O Livro a Jovem as Outras
1° Introdução
Andava em torno daquela parada certo zum-zum chão e
sem violência, ao menos no tocante à violência estardalhaçosa televisiva
habitual, habitual apenas a conversa entre parentes. Não é propósito aqui nem
parênteses e nem aspas; são mesmo os parentes: mãe pai tia tia-comadre, aquele
negócio de dar o filho da gente à irmã batizar; os parentes reunidos na
pracinha da cidadezinha uma gracinha, onde comum o falar mal não é bem falar
mal, desse falar com cobrança chata da consciência. Coisa alguma: ninguém
percebe andar exagerar tratar contar aumentar, por sem intenção ferir. Contudo
narrando os parentes as suas coisas, coisas íntimas de se mostrar, em volta do
chafariz – nessa hora desacordado, isto é sem força a esborrifar esguichar suas
águas qual fonte luminosa com o povo ao redor olhando e ralhando as crianças a
elas não abusarem não se molharem não atirarem pedras e detritos outros no lago
já emporcalhado sujo a cheirar mal um pouco. Nesse lugar se reunindo a família
tardezinha dum sábado, em que se não trabalha, trabalha sim a língua... Ali no
meio ela.
Ela é ela, pronto. O que acrescer? Uma jovem (a
oposição já enxeridava um apostrofar fundo se não imundo: tia!) uma jovem
passada e um pouco disforme nas suas formas feminis. De fato gorda além, fofa
balofa e outros desaforos que se não houver olhos para ver tem o espelho a fim
de criticar; sabendo-se de sobra que os espelhos hoje em dia são desaforados
pra valer. Em suma a garota ela mesma se autodefinindo gorda, gorducha em
pensamento baixinho; e como atenuante a gente se apreciando deveras e daí a
assegurar um talvez apenas inchada; este ‘talvez’ sem grandes forças.
Ela está contida no contexto, contexto familial,
igualmente a outrem olha interessada o que falam, quem sabe haja tentado uma
bicadinha no falatório, que os mais versados pela experiência dos anos tenham
impedido ou feito à pobre orelhas moucas. Nisso se cansando a jovem e daí a se
interessar desinteressar fugir do grupo – o qual sequer a notou não ser notada
e piormente a sair do blá-blá-blá do mais falante que os demais. Enfim fugiu
dali indo certamente pra lá, onde se encontrou consigo mesma... Com um porém
importante que é ter ido acompanhada.
Alguém afoito, o leitor por exemplo, alguém pensará
amparo masculino, namorado, essas coisas. Coisas impensáveis para uma estufada
além do além do peso (a velha questão da boca abusiva e suas corrigendas: não
coma doce nem massa, caminhe faça ginástica, para essa pobre criatura em
resposta resmungar enfastiada). Não. Não resmungo rebelde, porque virgem pura e
envergonhada. A companhia? um livro, assunto doutro capítulo quiçá de toda a
novela ora na introdução.
Surrupiou-se da presença dos seus, nada por causa
das críticas que faziam nas bobagens e deslizes doutros parentes e conhecidos,
todos longe, visto na frente não se acostumar lembrar os erros só os acertos
para alimentar vaidades. Saiu, ou por não ser ouvida ou por ansiar a paz. Uma
leitura pode preencher a lacuna da falta de paz. E assim se dirigiu para ler num
recanto da praça menos barulhento sua obra; obra não sua mas do autor da
brochura; sua por havê-la adquirido num sebo. Se leu tudo não é relevante, por
vir a faltar uma que outra folha no exemplar, o que próprio de livros usados.
Se teve todo o tempo disponível à leitura, igualmente outra dúvida.
Todavia vamos ao livro.
2° O Conteúdo
a)Considerações
De início, diz o autor, devo fazer um
esclarecimento aos possíveis leitores. Este volume sai vazado em duas linguagens:
aquela padronizada e oficial, obedecendo-se a Reforma Ortográfica de 2009; e a
outra que é de domínio público, a popular, enriquecida, ou empobrecida
desvirtuada manchada pela gente do povo ordeiro (sem precisar entrar no mérito
da afirmativa...) enfim a do homem comum. Aqui certa mulher. Sem nos direcionar
na afirmativa capciosa de que o homem é a mulher. O exemplar tratado é um ser
comum; portanto de fala comum, o que poderá ferir olhos e ouvidos altamente
educados. Tem mais.
Usaremos neste espaço, ou tribuna caso desejo a defender
a tese do texto escorreito, usá-lo-emos em propósito da linguagem cifrada. Isto
apenas um artifício a fugir de imprevistos... sim, vamos admitir que os
detentores da fala popular pudessem estar a ouvir-nos! Fugir de encrencas é também
correto; e usado nestas páginas como autodefesa.
Mas, nos indagam os que apreciarem; podendo mesmo
se depreciar o texto. Mas, dirão, quem a se defender?
As páginas surgiram na conversa que o autor manteve
anos com sua irmã. Esclarecemos cuidar de nossa genitora, nesta altura não mais
caduca por já inconsciente. Para tanto contratamos como assistentes da pobre
idosa duas senhoras. Limpeza, troca de fraldas, aplicação de cremes,
administração de medicamentos; até conversar a distraí-la entrando nas tarefas
das servidoras. No correr do tempo entretanto houve desmandos e desandos.
Tentamos corrigir e pôr nos eixos a relação. Contudo a relação entre as
funcionárias é que se arruinara. Aquela entre as subalternas (ou deveria sê-lo)
pois a ligação entre elas e a patroa não foi atingida; problemático somente o
trato de empregada para empregada, que degenerou-se. Neste ponto inventamos a
ficar àcima da tona um diálogo nosso, de administradores, o autor e a mana,
inventamos a dita linguagem cifrada, inteligível tão só entre os filhos falantes,
não às senhoras...
Quanto a elas, dito já: uso da língua de rua, com
gírias e deturpações.
Sejamos honestos no expor os problemas, observando
sempre a fala de quem fala no momento, para não distorcer ainda mais a verdade
e não desvirtuar a história; ao menos a história da relação.
b)As Personagens
Indiquemo-las
por seus nomes para basear as afirmativas e os diálogos. Uma é certa senhora
demais conhecida no bairro e tida honesta boa e mesmo sentimental; enfim de moral
aceita na sua rua, especialmente em virtude de uma virtude apreciada, que é o
auxílio aos vizinhos. Essa é Dona Fariséia, registrada por Silva de sua casa
paterna; além da documentação ser antiga, tem mais de cinquenta anos mas afirma
não passar de quarenta e um, decerto em falha por esquecimento; não poderia
mesmo saber com exatidão visto ser criancinha inocente no batismo na Igreja da
Padroeira, demais sabida dos sabidos isto. Já de cabelos se não brancos
prateados ou prateando. Mãe de família, traquejada nos cuidados domésticos – o
que foi a base na escolha para cuidar de nossa genitora. Tem um outro senão que
é o acento. Acontece que a Reforma citada exige agora subtrair a acentuação no
caso de Fariséia, que aliás
teve de fato escrito seu nome inicialmente como Farizéia com zê pelo pároco e mais tarde a escola mista da
fazenda retificou para esse e configurou o hábito, assim perpetrando como escrito
agora. Todavia tudo somenos, mais pesando o valor dessa nossa vizinha então
contratada. A qual exerceu seu mister anos.
O segundo personagem a jovem senhorinha Luanda,
decerto assim registrada por interesse de seus pais na cidade africana, ou na
do país mesmo, no caso a paranaense Loanda. Não soubemos. Soubemos ser casada
descasada largada abandonada com três filhos e a lutar bravamente para tratar
dos seus. Em razão disso havermos empregado essa segunda empregada aos cuidados
no segundo período junto nossa velha. Além do fato de termos conhecimento
através de terceiros da sua alta condição moral. No fundo, após criteriosa análise
nossa dos fatos, concluímos a Luanda ter certa ingenuidade, o que é um defeito
ou qualidade dos bons e dos justos e dos apenas mansos de coração.
Isto posto o comboio seguiu em frente. Até a descoberta
da descoberta...
c)A Descoberta
Dona Fariséia não concordou, e jurou em pés juntos
não concordar, discordou do coração dos mansos dos justos e dos ingênuos.
Não é propriamente que ela tenha no decorrer do
tempo mostrado rejeitar, mas feriu assim no momento em que comunicou tal
rejeição.
Chegou-nos um dia à casa, seu trabalho, às oito
horas da manhã pontualmente e não nos atrasos costumeiros, chegou a fungar, a
soltar fogo pelas ventas; como que produto de noite de sono sem sono,
indormida, quiçá ausentes carneirinhos – sabemos que isto é da jocosidade
burguesa e dos intelectuais, o povo não conta carneiros, prefere brigar direto
com a mulher se homem ou com o esposo se mulher, xingar a oposição; enquanto o
sábio sabe a sobejo de carneiros se bem que vez que outra perca a soma deles.
Revoltada, em síntese.
Senhor Autor, sua santa mãezinha (o A. havendo com
a mana convencionado, a referir-se, sem complicar, à genitora, nessa ocasião
ainda em condições de falar, havia o de indicá-la ‘Matriz’ para despistar; mas
Fariséia não sabia disso, sendo o objetivo realmente confundir esconder a idosa
nas referências) pois sua santa mãe vive maltratada por aquela ‘coisa’...
Coisa!? Fariséia. Como assim.
É a Luanda, seu autor. Ela róba as coisa e leva pra
casa dela pros morto de fome dela comê...
Fiz cara de indignação, próprio da ingenuidade dos
mansos e dos justos. Ela:
Num concordo cum a robalhêra que vejo todos dia.
Além disso, seu homi, além anda comendo que nem lima nova a véia.
A qual velha se refere, oh Fariséia.
Ela seu autor, ela, ela é raposa véia e nova só na
idade, o senhor sabia que tenho quarenta ano, só déis mais que ela! Com minha
vida vivida, com estes óios que a terra há de comê, já vi muito dessa ladroêra:
leva óleo, leva pão, leva dinhêro seu autor – dinhêro vivo, pode cunferi na
gaveta a farta pra vê! E agora pegô pra comê demais, vai levá a mãe do senhor a
irmã do senhor e até o senhor mesmo na falência. Óia a geladêra pra prová se tô
mentindo – tinha quatro pão, tem só um pão, a sem-vergonha comeu trêis, comeu
ou levô pros fominhas dela na casa dela. Confere, seu autor, confere.
Num concordo, completou a mulher, é cum isso!
Isso me despejou enraivecida a servidora mais velha
sobre a servidora mais nova. E não se contentou naquele dia. Até romper. Antes
rompeu em choro, depois rompeu o vínculo empregatício. Noutro dia nos encostou
à parede, parede de nossa própria residência, a dizer peremptória e arrogantemente:
“ou ela ou eu”. Não deu sequer tempo para trocar ideia sobre o drama com a mana
a fim de tomar uma decisão acertada. Mesmo porque ando nervoso, não com seus
ais e seus disseram que falaram diários contra a colega de firma e adversária
se não inimiga no trabalho. De fato igualmente estourei, não medi palavras e
terei inclusive afrontado a língua oficial e sua Reforma também oficial. Fiquei
furioso, achei por bem relacionar então o passado delituoso da mestra graduada
naquele serviço de servir à nossa mãe. A senhora Fariséia, da casa dos Silva e
que apenas concordava com a inimiga, a si feroz, não concordando e concordando
apenas no sobrenome, sendo Luanda semelhantemente Silva; o que é de pasmar por
um apelido de família raro de encontrar no país, a gente diria somente a dizer
ter havido coincidência serem ambas Silva, embora a Luanda apenas Silva enquanto
a outra é ‘da’ Silva, de resto parecendo. Respondi em alto e bom som, graças
aos meus fortes pulmões, esquecendo-me das normas nobres de educação que
recebemos, a mana e eu. Respondi e ela, imediato:
Se é ansim, seu autor, deixo meu espaço para a ladrona...
E se foi para sua casa seu marido seus afazeres, a
bater os pés, em epílogo rápido de uma relação longa, longa e triste.
d)Causas Longíquas e Próximas
Tem certas coisas, certas condições das
personalidades em questão que a gente precisa esclarecer – ou o texto capenga,
manca em suas pernas que não tem. Fariséia, a personagem principal neste
imbróglio, essa é cabocla grosseira, autêntica lavradora de cabo da enxada e de
muita labuta vida toda no amanho da terra e ao mesmo tempo no lar, aquele
negócio do acúmulo de tarefas que seja na cidade seja na roça se perpetra contra
as mulheres; no lar e junto aos filhos e ao marido, tudo vindo nos conformes,
conforme o antanho exigia e que os dias de hoje copiam por conservadorismo. Não
obstante e a ferir aqui o texto, pode ser descrita em sua psicologia como
felina, certa felina rude como a gata na versão vira-lata, portanto sem pedigree algum. É de um lado fina a
saber pisar o teto de vidro quebradiço, doutro a pisar pesado tosco grosso
amassando pedras e concretos, a triturar ovos e espalhar os detritos da casca
como pó ao deus-dará. Portanto grossa e quase imediato demonstra finezas
impensáveis e inesperadas. Tudo ficando por conta da falsidade... Usa, bem,
usou a contento a hipocrisia no trato com a inimiga (não porque esta ingênua,
quiçá pura justa e de coração manso) especialmente em nossa presença ostensiva,
visto havermos estado sempre presentes, a mana mais o autor menos, presentes
mesmo estando noutros cômodos da residência materna. Ela, a Fariséia, saudosa decerto de seu
tempo como Farizéia, a pedir
a bênção e beijar a mão do padre e, ato contínuo, ganhando um santinho, que
levava a tremular pra casa. No entanto não usa ela da ironia por hábito no
linguajar, é calculista!
Dentro das filigranas do seu ser, tem lá sua
psicologia também, com suposto excesso no uso do sexto sentido feminil; enfim
dentro dessa abordagem ‘científica’ (atentemos nas apóstrofes) vamos mais longe
ainda, notando as pequenas grandes coisas. Por exemplo, entra macio leve quieta
imperceptível, como o ladrão que nos visita a galinha no escuro da noite, de
manhã entra, e o faz o dia todo também – ou seja penetra sem bater. Sim, já a
Luanda bate o portão ao entrar com grosseria flagrante, ostensiva quase nisso,
tomba a lata de lixo a escorrer e a barulhar um mundo, espalha talheres na
cozinha no limiar de entortá-los e quebrar louças... No entanto Fariséia não:
entra mansinho, imperceptível, a perceber talvez e flagrar erros ou conversas
da inimiga e dos inimigos – realmente de um tempo a esta parte começou a
ver-nos ambos irmãos como seus inimigos também mas, em boa política,
politiqueira, não disse nestes termos, observa age como na calada da noite... –
entra manso quieta, não bate: encosta somente o portão no trinco e no batente.
Aí entra de vez em seu mundo, que é a casa em que trabalha nas prendas doméstica,
ou seria como babá de idosa! Age assim a penetrar onde trabalha. Trabalhava,
nesta altura em que o autor rabisca as folhas sem saber que uns olhos gordos
(será que uma gorda de corpo, cheia de estufados e um ‘talvez’ de plantão, será
tenha igualmente os olhos gordos! não os olhos gordos da cobiça de Fariséia,
não) sem o conhecimento do autor em suma de que uma jovem robustinha a fugir do
mexerico parente esteja lendo estas páginas. Sim, trabalhava porque já falamos
deixou o serviço para a “ladrona” em seu dizer. Fariséia é portanto leve quiçá
respeitosa (sem ser respeitável!?) não somente no bater porta e portãozinho de
saída na entrada e também riscar quebrando os trens arrumando cozinha limpando
as gorduras da cuba. Ela é mansa é no falar. Entretanto, semelhante, a gata a
onça mansas miam baixo para não espantar a presa...
Todavia isto não seria um bem? Talvez, quem sabe,
decerto, certamente que somos levados assim a crer, vendo apenas a superfície,
a epiderme que veste as entranhas... Nos assusta entretanto não a colocação
pronominal, as entranhas. As de Fariséia.
Embora tais afirmativas, em nossa presença a
senhora se apresenta anos como uma servidora de alta educação. Sim, por que
para ter educação necessário frequentar Oxford ou ser interna de colégios
religiosos de freiras, caros e impensáveis a capiaus! Trouxe a ordem
educacional de sua casa na roça e do batente. Um pobre, até um miserável,
poderá ter alta educação; especialmente em se tratando possuir coração puro.
Ingênuo não sabemos, entretanto puro.
Completemos o pensamento com o item ‘e’.
e)A Segundoninha
Visto a felina, Fariséia, justo contrapor a outra
segunda. Não seria a terceira? não. Ambas segundas, somos o trio os primeiros,
a Matriz já insconsciente e o duo administrador, isto é o autor e a mana do
autor. Como o tempo de serviço dá primazia em vencimentos e na estada à
Fariséia, chamemo-la Segundona; a outra fica sendo a Segundoninha, pois
baixinha gordinha fofinha “bobinha” acresceria a Segundona. E novinha, não
passa dos trinta, seria uma balzaquiana jovem. Ingênua, apesar de
trabalhadeira, chega a ser uma intelectual e sábia criatura na culinária (a
servidora mais velha é pelo trivial arroz com feijão) visto fazer bolos
notáveis, sempre do gosto do autor, enquanto isso a mana olha o confeito de
viés e sempre aguarda de onde possa vir a cobra... Isto deve ser porque a irmã
já observa os deslizes por anos da Fariséia; e assim fica na expectativa e na
posição defender-se diante da nova empregada também; já o irmão da mana é quase
cego: não vê nada vê somente o corpo da donzela. Donzela, diga-se em passagem,
com o traquejo dum casamento desfeito e a filharada a pedir comida. Não sejamos
tão categóricos, pois o autor olha observa perscruta e conclui: sim é bela mas
fala demais, fala qual matraca. Fala; não consegue ver a jovem o universo
estonteante de fogo lavas e más intenções da colega, pensa colega afirma colega
tão só; vê por fora e as ações periféricas medidas de falsa mansuetude da
felina. Por ser pura, sem pureza nisto ou seja na palavra e sem exigir dela a
santidade que requer a justiça; por ser pura e honesta fala pelos cotovelos, a
espantar fundir a língua; sempre admitindo esteja entre ovelhas, não desconfiando
que uma é apenas de pele, dentro habita o lobo mau... Fala falando o que pensa
e pensa que outrem pensa.
De
maneira que se espantou deveras Luanda ao ser avisada pela mana, a mana do
autor: “de amanhã em diante você fará o serviço nos dois períodos”. A Fariséia?
ela anda com dor de dente ou é que o esposo não quer que saia mais de casa.
Então, quem sabe, terá pensado: ah que bom se o meu
me proibisse semelhante sair de casa, saiu ele...
3° - Os Diálogos, ai essa tal de linguagem
cifrada...
A gente – gente
é um coletivo malandro mas jeitoso em que se atulha eu ela eles e a
coleção toda de nomes próprios, próprios a se esconder – a gente acha Fariséia
andar desagradando não só a Reforma porém todos gramáticos e a Gramática,
envolvendo aqui os membros da Academia e sobretudo a desagradar bastantinho a
língua padrão. Porque, como afirmamos antes, defende a linguagem coloquial e popularesca.
Não se importa com pronomes concordâncias e a poesia no dizer. Contudo sem
qualquer rebeldia: apenas cultua a ignorância, desde que aprendeu na escolinha
da professora Maria na roça o beabá. Ora, num ponto podemos concordar com a
senhora servidora da Matriz, no fato de que com e sem escola com e sem
linguagem bela com e sem falar bonito se come se bebe se dorme se contamina e
se morre, por que não!?
De repente nos pegamos (e nos pejamos, trocadilhemos)
nos pegamos a ouvi-la gritar a alguém passante na rua, o que não sendo da conta
de ninguém, mas a responder para outra pessoa: “cê vai arrumá pra eu?” De resto
usa abusando o ‘caboclês’, uma língua mui falada entre e por migrantes expulsos
do campo à cidade pelos latifundiários. Ninguém se choca a ouvi-los, pois quase
todos assim. Aqui no lar da Matriz não, apenas Fariséia, porque Luanda erra
muito porém coloca as palavras bem na frase, concorda adequadamente e usa os vocábulos
certos, certos aos ‘urbanoides’ nascentes. Os urbanoides são citadinos de
origem rural, todavia seus filhos sofrem as rédeas do ensino oficial e melhoram
o padrão. Agora, padrão moral, são outros quinhentos... e não cabem nestas
linhas. Ela é urbanoide de última geração e por isso constrói razoavelmente as
frases. Quase abusaríamos a dizer escrever corretamente; abuso. Não é o caso da
gata manhosa que responde por Fariséia da Silva.
Em nossa presença, nós os filhos da patroa, usa com
perfeição a linguagem popular. Sem chocar, como afirmamos anteriormente.
É nesse momento que ciframos o que dizemos, para
não complicar. Digo por exemplo para a mana, a Um não fala a verdade verdadeira
quando disse em Xis tal coisa. A mana: mano, a Dois está sendo enganada na sua
crença pela hipocrisia demonstrada de Um...
Ambas sequer percebem nesse instante em que removem
restos da defecação da Matriz, na tarefa difícil no horário de junção de seus
respectivos períodos de trabalho. Não entendem, olham apenas, Luanda meio
abismada sorri santamente e retoma a meleca da patroa; Fariséia nos consulta em
interrogação muda, muda ela de posição, por pouco não se esquece estar tentando
modular o tom da voz e amaciando a fim de pensarmos desejar bem sua adversária.
Não indaga coisa alguma, olha em nossos rostos para ler-nos e decidir se deve
ou não sorrir ou chorar, em boa política de empregado diante do empregador.
Quase a pilhamos desprevenida, constatamos andar absorta... Minha irmã narra
uma piada de salão que ouviu em seu salão de cabeleireiro, para relaxar um
pouco o ambiente; rimos todos da piada, pois a parenta tem um dom que não tenho
que é a graça.
Noutro dia, um dia atrás e claro anterior à
demissão da Fariséia, pilho a senhora num colóquio com seu amigo preferido, seu
cachorrinho Dondon. Ela tem especial carinho pelos animais, os irracionais bem
entendido, detesta menino pra si um diabo; um cão na sua aritmética vale três
maridos uns dois filhos e milhares de luandas e demais desafetos. Porém amar os
cachorros é positivo. Pior nisso é que fala de igual para igual com ele, sem
que, embora a tentativa anos, o pobre tenha aprendido sequer uma palavra. Possui
o animal ótimo ouvido.
Dondon, us p. (aqui nos pichou e sujou melhor nossa
mãe, sua patroa) eles num paga a gente, vô levá us praga no departamento. Si
pricisá chamo a polícia.
(Não sabemos o que respondeu Dondon nem se interveio
em nossa defesa ou na defesa da justiça do trabalho. Prossigamos:)
Aquela ladroninha tá caída pelo Girafo (nisto me gozando
as pernas compridas e minha estatura suponho) e a besta da Rinoceronta nem
percebe... (agora é a mana indo morar no zoológico) mais us dois é burro e não
inxerga o que faiz a ladroninha gorducha. Tá comendo pelas pernas us trôxa e
até comendo a comida da véia cagona. Um dispropósto, Dondon. Um dia vô dedá a
sem-vergonha pro véio e pra tonta da irmã du véio.
O ‘véio’ fez um barulho proposital a alertar
desligar a fala da dona do cão. Ela, sem graça:
Ah, o senhor autor chegô mais cedo hoji. Óie o meu
cachorro. Trúxe ele aqui porque tava chorando sozinho em casa, o João saiu as
criança na escola... ele...
Cortei, respondi honestamente gostar de cães e
disse que o dela é bonito sim e... ah deixa pra lá.
Ela seguiu na arenga porém notei seu
constrangimento ao ser pilhada como menino fazendo arte.
Noutra ocasião a flagrei falando mal de alguém, com
alguma preferência, também usando seu vira-lata para dizer verdades, qual um
bêbado a usar da aguardente para ter coragem de falar o que falar; então
narrava ao amigo-animal especificamente sobre Luanda. Como cheguei
intempestivamente por apressado, emendou o que dizia alto no seu baixo soprar e
passou a diretamente agredir a moral de seu desafeto de estimação.
Fica sabendo, seu autor, que a mulherzinha num é
flor de cherá. Brigô tanto com u marido, marido coisa arguma: amásio; tanto
tanto que fugiu dela. Dexô a pobri pobri e miserávi, cum fome cum us passa-fomi
dela, trêis criança. Óia, cortaru a luz, a safada fêis gato.
Gato! que gato, Luanda comeu gato!?
Não seu homi, fêis inrosco nos fio sem u governo
dexá. Cortaru a água; deve trinta anu de aluguel.
Impossível, intercedi, trinta anos devendo!
Não sinhor, quis dizê muito tempo sem pagá e vai sê
dispejada na rua com us pequenu... e falam que...
Interrompi, educadamente, dizendo qualquer coisa a
despistar como sobre a saúde da Matriz, a qual chamei por minha mãe. Enfim quis
pôr um fim naquela estória sem Carochinha.
Quando a mana apareceu, esfalfada e de mau humor
porque uma sua freguesa não pagara, falei diante da servidora.
Mana, descobri ‘lá no escritório’ que Um odeia
Dois, se pudesse mandá-lo-ia à cadeia ou cadeira, elétrica...
E a mana sorrindo de minha ignorância, você
descobriu agora! é por acaso retardado mental?
Não sei o que quis dizer, todavia sei perfeitamente
não haver apreciado a observação.
4° - Volta da Gorda
Ora, o que vem a seguir parece ter sabor a epílogo,
pelo menos um descarte ao começo. Porque estamos em presença exatamente da
gorda... Fariséia chamá-la-ia porca, as porcas nos surgem sempre gorduchas com
seus leitões porém a moça decerto estéril, apelidaria assim se a jovem
dividisse com ela o trabalho em casa da Matriz; vocábulo este usado a despistar
a Segundona, decerto a pensar da gorda outra Segundoninha. Isto intriga da
oposição. Olhamo-la. Não tem olhos gordos como fora imaginado, não tem isso
coisa alguma. Para ter, preciso tê-los empapuçados como os dos velhos e bebuns;
no entanto é uma jovem tia, supostamente sóbria; beberá quando muito
socialmente com a família, nesta sim há contumazes beberrões. Depois, daqui
alguns anos dizemos, depois sim, o porrete da língua do povo, assíduo no
caboclês e demais falas estranhas. Agora não, é uma titia nova em folha a
folhear as folhas velhas no largo longe da gritaria dos meninos comportados
reunidos em ver quem atira mais distante restos encontrados nas imediações pra
sujar a água esverdeada de limo do lago. O chafariz goteja somente, as bocas
viperinas – não obstante ser parentes e bem-intencionadas – ferem mais com o
verbo à solta; não sobra ninguém. O tio é o que mais fala, quer ganhar no grito
na disputa com a tia-irmã, irmã da tia também e com mais sangue familiar da
esposa, esposa do tio. Falam sapos cobras e lagartos. O tio da gorda pronuncia
“largato” como diz “cardaço” ofendendo o cadarço, fala gritando num legítimo
‘caipirês’ da segunda geração urbanoide e usa outros modismos popularescos,
além dos impostos pela televisão. O grupelho parente não se entende, a contar
dos parentes; e dos vizinhos e dos conhecidos e dos conhecidos dos conhecidos e
dos desconhecidos, todos ausentes; presentes seriam anjos; mortos, santos com
certeza. Não chegam a acordo, mesmo os membros usando o mesmíssimo pichamento.
Embora seus brados, bradam à boca pequena, para não
ficar feio com os de fora e para os de fora desconhecerem visto os segredos
deverem ficar entre quatro paredes e não expostos na pracinha da cidadezinha
uma gracinha. Entretanto essa vociferação não chega a ela. Ela no canto
robustece sua cultura, desenvolve a linguagem, apura a percepção com o livro.
De repente sai do meio do volume uma traça, vai a traça fica o furo; assim
mesmo a jovem fofa entende o melhor no texto; xinga mentalmente, xinga sim
Fariséia, condena seu acento
em rebeldia à Reforma; sente piedade de Luanda; acha ridículo ‘Girafo’, afinal
não deve ser desse jeito o macho duma espécie em extinção; acha também fora de
sintonia a mana, imediato se condói dela a flagrá-la igualmente titia, embora
sem agravante por ser mais feia e mais velha que ela, a moça gorda; enquanto
compara e pensa, se pensa linda apesar de robustinha fofinha estufadinha, com
ressalva a existir um talvez salvador.
Deseja a jovem terminar o livro, não pode. Deseja retornar
aos seus familiares, não pode. É que mesmo no lusco-fusco, à luz fraca da praça
tentando inaugurar a noite daquele dia, sábado se bem lembrarmos e por ser dia
de descanso em preparo ao descanso domingueiro; é que mesmo com isso as vozes
lá longe ferem o mundo e penetram nos seus ouvidos; além dos sons das crianças
ruidosas em algazarra tremenda. De forma que não teria sossego a gorda perto da
roda dos segredos parentes. Assim não pode acabar a leitura, mesmo porque o
livro falha nas folhas faltantes no capítulo final...
Ora, como advogar a melhoria cultural dum povo com
sebos e traças!
Aliás já tem bicho demais no texto. A traça, se
esperar um pouco engole a caneta e a ponta dos dedos na tecla informática. Mas
tem sim exageradamente bicho: girafa rinoceronte burro cobra lagarto sapo gato
onça cachorro lobo, este na versão de chapeuzinho vermelho; e finalmente para
harmonizar tudo ovelha. E agora vem a Fariséia em apocrifia e nos inventa
emporcalhar tão tenaz e suculenta leitura.
Pelo número de animais não seria o caso de abrir um
zoológico!
Ah, que fazer. Queira nos auxiliar São Noé da Arca.
Marília agosto 2010
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