terça-feira, 13 de agosto de 2019

O Prêmio


O Prêmio

1.Introdução – o quê se vai ver no vaivém
O que veremos no vaivém a vir adiante é a verdade da mentira de um homem comum que ganhou, como nos tempos antigos, e por azar a sorte grande duma premiação enorme; enorme levando em consideração que ao pobre alguns centavos possam parecer milhões e... ah, que o leitor tire lá as suas conclusões durante a narrativa e a conclusão da narrativa.

2.Crônica desta Novela. Ou resumo delas, crônica e novela.
Num dia 27 de qualquer mês dum incerto ano certo caboclo inocente até prova em contrário recebe uma correspondência – mais precisamente uma carta. Recebe a epístola nos moldes antigos, quando os correios ainda tratavam como base as cartas porque hoje vendem celular, entregam bijuteria, carregam contrabando segundo a oposição intrigante, empurram ‘tele-sena’ e vez que outra até levam uma carta se for leve tiver o código de endereçamento postal direito e o destinatário puder esperar semanas e semanas. O documento traz não o habitual das notícias da tia Mariana da tia Zefa ou se piorou melhor outro de seu sangue: o tal documento simplesmente comunica o ganho num sorteio de um vultoso prêmio. Prêmio como está aqui grafado. Depois? depois é a reação do depois...

3.O Conto desta Novela
Era a Vila de Carapipoca que os habitantes pensavam grande alguns imaginando imensa enorme sem a qual impossível o Universo. Enfim um aglomerado nos moldes interioranos com seus problemas e conquistas, com o frequente na violência corriqueira e assim urbe fadada em suas ruas descalças meninos descalços bolsos descalços a ser lugar pacato. O trivial, burros éguas cavalos montes e novamente equinos e muares entremeio às pessoas; bate-papo de gente grande mediana descontraída descompromissada; enfim tendo os dramas modernos e quiçá presença inclusive do automóvel do caminhão da moto ensurdecendo ouvidos ainda não loucos e não precisando dormir. Nisso ‘totorota’ a motocicleta do carteiro a trazer correspondência e daí para em frente à casa do Zé. Sr. José Ninguém!?
Sim senhor... responde Zé ao funcionário novo na vila, decerto vindo doutra vila se pensando também cidade ou mesmo da capital, a trazer além daquela, outras poluições.
O morador, de idade indefinível essa gente nunca tem idade às vezes com apenas registro de batismo, o morador agradece ou esquece a boa educação, abre a carta imediato, este imediato sem pressa alguma, olha curioso, antes o envelope depois sim toma o papel trêmulo e vê o conteúdo. Ver não quer dizer compreender por vezes sim a gente entende por vezes fica tempo a entender que não entende. As letras dançam matreiras naqueles olhinhos espremidos desacostumados e mostram numa surpresa num choque num susto uma avassaladora notícia: “O Senhor José Ninguém acaba ser sorteado em nosso concurso e receberá 80 mil reais!”
O Zé quase cai de costas nas costas quente quanto costuma ocorrer num caipira que é ser simples. Não conta Ninguém a ninguém, sequer chama a esposa dona Maria lá descascando mandioca no fundo do quintal usando o tacho pequeno nem alardeia a novidade aos vizinhos enxeridos contumazes afoitos curiosos... Engolira na entrega a língua, a de falar e até a de pensar. Relê aquilo. E não seria mentira da verdade! Não, as cartas não mentem jamais, dizia o poeta popular. O papel trêmulo é rotulado timbrado alumiado em letras quase garrafais, isto ótimo aos globos de mais de quarenta; e elas esclarecem haver o concurso duma indigesta multinacional se apresentando no documento como Digest Reader’s, cuja referência indicando a capital, inclusive com endereço eletrônico para contato mas o Zé desconhecendo estar com os www ponto em ponto. Em suma, andava provado ele podendo oficialmente pôr a mão em 80 mil, que esperasse naqueles dias outra correspondência confirmatória do prêmio e o que fazer então a recebê-lo. Uma semana assim relendo relendo relendo o sulfite cheiroso dos cheiros de impressão recente. Relendo inclusive aquelas letras miudinhas que nem os óculos embaciados podiam decifrar e explicar bem, as que ficam no rodapé e se enriquecem com citandos e alegandos baseados em leis e siglas; o que, de sobra, faltava entender.
Mas tem um outro lance, se não equivalente ao primeiro pior que o primeiro, que são o olho e a orelha do povo.
O povo passou andar então em polvorosa com o inusitado acontecimento; isto também em virtude da desvirtude de o estafeta ser arredio e não dar de pronto o serviço de sua entrega ao Zé, pois não tem comadre que aguente e aprecie tímidos servidores; enfim um fato inusitado a um lugar, uma urbe dizia a mentira um distrito afirmando a verdade em oposição – inusitado por receber um prêmio nacional quiçá internacional por vindo da envergadura duma multicional. Toda a vila se pensando urbe veio ao Zé visitou o Zé metralhou o Zé em perguntas. Mais. Bem mais que isso: quis participar também do prêmio de 80 mil reais, que o trêmulo sulfite 24 pesadão afirmava ao Zé de Carapipoca e sugeria ajudá-lo em dizendo ser suficiente a adquirir um automóvel novo. O que não dando muito sentido tendo a mula andadeira ali pertinho do homem e da Maria da mandioca.

4.A folha trêmula. Já menos trêmula sim.
O Zé Ninguém relera tantas e tantas vezes o documento, quase sabendo então de cor e salteado o dito cujo, semelhando a tabuada do sete que a professora o fizera em menino decorar gastando uma régua e a espalhar mil grãos de milho, sem que desejasse mais relembrar, aí se fixando mais uma vez no texto. O texto dizia “Você deve aproveitar este momento ao máximo, José Ninguém, porque excelentes notícias como estas não chegam todos os dias.” Prosseguia o texto.
Muitos ganhadores de prêmios grandes já nos disseram que receber tanto dinheiro num sorteio de uma hora para outra, muitas vezes traz dias (ao Zé era quase mês...) de extrema euforia. Esse pode ficar entre os momentos mais emocionantes e inesquecíveis de sua vida.
A razão pela qual estamos chamando sua atenção para isso é porque Você pode, em breve, ser confirmado como o único ganhador no sorteio do Prêmio Extraordinário de R$ 80.000,oo. Além disso, esse prêmio será entregue em até quinze dias do sorteio etc. etc., aqui entrando um tró-ló-ló desnecessário como costumam ser os tró-ló-lós. Continua o trêmulo papel.
Foi por isso que anexamos para Você um relatório com as Perguntas Mais Frequentes dos Ganhadores, dicas valiosas sobre algumas coisas que lhe perguntarão como feliz ganhador do grande prêmio.
Por exemplo. Nós estamos prontos para entregar o Prêmio ao Ganhador – avaliado em 80 mil reais – o que significa que Você poderá receber por transferência eletrônica o dinheiro diretamente na sua conta bancária. Ou nós poderemos oferecer a Você a opção em receber um cheque na sua residência, à Rua Central número 13 em Carapipoca, e com essa importância comprar um lindo automóvel importado zero quilômetro (o Zé olhou a mula nessa hora a balançar o rabo contra insetos atrevidos e mastigando capim na cerca).
José Ninguém, aguarde os próximos acontecimentos. Aproveite e dedique alguns minutos para se acostumar com a ideia de como seria se tornar Ganhador de nosso Prêmio Extraordinário de R$ 80.000,oo!
José Ninguém, dentro dos próximos dias documentos importantes chegarão ao seu domicílio no citado número 13 da Rua Central, num envelope amarelo marcado com o código de rastreamento 011. Ele contém tudo o que Você precisa para aproveitar sua chance a receber o Prêmio. Ao chegarem os documentos Você deve responder imediatamente, num prazo máximo de sete dias.
P.S.: O Ganhador do Prêmio Extraordinário será apresentado ao público no dia 27 do mês vindouro, através da veiculação no intervalo comercial do programa Você É o Próximo, na Rede Tevê Imensa. Portanto prepare-se para a chance de ficar até R$ 80.000,oo mais rico. (Neste ponto Zé se lembrando não haver em Carapipoca nenhum milionário, fora o falecido Coronel Praxedes, falecido).
Dentro do envelope havendo anexo ainda um cartão assim: Perguntas Mais Frequentes aos Ganhadores – “como funciona o Prêmio Extraordinário de R$ 80.000,oo?”  “Como posso solicitar meu Prêmio?” tudo com as respostas convencionais a orientar o ganhador. E mais: Entraremos em contato informando e transferindo o dinheiro legalmente ao feliz Ganhador. Outra questão “Eu serei contatado pela mídia?” resposta: é possível sim sobretudo pelo jornal de sua região. “Que tipo de perguntas fará a mídia?”  Nós exemplificamos algumas: “Você sempre acreditou que poderia ganhar?”  “Qual foi a reação da sua família e dos amigos”, pois alguns ganhadores preferem dividir as notícias apenas com a família para decidir o que fazer depois com o prêmio; você poderá querer esbanjar com itens de luxo ou colocar o dinheiro num plano de rendimento seguro. Saiba que outros ganhadores afirmaram que o prêmio tornou a vida mais fácil.
Assim José Ninguém guardou momentaneamente a folha trêmula e o cartão no envelope, para quem sabe relê-la mais tarde.

5.Ai, Esse Povo...
Começou a chegar o povo – compadres, conhecidos, parentes, parentes desconhecidos, ele não conhecendo ainda essa verdade desta mentira.
A casa de Zé Ninguém passou a se encher dentro dos de fora, dentro havendo só a mandioca a Maria a mula andadeira e uma cabrita. Um dos visitantes aparecendo de bicicleta nenhuma visita de motoca porém muitos a cavalo ou ‘de-a-pé’, como hábito dizer. As mulheres no costume se beijavam, os homens não se beijavam mas falavam nelas e delas. E todos sobretudo no prêmio. Ah o bendito Prêmio!
Todos visitantes querendo saber minúcias detalhes pormenores e insignificâncias do dinheiro ganho, vivo, o morto ou desconhecido agora vira palpável até. Pior na melhor hipótese, queriam ajudar o conterrâneo a gastá-lo; que fosse tão só a orientá-lo não se tornar o tesouro objeto do esbanjo – como aliás o texto trêmulo sugeria que não fizesse, comprando isto sim um automóvel novo zero.
Entre a malta desfilante algumas autoridades suficientemente informadas como o coletor e o delegado de polícia, o prefeito não, não por não ser de fato prefeito mas preposto da sede municipal porque Carapipoca um mero distrito; o delegado igualmente um cabo do destacamento e o coletor certo funcionário classificado às carreiras sem carreira não fosse a política e bem rodado indo quase à aposentadoria. Comerciantes sim, quase apareceu toda congregação da associação comercial e industrial vindo com olhos em lucros e claro também os vereadores em peso, embora só pudessem estes mesmo expor seu tró-ló-ló no município vizinho entretanto vieram sim saber à cata de possível desregramento na regra legal. E o resto do povo, a população inteira a sair a entrar dia inteiro no lar de Zé Ninguém.
Agora o Zé não podendo sequer ganhar o pão, visto vender fumo em casa, quer dizer a Maria vender pois antes o macho da espécie já não parava no lar; mantinha-se com um comércio de pedaços de fumo medidos na balança improvisada na sala pobre; e com os negócios pequenos na compra e venda de cabritas porcos galinhas pelo vilarejo, sempre lutando perdendo com os maus pagadores. Nessas condições, ah se a Maria não fosse estéril e tivessem de gerar família... como iriam dar mamadeira à filharada igual os compadres! Bem, daí acontece a riqueza inesperada.
Desde então não tendo o casal sossego para negociar; nem para conversar, a conversa íntima que não é da conta dos de fora.
Fora dentro o Zé a acalmar a turba interessada no tesouro que enriquecia de repente a urbe Carapipoca.
Com isto Maria não mais descascava mandioca só fazendo café aos convivas vivos no entra e sai e falam e alardeiam e – por que não dizer? – criam.
Mas eis que chega a segunda correspondência prometida pela indigesta multinacional, ansiosa em colocar Zé Ninguém de Carapipoca no estreito grupo milionário.
Ainda José lutando para acalmar os mais curiosos carapipoquenses e estando com o gogó já gasto, precisando a língua preciosa e fácil da esposa a transmitir informes do ganho fantástico, quando ‘totorotou’ de novo o veículo barulhento do carteiro de pouca conversa com o informe ansiado.
Abriu o destinatário a correspondência ainda ‘totorotando’ a motocicleta do outro e rodeado pelo público já costumeiro curioso ansioso criativo, ele a continuar trêmulo se não o papel a tremer. Leu, leu pra si imediato, pra Maria depois às escondidas e bem mais tarde aos mais afoitos e desesperados assistentes que se acotovelavam dentro e fora da casa:
“Senhor José Ninguém, sua senhoria já tem conhecimento de nossa primeira comunicação sabendo haver ganho R$ 80.000,oo! Então...”
Foi por aí nesse diapasão a missiva curta e agora direta e objetiva. Deveria antes de ser entrevistado pela televisão assinar o documento anexo para compra de apólices de seguro de vida, na ordem de R$ 80.000,oo.

6.Conclusionis ou confusão?
Foi nesse momento embasbacar. Primeiro que precisando juntar toda documentação pessoal e conjugal com CIC e RG, inclusive o registro no cartório de mil oitocentos e bolinhas, ele sendo não de oitocentos mas de novecentos, nem a se chamar José Ninguém (falecido) mas José Ninguém Sobrinho (vivo) e não possuindo em agravar a encrenca do embaraço um endereço eletrônico para comunicação; aquela questão da gringada em www, ponto.
Marília   maio  2011






         



             

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