I – Aviso aos
navegantes
Advirto
desde já
a atirar estas folhas
ao lixo condizente, se você
não tiver estômago ;
porque tratarei dum caso
de monstruosidades, requintes , sangrias e sangreiras mais .
Não sendo o cesto
uma ofensa a mim ,
pobre e inocente
escriba : poderá ser
ofensa aos personagens
à aberração e até
à absurdidade!
João
que se preze pede Maria, nada obstante . Nada obstante o
que
fez o João à esposa legítima com sacerdote e juiz (de paz ,
veja bem , de paz
– chega ! nossa
sociedade anda
plena nas violências ).
Pois bem , aqui mais bem posto em vez de bem , mal , por todo este escrito ; já avisei e quem
avisa amigo é, avisei do mundo cão que ler-se-á. Ainda
em tempo
a desistência o cesto
o lixo , a ficarmos nos
conformes e de bem .
Bem . Prossigamos (não
se diga que não
alertei).
O
João, não , a Maria, a Maria era bela , pelo menos até o esposo assassiná-la fria e calculadamente! Bela
a ferir a sociedade , ela que costumeiramente picha a bela
e exige da bela virtudes
não próprias, próprias à santidade . Fosse feia ,
a sociedade picharia do mesmo
jeito , mas
como horrível
criatura ; com
gente não
tem jeito . O jeito
foi ao João casar-se com a moça , ainda moça , naqueles idos
não se admitia não
fosse moça , o macho
exigente daqueles antanhos
exigia fosse moça , ou
a moça virava ‘titia ’
porque os outros
machos da espécie
não aceitavam casar
em não ser com virgem ; e bela , bela como o caso da
Maria. Ela deve ter-se queixado muito dessa falta
do muito que
tinha à Maria, esta Maria do Rosário , a Maria apelidando a íntima
por ‘Rosarinho’, decerto
não a confundir
com a Maria de seu
próprio nome
e candidata escolhida e empregada pelo João Açougueiro . O dito
‘empregada ’ aqui
usado refere-se a um costume
chato e bobo
da época : o casamento era para a mulher um emprego , ou não se empregava, ou
caía moralmente . Voltemos ao Açougueiro . Mais
tarde , bem mais tarde , conhecido ele
na sociedade equilibrada e normal
por João Picadinho .
Vamos com calma ,
devagar de-va-gar, ou
não sai estória .
Casaram-se.
Nada burguesmente falando. Nada de carro a
arrastar latinhas e faixas
em inglês a anunciar nubentes à lua de mel . Casaram e
pronto . Vida
normal . Ela
na cozinha lavando varrendo no doméstico trabalho ; ele no trabalho , a raspar os couros , a desossar os ossos , a
se limpar do sangue (não
avisei!? quem avisa...) a se limpar nas calças de
lado , desde
menino tendo esse
péssimo costume ,
o de limpar-se das sujeiras nas calças ao lado
dos bolsos ; agora
o patrão lhe
dá um avental
branco decente, não
iria enxugar o líquido rubro nas vestes e sim no avental . Dessosando sangrando retalhando porcos e vacas ,
às vezes boi
e o freguês
nunca sabe e pouco
importa aqui . Enfim
vida normal .
À
Maria restava a Rosário para
confidenciar suas
coisas , pois não aparecia descendentinhos e aí
sobrava tempo a conversar
com a amiga .
Confidenciava que o marido
não tinha
tutano para
engravidá-la, ela querendo tanto , como
exigia o instinto maternal...
O
João não , não
confidenciava, não possuía amigo íntimo a confidenciar ,
não falava, fechadão, não dizia sim ; nem não . Nada . Mas
sentia sim , achava haver
se casado com
uma companheira estéril
e aí ... Não ,
não só
não tinha
herdeiro (péra lá, pobre precisa herdeiro ! deixar ao filho dívidas e dúvidas ?)
não só
não procriava com
a Maria, como sua
moral não
admitia arranjar mãe emprestada por
aí ... só
olhava para aquelas belezuras de freguesas chatas
a exigir realmente
carne mole
pra bife . Não
era disso, fiel ,
fidelíssimo àquela gostosura de Maria.
A
Rosário uma boa conselheira . Ora sugeria à moça ,
já não
moça ou
o que pensar
do João Açougueiro ! que
ela procurasse na calada da noite outro pai do tipo garanhão ; ora que o não fizesse, fizesse sim
bem a respeitar o João, homem cobrador
e até feroz
– aqui não
sendo violento à sociedade ,
onde era
tido por homem
honrado e até humilde .
Só à boca
pequena das amigas sobravam inclusive acusações
às tendências do João, por enquanto Açougueiro depois
Picadinho .
II – O crime de lesa-majestade
Foi
flagrado não o flagrante
mas o desaparecimento
da esposa . Ele ,
igual talvez
crocodilo , verteu suas
lágrimas , aos vizinhos
primeiro (moravam meio longe da vizinhança )
depois chorou diante
de policiais a tomar
depoimentos e dispensá-lo por falta de comprovação . O homem
retomou o balcão do açougue
e sua machadinha
de costume , no pesar
cortando fininho bifes às mulheres belas freguesas; e ainda
com cuidado
em não
sujar de vermelho o avental branco novo que seu patrão lhe ofertara. Contudo
a Maria sumira.
III – A testemunha do réu-confesso
O
João foi preso , preventivamente, no trabalho ,
ainda a alevantar
sua machadinha
e tendo a faca ao lado ;
a faca tão fina , tão gasta de anos
no uso profissional ,
mais fina
que um
punhalinho ou uma espada
daquelas antigonas, dessas a dar medo
até em
encostar-se na mesma ; o João a lidar com ela naturalmente
e a conversar com
aquelas belezuras pedindo bife de alcatra . Não
reagiu.
IV – O ganha-pão da
imprensa
Na
fase dos depoimentos
a Rosário foi fundamental .
Contou no tim-tim por tim-tim haver chegado à casa
do João a conversar intimidades
com a Maria e esta não
se encontrava, apenas encontrava-se o João. Aí
flagrou o homem ainda
de machadinha e a limpar
num pano respingado a sangue a faca de açougueiro gasta .
No chão havia um
saco sangrento ,
bem claro haver nele pedaços . O
homem justificou o saco
como sendo um
trabalho extra
no excesso de serviço
do açougue ; e que
desossara e picotara as partes dum porco , porca se
se quiser; e foi isto o pensar
rosariano... Nisso a prova do crime
desapareceu... Os repórteres farejadores
e descobridores sugeriram brincadeira de
esconde-esconde , levando a polícia
a investigar mais ,
o que deu em
resultado recepção extra no salário policial . O João
teria enterrado o volume no ‘x’ dum lugar ; nada descoberto aí .
Teria voltado, como é costumeiro ao criminoso
tornar ao local
do crime ! Mais
artigos mais
flashs
de tevê ; nada
encontrado. O Picadinho teria
desenterrado antes da vistoria o saco
e atirado ao rio ,
ao poço : ah os bombeiros ,
tadinhos.
V – A sociedade indignada
O
povo . A imprensa ,
a imprensa escrita
falada vista ,
ela passou a comandar
o caso daquele prisionneiro não julgado. Atirou o povo
contra o João; o popular
queria linchar aquele
monstro , foi preciso
proteger o assassino ,
isolá-lo – mesmo porque
os outros beneficiários
da cadeia desejavam também
justiçá-lo. Mas lei
é lei , a polícia
deu proteção ao homem ,
mudou o criminoso de cela , vigiou noite
e dia , a esperar
que a turba
não o sacrificasse antes
da justiça julgá-lo e, mui lógico , condená-lo.
A
imprensa teve muito
alimento com
o elemento . Já
não interessava a guerra ,
que é matança
lá longe ;
nem impressionava mais
a venda daquele craque
beijador da camisa de seu time a beijar a camisa
doutro no exterior ; nem
dava lucro mais
os políticos , por
mais corruptos
fossem; nem eles
recebiam um centímetro
sequer de coluna
em jornal
ou revista ,
a tevê então !
só reportagens entrevistas
com opinião
da gente do povão ,
tudo a virar shows; ‘especiais ’
com exclusividade ,
matéria enfim
a narrar e divulgar o hediondo saco
de Maria Picadinha , o saco sangrento em mostra no
horário nobre. Nada . Tudo deixado em
segundo plano ,
o primeiro era
o João Picadinho !
VI – A justiça tarda mas não falha
O
juiz . A justiça
exigiu os trâmites , a imprensa lamentou a lentidão porém a lamentar
mesmo pedindo que
o caso demorasse mais
pra ter mais
oportunidade ao seu
pessoal escrever
e mostrar ao vivo
cada dia
do caso . Mais
entrevistas , testemunhas ,
emotividades populares .
Ah as manchetes ! Por
fim o júri
não teve trabalho
algum diante
das evidências , perante
a apresentação do réu
e das testemunhas , aqui
a Rosário fundamental
e convincente ; diante
dos advogados , o envergonhado na defesa pro forma, o espetacular
de acusação . Oratória .
Holofotes . Votos ,
juiz , veredicto. Não
pode mais de trinta anos !
lamentou a gente do povo
em burburinho
na sala . Pena
de morte , alguns
pediam em comentários
paralelos , isso
é coisa de Primeiro Mundo , aqui a capital é o perpétuo ,
não vai além
de trinta em pena .
Pena que
os advogados , a alegar
inocências drogagens psicologismos ou insanidades, mudam as cabeças
e entram nas brechas da lei – a lei , é preciso cumprir a lei ! aí o juiz (a
velha questão
de um mandar soltar outro mandar a polícia prender ) aí o meritíssimo solta ,
compridos os sextinhos do tempo . Caso
encerrado. Demais , não
é regra ; havendo condenado com cabelos brancos . O João os tinha
negros .
VII – Final sem “e foram felizes
para todo o sempre ”
Sei
que anos
depois apareceu ou
reapareceu a Maria. Sim , deu umas beijocas na Maria do Rosário ,
a sua Rosarinho. Dizem as más línguas que Rosário levou a amiga
pra ver a tumba
de seus ‘ex’ e que
ela chegou a desmaiar (decerto intriga
da oposição ). Já
não estava a mulher
com o primeiro
‘namorado ’ entretanto com o segundo , este pai das crianças , dessas chatas
que ficam a mexer
nos túmulos
em volta ,
a revirar coroas
e a brincar com
os derretidos das velas num fazer caminhinhos engraçados .
Uma gracinha.
Marília julho
2005
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