do grupo, vê a Diacha como asquerosa, o que nada belo moralmente falando. Porém é assim. Com alguma razão. Uma vez numa confissão me prontifica gostar demais do genro e até fez a barra da calça pra ele "de graça!" bradou, e por causa disso deu-lhe emprestada sua dentadura de cima... (ela se referindo à prótese) o que um dado nojento. Enfim é o tipo que numa imagem talvez abusiva me parecendo qual agulha a costurar suas linhas tortas, pornográficas reafirmo, penetra em todo canto neste Paraíso, ou a comprar briga gratuita ou simplesmente a procurar encrencas pros lados dos anjos... e que anjos!

Cap.10 Santos e Anjos
Sim sim, longe serem angélicas criaturas... isto é, na casa de repouso ou abrigo se se quiser chamar não há santos; até em contrário visto o quanto se narra de positivo que no tempo de jovens fizeram; positivo que interpreto muita vez por 'positivo' ou seja de fato perfeito somente nas imperfeições humanas, humanos que são hoje e eram ainda as pessoas na juventude laaaaá longe no tempo. Contudo, bravateiam e a gente tem que concordar 'concordando' no mundo do absurdo em que se perdem os seres deste sofrido planeta.
Mas vamos agora mesmo ao relato do pessoal neste Paraíso, onde pessoas em confronto diário e com desaforos mútuos rixas e conversas-fiadas, levando sempre ao mesmo tema que a presença da Diaba Capeta Diacha Bruxa ou simplesmente Lurdes ou ainda "Lourdes" como reza no contrato que a família dela paga absolutamente dia dez aos dirigentes da Casa; que tal presença revela e se não releva, dito melhor não relevamos, confesso (envergonhado!) também não relevo. Bem. Somos uns trinta hóspedes ou albergados ou qualquer outra expressão que o valha; somos pessoas cansadas sempre, ainda quando mentes lúcidas e estas sendo pouquíssimas, enquanto o restante de cérebros definhando e mais sonhando um ideal no ideal de tornar ao lar doce lar muita vez azedo lar... Acham-se enfim como que provisoriamente os membros encostados no asilo (a direção reprova a palavra e exige seja "residência da terceira idade") bedelho meu bedelho a retificar: quarta ou quinta idade para muitos idosos. Oh deixa pra lá. Nesse conjunto de indivíduos, ao menos entre os lúcidos, queremos se não trucidá-la e isto mui forte expressão, no mínimo irritá-la, como se faz com um adversário de estimação.
Às vezes basta um cumprimento mal posto a disparar a briga quiçá guerra... Certa vez ela entra e responde a um colega o cumprimento no salão e comenta: "já tomei banho hoje!" imagem do mundinho dela. Ora, seu ser egocêntrico é tão desenvolvido que supõe ou mostra achar-se o centro de tudo, até do Universo. Inclusive num mero 'bom-dia' interpõe o que apenas a si pode interessar e não a outrem. Isso e isto provocando uma jornada inteira de gozação e provocação dos 'inimigos', bate-boca; posteriormente a esse conflitinho houve um desabafo ao sol nas cadeiras lá fora, uma série de integrantes a se refestelar no calor e a contar suas lorotas e desejos insatisfeitos. Tudo começa pelo Régis contra Lurdes. Nisso os idosos reunidos como que num Conselho dos Velhos, ou seriam conselheiros; enfim uma reunião informal embora quase no horário do almoço. Ali temos o cadeirante Manu, mui tagarela e repetitivo; o citado Régis ferrenho adversário da Diacha; uma portuguesa, que sempre reage aos nomes feios da 'heroína'; a Zula, a Jeru, a chamada Gouveia, todas mulheres repetitivas; o Yon um tipo de coreano doente e quase mudo; o Inácio, este um nissei de coração enorme de menininho e mui simpático à Bruxa; o José japonês, com nome brasileiro e que a circular pelos participantes rumina contra ela; o Catarino, um negro pacífico e impassível; o Eli, sujeito que não para quieto e é declaradamente inimigo da Diaba, dando sempre de longe bicadas nela. Todos esses conselheiros fora do prédio e ao sol comentando. Os outros moradores e conviventes estão nesse momento dentro do Salão vendo tevê e ouvindo rádio, tudo numa programação horrorosa... Os do exterior falam, lembram, acusam, debatem, uns debandam outros permanecem a discutir o como a velhota fere seus delicados ouvidos; ou são mesmo ofendidos pelos impropérios; impropérios ou tão somente palavras gratuitas ditas ou saídas sem reserva nem crítica dela, sempre contra eles, quer dizer nós! Contudo, a que resultado chegamos? Ah quase parecendo uma reunião inflamada de estudantes universitários, no caso a maioria inculta vinda do povo também inculto. Ou seja, não conduzindo a nada útil, sendo conversa apenas. Todavia o inimigo é comum a todos na reunião improvisada. Daí ela vem se juntar às cadeiras ao sol e recebe se não vaia a indiferença da maioria e uns cutucões da minoria apreciando o circo pegar fogo! Então no grupo se discute, ou se continua a discussão de anteriores desavenças. É, foi isso. Ah que anjos.
Entretanto não se vive onde se vive apenas de confrontos e trucidamentos (aqui simbólico, não pensemos mais absurdos nesse absurdo narrado...) Há momentos de paz ou quem sabe tão só de respeito em presença dessa velha. Em exemplo temos cenas diárias as quais a Diacha grita na hora do café o pão gostoso do padeiro "nota mil" eu escuto, continua o elogio, o entregador às seis horas tocar campainha. Noutro dia, este de frio medonho, ela em pleno almoço o feijão o arroz a mistura a fumegar, a Bruxa despenca a cantar dançar, diz alto haver tirado foto beijando o cantor Djavan; depois afirma também em voz alta gostar dos homens presentes; e aí e isso próprio dos loucos, faz declaração de amor ao tímido Catarino (este desconversa e amua) e insiste ainda apreciá-lo por ser moreno, a cor do segundo e mineiro marido; e por ser a cor de Jeová-Deus... Yon 'grosna' um som olha enraivecido e fala enojado contra ela em sua língua, a qual nós não compreendemos. Noutro momento uma enfermeira apara sua unha e ela quer guardar as pontas cortadas... um absurdinho semelhante. Noutra ocasião ainda aquiesce num diálogo, coisa rara nela, e elogia conversa de outrem a falar de amizade e amor. Não é totalmente desprovida de boa vontade. De repente, tratando-se de novo assunto, nem ouve e rasga elogios às mãos e aos pés do Régis e a si mesma: "ah meu rosto é belo". Com razão pois tem belos traços; suponho inclusive que a filha Regina nunca vista aqui seja o retrato da mãe quando jovem, decerto a provocar então ciúme e o tapa do primeiro esposo; porém isto uma suposição.
Foram várias as repetições descritas nesta narrativa, sobejo repeti-las. No entanto, mais a aproveitar um comentário a ser exposto, o Bedelheiro recorda o atraso proposital das servidoras em pôr seu prato, antes a servir seus colegas, tendo sempre a fala dela criticando a primazia aos machos na refeição, ela a esperar; as servidoras dizem a provocá-la ficar por último pelas suas reclamações... E a "besta aqui" fica pro final ?!  Comento baixinho com os meus companheiros para não provocar discordância "não acham que nunca a expressão besta apocalítica coube tão bem como na Lurdes?" Sorriem. Sim, também eu não sou flor que se cheire.
Temos aqui nesta instituição umas coisas que ferem o bom senso as delicadezas as finezas que aprendemos na escola da vida, no caso ligadas a essa irritante colega de infortúnio, isto visto ela ser um ser sofredor tanto quanto nós. Vou Bedelheiro ser mais direto curto e grosso, ao menos no linguajar sonante do povão, esbanjador na linguagem coloquial.
Lembro aqui uma pequena e informal entrevista a que ela me submeteu uma vez, estando este seu colega como que lagarto a tomar sol nas cadeiras postas a esmo no fundo do prédio. Sozinho então, vigiava os pássaros na relva verde, para que não se bicassem num entreverinho deles... aí ela aportou. Eu andava num mundo de sonhos no oceano da existência e ela, a Lurdes, quase me mata de susto quando se aboleta na cadeira a meu lado e se põe a me 'entrevistar'. Quem temer um absurdo absoluto, feche desde já as orelhas para não ler o despropósito no parágrafo seguinte.
Oh Bedelheiro – ela nunca em meses de convívio conseguiu saber meu belo nome, tanto que forjei aqui o apelido, ela pronunciou "ocê" – ocê acha que devo pôr vestido ou saia pra cagar!? pois não deu de calças (masculinas) eu agacharia aí no gramado (indica o fundo do Paraíso) e faria... porque dia sim dia não faço cocô . Seria outra igual Sakiko? me indaguei atrapalhado com o despropósito ouvido. Explico. Tem uma japonesinha neste lugar, que frequente urina e defeca em nossa presença quando pomos nossas lorotas em dia; elinha 'desaperta' em público por ser maluca ou por sequer notar gente próximo. No caso dessa consulta diaba a este conselheiro, devo ter respondido qualquer bobagem que caiba dentro da absurdidade.
Para concluir, modelo como puder dois fatos observados ligados a ela, bem menos chocantes que os acima. Brincamos em gozação com ela de várias formas e uma é o matrimônio, assunto que lhe agrada deveras. Então propuseram uns colegas união dela com o japonês Inácio... a pobre acreditou e se pôs a sonhar, ela demais necessitada se mostra na falta de homem. Dias sonhou alto. Pior: o noivo creu! imaginou até possuir um carro para levar a noiva ao altar. Ora, o noivo desconhece a própria idade nem tendo ideia onde nasceu. O idílio foi engolido por outras gozações dos gozadores eventuais. O segundo fato é tão prosaico quanto o anterior e revela a irritação e a prevenção que os moradores seus colegas têm com ela. Liga ou desliga se estiver ligada a luz por onde transite dentro do edifício da instituição. No caso desligou o interruptor da mesa onde Maria portuguesa sentada, quando de passagem. Foi um bate-boca dentro dos conformes. Então volta do seu quarto, tendo decerto ruminado haver desfeiteado a colega, tornando desse aposento, pede desculpas em altos brados; faz mais: abraça beija a colega. Sim, não é tão despojada de boa vontade. Porém não posso garantir ser a opinião dos demais residentes.
Curiosa conclusão no estudo dos participantes do Paraíso. Os idosos todos desejam retornar à casa, ao seu antigo ambiente. A Lurdes é uma idosa e vive a morrer suas lembranças suas necessidades e inclusive mostra ânsia de tornar. Agora, neste momento, surgiu a nosso ver uma oportunidade e tanto: sua família a levou embora. Nós nos confidenciamos e torcemos que o afastamento possa ser definitivo... Mas, como é mesmo a fala do povo sábio!? O futuro a Deus pertence.

IV – Final: Paraíso no Inferno
Trina o trim da campainha da porta da rua do mundo e se atende; uma servidora da instituição em azáfama no drama do atendimento a idosos ou somente pacientes impacientes; deixa momentâneo para atender o sinal da chegada os seus velhos, estes a dizer ou calar suas coisas – uns contam em ótima bravata como são bons, conquistadores, belos, puros, honestos e credores nos desandos do mundo lá fora como fosse assim hoje em dia; outros só lamentam seus ais, independendo agora serem ex-homens ex-mulheres, puros honestos vencedores etc. e tal como antes (antes de entrarem para esta confraria esquisita dita explícita de repouso...) todos se julgando estar apenas de passagem, quiçá garantindo aos ouvidos escutadores irem loguinho poder errar direito no mundo de agora, embora na hora não valham sequer décimo do que foram, se foram...
Chega a funcionária à porta no final do corredor, abre deixa entrar (por conhecidas e serem mulheres, se olham se beijam se picarão decerto futuramente, diz o machismo bedelheiro...) Entra. Penetra aquele santuário e chega ao salão de estar onde a velharia, a velharia ou se mede ou se conta o que contar e então, na expectativa de quem terá chegado, os 'hóspedes' se indagam "alguma visita pra mim?" e caso não tivesse saído antes a Lurdes, esta é quem teria corrido enxerir a porta o trinado a visita; agora, ora, fora ela... Entra, aparece na sala plena um ser pleno de vida e beleza, a Regina! Regina em latim, Rainha. Tão bela tão fêmea tão plena que ocasiona alvoroço (mormente entre os ex-homens a se pensar machos pra valer:) Os homens alguns babam, outros olham e se olham a marcar espaço e veem extasiados a beldade, toda ela é curva é macia é sugestão é pecado mas isto não conta aos olhos famintos, descamisados embora e desvalidos com certeza. Já as fêmeas da espécie 'ex' também qual eles ali a babar, elas já analisam os cortes as vestes a moda (a si fora de moda) se vive Regina na moda, se é digamos uma exibida mal vestida.
Nisso... ah, ih, oh, uh, ai-ai-ai!!! e não é que junto à princesa em leveza e beleza chega de volta a Bruxa!
A Lurdes com travesseiro óculos touca toalha bolsa se arrasta nos pés e já grita: "oh Pedro!"
Um dos velhinhos sequer nota a Diacha, vidrado na filha dela, só curvas, perigosas curvas! e comenta pensando falar baixinho gritado num ouvido ex-macho surdo e terá que repetir "oh que gostosa esplendorosa maliciosa, vaidosa por que não!"
Itapecerica da Serra  outubro  2017

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