segunda-feira, 12 de agosto de 2019

O Livro a Jovem as Outras


O Livro a Jovem as Outras 

Introdução        
Andava em torno daquela parada certo zum-zum chão e sem violência, ao menos no tocante à violência estardalhaçosa televisiva habitual, habitual apenas a conversa entre parentes. Não é propósito aqui nem parênteses e nem aspas; são mesmo os parentes: mãe pai tia tia-comadre, aquele negócio de dar o filho da gente à irmã batizar; os parentes reunidos na pracinha da cidadezinha uma gracinha, onde comum o falar mal não é bem falar mal, desse falar com cobrança chata da consciência. Coisa alguma: ninguém percebe andar exagerar tratar contar aumentar, por sem intenção ferir. Contudo narrando os parentes as suas coisas, coisas íntimas de se mostrar, em volta do chafariz – nessa hora desacordado, isto é sem força a esborrifar esguichar suas águas qual fonte luminosa com o povo ao redor olhando e ralhando as crianças a elas não abusarem não se molharem não atirarem pedras e detritos outros no lago já emporcalhado sujo a cheirar mal um pouco. Nesse lugar se reunindo a família tardezinha dum sábado, em que se não trabalha, trabalha sim a língua... Ali no meio ela.
Ela é ela, pronto. O que acrescer? Uma jovem (a oposição já enxeridava um apostrofar fundo se não imundo: tia!) uma jovem passada e um pouco disforme nas suas formas feminis. De fato gorda além, fofa balofa e outros desaforos que se não houver olhos para ver tem o espelho a fim de criticar; sabendo-se de sobra que os espelhos hoje em dia são desaforados pra valer. Em suma a garota ela mesma se autodefinindo gorda, gorducha em pensamento baixinho; e como atenuante a gente se apreciando deveras e daí a assegurar um talvez apenas inchada; este ‘talvez’ sem grandes forças.
Ela está contida no contexto, contexto familial, igualmente a outrem olha interessada o que falam, quem sabe haja tentado uma bicadinha no falatório, que os mais versados pela experiência dos anos tenham impedido ou feito à pobre orelhas moucas. Nisso se cansando a jovem e daí a se interessar desinteressar fugir do grupo – o qual sequer a notou não ser notada e piormente a sair do blá-blá-blá do mais falante que os demais. Enfim fugiu dali indo certamente pra lá, onde se encontrou consigo mesma... Com um porém importante que é ter ido acompanhada.
Alguém afoito, o leitor por exemplo, alguém pensará amparo masculino, namorado, essas coisas. Coisas impensáveis para uma estufada além do além do peso (a velha questão da boca abusiva e suas corrigendas: não coma doce nem massa, caminhe faça ginástica, para essa pobre criatura em resposta resmungar enfastiada). Não. Não resmungo rebelde, porque virgem pura e envergonhada. A companhia? um livro, assunto doutro capítulo quiçá de toda a novela ora na introdução.
Surrupiou-se da presença dos seus, nada por causa das críticas que faziam nas bobagens e deslizes doutros parentes e conhecidos, todos longe, visto na frente não se acostumar lembrar os erros só os acertos para alimentar vaidades. Saiu, ou por não ser ouvida ou por ansiar a paz. Uma leitura pode preencher a lacuna da falta de paz. E assim se dirigiu para ler num recanto da praça menos barulhento sua obra; obra não sua mas do autor da brochura; sua por havê-la adquirido num sebo. Se leu tudo não é relevante, por vir a faltar uma que outra folha no exemplar, o que próprio de livros usados. Se teve todo o tempo disponível à leitura, igualmente outra dúvida.
Todavia vamos ao livro.

O Conteúdo
                   
a)Considerações
De início, diz o autor, devo fazer um esclarecimento aos possíveis leitores. Este volume sai vazado em duas linguagens: aquela padronizada e oficial, obedecendo-se a Reforma Ortográfica de 2009; e a outra que é de domínio público, a popular, enriquecida, ou empobrecida desvirtuada manchada pela gente do povo ordeiro (sem precisar entrar no mérito da afirmativa...) enfim a do homem comum. Aqui certa mulher. Sem nos direcionar na afirmativa capciosa de que o homem é a mulher. O exemplar tratado é um ser comum; portanto de fala comum, o que poderá ferir olhos e ouvidos altamente educados. Tem mais.
Usaremos neste espaço, ou tribuna caso desejo a defender a tese do texto escorreito, usá-lo-emos em propósito da linguagem cifrada. Isto apenas um artifício a fugir de imprevistos... sim, vamos admitir que os detentores da fala popular pudessem estar a ouvir-nos! Fugir de encrencas é também correto; e usado nestas páginas como autodefesa.
Mas, nos indagam os que apreciarem; podendo mesmo se depreciar o texto. Mas, dirão, quem a se defender?
As páginas surgiram na conversa que o autor manteve anos com sua irmã. Esclarecemos cuidar de nossa genitora, nesta altura não mais caduca por já inconsciente. Para tanto contratamos como assistentes da pobre idosa duas senhoras. Limpeza, troca de fraldas, aplicação de cremes, administração de medicamentos; até conversar a distraí-la entrando nas tarefas das servidoras. No correr do tempo entretanto houve desmandos e desandos. Tentamos corrigir e pôr nos eixos a relação. Contudo a relação entre as funcionárias é que se arruinara. Aquela entre as subalternas (ou deveria sê-lo) pois a ligação entre elas e a patroa não foi atingida; problemático somente o trato de empregada para empregada, que degenerou-se. Neste ponto inventamos a ficar àcima da tona um diálogo nosso, de administradores, o autor e a mana, inventamos a dita linguagem cifrada, inteligível tão só entre os filhos falantes, não às senhoras...
Quanto a elas, dito já: uso da língua de rua, com gírias e deturpações.
Sejamos honestos no expor os problemas, observando sempre a fala de quem fala no momento, para não distorcer ainda mais a verdade e não desvirtuar a história; ao menos a história da relação.

b)As Personagens
 Indiquemo-las por seus nomes para basear as afirmativas e os diálogos. Uma é certa senhora demais conhecida no bairro e tida honesta boa e mesmo sentimental; enfim de moral aceita na sua rua, especialmente em virtude de uma virtude apreciada, que é o auxílio aos vizinhos. Essa é Dona Fariséia, registrada por Silva de sua casa paterna; além da documentação ser antiga, tem mais de cinquenta anos mas afirma não passar de quarenta e um, decerto em falha por esquecimento; não poderia mesmo saber com exatidão visto ser criancinha inocente no batismo na Igreja da Padroeira, demais sabida dos sabidos isto. Já de cabelos se não brancos prateados ou prateando. Mãe de família, traquejada nos cuidados domésticos – o que foi a base na escolha para cuidar de nossa genitora. Tem um outro senão que é o acento. Acontece que a Reforma citada exige agora subtrair a acentuação no caso de Fariséia, que aliás teve de fato escrito seu nome inicialmente como Fariia com zê pelo pároco e mais tarde a escola mista da fazenda retificou para esse e configurou o hábito, assim perpetrando como escrito agora. Todavia tudo somenos, mais pesando o valor dessa nossa vizinha então contratada. A qual exerceu seu mister anos.
O segundo personagem a jovem senhorinha Luanda, decerto assim registrada por interesse de seus pais na cidade africana, ou na do país mesmo, no caso a paranaense Loanda. Não soubemos. Soubemos ser casada descasada largada abandonada com três filhos e a lutar bravamente para tratar dos seus. Em razão disso havermos empregado essa segunda empregada aos cuidados no segundo período junto nossa velha. Além do fato de termos conhecimento através de terceiros da sua alta condição moral. No fundo, após criteriosa análise nossa dos fatos, concluímos a Luanda ter certa ingenuidade, o que é um defeito ou qualidade dos bons e dos justos e dos apenas mansos de coração.
Isto posto o comboio seguiu em frente. Até a descoberta da descoberta...

c)A Descoberta
Dona Fariséia não concordou, e jurou em pés juntos não concordar, discordou do coração dos mansos dos justos e dos ingênuos.
Não é propriamente que ela tenha no decorrer do tempo mostrado rejeitar, mas feriu assim no momento em que comunicou tal rejeição.
Chegou-nos um dia à casa, seu trabalho, às oito horas da manhã pontualmente e não nos atrasos costumeiros, chegou a fungar, a soltar fogo pelas ventas; como que produto de noite de sono sem sono, indormida, quiçá ausentes carneirinhos – sabemos que isto é da jocosidade burguesa e dos intelectuais, o povo não conta carneiros, prefere brigar direto com a mulher se homem ou com o esposo se mulher, xingar a oposição; enquanto o sábio sabe a sobejo de carneiros se bem que vez que outra perca a soma deles. Revoltada, em síntese.
Senhor Autor, sua santa mãezinha (o A. havendo com a mana convencionado, a referir-se, sem complicar, à genitora, nessa ocasião ainda em condições de falar, havia o de indicá-la ‘Matriz’ para despistar; mas Fariséia não sabia disso, sendo o objetivo realmente confundir esconder a idosa nas referências) pois sua santa mãe vive maltratada por aquela ‘coisa’...
Coisa!? Fariséia. Como assim.
É a Luanda, seu autor. Ela róba as coisa e leva pra casa dela pros morto de fome dela comê...
Fiz cara de indignação, próprio da ingenuidade dos mansos e dos justos. Ela:
Num concordo cum a robalhêra que vejo todos dia. Além disso, seu homi, além anda comendo que nem lima nova a véia.
A qual velha se refere, oh Fariséia.
Ela seu autor, ela, ela é raposa véia e nova só na idade, o senhor sabia que tenho quarenta ano, só déis mais que ela! Com minha vida vivida, com estes óios que a terra há de comê, já vi muito dessa ladroêra: leva óleo, leva pão, leva dinhêro seu autor – dinhêro vivo, pode cunferi na gaveta a farta pra vê! E agora pegô pra comê demais, vai levá a mãe do senhor a irmã do senhor e até o senhor mesmo na falência. Óia a geladêra pra prová se tô mentindo – tinha quatro pão, tem só um pão, a sem-vergonha comeu trêis, comeu ou levô pros fominhas dela na casa dela. Confere, seu autor, confere.
Num concordo, completou a mulher, é cum isso!
Isso me despejou enraivecida a servidora mais velha sobre a servidora mais nova. E não se contentou naquele dia. Até romper. Antes rompeu em choro, depois rompeu o vínculo empregatício. Noutro dia nos encostou à parede, parede de nossa própria residência, a dizer peremptória e arrogantemente: “ou ela ou eu”. Não deu sequer tempo para trocar ideia sobre o drama com a mana a fim de tomar uma decisão acertada. Mesmo porque ando nervoso, não com seus ais e seus disseram que falaram diários contra a colega de firma e adversária se não inimiga no trabalho. De fato igualmente estourei, não medi palavras e terei inclusive afrontado a língua oficial e sua Reforma também oficial. Fiquei furioso, achei por bem relacionar então o passado delituoso da mestra graduada naquele serviço de servir à nossa mãe. A senhora Fariséia, da casa dos Silva e que apenas concordava com a inimiga, a si feroz, não concordando e concordando apenas no sobrenome, sendo Luanda semelhantemente Silva; o que é de pasmar por um apelido de família raro de encontrar no país, a gente diria somente a dizer ter havido coincidência serem ambas Silva, embora a Luanda apenas Silva enquanto a outra é ‘da’ Silva, de resto parecendo. Respondi em alto e bom som, graças aos meus fortes pulmões, esquecendo-me das normas nobres de educação que recebemos, a mana e eu. Respondi e ela, imediato:
Se é ansim, seu autor, deixo meu espaço para a ladrona...
E se foi para sua casa seu marido seus afazeres, a bater os pés, em epílogo rápido de uma relação longa, longa e triste.

d)Causas Longíquas e Próximas
Tem certas coisas, certas condições das personalidades em questão que a gente precisa esclarecer – ou o texto capenga, manca em suas pernas que não tem. Fariséia, a personagem principal neste imbróglio, essa é cabocla grosseira, autêntica lavradora de cabo da enxada e de muita labuta vida toda no amanho da terra e ao mesmo tempo no lar, aquele negócio do acúmulo de tarefas que seja na cidade seja na roça se perpetra contra as mulheres; no lar e junto aos filhos e ao marido, tudo vindo nos conformes, conforme o antanho exigia e que os dias de hoje copiam por conservadorismo. Não obstante e a ferir aqui o texto, pode ser descrita em sua psicologia como felina, certa felina rude como a gata na versão vira-lata, portanto sem pedigree algum. É de um lado fina a saber pisar o teto de vidro quebradiço, doutro a pisar pesado tosco grosso amassando pedras e concretos, a triturar ovos e espalhar os detritos da casca como pó ao deus-dará. Portanto grossa e quase imediato demonstra finezas impensáveis e inesperadas. Tudo ficando por conta da falsidade... Usa, bem, usou a contento a hipocrisia no trato com a inimiga (não porque esta ingênua, quiçá pura justa e de coração manso) especialmente em nossa presença ostensiva, visto havermos estado sempre presentes, a mana mais o autor menos, presentes mesmo estando noutros cômodos da residência materna. Ela, a Fariia, saudosa decerto de seu tempo como Fariia, a pedir a bênção e beijar a mão do padre e, ato contínuo, ganhando um santinho, que levava a tremular pra casa. No entanto não usa ela da ironia por hábito no linguajar, é calculista!
Dentro das filigranas do seu ser, tem lá sua psicologia também, com suposto excesso no uso do sexto sentido feminil; enfim dentro dessa abordagem ‘científica’ (atentemos nas apóstrofes) vamos mais longe ainda, notando as pequenas grandes coisas. Por exemplo, entra macio leve quieta imperceptível, como o ladrão que nos visita a galinha no escuro da noite, de manhã entra, e o faz o dia todo também – ou seja penetra sem bater. Sim, já a Luanda bate o portão ao entrar com grosseria flagrante, ostensiva quase nisso, tomba a lata de lixo a escorrer e a barulhar um mundo, espalha talheres na cozinha no limiar de entortá-los e quebrar louças... No entanto Fariséia não: entra mansinho, imperceptível, a perceber talvez e flagrar erros ou conversas da inimiga e dos inimigos – realmente de um tempo a esta parte começou a ver-nos ambos irmãos como seus inimigos também mas, em boa política, politiqueira, não disse nestes termos, observa age como na calada da noite... – entra manso quieta, não bate: encosta somente o portão no trinco e no batente. Aí entra de vez em seu mundo, que é a casa em que trabalha nas prendas doméstica, ou seria como babá de idosa! Age assim a penetrar onde trabalha. Trabalhava, nesta altura em que o autor rabisca as folhas sem saber que uns olhos gordos (será que uma gorda de corpo, cheia de estufados e um ‘talvez’ de plantão, será tenha igualmente os olhos gordos! não os olhos gordos da cobiça de Fariséia, não) sem o conhecimento do autor em suma de que uma jovem robustinha a fugir do mexerico parente esteja lendo estas páginas. Sim, trabalhava porque já falamos deixou o serviço para a “ladrona” em seu dizer. Fariséia é portanto leve quiçá respeitosa (sem ser respeitável!?) não somente no bater porta e portãozinho de saída na entrada e também riscar quebrando os trens arrumando cozinha limpando as gorduras da cuba. Ela é mansa é no falar. Entretanto, semelhante, a gata a onça mansas miam baixo para não espantar a presa...
Todavia isto não seria um bem? Talvez, quem sabe, decerto, certamente que somos levados assim a crer, vendo apenas a superfície, a epiderme que veste as entranhas... Nos assusta entretanto não a colocação pronominal, as entranhas. As de Fariséia.
Embora tais afirmativas, em nossa presença a senhora se apresenta anos como uma servidora de alta educação. Sim, por que para ter educação necessário frequentar Oxford ou ser interna de colégios religiosos de freiras, caros e impensáveis a capiaus! Trouxe a ordem educacional de sua casa na roça e do batente. Um pobre, até um miserável, poderá ter alta educação; especialmente em se tratando possuir coração puro. Ingênuo não sabemos, entretanto puro.
Completemos o pensamento com o item ‘e’.

e)A Segundoninha             
Visto a felina, Fariséia, justo contrapor a outra segunda. Não seria a terceira? não. Ambas segundas, somos o trio os primeiros, a Matriz já insconsciente e o duo administrador, isto é o autor e a mana do autor. Como o tempo de serviço dá primazia em vencimentos e na estada à Fariséia, chamemo-la Segundona; a outra fica sendo a Segundoninha, pois baixinha gordinha fofinha “bobinha” acresceria a Segundona. E novinha, não passa dos trinta, seria uma balzaquiana jovem. Ingênua, apesar de trabalhadeira, chega a ser uma intelectual e sábia criatura na culinária (a servidora mais velha é pelo trivial arroz com feijão) visto fazer bolos notáveis, sempre do gosto do autor, enquanto isso a mana olha o confeito de viés e sempre aguarda de onde possa vir a cobra... Isto deve ser porque a irmã já observa os deslizes por anos da Fariséia; e assim fica na expectativa e na posição defender-se diante da nova empregada também; já o irmão da mana é quase cego: não vê nada vê somente o corpo da donzela. Donzela, diga-se em passagem, com o traquejo dum casamento desfeito e a filharada a pedir comida. Não sejamos tão categóricos, pois o autor olha observa perscruta e conclui: sim é bela mas fala demais, fala qual matraca. Fala; não consegue ver a jovem o universo estonteante de fogo lavas e más intenções da colega, pensa colega afirma colega tão só; vê por fora e as ações periféricas medidas de falsa mansuetude da felina. Por ser pura, sem pureza nisto ou seja na palavra e sem exigir dela a santidade que requer a justiça; por ser pura e honesta fala pelos cotovelos, a espantar fundir a língua; sempre admitindo esteja entre ovelhas, não desconfiando que uma é apenas de pele, dentro habita o lobo mau... Fala falando o que pensa e pensa que outrem pensa.
          De maneira que se espantou deveras Luanda ao ser avisada pela mana, a mana do autor: “de amanhã em diante você fará o serviço nos dois períodos”. A Fariséia? ela anda com dor de dente ou é que o esposo não quer que saia mais de casa.
Então, quem sabe, terá pensado: ah que bom se o meu me proibisse semelhante sair de casa, saiu ele...

- Os Diálogos, ai essa tal de linguagem cifrada...   
A gente – gente  é um coletivo malandro mas jeitoso em que se atulha eu ela eles e a coleção toda de nomes próprios, próprios a se esconder – a gente acha Fariséia andar desagradando não só a Reforma porém todos gramáticos e a Gramática, envolvendo aqui os membros da Academia e sobretudo a desagradar bastantinho a língua padrão. Porque, como afirmamos antes, defende a linguagem coloquial e popularesca. Não se importa com pronomes concordâncias e a poesia no dizer. Contudo sem qualquer rebeldia: apenas cultua a ignorância, desde que aprendeu na escolinha da professora Maria na roça o beabá. Ora, num ponto podemos concordar com a senhora servidora da Matriz, no fato de que com e sem escola com e sem linguagem bela com e sem falar bonito se come se bebe se dorme se contamina e se morre, por que não!?
De repente nos pegamos (e nos pejamos, trocadilhemos) nos pegamos a ouvi-la gritar a alguém passante na rua, o que não sendo da conta de ninguém, mas a responder para outra pessoa: “cê vai arrumá pra eu?” De resto usa abusando o ‘caboclês’, uma língua mui falada entre e por migrantes expulsos do campo à cidade pelos latifundiários. Ninguém se choca a ouvi-los, pois quase todos assim. Aqui no lar da Matriz não, apenas Fariséia, porque Luanda erra muito porém coloca as palavras bem na frase, concorda adequadamente e usa os vocábulos certos, certos aos ‘urbanoides’ nascentes. Os urbanoides são citadinos de origem rural, todavia seus filhos sofrem as rédeas do ensino oficial e melhoram o padrão. Agora, padrão moral, são outros quinhentos... e não cabem nestas linhas. Ela é urbanoide de última geração e por isso constrói razoavelmente as frases. Quase abusaríamos a dizer escrever corretamente; abuso. Não é o caso da gata manhosa que responde por Fariséia da Silva.
Em nossa presença, nós os filhos da patroa, usa com perfeição a linguagem popular. Sem chocar, como afirmamos anteriormente.
É nesse momento que ciframos o que dizemos, para não complicar. Digo por exemplo para a mana, a Um não fala a verdade verdadeira quando disse em Xis tal coisa. A mana: mano, a Dois está sendo enganada na sua crença pela hipocrisia demonstrada de Um...
Ambas sequer percebem nesse instante em que removem restos da defecação da Matriz, na tarefa difícil no horário de junção de seus respectivos períodos de trabalho. Não entendem, olham apenas, Luanda meio abismada sorri santamente e retoma a meleca da patroa; Fariséia nos consulta em interrogação muda, muda ela de posição, por pouco não se esquece estar tentando modular o tom da voz e amaciando a fim de pensarmos desejar bem sua adversária. Não indaga coisa alguma, olha em nossos rostos para ler-nos e decidir se deve ou não sorrir ou chorar, em boa política de empregado diante do empregador. Quase a pilhamos desprevenida, constatamos andar absorta... Minha irmã narra uma piada de salão que ouviu em seu salão de cabeleireiro, para relaxar um pouco o ambiente; rimos todos da piada, pois a parenta tem um dom que não tenho que é a graça.
Noutro dia, um dia atrás e claro anterior à demissão da Fariséia, pilho a senhora num colóquio com seu amigo preferido, seu cachorrinho Dondon. Ela tem especial carinho pelos animais, os irracionais bem entendido, detesta menino pra si um diabo; um cão na sua aritmética vale três maridos uns dois filhos e milhares de luandas e demais desafetos. Porém amar os cachorros é positivo. Pior nisso é que fala de igual para igual com ele, sem que, embora a tentativa anos, o pobre tenha aprendido sequer uma palavra. Possui o animal ótimo ouvido.
Dondon, us p. (aqui nos pichou e sujou melhor nossa mãe, sua patroa) eles num paga a gente, vô levá us praga no departamento. Si pricisá chamo a polícia.
(Não sabemos o que respondeu Dondon nem se interveio em nossa defesa ou na defesa da justiça do trabalho. Prossigamos:)
Aquela ladroninha tá caída pelo Girafo (nisto me gozando as pernas compridas e minha estatura suponho) e a besta da Rinoceronta nem percebe... (agora é a mana indo morar no zoológico) mais us dois é burro e não inxerga o que faiz a ladroninha gorducha. Tá comendo pelas pernas us trôxa e até comendo a comida da véia cagona. Um dispropósto, Dondon. Um dia vô dedá a sem-vergonha pro véio e pra tonta da irmã du véio.
O ‘véio’ fez um barulho proposital a alertar desligar a fala da dona do cão. Ela, sem graça:
Ah, o senhor autor chegô mais cedo hoji. Óie o meu cachorro. Trúxe ele aqui porque tava chorando sozinho em casa, o João saiu as criança na escola... ele...
Cortei, respondi honestamente gostar de cães e disse que o dela é bonito sim e... ah deixa pra lá.
Ela seguiu na arenga porém notei seu constrangimento ao ser pilhada como menino fazendo arte.
Noutra ocasião a flagrei falando mal de alguém, com alguma preferência, também usando seu vira-lata para dizer verdades, qual um bêbado a usar da aguardente para ter coragem de falar o que falar; então narrava ao amigo-animal especificamente sobre Luanda. Como cheguei intempestivamente por apressado, emendou o que dizia alto no seu baixo soprar e passou a diretamente agredir a moral de seu desafeto de estimação.
Fica sabendo, seu autor, que a mulherzinha num é flor de cherá. Brigô tanto com u marido, marido coisa arguma: amásio; tanto tanto que fugiu dela. Dexô a pobri pobri e miserávi, cum fome cum us passa-fomi dela, trêis criança. Óia, cortaru a luz, a safada fêis gato.
Gato! que gato, Luanda comeu gato!?
Não seu homi, fêis inrosco nos fio sem u governo dexá. Cortaru a água; deve trinta anu de aluguel.
Impossível, intercedi, trinta anos devendo!
Não sinhor, quis dizê muito tempo sem pagá e vai sê dispejada na rua com us pequenu... e falam que...
Interrompi, educadamente, dizendo qualquer coisa a despistar como sobre a saúde da Matriz, a qual chamei por minha mãe. Enfim quis pôr um fim naquela estória sem Carochinha.
Quando a mana apareceu, esfalfada e de mau humor porque uma sua freguesa não pagara, falei diante da servidora.
Mana, descobri ‘lá no escritório’ que Um odeia Dois, se pudesse mandá-lo-ia à cadeia ou cadeira, elétrica...
E a mana sorrindo de minha ignorância, você descobriu agora! é por acaso retardado mental?
Não sei o que quis dizer, todavia sei perfeitamente não haver apreciado a observação.

4° - Volta da Gorda        
Ora, o que vem a seguir parece ter sabor a epílogo, pelo menos um descarte ao começo. Porque estamos em presença exatamente da gorda... Fariséia chamá-la-ia porca, as porcas nos surgem sempre gorduchas com seus leitões porém a moça decerto estéril, apelidaria assim se a jovem dividisse com ela o trabalho em casa da Matriz; vocábulo este usado a despistar a Segundona, decerto a pensar da gorda outra Segundoninha. Isto intriga da oposição. Olhamo-la. Não tem olhos gordos como fora imaginado, não tem isso coisa alguma. Para ter, preciso tê-los empapuçados como os dos velhos e bebuns; no entanto é uma jovem tia, supostamente sóbria; beberá quando muito socialmente com a família, nesta sim há contumazes beberrões. Depois, daqui alguns anos dizemos, depois sim, o porrete da língua do povo, assíduo no caboclês e demais falas estranhas. Agora não, é uma titia nova em folha a folhear as folhas velhas no largo longe da gritaria dos meninos comportados reunidos em ver quem atira mais distante restos encontrados nas imediações pra sujar a água esverdeada de limo do lago. O chafariz goteja somente, as bocas viperinas – não obstante ser parentes e bem-intencionadas – ferem mais com o verbo à solta; não sobra ninguém. O tio é o que mais fala, quer ganhar no grito na disputa com a tia-irmã, irmã da tia também e com mais sangue familiar da esposa, esposa do tio. Falam sapos cobras e lagartos. O tio da gorda pronuncia “largato” como diz “cardaço” ofendendo o cadarço, fala gritando num legítimo ‘caipirês’ da segunda geração urbanoide e usa outros modismos popularescos, além dos impostos pela televisão. O grupelho parente não se entende, a contar dos parentes; e dos vizinhos e dos conhecidos e dos conhecidos dos conhecidos e dos desconhecidos, todos ausentes; presentes seriam anjos; mortos, santos com certeza. Não chegam a acordo, mesmo os membros usando o mesmíssimo pichamento.
Embora seus brados, bradam à boca pequena, para não ficar feio com os de fora e para os de fora desconhecerem visto os segredos deverem ficar entre quatro paredes e não expostos na pracinha da cidadezinha uma gracinha. Entretanto essa vociferação não chega a ela. Ela no canto robustece sua cultura, desenvolve a linguagem, apura a percepção com o livro. De repente sai do meio do volume uma traça, vai a traça fica o furo; assim mesmo a jovem fofa entende o melhor no texto; xinga mentalmente, xinga sim Fariséia, condena seu acento em rebeldia à Reforma; sente piedade de Luanda; acha ridículo ‘Girafo’, afinal não deve ser desse jeito o macho duma espécie em extinção; acha também fora de sintonia a mana, imediato se condói dela a flagrá-la igualmente titia, embora sem agravante por ser mais feia e mais velha que ela, a moça gorda; enquanto compara e pensa, se pensa linda apesar de robustinha fofinha estufadinha, com ressalva a existir um talvez salvador.
Deseja a jovem terminar o livro, não pode. Deseja retornar aos seus familiares, não pode. É que mesmo no lusco-fusco, à luz fraca da praça tentando inaugurar a noite daquele dia, sábado se bem lembrarmos e por ser dia de descanso em preparo ao descanso domingueiro; é que mesmo com isso as vozes lá longe ferem o mundo e penetram nos seus ouvidos; além dos sons das crianças ruidosas em algazarra tremenda. De forma que não teria sossego a gorda perto da roda dos segredos parentes. Assim não pode acabar a leitura, mesmo porque o livro falha nas folhas faltantes no capítulo final...
Ora, como advogar a melhoria cultural dum povo com sebos e traças!
Aliás já tem bicho demais no texto. A traça, se esperar um pouco engole a caneta e a ponta dos dedos na tecla informática. Mas tem sim exageradamente bicho: girafa rinoceronte burro cobra lagarto sapo gato onça cachorro lobo, este na versão de chapeuzinho vermelho; e finalmente para harmonizar tudo ovelha. E agora vem a Fariséia em apocrifia e nos inventa emporcalhar tão tenaz e suculenta leitura.
Pelo número de animais não seria o caso de abrir um zoológico!
Ah, que fazer. Queira nos auxiliar São Noé da Arca.
Marília   agosto  2010


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