quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Luz no Túnel


Luz no Túnel

I – Penso, logo existo?! Quê é existir? quê é luz, quê é dia, quê é outrem, quê é não-existir? – quê é sofrer sei bem, talvez possa defender inclusive tese sobre o assunto... mas para que defender? acho endoidar e desaparecer, antes de a defender. Nisto não me vale se estando de um lado a torcer – a torcer por mim mesmo! que absurdo; quê é absurdo? – não me vale, não valho nada no estado em que me encontro. Encontro, quando busco, encontro a lembrança e nela o sofrer; sou doutor na matéria; sei mais um pouco; por exemplo, essa luzinha que está aí em cima; de que será feita. Antigamente, já não sabendo quando o antigamente, então se fazia de vidro, quase uma casquinha de vidro, um lume pequeno na parte central da mesma, uma espécie de arame minúsculo e fino, que, certamente, ao contato do polo negativo com o positivo dando um choque: isso a luz! Nem sei se é assim, nós os leigos desconhecemos inclusive o funcionamento dessa formidável máquina que é nosso próprio corpo... como saberíamos o funcionamento e como explicaríamos a luminosidade. Enfim já estou me colocando como membro do todo social, na humanindade conhecida; quem sabe se não no descuido momentâneo que é a eternidade de minha dor! ah, não quero lembrar-me dessa dor, estou a me lembrar dela, procurando fugir dela, ela que cobra age faz-me sofrer. Agora querem apagar a luz...

II – Lembro-me, feliz (ih quê é felicidade?) feliz sim, estou me lembrando de meu ontem. Ontem para mim é o antes desta câmara de tortura em que me encontro, ou na qual me pôs a família, oh nem quero pensar nela e já penso, quem sabe se não constrangido. Contudo a lembrança é feliz, do momento feliz em que vivi, e não sabia, sabemos apenas que algo existe quando não mais existe – e isto é a contradição, a contradição é o ser humano, o humano comum como sou; serei? pois me descubro comum, para deixar assim ser comum, o comum dos homens não pensa nestes termos, e, portanto, não descobre. Era feliz, agora o sei.
Saía de casa às vezes de madrugada, andava perdido na escuridão da noite até à garagem da empresa; não poderia contar com ônibus, raro nessa hora e, havendo, não havendo dinheiro a gastar no coletivo: vivia meu sofrer próximo, o sofrer da crise financeira, não tão longe do sofrer futuro distante, o qual me liquida neste momento a vida física. Chegava ao escritório, cansado já, para o início do trabalho. Deixara a mulher sonolenta a resmungar porque o homem da casa (assim dizia ela de mim) por ele, eu,  não ter o que lhe deixar às despesas domésticas! E agora chamo a isso felicidade! a linguagem humana é deficiente.No entanto era um de meus momentos felizes: as pernas fortes, o pulmão que eu envenenava com tabaco também forte, o ânimo forte. Inclusive sorria ao vigilante em guarda na garagem, “bom dia seu Zé”. Um dedinho de prosa. Funcionava meu caminhão; não era meu, quê é propriedade? a gente tudo diz de tudo ser da gente. Tratava com carinho aquela enxada de trabalho. Conferia a carga, os papéis. Ao raiar o sol, ou a chuva a continuar desde a noite, daí pronto à viagem. Saía.
O sol, o caminho, o trânsito, a falha, a peça, a troca, a oficina, a entrega, o retornar, o trabalho cansativo enfim, enfim o retornar. Garagem, “tudo bem, seu Zé?” Conferíamos os documentos; entregava o veículo, a documentação dele, as chaves. Voltava escuro para o lar; as pernas bambas, a musculatura a ansiar o sofá de televisão com os meus. Em geral dormia antes do final da novela, quase não ouvia os desentendimentos dos meninos na sala. Aí a cama o ronco, ela a reclamar pelo ronco a me cotucar o sonho; a me pegar no pé durante o domingo, por eu só pensar em dormir e no cigarro. Um dia queimei o travesseiro dormindo com o pito aceso. “Só pensa nisso, não pensa!” advertia-me a esposa. Faltava dinheiro, faltava comida, faltava paz, depois faltava emprego. Quê é falta? A crise se instalou no país, ficou morando lá em casa. Mas a crise não veio sozinha. Dizem que o mal sempre vem acompanhado... Comecei a sentir (quê é início?) comecei com umas dores aqui de lado. Era o sofrer.

III – Sofrer, sofrer próximo, sofrer distante, quê é distância? sofri anos a família. E não sabia? talvez não soubesse, não soubesse o quanto sei; porque em matéria de sofrer me fiz doutor. Sofria pela tromba caída. Era um homem sem ser homem. A gente do povo, embora desconheça nobreza como os séculos puseram na nobreza, ela desconhece a honra – quê é honra? – a gente tem no machismo seu melhor e mais puro disparate; exige aceitação exemplo atuação como macho ao macho, cobra-se; machos e fêmeas da espécie cobram de todos uma postura de homem, no tipo ‘homem a valer’ e quê é validade? Todos cobram, exigem, não se pensa, em não pensar; todos assim a pensar que pensam. A tromba andava a esfregar se esfolando no chão... Recebia, veladamente da mulher, descaradamente dos filhos, insultos. Gozavam-me a fraqueza e atitudes de submissão. No fim, à minha volta do bar, gozavam-me a derrota. Quê é derrota? Fugia primeiro ao sofá, inclusive a tevê me insultando; depois à cama – antes de tudo, mesmo antes do boteco, fugira ao desemprego e aos bolsos vazios; humilhavam-me a receber trocados como se dá a garotos, a fim de comprar meu cigarro; antes de tudo fugira à vergonha. Aí emborcando na cama como saída honrosa ou possível. Todavia o martírio do sofrimento em ver a consorte (e este vocábulo é uma ironia a doer) a vê-la ir ao seu trabalho na cidade, eu sem serviço. Trazia algum dinheiro a comermos todos. As crianças, agora homens feitos, uns se casaram e se arranjaram, porém os que ficaram solteiros mantiveram-se surdos à minha condição; pior: me cobravam me insultavam; um dos rapazes chegando a inventar e a caluniar sobre o pai! no começo nos chocamos bastante. A mãe jogava no time dos filhos; eu fui ficando ou de lado ou do lado do árbitro da partida; mais nesse menos – com a mãe do juiz, a receber a vaia! A isso poderia chamar sofrer! talvez. Talvez, caso desconhecesse o agora do sofrer, a luz que se esvai aí em cima, o cheiro nauseabundo dos medicamentos em volta, o fugidio som dos enfermos, ah antes fugir à felicidade do anterior sofrer...

IV – É uma fuga. Quando no horror dum momento que nos agride, fugimos sempre; mesmo seja ao sofrimento que já vencemos. Quê é vencer? o passado pode ser o presente da vitória? não sei. Sei tão somente que passei, vivi; quê é viver? Vivi minha dor particular. As dores podem tomar conformação social e serem vistas  no coletivo, é um engano; fatal quem sabe. As outras pessoas, incluindo aqui os próximos como  familiares e íntimos ou apenas conhecidos aproximados; os outros pensam estar a sofrer o sofrer do seu enfermo; aí a imaginar estar a sofrer também. Vão mais longe: falam em nome da dor doutrem, como fora outrem; dão as cartas; se pensam angelitudes a contar os sofrimentos alheios; quê é alheio? O parente, de sangue ou não, ali encostado no seu doente; todos parentes dando o veredicto ou a narrar as ondas, as voltas da dor, a agudeza dela ou a melhora e suavização vivida pelo enfermo parente, ou a dor de um próximo que viu. Contudo só quem tem a dor pode falar com categoria, como um doutor, ao circunstante; mesmo neste alvitre não terá condição absoluta a transmitir. Quê é absoluto? se não temos condições a dizer de coisas comuns e inteligíveis, como passar a outrem os mistérios da dor! como medir a dor! quando muito estabelecemos parâmetros à dor, à sua intensidade, ao seu caráter, à sua gradação. Volto pôr a questão: quê é absoluto? haverá absoluto em se tratando da dor! em se qualificando a dor! Lembro-me neste particular ter visto desde o sofá no lar uma entrevista com autoridade médica, a garantir esta falta de garantia: a faculdade de medicina não estuda a fundo a dor. Isso chocou-me o comunismo do ser; agora entretanto, sei até que ponto não se sabe a contento a propósito da dor doutrem; e aí, como estudar a dor! Não obstante sinto a dor.

 V – Ela se inicia nos tempos dos tempos, quando ainda não conscientizamos, não a dor, o sintoma dela, enfim a sua problemática. Em geral o homem relega a segundo plano o que, dir-se-ia, “dói pouco”, num quase nada dentro da existência. A gente põe em primeiro lugar as questões do ganha-pão, em meu caso o carro de entregas da empresa. Seria por um mal-jeito a dor, me perguntei. E não respondi; busquei a vivência a convivência e mais ainda o trabalho, a dispersar e afugentar as bruxas que me procuravam... Prossegui em minha jornada, ora a sentir pontadinha aqui ora uma agulhadinha sem expressão acolá, lá se ia a harmonização sem que soubesse...
Um dia foi a coluna; noutro a perna esquerda a repuxar e doer; e sempre as pontadas, elas cada vez mais insistentes e lembrativas deste esquecimento. Ora, a gente precisa ganhar a vida, mesmo estando a perder a vida, como é meu caso e meu sofrer, o qual conscientizo desde a luzinha aí em cima a fraquejar mais e mais. Daí chega o ponto crucial: procurar o médico, primeiro ouvindo-se opiniões mundanas, pois todos somos médicos neste país. Médico enfim. Enfim as férias merecidas no trabalho, se bem mal, já desempregado meses...Quê é féria? O pobre não tem descanso, nunca visita uma agência de viagens; e é comum vender o trabalhador comum dias de suas férias legais, para apagar contas ou a diminuir atrasados. A lei! quê é lei? Ninguém obedece a lei, menos o patrão, ou poucos a conhecem; vendem-se as férias, ou iria o trabalhador ficar brigando com a esposa no lar! Não tomei férias propriamente. Antes sim peguei uns dias e mais ficara a ouvir o vendeiro e os fregueses contando lorotas, que mesmo a descansar corpo e mente; e ainda a me complicar com a família pelos tragos vez por outra (me diziam familiares serem frequentes, por oposição). Agora não eram mais férias ao descanso: ao cansaço na dor! Permaneci na saúde da previdência, esta mais doente que a saúde... Férias forçadas. Aí o tempo me despediu da empresa e me atirou no desemprego comum. O comum: o doente melhora, tem alta (a qual em gente desta idade já seria ‘baixa’) – e continua doente; e continua desempregado; e continua a visitar o hospital; e continua a aguentar os trâmites burocráticos, os quais adoencem mais os enfermos necessitados; e continua a piorar até no ‘até’...

VI – Hospitalização momentânea, ao menos precária; aliás ninguém iria empregar alguém no leito não fosse o lembrete ‘terminal’; é sempre por uns dias. Hoje as associações de medicina defendem bravamente o não aceitar mais pacientes; alegam infecções hospitalares, a pouca verba, o atraso nos repasses dela pelos poderes públicos, ou é o emperramento burocrático a avolumar a situação, a burocracia nem um pouco preparada às dores humanas dos pobres e miseráveis. Tudo para essa monstruosidade vira indigente a agradar a informática corriqueira! Assim fui em férias, tornei ao lar, voltei às férias – agora vejo a luz que ou se apaga ou me apago... e isto seria o sofrer?
Sinto o cheiro dos medicamentos, ouço, cada vez mais longínquo, os ais e uis dos que me cercam, sofro a agulha o tubo o soro a dor, a dor que vem cobrante a alimentar meu eu, que debanda um pouco que seja, para voltar mais forte, a comer minha fraqueza, esta ficando sempre presente a me acordar na consciência, a minha consciência do sofrer! As escaras me sangram, grudam minha decomposição às vestes e lençóis e me vomitam meus próprios nauseabundos cheiros purulentos. Os condutos em minhas entranhas esfolam antes as fossas nasais, raspam a garganta o pênis o ânus ensanguentado. E isto seria ainda felicidade! repito: quê é felicidade? seria se se levassem em conta – levo muito por sentir – se se levasse a dor que me ingere o ser a cortar-me por dentro. Existiria ela, na gradação da maior e a menor das dores? Ainda não sei responder. A situação em que me encontro me tolhe a respiração me transfere a função natural ao artifício dos caninhos de borracha, eles a curiosar minhas entranhas!
Contudo, tem o sofrer a solidão. Quê é solidão?

VII – Se não tivesse a companheira de todos as horas, andaria mais solitário. Em volta vultos a me cercar. O doutor veio outra vez, mas quê é dia? não podendo dizer se vem diário. Tem a enfermeira, ela igualmente não sei sua frequência, sequer se é a mesma criatura e não deve ser: tinha uma que estridulava fino a voz e me senti bem, melhor ao menos, quando deixou ela de me furar; outra apreciava falar gracinhas perto de minha orelha, quando ainda ouvia, deixou de vir. Não, não é sempre a mesma. O enfermeiro sei que é, antes o via sempre, quando ainda falava, eu falava, falava com o rapaz e me respondia a contento; posteriormente percebi sua presença a miúdo. Decerto trata assim os outros pacientes. Quanto ao doutor, no presente é vulto fugidio de doutor; para ele devo ser importante; tanto que trouxe outro doutor e doutores alunos a me examinar. Nessa visita ‘vejo’ horrores, ou melhor: sinto mil dores, porque cada um aperta e bole desejando saber onde como quando dói o que dói; repetem a dose mil vezes, crendo eu haver satisfeito a curiosidade geral. Suponho-me ótima cobaia... Com tanta gente nas imediações, em volta também os parentes e as mais das vezes curiosos leigos a ter assunto para contar lá fora – contudo experimento a solidão! ninguém me transmite nada, nada podendo chegar-me – em não ser a luz neste túnel que sou eu, ainda assim mais e mais fraca à cada hora se escoando – nada mais pode atingir-me o ser, o ser destroçado que é meu eu... Antes enxergava, cheguei nesta ala, fui removido inúmeras vezes, então via razoavelmente; depois fiquei cego da vista esquerda! a audição foi sumindo sumindo, um dia acordei igualmente surdo, os sons mesmo do pessoal funcionário desapareceram; a única coisa positiva nesse negativo é que se foram ais e uis dos enfermos, inclusive os gritos lancinantes de uns poucos; preferia entretanto sofrê-los, ao estado de silêncio a me cercar... quê é paz? seria o silêncio a paz! Todavia acho que o estado mais precário ou mais sofrível nesta solidão é a mudez! Ressinto-me demais não poder comunicar o que necessário comunicar. Então penso como era bom: chegava à garagem: “olá, seu Zé” e dava uma prosinha com o velhote. Agora não falo! entrei falando pouco, rateante e mal, agora não me sai qualquer som da garganta. No começo apavorei-me, pois era bem tagarela por temperamento; com os meus ultimamente já não falava, ouvia bem seus desaforos; no botequim entretanto contava minhas estórias aos outros para que todos ríssemos. Agora... ah, isso o pior no meu estado solitário. Quiseram melhorar-me a expressão (ou despiorar!) aí deram-me caderno e uma caneta esferográfica. Então fiz umas garatujas uns garranchos e nem eu sabia que pusera nas linhas! por fim, ainda no começo, não segurava mais a caneta para escrever, desisti dessa forma a me comunicar. Parece que tudo concorre ao meu isolamento!
Diria que neste instante apenas percebo a luz aí em cima; mais tendo sombra e umas faíscas, uns lampejos de luminosidade, que luz de fato. Parecendo à interpretação ser o único detalhe de minha ligação com o mundo externo... Internamente, sou fervilhar; seja nas lembranças, seja nas lembranças das dores constantes a me ferir, sem poder quase aspirar à melhora, sem poder comunicar essa insatisfação. Isto é a solidão, como a vejo.

VIII – Vegeto. Sei que vegeto, vegeto sem o valor de um vegetal. Quê é vegetar? Sei disso. Sou um animal inanimado a sentir dor. São agulhadas, são apertões, são exames que devem fazer-me sem que meçam meu sofrer; ora, eles são os primeiros a saber a desnecessidade em cortar-me em mil pedaços e injetarem mil agulhas, eles os médicos e funcionários; sei também a praxe: depois, com diplomacia, dizem aos parentes da cobaia sua luta a salvar o terminal ser porém... Creio estarem certos a fazer o fazer. Mas por que o farão! Sim, compensa prosseguir no tratamento?
De outro lado os meus já devem estar rodeando, como formiga em torno de um naco alimentício; até os ‘vejo’: chegam, brincam, contam, recontam; agora contam o desperdício da pouca herança; apenas isso conta para eles. Discutem a herança do defunto a morrer cega surda e enigmaticamente aqui nesta cama, a qual deve estar a feder, perdi também o sentido do olfato; dizem à boca pequena que os nódulos de minha cabeça aumentam, decerto os caroços eliminaram as glândulas do cheiro além das outras. Assim me isolo ainda mais do mundo exterior, sequer descubro agora se estou numa padiola a me transportar daqui pra lá de lá pra cá como antes, este que pode ser o ‘antigamente’ já meu desconhecido.
Enquanto isso eles, os parentes famintos de novidades, para mim sempre trágicas; eles a me rodear, a conversar entre si, a falar com os doentes vizinhos para passar tempo, a terem mais assuntos picantes, em boa morbidez, para aumentar a cultura do submundo. Eles devem estar aí, neste momento, com certeza, aguardando, contando horas a matar horas suas na contabilidade social. Falam, que eu sei sempre falam, falam da herança ou das 'des-heranças' nas dívidas. Terão, suponho, se atracado, se cortado nas línguas viperinas, terão se desentendido a contento em volta desta cama, futura mesa-caixão no velório condizente... Desconhecem o que sei, já não podendo lhes dizer; nem sabem, não saberão nunca a intensidade de minhas dores.
Mas eis que, ou apagaram a luzinha, ou ela se queimando, ou sou eu a virar túnel negro... ou nem isso mais sou; quê sou eu? caso tenha sido.
Marília   outubro  2005



           

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