quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Conto do Mundo Cão em Novela


Conto do Mundo Cão em Novela

I – Aviso aos navegantes
Advirto desde a atirar estas folhas ao lixo condizente, se você não tiver estômago; porque tratarei dum caso de monstruosidades, requintes, sangrias e sangreiras mais. Não sendo o cesto uma ofensa a mim, pobre e inocente escriba: poderá ser ofensa aos personagens à aberração e até à absurdidade!
Melhor dizendo neste pior nãoeles’, ele – o João.
João que se preze pede Maria, nada obstante. Nada obstante o que  fez o João à esposa legítima com sacerdote e juiz (de paz, veja bem, de pazchega! nossa sociedade anda plena nas violências). Pois bem, aqui mais bem posto em vez de bem, mal, por todo este escrito; avisei e quem avisa amigo é, avisei do mundo cão que ler-se-á. Ainda em tempo a desistência o cesto o lixo, a ficarmos nos conformes e de bem. Bem. Prossigamos (não se diga que não alertei).
O João, não, a Maria, a Maria era bela, pelo menos até o esposo assassiná-la fria e calculadamente! Bela a ferir a sociedade, ela que costumeiramente picha a bela e exige da bela virtudes não próprias, próprias à santidade. Fosse feia, a sociedade picharia do mesmo jeito, mas como horrível criatura; com gente não tem jeito. O jeito foi ao João casar-se com a moça, ainda moça, naqueles idos não se admitia não fosse moça, o macho exigente daqueles antanhos exigia fosse moça, ou a moça virava ‘titiaporque os outros machos da espécie não aceitavam casar em não ser com virgem; e bela, bela como o caso da Maria. Ela deve ter-se queixado muito dessa falta do muito que tinha à Maria, esta Maria do Rosário, a Maria apelidando a íntima por ‘Rosarinho’, decerto não a confundir com a Maria de seu próprio nome e candidata escolhida e empregada pelo João Açougueiro. O ditoempregadaaqui usado refere-se a um costume chato e bobo da época: o casamento era para a mulher um emprego, ou não se empregava, ou caía moralmente. Voltemos ao Açougueiro. Mais tarde, bem mais tarde, conhecido ele na sociedade equilibrada e normal por João Picadinho. Vamos com calma, devagar de-va-gar, ou não sai estória.
Casaram-se. Nada burguesmente falando. Nada de carro a arrastar latinhas e faixas em inglês a anunciar nubentes à lua de mel. Casaram e pronto. Vida normal. Ela na cozinha lavando varrendo no doméstico trabalho; ele no trabalho, a raspar os couros, a desossar os ossos, a se limpar do sangue (não avisei!? quem avisa...) a se limpar nas calças de lado, desde menino tendo esse péssimo costume, o de limpar-se das sujeiras nas calças ao lado dos bolsos; agora o patrão lheum avental branco decente, não iria enxugar o líquido rubro nas vestes e sim no avental. Dessosando sangrando retalhando porcos e vacas, às vezes boi e o  freguês nunca sabe e pouco importa aqui. Enfim vida normal.
À Maria restava a Rosário para confidenciar suas coisas, pois não aparecia descendentinhos e sobrava tempo a conversar com a amiga. Confidenciava que o marido não tinha tutano para engravidá-la, ela querendo tanto, como exigia o instinto maternal...
O João não, não confidenciava, não possuía amigo íntimo a confidenciar, não falava, fechadão, não dizia sim; nem não. Nada. Mas sentia sim, achava haver se casado com uma companheira estéril e ... Não, não não tinha herdeiro (péra lá, pobre precisa herdeiro! deixar ao filho dívidas e dúvidas?) não não procriava com a Maria, como sua moral não admitia arranjar mãe emprestada por ... olhava para aquelas belezuras de freguesas chatas a exigir realmente carne mole pra bife. Não era disso, fiel, fidelíssimo àquela gostosura de Maria.
Não entendia disso a Maria.
A Rosário uma boa conselheira. Ora sugeria à moça, não moça ou o que pensar do João Açougueiro! que ela procurasse na calada da noite outro pai do tipo garanhão; ora que o não fizesse, fizesse sim bem a respeitar o João, homem cobrador e até ferozaqui não sendo violento à sociedade, onde era tido por homem honrado e até humilde. à boca pequena das amigas sobravam inclusive acusações às tendências do João, por enquanto Açougueiro depois Picadinho.
o João matou a Maria.

II – O crime de lesa-majestade
Foi flagrado não o flagrante mas o desaparecimento da esposa. Ele, igual talvez crocodilo, verteu suas lágrimas, aos vizinhos primeiro (moravam meio longe da vizinhança) depois chorou diante de policiais a tomar depoimentos e dispensá-lo por falta de comprovação. O homem retomou o balcão do açougue e sua machadinha de costume, no pesar cortando fininho bifes às mulheres belas freguesas; e ainda com cuidado em não sujar de vermelho o avental branco novo que seu patrão lhe ofertara. Contudo a Maria sumira.

III – A testemunha do réu-confesso
Rosário acabou dando com a língua nos dentes, ou que a imprensa farejara um filão para suas manchetes; ou que algum detetive precisasse mostrar serviço – a Rosário disse num falar direto que julgava a Maria assassinada... pois... E narrou o que devido, ou indevido; dizendo haver ido visitar a amiga e não a encontrou; achou ao esposo, o esposo em atitudes comprometedora na casa, tendo todos das redondezas conhecimento do desaparecimento da Maria, sua querida... despejou não um riacho, um mar, a condoer pedras.
O João foi preso, preventivamente, no trabalho, ainda a alevantar sua machadinha e tendo a faca ao lado; a faca tão fina, tão gasta de anos no uso profissional, mais fina que um punhalinho ou uma espada daquelas antigonas, dessas a dar medo até em encostar-se na mesma; o João a lidar com ela naturalmente e a conversar com aquelas belezuras pedindo bife de alcatra. Não reagiu.
Por culpa? inocência? ingenuidade? ou por estar prostrado em razão da fuga da esposa!
         
IV – O ganha-pão da imprensa
Polícia! Imprensa. Processo. Procura. Investigações. Constatações. Novos depoimentos. Prorrogação do prazo da prisão. Os autos. A conversa social. Agora João virou João Picadinho.
Na fase dos depoimentos a Rosário foi fundamental. Contou no tim-tim por tim-tim haver chegado à casa do João a conversar intimidades com a Maria e esta não se encontrava, apenas encontrava-se o João. flagrou o homem ainda de machadinha e a limpar num pano respingado a sangue a faca de açougueiro gasta. No chão havia um saco sangrento, bem claro haver nele pedaços. O homem justificou o saco como sendo um trabalho extra no excesso de serviço do açougue; e que desossara e picotara as partes dum porco, porca se se quiser; e foi isto o pensar rosariano... Nisso a prova do crime desapareceu... Os repórteres farejadores e descobridores sugeriram brincadeira de esconde-esconde, levando a polícia a investigar mais, o que deu em resultado recepção extra no salário policial. O João teria enterrado o volume no ‘x’ dum lugar; nada descoberto . Teria voltado, como é costumeiro ao criminoso tornar ao local do crime! Mais artigos mais flashs de tevê; nada encontrado. O Picadinho teria desenterrado antes da vistoria o saco e atirado ao rio, ao poço: ah os bombeiros, tadinhos.
Enfim o saco cheio de pedaços da Maria desaparecera!...
Prisão. Não, reforço da prisão. O açougueiro, após alguns carinhos da polícia, confessou o crime. Foi mais longe: detalhou o serviço! como matou, a faca feito punhal gasto; depois como foi o retalhamento como cortou ainda mais os pedaços; como acondicionou as carnes e ossos da esposa. Alegou traição, questão de honra, o que qualquer machão na época defendia; e chegou mesmo a abalançar os corações policiescos presentes. Porém lei é lei. Prisão. Nova procura, investigação. O amante – e se fosse hoje não passaria de ‘namoradosem prestígio por comum – o tal fugiu, não esperou configurar depoimentos; foi visto noutra cidadezinha e depois é como o povo diz: “ na capoeira”.

V – A sociedade indignada
O povo. A imprensa, a imprensa escrita falada vista, ela passou a comandar o caso daquele prisionneiro não julgado. Atirou o povo contra o João; o popular queria linchar aquele monstro, foi preciso proteger o assassino, isolá-lo – mesmo porque os outros beneficiários da cadeia desejavam também justiçá-lo. Mas lei é lei, a polícia deu proteção ao homem, mudou o criminoso de cela, vigiou noite e dia, a esperar que a turba não o sacrificasse antes da justiça julgá-lo e, mui lógico, condená-lo.
A imprensa teve muito alimento com o elemento. não interessava a guerra, que é matança longe; nem impressionava mais a venda daquele craque beijador da camisa de seu time a beijar a camisa doutro no exterior; nem dava lucro mais os políticos, por mais corruptos fossem; nem eles recebiam um centímetro sequer de coluna em jornal ou revista, a tevê então! reportagens entrevistas com opinião da gente do povão, tudo a virar shows; ‘especiaiscom exclusividade, matéria enfim a narrar e divulgar o hediondo saco de Maria Picadinha, o saco sangrento em mostra no horário nobre. Nada. Tudo deixado em segundo plano, o primeiro era o João Picadinho!
Mais uma vez investiu a sociedade apressada em aplicar a justiça, esta lerdeando tartarugas demais, o populacho enfurecido querendo aplicar a própria lei: linchar, fazer picadinho do homem do picadinho. Ah pobres policiais em defesa da lei!

VI – A justiça tarda mas não falha
O juiz. A justiça exigiu os trâmites, a imprensa lamentou a lentidão porém a lamentar mesmo pedindo que o caso demorasse mais pra ter mais oportunidade ao seu pessoal escrever e mostrar ao vivo cada dia do caso. Mais entrevistas, testemunhas, emotividades populares. Ah as manchetes! Por fim o júri não teve trabalho algum diante das evidências, perante a apresentação do réu e das testemunhas, aqui a Rosário fundamental e convincente; diante dos advogados, o envergonhado na defesa  pro forma, o espetacular de acusação. Oratória. Holofotes. Votos, juiz, veredicto. Não pode mais de trinta anos! lamentou a gente do povo em burburinho na sala. Pena de morte, alguns pediam em comentários paralelos, isso é coisa de Primeiro Mundo, aqui a capital é o perpétuo, não vai além de trinta em pena. Pena que os advogados, a alegar inocências drogagens psicologismos ou insanidades, mudam as cabeças e entram nas brechas da lei – a lei, é preciso cumprir a lei! o juiz (a velha questão de um mandar soltar outro mandar a polícia prender) o meritíssimo solta, compridos os sextinhos do tempo. Caso encerrado. Demais, não é regra; havendo condenado com cabelos brancos. O João os tinha negros.
Não obstante a justiça se fez não pela lei, nem pelo povo faminto de sangue e a imprensa faminta do pão de cada dia. Foram os presos, a atingir o açougueiro matador de inocentes Marias picadinhas, antes mesmo da condenação formal ao presídio de segurança máxima com apenas alguns celulares como ligação à liberdade. Antes, ainda no cadeião, onde os devedores se espremem e são obrigados a dormir um por cima da superlotação dos outros. Antes. Antes sublevaram-se e no motim sacrificaram ao João, o João que havia sacrificado a esposa Maria que não lhe dava menino e ainda por cima queria fugir com um vizinho e ele, o João Açougueiro, fazendo em pedaços a bela, para ele mesmo virar João Picadinho à imprensa honesta. Seus colegas de infortúnio não o picaram em partes: estiletaram o homem; não dando tempo em cortá-lo em pedaços, pedaços desiguais, em virtude chegarem os homens da lei. A lei tem de ser cumprida.

VII – Final sem “e foram felizes para todo o sempre
Final sem idílio. Aliás como seria um caso hediondo sangrento horroroso visto idilicamente! Não sei.
Sei que anos depois apareceu ou reapareceu a Maria. Sim, deu umas beijocas na Maria do Rosário, a sua Rosarinho. Dizem as más línguas que Rosário levou a amiga pra ver a tumba de seus ‘ex’ e que ela chegou a desmaiar (decerto intriga da oposição). não estava a mulher com o primeironamorado’ entretanto com o segundo, este pai das crianças, dessas chatas que ficam a mexer nos túmulos em volta, a revirar coroas e a brincar com os derretidos das velas num fazer caminhinhos engraçados. Uma gracinha.
Marília   julho  2005
         
         

         
         
         
         


         



           

Nenhum comentário :

Postar um comentário