Águas Prateadas
“A vida está pronta para
desmoralizar definições.”
Fernando Jorge Uchôa - - -
“Maravilhosa
é a primavera terrena, mas o inverno virá depois dela.”
Emmanuel
I
–
homem, homem e a solidão do homem
Agora? agora
olha o olho do rio a olhar o rio o mundo. E o mundo de águas, são as águas do
mundo e elinho grita. Grita suas coisas num cricrilar contínuo com intermitências
quase imperceptíveis a avisar o mundo, o mundo que o homem vê, vê sim pois às
vezes a gente olha e não vê, vê uma superfície prateada a sorrir purezas, a
onda a luz que vem de longe, longe um sol nervoso a esborrifar a prata o ouro
os brilhantes mil que somem do perto ao distante, distante distante a raspar na
curva e certamente a rabanear nas margens em meandro e a serpentear o solo
duro; duro seco árido ávido de sede a sugar sugar e a se perder no sempre. Olha
o olha do inseto. Faz cri, ecoa cria, volta torna bate fere os tímpanos e se
emenda noutro cri, a gritar a natureza. A natureza calma não obstante, ela
esparge paz. Paz! que é paz. O homem pensa e pensa que pensa a prolongar vogais
e a silenciá-las em síncope de cansaço e para sequer a rever a pensar e repensar.
Era o foi. A
lembrança o sentir a fugir ainda presente prestes a ferir um coração desprevenido.
Mas eis rebrilha em chibata solar a prata da tona e o agride, agride o homem.
Fá-lo engolir ideias e fúnebres pensares; momentâneo que seja. Ainda distingue
a chiar os chiares miúdos e neles os cricris impertinentes, imperturbáveis
imponentes na sua insignificância na procura da fêmea... sofrer igual o homem
na sua solidão, pior: com temor dela e romper com ela – o homem é o
inexplicável das coisas; ele é o concreto mas também é a sombra.
Era a sombra. A
sombra lançou um vulto no mundo imenso que era o mundo. Apagou o sol afogou os
raios no mar do rio parado em brincadeira de lagoa no seu rebojo na corrente em
despretensão e descuido; em descuido foram engolidos na superfície molhada; tão
molhada tanto como fosse um depósito de lágrimas vindas do firmamento. O
firmamento sumia subia sumia lá em cima e deixava a sombra envergonhada,
inexpressiva; e, por que não dizer, covarde na sua timidez em meio à bruma. Ora
que sim ora que não, ao gosto do sol orgulhoso ou das nuvens teimosas – surgia
ela na tona inquieta agora quieta e molentada. Surgia a sombra em imagem fraca,
superposta e vez que outra presente na sombra marcante, quase sólida, do homem
que via; via a sombra que via o homem. E tinha o mesmo tamanho do homem e as
mesmas características desse homem; só num que noutro momento se estendendo na
coberta fria da água e se tornando maior e mesmo monstruosa e deformada que sua
primeira via humana. Porém possuindo vida tanto quanto, se mexendo, a cobrir a
coberta líquida ou atirando nela vestígios de sol ou luminosidade enfraquecida,
dessas que não aquecem todavia clareiam, embora palidamente. E a sombra era
também solitária; solitária qual a figura que se entendia por homem. E ao homem
faltava pedaço e não falava e não tinha coragem a deixar ser homem, a se afogar
mais capacitadamente que sua versão em vulto, a qual cruzava a superfície
entrava na superfície não se molhando. O homem, não querendo talvez ser a primeira
via da obra ou a obra propriamente, temendo deixar ser o seu ser... Isto fugaz,
pensamento rápido e rápido mais ainda que o pensamento, pensamento seu. Em
vista, mexeu-se e se sentiu. Isto não fugaz, isso a vida. A vida não foge nem
esboroa qual nada; por vezes apenas assemelhando o voo da borboleta.
Era a
borboleta. Olhou sentou chupou o cheiro em volta, se prendendo a uma flor
bárbara na margem em terra; desenxavida à vida humana mas prenhe de recursos
aos recursos do inseto. Viu e não viu com o peso das toneladas de homem; antes
só a exagerar levuras nas brisas que traziam o hálito de água semiestagnada; e
sorriu à flor, visitou mais outras também selvagens, também na oferta de cor e
alimento. Bateu asas a se sentir ou a invejar o homem, voou de esguelha subiu
desceu planou cortou o vento mole pela metade e pousou de novo; de novo passeou
a ziguezaguear forçando os olhos castanhos do homem a abrir e fechar e a forçar
o rosto do homem a pender seu queixo às partes inferiores, a levantar logo o
queixo para as sobracelhas pregarem enrugando o alto a vê-la; e já tornava
abaixo tornando imediato pra cima; no entanto ela exagerou fugacidade ora à
esquerda ora à direita a medir a extensão do nada. Nada contente ou infeliz mas
sendo tão só, essa borboleta fazia desenhos curiosos sem pincel, colorindo, assim
mesmo, a paisagem. E fez pior nesse melhor – chamou a engraçar a vista humana
as suas coleguinhas de trabalho; trabalho a pipocar inusitados de
circunvoluções livres e sem estudo nem planejamento. Era um mar de águas a
pratear o dourado de borboletas amarelas, dessas da ordem sem ordem que é o
ordinário das coisas; ou seja sem cri nem pedigri. E o mundo se encheu delas, a
abafar o mundo, a apavorar uma ou poucas florinhas também bárbaras também
selvagens e sem tratamento de civilização dicionários e línguas mortas, vivas,
vivas todas todas num passeio ziguezagueante, sem preocupações que não o
alimento e o perpetuar. Quem sabe a desejar embelezamento do ambiente, onde não
vicejava senão um único homem.
Era a água e o
homem olhou sem poder enxergar por causa da incoloridade mas viu a
transparência na transparência da natureza mil insignificâncias. A poluição
descuidada em gravetos e demais sobras de vento; percebeu mais naquele mar a
pratear somente a superfície: os peixes miúdos a gorjetar presenças a
conquistar presas ainda mais miúdas de voejantes aeronavinhas anfíbias; a
conquistar mesmo ciscos e restos e a nadar. E afundar e sumir no infindável das
águas e a voltar trazendo outras miudezas em cardume, coalhando o próximo e
desaparecendo em longe. E se alegrou o representante do ser que pensa que
pensa, às vezes sequer pensa e pensa antes o perigo tão só. Aí teve medo: o
vácuo a onda o volume a fome líquida que engole tamanhos e vomita
correntezas... Viu pensou cardumes enormes em ondas profundas a se deslocar à
interrogação das coisas; foi além a torcer contra predadores, notou imaginando
tubarões famintos a engolir todo um mundo de peixinhos e se pegou qual
borboleta a ziguezaguear criações a cricrilar o nada tudo possível que o
raciocínio destrói de unha num átimo, pois como haver seres monstruosos n'água
quase parada dum rio apenas maior que um córrego! Não obstante temeu pelo
mundinho hídrico e nesse momento pelo seu mundo e pelo seu ser. Para sorrir da
insensatez do imaginativo. Então aspirou o hálito do todo para ser somente ele
entre a prata e a mata.
Era a mata.
Olhou em ressaibo. A gente teme a gente, sim; mas teme sobretudo o nada que vem
da ignorância e do desconhecido. Olhou o escurecer olhou o perigo e se assustou.
O vento a esfriar a erva o tronco a folha o galho todos a provocar a conversa da
selva. Passou então a ouvir cada vez mais a voz daquele silêncio a se
destramelar ameaçante. Num átimo escutou o estrondar da floresta – pobre
floresta já afeita ao machado à máquina ao fogo à destruição – e percebeu o crepitar
no pisado avançante das pegadas selvagens; ‘acuíu’ melhor o pior a receber sons
e rugidos felinos; ou somente a traição nos deslizes das serpentes; a perdoar a
inexistência dos concretos miúdos. Acalmou por fim as pulsações aceleradas, a
apreender coachares e pios inocentes, quiçá embelezantes em adorno à natureza.
Mesmo nesse momento, contanto ainda em meio tanto, só...
Era a solidão.
Via o homem o todo, se bem mal apreendesse, revendo o reflexo a pratear águas,
a vegetação exuberante ou teimosa a resistir; repensando o ouvir e em meio a
tanta riqueza sentia-se pobre, miserável mesmo, solitário. Repuxou o franzir
entre sobrancelhas, encolheu a testa curta onde os séculos passados não viram o
culto, ranhurou-se em preocupação. Precisava reagir. ¡Por que a gente
precisa questionar-se diante da harmonia e da beleza em volta! Ainda não
sabia responder, ainda não sabia, era um homem.
II -
homem, menino: lembrança
Agora? agora é
o ontem. Mas se o ontem não existe, inexiste tanto quanto o futuro que não ainda,
podendo nem ser não percebida a fugacidade do presente, pressente agora não obstante
ontem a se perder de vista em mente cansada... Assemelhando o músico a sonar
carta destinada ao futuro, em antonímia olhou o homem como missiva
inexpressiva, revisiva quem sabe, o passado, seu passado. Ambos – músico a ver
em frente homem a quase enxergar atrás – ambos mortos, documento ou pó na ótica
mundana. Porém homem não vê.
Era homem e se vê menino. Ligou a
lanterna potente em foco ao túnel de todos tempos; as ondas luminosas voaram
tal qual flecha arisca veloz imperceptível na ultrapassagem da luz a brincar de
carreira com o som e a deixá-lo tartarugando no ontem.
Era menino. Descobrira o extraordinário
do existir, do ver que não era o exterior, nem a mãe, tinha uma e se pensava
ela parte dela dela toda, não sendo a borboleta que voa engraçado nem a pomba
que singra ares nunca dantes navegados, nem a galinha a ciscar despreocupada,
nem a bita nem a porca nem a égua muito menos a égua em coices de cria; se
descobriu homem menino homem de torneirinha e sem agacho. Descobriu a mosca e o
cheiro que atrai a mosca, e a moça e o homem mas não era homem e se percebeu
criança. Criança não teme ou teme a tudo – a dor a fome o caminho, e após os
outros homens para se sentir homem, entretanto menino. Descobriu o umbigo os
pés as mãos de fazer as coisas, as coisas de se fazer; e já não sabia fazer! O
homem se pensa homem pra ser menino; esse homem não conheceu outros homens se
sabendo criança: nasceu cresceu viveu a solidão antes da solidão, a ter rodeando
a si a vida, aprisionado na cadeia da ignorância, a ignorância sem carcereiro
sem fuga e sem liberdade na fuga; para desembarcar na estação de si, solitário.
Era o
brinquedo. Se arrasta se agasta a gastar os gastos, esfola remexe o chão,
experimenta ingere engole grânulos de solo, assopra enxota a baba em careta,
dois riozinhos escorrem das fossas a umidecer mais a baba e senta pelado em
refeição à formiga; aí grita berra enche o mundo do mundinho no choro; e chora
e amolenta e cede e dorme e sonha e não se lembra: não existe sonho na
realidade menina e acorda e não sabe dormir. Agora brinca de ter fome outra
vez, vez passada é estrume é a massa fecal a feder... vê sente aprecia e se
entrega a nova brincadeira – revirar tudo sem ter a intenção da mosca; a mosca zune
disputa a presa da gente com a gente, a gente se arrasta olha e não vê mais
nada, está só. Depois cresce a pequenura e já se entende com borboletas e mais
insignificâncias doutras insignificâncias e tudo que mexe e não mexe; brinca
com paus e pedras e folhas ou somente sonha e conversa também com o outrinho
esboroante e fugaz como a fumaça e como a sombra; a sombra, ah a sombra!
percebe mil e uma imagens e desenhos da sombra; a conversa é animada; mas
ninguém entende os personagens, desimportante não havendo ninguém, apenas a
solidão. Homem menino não sente a solidão não sabe a solidão porém vê a solidão
que ninguém vê. Contudo cresce sofre; sofre sem saber e isto não sendo sofrer
pois a consciência tão só é o sofrimento. Agora já brinca grande, não satisfaz
o brinquedo inocente. Imagina a fera teme a fera, se assusta com ela e ninguém
a saber. Corre a cavalo no cabo de vassoura atirado ao entulho; revira o entulho
à procura, acha outros tesouros quase sempre sem nome, todavia que é nome! não
se chamasse menino não seria acaso menino? aí contempla os destroços achados e
lhes concede nomes como nomeia animais em volta: o cão a virar lata inexistente
no lixo geral, o porco a galinha os seres outros voejantes e não; e os
voejantes insetos. Todos têm nomes e casa e caminho e vida e estória de vida –
ele sabe tudo, sabe antes de inventá-la. Nada obstante rodeado por seres em
mar, vivos e imaginados – solitário.
Era só. Agora
se conheceu sozinho sem nenhum afeto, tivesse a multidão, ainda menino só...
Mas a brincadeira continuava e a melhor fôra
fóra no seu dentro: as águas
prateadas. Via o mar e o mar do rio enlagunado a brilhar e ainda maior que no
futuro o futuro homem teria menino. Porque o garoto é pedaço do adulto e ele
pequenino, o rio enorme a refletir o sol. O sol foi descansar, as nuvens a
proteger a vista do astro e a bruma invadiu a tona; as nuvens invejaram a bruma
e lavaram a bruma e molharam menino. Nunca percebera a chuva e exaltou-se a
exaltá-la; ela respondeu enviando mil pingos e os pingos se vestiram de mil e um
soldadinhos a pular entre a prata e o ar quente. Menino gritou antes de susto
depois de alegria! entretanto e embora a ter mil soldados, era um único se
conscientizando só e só posteriormente sentiria a solidão...
Era a
consciência. Debalde o menino crescido a um dia virar homem quis narrar, não
suas proezas mas as da chuva do rio do mar da prata em reflexo no mundo: não
tendo ninguém. Era a fera em espera na selva. Era um selvagem indomado sem afeto
sem amizade sem o conhecer, qual gato perdido no mato bravo, bravo; ele manso
apesar, a crescer em buscar alimento e vida com esforço próprio. Não tinha mãe
menos ainda pai e parentes, parentes podem enxeridar? Não. Sim. A terra parira
para pari-la, o todo e todos em parentesco – a erva o verme, a verve. O tino o
destino o instinto a intuir por timão; o acerto e erro do acerto e a caminhada;
e nada e tudo. Nada em consciência, tudo em brincadeira, na
sem-respomsabilidade. Aí se pegou a virar homem homem menino a adolescer.
III – homem, adolescente
Agora? agora adolesce, adolesce sem mal;
mas que é mal! O ser em ebulição de adolescência, a ser contestado; não havendo
contestação em paradas a pratear relampejos do sol quando sol a vencer a bruma.
Onde homem vê as águas as águas que o veem, a criar sozinho no mundo um mundo e
o mundo é grande é o mar ali, lá a mata selvagem ameaçante.
Era a ameaça o
perigo a caça a cassar seus direitos à liberdade; porém onde a liberdade no
absoluto! que é absoluto em se tratando do homem e da liberdade? A chuva, o
vento desde a brisa ao tufão, o miado dirigido a si, o monstro marinho em água
doce; ou somente a loucura a descrer da liberdade. Contudo tudo a empecilhar um
homem na fase jovem dos problemas insolúveis. Mas quê teria solução? A fome a
voltar sempre sempre, sempre insatisfeita; o medo impreciso a desafiar demais
coragens; o futuro! oh se tudo nele é a interrogação e reticências em não
acabar. Não obstante a viver seu viver, tranquilo de sono intranquilo, intranquilidade
no viver desperto; a vigília constante em vigia. Até que penetrou naquele campo
virgem a necessidade sexual.
Era o sexo. As
experiências são intransferíveis e semelhantes, disso não sabendo; sabendo a
ave e todos animais em volta no acasalamento, a conhecer em sobejo anseios e
perpetuações. Aí penetrou os rasos dos profundos, a água o engolindo ansiada;
estaria cruzando-se em estranho conluio? nadou se refrescou saiu do mar,
amolentado, e descansou, sorrindo. Mas as necessidades não se vencem nem se
vence; voltaram tornando-se ferozes, anos de ferocidade e cobrança em cobrança;
igual a fome. Homem se espreguiçou virou-se às distrações puras; que seria
pureza! depois cedeu; carinhou-se se alisou e por fim, em um não há fim:
masturbou-se para a água; a imensidão engoliu milhões de minúsculas e invisíveis
criaturinhas a cair na tona. Onde peixes miúdos se alimentaram e também de
insetos a nadar. Ah isso não era solução; é solidão.
Era um só
homem. Em meio ao mundo tão grande, livrou-se dos dramas jovens a envelhecer
dramas: pegou-se num de-repente de anos, poucos, e viu-se adulto na comparação
de ocasionais visitas à solidão. Não conversando com estranhos apenas com a
solidão amiga de sempre. Foi nisso o se questionar – para que ser homem!
IV – homem se pensa homem; homem sem
fim
Agora? agora homem
é homem, não mais menino, se bem bem ou mal a criancice perdure enquanto
perdura a vida; mas não é mais. Nem adolesce, fenece; antes se fixa no se
pensar homem, sem contudo ser do tipo macho-pra-valer e sequer possuindo
referencial a tanto. A poesia, fosse ao menos um poetastro, ela se findou com
as fases líricas ou do conhecimento do conhecimento. Embora, também não
filosofa as coisas, como poderia ocorrer a um senhor madurão, nunca chegou a
amadurecer... Está diante das águas.
Era o pratear.
Longe não tão, perto a mata; o som da selva, a conversa arisca das aves, a
bruta dos brutos existentes ou apenas imaginados. Entretanto só vê o mar, o mar
cada vez menos oceano e cada vez mais lago doce a refletir o sol e sua imagem.
Era a
fotografia. Vê um velho ainda novo, moreno do sol, meão em tamanho, de barba
rala esticada e eriçada a pratear igual seu mar em rio empoçado, onde peixes
prateiam imitando a extensão líquida, o pratear vem à tona a remexer e a sumir
em águas nada revoltas. Sorri.
Era a tristeza.
Sorri sem graça, sem graça sua vida. Sequer pensa lembrando a meninice a
juventude; não vê a riqueza natural em volta. Vive só está só.
Era o
solitário. Era... Sua condição não permitindo narrar; narrar a quem, narrar pra
quê? como narrar se nunca falou!? Tão só sabendo ouvir sentir ver. Então
obedeceu à sugestão prateada. Abrindo em vertigem um caminho. Sem volta.
Marília maio
2007
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