quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Águas Prateadas


Águas Prateadas

“A vida está pronta para desmoralizar definições.”
Fernando Jorge Uchôa                                                                                                                        - - -             
“Maravilhosa é a primavera terrena, mas o inverno virá depois dela.”
 Emmanuel 

I homem, homem e a solidão do homem
Agora? agora olha o olho do rio a olhar o rio o mundo. E o mundo de águas, são as águas do mundo e elinho grita. Grita suas coisas num cricrilar contínuo com intermitências quase imperceptíveis a avisar o mundo, o mundo que o homem vê, vê sim pois às vezes a gente olha e não vê, vê uma superfície prateada a sorrir purezas, a onda a luz que vem de longe, longe um sol nervoso a esborrifar a prata o ouro os brilhantes mil que somem do perto ao distante, distante distante a raspar na curva e certamente a rabanear nas margens em meandro e a serpentear o solo duro; duro seco árido ávido de sede a sugar sugar e a se perder no sempre. Olha o olha do inseto. Faz cri, ecoa cria, volta torna bate fere os tímpanos e se emenda noutro cri, a gritar a natureza. A natureza calma não obstante, ela esparge paz. Paz! que é paz. O homem pensa e pensa que pensa a prolongar vogais e a silenciá-las em síncope de cansaço e para sequer a rever a pensar e repensar.
Era o foi. A lembrança o sentir a fugir ainda presente prestes a ferir um coração desprevenido. Mas eis rebrilha em chibata solar a prata da tona e o agride, agride o homem. Fá-lo engolir ideias e fúnebres pensares; momentâneo que seja. Ainda distingue a chiar os chiares miúdos e neles os cricris impertinentes, imperturbáveis imponentes na sua insignificância na procura da fêmea... sofrer igual o homem na sua solidão, pior: com temor dela e romper com ela – o homem é o inexplicável das coisas; ele é o concreto mas também é a sombra.
Era a sombra. A sombra lançou um vulto no mundo imenso que era o mundo. Apagou o sol afogou os raios no mar do rio parado em brincadeira de lagoa no seu rebojo na corrente em despretensão e descuido; em descuido foram engolidos na superfície molhada; tão molhada tanto como fosse um depósito de lágrimas vindas do firmamento. O firmamento sumia subia sumia lá em cima e deixava a sombra envergonhada, inexpressiva; e, por que não dizer, covarde na sua timidez em meio à bruma. Ora que sim ora que não, ao gosto do sol orgulhoso ou das nuvens teimosas – surgia ela na tona inquieta agora quieta e molentada. Surgia a sombra em imagem fraca, superposta e vez que outra presente na sombra marcante, quase sólida, do homem que via; via a sombra que via o homem. E tinha o mesmo tamanho do homem e as mesmas características desse homem; só num que noutro momento se estendendo na coberta fria da água e se tornando maior e mesmo monstruosa e deformada que sua primeira via humana. Porém possuindo vida tanto quanto, se mexendo, a cobrir a coberta líquida ou atirando nela vestígios de sol ou luminosidade enfraquecida, dessas que não aquecem todavia clareiam, embora palidamente. E a sombra era também solitária; solitária qual a figura que se entendia por homem. E ao homem faltava pedaço e não falava e não tinha coragem a deixar ser homem, a se afogar mais capacitadamente que sua versão em vulto, a qual cruzava a superfície entrava na superfície não se molhando. O homem, não querendo talvez ser a primeira via da obra ou a obra propriamente, temendo deixar ser o seu ser... Isto fugaz, pensamento rápido e rápido mais ainda que o pensamento, pensamento seu. Em vista, mexeu-se e se sentiu. Isto não fugaz, isso a vida. A vida não foge nem esboroa qual nada; por vezes apenas assemelhando o voo da borboleta.
Era a borboleta. Olhou sentou chupou o cheiro em volta, se prendendo a uma flor bárbara na margem em terra; desenxavida à vida humana mas prenhe de recursos aos recursos do inseto. Viu e não viu com o peso das toneladas de homem; antes só a exagerar levuras nas brisas que traziam o hálito de água semiestagnada; e sorriu à flor, visitou mais outras também selvagens, também na oferta de cor e alimento. Bateu asas a se sentir ou a invejar o homem, voou de esguelha subiu desceu planou cortou o vento mole pela metade e pousou de novo; de novo passeou a ziguezaguear forçando os olhos castanhos do homem a abrir e fechar e a forçar o rosto do homem a pender seu queixo às partes inferiores, a levantar logo o queixo para as sobracelhas pregarem enrugando o alto a vê-la; e já tornava abaixo tornando imediato pra cima; no entanto ela exagerou fugacidade ora à esquerda ora à direita a medir a extensão do nada. Nada contente ou infeliz mas sendo tão só, essa borboleta fazia desenhos curiosos sem pincel, colorindo, assim mesmo, a paisagem. E fez pior nesse melhor – chamou a engraçar a vista humana as suas coleguinhas de trabalho; trabalho a pipocar inusitados de circunvoluções livres e sem estudo nem planejamento. Era um mar de águas a pratear o dourado de borboletas amarelas, dessas da ordem sem ordem que é o ordinário das coisas; ou seja sem cri nem pedigri. E o mundo se encheu delas, a abafar o mundo, a apavorar uma ou poucas florinhas também bárbaras também selvagens e sem tratamento de civilização dicionários e línguas mortas, vivas, vivas todas todas num passeio ziguezagueante, sem preocupações que não o alimento e o perpetuar. Quem sabe a desejar embelezamento do ambiente, onde não vicejava senão um único homem.
Era a água e o homem olhou sem poder enxergar por causa da incoloridade mas viu a transparência na transparência da natureza mil insignificâncias. A poluição descuidada em gravetos e demais sobras de vento; percebeu mais naquele mar a pratear somente a superfície: os peixes miúdos a gorjetar presenças a conquistar presas ainda mais miúdas de voejantes aeronavinhas anfíbias; a conquistar mesmo ciscos e restos e a nadar. E afundar e sumir no infindável das águas e a voltar trazendo outras miudezas em cardume, coalhando o próximo e desaparecendo em longe. E se alegrou o representante do ser que pensa que pensa, às vezes sequer pensa e pensa antes o perigo tão só. Aí teve medo: o vácuo a onda o volume a fome líquida que engole tamanhos e vomita correntezas... Viu pensou cardumes enormes em ondas profundas a se deslocar à interrogação das coisas; foi além a torcer contra predadores, notou imaginando tubarões famintos a engolir todo um mundo de peixinhos e se pegou qual borboleta a ziguezaguear criações a cricrilar o nada tudo possível que o raciocínio destrói de unha num átimo, pois como haver seres monstruosos n'água quase parada dum rio apenas maior que um córrego! Não obstante temeu pelo mundinho hídrico e nesse momento pelo seu mundo e pelo seu ser. Para sorrir da insensatez do imaginativo. Então aspirou o hálito do todo para ser somente ele entre a prata e a mata.
Era a mata. Olhou em ressaibo. A gente teme a gente, sim; mas teme sobretudo o nada que vem da ignorância e do desconhecido. Olhou o escurecer olhou o perigo e se assustou. O vento a esfriar a erva o tronco a folha o galho todos a provocar a conversa da selva. Passou então a ouvir cada vez mais a voz daquele silêncio a se destramelar ameaçante. Num átimo escutou o estrondar da floresta – pobre floresta já afeita ao machado à máquina ao fogo à destruição – e percebeu o crepitar no pisado avançante das pegadas selvagens; ‘acuíu’ melhor o pior a receber sons e rugidos felinos; ou somente a traição nos deslizes das serpentes; a perdoar a inexistência dos concretos miúdos. Acalmou por fim as pulsações aceleradas, a apreender coachares e pios inocentes, quiçá embelezantes em adorno à natureza. Mesmo nesse momento, contanto ainda em meio tanto, só...
Era a solidão. Via o homem o todo, se bem mal apreendesse, revendo o reflexo a pratear águas, a vegetação exuberante ou teimosa a resistir; repensando o ouvir e em meio a tanta riqueza sentia-se pobre, miserável mesmo, solitário. Repuxou o franzir entre sobrancelhas, encolheu a testa curta onde os séculos passados não viram o culto, ranhurou-se em preocupação. Precisava reagir. ¡Por que a gente precisa questionar-se diante da harmonia e da beleza em volta! Ainda não sabia responder, ainda não sabia, era um homem.

II -  homem, menino: lembrança
Agora? agora é o ontem. Mas se o ontem não existe, inexiste tanto quanto o futuro que não ainda, podendo nem ser não percebida a fugacidade do presente, pressente agora não obstante ontem a se perder de vista em mente cansada... Assemelhando o músico a sonar carta destinada ao futuro, em antonímia olhou o homem como missiva inexpressiva, revisiva quem sabe, o passado, seu passado. Ambos – músico a ver em frente homem a quase enxergar atrás – ambos mortos, documento ou pó na ótica mundana. Porém homem não vê.
Era homem e se vê menino. Ligou a lanterna potente em foco ao túnel de todos tempos; as ondas luminosas voaram tal qual flecha arisca veloz imperceptível na ultrapassagem da luz a brincar de carreira com o som e a deixá-lo tartarugando no ontem.
Era menino. Descobrira o extraordinário do existir, do ver que não era o exterior, nem a mãe, tinha uma e se pensava ela parte dela dela toda, não sendo a borboleta que voa engraçado nem a pomba que singra ares nunca dantes navegados, nem a galinha a ciscar despreocupada, nem a bita nem a porca nem a égua muito menos a égua em coices de cria; se descobriu homem menino homem de torneirinha e sem agacho. Descobriu a mosca e o cheiro que atrai a mosca, e a moça e o homem mas não era homem e se percebeu criança. Criança não teme ou teme a tudo – a dor a fome o caminho, e após os outros homens para se sentir homem, entretanto menino. Descobriu o umbigo os pés as mãos de fazer as coisas, as coisas de se fazer; e já não sabia fazer! O homem se pensa homem pra ser menino; esse homem não conheceu outros homens se sabendo criança: nasceu cresceu viveu a solidão antes da solidão, a ter rodeando a si a vida, aprisionado na cadeia da ignorância, a ignorância sem carcereiro sem fuga e sem liberdade na fuga; para desembarcar na estação de si, solitário.
Era o brinquedo. Se arrasta se agasta a gastar os gastos, esfola remexe o chão, experimenta ingere engole grânulos de solo, assopra enxota a baba em careta, dois riozinhos escorrem das fossas a umidecer mais a baba e senta pelado em refeição à formiga; aí grita berra enche o mundo do mundinho no choro; e chora e amolenta e cede e dorme e sonha e não se lembra: não existe sonho na realidade menina e acorda e não sabe dormir. Agora brinca de ter fome outra vez, vez passada é estrume é a massa fecal a feder... vê sente aprecia e se entrega a nova brincadeira – revirar tudo sem ter a intenção da mosca; a mosca zune disputa a presa da gente com a gente, a gente se arrasta olha e não vê mais nada, está só. Depois cresce a pequenura e já se entende com borboletas e mais insignificâncias doutras insignificâncias e tudo que mexe e não mexe; brinca com paus e pedras e folhas ou somente sonha e conversa também com o outrinho esboroante e fugaz como a fumaça e como a sombra; a sombra, ah a sombra! percebe mil e uma imagens e desenhos da sombra; a conversa é animada; mas ninguém entende os personagens, desimportante não havendo ninguém, apenas a solidão. Homem menino não sente a solidão não sabe a solidão porém vê a solidão que ninguém vê. Contudo cresce sofre; sofre sem saber e isto não sendo sofrer pois a consciência tão só é o sofrimento. Agora já brinca grande, não satisfaz o brinquedo inocente. Imagina a fera teme a fera, se assusta com ela e ninguém a saber. Corre a cavalo no cabo de vassoura atirado ao entulho; revira o entulho à procura, acha outros tesouros quase sempre sem nome, todavia que é nome! não se chamasse menino não seria acaso menino? aí contempla os destroços achados e lhes concede nomes como nomeia animais em volta: o cão a virar lata inexistente no lixo geral, o porco a galinha os seres outros voejantes e não; e os voejantes insetos. Todos têm nomes e casa e caminho e vida e estória de vida – ele sabe tudo, sabe antes de inventá-la. Nada obstante rodeado por seres em mar, vivos e imaginados – solitário.
Era só. Agora se conheceu sozinho sem nenhum afeto, tivesse a multidão, ainda menino só... Mas a brincadeira continuava e a melhor fôra fóra no seu dentro: as águas prateadas. Via o mar e o mar do rio enlagunado a brilhar e ainda maior que no futuro o futuro homem teria menino. Porque o garoto é pedaço do adulto e ele pequenino, o rio enorme a refletir o sol. O sol foi descansar, as nuvens a proteger a vista do astro e a bruma invadiu a tona; as nuvens invejaram a bruma e lavaram a bruma e molharam menino. Nunca percebera a chuva e exaltou-se a exaltá-la; ela respondeu enviando mil pingos e os pingos se vestiram de mil e um soldadinhos a pular entre a prata e o ar quente. Menino gritou antes de susto depois de alegria! entretanto e embora a ter mil soldados, era um único se conscientizando só e só posteriormente sentiria a solidão...
Era a consciência. Debalde o menino crescido a um dia virar homem quis narrar, não suas proezas mas as da chuva do rio do mar da prata em reflexo no mundo: não tendo ninguém. Era a fera em espera na selva. Era um selvagem indomado sem afeto sem amizade sem o conhecer, qual gato perdido no mato bravo, bravo; ele manso apesar, a crescer em buscar alimento e vida com esforço próprio. Não tinha mãe menos ainda pai e parentes, parentes podem enxeridar? Não. Sim. A terra parira para pari-la, o todo e todos em parentesco – a erva o verme, a verve. O tino o destino o instinto a intuir por timão; o acerto e erro do acerto e a caminhada; e nada e tudo. Nada em consciência, tudo em brincadeira, na sem-respomsabilidade. Aí se pegou a virar homem homem menino a adolescer.

IIIhomem, adolescente
Agora? agora adolesce, adolesce sem mal; mas que é mal! O ser em ebulição de adolescência, a ser contestado; não havendo contestação em paradas a pratear relampejos do sol quando sol a vencer a bruma. Onde homem vê as águas as águas que o veem, a criar sozinho no mundo um mundo e o mundo é grande é o mar ali, lá a mata selvagem ameaçante.
Era a ameaça o perigo a caça a cassar seus direitos à liberdade; porém onde a liberdade no absoluto! que é absoluto em se tratando do homem e da liberdade? A chuva, o vento desde a brisa ao tufão, o miado dirigido a si, o monstro marinho em água doce; ou somente a loucura a descrer da liberdade. Contudo tudo a empecilhar um homem na fase jovem dos problemas insolúveis. Mas quê teria solução? A fome a voltar sempre sempre, sempre insatisfeita; o medo impreciso a desafiar demais coragens; o futuro! oh se tudo nele é a interrogação e reticências em não acabar. Não obstante a viver seu viver, tranquilo de sono intranquilo, intranquilidade no viver desperto; a vigília constante em vigia. Até que penetrou naquele campo virgem a necessidade sexual.
Era o sexo. As experiências são intransferíveis e semelhantes, disso não sabendo; sabendo a ave e todos animais em volta no acasalamento, a conhecer em sobejo anseios e perpetuações. Aí penetrou os rasos dos profundos, a água o engolindo ansiada; estaria cruzando-se em estranho conluio? nadou se refrescou saiu do mar, amolentado, e descansou, sorrindo. Mas as necessidades não se vencem nem se vence; voltaram tornando-se ferozes, anos de ferocidade e cobrança em cobrança; igual a fome. Homem se espreguiçou virou-se às distrações puras; que seria pureza! depois cedeu; carinhou-se se alisou e por fim, em um não há fim: masturbou-se para a água; a imensidão engoliu milhões de minúsculas e invisíveis criaturinhas a cair na tona. Onde peixes miúdos se alimentaram e também de insetos a nadar. Ah isso não era solução; é solidão.
Era um só homem. Em meio ao mundo tão grande, livrou-se dos dramas jovens a envelhecer dramas: pegou-se num de-repente de anos, poucos, e viu-se adulto na comparação de ocasionais visitas à solidão. Não conversando com estranhos apenas com a solidão amiga de sempre. Foi nisso o se questionar – para que ser homem!

IVhomem  se pensa homem; homem sem fim
Agora? agora homem é homem, não mais menino, se bem bem ou mal a criancice perdure enquanto perdura a vida; mas não é mais. Nem adolesce, fenece; antes se fixa no se pensar homem, sem contudo ser do tipo macho-pra-valer e sequer possuindo referencial a tanto. A poesia, fosse ao menos um poetastro, ela se findou com as fases líricas ou do conhecimento do conhecimento. Embora, também não filosofa as coisas, como poderia ocorrer a um senhor madurão, nunca chegou a amadurecer... Está diante das águas.
Era o pratear. Longe não tão, perto a mata; o som da selva, a conversa arisca das aves, a bruta dos brutos existentes ou apenas imaginados. Entretanto só vê o mar, o mar cada vez menos oceano e cada vez mais lago doce a refletir o sol e sua imagem.
Era a fotografia. Vê um velho ainda novo, moreno do sol, meão em tamanho, de barba rala esticada e eriçada a pratear igual seu mar em rio empoçado, onde peixes prateiam imitando a extensão líquida, o pratear vem à tona a remexer e a sumir em águas nada revoltas. Sorri.
Era a tristeza. Sorri sem graça, sem graça sua vida. Sequer pensa lembrando a meninice a juventude; não vê a riqueza natural em volta. Vive só está só.
Era o solitário. Era... Sua condição não permitindo narrar; narrar a quem, narrar pra quê? como narrar se nunca falou!? Tão só sabendo ouvir sentir ver. Então obedeceu à sugestão prateada. Abrindo em vertigem um caminho. Sem volta.
Marília   maio  2007


         



           

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