terça-feira, 20 de agosto de 2019

Vinda Vida e Morte de um Anjo


Vinda Vida e Morte de um Anjo

- Nunca alguém curioso aqui na periferia poderá saber e a rigor entender como pode suportar um ser este orbe tão sofrido; mais nesse menos saber como um anjo. Contudo mesmo assim o anjo apareceu.
Nessa hora, hora do galo cantar o fim da madrugada e o início da claridade, nessa gritou seu gritinho sem força bastante um menino; havendo sim muita dúvida se menino-homem se menina-mulher, os caboblos ali à espera amedrontados com os sons vindos do quarto pobre – grito ainda mais forte da jovem Beatriz que dava à luz um anjo, a espantar assim a quase plateia de matutos no aguardo, vergonhosos demais para indagar à impaciente parteira se tudo certo e o que certo, incertos; enfim o grito do menino revelou vida primeiro e depois, mui depois aos apressados, o sexo, masculino, mais um garoto a mentir estatística ao mundo.
Antes que a tinta se derrame espichando letra e saber (ou apenas supor) – antes disso é preciso pôr pingos nos ii dos vocábulos usuais, quiçá abusivos, com que se pretende apresentar a verdade das coisas e dos homens. Nascimento dispensa maior comentário porque todos entendem; o que se confunde é vida. Para o homem comum toda jornada terrena, embora só existência, é compreendido como vida. Ora, vida é algo infinitamente maior; a vida engloba muitíssimas existências do mesmo ser desde sua criação, esta um dado não absoluto na forma e na contagem para um homem no planeta. De maneira que para si o nascimento é tão só o instante do grito, ao Anjo fora um gritinho sem força quase. Entretanto, qual o canto do galo a acordar o dia, é anúncio somente desse dia, que será dia até findar em a noite, o galo já no poleiro. Antes outras jornadas começaram-acabaram como lances da semana passada, a se supor a repetição amanhã.
O fato essencial é haver aparecido o Anjo, uma criança vermelhinha, seja de tanto esforço no chorar-gritar seja a prometer ser branco ou baio claro nesse escuro que é a ignorância dos homens. Surgiu, a mãe de primeira viagem a berrar e por fim se calou feliz quem sabe ou vencida no esforço de expulsar de si o filhote, dando lugar ao que a gente da rua imagina a felicidade: um misto de dever cumprido e alegria, esta a excluir de vez a dor e o medo no esforço, sem contar a expectativa dela nos meses anteriores ao parto, um sofrimento que o macho da espécie desconhe quase totalmente e portanto de melhor entendimento da mulher; aqui admitindo que sofrer e se alegrar seja vivência tão só de quem se alegre ou sofra e não de quem por perto como torcida ou na indiferença.
Nesta altura é necessário parar a fim de analisar um pouco a palavra. Ela veste a ideia. Mas nem sempre ou quase nunca fá-lo no absoluto, se não apenas como tentativa de apresentar uma verdade. Na maior parte das vezes ela deixa a desejar, não passando de aparência; ou sendo interpretação leitora. Isto se agrava caso seja uma tradução de texto: a tradução não poderá transmitir a inteireza do pensamento do autor. Na conversa entre as pessoas o negócio também parece próximo dessa afirmativa. Por isso o homem comum repete e repete o que dissera antes: um ouvinte não poderá dar versão completa e inteira, se não a ideal e teórica do que escutou doutrem; permanecerá a sua própria verdade, em suma suas palavras.
Isto posto é possível entender um pouco a algaravia dos sons sufocados no quarto onde apareceu ao mundo o Anjo, os seus gritinhos entremeio berros maternos e as admoestações da parteira dona Chiquinha; a entender um pouco os comentários na plateia, aqui forçando um bocado o vocábulo plateia.
Se as palavras são insatisfatórias para apresentar a ideia, podendo mesmo não mostrá-la e inclusive escondê-la, fica estabelecida a confusão; a confusão neste caso foi longe. Porque os fatos contrariaram a teoria, esta sempre bem posta a ser agradável se ver. Primeiro que dona Chiquinha, apesar ser mulher e se teoriza como sendo todas fêmeas da espécie belas, a parteira limpa e cuidadosa no seu mister entretanto era feia, medonha nas suas balofices. Com um pior nisso tudo à plateia masculina em maioria ali presente no aguardo nessa noite sofrida, bem mais sofrida à que seria mãe; a idosa, não a noite a noite também, ela era quase um túmulo, não tagarelava como tantas outras velhas, longe disso pois se continha e se falasse falando baixo demais à parturiente a dar-lhe trabalho incomum porta adentro fechada, fechadas a jovem e a velha, esta não dizendo coisa alguma não sendo a pedir panos e águas às outras servidoras ali de plantão, a genitora de Beatriz a mais ansiosa pelo neto que viria (o Anjo, sem que a vó soubesse). Assim foi a ansiedade a agonia dos que esperavam nessa espera e depois ouviam por alto sem entender ou desentender nessa acanhada maternidade caipira encravada na periferia pobre de Santa Isabel, município também pobre mesmo na área rica onde o comercinho. Alguns na plateia conversando abobrinhas a passar o tempo ou fumando desesperados sua expectativa, caso do pai do Anjo que viria e chegou dizia o choro. A palha o fumo ardido a fumaça o fedor e o não parar desse ainda novo velho no trabalho da enxada. Aqui sem se alargar na explicação, o trabalho roceiro na condição de boia-fria vigente na época: os homens e as mulheres iam ganhar o pão no campo desaparecendo, a cidade sem recursos sem vagas aos habitantes meio analfabetos. Entrava saía, mais escutando que ‘vendo’ a patroa lá dentro a parir e a proibição da parteira.
Naturalmente que nem toda vila presente nesse acontecimento, se não como torcida distante, havia sim a plateiazinha. Assim numa de suas idas fora de casa a enganar a ansiedade ou a ocupar o tempo, matá-lo afirma o povo, numa o pai de segunda viagem escutou a viola do Nego, vizinho antigo, dessa gente que nada tendo que fazer fazem algo como premir cordas dum instrumento. A viola, realmente violão cansado e com fios grossos meio soltos e por isso não acertando na afinação, a dar um som fanho, bom ao desacerto da harmonia; o que nem um pouco grave às orelhas surdas ou distorcidas ouvintes da vizinhança. Ou então a observar, ou que vira quase em relance, um veículo ‘empurrável’ também de vizinho, velhos carro e vizinho, um auto ótimo em estrago. Porém urgia sua presença paterna a sofrer a ansiedade da chegada do Anjo; tornou.

- O surgimento do Anjo como que ‘desenfeara’ a periferia pobre longe e mui distante de recursos, isto para afirmar a teoria de que Santa Isabel sendo o fino em atendimento aos munícipes, os munícipes mesmo os menos pobres a se queixar do esbanjo dos políticos e dos abusos na cobrança de taxas, haja vista a famigerada ipeteú; o ipeteú que metade do povo menos um mudara o sexo dessa taxa, decerto a odiar o imposto a cobrança o prazo; e a multa pelo decurso de prazo. Mesmo estes munícipes, teoricamente também ricos ditos pela periferia pobre ou apenas sofrida; mesmo eles a criticar severamente a situação, não a situação governante pois óbvio tudo por cima das costas largas e quentes do prefeito; a situação financeira do povo pretensamente trabalhador e honesto. No entanto grave de fato a existência da periferia pobre (miserável nos termos absolutos ou absurdos). Isto em vista haver a de entremeio: o centro num extremo a periferia afavelada noutro e no meio os bairros também pobres não miseráveis a rodear o centro; a periferia rica com algum ingresso como seus bens e aparências de bens – garagem carro casa pavimentação água encanada dejetos tratados e antenas de televisão de engastalhar papagaios ditos pipas dos moleques na semana de ventania, servindo igualmente para assistir chuviscados os shows e as novelas; isto válido um pouco mais precariamente aos submunícipes da periferia pobretona.
Enfim o bairro descalço amanheceu menos feio; ou por outra, se arranhou a rotina amante dos meses e anos adversa à mudança. Foi mudança e tanto no lugar, a iniciar-se com os berrinhos do nenê de Beatriz, a Beatriz da Rita a Rita mulher do sogro do João, João aquele matuto bom de enxada que madrugava na espera do caminhão de levar e trazer os boias-frias.
As visitas... tem isso de comadre visitar comadre, ver o anjo que chegara, lógico já saberem que a cegonha só trata da cegonhinha e não traz gentinha apesar de nessa vez ser um anjo, mais categoricamente o Anjo. Ele se esperneava como possível dentro das faixas, as comadres com aval da parteira e orientadora dona Chiquinha houveram por bem palpitar pelo entubamento da criança; mesmo porque costume da época na gente chã; assim como deram as coordenadas dentro do hábito de todos seres serem técnicos de futebol ou médicos, orientaram também Beatriz para não lavar a cabeça por mais coçasse e cheirasse convenientemente no inconveniente, não se sabe por quantos meses, a comer canja de galinha gorda, galinha caipira porque um migrante da roça nunca admitiria aquelas águas a sair de frango de granja; enfim uma quarentena de se não pôr defeito. Um sofrimento ao Anjo ali enrolado nos panos no calorão que somente os trópicos sabem administrar ao populacho. Opinaram amamentação. Mamãe ofertara ofertava os seios frágeis aos lábios daquilo que se convencionou ser um Anjo – aqueles olhinhos mansos ou inexpressivos e uma boca se não esfaimada escancarada pelos fortes pulmõezinhos, lá isto tendo de pujante o guri do sexo masculino. Dia e noite distraiu a vila com seu choro.
Não obstante o trato materno em segunda via da orientação da comadrice – o menino não indo para frente. A rigor não passava dum esqueletinho com pele grudada olhos fundos tez macilenta, enfim impressionante aos vizinhos, uns pensando em ‘mal de simioto’ outros a afirmar falta de benzimentos por claramente andar o garotinho com quebranto ou coisa assim. Mamãe tendo inclusive medo até lidar com o corpinho, o umbigo não caía, a moleira não fechava, o corpo não empinava amolentado; tomar banho na bacia de folha de flandres! um horror. As moscas atrevidas... Algumas vizinhas ditavam dias ao Anjo retornar aos céus. Uma delas mais atrevida chegou a textuar na cara da mãe da criança: “Beatriz – aqui nem merecendo o tratamento ‘dona’, não passava de menina ‘imberbe’ já com menino no colo – Bia, você não vai criar a cria!” Não vinga. Além de parecer perecer parecia desde o nascimento um filhote de macaco, pior: sem pelo. Magro fraco feio, feio? horrendo, não indireitava. Cada vez que a mãe o levava fora era um sinalizar de cabeça pra lá pra cá da gente da rua como negação; isto quando não se ‘veredictava’ direto e sem qualquer diplomacia, semelhando a indignação da vizinha atrevida. A pobre mãezinha tornava ao lar em lágrimas. Na volta de João à noite ela despejando seu sofrer pelo estado da cria, virando seu sofrer o sofrer de ambos pais. Assim o homem teria noutra manhã mais lances tristes a narrar aos colegas de enxada. Mil vezes pensou que ao retorno à casa encontrasse seu filho morto, a esposa morta no desespero; o desespero não se cala com a rotina. Essa a rotina.
Receitaram de tudo as comadre. Por fim uma indicou leite de cabra. Adquiriram uma, um trabalho a mais para a jovem mãe, agora precisava levar pastar a cabrita tirar o leite etc.. Não obstante surtiu efeito porque o Anjo renasceu vicejou, não parando de chorar e gritar visto ser isso inerente aos bebês; todavia logo falava (os gritos) com mais força e meses depois engatinhando a esfolar bem a barriga; por último andou; tudinho atrasadamente porque não acompanhara os passos formais das outras crianças. Contudo já não se pode agourar o túmulo a esgotar os olhos maternos molhados. Abstraindo-se o caminho agora à normalidade no crescimento, continuou feio, era uma criança feia, no mundo em que toda criança é tida bela. Mesmo nas suas maneiras era desajeitado e quando conseguiu falar não dizia coisa com coisa. Certo, todos falam errado. O Anjo entretanto embrulhava tudo que expressava. Chegaram, assustando a mãe, a dizer que o Anjo tinha língua presa; e arriscaram dizer que nunca chegaria a nada, seria necessariamente em adulto um cidadão de segunda classe: não casaria não se tornaria empresário (à periferia um fazendeiro bem-sucedido). O tempo parece ter o péssimo costume de desdizer ditos e com a mesma ênfase concordar com os vaticínios...
Foi necessário aguardar o tempo.

- Um dia o Anjo e toda sua família e toda sua vizinhança e seus parentes e seus conhecidos e seus desconhecidos, desconhecidos entre si a rigor todos desconhecidos conhecidos parentes e a própria familinha dele – todos se mudaram da periferia pobre sofrida.
Neste ponto caberia umas noções para destrinchar. De fato o Anjo não passou como comum ao homem comum pela chateação da mudança, aquele negócio de arrastar móveis quebrar móveis partir o espelho carregar as infindáveis latinhas de plantas com plantas e flores – Bia igual outras mulheres pobres amando vegetais curativos poejo losna hortelã etc.; a irritar os machos carregadores do pesado e do leve, o leve! o levezinho sobrando às mulheres e às crianças ali ajudando se não com peso com a língua em desencontro no encontro social, visto a mudança pobre ser também sempre ponto de encontro ou pra ajudar ou para ver e comentar depois sobre os trecos da vizinha mudando e no caso a comadre Bia e o compadre João e a ‘rataiada’ menina, o Anjo um macaco feio não deve vingar mas a gente não iria falar isso à comadre, iria? Bem. Não passou pela azucrinação própria da exigência duma mudança com irritação falação ralhação dos adultos à corja das crianças atrapalhando – tendo aqui outros senões: tem família pobre que muda numa semana e noutra já se desloca a outra casa ou bairro ou cidade ou para a mesma vizinhança, por causa da vizinhança insuportável ou pela briga de meninos e por isso insultos entre comadres a criar situação insustentável.
Não. O Anjo e nenhum entre os seus a se mudar, nasceu cresceu virou gente pequena na gente grande, quer dizer adulta; isto sem sair da residência onde nasceu. Contudo o bairro mudou. Não houve o absurdo duma transferência comum da vila inteira com móveis a carregar no caminhão nem o transporte das latinhas. Não. A cidade cresceu se expandiu, urbanizou a miséria do bairro a torná-la pobreza tolerável; abriu ruas onde meros trilhos e carreadores de terras de poeiras de lamas de buracos e de reclamações; ordenou passeios públicos calçou vias públicas, já pavimentando de vez com asfalto e nisso o povo gritando contra os gastos no que se falava mal do governo, o que bom garantir e ótimo a brasileiro ser, a proferir “a prefeitura ladrona”. Fez mais a ‘ladrona’: antes pôs postes de iluminação e fios, claro delegando a outrem o trabalho terceirizando à empresa privada (aqui é a boca do povo no trombone, de andarem em corrupção através concorrência de cartas marcadas, oh deixa pra lá:) o fato é a eletrificação contra a lamparina e mais ainda assentamento de esgoto, a canalização e o tratamento, enfim serviço de gente, quer dizer apresentando serviço digno, digno duma ladrona na opinião dos inconformados. Enfim mudou a periferia na periferia tratável quiçá educada, aliás também localizou ali nas imediações escolas. Em suma mudou a periferia pra virar meio urbano. Não muito mais tarde, visto os poderes públicos não contarem dias e meses porém anos, antes do ano de eleição; não muito depois estendera linhas de coletivos, os quais apenas circulavam então no centro e na periferia remediada por volta do centro, agora os ônibus inicialmente lerdeavam nas ruas ainda descalças a empoeirar as peças balançando no varal do terreno de Beatriz; então a mãe do Anjo lavava roupa pra fora para ajudar João pagar as contas, ah aquela horrível ipeteú... Depois foi a festa – às crianças e aos curiosos – a festa da pavimentação, máquinas motoniveladoras etc.; o cheiro do combustível o barulho ensurdecedor o movimento. E atrás disso, a frente com ruas asfaltadas a atrapalhar a ajudar na brincadeira dos meninos e a provocar as mães a enrouquecer (não enlouquecer decerto). Aqui entra o Anjo.
O Anjo não passa nesse início dum menino magro tímido feio nos seus quase andrajos; é preciso considerar que o pobre de vila praticamente usa a mesma indumentária todos dias e não se persegue a imposição do banho diário como acontece na pequena e mais na perfumada média burguesia; Anjo é um homem do povo. Menino, se bem se alembre. Brinca, corre, pior ou melhor que isso: briga foge doutros da sua laia na rua. Enfim é gente. Brinca, briga, não enfrenta mas briga, não inventou o palavrão porém sabe como um doutor proferir mais de uma dúzia de ofensas aos outros pequenos. Volta e meia precisa desembestar chegar entrar afatigado em casa, às barras da saia da mãe. A propósito do assunto, ‘mãe’ e ‘não’ sendo no milênio os vocábulos mais gritados pelos moleques.
Bia, por causa do filho, reclamando muito com o marido; as vizinhas garantiam de pés juntos que não era esposo, o vigário jurara que sim, até houve por isso festa simples na roça, antes de virem pra cidade ou no arremedo dela que foi a periferia miserável; antes da chegada do Anjo; o Anjo aportou e se aboletou pelos tempos e tempos já na casa do casal; os manos nascidos anteriormente não vingando; os posteriormente gerados também não; fora Fran sua mana que também aguentou viva.
Agora o menino grande, apesar da baixa estatura, não lembra sequer o trato que merecera quando nenê. Mamãe, descadaverizado o garoto, pois fora um esqueletinho com peles frágeis grudadas, mamãe já não o alisa não o carinha e sobretudo não o chama “meu anjinho”, um presente de Deus à Bia chorar no começo pela fragilidade e sempre na expectativa perder o até aí único filho a se manter vivo em meio a tantos caixões de anjinhos como o dito popular dizia, o cortejo a sair para o cemitério. Por alguns anos ainda a genitora dessa maneira o tratou. O que compreensível ao crer do mundo, segundo o qual um menino é um anjo puro sem mácula. Na fase seguinte se esquece o apelido e o que gerou o apelido, a pureza vai embora vêm os defeitos, aflora a ruindade (será isto verdadeiro!) A família esquece tudo, apanha o bordão, aplica bofetadas e fere muito mais com a língua a destratar o errado. Enquanto isso os meninos se insultam, se ajuntam se ajudam a pular muro roubar mamão, mamãe põe a mão na cabeça. Bia por isso chorava a João. As comadres igualmente se contatavam se contavam as coisas e daí entrando os malfeitos bem feitos dos moleques, Anjo entre ‘anjos’.
Todavia Anjo é um menino normal. Ih, normal será o quê?

- Agora Jô anda enturmado... Jô? a meninada ao gosto do povo encurta mesmo o curto nome e Anjo é apenas Jo, assim sem o chapéu do circunflexo que o popular não respeita realmente. Os moleques, aí por uns vinte, esparramados na calçadinha esburacada da casa dum entre eles; os adultos a trabalhar ou a se ocupar por aí enquanto eles conversam suas coisas. Tem de todos tamanhos, os que deveriam estar na escola com idade de terceira de quarta séries; uns sentados na sarjeta, têm dois inclusive no hábito indígena sentados nos calcanhares de cócoras; e têm os de pé e muitos encostados, por serem brasileiros e brasileiro se goza a dizer que nasce cansado; enfim se apoiam porém a mobilidade destrata o movimento regular e se ri da ordem. Não param, inquietos. Não parar de parar, de falar. Alguém incomodado na vizinhança daquela assembleia desocupada a afirmar o grupo como “a pivetada”, o que um dito saboroso. Falam falam, falam suas coisas na linguagem de gíria, a comentar a se entreter com que entreter: o papagaio que a televisão manda falar “pipa”, o jogo de bolinhas de vidro que a região chama “búrica” e os meninos encurtam “búrca” ou o jogo de cartas usadas marcadas ensebadas pela “macacada” (outro insulto que se toma no sentido jocoso) ou ainda no tempo das figurinhas as figurinhas, antes elas vinham enroladas a balas doces agora se arruma nas bancas de jornais e revistas no centro urbano, onde compram (com que dinheiro? e aqui difícil fazer levantamento social de ingressos, sabendo a dificuldade e o subganho das famílias ou até pela desagregação). Em resumo os jovens estão juntos numa reunião informal, sem data sem horário sem regulamento, no improviso do uso (abuso?) Se contam se inventam se gozam, vez por outra um exagero sem pretensão desencarrilha o descaminho num bate-boca e até chegam a vias de fato. Entretanto o apego a amizade a semelhança são grandes, enormes, e assim permanecem ou assim estão faz anos; crescendo juntos trocando ideias juntos. Ninguém pode com categoria na turba se alardear chefe, entretanto sempre há liderança; ou por ser o mais ‘gritão’, pois que berram seus segredos, ou o mais forte ou mais alto ou mais corajoso ou... ora, a discussão ao nascer uma liderança custaria obra filosófica. Uma coisa todos garantiriam, caso dessem opinião: nunca Anjo seria o chefe, pois é mais para como na sociedade se diz “maria vai com as outras”. Não dá ele quase palpite e se der não será levado em conta. Figuraria o garoto uma imagem absurda como um rio sem onda; mais nesse menos: uma lagoa estagnada sem qualquer manifestação na sua tona, não sendo uma que outra bolha podre a estourar, malcheirosa. Não soma. Não divide também. Quem sabe não deduza no todo, a multiplicar o nada do que observa entre os seus colegas.
Contudo não é assim no lar.
Em casa vai mais ou menos empurrado à escola, vigiado de perto por Beatriz; João nisso é quase uma gelatina e não sabe opinar. De sua vez, na infância, largara a aula da professorinha na fazenda, enquanto que Bia não fora sumidade mas aluna esperta e séria; tenta ela passar isso ao filho e já fala chamando-lhe a atenção próximo da irmã, subentendendo dar as coordenadas também à filha. Com Anjo a grande e talvez primeira dificuldade, visto ser arredio; embora, não responde; por enquanto, o futuro oferecerá o respondão; isto e mais problemas... Por fim vai para a escola volta, não prepara as coisas ao amanhã, ontem não fez tarefa; e quanto a estudar... o brasileiro comum só o faz na última hora, a corda no pescoço? e Anjo nem de corda nem além da hora... Nessa luta de a família empurrá-lo, ele não cedendo e se não der uma resposta ferina à genitora nada fala e com certeza não faz, não fará. Isto é o retrato fiel de toda sua vida, ficando numa quase semiescolaridade. Decerto põe vez que outra este drama aos seus nas rodas de encontro na esquina, onde tudo serve de pretexto para conversas informais; sobre todos assuntos, menos livros cadernos lápis borrachas, borracha ah sim: passam todos membros a borracha para apagar essas coisas ruins da memória...
Os anos irão insistir nesta temática ou falta de tema; os encontros (ou estando o menino no lar andará desligado da família) esses encontros são para entretenimento.
Em suma, melhor uma atiradeira na brincadeira a ele e para os seus amigos, que atirar-se no rumo do conhecimento formal quiçá no do saber.
Essa tendência Anjo carregará desde agora como garoto descompromissado até seu final compromisso...
A assembleia está formada, sem convocação geral e legal e sem horário para acabar. Aliás aos garotos de rua a hora não existe e também nunca a hora tem sessenta minutos, a hora ora se prolonga ora se interrompe sob qualquer pretexto e até sem pretexto que dirá causa. Nem obedece parâmetros formais da geografia e do espaço, podendo ocorrer (e ocorre) estando aberta a sessão e a discussão sobre qualquer ponto, pode dar-se em qualquer lugar; o mais frequente é na esquina da segunda rua lá em cima, a primeira é a da casa de João, rua cujo nome oficial se puderem ler está na placa da prefeitura, a contemplar figura representante da vaidade duma família pioneira ou dum político de influência apesar desconhecido aos de pés no chão. Tanto assim que os meninos embora prontos a auxiliar alguém à procura de rua e número nunca saberão a contento passar o certo, em não ser que o estranho diga o nome da pessoa procurada: aqui o enxame nas vozes porque todos querem, ao mesmo tempo, indicar. No geral sequer veem o passante, entretidos no seu mundo entre riso e conversa. No entanto Jo não dá sequer nisso opinião. Mesmo ao falar algo não grita, o que uma característica dele em meio ao barulhão próprio de moleques; outra característica que permeá-lo-á (inclusive quando nas relações comuns da gente) é nem beber e nem fumar; aqui pode até ser por influência da metralha na doutrinação da língua materna, o pai até dentro de casa não dá palpite nem empurra o filho a uma direção, exemplifica não fumando já havendo pitado demais parou, bebe às vezes (muito! grita baixo a consorte, aqui trocadilhando sem sorte). O beber socialmente. Ora, nisto igualmente não fere o Anjo as linhas da educação normal (que seria normal!) O futuro, ingrato talvez, tentará desdizer o dito...
Agora não. Jo está entre seus amigos, mais ouvindo que palpitando, olha na direção duma voz entorta a cara noutra direção doutra fala, palpitando sim decerto intervir. Todavia há uma vertente desagradável para quem sinta desagrado já nesse tempo pela meninada junta a matracar seus assuntos. Um vizinho a observar tal conclave ou irritado pela desconversa pelo barulho nesse conclave no improviso lamenta ou só assinala as famílias desses garotos ali a tramelar serem de viciados em drogas baratas. Começava nesse tempo o esbravejar das pessoas tidas por de bem, ou apenas amedrontadas pela existência, e mais que isso a difusão das drogas baratas; isto porque as caras e refinadas eram próprias do reduto das elites. Tão só o começo, no começo esse vizinho já temendo e garantia o perigo pelo desnorteamento social. Os meninos ali também ventilariam esse saber!? Quase não se pode (vasculhar! não:) falar sobre a matéria; sem se comprometer. Não obstante o dito cujo se dispôs a ir conversar com Beatriz sobre o perigo de o Anjo nesse meio um tanto confuso ou sujo mesmo. A mulher vizinha ficou desconcertada, lamentou a tendência do filho; talvez a pobre senhora tenha ficado com mais uma dor de cabeça além das costumeiras. Existem muralhas que os familiares não podem ou não sabem derrubar.
Posto o que foi posto até este ponto, já se pode ter um indício da água espúria que iniciava o Anjo a ingerir...

- Agora após muitos anos papai, não só ele mas mamãe e o Anjo – único a sobrar na luta ingrata contra a saída de pequenos caixões brancos com anjinhos dentro rumo ao cemitério – agora não só ele a família resolve ficar residindo ali na periferia pobre; isto porque as crises muitas vezes quiseram devolvê-los à roça; ficam morando portanto em Santa Isabel; enquanto que inchava estufava sofria ânsias Beatriz para ter outra criança, a Franciele ou Francine sabe-se lá, encurtada para Fran. Após a luz viriam outras tristes nefastas inglórias gravidezes interrompidas ou concluídas com mais caixõezinhos a encher de branco o negro da necrópole, também esta pobre pois em cidade nascente poucos são os montículos de terra e poucas são as cruzes a representar o sofrimento e o fim do sofrimento; observar aqui a suposição do povo miúdo de que o sofrimento se extingue com seus defuntos enterrados. Portanto agora que resolve João deixar de vez a roça ingrata por causa da ingratidão ou açambarcamento fazendeiro a expulsar a enxada, a enxada se fixa nos arredores do núcleo urbano e assim Anjo e a mana já vêm ao mundo no mundo pobre da periferia, na mesmíssima residência, meramente melhorada no passar do tempo e dessa maneira pelos tempos e tempos. Bem, o presuntivo chefe de família (isto visto posto a mãe não mandar só de língua, um mando que seria teórico, por anos foi concreto...) então o chefe opta na manutenção da casa primeiro pelo trabalho na enxada, ainda como boia-fria, entretanto depois resolve se urbarnizar de uma vez por todas pegando bicos pra lá pra cá no bairro. Nisso entenda-se que um roceiro, e acontece amiúde, ele chega na cidade sem qualquer preparo, quase sem orientação dos iguais, quase analfabeto e não quase porque de fato sem profissão urbana. Daí enfrentar cimento areia cal pá e a pazinha de pedreiro. Se transforma do dia para noite em pedreiro e assim se apresentando – arrebentando a concorrência, inclusive a pegar serviço que seria feito por profissional consagrado e dessa forma estourando a estatística nos números de empregados no subemprego (aqui entrando a falta de registro em carteira e as garantias); com um prejuízo enorme ao salário teórico dum profissional qualificado quiçá sindicalizado, o novato trabalha quase de graça a troco do desaperto do laço no pescoço. Contudo os de João trabalham juntam melhoram pagam impostos, ah aquela terrível ipeteú da ladrona! e comem: mantêm a família no alimento no remédio etc.. Exatinho o caso de João. O interessante na coisa é ter esse pseudoprofissional do tijolo e da massa como ajudante de pedreiro Beatriz. Ainda gordona, ela sempre magra e até esquelética então gordona a esperar a menina, a mulherinha de João a puxar enxada misturar a brita o cimento a areia grossa a água, a água salgada também a escorrer-lhe das ventas pelo rosto e pelos cabelos desde suas tranças. Certas mulheres do povo sequer alguém vendo-lhes uma vez na existência os fios soltos: ou elas a ter um lenço amarrado amarrando o cabelo; ou compondo com tranças enrolos presos por fivela ou barbante, quando não segura a cabeleira numa borrachinha de prender dinheiro sem dinheiro. Desse jeito a rua bastarda posteriormente com nome ilustre de ilustre político desconhecido do popular, assim a vizinhança enxergando e ‘conhecendo’ (ninguém conhece de fato ninguém nem mesmo a si mesmo) ou reconhecendo Bia.
Assim também Anjo cresce ao lado dos afazeres dos pais, vez que outra Bia o leva consigo, as mais das vezes fica 'virolando' nas imediações do lar, a carinhar Peri, sempre amou bichinhos; inclusive mamãe lamentava o hábito do filhote de estando na rua se engraçar  com bichos e trazê-los para a casa a casa virando zoológico. Lógico, para a mãe cuidar; banho tirar carrapatos dar remédio restos de comida com algum osso e tudo que exige a criação. Mais tarde sobraria aos bolsos de João pagar veterinário e um dia precisou pagar internação cirurgia e a morte com enterro de Peri. Mui apegado o menino aos animais. Não apenas ele, todos na família amorosos e depois Fran também.
Enquanto Anjo zanzando por aí despreocupado da vida, o pai a experimentar toda alternativa de ganho para viver com os seus, a manter as finanças cobrir dívidas pagar contas; Bia se põe a outros serviços como faxineira e lavar passar roupa às casas menos pobres. Cercam a propriedadezinha, um terreno exíguo e morada pouco mais que casebre. O homem do povo demais preocupado com bens e os amigos do alheio; é comum ladrões que se apossam das coisas: roupa no varal, galinha, objetos esquecidos espalhados ao sereno da noite; por isso tranca cadeado cerca, a cerca vira mais intransponível num muro de tijolos nus quando os bolsos permitem. Essa preocupação talvez seja eterna, crê-se. A par o par fortalece amizades no bairro, este que mais tarde substituirá a poeira grossa da enxurrada seca pela poeira fina do asfalto onde rolarão ônibus. As amizades crescem e se autoalimentam estranhamente nos episódios tristes, como velórios (o casal forneceu muita oportunidade, infelizmente) os velórios em sua residência e os em que foram como a dar condolências de hábito e amparo moral. Outra base às amizades deles foram os terços e novenas, os católicos de origem roceira se achegam muito nessas manifestações e o casal se prestou participando diversas vezes nos encontros e assim fortalecendo vínculo amigo. De resto ambos participaram das missas domingueiras na igrejinha entremeio às periferias rica e pobre; fora isso a família a viver o ramerrão das relações curtas, estas às vezes consistentes. De maneira que Anjo a crescer sob tais parâmetros e a ficar bem conhecido; os pobres se conhecem muito mais talvez que os seres de grandes posses. Não se podendo na coisa inferir que não haja amigo entre os ricos por causa da riqueza e pelo tesouro que desfrutam, por haver ambição temor inveja cobiça e consequente falta de confiança no semelhante, enfim que isso seja muralha à amizade; porque entre pobres é tal qual a preocupação pelos bens, mudando o tamanho do tesouro a ser defendido ou guardado – uma galinha prevista à macarronada domingueira afanada em noite escura; ou a fazenda a empresa o metal precioso e aqui entra o banco. A diferença estaria no tamanho do bem, se bem.
João trabalha no que aparecer: é trabalhador honesto (com os descontos admitidos ao ser humano) é digno é eficaz é persistente; entretanto se mantém segundo a oferta (vocábulo inadequado nas fases de crise social). Graças a isso sua casa não cai, ela subsiste enquanto instituição familiar; o prédio sim quase despenca sendo tudo feito em madeira, porém se foi modificando nos consertos quase a vesti-la toda de alvenaria, melhorando por anos e anos, sempre como imóvel inacabado, acabando-se nos fins de semana, teoricamente ao descanso semelhante o descanso às férias ao pobre somente teóricas. É assim na periferia pobre quiçá miserável. Enfim a família se assenta. Também as famílias dos vizinhos, estes mil vezes novos sendo nisto uma que outra casa a perdurar; faz parte da mobilidade social no tempo e no espaço.
Ao lado disso Anjo se torna um moleque crescido, quase um pivete consciente, se se exigir alguma tomada de posição e até pensamento profundo num meninão de rua. Dito dessa maneira pareceria alguém largado e criminoso. Não: é no sentido da liberdade, abusada ou sem peias no caso dum ser com pai a exemplificar mãe a exigir-cobrar e parentes curiosos; e só a complementar a relação os vizinhos de olhos espertos quando não ferinos e metediços; daquele tipo comum da gente que atira o verde na gente a fim de receber da gente o maduro, ou apodrecendo ou já podre... Ah pobres criaturas os entes de uma sociedade humana!
Anjo é agora um rapaz, rapazinho a circular pelo bairro, então urbanizado não para que os elementos critiquem os desmandos e as faltas dos poderes públicos. É preciso afiançar aqui que o sujeito não inventou os dramas que daí em diante a coletividade iria experimentar; e sofrer. Não. Jo apenas um exemplo, não exemplar, um da podridão do tempo em que, tendo nascido e crescido, sobrevive aos lances normais da época. Sim, mas normalidade seria o quê?

- Isto seria normal? Assim esta pena atrevida abusada descaracterizada, mesmo porque quem a caracterizar a contento um pedaço de matéria plástica sem forma, pior: transparente, torná-lo modelo a fim de palpitar gente, Anjo em que pesem as perfeições dos anjos gente e portanto imperfeita; assim esta pena se põe na tarefa ingrata de descrever o rapaz, rapaz imberbe apesar da idade avançada; os jovens se preocupam grandemente andarem velhos se supõem velhos e caso superem este detalhe pois só pormenor dentro da normalidade, então rir-se-ão da bobagem que imaginavam, aí sim nas condições de sofrer a velhice. Rir-se-ão. Ora, o que deseja uma ponta esférica escorregadia e quase sempre no estado de falta ou falha de tinta dizer? Que tentará descrever fisicamente (embora com escorregos de juízo de valor) sim traçar fisicamente o Anjo como o Anjo aparece na rua sem nome da periferia manhosamente se afirmando não mais miserável, apenas em virtude exibir uma placa vista com título de figurão nunca visto e ter a circular circulando com meia dúzia de pessoas do bairro indo ao trabalho no centro comercial. Trata-se dum jovem imberbe como se garantiu, isto por semelhança aos ancestrais nativos terem barba rala raro diferente e assim tardando os fios (ou espinhos?) a aparecerem no Anjo; nem isso ocorrendo já a passar dos vinte anos, e se considerar decerto um idoso diante da molecada barulhenta. Tem a cara limpa, a alma limpa... não, aqui a discutir. Porém a cara é sim um pouco lambida, nisto o limpo! Bem, parece uma raposa, tem estatura meã entretanto a magreza promete um crescer ainda e quiçá a torná-lo alto, apesar velho, ‘velho’ melhor dizer. Fala, quando fala, fala em falsete. Neste ponto sem qualquer pensamento mau de bom desvio moral; entre os seus, quer dizer no meio dos seus iguais, garante e aparenta felizmente pra si ser macho. Sem ser machão, machão nos dias de hoje é até negativo; parece que a juventude atual não tem essa preocupação, ele não parece ter. O falsete carrega consigo desde a época de mudança de voz, estado que perdura agora como adulto (Anjo se pensa adulto). Não obstante, aceito no seu grupelho. O timbre fere um que outro ouvido. Novo dado servindo a caracterizar o moço-‘velho’ é algo curioso, que é simular surdez ou carregar consigo meia surdez; meia aqui a revelar a situação interessante de escutar o que lhe convém prontamente e ‘desescutar’ o que outrem diga que possa feri-lo... Assim é corriqueiro presenciar com as orelhas ele responder “oi!” a fim de que a pessoa falante repita sua repetição porque o moço já ouvindo. Diz “oi” um pouco surdo ou no absurdo absorto. Naturalmente diverso quando ele prestando atenção com os ouvidos nos decibéis admitidos... porque certamente bem mais ligado ou interessado no que se fala à boca pequena; aí escutará até cicios dos segredos abafados escondidos ao gentio, aos não-iniciados no seu mundo, um mundo mui próximo do mundo do crime. Ou será isto dito um escorregar duma caneta antecipando fatos posteriores... Talvez aqui abuso.
O abuso vem da possibilidade da violência. Ah como o homem teme a violência. Existem várias formas de violência no viver em sociedade, uma podendo ser a omissão. Outra seria o que a gente do povo afiança ser intervenção indevida na vida do indivíduo aqui representando outrem na coletividade e daí a ferir-se por extensão a própria coletividade como um todo. A intenção já é intenção boa (ou má?). Outra forma seria mesmo a de calar-se diante dum crime, se crime, todavia nisto em virtude da desvirtude do temor. Não o estado de não se pretender ferir, é temer ferir e como consequência toda uma caixa de marimbondos voltar-se contra o ofensor, ou só ‘ofensor’. Têm as modalidades de violência da mais leve da língua solta até chegar ao consumado crime ao sangue quiçá à lei. Ora, para os fora da lei isto não conta; o chamado bandido não valoriza a própria vida, melhor dizer a existência. Iria defender e não ferir, “apagar” como afirma, uma só vida. Além do dado básico a se pensar: por que matar um sendo crime, se matar todo um exército podendo ser justo. No entanto o texto vive a fugir da violência (menos mais violenta!?) dessa possível violência do Anjo ao iniciar a vintena de existência. Ele não mostra ser violento (aqui novo abuso porque a relação familial desdiz o dito...) Parece um jovem pacífico. Contudo a paz se choca na comparação com a ideia de normalidade. Até que ponto normal, até que ponto é pacífico. Acontece que no seu dia a dia revela inclusive boa vontade e educação e boas maneiras no trato com sua gente – fora da vivência com os de sangue – e com estranhos então... não chegaria a se desmanchar em momices e pieguices nas maneiras; porém não fere e trata com respeito devido e esperado num cidadão.
Tudo inclina a rigorosamente desconhecê-lo. E quem poderia ser conhecido a fundo. Na tentativa de conhecê-lo pode ser tomada a violência duma motocicleta – a moto é a violência sonora quando não assassina da juventude neste milênio – ah, seria satisfatório? Pois Anjo sai frequente a ‘tataratar’ seu veículo. Nisto como em outras facetas da violência na poluição sonora, apenas no aspecto da sonora, então seria Anjo de capacete ou sem e de chinelos a melhor ferir a lei, um homem manso: porque não acelera demais, não deixa o escapamento ruidosamente estrondar uma rua sem nome com nome de figurão na plaqueta de esquina; e infere-se também não ferindo outras vias públicas nesse particular. Agora, se se exigir paz a paz do silêncio com o escapar constante e constante as ferramentas a cair soltas num gritar elas sua voz no chão frio da frente da casa dos pais dele e o vozerio desencontrado dos meninos a gritar mais eles ainda que suas coisas, seja a ajudá-lo lavar untar consertar limpar brilhar a deusa moto; então é o descalábrio. Considerar ainda seus respectivos celulares abertos nas músicas do funk febricitando no modismo de último volume: é sim o descalábrio. No entanto ao meio de tudo isso Anjo quase não é ouvido: fala baixo, que seja na forma grosseira e na gíria do bárbaro mas baixo, manso até, apesar de os companheiros escutá-lo bem; os diálogos mostram entender-se adequadamente. Não sai na disparada, não empina sua moto como fora cavalo ensinado no tempo em que havendo cavalo campo matuto e matuto vaidoso de suas artes circenses ou que fosse no então para mostrar habilidade e conquistar a mais bela entre belas mulheres a assistir a exibição. Porque fazendo isso com motos a empinar sobre sua traseira a roda dianteira o corpo do veículo e o louco artista – anda igual um jovem exibicionista em plena rua cheia de crianças e mães ansiosas preocupadas, para mostrar como é hábil artista, de circo mambembe diga-se. Entretanto não age dessa forma Anjo. Que liga, funciona, acelera normal, anda, tatarata respeitoso mesmo e daí some no fim da rua, rumo ao desconhecido... Não é exibicionista, não é também um dândi no se trajar; um rapaz comum, normal?
Ora, o hábito faz o monge! Não. Aqui seria necessário descambar na descrição da vestimenta na atualidade, a confundir o que seria talvez a normalidade; para chegar, analisando os jovens e sua indumentária, a qual colore a sociedade dos homens; para chegar enfim ao ponto de afirmar que Anjo se veste como todo moço hoje; decerto amanhã assim aos que perdurarem vivos... Ele traja o comum. A roupa é o que tem de ideal para os seres se esconder dos outros nos outros e piormente esconder-se de si mesmos. Caberia dizer ainda que se apresenta, não fugindo das características da idade, em cores berrantes e perfumadas; isto de perfume mera suposição.
Porém os atos.
Aqui a dificuldade essencial de um texto e de uma caneta que se proponham à verdade.

- Ora, a verdade se choca com a verdade vista e não vista adentrando o lar. Na moto no carro na gente na casa e na mostra à exportação que é a aparência das coisas...
Desde que Anjo um menino em sua roda de conversa na esquina – aqui o lembrete ser da rua de cima, a de baixo a da casa dele – desde então, já delineando seu caminho futuro e se parecendo o raposinha, a falar o quê falar quando licença à sua timidez, um falar falando manso baixo com olhar também pra baixo, já o pegavam a intervir (se é que isto não seja demais forte ao tímido) intervir num “oi”, o colega a precisar repetir a questão ou a relembrar a questão proposta. E se se abrindo melhor ouvidos no seu comum absorto, nem assim a turba a lhe voltar atenção, não sendo apenas o representante ali mais próximo desse garoto arredio. Enfim havia então algo de podre naquela dinamarca sem marca sem expressão. Já era um início de Anjo como seria depois ele como adulto, se não crescido alto grande e forte ao menos adulto e quase respeitável.
Era assim também em casa. Mas em casa o tratamento mais sério. Existem as cobranças após a família formular antes seus planos, por exemplo ser um doutor ser um imperador ser um... ah os abusos que o lar coloca sobre ombros dos pequenos para quando grandes. Em suma o que se desejava de fato e isto posto frequente pelos pais ainda mais por Beatriz a esperar pura e simplesmente as grandezas no filho; o que desejando a família era que Anjo fosse pelo menos um cidadão válido, que estudasse para ser respeitado e de preferência com emprego decente, visto papai e mamãe terem sido somente lavradores; de fato na cabeça do homem viciado na pureza do campo, na mente dele ele sendo sempre um ser do campo, por mais elementos citadinos tenha: estará impregnado com os vestígios da enxada. Não se muda integralmente uma personalidade se não na superfície e na apresentação à sociedade. Mais que isso talvez o sonho não fosse além. Todavia, sequer atinavam os pais com o pesadelo...
No lar também é o pesadelo. Vem o pesadelo dos conflitos entre os membros desde a infância dos filhos, visto pregarem os dois genitores o mesmo alinhamento à irmã sobrante da luta entre a vida e o túmulo apressado de anjinhos. Contudo, logo a menina se enquadrando nos desejos curtos dos pais, porém não o seu mano Anjo.
Aqui se distanciando cada vez mais da formulação dos primeiros tempos, porque o bebê aparenta sim a pureza. Anjo se desenvolvera crescera e mostrara logo suas tendências e pendências, nada elogiáveis segundo o gosto do homem comum. Pelo contrário.
Não queria ir à escola, criava problemas por atrito, raramente atrito com seus coleguinhas muito com professores e funcionários do estabelecimento de ensino. Depois faltava demais à aula, saía não chegando, tornando como houvesse ido participado na rotina escolar. Chamadas à atenção, intimações da diretoria cientificando e envergonhando os pais etc.. Briga não, não mostrava desde aí essa faceta da violência, nem a violência de boca, esta comum e não classificada por violência mas quem sabe sendo a mais destruidora violência no planeta. Por fim a família achando os gastos extraordinários do pequeno com material escolar – tudo jogado fora! Mamãe de olhos vermelhos, Bia por costume chorava antes e chorava depois dos seus próprios gritos e nos entreveros (umas poucas vezes chegou a surrar o filho; o pai olhava e também condenava primeiro os atos do filhote e após os atos da esposa). Depois de anos e anos, após várias mudanças de escola a tentar encontrar adaptação do menino, após tempo concluindo por não conseguir moldar o comportamento de Anjo nas coordenadas admitidas não só no bairro pobre, por toda sociedade em que inseridos. Sem com isso ser admitido o garoto por antissocial. Com os amigos – amigo é outra ideia insuficientemente abordada – com eles se dava bem. Brincava dentro do que se admite por normal; fazia as algazarras comuns. Ou se dando maravilhosamente bem com colegas na medida em que se tornava adolescente e depois adulto (quem sabe ‘adulto’ apenas, não amadurecendo a contento da sociedade) sim, maravilhosamente nos planos e nas execuções das conversas no meio ao qual se entregou. Hoje se sabe que integralmente...
Em suma Anjo vive como possível ou como suporta viver! no seu tempo de menino a entrar na adolescência, esta a época difícil às famílias e portanto nada especial a enfrentar João e Beatriz com aquele problemático ser que lhes viera por filho na casa pobre da periferia miserável.
No interior do lar... não obstante um lar com morada pais filhos e problemas é claro, não se pondo aqui o ideal sim a rotina entre familiares do meio pobre e até religioso; Bia por exemplo até um pouco carola e rezadeira; João representa o católico sem exigências que não a observação de preceitos com presença rara aos ofícios no templo. No lar não houve o ideal porém tentou-se cumprir as disposições morais entre os membros. Desde então o rapazinho foi não só irreverente mas provocando ou participando, negativamente, das discussões entre os parentes. Foram dias e anos de ofensas mútuas: ninguém poupando a língua, até chegar quase aos extremos... Muita vez, isto já a sair Anjo da adolescência e a entrar na vida de relação adulta, muita vez vizinhos a ouvir não só os gritos os insultos os choros até ofensas graves e absurdas, pois existem as ofensinhas mansas a entrar e sair nas orelhas sem maiores consequências além do mal-estar perdurante; porém sobressaem frases ferinas e propostas violentas. Anjo vociferiza à mãe dele: “desejo que você morra!” Sem falar no baixo calão usado para ferir ainda mais; enquanto que ela em troca também a xingar embora menos ferina. Nunca a matou de fato, somente assassinando a paz! Um dia um vizinho abelhudo, desse tipo que adora palpite e detesta exemplificar o bem proposto, o tal vizinho tenta advertir o mais diplomático no seu possível a vizinha Bia do perigo diante do filho. Com ou sem diplomacia inferiu a possibilidade de o Anjo, havendo ingerido álcool ou outra droga em voga nestes dias, enfim que o filho pudesse eliminar a mãe. Para lágrimas da mãe. Como se ela necessitasse não só conselhos e mais de saber com quem andava a lidar. Parece que nunca é hora de se orientar outrem, pelo menos para quem não tenha gabarito e envergadura moral nem competência de conselheiro. Não obstante o homem da rua, o que passa aí na frente ou o que resida aí na frente, tal homem não teve essa visão.

- Aquela noite. Sim aquela noite ao lusco-fusco do dia pesado rico em problemas e temores... nas dores do parto daquela noite nascente – a noite pegava fogo dentro do lar amargo lar de João onde Beatriz mandava, nele agora ela chorando seu desespero.
Por fora bela viola, o povão diz assim, assim pensavam os vizinhos da vizinha a estardalhaçar-se por fora por dentro a implodir sua ira ou apenas sua indignação ou que fosse a raiva acumulada contida dias meses ou ainda somente a frustração nos desenganos do mundo, desengano de vinte e poucos anos, os aninhos primeiros de Anjo foram uma gracinha e agora ao peso dessas duas décadas a despencar...
Por fora a gente curiosa ou não totalmente surda ouvia o soçobrar duma casa da gente de bem. Bia João a menina Fran, que já lhes dera alguns problemas sentimentais mas, vá lá, uma criatura enquadrada nos cânones da sociedade simples; os três perfazendo uma família bem constituída, malgrado exigência maiores; seriam quatro não fosse o Anjo o causador por muito tempo da miséria moral que então viviam e mais agora perto das sete da noite com um desenlace ao drama, não para o melhor: ao pior. Foi daí o exterior se conscientizar a contento o descontento; já por fora.
Por dentro o caos o inferno o choro sem vela do sofrimento de uma casa decente. Sim, decente, de bem, de amizade. Claro, fossem as outras moradas puras e vacinadas contra o mal, ainda o mal da mentira, a verdade é que, a se exigir uma sociedade sem mácula, não sobraria nenhuma residência e nenhuma família imune na vila, nessa rua antigamente miserável descalça pobre quase a vegetar e agora ainda periferia pois não saíra do lugar, o lugar pobre embora asfaltado com água encanada e até coletivos de hora em hora a levar para o centro trabalhadores; trabalhadores insiste-se visto haver a orla bandida a crescer ameaçadora – inclusive e sobretudo o grupo de Anjo – todavia ainda perdurando na sociedade a maioria esmagadora de moços e adultos a trabalhar ou a procurar ocupação digna. No mundo do jovem país pobre se imaginando um dia galgar o topo da posição como potência, ideal este quiçá desejado pelo populacho dessa periferia; nesse mundo vigia ou franqueava o costume dos ‘nens’. Explica-se a coisa: a adolescência nem estudando nem trabalhando nem constituindo precocemente que fosse uma família nem se reproduzindo para fornecer ao país antes de se tornar potência potentes soldados a morrer na guerra da incompreensão humana... Não. Este último ‘nem’ absurdo a ofender as verdades estatísticas, pelo crescente nas meninas as gravidezes com existência dos abortos sim todavia sobrevivendo mil anjos vivos a escapar de sair como anjinhos. Porém já um debater sem fim. O começo era aquela noite em início e logo a se finalizar na casa deles.
Mamãe gritava, em boa exportação, gritava contra a loucura de Anjo, porque uma consumada loucura, se consumada – de o rapaz optar pelo novo caminho (velhíssimo por sinal). Nos dias pregressos imediatos trabalhara como gente honesta e digna na função de mototaxista, neologismo hoje mui usado; saindo diário manhãzinha a tataratar seu ganha-pão ao ganha-pão, pagar dívidas, abrir novas dívidas, quiçá auxiliando João no quitar as velhas prestações e o terrível e assustador ipeteú; tudo com reparinhos: a manhã acordando Anjo às nove horas não às sete como sói aos outros operários da nação; e o contributo nunca chegara aos bolsos paternos, haja vista a língua materna a dedurar essa anomalia e portanto a engrossar a munição diária na fatal guerra da boca familial; a curiosidade mentirosa dos vizinhos sem direito a voto na balança desta verdade.
Contudo o grito ecoou nas imediações, não pelo sim dos entreveros mas pelo não de um aspecto dos porquês da família. Bia num dos altos na baixaria que a violência da casa gera, disse com todas letras condizentes que Anjo agora batendo pé firme na compra de nova moto zero quilômetro com cheiro de agência e cara portanto, que para honrar o futuro compromisso teria ele que “vender mais droga do que vendia!” As aspas postas não só pela verdade do dito e sobretudo pela verdade no drama dos ouvidos do vizinho abelhudo, aquele vizinho. Ora, este cidadão se pensando de bem vivia o drama do temor do julgamento apressado com respeito aos vizinhos e mais ao vizinho Anjo. O homem da rua, impregnado no pensamento religioso segundo o qual um julgamento de alguém leva fatalmente a ser o julgador julgado com a mesma medida. Isto gerando o temor naquele indivíduo da leitura literal, a que obedece a letra que mata e não o sentido que vivifica, transformando o temor em terror – simplesmente por haver cometido o pecado dum julgamento inadequado; o pior nisso sendo não apenas o julgamento, que pode não passar de vista interior, e sim a publicação do seu veredicto, fácil ao homem comum chegar a um veredicto. O vizinho tivera tal pensamento antes agora Bia vem salvá-lo nesse afundar, inocentando um inocente, o que enorme diante dos impuros, os quais imperam no orbe e inclusive na periferia então somente pobre e não a mais miserável de Santa Isabel. Ah, exclamou o vizinho de ótimas orelhas sem precisar macular-se graças aos alardes da genitora do rapaz. E completou nestes termos: então eu andava certo e errado não julguei – Anjo encontra-se metido até ao pescoço no mundo das drogas! Natural que tenha exagerado um pouco nas misérias alheias, visto pudesse com isso não eliminar, diminuir para si as suas culpas. Ah, o enfatizar os males de alguém degringolando e ainda conseguir com isso um derivativo bom para gente miudinha em se tratando da grandeza moral. Ora, como fechar a boca do povo!
Essa noite, no início dela, essa foi quente, apesar do ventinho frio a assoprar lá fora na rua na placa no figurão no nome do figurão desnecessário. Quente. A discussão enveredando ao berro ao desmando ao incontrolável, porém como por encanto num momento quedou, a deixar o silêncio no ambiente mais silencioso após, tal qual o lume apagado pelo vento a deixar a sombra mais escura na negra noite ao coração decerto quebrantado e a sangrar dos pais de Anjo, o Anjo saindo e se embrenhando nas horas terríveis do desconhecimento e da insegurança.
Antes, pouco muito ou suficiente, antes fora o esbravejar, Bia falava gritado fino já rouco; João soprando seu pensamento a discordar grosso talvez mais ainda rouco que a rouquidão da esposa a completar o diálogo, enquanto a filha do casal longe em sua casa e não com eles. Quanto ao pivô do problema, não escutando, ou apenas a ouvir nos momentos de alarde, não nos dos despiques em que a mãe mestra nisso mostra quem manda; só eventualmente permite-lhe poder enfim ser também ouvido em sua defesa, numa autodefesa contra oponentes. E aqui seria trágico houvesse análise das causas: um cordão de anos nada sadios com mil bate-bocas. De maneira que o estardalhaço na discussão nessa noite tendo fundamento mais de complementação do que conclusão. Sim uma infeliz noite ou uma simples hora duma noite não pode ser a resposta de mais que década nos desarranjos aos litigantes, ligados embora pelo sangue. Em suma uma tragédia.
Como pouco se ouvindo Anjo por falar baixinho e havendo o inaudível do pai decerto a tirar-lhe casquinhas (esta uma expressão popular vigente) como assim, apenas escutando-se a voz feminina, uma como fosse o tinir brabo e feroz de ferro já frio e duro de arma metálica a chocar o solo, fria mas fervendo na indignação vencida, pois Anjo tomara decisão e enfrentava os seus familiares com atos, não com palavras ao vento ao tempo ao desaparecimento.  Daí iniciou-se a mudança; esta sem conversa secundária sem latinhas sem se quebrar o vidro do espelho (por sinal em cacos).
Anjo passou em mil viagens de dentro ao fora para dentro do seu carrão prateado, o metálico tão ao gosto da massa hoje, a massa que adora o deus automóvel. E ali depositado, ao esbugalho de olhos vizinhos na curiosidade doentia insatisfatória por esse patético proceder do moço. A proceder à sua mudança dali, a mudança que o vulgo sempre crê definitiva enquanto o tempo definitivo sentencia precária.
Mil cacarecos, as miudezas do seu quarto de solteiro na casa modesta ou somente simples, carreados pelos braços potentes dele a transferir tudo para seu importado. Só esbarrando de fato na oposição de língua fina ferina quando no transporte da televisão, um aparelho médio ainda pouco usado, que a custo entrou no aperto do excesso de carga de bugigangas no assento aveludado traseiro cheirando mil cheiros e até perfumes baratos desse tipo a que chamam “água de cheiro” para uso do homem, Anjo um homem, e se confundindo o cheiro nos cheiros do todo trazido na mudança, mormente poeiras poeiras poeiras. Ah agora a coisa encrespou: mamãe quer o instrumental de enlouquecer e antes proceder lavagem cerebral com seus comerciais e plim-plins; quer o aparelho de volta à casa, no canto no lugar na teia rompida no sinal da poeira anos depositada e olhe que Bia limpíssima sendo do hábito doméstico que varre lava espana limpa e o que fazer com detritos mesmo a usar abusando o esguicho de água daquela ladrona! pois não é que ficara a marca na base na superfície da mesinha de tevê... Então quer a geringonça no lugar exato. Bate o pé insta ofende em segunda ofensa o ofensor, a si usurpador do maior bem material duma casa pobre; a dela até sem pintura e ainda com falta de reboco (João teimando “reboque”) provocando aquela feiura a se mostrar, o que não se pode com bolsos frágeis impedir ver: as partes de parede com tijolo sem revestimento, a semelhar uma dentadura sem algum dente. Não. Bia não permitiu, bateu de frente os pés e assim Anjo  devolve a preciosidade; desenrosca a preciosidade a passar esfolando a porta do veículo e leva a televisão a ser reposta ao canto da mãe, ela quase a sorrir nesse momento entremeio suas lágrimas olhando a tela no seu antro no seu nicho.
Contudo a batalha se encerrando não acabou a guerra; o final fora ainda uns destratamentos umas ofensas mútuas de bocas arreganhadas; fora a do pai, apenas arreganhados os olhos.
E a noite naquela noite caiu prosseguiu no seu curso; ficando certamente as vistas de fora abertas e as línguas presas à boca pequena.

- Aquela tarde-noite não ficava para trás anos, à frente, mas andava distante. Curiosamente no espaço no mesmo espaço porém no tempo e no prever o tempo distava alguns quilômetros medidos em meses e anos. Não anos: a crise, a de conhecimento visto a ignorância não ver sequer ou ver sim enublado confuso e quase inverificável; porque à ignorância tudo é permitido. Ano quando muito; e muito a família sofrera por causa dele, o Anjo. O Anjo perdurara por uma eternidade – aqui visão da juventude apressada a somar minutos como hora, hora como dia: não mais que um ano e três meses – uma eternidade, repita-se, ele empregado registrado quase amado num serviço de gente; Bia pegava-lhe no pé, isto valendo ela a dizer também ao esposo quando desempregado; todavia agora no pé do filho (agora e sempre...) no sentido de que o menino arranjasse uma colocação decente. Patrão salário registro respeito e até por que não? até ser considerado absolutamente necessário na firma e valorizado por isso; sem choque e sub-repticiamente não precisando usar do recurso horroroso de procurar a lei para que se cumprisse a lei e num pior nisso acioná-la contra o empregador; episódios menores e anteriores levaram João e depois a própria Bia ao Ministério do Trabalho, um dos departamentos do país grande pobre e postulante a potência, com reflexos na periferia antes miserável a gentalha na falação para comentar isso e qualquer coisa, caro ao homem da rua. Pegava como dito no pé para que se empregasse normal, porque fracassara nos estudos, aquele negócio do ‘nem’ nem estudava até largara a aula nem trabalhava, necessitando se ocupar para não cair nas garras fortes da rua e dos seus maus elementos; as famílias pobres, decerto também as ricas, se preocupam com seus meninos soltos a aprender o que não devem aprender ou seja ceder às fraquezas auxiliadas por suas tendências, porque a antena sobretudo a da mãe tem ligado o alerta em defesa da cria; o pai? o pai ouve a mãe e sabe pela sabedoria da mãe, uma sabedoria lá de dentro do coração; infalíveis o saber e o sentimento. De maneira que andava a casa feliz, dentro da parcela de felicidade permitida pela limitação humana, alegre ao menos; se bem que desconfiada e em guarda por causa da seriedade da argumentação do bruxo Fracasso, deus do homem pequeno; alegre na permanência do garotão numa bicicletaria. Já aprendera a manejar ferramentas, tendo inteligência mecânica, o que a maioria não possui; além de gostar do serviço. Tanto assim ser flagrado várias vezes a esperar abrir a oficina e no fim do dia à noite ainda girava porcas e parafusos examinava rodas engraxava peças e as mãos – para enfim voltar pra mãe quiçá ver João ou até ter tempo às rusgas com Fran, então mocinha não demais inteligente e com a parcela de beleza que o sexo destina a todos seus membros, o que discutível. E daí? daí no retorno ao lar comia se lavava às pressas, ou saindo atrás de aventuras noturnas caras a um adolescente quase a chegar à idade cronológica do adulto; ou, cansado à beça indo pra cama. A dormir como pedra! ah santa afirmativa equivalente a encostar a cabeça no travesseiro relaxar sonhar sem pesadelo apagar acordar, no seu caso despertar saindo apressado a mastigar o café da preocupação materna. Por que será que as mães se preocupam tanto a encher o estômago, se não são as coisas que entram pela boca o que deve realmente contar! Bem. Assim Anjo tornando ao serviço ao chefe ao martelo ao dia ao cansaço do dia já noite então no lar. Uma fase e tanto a desmanchar as mazelas do viver.
Contudo passou, ficando (e não seria pelas más relações, o jovem é sempre mui apegado nos amigos, aos que tenham as mesmas tendências... em prejuízo à chamada vida saudável ou regular ou regrada ou rotineira da família digna, que seja de bem) ficando em detrimento aos desejos da casa a virar um desempregado; desaforado, o patrão lamenta dizendo a João “o rapaz tem pavio curto!” esquentado realmente, em casa e fora de casa, a bem dizer não com estranhos pois controlado e até um pouco melífluo talvez com dose de hipocrisia até no meio a amigos, não seria ‘amigos’! Não esquentado frente aos íntimos de fora, sim frente aos de casa mormente diante a genitora. Ora, a mãe – e não seria aqui intriga da oposição? – a mãe começava a falar criticando exigindo cobrando e não mais parava... parava: já se encontrando sozinha. Aí voltando-se ao canil. O canil? era costume do lar encher-se de animais e mais de cachorros, uma ladração infernal segundo a oposição, nada que ver com o marido sim com os olhos as orelhinhas atrevidas do vizinho metediço na frente da residência observando atrás. Só, “mal acompanhada” interferem todas oposições, sozinha Beatriz, afaga o mais novo do canil para que também mil rabos festejem a atenção. Vai além Bia: conversa com eles; não fala de homem para homem como aprecia dizer o povo a enfatizar sério o brabo mas numa conversa franca, não fraca: franca, de gente para gente, uma gente de cauda a balançar. Conta brabamente por altas vozes, conta-lhes do filho (será que o cão não imaginará Anjo como irmão de sangue!) Esse, diz a mãe do filho, esse não endireita mesmo, está indo tão bem nas bicicletas e já põe defeito no patrão, quer pedir a conta. Pedir coisa alguma, irá abandonar o trabalho e... Daí chega uma comadre, dessas mil que têm na rua da placa do nome do figurão do desconhecido conhecida há anos, dessas senhoras que falam... ora o homem comum, acusado ser egoísta por filósofos desocupados, não é propriamente egoísta porém egocêntrico: só se vê só se sente só se realiza a falar, importa pouco ouvir outrem, outrem é seu sparring (aquele que no box serve a levar murros a fim de o atleta principal adestrar músculos). Fala fala fala, no fim quase não pode saber o que outrem sente ou disse na sua presença. É assim dona Maria. Maria atrai Beatriz no portão de ferro enferrujando a ranger securas e desarranjos, nesse portão da senhora então a manter diálogo com o mais novo cachorro, lindo por sinal e não tão irritante como os outros na ladração infernal infernando a rua. Atrai a moradora gritando bom-dia, sequer a gente pensa ou sente ou deseja de fato que bom seja o dia; “bom-dia dona Bia”. Ela usa o ‘dona’ antes do nome para mostrar seu respeito à outra; a outra, esta, deixa a lamentação que apresentava à apreciação do maior amigo do homem, no entanto Maria não escutara nem escuta agora: fala destrincha o sofrer da filha o sofrer da filha da filha e o da filha da vizinha, residindo na rua de cima, rua mais pobre que a via pública do figurão na placa; a sua sequer tem placa tem nome pelo menos; e então Maria narra também do finado do genro do vizinho e vai embicar no prato favorito das comadres que é especificamente as moléstias com suas dores remédios médicos hospitais tratamentos exames internações remarcações de consultas – quando aparece um desmancha-prazeres a tataratar engasgado João para o almoço. Se despedem rapidamente sob alegações desonestas ou mentirosas a ocultar a verdade, a verdade do embaraço na chegada daquele barrigudo sem graça homem de Bia. O chefe da casa é saudado pelos rabos felizes, isto porque os cães têm uma curiosa atração pelo cheiro de gente, de sua gente, o pai chegara entrando a empurrar sua motocicleta velha gasta. Calam-se também eles.
Os cães deitam se coçam. Os humanos não: falam falam falam... a rigor Bia fala, põe de novo o assunto como o fizera aos bichos de igual para igual: o desmiolado agora no trabalho ainda, porém ameaçando largar tudo. E o fará. Realmente a mulher, a qual agora mexe nos trens de cozinha, cozinha tempera bate pratos talheres atabalhoadamente por nervosa, fala fala sem interromper sua voz. Ele escuta, quando muito resmunga quase inaudível e isto é o seu discurso contra os problemas que afligem os seus e que a vida empurra-lhe goela abaixo. Come de mau humor, sequer pode contrapor ao discurso dela a soar como um disco com toda corda disparado, sequer pode comentar problemazinhos (alguns são enormes se não no tamanho nas consequências, estando multado e a perder a carta, na periferia se diz “carta de motorista” e seria de mototaxista) não chega a tratar com ela seus dramas na rua e os com a moça que atende o telefone a distribuir o serviço, a qual aponta contra os interesses de João outro servidor a atender a corrida... De maneira que Bia não fica inteirada das questões do marido e se pensa a mais desafortunada do mundo, pobre planeta. E se, diz a mãe do filho, se o filho largar o emprego seguro com registro embora ganho pouco o que muito ao insignificante da periferia, se... haveria a possibilidade colocá-lo como mototaxista igual você? João não responde, sai mais insatisfeito atrasando mastigando correndo.

10° - Anja... não “Anja” igual falando Maria a abreviar dona Ângela ali de baixo, a comadre na sua matraca nos portões da vila, inclusive no portão de Beatriz. Mas a mãe do Anjo não está nestes dias para conversa e mais nesse menos para conversa-fiada na rua sem nome com nome de um figurão escrito na placa da esquina. Porque anda nervosa, neurastênica por constituição e por causa dos pesos da existência – o homem comum ora na sua apresentação fêmea imagina que todos dramas do planeta em cima de si... – anda asssim sobretudo descontente pela falta de dinheiro na casa, casa pobre sim não indigna a acontecer essas coisas... Tanto que, pensa nisso nisso fala, agora baixinho quase num sopro a imitar o marido longe; ela tem uma característica engraçada que é a de expressar seu pensamento tal qual estivesse falando publicando o que no cérebro lá dentro; isto em contrário à gente que por fora é um túmulo e dentro queima funde o miolo com um pensar ativo quando não bravio, não ela: ela quantas vezes pega no delito parecendo conversar com os bichos visto haver um diálogo contínuo com eles, embora não se ouça a voz dos cães... e não é que eles entendem a ama! Natural se fosse uma velha, velha sim já nos seus cinquenta anos porém não velha de cair pedaços; nestes termos se expressa um familiar, primo ou qualquer coisa, quando das raras brincadeiras reunidos parentes, como nas bodas de Fran com Sebastião, não quando da separação deles, Fran afirmando que o homem a deixara e a oposição garantindo mais tarde no reatar a união formal que ela o expulsara de casa, inclusive com episódio engraçado para se chorar: atirou a jovem no seu ‘ex’ certa pasta intriguenta contendo recibo de contas e um bilhete da rival. Todavia isso não constrói. Nem a fala alta no baixinho de Bia agora a lavar roupa tal qual um autômato e como se fora levada pela rotina não controlando a rotina.
Lava, os cachorros olham-na ver se é para rir se para chorar com os respectivos rabos em prontidão, pois os cuidados nos altos e baixos da ama-ou-mãe dispõem a atenção. Não, não está para briga nem para ouvir e menos contar piadas, só braba. Com muitíssima razão. E assim larga aquele corpo magro cansado sovado pelo sofrer dos anos por conta dele mesmo; e daí foge, não podendo fugir de si mesma, deixa o trouxa tratar as peças enquanto ela foge e volta volta e foge e ao tornar encontra o bobo a trabalhar suar escorrer suor no tecido já molhado. Pega molha ensaboa esfrega bate esfrega molha escorre torce enxágua e pendura com prendedores de molas bambas cansadas no varalzinho malacafento intento invento de João a improvisar sempre as coisas e este na iminência quebrar soltar cair a roupa no chão para ira da esposa, precisasse ela de razão para não ter razão; no momento dispersa demais para ter razão e meio absorta e se falando falando baixo nada que ver com as peças da roupa da casa pingando a molhar o chão... nisto vem um dos cachorros, primeiro ele sonda o ambiente lá em cima na cabeça do mulherão que pensa ser sua mãe, ela prossegue a falar baixo a gesticular alto seus problemas contudo o bicho lê certa calma e boa vontade, não harmonia, harmonia somente possível nos seres mais puros como cão cavalo e anjo, não no Anjo... Então bebe lambendo a quase estalar língua as gotas da roupa caídas desde o varal pra matar a sede. Apenas aí Bia descobre vazia a lata de goiabada que é filtro ou talha dos seus queridinhos – e se lamenta pelo esquecimento; imediato toma o cão pequeno a lamber humildemente o riacho no cimento frio e impera: “não, Peri! isso é água com sabão, não pode” e emenda que mamãe irá pôr líquido novo na lata deles. Faz isso fazendo o negativo pra lá pra cá de cabeça se condenando o esquecimento. Assim também se esquece, temporariamente ou por um lapso curto de minutos, a hora do sofrer anterior.
Pensava desesperada quase (o quase pelo inevitável das coisas) pensava nos novos problemas a somar nos problemas existentes, o dinheiro contando sim não o mais importante neles; enfim um novo drama. Anjo anunciara a iminência em trazer mulher para casa, a casa dele é lógico, de João, de Fran se ela rompesse outra vez com o besta do Bastião, dessa forma se expressando o rapaz referindo-se ao cunhado; mas sobretudo a casa de Bia, Bia feroz ao anúncio, leia-se o costumeiro desagrado disposto entre sogra-e-nora, nora-e-sogra, quando a iniciativa de referência de uma ou de outra, ou seja da jovem bela que invade o campo desmancha o lar e se apossa do filho da mãe; ou da velha e não se achando tão idosa assim a matriarca que presencia descontente a jovem (ela até não sendo bonita como disseram por aí...) imagine essa jovem chegar e querer ser a dona do pedaço!
Contudo confirma-se a versão da aversão – mútua com os descontos dos bons modos e da educação pois ambas não iriam atirar pedras uma na outra, todavia com direito ao menos a entortar o nariz. Aconteceu de Bia permanecer quieta enquanto o namoro a si escandaloso e os afagos vistos por abusos ao decoro do novo casal na casa do casal velho. Logo brigaram? não, os jovens se aproximam mais por enleios curtos no quarto fechado ou apenas cerrado à obtusidade da velha gente. Um horror. Pior horror, diz a senhora pensando e dizendo alto a João ou baixo aos cães ou para se ouvir a si mesma, pior sim a questão da inconstância do filho. Anjo não aceitou morar no puxado dos fundos com sua companheira, dita namorada nos moldes de hoje entretanto sem casório como fora o da irmã dele, a dele uma união representando tão só o se amasiar, indecente ao miolo de Bia. O pior mesmo foi já a separação após semana de idílio indecoroso, um para envergonhar a gente perante a vizinhança e ainda por cima nesse por baixo aquele sujeito do trinta e três é um abelhudo, não o suporto. Natural que João teve que ouvir os desaforos despejados pela esposa na forma desaforada numa gíria de periferia, não dentro da formalidade acadêmica, bonitinho sim mas ofensa do mesmo jeito.
Não tem jeito esse moleque, termina e lamenta com acordo tácito agora do pai de Anjo.
No entanto – ah que tristeza nessa alegria – no entanto a menina até que boazinha... sim João: bonita trabalhadeira séria, ah a garota não serviria muito ao rapaz. Poderia inclusive arranjar a vida dele, criaria juízo, porque tem mulher que acerta um homem... criaria juízo, não ficando só nas suas costas. Nunca João recebera centavo a ajudar abater dívidas e diminuir gasto nas despesas e no pagamento dessa porcaria da ipeteú da ladrona. Assim concordou com a mulher e até aceitando o filho a manter sua vida desregrada como homem solteiro, solteiro de mais de vinte anos!
Entretanto o problema essencial ainda mais sério do que tudo isso e parecia evidente, os pais desprezam as evidências e culpam a língua dos vizinhos faladores; João tendo certa birra de Maria e doutras comadres por seu falatório; sem reconhecer decerto que também a esposa fazia entra mês sai mês suas visitas a saber, levar novidades e trazer podres. Parece que o ser humano sente diminuído o peso do seu drama conversando em cima dos dramas alheios. Nisso não era um desserviço barato e até prejudicial, visto que nos momentos mais agudos de sua dor Beatriz usando as vizinhas e conhecidas para desabafo. Ainda aqui é manifestação humana no homem comum.
Oh o boêmio voltou novamente, diz o cancioneiro popular. No caso de Anjo sequer deixou o lar doce lar. Tão só retomando ao viver antigo ou apenas anterior por não haver antiguidade num jovem.
Trabalhava o mais eventualmente possível, sem qualquer responsabilidade. E nunca contribuíra no lar, pior ainda visitava frequente o bolso paterno.
Isso a trazer um afundamento do tesouro familial; mais pronunciadamente aumentando as dívidas...

11° - Talvez Maria, Maria Gorda, não pensasse nem soubesse estar sendo alinhavada no todo da vida de Anjo na parte que lhe toca, ela imponente soberana sobranceira orgulhosa e consciente do seu poder, imponente sim não em sua vaidade: vaidade na verdade descartada pelo espelho e pelo silêncio dos que bajulam os poderosos... Mais nisso por já ser matrona sem outras esperanças que não a de manter seu namorado como namorado dela, embora não se possa de fato confiar em homem, mais nesse menos quando trancafiado condenado fugindo constante e constante tornando ao presídio a viver durante fugas no contato com jovens (ela velha!) as belas por aí. A rigor não confiando nele mesmo estando próximo nas saídas quando aparece ali na casa, por causa das filhas dela... A Maria Gorda, não a Maria comadre assustada na rua a visitar colher maduros dos verdes semeados cuidadosamente; esta Maria passa não conversa não olha sequer pros lados do portão da Maria Gorda – temerosa a se comprometer, igual o gentio medroso que olha a residência de esquina da rua sem nome com nome de figurão na placa, exatamente grudada a placa na parede a imitar muro nessa esquina aqui na periferia de Santa Isabel. A Maria Gorda inclusive arredonda repuxa entorta esconde dobra o erre de Isabel a pronunciar “Santa Izabér” à semelhança dos outros matutos vindos igual João da lavoura quando existia lavoura, então ela sendo nova magra bonita, até arranjou casamento com um rapaz e arrumou com isso quatro filhos para criar sozinha: o bruto fugira com a filha mais velha do vizinho encrenqueiro, para que tivesse este mais assunto a aporrinhá-la. Bem. Mal a comadre passa a outra Maria desvira a cara antes virada a fim de não dar brecha à língua passante – ela inicia pelo cumprimento da hora ora de manhã bom-dia ora de tarde boa-tarde e depois encadeia assunto não acaba mais o assunto. No entanto a mãe de Anjo não espera que se comunique a linguaruda, visto esta parecendo temer seu antro mal falado... Muitos a pensar assim, mesmo a caneta de plástico transparente a falhar sua tinta, mesmo ela com certo medinho desse ponto. A faladeira não teme Beatriz, mãe natural do moço, Maria teme Maria Gorda que é uma espécie de genitora postiça e apócrifa de Anjo; teme essa não temendo Bia que é mais permeável apesar dos pesares pois Maria acha Beatriz falsa, enfim não confiável, aceitando-a embora no momento do esquecimento dessa falha moral e a empurrar no portão toda sorte de azar narrando as misérias da periferia antes miserável. Enquanto Maria Gorda sai entra volta a sair na rua, preocupada ansiosa nervosa por causa de Anjo. Acredite, diz ela a uma de suas filhas ali fora a esperar condução para levar as netinhas ao parque infantil, acredite que tratei com o safado transportar a mercadoria e até agora não dá as caras! Aí telefona de novo e Anjo atende, se levanta, liga funciona sai atrapalhado a ziguezaguear sua moto meio sonolento ainda; para, ouve as recriminações da segunda mãe quiçá primeira por ser praticamente sua chefe ou generala naquele exército infeliz em que o rapaz parece ser mero soldado raso, agora na função de levar a carga tão valiosa quanto perigosa... Responde “sim”, sim válido a dizer que Maria Gorda tem razão; ou que sabe onde e a quem entregar o pacote; ou que terá máximo cuidado amarrando a coisa na garupa da motoca; ou que merece a raspança em virtude da desvirtude haver dormido além da hora, aqui se justifica “estava roncando e por isso não escutei o celular...” Ora ora! fala braba pela resposta do jovem e impera partir imediato; e que seja mais atento e responsável na obediência e na condução de material dessa ordem. Vai! ela grita de fato irritada e feroz: “Some!” Sai, raspa-se Anjo com o veículo magrelo e desaparece na primeira esquina; enquanto a chefona comunica a um superior, aí seria marechal? liga a outro chefe que a caixa está indo, diz na linguagem do grupo “bagulho”, antes examina não só ao lado estarem apenas os íntimos, porque a perua vindo buscar as netas não íntima; nem os eventuais passantes o são.
A placa a casa a esquina a chefia distando somente uns sete ou oito terrenos do terreno da casa de João onde Beatriz impera baseada nos fundamentos de sua língua forte, fraca por vezes aí vencendo a boca sobre o decoro, estando Bia mais nervosa que de hábito, por exemplo no momento após bate-boca com o filho, o que frequente. Agora extrapola, pois tem vez que não dá para segurar a água suja represada e assim desde sua calçadinha e seu portão arreganhado berra impropérios à outra lá diante na esquina passando ordens ao filho de ambas, desviando um anjo do caminho reto e até comprometendo um ser que se nunca fora em não sendo bebê pureza e amor, hoje ainda ao menos é sem maldade é ingênuo (“bobo”afirma Bia) é manso aos vinte anos! Grita estertora acorda a rua, os curiosos... tem um vizinho xereta sem língua com muita orelha e olho que... ah deixa pra lá – todos assistem o entrevero, qual numa briga de meninos na saída da aula e os colegas, quiçá os portões mais curiosos também, eles em roda assistem apupam torcem quase apostam nos contendores e se riem no final do choro. É mais ou menos assim, o mais ou menos ficando por conta da língua barulhenta de Bia a soltar os cachorros na outra lá longe nesse perto, “soltar cachorros” diz a linguagem chã da rua; por causa dos insultos duma genitora à outra mãe, a gorda agora muda como exige a diplomacia dos comprometidos nas causas perdidas infelizmente ganhas atualmente. Maria Gorda ouve e faz de conta numa boa política não ser com ela. Beatriz de João de Fran investe arremata: “por que vocês não mudam ele de uma vez pra sua casa!?” Depois acalma, não pela ruminação do esposo nem pelos apelos com panos mornos da filha da mãe em favor da mãe – porque as lágrimas embargam engolem enfrentam e comem os gritos. Vai chorar lá dentro, acertar com a família suas dores, que em última análise são as dores da casa inteira. Não. Não de Anjo, ele agora não estando presente mas presente é corpo presente, só diz quando diz “oi” fingindo não escutar ofensas ou somente a fugir da ocorrência: o drama no qual tudo gira, gira de si, sendo ocorrência não oficializada em detrimento da verdade. Age sempre assim estando de passagem, nos últimos tempos vive perdido como fala a mãe, perdido por aí, nem mais dorme no seu quarto faz dias... Assim; ou não responde ao falatório de Bia ou responde como ótimo respondão.
As causas permanecem; apenas as situações variam; e a abordagem não muda, antes que isso se agrava complicando mais pelo demérito de enriquecer essa miséria moral em que anda metido Anjo.

12° - Anjo e Anja se encontram onde não sabem com certeza os familiares. Têm os que dão palpite têm os que não sentem profundo o profundo drama que vive Beatriz. Sabem que é possível os namorados estarem dormindo juntos vivendo juntos, não trabalhando juntos, ela é digna e pode ser localizada facilmente no serviço no horário de serviço cumprindo obrigação e ganhando seu dinheiro, chegou aos ouvidos acumulados de Beatriz que o filho vai sempre recolher esse numerário quando precisa dinheiro e ainda por cima no por baixo espanca a pobre; certamente ela ama e o defende diante ofensas, coisas do coração feminino que os machos não entendem e pior no caso de Anjo mais voltado pra si mesmo, sequer respeito tendo com os que sofrem por seus desmandos e seus desnorteamentos. Agora, confessa Beatriz ao esposo e à filha, agora complicou-se nosso Anjo porque foi flagrado e cercado... “não foi assim, João?” nunca se dirigiu ao parceiro de sofrimentos por meu bem ou coisa que o valha, frequente empregando João como João da Padaria João do Mercado enfim um joão desconhecido – agora foi cercado pelos guardas no automóvel por ter dentro um sentenciado procurado e perigoso, não sei como não ficou detido igualmente com o outro. Só arruma encrenca. Ah põe encrenca nisso... Anteriormente numa desavença com a namorada queria matar o pai dela, Bia encontrou arma com número raspado debaixo do travesseiro do filho quando a cuidar do quarto. Aí se desesperou gritou chorou alto bem alto e ao seu estilo, porém no interior do domicílio, atraindo com isso as vizinhas a acudi-la para que os vizinhos ficassem olhando com maus agouros... Passou. Passaram outros episódios semelhantes, também semelhantes por inconclusos; em geral os errados bem caracterizados não têm solução, mais se encadeiam se comem se entrelaçam ora como causas ora como consequências e não se explicam não desaparecem durante uma existência tão curta e rápida como a do ser humano. De resto sobram lembranças  na forma de meras cicatrizes imperceptíveis mas não desaparecidas. O revólver bandido se perdeu entre bandidos, ficou a mágoa a se juntar noutras mazelas no coração materno e no sentimento infeliz dos outros familiares mais próximos do rapaz. Quem sabe ferindo amigos dele, se amigos e não ‘amigos’. Entretanto amigos ou apenas achegados a ele ainda a tratá-lo “Jo”, deles quase nada a família sabe, nem Bia tão penetrante e com informes básicos sabendo a fundo, se não a superficialidade do que exterior e que todos podem ver, talvez não comentar sem se complicar, só observar.
Ele aos poucos se afundando cada vez mais nesse perigoso mundo escuro escuso.
Nas entrelinhas dos papos um pouco confidenciais na frente da casa, mui vigiados pelo respeito, aparecendo vez que outra algo que seria o cerne acobertado pelo óbvio porém impublicável. Os pensadores – espécie de gente com tempo disponível se não a salvar o mundo a atirar alguma lenha em má compensação na fogueira – os estudiosos da problemática humana a indagarem o quê. Com que tipo de pessoas anda, que faz realmente um ser saindo diário de casa ou se eclipsando por tempo; a chispar na moto – responde a família: Anjo! trabalha hoje com sua moto na rua, é mototaxista – e a voltar, quando aparecendo, vindo na madrugada... Nunca bêbado, pois um mérito indiscutível nessa criatura errada não beber não fumar não mentir... Não. A caneta se nega anotar inverdades!
Anda com quem? onde? por quê? como? quando já se esclarece: todos dias meses por ano inteiro. O que fazendo, visto logo a empresa a informar o desaparecimento do filho ao pai, a fim de que o mesmo honrasse o compromisso de pagar as diárias à permissão de usar o nome da firma para efetuar as corridas, levar gente trazer gente essas coisas. O pior na questão melindrosa os melindres propriamente... Apuraram-se haver no seu meio elementos ou estranhos ou sabidamente comprometidos nessa escuridão; e nos bastidores a existência de companheiros ligados desde meninos a Anjo. E com que ‘trabalha’ ele... Mais reticências às reticências nos papos de rua, a rua sem nome nestes confins da cidade. As reticências poderão dizer que anda se envolvendo o moço com a gente da Maria Gorda; nisso nenhuma dúvida, a dúvida só quanto à modalidade de transação (seria uma do tipo comercial? indagam nas rodas silenciosas sem poder publicar o pensamento). Até que ponto o envolvimento. Demais, mais sabendo a polícia, porém basta ler o jornal abrir a internet para se informar o bastante, ainda assim por alto os baixos desse ambiente sórdido.

13° - A amargura visita a casa... A morte a doença mil desavenças entre conhecidos, as mais das vezes desconhecidos e conhecidos por amigos – tudo é prato cheio na hora do almoço, se bem que João quando na moradia e não no trabalho num qualquer serviço, ele geralmente come de prato na mão assistindo no sofá tevê, plena de desastre a melhorar decerto a comoção social. Contudo comum os membros reunidos também na mesa como antigamente se fazia e as conversas então sendo desse teor, ou seja mastigando-se crimes e violências banais ao mastigar arroz e feijão, Bia não costuma errar no tempero, o caldo é grosso saboroso e o cheiro de alho atrai bem; João, Beatriz, a menina quando com eles, e a completar Anjo, porém Anjo raramente nesse lar doce lar e quando aí, não ouve os velhos e troca uma que outra palavra com Fran. Mas eis que vem como visita a amargura. O rapaz é nestes tempos difíceis o toque nada mágico da alegria a temperar a felicidade possível aos seres terrenos; pelo contrário é o sofrimento exposto flagrante a ferir uma família que se pensa honesta e de bem. Um sofrimento ali bastando sua presença, por lembrar os mil entreveros os mil desmandos os mil vocábulos ferinos que se trocam a sujar relações que seriam bênçãos do céu à iluminação do lugar. E se efetivando o amargor quando nas farpas gratuitas destruidoras. O hábito à mesa é já o se ofender quem ofender e quem ofendido na lembrança dos episódios anteriores, os quais não engrandecem não ilustram não constroem muito mais que os episódios de hoje no todo dia de Anjo. Além do mais se presume a ofensa ficar apenas nas quatro paredes da residência, entretanto as garras da vida ilegal aparecem afluem emporcalham a rotina nas imediações, mesmo o que escondido e melhormente apenas ensombrado pode ser ouvido nas imediações na hora do almoço nada farto (farto sim no indigesto...) nem doutro lado refeição frugal e menos ainda miserável – simples almoço de ex-roceiros a tentar emburguesar-se; longe no entanto aqui o ideal comum da riqueza ostentatória mas o viver semelhante qualquer pequeno burguês, o que exige emprego decente casa própria carro e ingresso a suportar os dramas que a saúde pública prega nos moradores de uma periferia até ela mesma sem nome e com apelidos. Uns chamam essa periferia “Risca Faca” o que de um mau gosto indiscutível; enquanto outros aliviam-na por “Buracão”.
A amargura vem lembrar quesitos de impossível esquecimento e por isso se memoriza e se propaga (não a fazer propaganda é claro e seria diabólico tentar vender ideias inclusive hediondas) se propaga no sentido ser lembrados toda vez que a quase visita aparece, o rapaz anda nos últimos tempos “alongado”, sentencia Beatriz.
Então se fala, sub-repticiamente admitindo que todos membros saibam – e sabem de fato: esconde-se debaixo do tapete ou não se diz abertamente à gente de fora, os de casa sabem; e, igual à pólvora que friccionada dá fogo, resulta por vez explosão. Aquilo que guardado a sete chaves vem à tona, importuna ofende de novo e fere doendo a cicatriz. Até acontecimentos que feririam mais por ocorrerem ali ao tique-taque do ponteiro e provocando o sentimentalismo nos sentimentais, que atingem os outros de dentro e talvez mais ainda os de fora fora dentro do bairro, como a morte súbita da parteira Chiquinha a todas parturientes ligadas por sua nobre função – ecoa ali fraco, forte somente os brados dos problemas de Anjo. Ele escuta isso ou não porém sequer penetra naquele miolo a velha estar a si ligada ao nascimento; nem o desastre recente que eliminara o Nego da Viola, criatura meio folclórica do lugar; tudo, nada sensibiliza Anjo; tudo vira pouco na dose que atingiria o pai a mãe a irmã dele ali próximo como que a enfrentá-lo. Assim os seus dramas velhos entrelaçados aos atuais dominam a casa do portão onde a comadre vem revirar a cabeça de Bia nessa rua sem nome; dominam e submetem pequenos se não insignificantes problemas como o da morte duma velhota decerto já caduca e daí pra que ficar remexendo... Agora só contam dúvidas dívidas e drogas; e novas dúvidas e novas dívidas pelas drogas.
As lembranças, antes que isso rememorações que à semelhança do novato diante a banca de exame ferem, ferem Anjo, e muitas se ligam à compra de veículos. Inúmeras foram as motocicletas e alguns automóveis que a família precisou bancar a conseguir o equilíbrio do ambiente doméstico e a satisfazer Anjo ou apenas para atingir seus caprichos de homem volúvel e imaturo; ou ainda que fosse estar num corpo de homem adulto um menino. Em geral deu-se quase sempre de o pai haver através de muito trabalho com alguma economia e até jogo de cintura adquirido um bem valioso – as rodas os sons o brilho na lata tal qual decerto o faiscar dos deuses, ao homem comum, leva este a obter com sangue e lágrimas preciso for um veículo! – e esse bem, dele se apossando Anjo, primeiro pelo uso (ou abuso) e depois com posse mesmo, nunca negado por João ao filho; isto corriqueiro no coração paterno perante atitude do filho-macho; havendo com isso quando muito lamúria baixinho dele e explosão da esposa. Tudo advindo da mesma base ou mesma origem: o veículo ora entrando na apertada garagem da apertada finança familiar. Anos assim. Renovada a questão em compra-ou-troca doutros veículos. Vários carros ‘novos’ (velhos sempre usados amantes da oficina mecânica) várias motos. O genitor se sacrifica adquire paga prestações; e o filho toma, quando muito a título de empréstimo e lá um belo dia (ah expressão idiota...) Anjo troca como fora seu o objeto por outro supostamente melhor ou mais vistoso. Vai além: mostra-o entusiasmado ao ‘velho’ aprecia tratá-lo assim; e depois exibe sua propriedade de último tipo e marca no mercado, exibe àquilo que a juventude apelida num modismo “galera”. São mil e um os apreciadores da joia-rara em vendo o nome do rapaz a desfilar na rua sem nome. Tatarata pra cá tatarata pra lá. Papai quita a conta no posto de serviço ou na agência de compra & venda. A plateia imberbe cresce, aparece diário na casa no portão da comadre lamentar as coisas; o ambiente se enche se anima graças aos convivas. Mamãe enlouquece. Isto força de expressão: parece que o coração de mãe estufa e arrebenta mas não: se renova para ter forças a novas reclamações e se alimenta certamente com as orelhas que podem escutá-la, a conseguir ainda mais força a fim de continuar viva. Do contrário, a doença o médico o hospital o tratamento ou a loucura e a morte! Beatriz, não obstante, firme. Grita chora explode no bom sentido, o mau seria a morte realmente. Não. E os carrões!
Estas lembranças ou como dito rememorações, indesejáveis e infelizmente postas sem qualquer diplomacia, visto o homem da rua assim como a criança pôr-se a falar as coisas sem tergiversação, os modos importam pouco, quando nervoso e irritado importa menos ainda ferir outrem; às vezes começa miúdo manso despretensioso e sob qualquer pretexto, que seja uma palavra mal colocada ou em falso ou como mero lembrete da ferida, a ferida sangra dói num bate-boca, os bate-bocas que sempre são informais. Batalha formada na guerra que nunca termina. Assim na casa de João onde Beatriz dá as cartas; e Anjo marca suja trapaça as cartas. No jogo da existência; na guerra da vida.
O curioso nisso é o começo não ter início... Bem, diz assim a caneta transparente e por isso não desejando comprar briga e não imiscuir-se nas coisas atrapalhadas dessa família. Como, interfere um pouquinho, como um início sem começo! Não. Anjo iniciou em menino, aqui moleque de fato, na rua sem nome quase ele e sua trempe sem nome também, começou a fazer atrapalhadas na vizinhança mesmo: um dia roubaram uma bicicleta, logo a do vizinho chato, chateação lamentação recriminação e choro de Bia, visto haverem posto a culpa no filho. Passou. Ele e os colegas não desejando magrelas (nome na periferia da bicicleta) logo na adolescência se desinteressando por elas o grupo da esquina, a de cima não a de baixo de placa com figurão estampado; onde se reuniam a falar bobagens, isto na forma adulta de incompreender e pichar moleques vadios e, quem sabe! arruaceiros. Enfim todo o grupo cresceu, na idade e uns espicharam qual vareta o físico, e assim raramente Anjo pedalando, mais que pedalar (aqui apreciava deveras) consertando lavando alisando lustrando bicicleta, a dele a dos outros companheiros. Logo aquela assembleia mais ou menos permanente se entusiasmou por moto. A era nunca terminou, mesmo quando as motos se cruzando com automóveis, de um que outro entre membros do grupo ou mesmo e sobretudo os veículos de Anjo. Apesar disso, crescido fisicamente, o rapaz não mostrando liderança porém tudo arrebentava na casa de João para lamúria de Beatriz e mais conflitos entre mãe e filho. O gasto com desperdício de água, ora a ladrona... o gasto com luz pois até avançada noite o bater dos ferros ali na garagem encolhida escolhida por eles ou esparramados os companheiros de Anjo no portão e na frente, a incomodar vizinhos, na opinião exposta de Bia e oculta do pai do garotão. Sobretudo a “bagunça” (isto berrado ferozmente por Bia) a conversa o som: toda espécie de manifestação sonora o jovem apelida som – o som destemperadamente a estourar uma rua pacata (ah cruz-credo se benze Maria comadre). Em suma loucura o ter que aturar a manifestação mais ou menos pacífica de Anjo e seus anjos...
Todavia é pelos carros que fica se não gritantemente demonstrado ao menos levemente delineado o comprometimento do rapaz no mundo escuro do crime... se crime.

14° - O caboclo tem uma forma saborosa pra dizer algo em que não se pode fugir negar enfrentar: “a hora da porca torcer o rabo”. Seria a hora na população ordeira? sim têm os que lutam contra ou não defendem a ordem nem crendo nela e parece haver no mundo muita gente desse jeito; o que não diverso na periferia pobre agora rica por não ser mais miserável tendo asfalto água – a ladrona cobra e por vezes cobra na falta no registro e sequer na borracha de plástico para as comadres esbanjar tendo, tendo o esguicho seco, a torneira xi apenas gotas – tendo esgoto e tendo enfim o que necessário para virar bairro urbanizado, inclusive ônibus a circular mas um dia eles fizeram greve, os motoristas e cobradores, um barulho até com entrevista na televisão; de noite antes da novela no canal mais poderoso o povo a se ver numa pontinha cercando os veículos parados: uma consagração; sim consagração à vaidade da gente na rua sem nome com placa. Contudo o mais corrente na rotina do lugar é o falatório, falatório nos ajuntamentos sim não apenas no foco televisivo; a conversa gira o mais das vezes nos acontecimentos vistos no vídeo porém sobrando ainda na roda os fatos da rua mesmo. Como o caso dos dramas da Beatriz.
O curioso nas questões que tratam da rotina de um lugar pobre é o mando de conhecimento da mulher, embora agora ora sim ora não à baila o apodrecimento das relações pelos desandos e desmandos de Anjo (e mais uma vez Beatriz). Realmente maior atenção é na mulher: quase nunca alguém a chamar ou gritar no portão o presumido dono da casa, um João por exemplo, sim a dona do dono... Exato, nem tanto ao céu, pois existem ainda, vindos da geração anterior sobretudo entre os que migraram da roça, os machos que ‘ensinam’ ofendem e até agridem na melhor das violências a sua fêmea (isto servindo igualmente para assunto no falatório dessas rodas na rua). No geral é a mulher quem procurada, e quase sempre por outra fêmea da espécie; não se procurando o macho com ou sem espécie...
Os vizinhos a destramelar barato. Ultimamente na berlinda Anjo, Anjo o assunto do dia. Uns vizinhos, nisso entrando não só os machos desocupados ocupados no desemprego desenfreado mas inclusive quem no trabalho a passar e ser atraído por essas rodas de conversa, camufladas na varrição; ninguém a esperar o absurdo da ladrona que não recolhe nos feriados a lata de lixo, hoje sacola de supermercado com lixos recicláveis ou não; ninguém que ela varra o leito das vias públicas e melhormente na pior hipótese a sem nome com nome demais na placa grudada na parede da Maria Gorda; alguém a esperar? Então no gratuito falar e na desnecessária pichação, picham uns a fraqueza (no sentido dele não tomar peito coibir abusos – oh que diabo o rapaz é filho dele, qualquer pai faria vistas grossas, defendem-no) a fraqueza de João, nisso vendo todos, todos de todos sexos definidos ou não, todos no ver Beatriz como a grande vítima, a sofredora por excelência. Um vizinho não demais, o suficientemente abelhudo sentencia, antes olha examina constata implicações se não ouvem mas só eles na reunião por acaso a ouvirem não só a contento e sim clarissimamente bem, sentencia que Anjo está metido até ao pescoço no mundo do crime das drogas, se droga de fato base ao crime ou já o crime em si como necessário à definição; e qual mesmo seria a definição perfeita de crime!? Bem. O vizinho completa categórico baseado na experiência de cabelos nevando: quem nisso, não se livra jamais... nem da polícia nem dos bandidos. E acresce maldoso ou apenas indignado umas reticências aos olhares em suspense. Muito na roda se fala pouco se esclarece nada com base sólida.
Tais abordagens têm alguma razão de existir visto as discussões entre a mãe e o filho recentemente se acalorarem e mais muito mais pelo que se observando no portão de Bia e na rua, incluindo o pedaço entre seu portão e a parede de placa da rua de Maria Gorda.
Aqui entram os carros. Os carros quase sempre metálicos brilhantes a brilhar sua lataria de plástico e, equivalendo, os transtornos na arrumação mecânica dos veículos, agora aparecem motos e autos de Anjo ou dos seus amigos, a mãe insistindo apostrofar amigos às suas amigas, como a velha Maria comadre. Todo mundo do mundo de Anjo ali a badernar, sem intenção de badernar, estando quiçá inocentemente a ajudar Jo, desse jeito se dirigem eles a tratá-lo. Assim mesmo a fazer um barulhão a mexer remexer peças baldes esguichos e martelos, o martelo como ferramenta mais útil à inutilidade segundo Bia. Bia não suporta e por vezes sai de casa embora desempregada ou agora empregada no afazer doméstico na residência melhorada por João nos ajeitos de fim de semana comum nas propriedades da periferia. Sai por não aguentar a turma; o filho desatende na ralhação materna, se ouve não escuta, usa do subterfúgio de se pôr meio surdo, desperta com “oi!” porém não escuta a mãe, a mãe vai às queixas com vizinhos (ou estouraria de raiva!) tem uma vizinha que é aparentada meio prima meio sobrinha vinda da mesma roça à mesma periferia morar; e é ali, ali em casa da outra, que Bia se esconde da realidade que fere seu lar. Conversam horas, o filho da prima tem o mérito de não faltar com o respeito à mãe no entanto não é como dizem no bairro flor de se cheirar; elas comparam seus respectivos rebentos e desgostos, se desgosto apenas... Contudo Bia bate na porta errada... Acontece que ambas vivem como afirmam cancioneiros populares “entre tapas e beijos” ou seja uma não confia na outra na relação familial e até algumas entre milhares de facetas nas confissões mútuas que essas amigas usam e abusam por vezes, algumas facetas são sonegadas por Bia frente a Du (um abreviativo de Dulce, de Eduarda?) ela não se abre com a parenta em certos aspectos, como naquele caso dum recente aviso ou sobreaviso de haver Anjo sido flagrado pela lei transportando no seu carrão incerto condenado a vinte anos de prisão. Todavia outras pequenas mazelas e uma infinidade de informes a tia passa à sobrinha, então chora a descarregar a diminuir o infortúnio. Passa à outra, muito embora a acusando frequente pérfida falsa má – o que valeu a desvalia de ficarem ambas parentas sem conversar um ano, milênio pra quem se habitue a confiar diário os senões ao íntimo, ‘íntima’. Corre pra ela como a salvadora, em pleno terror que é seu lar amargo lar nas mãos de pivetes já crescidos e sabe Deus se não vinculados no mundo da droga!
Na casa de João, onde mora também a filha quando brigada com o esposo, e onde manda Bia agora a fugir desse inferno que é seu paraíso ou devera ter sido; na casa de João ocorre o normal naquele comum, que mais e mais acontece; uma espécie de comum de tanto incomum acontecer... Os rapazes, tem só dois ou três como tratam “de menor” os demais são adultos; têm os adultos claro como o dono da casa, filho de João, dono aos de fora, Anjo passa dos vinte anos mas aparece aí frequente um de trinta ou quarenta, sujeito esquisito que se impõe aos presentes. Hora que outra fecha a cara, as mais das vezes sorri medido e enigmático; assim determina o fazer naquela tarefa ingrata infame se se quiser. Isto que pela aparência a vizinhança pode tomar por lavagem limpeza arrumação a embelezar os carros. Nesse encontro têm uns garotões que agora não estão a empinar suas motos e sim a chegar brincar gritar e sair a tataratar as motos, fazem mais: aceleram a xingar uma rua já habituada a ser ofendida. Por vezes se juntam três quatro cinco motocicletas no portão e o barulho ensurdecedor se funde se refunde com o barulho já ali antes existente a confundir o mundo em volta – daí se pergunta: Bia não terá razão, ao menos à de enlouquecer!
O presumido amigo ou ‘amigo’ na função de chefia dá instrução, ora em tom de brincadeira a falar amenidades; ou em tom sério decidido e sem contradita, ótimo aos que mandam ou até imperam. Faça isto, coloque aquilo, mude a coisa, cuidado (aqui ofende a mãe distante de quantos próximo) cuidado com esta peça! vale ouro...
O interessante é de no barulho ora infernal ora barulho ameno tolerável manso controlado educado inclusive, interessante é que mesmo nos ânimos exaltados quando da desnecessidade dum desmando – não escapar frequente daquelas bocas nada angélicas os nomes feios. Quando do início impossível de aclarar mas início desse começo e os garotinhos na assembleia da rua de cima, os impropérios por qualquer razão já não eram comuns. O que na linguagem da rua chega a ser falta de abuso, pois não se escolhe hora para ofertar palavrões e ofender quem ofender, mesmo sem estar nessa hora realmente desejando rebaixar por exemplo a figura da mãe e mais voltado a desfigurar o filho próximo da mãe distante. No entanto sobrando outros ferinos adjetivos; sem ofender demais o ofendido, nem decerto o ofensor desejando ir além do que é realmente o da boca pra fora, comum entre companheiros de rua. Assim também agora na rua sem nome por volta do portão de Maria ofertar suas prendas comadres à comadre Bia; esta nem se encontrando, estando em fuga até compreensível a uma falsa amiga parenta fingida.
Lá ali aqui dentro da garagem de João, enquanto João às voltas por Santa Isabel com sua moto e na garupa quem levar, enquanto isso a mulher dele chora as mágoas pra Du a fim de se sentir menos pesada no chumbo que leva no seu viver rasteiro; enquanto também, os jovens alisam remexem a mais semelhar oficina de conserto que residência honesta sadia digna; e a algazarra é grande, o menos ouvido o dono da casa, pois Anjo não aprecia gritar e gritaria o abuso dos meninos; porém antes necessitando ferir o abuso ditado por ele mesmo e/ou por seu superior. Chega o estranho, demais conhecido pelo magote naquele embelezar veículos.
É um homem de rosto vincado, moreno menos escuro que a maioria dos presentes, tem um cacoete de a todo momento tocar o indicador no boné sem que se perceba isso; é obstinado fala baixo e pouco; o bastante para prender a atenção dos outros; inclusive Anjo fica junto dele e permanece mais esperto que os colegas, colegas de arruaças como diz o vizinho vendo todo fim de semana os meninos na esquina magra e pobre da Gorda, onde conversam abobrinhas ou aguardam ordens ou uma colher de chá a receber algum cigarro... Falam e mais fala um entre eles que destrambelha conversa alto e quase sem nexo, um sem ligado contínuo a outro sem nexo, e isso é a tônica do que vê sem necessidade ver o vizinho da frente de João, lá o movimento da esquina. Agora estão embelezando o carro prateado de Anjo, quando chega o estranho, estranho sim e demais sabido da turba do barulho. Calam-se ou ficam em prontidão a falar baixinho ciciando e a se esconder nas tarefas de polir lataria. O homem magro desce do seu vai direto à frente do carro de Anjo, Anjo prestativo e atento permanece à sua disposição. Dá ordem nada explícita aos jovens a tomar um conjunto de peças de frente do automóvel dele, posta dentro nos bancos traseiros; faz com que retirem o conjunto equivalente do carro de Anjo, rodas e pneus adredemente extraídos; assim tiram uma põem no lugar o outro conjunto acoplado de peças; exige que se recoloque as rodas no encaixe do veículo do dono da casa; e indica porem a gerigonça anterior dentro do seu carro, um preto novo usado lustrado. Limpam as mãos os trabalhadores, inclusive Anjo com as suas emporcalhadas de graxa e aí exalando um cheiro de petróleo tanto do de limpeza quanto do tanque de combustível no ajeito no aperto de parafusos e porcas e da remoção na sujeira que manchara a lataria do prateado. Após, o limpamento de tudo com muito friccionar. Por isso o carro devolve e reflete sombras e imagens humanas.
Assim se fez assim se repetiu mil vezes em mil dias, quase na intermitência de duas ou três vezes por semana, no dia claro às vistas dos que veem, observado por vizinhos ou curiosos. Nada que contrarie a lei uns ilegais... Questão mecânica simples!? Foram tantas as oportunidades em que Anjo abaixou seus carros nesse espaço, não para ferir irreverentemente a lei, decerto por outra razão. Mil vezes a repetir também o inverso não rebaixando mas exato ao pôr o veículo nos moldes que dispõem as leis de trânsito. Para desfazer refazer disparar de novo a curiosidade velha de quem passe a passar, rebaixando a altura e mais a frente do automóvel, talvez resolvido por fim a afrontar a lei... ora a lei ensina a História. Só alterando por uns meses o estilo ao trocar o automóvel por uma camionete prateada, o metálico de sua preferência; o carro tendo uma cobertura de lona preta para guardar (“esconder” grita o vizinho enxerido) ou neutralizar curiosidades desnecessárias. Então saía voltava carregava descarregava nesse período – sempre sob olhares severos do homem estranho – e por fim sumia; sumia na noite dos que fogem ou não a temem. Bia a falar que se alongando; João a justificar o filho por aí com amigos, a irmã desconversando ou simplesmente desconhecendo desconhecidos. De repente (num repetir e repetir) aí está Anjo de retorno com seu metálico: encosta manobra afasta entra encaixa a carroceria do veículo embutindo a mesma dentro da Gorda, da casa mal falada onde as filhas descartam a verdade quanto podem e fazem suas coisas proibidas ou não, como aplacar o choro das netas da Maria Gorda. E o carro é fechado quase lacrado pesado, logo desencaixa sai some; e Anjo desaparece. Depois torna, brinca com os colegas num sorriso amigo, briga com a mãe, xinga a mesma daquele nome sem se perturbar com a alma talvez impura sujando mais ainda sua avó, para Bia chorar; antes grita com o filho e os colegas por tabela, aí os colegas ficam numa situação embaraçosa incomodados num constrangimento de dar pena: não sabem o que dizer e por isso fazem isto isso aquilo ali acolá, silenciam finalmente e dessa maneira é mais uma genitora que cala os filhos das outras mães, sim eles devem ter mãe; a rigor são meninos bons e não ofendem ninguém; sequer o Anjo fere propositalmente outrem, outrem não sendo Beatriz. Então fica feroz, atinge a mulher que lhe oportunou vir ao mundo com ajuda da velha Chiquinha, atinge a mãe no que possa ser mais ofensivo, denigre a família inteira, rebaixa nervoso o pai com suas verdades descontroladas – tudo em rebate à língua materna, não se sabendo se totalmente sem razão...
Daí, arrumada ao gosto sua condução, advinda no princípio pela apropriação do bem da casa, mormente as finanças de João; daí funciona, sai do aperto de garagem que é a garagem, sai de vez... Entretanto não canta por enraivecido os pneus como é comum se ver na juventude, tanto quanto não empinando ou acelerando loucamente a moto agora o carro. Dir-se-ia Anjo um homem manso ordeiro, trabalhador inclusive, até prova em contrário. O contrário visto agora com olhos bem abertos e o cérebro cheio de matemática e lógica, poderá provar mesmo o contrário. Sim sim, indagar-se-á donde extrai os meios a camuflar não propriamente uma existência de rico porém uma vida própria ao sonhador pequeno burguês, longe da origem simples e um pouco simplória no campo donde os pais. Não é entretanto obrigatória a conclusão e até sendo óbvio que nem todas perguntas tenham respostas...

15° - A crise. Chovia; não a chuva tempestuosa arrasadora mas aquela mansa de chuvisco de verão, teimosa perene!? um nunca acabar provocando o desânimo após semana com sabor de milênio ao homem comum sempre curto – e isso atingindo todos porém o homem da rua imagina o desabe do mundo apenas sobre si e o mundo mui pesado. Assim também as lágrimas de Bia tentavam provar a crise que a senhora vivia, ela já com mechas brancas espalhadas por toda cabeça, a mãe de Anjo não pintando o cabelo, aqui num discurso errado ou torto da vaidade atual; enfim não tendo tantos anos quanto o sofrimento lhe impunha. Nem se tingindo João ou por calvo precocemente ou por não ter fios claros ou ainda porque macho daquela espécie ocupado demais a ganhar o sustento dos seus não lhe sobrando tempo a ficar sofrendo vaidades. Fran em nova colocação no comércio entretanto na velha crise conjugal e portanto na casa dos pais e fora a trabalho. Bia pensava insistente não apenas nos tempos pregressos ricos nas perdas e desarranjos sentimentais e se fixava então no filho – tudo no lar girando em torno de Anjo. A proposta inicial fora de um anjo que se desenhara na mente, virara hoje o inferno que o jovem ofertara ao cair no mundo do crime. Aquela antiga questão de os pais acharem que as sujeiras sejam só a tristeza doutras famílias: viviam a horrorosa situação de abandonar a camuflagem das sujidades e pôr a claro o escuro. Todos por todos anos de convivência no bairro e mais na rua sem nome disfarçada com asfalto e serviços urbanos, todos sabendo... Aliás a rua se movimentava muito agora e agora o revestimento estourava se rachava os buracos aumentavam e a ladrona! a ladrona cobradora não sanava os problemas, a população reclamava, reclamava também pela sujeira o ajuntamento de comadres a varrer acumulada a sujeira. A sujeira da vida de Anjo o assunto mais ventilado, já comentado quase às claras (o saboroso dito caboclo afirma “é preciso dar nomes aos bois”). A periferia a viver uma crise bem configurada. A casa de João onde a língua de Bia mandando vivia a lágrima dela. Foi nesse ponto crítico tornar Anjo.
A crise. Entra o rapaz numa tarde a se acabar os ponteiros indicando só horas depois o fim, não o fim do começo porém o final de discussão acalorada molhada por lágrimas maternas – e o fim dum relacionamento familial. A rigor entre parentes não existirá jamais um fim. Inclusive pensadores garantem a continuação do convívio além da morte; contudo não é a morte o importante aqui onde a caneta rabisca seus garranchos mas a vida, parte dela a que muitos têm por existência. Uma existência sofrida, mormente nos últimos meses quando se descobre que Anjo não chegara a anjo: até pelo contrário...
Entra na casa fria – a solidão chega ser congeladora – só Beatriz a curtir-realimentar se autodestruir obsessivamente no filho, na situação do filho, situação caótica em que se metera e a gente do povo caracteriza como sem porta de saída. Ninguém mais, mais um pouco viriam acrescentar lenha na fogueira, Anjo no lar amargo lar era sempre a fogueira a incendiar a casa. Chega o pai, quase imediato Fran e o bate-boca se extrema se enriquece não esquece reposta a miséria e as feridas de anos. As cartas ao fim do calor da linguagem se põem à mesa nas decisões somente admitidas no absurdo ou na loucura, a loucura também um absurdo na realidade. Essa a verdade.
Ninguém pôde, aqui seria novo absurdo caso pudesse, ninguém de fora pôde dar palpite, igual pôr-se numa briga conjugal e nisto não é um desentendimento do casal mas da casa inteira tendo o pivô da questão agora a esbravejar, não mostrando sua cara intraduzível de raposa nem a se defender fugir se esconder num mero e descompromissado “oi”. Beatriz que instantes atrás vivia no pensar na plena solidão da casa, o barulho lá fora devendo ser enorme não ouvia, ela que vivia essa morte tivera uma experiência e tanto, inclusive sorriu no fim a suspender num lapso a lágrima da tristeza: no copo da talha as gotas a última fez o líquido derramar esparramar desde a borda ao exterior liso e ao chão da pia limpa Bia limpíssima; percebeu no instante a borda como que inchada crescida estufada além do nível em todo o recipiente de vidro a transparecer o cristal, embora o vasilhame usadíssimo por toda casa e já sob ação do tempo virando um vidro de claro limpo em baço claro ainda, como que sujo embaciado (grave a uma doméstica demais preocupada com higiene e aparência de toda cozinha) o sujo do velho do uso do tempo do cansaço no excesso e logo mui logo se quebraria o copo quedado espatifado ao solo também velho entretanto limpo então agora manchado por cacos, cacos perigosos... a sujeira o corte o sangue o pronto-socorro! ah dona Beatriz excessivamente preocupada e aqui não entra Anjo, entra sim: é o pomo da questão inclusive quando passivamente se pense nele por causa dele por causa de suas andanças mal constatadas bem lembradas na rua sem nome e o figurão e a Maria Gorda e os outros nesse afundar que a gente da casa precisa esconder...
Foi nesse exato momento, sorria, o coração chorou como que pelo cientificar-se da entrada do filho. O filho desligou carro prata no portão à porta da casa, no rebaixamento da guia limpa, então as comadres já haviam sujado a rua daí limpavam a rua a sarjeta a varrer a conversar e nesse antes não se falando de Anjo a mãe presente com sua vassoura a pazinha o saco aberto... oh sim, fala-se o que se pode dizer dos feitos de um Anjo quando anjo; das coisas da rua, que sejam dos membros da rua na rua e do Anjo também por que não? “Anjo está fazendo vinte e dois anos neste ano” afirma por fora alegre menos triste Beatriz a todas marias de ouvido ali.
Preocupado nervoso desce passa entra desencosta a porta penetra o recinto do lar doce lar o lar com sua amargura estampada flagrada no rosto materno porém isso ele não observa, vê a velha só e a lavar esfregar pôr secar no escorredor uns tralheres dos trens de cozinha na cozinha e começa aí a pancadaria. Não bate não se bate se estrangulam de boca – inferno a iniciar o inferno que seriam as próximas horas. O sol se põe, põe o lusco-fusco entra o escuro da noite, a noite se inicia a acabar a relação da família, ao menos no que tange ao filho único macho da série de anjinhos que a roça concebeu a periferia encaminhou ao cemitério. Ele enfrenta os seus; cada um a chegar logo na residência entra na discussão como fora doutor no assunto, com muita razão pois vinculados conhecedores a fundo e até vítimas de Anjo. Põem as cartas na mesa, remexem os fatos – Anja? ora traidora ora traída; o trabalho? faz muito o rapaz não coloca a moto na rua a transportar alguém. Aliás é nisto o grave na conversa ao nível de todas orelhas até as aí da rua desta periferia antigamente tão miserável, visto qualquer um poder ouvir. Anjo quer exige mesmo que o pai assine documento para que adquira outra motocicleta zero quilômetro, num preço exorbitante a bolsos vazios; grita, gritam-se! se ofendem. A mãe intervém, não: a mãe toma peito diante a fragilidade na argumentação e na decisão do seu homem; os gritos dizem à rua inteira ouvir que se assim for, se se fizer negócio dessa ordem, que Anjo precisaria vender muito mais droga que as drogas de agora. Isto resolve o irresoluto: Anjo então berra, grita na mesma intensidade da mãe embora se voltando ao pai “de agora em diante negociarei com o que quiser e saio daqui!” Beatriz manobra põe com jeito panos, panos já mornos já frios, lembra sem forças no auge da discussão que o filho irá arrepender-se e que... não a deixa terminar – inicia imediato aos resmungos dos familiares sua mudança. Para onde? Translada ao carro, por sinal não é seu sim de um da gente do bando a que serve, carrega enche o veículo. Aqui se encaixa a tevê que se não encaixa bem ao entrar no auto e o olhar atarantado das janelas das casas vizinhas.
Contudo essa é somente a primeira parte da última fase da crise...

16° - É o fim. Seria o fim da crise caso crise tenha final? seria o fim duma estória baseada nos fatos vistos na rua com figurão com placa com gordos na sua miséria? seria tão só o fim da tinta duma caneta transparente?
Anjo some, os pais constrangidos falam por alto a justificar o sumiço; a irmã nem fala coisa alguma, inclusive foge sempre da conversa de rua dessa rua sem nome na periferia suja; em geral faz ela tudo para não parecer da família, ora no emprego ora em sua casinha com seu companheiro; não obstante estaciona agora sua moto educada silenciosa do tipo feminino de motocicleta, aí muda de teor: no lar amargo lar de Bia borbulha elinha com os demais na fala normal, quer dizer gritada e com direito a voto; costuma tomar o partido dos genitores contra os desandos do irmão. O irmão se encontra agora longe, podendo andar próximo quem sabe... Ele faz o que faz e talvez o melhor a fazer no melhor estilo.
Anteriormente... um dia João precisou interferir; juntou um dinheirinho e foi pagar a fiança do rapaz num país vizinho nas fronteiras, onde preso por transportar anabolizantes. Trouxe-o com ajuda de advogados e auxílio pecuniário de Anja, interessada em ter Anjo pra si ou por amá-lo. Todavia não se emendou após a experiência traumática, prosseguiu com sua gente nos negócios escusos escuros, aqui já no país pobre rico nas esperanças de virar potência. Continuou a ‘trabalhar’ no território, parece que não por mero patriotismo. Assim a viver morar no seu quarto de solteiro na casa de João. Até desembocar na crise da tempestuosa mudança, a devolver à mãe o aparelho sagrado para assistir suas novelas, a realidade é muito dura mole mais o ver televisivo. As andanças continuaram, a bagunça na parte de oficina em que se tornou a garagem acanhada do genitor continuou, ora menos ora mais barulhenta possa o barulho barulhar mais e menos. A situação de transtornos acalmados pela rotina continuou. Os sumiços alternados de Anjo também; também as peças automotivas a ser trocadas as latarias lustradas a verdade camuflada a orelha de fora aberta a boca fechada; e afirma-se com razão que em boca fechada não entra mosquito; aliás garante a sabedoria que o que saindo por ela bem mais grave. Em suma, tudo como antes sem abrantes, tudo normal. O que vem a ser normal?
Bem. Há um escuro no dia, nos dias que antecedem e nos que sucedem a crise; por que não dizer o final da crise. Esse escuro que talvez embote um pouco a visão pública é rompido quase como que num passe de mágica. O homem da rua, desta rua e desta periferia e também doutros lugares no mundo, o ser comum adora mágica, deformando a verdade desmanchando a verdade e então não era verdade a verdade... claro. Então o escuro se rompe com lances normais, normais demais para ser verdade; lances quiçá cinematográficos, em si mágicos por execelência.
Um belo dia, ah que idiotice a figura, um, ontem, hoje, agora eis Anjo de volta. Não ele em pessoa concreta palpável, palpável e ofensiva por ofensiva a imagem que criou ou criaram em cima dele; ele torna virtualmente através da fala dos seus, os daqui de sua rua a poder já com a força que as palavras pronunciadas têm; e mais ainda pela força dos gritos sofridos de Beatriz, os comentários fracos a consolá-la no consumatum est – fora, Anjo fora detido pelos policiais! Onde quando por quê. Tendo o óbvio ou já desnecessário, pois agora a família a intensificar suas reuniões e a receber de outros aparentados e conhecidos visitas: todo mundo quer saber, se não os podres mais recentes os detalhes dos podres mais antigos misturados aos próximos. A rua quase sempre bem informada, agora informada oficialmente. Não, oficiosamente visto ninguém saber a fundo, Beatriz clamando qual no episódio do encontro da arma do filho para assassinar o sogro dele e agora a chorar alto o filho preso; nem ela nem João nem Fran inteirados e ainda os parentes ali na casa a entrar-sair-falar pouco ou quase nada sabendo das filigranas. Menos a gente de fora, fora aqueles mais próximos de Bia; enfim havendo coisas que sequer o talento e a fineza para sacar informes puderam obter  para Maria comadre (a comadre porque a Gorda totalmente inteirada...) Enfim muito saber em torno do quase nada. O povo cria castelos, às vezes faustosos, com meia dúzia de tijolos. Nada.
Tudo ainda a esclarecer. Apenas concreto a afirmativa da detenção, nada mais que isso. A interferência de advogados para soltá-lo? e o dinheirão dispendido pela família pobre empobrecida a remar contra a corrente da existência? Tudo por alto, o que já é um não-saber.
Dois dias após, ei-lo são e salvo; decerto salvo pra Bia. Aparece a entrar-sair-tornar à porta da residência, aqui a conversa é intensa porém abafada naquilo que não se esconde ao sol. Entretanto o alvará de soltura vence ou é cassado, a lei vem requisitar Anjo. Claro, no escuro não o encontra: esconde-se onde sequer os de casa tendo conhecimento.
De repente tudo se esclarece; menos o escuro no viver do sujeito. O vizinho – aquele? aquele entrão, então a passar na esquina do reduto da Gorda – o vizinho constata e mais constata na dedução do que vê: vê ouve a gente nas imediações a comentar, tem uma jovem bela mãe e mãe é santa enquanto dá à luz, essa com nenê ao colo e mui assustada conversando com outras mulheres sobre a cena da fuga de Anjo; por sinal alojado na casa suspeita da ‘santa’, o bebê em questão é netinho da Gorda; então aparece ali a lei, seus guardiões fardados encontraram na madrugada sinais do fugitivo, vasculham nas imediações para terem decepção e relatam o fracasso da incumbência; aí bem na hora da passagem do vizinho xereta chegam os guardiães civis, um casal, ela bonita e não tagarela a ninguém apenas anota na prancheta, passa compara informes aos do parceiro, este policial entra na Gorda, examina as dependências e relata após também investigar moradas vizinhas dizendo no celular aos chefes: de fato Anjo andara parado escondido nas dependências da traficante, os vestígios são contundentes. Enfatiza à central o fugitivo haver escapado por um alçapão (decerto aberto para tais emergências que todos sabem sem ver). Do teto da casa pulou espetacularmente para mais duas outras residências, deslizou no telhado e fugiu pela terceira casa vizinha, deu no pé “deu no pé” repete o funcionário, portanto cumprindo normas legais e funcionais na burocracia, daí rabisca um pouco na ficha, fecha o celular põe-no nos bolsos, ao arregalo do vizinho falto de visão e bom de orelha, o qual dá sinal agora ao ônibus circular que circula também na periferia não mais miserável pobre e por isso um pouco rica, vai atrás de suas coisas. Já o casal da lei cumpre a lei, troca informações balança as duas cabeças e encerra com uma sentença: missão comprida, ligam o carro. A rua tem alimento por mais uma semana.
Agora, no agora do após, o advogado de Anjo às expensas de João consegue outra ação provisória e o rapaz vive uns dias tranquilos quiçá felizes (aqui entra de novo talvez a língua da mãe) mas assim como todos sujeitos aos ânimos da lei e da lei dos funcionários, não tem paz. Olha, sai de leve na porta e da porta ao portão e não dorme tranquilamente, assegura Beatriz. Enquanto o pai trabalha adoidado em não endoidar para ao menos ter meios de tirar o filho da encrenca; Fran revolve seus bens e traz alguns trocados, após decerto aguentar falatório do seu homem visto o cunhado de Anjo não avalizar, antes que isso chama a atenção da esposa. O pior é o moço não aguentar dentro de casa, talvez perdoe a peroração materna porém é duro ficar trancafiado na liberdade... Sai, visita a Gorda, contata amigos, ‘amigos’ insiste Bia, o celular não para fala recebe. Reaparecem os lustradores de carro; com a vantagem de agora andarem menos entusiasmados e barulhentos; e o homem estranho não aparece pelas redondezas, quem sabe por suas próprias razões nada afetas ao imbróglio em que se encontra metido Anjo nestes dias... De maneira que o rapaz não para; corre à esquina, decerto apreciar ou a mãe jovem e bela ou o netinho da Gorda; ou ainda por outro motivo. O fato é não parar, enquanto o resguardo da ação de liberdade provisória.
De repente, os repentes costumam ter frequência; de repente chega ao termo a provisória, os lustradores de carro e moto somem, somem inclusive de suas reuniões informais na frente da Gorda, sendo possível não estivessem reunidos a soletrar a placa com nome de figurão. Somem, pronto. E Anjo não mais é visto também. Lá vem de novo o escuro...

17° - É o fim. O fim não havia acabado! Era o começo do fim o capítulo anterior, agora o fim do fim; o que pode bem caber num escuro.
Dona Beatriz não age como nos episódios semelhantes já tratados, se tomando por escândalo. Sente sofre chora não estardalhaça, doutro lado não chora escondido: toda a família a chorar a situação terrível de Anjo. Não sabendo onde se meteu. Chegam os pais a dar plantão na esquina na espera da Gorda ofertar esmola com vibração de presente (soçobrado o coração paterno tem dessas infelicidades:) uma esmolinha sobre o paradeiro do seu menino. Um homem mesmo de barba na cara, e Anjo imberbe na sua feição de raposa, um homem ao pai à mãe o menino. Entretanto a mulherona sonega informes, diz por alto, cita exemplos doutros procurados da lei – conhece a fundo na larga experiência no trato com viciados, ela fala “nóias”, no lidar com os trâmites da burocracia policial e da judicial, já foi interrogada mil vezes, mil e uma vezes escapulindo; conhece como doutora a área e seus caminhos corruptos; não fosse assim ainda uma sábia por representar na ativa o namorado traficante condenado. Enfim uma expert na coisa. Contudo sonega e o casal de coração preso na ansiedade insiste desiste. Antes a insistência é tanto tanto tanto que a Gorda explode: berra ao casal sofrido, berra à vizinhança, berra à vila inteira emporcalhando ouvidos! Isto porque entrou dinheiro na questão, a traficante exige dos pais de sua vítima pagamento por possíveis danos morais; João não tem meios e a algoz berra finalmente que fique ele com o dinheiro ‘dela’. Tornam os pais envergonhados para sua casa. Volta a situação ao normal. Quê seria normal!
Por fim... ah existe portanto o fim e como não haver, haveriam apenas os começos? Nada absurdo que se fale agora que agora Anjo foi com seu advogado se entregar. Não terá antes os polícias prendido o fugitivo? A família não esclarece; se bem que ninguém com a coragem bastante a pedir a verdade; nesta hipótese inclusive podendo se juntar a Comadre Maria e as outras marias, toda gente a comentar ainda em surdina.
Até chegar a um ponto xis; este o momento em que o vizinho abelhudo procura Bia, claro não para ajudar a vizinha juntar o lixo varrido na sua frente claro. Quer saber como andam as coisas ligadas ao filho. Se põe como já soubesse desejando só confirmações do óbvio. Ela é solícita ou porque educada mesmo ou por vencida no cansaço do turbilhão nos dramas que submete e impõe o caso à casa.
Anjo? Estava preso na cadeia, Santa Isabel não tem mais cadeia agora só presídio aos julgados e condenados, os fora da lei presos na lei vão detidos nas cidades próximas. Daí trouxeram ele para uma sessão de reconhecimento das possíveis vítimas dos seus ‘amiguinhos’ – sabido que usuários de drogas não dão queixa nem se apresentam na delegacia a testemunhar nem a reconhecer os que os ludibriam – e por isso à disposição ontem; ontem, diz a sofredora criatura, ontem pudemos vê-lo, magro desfeito faminto (Bia soluça) creia que precisamos até levar marmita ao infeliz, porque não estava previsto sua boca a mais na delegacia de Santa Isabel. Voltamos pra casa...
Não precisou a vizinha ao vizinho dizer ela descambada ao choro, qualquer mãe verteria lágrimas no contato dum filho nesse estado. O resto quase que se pode adivinhar sem esforço.
O que a gente da rua sem nome em nome da esperança pode acrescentar às dores de uma genitora já não mais santa porém santa purificada ou purificando pelo acerbo sofrer!? Quase nada, ao que se adiciona também o nada das palavras que vestem oco a ideia.
Não há até ontem, hoje quem sabe, não há coisa alguma confiável a levantar com precisão na situação do detido, se é que  haja bastante prova a encher os autos (não se referindo aqui ao brilho de carros metálicos...) Nada há para o homem da rua sem nome numa periferia pobre sobre os meandros burocráticos, os sigilosos nem se fale mas os comprováveis por força da lei; também isto é nada ao analfabeto que só vê curto informes informais e os da formalização na telinha com suas propagandas. Contudo algo chega à rua meio como que lhe presenteando com nome – e não seria nisto o de um herói negativo? – que foi algo que, se não desmontou uma família demais sofredora, tirou-lhe a voz que ainda servia para os debates internos na casa do portão da garagem e dos silêncios os quais também viraram intermitentes tanto quanto o inferno da anterior bagunça (bagunça na linguagem de Bia quando não prostrada e dopada pelas tarjas pretas da saúde pública, igualmente enferma). Anjo fugiu de novo. Procurado caçado encontrado morto no escuro.
Na rua ainda sem nome na placa, a placa com nome dum político desconhecido, nela se comenta o mais baixo possível para não ferir suscetibilidades que a polícia fala que foram os bandidos; os bandidos falam que foi a polícia. Os registros, sem liberação do corpo, as transcrições enfim rebuscam nos termos jurídicos a causa mortis e a forma do crime, a contentar imprensa marrom e deixam o fator ‘quem’ para outra geração. Nada que possa satisfazer uma esferográfica exigente.
Marília   março  2014


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