Jeromão
& Outros Matutos
1º
- Personagens Matutos
O
Jeromão que me espere – e vai aguardar muito, pouca paciência tendo – ele elão
grandão teimosão que sempre fora; porque preciso fazer umas pesquisas,
fastidiosas sei, a fim de encontrar estórias esparsas versando sobre o homem
comum simples simplório até mas natural (honesto não ponho minhas mãos no
fogo...) enfim o caboclo tido e dito caipira: narrativas pra encher as tripas
da barriga desta novela. E isso levará tempo por abarcar mais de três mil estórias
criadas postadas expostas encompridadas espichadas e/ou contidas espremidas em
mais de vinte mil laudinhas manuscritas datilografadas e por último digitadas,
impressas ou não, a alimentar de papel o mundo ao seu próximo quiçá distante
fim, findara o pobre ou apenas infeliz planeta, findara todos sabem num Dilúvio
a dar trabalhão a Noé. Porque agora, próximo ou distante temos existência curta
o que pra um proximinho longinho a outrem daí a relatividade do que todos
humanos afirmam, afirmo acabará desta vez em fogo e será decerto um Fogueirão.
Assim minhas vinte mil folhas ajudando um pouco a queimar e consumir. Bem a
propósito, vivemos (e/ou morremos) no consumismo consumista consumado. E é aqui
pedir vênia escusas à paciência 'paciente' de Geromão.
Ora,
é era será!? com gê do ganso que fora quando fora pra não complicar com fora
(fora, Peri! lugar de vira-lata não é na cozinha e aqui Jeromão já velhotão
perdendo o mando mandão se preocupando a surrupiar-se da tal cozinha onde o
café a ser "quentado" requentando. Não: não ele, o cachorro) quando o
fora fora fôra – dizia também o ganso fora com cê e cedilha e isto faz tempão.
Mas será escrito, ainda, com gê ou com jota o Jerônimo ou Jeromão? Não sei.
Aqui nesta obra de si já a cheirar mal; aqui sempre com jota, o iota. Tudinho
nadinha valendo, quer dizer não tendo importância porque o que importa mesmo é
que o Jeromão é analfabeto, analfabeto igualmente de pai e mãe. Acresço ao
chavão popular: e de filho, filhos pois prolífero esse homem, além de machão.
Contudo não adiantemos neste atraso porque somente peço que me aguarde a
pesquisa aos papéis do fim do mundo.
Faz,
não sendo uma exortação sadia, faz em resposta "grrrr" e assim julgo
inocentemente aceite o alvitre e espere.
2º - Talhe do Homem
Qual
homem! um que se diz mui ômi. Neste texto sequer compensa aspear palavra dita
ou frase, a respeitar a língua formal – Jerônimo não respeita; e antes de
respeitar desrespeitaria por desconhecê-la, já estabelecido analfabeto.
Enfim
como é, ou era morreu de morte morrida ou doença ruim; este o apelido antigo do
câncer, câncer nas tripas mas isto senão; senão vejamos como posto aqui o
hospitaleiro morador. Morador na região do Rio do Peixe... sim tem um punhado
de rios e riachos no país com tal nome, é pegar o mais conhecido e assim situar
o homem volumoso. À morte andava volumoso estufado doente é claro; porém vida
inteira grandalhão no físico. Ou seria que os outros moradores em comparação
medianos magros. Já sendo corpulento, lá pelas tantas pôde mostrar
hospitalidade. Diante dum cidadão.
O
cidadão desconhecido passado cansado estudado ou estudando, universitário
decerto, quase doutor, não doutor médico doutor em línguas e sábio talvez na
língua pátria – o cidadão embora estranho fora acolhido.
O
carro novo apesar não último tipo e do ano se quebrou. Sabe-se lá o quê! parou.
Pior: parou no meio da estrada. Calor poeira deserto mato, estudante isolado.
Com temor. Que fazer! andar. No asfalto a gente sempre aguarda um veículo a
passar e atender; ou num melhor ligar do celular dando as coordenadas e esperar
socorro ou mesmo achando nas imediações oficina. Mesmo que não entendidos em
carros do ano no entanto podendo ser atendido; chover no molhado, o rapaz da
cidade cortara caminho por atalho e o automóvel falhara morrera parara parou na
estrada vicinal rica em poeira e nada. Pé na estrada.
Francisco,
futuro Dr. Francisco, andou quilômetros e quilômetros horas e horas chegando na
boca da noite. Então Dona Rita acendera já o único lampião e as lamparinas
claudicantes e piscadeiras com lume a vencer o próximo escurão da lua nova.
O
outro homem, o cidadão também homem (aqui não vamos discutir a validade
machona) se apresentou pedindo amparo a Jeromão. Este abriu a cara fechou os
olhos piscou suficiente a acostumar a vista – e acabou por dar guarida. Mais,
fez Rita pegar uma galinha no pau de poleiro indo a conciliar o sono. Foi a ave
à panela no meio da mandioca do arroz do feijão, servida ao homem da cidade bem
distante. Ah a distância, esqueciam estas linhas dizer que o celular não fora
acionado por ainda não existir naquele tempo, no tempo desta estória teimando
ser história. Enfim, Francisco agora elogia a comida no prato trincado velho
usado que usara, então bebericando cafezinho como sobremesa; elogia sobretudo o
tempero excelente da senhora... disparando na mulher constrangimento vergonha e
também vaidade. Nisso o dono da casa despeja (irreverente e defensor da
verdade):
Não
seu moço, num foi trabaio nenhum, a mulher tá acostumada. Nem gasto fora do
gasto, num se preocupe. A galinha andava mesmo um pouco jururu adoentada; teria
que sacrificar ela mesmo mais dia menos dia cum medo passar doença ao terreiro
e peste nos outros bichos. Dizem que nos porcos a peste é tiro e queda. Quanto
ao arroz e feijão, é de cedo, do armoço; a mandioca ela deu uma quentada. Gasto
nenhum. Agora ocê vai mijá lá no fundo enquanto minha mulher ajeita uns pano na
túia procê dormir.
Foi.
Com medo. Em menino tendo pavor de escuro, a lua nova agora não 'colaborando'.
Foi. Tornou. Experimentou a tulha e procurou o dono da casa reclamando ter
visto ratos.
Jeromão:
vixe, rato? ia ponhá ocê na sala mas de noite após apagar a lamparina o que tem
voando demais é barata! A Rita tem medo imenso de barata e grita de assustar o
mundo. Fique lá mesmo na túia com seus ratos, se precisá e num adiantá uns
coices neles então me grita... (não completou a frase a afirmar que seria surdo
de noite ou que os roncos invalidavam os pedidos de socorro do cidadão; diria
mais: é intriga da medrosa, ela que fala que meu ronco parece corte de serrote
e por isso ela não dorme). Paciência. Francisco indormiu na tulha, atulhada de
palha de milho e em meio ao cheirinho de rato além da palha úmida também
exalando cheiro irritante no tempo das águas, não sendo tempo de chuva, andava
até mui seco. Acordou o dia ao dia acordá-lo.
Aí
vêm as conversas. O chefe da pouco mais que tapera estando a limar a enxada,
perto a mulher e os meninos, estes curiosos pela novidade visitante, ela
preparando a marmita do seu homem num caldeirãozinho amassado.
E,
lógico, tagarelando ele para descartar e se ocupando para apressar o estudante
se safar dali. Nisso ao rapaz não havendo lá muito meio termo. Teria que voltar
ao carro longe e de lá à via no asfalto a pé (ué, num sabe muntá, se espantou
Jeromão) a pé sim e... bem, não sendo da conta do trabalhador ali carinhando o
corte da enxada com uma lima mui usada; nem da conta deste texto, somente da
vítima cidadã.
3º
- Visita Doutora
Naquela
hora, hora em que o visitante se despedia, tendo apesar demora andar rumo sua
volta ao carro quebrado parado (roubado! ai, quanta bobagem a gente pensa
lembra não comenta:) naquela o Jeromão a seu feitio estendeu um pouco a
conversa, num papo em que se tornavam já amigos por noite passada ali na
propriedade o estranho vindo da cidade grande e de condução enguiçada no
estradão. Antes em noite tardando a fala encompridara, Jerônimo apreciava muito
as orelhas, pronto a dizer o que dizer –
falaria sem parar diante da filharada e pior: perante Rita não! sim aproveita
as orelhas 'chegantes' (diria 'saintes' pois o estranho amigo a ir-se embora)
não fala manso grita, se expressando quase sempre aos berros; ora, o costume
impede que se exagere na fala aos de fora e o mais a acontecer é que nem se
ouvindo de tanto ouvir já a barulheira dos de casa. Agora, em chegando o fim da
rápida estada, agora embica a contar derramar conversa contar vantagem também
diante de quem não possa validar ou contestar ditos... Assim destramela o
'contido' Jerônimo frente 'doutor' Francisco, não só na despedida do homem não.
Haviam conversado muito. O neófito naquelas bandas atrasadas cercadas de mato,
realmente nenhuma selva bravia porém capoeira braba a vicejar carrapatos –
tanto que o visitante noite toda se coçando bem... E num momento o dito
cidadão, interessado por hábito vender pensamentos construtivos e a tentar impingir
civilização naquele meio pobre de língua; no momento indagou de um qualquer
termo a se esclarecer, todavia... onde um dicionário a comprovar! Debalde quis
ao dono da casa ensinar certa palavra, aí aqui entrando o pai de burros nunca
visto no meio e pergunta se não tem dicionário! Jeromão: quem!? nunca apareceu
aqui um sujeito com esse nome, Januário sim, tem o cumpádi Zé o cumpádi João
tem o cumpádi Januário... Fora difícil entender que entendesse o homenzarrão,
homenzarrão ou é que Francisco franzino pequeno magro baixo perto daquela
barriga de muito comer e pouco alfabetizada, analfabeto mesmo de pai e mãe e
filho, filhos ali em penca. A propósito... ah a conversa esticara tanto, a tanto
o próprio Francisco esquecer-se do vocábulo incerto. Agora tarda dar a mão ao
morador e sair escapulir ao carro parado morto no estradão que ficara em a
noite escura. É preciso insistir que anteriormente versara a prosa em mil aspectos,
um chamara atenção da visita, visita esporádica porém importante e importante
exato por ser raro alguém aparecer; o chefe da família andava seco de vontade
contar o que contar... Um chamara de fato atenção por ser sobre Dona Rita, chamada
Linda diz o esposo da esposa, na família dela. Ela respondia lá por Ritinha ou
Linda. Linda feia agora, destroçada na idade na parição, enfim nos muitos
partos – bem uns quinze rebentos visto ela mui parideira, vivinhos na casa só
os oito os outros saíram de anjinhos, apenas um menino falecera grande. E no
descuido da fala, fala Jerônimo da própria mulher ao dizê-la estragada, e diz
sem meias palavras, sem diplomacia, sem jeito; porque desajeitado por natureza;
ou grosseiro somente.
Por
fim o 'doutor' Francisco, sem idade a quem não saiba medir ou só calcular, por
fim se despede do velho, velho em termos o Jerônimo porque aí por uns sessenta
anos e na época passada passado ele quase considerado matusalém aos caboclos.
No bota-fora Peri não deixa por menos e ladra, não se sabendo se de tristeza na
despedida se alegre por livrar-se da visita. Além do cão os meninos a rodeá-lo,
com respingos paternos aos filhos; uma pequena se engraçara do moço estranho já
seu amigo, embora Francisco igualmente desajeitado e não sabendo carinhá-la.
Naquela hora, exato no aperto de mãos,
enquanto um parte outro chega, o compadre Zé, numa passagem rápida indo à vila
comprar remédio à sua filha doente; e não obstante o impositivo da pressa,
retiveram um pouco mais ambos compadres o cidadão de partida. Mas afinal o
hóspede sumiu, sumiu na estrada sumiu da vista sumiu destas linhas.
4º - A Morte
a Morta
A
morte não manda recados... manda sim na foma de enfermidades; e, depois, visita
o local e não perdoa patifarias covardias vaidades constrangimentos. A morte
executa!
Toda
a casa da comadre chorava; os pequenininhos igualmente em lágrimas mesmo sem
entender aquilo e por imitação, comum entre seres humanos, a semelhar os
grandes, pequenos estes por baixa estatura; o Cumpádi Zé mesmo atarracado e
cheio de corpo mas quando muito mediano, ele firme porque o mandamento era
então de que homem não chora, chora, chora sim e não demonstra não pode se
trair e trair olhos vizinhos; os vizinhos de perto os parentes de longe
chegando também todos ao anjinho ali. Ali a menina espevitada e viva, morta no
aguardo do fim do velório do começo do enterro; o qual seria e foi na vila, lá
pra lá do Rio do Peixe além da casa de Jeromão. O Cumpádi Jeromão a dizer na
festa fúnebre que o rio Sem peixe não do Peixe, era sim ainda piscoso à época.
Iria o cortejo simples e custoso, lerdo, lento, de horas. Ora, agora se fala a
velar pra não dormir, não fazer feio e ofender os santos; a Cumádi Maria mãe da
morta, ela sim não a morta vê-se que não, a Cumádi não se conforma com a perda.
Até o tempo fica triste e chora, chora triste de tristeza ou apenas permanece
carrancudo da não aceitação dessa sumária execução. Tanto assim que logo a
desabar e o cortejo se realizaria na chuva lenta qual a gente a acompanhar o
cavalo levando o corpo à sua última morada; apesar de não haver havido as
bênçãos do padre o qual só vindo quando vindo de passagem. Comentava-se no publiquinho
(pouca gente por ser hora de enxada a enxada parada em respeito a elinha e aos
compadres) que a Cumádi Maria a que mais chorando; ou secando um pouco o rosto
de mãe a dar uma ordem ao café ao bolinho e até à cachaça dos homens, com
nenhum podendo ela era deixar que bebessem de boca em boca e se destramelassem
por isso; porém tornava loguinho a mulher ao choro e a lamentar a perda da filha
ali no caixãozinho branco adornado de flores trazidas a enfeitar por toda
vizinhança. Contudo havendo papo – sem graça porque papo de verdade exige
alegria mentira e exageros outros, quase todos contidos. Girando a conversa em
torno da lavoura preços e mil questõezinhas, questiúnculas insolúveis na
relação cabocla no entanto a gente quieta ou à meia voz em respeito à
defuntinha ali próximo, mãozinhas postas narizinho pro céu levemente iluminado
por velas fedidas e parecendo ao vento lá fora ali respingando dentro como um
vaga-lume ou caga-fogo no dizer irreverente do Cumpádi Jeromão, presente com os
seus, a Cumádi Rita se desdobrando a movimentar a cozinha no lugar da patroa da
casa, a infeliz então em prantos convulsos, pois chegando a hora da hora de levarem
sua menininha "calma, Cumádi, é Deus que vai levá ela!" Todavia a
roda macha não 'irreverenciando' no instante porque é e sempre foi desse jeito:
eles juntos e a falar por vezes altão de coisas mundanas – noite inteirinha uns
contavam anedotas e até as cabeludas dessas que se narra longe delas, as muiés,
diziam eles, que só conversam de criança e coisas de casa de lavar de passar, a
passar horas! hora eles passam, os que não são traídos pelo sono e o Dito
chegou a roncar, cutucado por outrem acordando sem saber onde quando quem, ah
quem no caixão na mesa na sala na casa do Cumpádi!? Porém chega mesmo a hora.
E
já quase a reunir uns no fim a fim de levar a pobrinha a comadre lembra a força
dela... da enfermazinha? da Cumádi? da Morte. A Morte chega com seu alfanje,
foice dizem matutos e ah... quando se percebe, ela a limpar os cortes da lâmina,
alimpa nos panos negros feios sujos da saia ou até – a garantir a mentira um
que vira isso e a jurar ter sido com olhos que a terra há de comer: lambendo
Ela o sangue da vítima, aqui vitiminha inocente. Ela não quer saber de prosa e
executa.
Então
se reunem para levar a urna diminuta simples pobre da pobrinha à Vila, ao menos
para um religioso benzer não estando o padre; e de lá ao cemitério, um sem o
luxo daqueles com anjos de asas ricas das ricas capelas quase igrejas nas cidades
grandes. Quem afirmou isso! ora, o mais mentiroso em a noite de velório no meio
das piadas indecentes e de caco cheio de pinga.
5º
- Menininho Jeromão
Jeromão
em Jerominho era uma gracinha, tal qual toda e qualquer criança. Verdade que
nem todo mundo vendo assim o quê se vê e vê doutro modo, como por exemplo dona
Zefa com hábito pôr defeito em tudo e disse outra coisa que a ordem afirma ou
seja 'os menininhos são uma gracinha'. Nascera gêmeo, ela: "logo o que era
bonito morreu, sobrou isso..." Isso o nenê Gerônimo – registrado com gê do ganso mas isto já vimos e não
discutimos, pelo menos bem discutido. Ela, a Zefa, que dizia a dizer parecença
com macaco... Valha-nos Deus! Cumádi – todo recém-nascido não parecendo com gente
e... num deixa a gente terminar, viu mais defeitos ainda no pobrinho, falta
disso daquilo naquilo.
Aquilo
cresceu, sabemos até haver virado homenzarrão a deixar outros caipiras lá
embaixo apesar de em média nossa gente não disputar alturas com pessoas do norte
da Europa por exemplo. Mais pelo volume a grandura de Jeromão fazendo jus ao
nome ou apelido; dito redito tido ele por chefe, homem, homenzarrão.
Porém
sim, Zefa tendo um tantinho de razão.
Aos
dez, anos é claro, aos dez já sabendo ver as horas no despertador, o que algo
impressionante e extraordinário no seu atrasado meio. Meia década antes havia
aprendido (com louvor? com louvor entretanto pra matar a mãe dele de raiva!)
aprendera a assobiar ou assoviar e a reação é a mesma não depende de letra se
bê se vê, se vê neste caso: depende do talento, se bem que os meninos loguinho
conseguem assobiar e repetir e repetir o assovio. Assobiava a todo momento e
sem parar; um fifio fininho e um pouco desafinado, mui longe das músicas sertanejas
que ouvia a repetir (isto não chega a ser talento...) a repetir o canto que lhe
dera origem; não importa; importa a irritação causada pelo assovio, irritação
na pobre genitora, a qual além disso aguentava a trempe inteira, a meninada
dela com presença de um ou outro afilhado seu ali a bagunçar sua cabeça de
mulher; e a suportar os moleques da vizinhança também; além de apanhar do
marido quando bêbado ou mesmo sem cachaça no bucho ou até pela falta de pinga
na barriga (na cabeça). Agora Jerominho aprende assoviar fino com a boca em
bico, ai que tristeza essa alegria do menino. Menino não tem jeito. Os grandes
(pequenos igualmente na estatura, isto discutido antes) enfim os adultos, gritavam
com ele, ele parava de cara sem graça; a retomar esquecendo imediato a ralhação
por seu firififi.
Dona
Zefa, não dona Zefa tendo defeito pôr defeito nos outros – Dona Zefa mãe de
Jerominho, ela Josefa; a outra sim que era conhecida com tal apelido no bairro;
os nomes se repetem assim como José Antônio João e seus correspondentes
femininos, os quais sempre vicejaram nos cartórios. Aliás não se registrava na
época os filhos no cartório, inícios do Século XX, eram registrados pelo
batismo, quando tendo sacerdote, ou seja registro na Igreja.
Além
de irritar pelo assobio e também pelas rusgas entre os moleques, incluindo
Jerônimo – Jerominho com outro hábito condenável... não era por não tomar banho
e andar com o corpo e as vestes sujos não: um pormenor que se não via nos
adultos, aos quais era preciso quase levar à força tomar banho na bica ou na
bacia, bacião, no caso ainda pior a reação. Não. Não isso, aquilo. Aquilo?
Jerominho vivia alimpando o ranho a escorrer-lhe quando resfriado no braço direito.
Não estava direito e daí repreendido severamente por Zefa; a mãe Zefa. O
bracinho a ficar prateado da gosma seca, frequente misturada à poeira.
Enfim
nada que o sol não houvesse visto antes. E veria ainda por muito tempo depois.
Um
dia, muitos dias e anos após, o berrador Jeromão quase bate num dos seus
pequenos a alimpar o muco no braço, também o braço direito igualzinho o pai. O
pai, por sorte do filho, se lembrando a ralhação materna, pelo mesmo vício.
Nojento,
"nojento!" gritava cumádi Zefa, justificando Zefa à outra Zefa
escutar.
Isso
decerto o sol percebeu.
6º
– Visitantes na Roça
Hoje
é dia quatro, o mês o passado não se lembrando, o ano o futuro adivinhão não
tendo ideia; eu sou moleque, a família veio passar o domingo de descanso no seu
Jeromão compadre de meu pai, que batizou em nome de Deus na igrejá o quinto
dele, não de Deus sim de Deus é claro, que assim creem, mas de Jeromão e dona
Rita, comadre Ritinha. Estamos nas bandas do Rio do Peixe e é tempo da Guerra.
Qual guerra a gente miúda nunca sabe, sabe que falta o essencial faltando
tudo... Ah lembrei, acho que me recordo o ano: 1944, então minha irmã nascera,
era nenê ainda, pronto; tenho certeza nessa data. E deve, creio, ter sido na
Europa pois o vizinho lá em nossa Vila a qual nós pensamos cidade, o vizinho
embarcou pra lá, para Europa a morrer patrioticamente na Itália com os pracinhas,
a mãe dele chorava em desespero na estação de trem...
Jeromão
anda, vejo, um pouco constrangido porque como receber os cumpádis da Vila! sem
o necessário, não por não dispor de meios, suponho faltar meios também, um menino
desconhece essas coisas. Porém por não haver encontrado na venda na compra
última açúcar; e agora como Rita fará fazendo café... Então, na roça sempre se
arruma um jeitinho e se improvisa, improvisaram o açúcar usando no lugar caldo
de cana. Umas canas que chamam cana de burro, finas duras e mui gostosas, boas
para as criações e boas para criança morder espremer escorrer o caldinho no
braço e ficar grudento. No dicionário terá 'grudento'? oi que já falo a falar e
lógico todos falamos certo o errado, todavia já a escrever também errado o
certo da língua; e isto é grave me ensinou Dona Tomásia na escola; olho pros
meus coleguinhas aqui na roça, a roça parecendo mais um arraial com casebres
bem pobres e cheiro de mato, mais arraial que casas comportadas no estilo
citadino. Então me perdoem pela ortografia – escrevemos em tendência como
pronunciamos.
Enfim
a família roceira resolveu o drama do açúcar; enquanto tal solução nós meninos
fomos bagunçar conversar nossas coisas insignificantes na visão adulta. Ou não
bem assim, assim assim o menino mais velho na família, eu, a família da cidade,
arisco tímido como fosse ele não os da casa o caipira – e por essa razão fiquei
encorujado na barra da saia de minha mãe. Não aguentei não aguentaram os
matutinhos e logo nos unimos na brincadeira, brincadeira inventada na hora
mesma de brincar. Corremos gritamos tal qual fôssemos amigos por anos e anos...
Mostraram o córrego, "córgo" pronunciaram, vi peixes miúdos no fundo
em água límpida e – pra mim a novidade – agrião vicejando na tona. Me lembrei
(ah dona Tomásia, ela: "nada disso rapazinho, não, não é assim; na frase é
feio iniciar com pronome" e o que seria pronome!) realmente lembrei-me ser
obrigado a comer no almoço alface couve agrião, folhas eu dizia, preferindo bifes.
Aí voltei aos amigos recentes, eles propunham correr apostar corrida e me chamavam
a participar, também chamava pelo filho mamãe, fui a contragosto, chego dentro
da casa: hora do café. Dona Rita, a comadre dela, servia a infusão fraca e
adocicada e uns bolinhos umas broas de fubá, broas que sempre detestei. Fiz decerto
feio, fiz cara de nojo, fiz um asco mal-educado...
Despejam
agora numa caneca de lata de flandres outra caneca de café quente de queimar os
beiços. Tudo bem.
Tudo
mal: o sabor horroroso de café preto como a noite no dia na tarde de se ir
embora, o sabor num gosto intraduzível aos enjoados e malcriados e petulantes.
Fiz blululuf de rejeição.
Pior.
Gritei o que pensando em não engolir aquilo; a envergonhar os meus de casa e a
casa adulta que nos recebia. Quase mato a mãe, o pai num papo com Jerómo não
viu não ouviu. A pobre, quase morta de vergonha!
7º - Compra na Venda
O
chefe da casa, não o dono o dono a dona e é sempre e sempre foi assim – a
mulher é quem sabe de fato e de direito das coisas que faltam em casa;
sobretudo na cozinha e, antes dela cozinha mandona imperante chata por
exigente, a mulher exigente aos bolsos do homem (homem dessa época, aí por
1944, meados do século XX) esse homem reclama disso com ela, ela faz que ouve
houve por bem exigência de não ser escutada escutando embora; e ele, Jeromão,
reclama por andar sem dinheiro, Rita cobra: falta isso aquilo e não tem... digamos
linguiça. O Peri olha desenxavido ou sonhando, decerto a sonhar com aquelas
esticadas num varal dentro de casa que ele fez, ele naturalmente que não o
cachorro, o dono do cachorro; fez montou lá em cima naquelas alturas a gotejar
gorduras embaixo no chão onde o cão de espreita a cheirar as gostosuras lá
presas... na verdade Jerônimo enganchou um arame; antes pusera uma cordinha um
cordonê um barbante que se arrebentou e a coisa despencara no solo, não estando
a desejar os impossíveis o cachorrinho da família, por estar ele na hora a
correr com os meninos lá fora. Assim, refez a geringonça o chefe substituindo a
corda fraca por arame resistente e a isto junta-se umas marteladas no dedo e
xingos do dono do dedo e, eventualmente da casa, pois Jeromão adorando o
calão... Todavia, agora não: Peri olha pra cima esticado o arame – sem linguiça
sem carne sem nada; quem sabe com saudades, isto absurdo porque só gente sente
saudades; e o que seria saudade!?
Bem,
o fato é que ela reclama a falta de linguiça para o almoço, linguiça e outros
alimentos práticos de na roça se guardar conservar. Ela. Ele do seu lado
inventa que precisa ir ao eito capinar o feijão; e reclama da reclamação dela
porque os bolsos vazios não comportam meios a comprar – faltam uns dias pra
fazer a costumeira compra na venda, a compra do mês, e ele além do mais não tem
lá muita disposição:
O
chefe da casa não sabe como saber fazer para se arranjar e arranjar moedas na
compra... moedas! põe notas nisso e eram antes de mil-réis agora cruzeiros,
ainda tem muita das antigas circulando na mudança oficial do dinheiro do governo,
assim ele fala, aliás com respeito e até carinho se referindo a Getúlio,
Getúlio e Governo pra si e para outros caboclos desse tempo vem tudo a ser o
mesmo. Falta, gritantemente! linguiça. E outros necessários do tipo sine qua non ao meio rural longe da
Vila.
Então
se dispõe a antecipar e ir à compra na Venda do João na beira da estrada,
estradão eles dizem, no caminho da zona urbana e distante da zona urbana. Peri
quase entende, fica alegre abana o rabo por certamente saber que irá passear
atrás da mula, em cima dela o Jeromão, ainda a se desentender com Rita lá longe
a gritar "não esqueça de trazer mais aquilo e aquiloutro" porém já a
Morena, mula mansa velha arcada cansada longe estar imaginando um trote ela não
troteia anda apenas lerda com aquele pesão de gente porque Jerônimo barrigudo e
volumoso e pior: pior a volta da venda com as compras a lhe pesar na cacunda, a
espinha, coitada da Morena, arcadinha cedendo pela velhice. E ainda por cima
(caberia 'por baixo') ainda tem aquele fedorento encardido a latir atrás dela,
deles. Eles seguem à Venda.
Chegam.
Tem
um alimpado – quer dizer, de tanto tanta gente e animais chegarem pararem
seguirem embora então fica limpo os matos não crescem, pisotedos; é isso o
alimpado – tem esse largo vasto, vasto diante da construçãozinha que é a Venda
do João, um casebre que serve como loja aos matutos comprarem... não disse
pagarem, não pagam devem deve marcar no caderno o João ou dona Maria, Maria da
Conceição tem ali na parede uma imagem da santa de sua devoção, dona Maria
esposa que registra a dívida, com juros decerto e que o comprador nunca
conferirá, analfabeto ou alfabetizado analfabeto funcional sabendo apenas
soletrar o nome e é bem o caso de Jeromão ali com os seus chegando: o Peri a
Morena embaixo encima o chefe desapeando.
Funga,
fala brabo ao cachorro o cachorro não entende e entende de se encolher como um
biscoito nas proximidades. Amarra pelo cabresto a mula, a mula já começa a
espantar com o rabo as moscas atrevidas enquanto o homenzarrão entra no João. A
Maria olha e compreende o esposo...
Encosta
a barrigona no balcão sujo velho lustrado encerado quase por sujeira anos
trazida pelos capiaus e aí... começa a conversa o pedido da compra na vendinha.
Claro
a lista conter linguiça, favas contadas; tem mais precisão nas necessidades. A
mortadela, "mortandela" pronuncia pronunciam todos inclusive o João e
lógico seus fregueses na casa comercial, isto antigo na cidade igualmente, a
casa de Secos & Molhados. Aí sobe um cheiro característico do estabelecimento
de então, mistura de carnes doces rolos de fumo e mil outras coisas exalantes a
serem pesadas na balança comum na época e sempre em cima do balcão do negócio.
Contudo já não sente o comprador, Jeromão tomara uma atrás da outra doses doces
ou queimantes de cachaça "da boa" garante o casal vendedor e o bebente comprovante,
comprovante (não pagante, Maria diz que não, "não" nega o devente...
perdão ó pai dos burros e a língua padrão!) Não sente maismente o hálito
exalante da venda, caso 'veja' a venda o freguês. Aparece-lhe Peri, senão a
admoestá-lo a lembrar pelo menos o exagero na água que passarinho não bebe, e
em casa na volta a Rita ainda lhe pegará mais no pé não só pelos desarranjos da
ideia contaminada de caninha mas pela falta na falta: "ocê num trôxe isto
e aquilo que pedi comprá". Bem, Jeromão coça a cabeça de pensar e não
alembrar e engole a fala da falta, inventa um serviço qualquer necessário a
tratar...
Ah,
se esborracha na cama do casal, meio de atravessado, vestido, nem tira
sapatões, o botinão de elástico comum aos roceiros. Pior. Tem pior! tem: faz
xixi ali aqui no colchão de palha ao colchão feder. Pra Rita reclamar. Já
podendo reclamar com autoridade de esposa velha do dorminhoco...
8º
- Roceiros e Oleiros
Compra
na Venda, a despesa do mês, o estabelecimento de João, João da Maria; aí
Jerônimo mais lerdão por velho e por embriagado, bêbado!? ele negando a pés
juntos tal acusação da oposição, ou seja Dona Rita a mulher então o homem da
casa, casada com o esposo que o padre juntara jovem forte sendo agora
fracalhão. Não agora antes anos antes sim forte sadio trabalhador digno honesto
(sem exagerar...) novo enfim. Nesse tempo foi convidado pelo Zé Paraíba a
visitar ("ver como funciona, seu Jerómo, e é diferente daqui da
roça") visitar os oleiros seus amigos, o Zé vivia nas folgas na olaria,
pronunciava "oleria" e aos oleiros "olêros" roubando o 'i'
deles. Então um dia concordou e foi com o colega até a essa pequena indústria
encalacrada nas terras do Coronel; sim porque Jerônimo e Zé trabalhavam nessas
terras, o outro arrendatário e o Zé mero peão, trabalhador braçal diarista.
Um
dia foi o colega, não sendo agora na hora de pegar os embrulhos, sem esquecer
linguiça mortadela doces aos meninos e não lembrando mais coisiquitas
recomendadas pela companheira a qual surrara tantas vezes não hoje se considerando
um macho-banana, moleirão, mais obedecendo à cara-metade que possuindo metade
de suas próprias forças e valentias. Na Venda e com ajuda do vendeiro ajeita no
lombo de Morena o peso – ou cairia na estrada antes de chegar ao lar, não mui
doce lar; ele mesmo nunca caíra, só uma única vez demais bebum – se esquece até
despedir do João e ordena à alimária movimentar-se ao caminho, o Peri atrás da
dupla homem e mula... e as compras.
Tornemos
ao convite do Paraíba.
O
Zé era amigo, conversavam sempre de preço e de trabalho, embora o colega
solteiro e mais livre que Jerônimo, este sempre ocupado além do serviço no seu
milharal o milho eles pronunciavam "mío"; pois muita vez após
precisando rachar lenha e tratar em casa doutros afazeres quando a mulher
menstruando "de paquete" diziam na roça; ou quando de criança
novinha, ela parideira. Por fim e após vários convites aceitou; foram na tarde
duma terça-feira ver a tal olaria. Passaram a chegar lá por muitos roçados de
propriedade de novos e antigos fazendeiros. Um deles dera arrendado área para
funcionar a olaria a um caboclo italiano, para Jeromão "intalianu"...
Esquisito ser italiano e caboclo porém os peninsulares se adaptaram ao jeito da
gente da terra e até no falar falando qual caipira nato. Seu Genaro recebeu os
dois roceiros, Zé já seu amigo meses ali olhando o trabalho oleiro. Jerônimo só
ouvira de ouvir falar.
Quanto
ao Zé Paraíba, decerto nordestino da Paraíba; esse sendo um sujeito novo e
limpo (Jerómo dava trabalho à língua de sua companheira por relaxado e meio
porco... intriga da oposição!) Apresentava-se bem trajado e a cheirar perfume,
certamente não assim no seu diário trabalho e após o banho. Até um pouquinho
vaidoso. De maneira que a dupla visitante meio esdrúxula. Já os oleiros fediam
exalavam seus respectivos suores e trajando indumentária pobre simples e claro
usada e suja, como evitar a realidade das coisas!? Bem, foram bem recebidos.
Ficaram
zanzando por ali mais de hora. Zé quase cicerone do outro porque conhecendo
melhor o ambiente.
Apesar
estarem os trabalhadores operando ali, quase todos da família de Genaro,
andavam a findar o período, visto o trabalho se iniciar madrugada (enquanto a
roça apenas na claridade do dia) e já eram desesseis para desessete horas,
final de jornada. Assim mesmo o novato se impressionou com a labuta e a arte
oleiras. O barro chegando em carroça de um burro; depois a pipa, pipa como
apelidavam, a girar para mexer misturar a argila; após, carriolas com pastões
da matéria-prima levados dentro do rancho, este erguido em mourões e coberto
por folhas barulhentas de zinco. Depois além de observarem o feitio do tijolo
em fôrmas nas bancadas "banca" diz o oleiro; a secagem das unidades
prontas; e finalmente o forno enorme para assar os ditos tijolos, a gente
oleira trata "queima do tijolo". Jerómo não viu o trabalho no forno
por não ser tempo da queima – enchiam então de tijolos o forno.
Daí
se despediram tornaram às suas casas, o Zé com seus colegas diaristas. Enquanto
que Jerómo, candidato a ser um dia Jeromão volumoso e fraco no físico forte na
língua e só calando nas reprimendas da companheira – esse se pôs, à noite à
lamparina tremedeira, a narrar o que vira na olaria; e o fez como sendo um
especialista um expert no assunto...
à plateiazinha de filhos em volta da mesa no aplaudir ou somente a se entusiasmar.
9º
- O Escrevedor
Num
certo dia, não tão longe da realidade e da realidade roceira, o roceiro se
dispôs a mandar certa incerta carta aos próximos distantes do Rio do Peixe onde
vivia com a familiazinha; aliás bem grande diante o fato de possuir filharada,
aquele negócio que o matuto diz dos herdeiros em penca. Ali vivia, não morreria
ali, a casa pobre o roçado simples donde tirava o sustento dos seus, seu
Jeromão grandão estufadão pobrão, um bom vizinho afirmavam vizinhos. Ele Rita e
a prole.
Contudo
tudo de quase nada sabia dos de sangue – e dos sem sangue também; adotivos,
aparentados como primos terceiros e os seus, destes, os quais se cruzaram ao
longo dos anos e não sendo do sangue se juntaram aos parentes consanguínios
portanto 'sem sangue'... As dificuldades os quilômetros e o tempo; isto é não
se vive junto perto próximos nos interesses imediatos e por isso não se convive
– vem em 'socorro' disto até o silêncio o esquecimento. Não obstante se falando
na fala comum na casa neles deles se lembrando ao menos. Então se pede ajuda da
mão do cérebro de um outro, esse o escrevedor.
Ora,
é pedir muito que um roceiro seja, a servir outrem, um escritor. Escritor
desses da cidade, que são intelectuais inteligentes pra burro (a expressão
posta não por acaso...) e além da inteligência têm arte talento e disposição de
espírito ou visão quem sabe comercial ou de empreendimento; podendo por esses
atributos ficarem conhecidos (não só quando morrem não! em vida; vida não
discutamos neste pedaço de texto mas tem conotação quase que só de existência,
curta curtíssima dentro da Vida). Bem, tais escritores, assim poderiam e podem
com certa frequência virarem best-sellers,
primeiro por seus best-sellers e após
eles mesmo ficarem famosos com a venda das obras.
Todavia
existem os noutro extremo que são apenas anotadores, rabiscadores, escrevedores
(sendo o caso do criador das estórias desta novela sobre matutos). Assim vem à
baila o escrevedor.
Seu
Antônio era letrado; quer dizer versado um pouco mais que apenas poder
registrar sem errar seu próprio nome. De bondade e de boa vontade exemplares,
se punha sempre a ser o língua na escrita ao lavrador, que em exemplo de Jerônimo
no geral desconhece as letras; e caso dominando o abecedário, apesar disso
podendo prestar o favor e ser o intérprete dum amigo.
Assim
Antônio se dispôs a unir, com um talvez bem acentuado visto nem sempre se obter
resposta e aí a carta fica nula; ou volta por endereço insuficiente ou errado
ou pelo cansaço da posta-restante dos correios. Jeromão o procura num dia de
noite a fim de escrever missiva a um parente "ah faz tantos anos que não
sei dele..."
O
caso não fora tão simples assim, precisou longamente discutir em casa e
postergar até chegar ao ponto xis, xis o pedido a Antônio.
Primeiro
discutiram – e deram suas respectivas versões sobre o cumpádi Graúdo;
curiosamente os pequenos que nunca haviam visto esse tio ou avô ou seja lá o
que fosse, até eles forneceram suas bicadinhas no habitual "manda lembrança
a..."
Na
família enorme agora alongada qual gato escaldado que foge até da água fria...
essa andava espalhada longe donde viera, o Nordeste; já fazendo anos. No
entanto comentavam-se contavam-se a miúdo de Miúdo – um pouco de Graúdo: o como
eram o que faziam as bobagens e acertos de suas respectivas bocas. Agora
especificamente para Graúdo, a carta de Jerómo pelas mãos de Antônio a esse
irmão, querido (ou apenas lembrado...)
Este
um dos manos, a genitora deles fora tão quanto ou mais parideira comparando à
Rita; o comum era perder filhos à morte e ainda ter muitos vivos; como o caso
dos gêmeos, um batizado Miúdo, magro pequeno fino; outro Graúdo alto gordo. Se
bem que os anos demonstraram o erro: Miúdo ficara baixinho e fino mas Graúdo
não passou em adulto dum homem meão nada mais alto que Jerônimo.
Jerônimo
partilha do lampião de luz fraca do vizinho a conversar com o mano Graúdo, seu
compadre tendo batizado um filho deste, seu sobrinho portanto. Tudo através da
mão calosa (a enxada cala delicadezas e deixa calos nos dedos) dessa mão de
Antônio.
O
outro, quer dizer Jerônimo, fala narra ao parente o que transmitir; porém o
língua (escrita...) precisa pedir-lhe "mais devagar, cumpádi, tenho
dificuldade anotar etc. e tal".
Poucas
horas num cursivo irregular e quase ilegível, a gastar uma borracha. Acontece
que o escrevedor borrando sujando ao pôr em tinta, com aquelas penas antigas de
metal; optando por isso registrar a lápis: de repente quebra a ponta, erra e
aqui gastando a borracha de apagar para substituir a palavra; além da sujeira.
Digamos além da sujidade da feiura e da ilegibilidade quase; gastando a língua,
a ponta, a umidecer a tal borracha.
Por
fim, caso houvesse ou houver um dia o fim das coisas, por fim meia brochura de
caderno escrita numa letra trêmula com tentativa de perfeição longe da
perfeição. Todavia ali plena a carta ao Compadre Graúdo lá nas lonjuras mas
perto do coração dos parentes no Rio do Peixe.
Noutro
dia, não: chovera transferira a outro dia ainda – Jeromão foi à Vila botar a
correspondência no correio. Aqui com novos dramas, o lamber selo o selo pra
grudar e o lamber as bordas do envelope. Não discutiu com o funcionário o preço
da postagem. Curiosamente receberia outros garranchos, até mais menos
caprichados em resposta; e aqui o curioso no curioso, com apenas duas semanas
entre envio e reposta, quando o comum eram meses.
Isto
nós antigos sabemos, não quem hoje só vive digitando no celular às suas redes
sociais; e nunca poderia entender.
10º – Um Hábito a Perdurar
O
caboclo Jeromão está agora a pensar, lembra a carta ao mano e lembra umas boas
que a esposa Rita lhe esfregara na cara, piormente com razão; batera nela nova
e velha agora bate de língua nele; lembra as dívidas que já não domina não sabe
a quanto estão; lembra os preços pra baixo na vendagem do que planta; lembra de
um mundo de coisas que se exige esquecer... Contudo na hora de narrar a outrem
tudo, nada o diminui – é um pouco, bastante, bravateiro e as lembranças tristes
ou más sendo tão só lembranças que se não fala, não falaria; falaria sim pois
fala sozinho e está só agora; não vê o fogo a subir o suor a descer escorrer,
seu calor então a se misturar com o calor do dia. Nisto não deixando ele ser um
mero índio, do qual se origina.
O
imperdoável! hábito antigo de queimar a roça para limpá-la, ele afirma e os
outros roceiros confirmam; enfim para dar menos trabalho na limpeza do terreno
e às vezes o aceiro insuficiente ou mesmo sequer feito; assim o fogo ultrapassa
sua área e lastreia e atinge e queima e destrói uma região inteira antes
fértil, empobrecida na incineração, quiçá com sacrifício de animais de pequeno
porte; se não também a prejudicar algum humano. Além de não se saber onde
começou a coisa. A coisa se iniciou num palito de fósforo ou no seu binga,
assim ele chama o isqueiro de acender o cigarro de palha, agora apagado
enganchado na dobra de sua orelha e preparado adredemente no almoço após o
almoço no quilo do almoço; que entende ser quilo de peso mesmo e o dele seria
daqueles quilos de toneladas visto comer muito a encher o bucho, a barriga
volumosa e pronunciada. Em verdade é mentira que se alimenta a contento nisso
porque o matuto ingere muito, volumosamente muito diante da fome imperante e
discricionária porém engole apenas o mínimo básico a sobreviver, a comida não
passando do arroz com feijão e farinha de mandioca; carne vez que outra à mesa,
caso indo ou ainda vindo da Venda do João ou vindo da Vila; ou um franguinho
sacrificado por Rita: ela chama, enganadora, pi-pi-pi carrega no último dos is
a angariar confiança e aceitação da ave, pega de sopetão a ave puxa o pescoço
da ave, ao esganiçado ladrar do Peri – Peri terceiro ou quarto ou quinto sempre
a família dando esse nome ao cãozinho que chega no lar e os meninos pegam no
colo e carinham e mimam; todos quase Peri, esse Peri latidor vendo a penosa ele
sem pena é lógico, sem pena visto terem sim muito dó as crianças, umas são
apartadas longe da casa e do ponto de sacrifício, à casa da comadre quase
sempre para não ver reclamar chorar gritar. A galinha já não grita, virou
comida virou frango que o pai trinca a escorrer sanguinho no prato.
Então
Jeromão não tem contemplação e come com prazer e abre e fecha a boca e mastiga
de boca aberta; aliás dando 'excelente' exemplo aos filhos todinhos fazendo
assim na refeição. Ou não é o tal frango afogado pronto morto galinha, sim a
linguiça.
O
Peri olha lá em cima dependuradas as carnes e o cheiro, as gotas meio secas no
chão de se lamber – a linguiça ou a carne seca a secar apurar,
"apertar" diz o chefe da casa, quando tem carne e a crise não deixa
ter, ele alembra disso de enxada à mão a cutucar o fogo a cinza a brasa a cor o
calor o calorão a subir tal qual seu pai fizera seu avô fizera fizeram outros parentes
ancestrais e ah será farão os meninos ali igual? eles ali agora a brincar! Têm
uns já ajudando o pai no roçado os outros na brincadeira; a brincadeira é então
correr ver esperar instigar o cachorro ou ir ver a arapuca ou até pregar
qualquer arte num mano ou no Peri – o menino contra o Peri ou outro e novo cão.
E isso exposto vai longe, leva longe um texto inexpressivo e banal.
Perto
dele, do chefe de rosto vermelho queimado de fogo pela quentura do fogaréu,
perto sobe longe das labaredas a fumaça de arder olhos e de queimar o solo,
empobrecer o solo para o solo se enriquecer de vegetação cada vez mais raquítica
e minguada...
Ah,
fala sozinho agora, ah "os preço",
Jerómo e todos lavradores em volta não sabem que não sabem e que não se interessam
saber que não sabem disso, de concordar na frase: engolem esses e erres errado.
Ora,
o que será o certo!
Um
matuto não é dado a filosofar.
11º
- Elas e Eles, eles não: ele
A
comadre da comadre Rita em vindita acredita e grita essa dita por liberdade na
casa e conviver com ela, ela Rita, e assim elas numa tagarelice bastante mas
nunca bastante pois que não param não sabem parar quando começam a conversar;
sim bastante, dá no bate-papo esquentado um basta Jeromão naquele vozeirão de
homem grandão – oh alarme falso! – Jerônimo apenas chega não interfere,
interfere sim por sua presença porém não fala nada dirigindo-se às mulheres vizinhas
ali num barulho de assustar o mundo. Chega descansa a enxada cansada coitada da
enxada pelo trabalho, agora tardezinha à boca da noite já, já o galo a cantar
alertar suas mulheres irem ao poleiro, nada mais que galhos forquilhas da
mamoneira e, portanto, não deu nelas propriamente um basta, bastando de fato
sua aparição diante da discussão sem tamanho ou ao menos barulhenta das vozes
finas; tanto assim que os meninos andavam assustados porque as crianças não sabem
o que fazer abusando os adultos a dar mau exemplo; as vizinhas na cozinha
cheiinha delas (quer dizer, meia dúzia mas a cozinha apertada, pisada por chão
de terra batida e espaço em área mínima). E aqui dá para enumerar as comadres
ali a se esfalfarem de tanta fala, todo mundo querendo ter razão sem razão dado
o assunto, o Peri. O Peri de novo! o Peri de novo a comer ovos no ninho e daí
estando no quintal, isto é no mato em volta da casa da comadre Geni, que veio
reclamar, tirar satisfação com a dona do cachorro. Pois o cachorro come ovos
assusta as criações e lá vem a gritaria das penosas, irrita outros cães donos
do pedaço, a Geni tendo bem uns três vira-latas, na roça não havendo lata
porque não tem lixeiro como na Vila. Contudo dá um quiprocó. Entra na conversa
as duas outras, duas ou três, a enumerar: Tereza, Chica e Bastiana – todinhas
cumádis da Cumádi Rita do Cumpádi Jeromão ali chegado... Então, elas dando mau
exemplo aos pequenos, têm uns grandinhos inclusive trabalhando com o pai na enxada
e os menores também, naquele negócio a dar recado, os meninos imbatíveis nisso,
se bem que mal ocorre também darem recado errado, errando a pensar suas
brincadeiras. Ah por que motivo elas a se desgastar... Não. Não se desgastaram
demais as comadres no entrevero delas na cozinha de Rita, após só ficando meio
emburradas enfunadas zangadas enfim mas... ah houveram por bem naquele dia
mesmo e no dia imediato reatamento e tudo já nas boas entre as boas senhoras e
boas mães e boas esposas, apenas uma tida realmente por 'boa' (linguajar macho
pra valer) enfim relação de amizade sólida de anos de convivência e vizinhança
e de compadrio (ou comadrio!?) dando o barulho tudo em nada, a desvirar depois
chegando naquela hora crítica o marido de Rita. Mais ainda noutro dia, vindo
aquele pãozinho gostoso de casa, oh assim mesmo o roceiro adora o treque no
mastigar o pão de padeiro feito na cidade e vindo da Vila. Sobre o pão, o
hábito exige de cada uma das casas numa colônia que, feito a assadura desse
alimento, se ofereça um aos vizinhos, com recíproca esperada e verdadeira;
assim sempre tendo o confeito pois alguém há de haver usado seu forno com as
unidades e também o que os meninos chamam "pombinhas" que são
bolotazinhas da mesma massa às crianças. E não é que retomaram a tagarelice
mansa costumeira! Na discussão e naquela hora uma entre elas alerta:
"Cumádi dona Rita" chega de papo porque tava já esquentando fervendo
quem sabe onde nóis ia pará... e afinal a senhora precisa atender o Cumpádi
Jerómo que chegou... Jerómo guarda os instrumentos de ganhar o pão, aqui em linguagem
figurada, pensa não no pão pensa no peixe e não é que o cumpádi Dito prometeu
peixe aqui, lá no rio o pobre não pegará sequer lambarizinho, o que nem dá para
sua penca comer, que dirá dar como oferta aqui em casa; eh Peri! some daqui,
pulguento, vai namonar as linguiças dependuradas lá no quartinho. E lá
cheirando vianda e fumo e outros secos & molhados na reserva (isso em tempo
de vacas gordas, agora estamos no das magras, os preços não ajudam). E assim descalça
o sapatão fedido o chulé se espalhando desde o botinão de elástico, depõe no
chão nem engancha mesmo o chapelão, ao solão, e o sol já se pôs, se põe ele a
seguir tomar banho – o que um exagero porque o matuto aprecia tomar banho só
nos sábados... banho diário... banho? nada disso, lavar 'pé cara e mão', não
apenas pra ingerir a janta, a boia, igual os intalianu da olaria dizem, "bóia".
12º
- O Tempo Caboclo
Ah
a Eternidade, que importa se algo ocorreu há mil anos antes se milênio depois!?
A
você, a mim, ao Jeromão – matuto de atitudes imprevisíveis – a todos homens
metidos contidos presos na eternidade, que importa se aconteceu um fato, a
morte da velha Tereza por exemplo, se isso no dia do dia que se conta, e se
exagera se intenta se inventa, se inventa a dar sustentação no afirmado e...
vai por aí; vão os roceiros nisso, numa discussão boba (ao menos frágil, do
tipo sem pé nem cabeça...) se reunindo na sala e a maioria entre presentes
parentes frequentes na casa em a noite de lua e ainda assim a lamparina acesa,
acesos ânimos e acesos os meninos dele a rodear os adultos, acalorados nessa
discussão. E se pergunta às respostas o óbvio se fora na quarta-feira se na quinta-feira
sobre um não sei quê, pomo da conversa que atrai um barulhão; barulhão esse que
por sua vez atrai alguns vizinhos mais chegados chegando pra ver o que ouvir e
a entrar na briga... briga! pare. Paremos aqui a analisar a psicologia cabocla,
a qual não é bem apenas cabocla e da roça sim da pessoa comum; estendido o
entendido (desentendido) aos da cidade. A cidade? a Vila virava já uma urbezinha
graças à pujança da economia e a produção do café do algodão do milho; mandioca
pouco e o homem chefe dessa família plantando sempre mandioca em volta da casa
e também lá pra baixo no roçado; além do amendoim e então havendo muita
melancia plantada colhida vendida, especialmente a melancia Santa Bárbara
grandona vermelha saborosa.
Nessa
hora os meninos alvoroçados na brincadeira, enquanto a discussão de valor em
teima séria na brincadeira adulta, a machucar eventualmente oportuna ou
importunamente alguns melindres (bobos, sempre bobos). Contudo a gente se
acalma ao sorriso superior da lua, não na rua mas em volta na capoeira e dentro
da sala começa a sair a meninada como que imantada aos gritos dos outros
meninos que gritam fora da casa simples de Jeromão e de Rita. Menino atrai menino.
O mais velho do casal era de um tipo curioso: puxando o pai, machista e
conquistador e pelo costume andar atrás da mulher dos outros, a ferir Rita,
claro. Doutro lado o garotão adolescente sendo vergonhoso pra burro – olha
gosta aprecia, sem coragem à corte, diverso da tendência desabrida paterna... o
rapazote sem coragem diante das jovenzinhas nos bailes e nos arredores de sua
morada. Todavia com as meninas emplumando mais conhecidas e próximas conversava
quase de homem para homem e isto um absurdo a levar em conta um casal humano.
Fazia
tempo se engraçara da Alice, mulatinha empinada e mais parecendo mulher feita
que menina; porém humilde e quase sem voz. Agorinha mesmo ela estava no meio
dos compadres dos pais não interessada nos adultos porque dona Benedita
trouxera à casa da comadre Rita essa filha. Não cabia falar com a jovem na
sala, mormente havendo a discussão desinteressante e com tema centrado no dia
da noite da morte da velha Tereza e como falecera e por que e onde e... ora...
ora olhava ao lado da moça e logo descartava fingia como fosse desinteressado.
Não era. Com figuras assim próximas vinha ao Antônio a coragem. Pior, abusava e
abusara muitas vezes da língua, levando em conta que a pobre não tendo boca a
delatá-lo, mesmo à senhora sua mãe. Num belo dia, fazendo mês, se dispusera a
ter conversa de namoro com a escurinha e a coisa acabou em nada porque a causa
básica para esticar uma conversa sendo um triste caso: sacrifício dum pinto. O
pinto já cantava de galo mas vivia jururu adoentado não andava, andava
encorujado nos cantos e bicado pelas outras aves. Nessas condições era matá-lo
e pronto. O homem da roça sempre teme a doença a contaminar todo um terreiro. A
Rita dá ordem ao filho e chama Alice para ajudá-lo na empreitada (não se sabe
se não com certa intenção de os aproximar; o que muito comum nas mulheres feito
santoantônio casamenteiro). Combinaram de um segurar a cabeça pelo pescoço do
pinto doente (e perigoso...) o outro, a outra, grudar no corpo do bicho. Foram
ambos com o infeliz franguinho a um carreador no cafezal pragejado de Jeromão.
Executaram a vítima esses carrascos de primeira viagem, porém com grande dose
de sentimentalismo na tarefa entretanto com certo rigor. Antoninho ficara com a
cabeça do frango segura nas mãos. Alice firme no prender o corpo; puxaram com
força (olhos fechados pra não ver o estrago) e o animal não morreu... jogado o
corpo sangrento no chão, se pôs a pular! O corajoso menino atirou longe sua
parte, a cabeça e o pescoço, e saiu correndo a chorar; com promessa de nunca
mais se pôr a matar galinha. Não houve bem condições para uma conversa amorosa.
Doutro lado também não houve discussão como adora a gente madura...
Fora
o miúdo do que se discutir, o tempo caboclo compreende muito mais aspectos; é o
da lua, até a regra feminina, que eles chamam "paquete", calculada
pela lua; e se guiam pelo sol é claro, ou escuro nos dias sem raios, o sol que
vai e volta a marcar sempre o dia; e têm outras referências a calcular o tempo
como o tempo da chuva o do plantio o da colheita (ih! os preços e os
açambarcadores que se apropriam e controlam as mercadorias...) Levam os
roceiros em conta o tempo miúdo, específico mesmo, esse que enfrenta a
eternidade de igual para igual e dá a confusão numa discussão sem pretensão de
início e a esquentar na conclusão. Com que fim! ter razão, impor a própria
razão. Não bate ponto o caboclo no serviço mas sabe a hora da enxada. Ou sabe a
hora do almoço, às 8 e 30 da manhã; sabe secularmente a hora de se apagar o
dia, vendo a galinha indo ao poleiro.
13º
- Perante a Autoridade
É
comum desconhecermos a autoridade e sabermos bem sobre o discricionário
representante dela que vive próximo de nós, fazendo supor um justo um santo,
seja lá onde habitarmos. Na roça o imediato poder é o fazendeiro e seus administradores,
estes bem conhecidos, abusivos abusamos repetir. Jeromão dona Rita os compadres
os vizinhos enfim todo mundo conhece isso. Porém dentro de casa entre as quatro
paredes a coisa funciona... ou não funciona por funcionar. O homem da casa é a
mulher. Isso bem nítido ali na pouco mais que tapera nas proximidades do Rio do
Peixe, rio de poucas águas e por isso de poucos peixes.
No
início, como comum nas famílias pobres do país (e nas ricas) ele é ele, ela é
ela. Os meninos na prole miúda e bastante, não demais bastante porque Rita
prolífera até quase à morte; esses filhotes conhecem bem os mandos e desmandos.
O caboclo Jerônimo é livre; não liberto dos vínculos com o dono das terras onde
vive e vivem vizinhos; livre a praticar suas liberdades garantidas pelo
machismo que impera séculos. Não pergunta que fazer onde ir quando nem como
chegar, faz. Na sua casa, sem precisar esconder atitudes, toma atitude de até
espezinhar e quase tripudiar sobre os vencidos – seria melhor pontuar 'vencida'
pois se tratando principalmente de Rita, sendo ela esposa dele e desde menina
ali imposta, imposta pelo hábito imposta pela tradição e mesmo imposta pela religião
na sociedade, esta acanhada no seu meio. Jerómo vai executa torna e não precisa
prestar conta dos atos. Todos engolem. A ignorância tem desses arroubos
imperfeitos e ninguém discute. Executa o poder sobre a filharada, em escadinha
por tamanho e idade; inclusive sobre o Antônio seu mais velho, que é meão e só
pode sem contestação ser grande nos anos do registro de batismo na igreja lá na
Vila; seu mais velho, porém ainda assim antes um punhado havendo a sair de
anjinho ao choro da mãe, ela a lamentar depois as atrapalhadas também do
primogênito. Ele e os outros manos e inclusive os afilhados que vinham tomar a
bênção ao padrinho Jeromão – todos conhecem essa autoridade mandona e abusiva
do homem. Torna da Venda do João trançando as pernas, visto a bebida exagerar
na autoridade para que ele exagere na autoridade própria batendo na mulher! Os
outros homens conhecidos igualmente agem assim. Chega fala grita berra impera
sobre o medo e a submissão... verdade que no começo altão depois alto e após
embrulhar 'normal' (que seria o normal! ah esses filósofos...) e mais um
tempinho não fala e desmonta sobre o colchão do casal, a curtir a dormir a
esquecer o que somente devendo lembrar. Para noutro dia pegar a enxada – tal
roceiro teve sempre o mérito ser trabalhador; e honesto, embora os descontos –
vai trabalhar no eito alimentado com apenas um café magro no bucho, e
provavelmente sentirá o amargor em arroto, a culpar a palha e o caroço no colchão
ou o calor da noite. Ninguém lhe cobra posturas nem exagero nas atitudes de
desmandos morais, o garanhão aqui tratado é um conquistador, sempre em choque
com outros machos da espécie (nada escondido pelo sol milenar; talvez camuflado)
ou somente a bravatear sobre mando num papo de balcão no balcão do armazém
caipira de secos e molhados na beira da estrada.
No
entanto a coisa mudou, explicam os anos. No fim da jornada do casal, ela se
fora ele sobrara, iria viver até à morte longe na Vila e sujeito aos filhos,
todos na dependência urbana. Tudo mudara porque Rita cresceu. Ou, indaga-se,
não será que Jerônimo é quem encolheu?
O
fato é que ela agora sendo o homem da casa, manda determina impõe direto
direitos; e ele ou obedece ou não executa a ordem mas também não abre a boca.
Abre, resmunga, baixinho; ou comenta o desígnio dela com os filhos ainda pequenos
que possam com tempo disponível ouvi-lo; ou não. No final dos tempos o mundo
engole seus familiares e a ele por tabela e passa a viver, se viver, da memória.
Dentro
de casa, fora a varrer nas imediações a sujeira e corrigir a esculhambada
desordem dos herdeiros (pobre e roceiro em geral não têm o que herdar... sim
isso discutível); varre, grita menino grita criações grita a cumádi lá longe
ali pertinho; dá seu recado e o marido, em não estando nos lambaris na beira do
corgo ou com os colegas a jogar fora conversa; esse marido responde, manso, seu
mando, o mando da mandachuva de saia, ali agora no poeirão da vassoura e nos
pios das galinhas. Calixto, diz braba a mãe ao filho, vai pôr a lavagem que
aqueles chorões estão a pedir. Ou faça isso faça aquilo. O filho, eles ambos
pronunciam "fío", o menino obedece; e se for o caso, caso o esposo
ali a ouvir comportadamente, o esposo tal qual o filho obedece também àquela
força moral ralhadeira; não sendo exceção à regra que frequente repasse o pai a
'ordem' da autoridade a um dos moleques.
Ele
vira segundão, fora primeirão.
14º
- O Morto do Vivo
Um
velho costume em todas antigas roças e novas periferias urbanas que hajam – é
pôr o defunto à mesa. Isto é, na horinha de comer mastigar com boca aberta ou
menos aberta e se pergunta de que jeito comer sem abrir! Nessa mesma hora
sagrada de refeição se lembra assuntos vários e mais o dominante que a memória
nos vomita, atrevida; por exemplo o falecimento do pai do filho Jerônimo, tido
este por Jeromão na sua grandura de homem mediano aos caboclos vizinhos e
considerado grandalhão aos de casa. Põe-se agora por qualquer pretexto dessa
memória ordinária a morte do pai. Seu Zé, não seu Zé que é o cumpádi ali
visitante, tadinho perdeu a filha nova para morte, e relembra que o cumpádi
Jerómo até foi ao enterro, num foi Cumpádi? Jeromão faz que sim de cabeça a
mastigar de boca aberta e fazendo um barulhão ao mastigar, que fora sim com a
cumádi Rita e os meninos mais velhos à festa fúnebre. Pois bem, o senhor José
pai dele, dele chefe da casa, morreu. E... passa Peri! diz incomodado ao cachorro
nos seus pés, e foi triste, cumpádi. Jeromão conta o recontado, todos da
família já ouviram ene-vezes e mais a esposa agora já o casal sentados com seus
convivas, a comadre e o compadre, a filar boia (isto falar dos intalianu da
olaria, aqueles não acentuam na fala nem sabem escrever pra acentuar errado:)
pois bem, morreu, diz isso a ingerir feijão com arroz, morreu e reconta o
coração do velho, ele inclusive indica o genitor "véio" e se souber que não se põe mais acento escrevendo, fá-lo
falando; pois descansou antes da Guerra, a segunda se referem ali, num almoço
em que engolia arroz e feijão, não o seu o deles sendo feijão com arroz umas
mandiocas fritas a abobrinha afogada (coitada, mastigada comida ingerida
engolida) não esse aquele, o velhote na refeição, e o Jerônimo afirma
"lembro como se fosse hoje" e narra: o homem se levantou abruptamente
da mesa encapada com toalha de algodão, tecido de algodão de saco de farinha
dos antigões, se levantando nervoso e deu um meio grito, caiu fulminado no chão
e todos correm atendê-lo a se perguntar terá batido a cabeça na quina da
cadeira ou no chão ou no... tava já inconsciente e depois apareceu o
farmacêutico, relembram também o Chico da botica, lembram o homem enquanto
mastigando arroz com feijão... não o Chico o Jerônimo e o Compadre Zé no
almoço, pois costuma ser a hora sagrada do alimento a hora fatal inclusive por
se recordar coisas que devem ser esquecidas, ao menos naquele santo momento.
Pois é... e caiu e desmaiou e morreu, no chão já morto, "passa Peri, seu cachorro!"
sendo de fato cachorro, lambido cansado quase morto ele também e sem coragem
morder arrancar as pulgas e os carrapatos de sua própria pele. O anfitrião
mastiga mais um pouco engole e vomita, não de vomitar ipsis litteris, vomitar relembranças da morte. Narra como foi como
não foi, foi num 'dirrepente' e aqui o filho do pai narra com o netinho do
outro e seu filho próximo a si, um feito em comum acordo com Rita; essinho
arregalado de orelha pra ver e ouvir o caso tétrico fúnebre tenebroso da morte
em vida do pai dele, dele Jerônimo. Morte morrida. Sim os matutos lembram tal
esquecimento quase sempre como a morte súbita ser a morte morrida, sabe-se lá o
que escrituraram oficialmente ao sepultamento do caboclo enrugado no cemitério
ainda quase vazio da Vila, a Vila nas imediações do Rio do Peixe, no seu vale,
vale aqui lembrar, e cheio de algodão branquinho e bonito de se ver para a
lembrança lembrar. Bem, mal mastigaram 'mastigaram' esse e outros mais causos,
entre um abrir e outro fechar; o Jeromão a olhar no prato e deste pra sua
mulher ali, recordando reprovando condenando a pobre senhora por haver queimado
no tempero, que por sinal era delicioso de lamber beiços, condenando-a por
haver deixado queimar o alho, pretuminhos e sabor da queima na língua; e a
cebola e o manjericão e a... puxa, ela, pensou ele, ela estraga todo o gosto da
comida assim! não disse; no início de casados no padre, no começo ralhava na
mesa com ela, agora só olha a condenar sem abrir a boca, abre sim e olha o
cumpádi, tadinho perdeu a filha e não foi de morte morrida, o pai, o pai dele.
15º
- Pão Grande
Num
inteiro deixa pra lá da casa, o caboclo Jerônimo a trocar rápido palavras com a
cara-metade responde que sim; um não com certeza e essa a dúvida. Comparado
esse mais ou menos passe livre, ele parte no domingo de arma em punho, a varinha
de pescar, pois que nos dias a descanso não trabalha – trabalhasse, uma
oportunidade e tanto a resolver de vez um problema sério à família. Não
trabalha. Trabalha Rita e todas outras roceiras em descanso da enxada semanal
mas não tem jeito o jeito é tratar os dramas domésticos, com ajuda dos pequenos
já grandes; sobretudo a aproveitar os braços das filhas, com os moleques não
pode a mulher contar... Sim o assunto é sério. Enquanto, não descansa ela no
seu domingo; trabalha na massa.
Isto
além doutras ordens às meninas enquanto a massa do pão cresce, não: estufa pelo
fermento; deixa inclusive certa nesga da massa de farinha numa caneca com água;
quando no ponto o pedacinho sobe à tona: hora de assar o pão; pão de trigo o
trigo vindo da Venda careira do João, aquela Maria lança o quanto quer
pretendendo explorar na ajuda ao seu esposo no balcão. Fermento e ovos e leite
e banha, gordura sobra do capado engordado sacrificado outro dia. Contudo
também varreu já a casa fez comida espantou o cachorro, este sempre na barra da
saia, o cão aquela imundície e Rita
se agita grita a bendita criatura (o Peri). Preparou o forno com lenha
fumegante deixada a esquentar dentro; o forninho saiu malacafento pela mãos de
Jeromão aquele barrigão (do companheiro, não dela) seu companheiro agora mais
lento até nos passos; ele; ela a mexer gozar ferir por isso; longe da perfeição
a obra, que fazer! faz assim mesmo o pão de casa em casa; necessário lembrar
algo: os matutos apreciam demais o pão de padeiro, trazido da Vila. Assim
aquece o tal forno, forno acabado com pontas de tijolos por fora que aparecem
na imperfeição do marido porco... ela nessa altura da vida a dois podendo
criticá-lo noutras pequenas coisas também; antigamente abria a boca, apanhava.
Ele trouxe uns cacos da olaria, os intalianu falam falou Jerómo 'fazer pão
grande', olaria parada na visita, parece porque chovera muito e passou o ponto
da massa, não do pão, do barro ao tijolo e aí não se trabalha lá. Os dela cresce.
Costuma tirá-los quentes, forrados antes com folha de bananeira e as unidades
são grandes umas enormes. Os meninos querem as pombinhas, que são minipães ou
pães de brincadeira, brincadeira de comer.
Depois,
pronto, frio, coberto com toalha, ai aquelas moscas... – eles pronunciam
"tuáia" – uma limpíssima, a mulher é limpa e ensina esse valor à
prole. Enquanto...
Jeromão
longe aos tambiús voltara sorridente com os peixes espetados numa forquilha de
pau, cheirando já podre das horas tardas gastas nas águas; os peixinhos a ficar
no barranco o qual disputa com as formigas quem estraga mais a mistura ao arroz
com feijão da janta, Rita faz no domingo não arroz costumeiro sim
macarronada... mas deixa pra lá.
Porque
a mulher entende de encher todos dias, pensa o homem, a cobrar arranjar
consertar a casinha... não a quase tapera pobre deles, a da defecação. Feita de
pau no mais ou menos e isto ocorrera pelos moradores que residiam antes deles
ali; não é culpa do Jerómo. Agora a privada ameaça desabar despencar podre
pobre bichada cheirosa, malcheirosa a agradar as baratas (a mulher tem pavor
delas!). Tem tanto cheiro mau tanta barata além doutros insetos, tanto que as
crianças têm medo se servir do buraco da casinha – um buraco no centro dessa
nojeira entre tábuas velhas a rachar – então elinhas fazem necessidades no
terreiro atrás da casa e fica uma fedentina, reclama Rita; além disso, é uma
gritaria "ninguém vem aqui agora que eu..." toda família entende, ela
não: Rita incita o homem a consertar aquilo, antes de cair na lama um dia pela
podridão com cheiros lá embaixo nessa latrina meio improvisada. Soubessem ler o
futuro saberiam os familiares dele que ele mesmo despencaria com a casinha rumo
à sujeira, felizmente cedendo de lado o conjunto e descendo apenas metade. Aí
nesse futuro irá gritar o chefe 'corajoso' temendo afundar. Nisto a assoprar
mil pragas no linguajar sujo, Jerônimo nunca mediu o ambiente proferindo o
calão. Todavia não sabiam ler.
Não
leram então o futuro; apenas a esposa cobrando no retorno da pescaria do seu
homem a recordar o perigo iminente, sobretudo em se deixando pra lá...
16º
- Um Desastre
Um.
Um dois três ah a bruxa anda solta para dona Rita, Rita mulher de Jerônimo.
Embora ela desconhecesse tal ditado da gente da Vila e doutras cidades porque
no campo não tem desses dizeres, só outros dizeres – a megera estava solta!
Solta!
Solta
porque um drama em casa de Jeromão? não mas era difícil à pobre senhora sequer
entender tanta coisa ruim acontecendo, não na mesma hora e isso seria fosse um
despropósito. No entanto tudo no mesmo dia, uma quinta-feira normal ou comum.
O
mais importante daqueles acontecimentos que deixam a gente de cabelos brancos,
foi o espatifar da garrafa de fermento no chão da cozinha... ela eles todos
roceiros dizendo não fermento "formento", o que não altera o prejuízo
Na
roça antes e até acabar a roça – os fazendeiros viraram latifundiários em
detrimento dos sitiantes lavradores pobres ou empobrecidos, compraram as terras
expulsaram das terras os lavradores, os quais foram pra cidade alimentar o desemprego
às vezes partindo ao desespero, assim acabou a roça. Nela era quase impossível
ter fermento fresco, esse de padaria; dada a distância da Vila no caso e
situada no Vale do Rio do Peixe. Pois bem (devendo ser pois mal) os matutos criaram
um substituto ao fermento usual na cidade por outro cultivado e mantido numa
garrafa; substituído o caldo com novas adições em tal recipiente, usando-se o
caldo restante a avolumar na garrafa; a fim de preparar sua fornada. E é (ou
era) com isso que Rita contava fazer crescer e assar seus pães enormes em
tamanho e sabor. Mas eis... foi estabelecido que fora derrubado o vasilhame,
certamente num descuido ou mau manuseio de moleques na brincadeira na cozinha.
Tibóf
no chão!
Quer
maior tragédia!
A
solução foram as mudas de fermento das garrafas das comadres vizinhas, parece
que Cumádi Zefa. Resolvido o problema.
Contudo,
a bruxa não andava solta? Sim.
Não
parou aí na terrível quinta-feira. Naquela arrebentou o varal.... a choca gorou
os pintos, quer dizer fugiu do ninho deixou os filhos a nascer ao cachorro e
seria depois crescidos do gaviãozinho... o menino mais velho, Antônio, foi
capinar a área destinada às verduras e limpou um canteiro nascente de alface
imaginando ervas daninhas... o esposo Jeromão gritou com ela, a mulher, e fazia
anos não mais apanhava do marido e agora quase ele deu-lhe uns safanões (nervoso
por culpa do preço baixo precisando vender barato a mandioca).
Enfim parecia mesmo que o mundo ia se acabar.
De
maior gravidade foram os cacos de vidro misturados no chão da cozinha com o
caldo do fermento. Em segundo lugar o varal talvez, porque foi mais de um dia
pra recompor tudo no varal. O vento por cima a ferrugem por baixo a minar o
arame de ferro esticado para a roupa; quem sabe o excesso no peso das peças a
gotejar. A filha maiorzinha havia trabalhado nisso horas, um dia inteiro, tendo
lavado esfregado torcido gotejado no arame farpado onde presa a roupa. Daí, um
barulhão de assustar o mundo até fazer o Peri correr ladrar de longe o estrago
e mesmo a galinhada a se espalhar temerosa. De tudo nada sobrando no alto pro
chão de terra, suja é claro. E recolher amontoar lavar relavar e aí... bem o
homem da casa chega na volta do trabalho longe com sua enxada, ele e os meninos
maiores, eles – elas, as mulheres tiveram de unir força a emendar no mais ou
menos (medida bem cabocla) para juntar de novo as pontas do varal. Recomeçar. Ainda
a complicar aparece o homem e grita e quase bate na mãe dos filhos, o lavrador
no cansaço e na sua ira. Ih, não tinha saída, era recomeçar.
Ora,
a existência é um diário recomeçar, diz a escola da vida.
17º
- Linha do Tempo no Tempo de Convivência
Na
altura em que nos encontramos neste vigésimo primeiro século, os seres têm
dificuldade a calcular como viviam os matutos nos meados do século que passou,
seus dramas suas expectativas seus sonhos e como enfrentaram a realidade, dura!
que os cercava. Enfim como era a vivência, ao menos a vivência da familiazinha
objeto deste estudo; mais que estudo tentativa de recuperar memória.
Jerônimo
Silva tido no seu meio Jeromão dado o porte diante do meão caipira e mais nesse
menos pela barriga volumosa na idade da hoje chamada terceira idade... com seu
andar lento – esse teve com dona Rita, de quem viúvo na velhice, teve uma
história rica em acontecimentos. Como sendo pobres e os pobres a borracha da
História apaga, deixando gravado a existência somente dos personagens marcantes
por ricos e dada a projeção – tais capiaus sumiram; tentamos resgatar
resquícios quase remotos do que foram...
No
entanto esses pobres diabos tiveram vida por vez rica em jornadas sadias e
tristezas e sofrimentos e momentos negativos próprios ao sofrimento; tudo
apenas guardado na lembrança dos herdeiros. Ora, afirmamos que pobre não deixa
herança; mas a lembrança dos feitos e desfeitos (e defeitos...) isso permanece
na conversa íntima dos filhos e netos; todavia a outra geração a esquecer fácil:
não se lembra o ser terreno daquilo que não se cultiva, qual a planta sem
regador sem água; que morre, some.
Contudo
Jeromão feito Jerominho, uma gracinha; e a Rita que fora Ritinha ou Lindinha
igualmente uma graça – tiveram sua história, contada muita vez nos encontros
dos roceiros adultos e aqui supondo-se as crianças em volta ou a brigar ou a
brincar em gritos com gritos na ralhação dos grandes, pequenos em estatura. No
começo não se conheceram. Aos poucos as famílias na contínua interação se
aproximam e selam amizade, o que proporcionando encontro de tais personagens,
inexpressivos. Então Comadre Maria sabe que a Comadre Adélia tem uma filharada
e na penca existe a Ritinha. Jeromãozinho nunca viu Rita; viu após anos. Eles
se encontraram na escola? não havia escola na roça paulista na passagem do
século dezenove para o vinte. Depois sim.
O
moleque Jerómo fica sabendo da existência da criançada vizinha, a da cumádi
"Adéla", diz a mãe ao filho. Na penca a Rita porém menino só pensa
brincadeira, não sabe doutra coisa; embora devendo ele ser mais responsável por
primogênito (sempre se indica como o mais velho mas antes a perda da mãe de
família de filhos nascituros à morte e daí virar primogênito Jerônimo sem
sê-lo). Porém vive o mais velho no eito a ajudar o pai e a mãe, os adultos
enfim; no entanto também aí a brincar: ninguém segura na enxada um moleque com
arapuca armada e assim deixa o cabo da ferramenta pra tomar, vitorioso, e
exibir a ave presa e isso não é trabalhar à família.
As
famílias se mudam e por vezes somem do conhecimento roceiro: sempre trocando de
casa entretanto as casas onde moram pertinho, residem as famílias próximo,
entenda-se; já os casebres são como os indígenas nos ensinaram erguer por
séculos e séculos, claro continuaram fixos, não passam de taperas embora a
despencar. Nosso 'camponês', isto porque não têm consciência de classe; esse
nosso trabalhador pobre em coragem, e sem coragem igualmente a refazer a moradia.
Fora casos excepcionais. A tapera não muda, apodrece e servirá depois para
guardar ferramentas e insetos, Rita sempre teve medaço das baratas...
Na
mocidade, Jerônimo vê Rita, bela figura de mulher. Meses, anos até um encontro
quase formal num baile ou num terço nas imediações, pois o homem do tempo é
religioso por tradição, não se vai exigir filosofia e discussões no campo, onde
o analfabetismo grassa. Jeromão mesmo soletrava somente e Rita morreria sem
letra. Nesses encontros meio fortuitos se viram, talvez se interessaram um pelo
outro; enfim houve atratividade. Mas quem a reuni-los de fato seriam os acordos
entre as famílias.
Noutra
fase da aproximação da dupla, a qual geraria a vivência descrita até agora nas
estórias desta obra; noutra fase já os encontramos casados no padre da Vila,
sita nas proximidades do Rio do Peixe, então de piscosas águas, depois pelos
corretivos dos engenheiros do governo, foi retificado o rio e virou córrego de
poucos lambaris. Onde o chefe da família se divertia com os filhos maiores na
varinha e a deixar sua companheira na defesa das filhas, com muito labor e
canseira e desgaste. Os moleques não ajudavam a mãe: a mãe não conseguia
segurá-los; em não ser passando servicinhos como pôr lavagem aos porcos.
Então
a família já estabilizada. Desestabilizada logo e minada pela crise que
aparecia mais a despicar em cima das camadas debaixo; o roceiro por exemplo.
Assim
envelheceria a casa de Jeromão, envolvida nas dores da eterna guerra da
exploração – sempre atravessadores se enriquecendo na exploração da pobreza do
carpinador, produtor pobre e indefeso diante das normas do Estado e dos comerciantes,
sobretudo da ação dos banqueiros. Ah, assim desde que o mundo é mundo, supõe o
homem pequeno.
18º
- O Cavalo
Agora
Jeromão arreava seu cavalo pisado, quer dizer sem forças e a pedir
aposentadoria (o animal irracional, aqui se entenda; ora, o homem velho
também). Sorri a se lembrar menino, quando a imaginar-se grande adulto poderoso
e... bem, falava então consigo mesmo igual outra criança.
Era
muito minucioso. Não deixava por menos. Fez o animal ficar quieto.
Tomou
dos arreios, apertou barrigueira, o capricho e a paciência para colocar
certinho cada correia, encaixar fivela por fivela. Agora o baio – disse ser
baio, parecia baio – estava ele agora parado, sem as coceiras intermináveis,
sem precisar cavoucar a grama do chão com seus cascos ferrados. Aliás o solo
era quase despojado de gramínea. Nem precisava se incomodar com o incômodo do
seu cavalo, a ralhar as moscas cheirando lugares indevidos no pobre animal –
que a cauda estava parada. Todo animalzão andava inerte. E pôde o fulano
minucioso cuidar que o arreamento assentasse bem; que ficasse vistosa a
cavalgadura.
Aí
tomou as correias, o saco de estopa improvisando pelego, tudo no lugar; a
barrigueira era tão somente tiras por não ter outra coisa; as correias não eram
mais que barbantes sujos encontrados por aí; o selim um pedaço de pau achado ao
léu. Andava pronta a montaria.
O
cavalo não rinchou, aceitando a situação, ou por impossibilidade mesmo. Manso,
dócil, ia para a direita ou para a esquerda, o cérebro de um equino é o cérebro
do homem que o cavalga; ia para todos os lados como puxavam as rédeas de
cordonê encerado pela sujeira e pelo tempo. O cavaleiro, sujeito exigente e
minucioso, impunha, montado.
Ia
cavalgar. Após espera paciente, cavalgou enfim. Saiu pulando por todo canto, a
bater sem piedade na vassoura só cabo, por intermédio de um relho também
improvisado. Todavia ninguém notara coisa alguma, pois todos roceiros passavam
apressados demais; os adultos desapercebem crianças.
Que
faz agora tantos anos depois o velho matuto Jerônimo? nada, olha seu pensamento
e olha o Peri, cão sarnento a se coçar.
19º
- Bravatas e Costumes
Personagem
central desta obra de retalhos dos matutos lembrados pela memória, Jeromão, cansado,
casado também a Rita que nos desminta; Jeromão agora (puxa, faz tempo pois em
meados do século vinte) encilha a montaria, um cavalo bem pisado coitado parado
esperando a boa vontade humana, a imaginar o quadrúpede que seu dono o prepare
a fim de irem à venda do João e nesse momento não é pela compra mensal da
família; o cavalo examina o homem, enfim olha o animal o animal racional, este
que não se volta bem pro cavalo e faz o infeliz esperar; o cavaleiro também a
esperar arranjar ajeitar os apetrechos na criatura como sela arreios tiras coxinilho
e ainda aguarda balangar o estribo nas bordas a cada mexida do animal, do
irracional, ali então paciente. E pensa, não pensa certamente o cavalo ou
pensa? pensa nos seus dramas o proprietário do cavalo, velho ambos. Já sabe o
primeiro que o segundo voltará depois 'corajoso', até para enfrentar a boca
solta de Rita... Quando na venda, favas contadas, falará horas, embrulhado, de
caco cheio, narrando vantagens; parece que a poesia nos ajuda nisso: "a
bravata sempre tem um cheiro de cachaça", inclusive por ser machão ah...
pobre dos lombos da companheira nesse bravatear... No entanto curado, agora
(meados do século, entenda-se) manso para ouvir o falatório hoje "ontem...
você bebeu em demasia" e ele, Jerônimo Silva, quieto quietinho diante da
razão da razão, ela, Rita. Ora, será que isto, exatamente assim, não estará
acontecendo dentro das casas nas casas vizinhas! Decerto. É o costume na roça,
quanto mais vendinha mais cachaça e mais a volta dura com a esposa aturando o
bebum; e ainda por cima nesse por baixo, a pobre Rita com ajuda de suas filhas,
os meninos não se conta... a mulher na volta da compra e com tal auxílio
precisa pôr o pesado bêbado, um homem embriagado pesando por dois por três...
em síntese quatro meninas a ajudar a mãe pôr o pai no colchão, a mijar no colchão,
pra curar. Noutro dia, mansinho mansinho...
Contudo o homem, dito e tido por chefe da casa, nessa hora está se preparando
a servir numa causa nobre: morreu um capiau, o Zé? um Zé; e ele deverá ir, não
apenas ver o defunto e sim arranjar alguém conhecido para fazer o ataúde antes
que cheire mal, o caixão do defunto sim e sobretudo o defunto no caixão.
Entretanto ainda não tem caixão. Deve ir buscar alguém que só ele conhece e que
tenha entendimento de carpintaria ou coisa assim, que saiba manusear um martelo,
sim lá uma que outra escapada no dedo nos improvisos e pressas que um defunto
exige, seu fedor. O chefe da casa arruma a montaria para isso. Enquanto...
Enquanto
isso lá na área do morto os vivos choram seu fim elevam seus grandes feitos
esquecem talvez defeitos; lágrimas dos íntimos. E as mulheres vão preparar o
mortinho; ele que não passava dum homem de mediano pra baixo, alto no trabalho,
isso visto haver sido trabalhador, então desempregado porque os fazendeiros
iniciavam a fase do despejo das famílias de suas terras, plantadas com capim ao
gado, cultivada a erva pelos próprios roceiros que ficariam depois sem serviço,
bem o caso do Zé. Outro Zé buscado pelo Jerônimo da comadre Rita para fazer o
caixão do pobre a levá-lo ao cemitério e se promover as coisas de praxe. A Vila
ainda nascente como cidade e não dispunha funerária.
Sim,
não os homens, elas, as mulheres reunidas, chorosas algumas, no hábito de
arranjar o corpo morto à vida eterna, ao descanso no céu, segundo a religião
pregada e válida na roça. As crianças nessa novidade triste dão uma trégua e deixam
as mães livres à importante tarefa de lavar limpar vestir, quiçá pondo terno e
gravata! ah quanta bobagem e quanto estrago pois nem sequer na zona urbana se
usava quase indumentária europeia, com a terrível gravata de enforcar, e agora
é posta no morto.
Tudo
bem nesse tudo mal; o esposo de Rita já um tanto envelhecido arruma o cavalo, o
cavaleiro sério quieto sombrio e sobretudo a curtir o dia seguinte duma
bebedeira sem conta. Portanto não está disposto; não pode estar bem. Todavia
não adianta fazer cara feia e assim Jeromão assopra qualquer instrução à
esposa, sobe no lombo do equino e ruma ao rumo, objetivando encontrar um Zé que
faça o esquife a um Zé morto; morto decerto de morte morrida, causa mais comum
ao comum na roça.
20º
– Vacas & Demais Bichos
No
campo o campo é vasto, os caboclos ali viventes é que sequer percebem, ah
percebem sim mas não aquilatam a extensão no tocante à imensidade da área e
quantos animais vivem nela. Dos animais unzinho já ladra perto e nos pés do velho
Jerônimo, o Peri a atrapalhar a gente. Não percebem eles e a gente de fora na
cidade nem pensa na roça, ela a esperar seu próprio fim... Agora a roça como
fator básico na sociedade só a temos na memória, memória de meados do outro
século. O cão ladra não sei o quê. Seu Jerómo cuida da bicheira no cavalo –
último de seus bens, mesmo a terra não lhe pertencendo e em vias ser expulso
dela igual outros trabalhadores; e para onde iria, pensa tristonho, onde? após
Dona Rita enterrada e os filhos criados... é mesmo, se responde, precisaria se
mudar à Vila; e piormente tivesse residir na Capital; lá fora uma vez ver parentes,
viu confusão.
Pensa
enquanto exalando o cheiro da creolina, o curativo a arder e daí o cavalo
estremece quase foge na dor e do incômodo. Ali estão os que nunca se largaram,
o Peri feito grude onde o amo vai vai o cão; e o cavalo de nome Guarani, embora
não saiba disso, o qual não se gruda ao homem é o homem quem o não larga. Também,
com aquele andar lento a barriga enorme pesando, nada faz sem o cavalo. Cuida
da bicheira assim como cuida dos instrumentos de trabalho, a enxada por
exemplo. Ai o trabalho... o trabalho quase aposentado a um velho jururu;
tentando viver sozinho na tapera, a lhe parecer grande demais para tão pouca
criatura. Logo os filhos lhe fariam a mudança dali. O pobre roceiro a imaginar
enquanto trata dos ferimentos da montaria de que jeito sobreviver no período
das vacas magras na casa; pensa nos conflitos em novo ambiente sobretudo com as
noras; os netinhos? esses até a lhe alegrar os dias. Agora eram as vacas magras
pra si, sem ganho sem forças à labuta e pior: doente!
Resta-lhe
lembrar os tempos das vacas gordas, palavreado que os trabalhadores usavam para
expressar não a riqueza sim alguma fartura na pobreza crônica de suas casas.
Conta isso... contar a quem! ao Peri o Guarani decerto nem sabendo ouvir. Nunca
fora criador de animais, como é o comum entre os caboclos, somente a Rita
cuidava das criações, porcos galinhas e... crianças; inclusive conversava de
homem para homem com os bichos todos; claro ser de sua alçada e competência o
falar falar falar ralhando dia inteiro; falar e educar sobretudo a prole, pois
o machão nas suas altas funções a trabalhar no eito ou na beira do rio, o Rio
do Peixe lembramos para não se esquecer. Ela morta. Ele viúvo. Sozinho e isso
afirma na conversação, concordando, o Peri.
Além
dessa conversa meio monólogo pois nem o velho quase abrindo a boca... não é bem
assim porque o cachorro ladra até nos passarinhos próximos – além, lembra das
coisas da época, inclusive aquela bagunça, ou seja a bagunça no tempo de eleição.
Na roça, viva ou morta, nela a política não chegando, chegando sim vestígios
através do ronco nos aparelhos de rádio de algum lavrador, ainda não expulso de
lá. Contudo a cidade fervilhava...
Ele
pensa se alembra e a memória é também uma forma de viver, inclusive viver da
morte qual aprecia o dia de finados. Recorda-se da eleição. Bem, nisso viu
pouco e participou nadinha, nem eleitor sendo no seu analfabetismo. No tempo
antigo, isso sim contavam os pais e os tios com mais contato no voto. Diziam
eles – ele repete às orelhas duras do Peri – falavam que na Vila no dia de
votar os cavaleiros circulavam nos vilarejos de arma em punho. Tiros brigas
mortes. Jeromão entretanto um ser pacífico, além dos pais não lhe deixarem ir
ao patrimônio na semana da festa à escolha em qual coronel votar.
Sua
realidade era menos dura; agora mais dura; e mais difusa.
21º
- Um
Acabar enfim
Será
um sonho!
Não
é um sonho. Não é um sonho sonharia Jeromão da cumádi Rita... ah dona Rita se
foi, comenta a vizinha da vizinha, aquela que não se dava com a
"Véia", se expressando assim gozadores do bairro de periferia na
cidade em crise a província em crise o país em crise, a crise do mundo. Ah não
se deve respeito aos mortos, sobremaneira nos casos de grande sofrimento!
Jerônimo
– um Jeromão encolhido enrugado renegado encucado agora nos seus pensamentos
íntimos, e não são em totalidade os pensamentos a única expressão íntima que temos?
– seu Jerônimo da velha dona Rita, Jerônimo do Joãozinho, do Antônio que morreu
ano passado, da Maria, "dona Maria" essa filha dele faz questão
esconder sua vida desregrada na presença da vizinha deles dona Santa (não tanto,
sim até boa vizinha; e que culpa de sua língua se aquela caipirona pusera
também Santa como nome na filha, coitada, coitada por quê?) e ainda Jerônimo da
sobra da prole deles; quer dizer daquela que deu à luz, o pessoal diz Jerómo;
sim nada sobrando da filharada do casal e ainda por cima devendo ser por baixo
sete palmos para baixo, como exemplo o Antônio que faleceu no hospital da
prefeitura ano que passou. Dessa gente ninguém quase.
Quase
Jeromão teria um chilique igual dava na Rita nos últimos dias antes do dia o
velório o cortejo o cemitério municipal; quase Jeromão, soubesse o que se
falava à boca pequena meio na surdina e alguma vez escancaradamente a ferir sua
casa; gente do povo não mede palavras não tem as meias palavras, não fala mas
pensa imediato e aí abre a boca. Não. Alguns têm o cuidado pedir desculpa.
"Desculpa, Compadre" a maioria de língua despregada. E Jeromão tendo
mesmo ouvir isso, ouvisse surdo duma e escutando pouco da outra orelha.
O
mundo continua rodando, é assim que o mundo gira, diz um comentarista
internacional que vê na tevê de se não ver vendo – a gente embora não se
conforme bem, bem que vê ouve a mentirosa ali a praguejar políticos corruptos,
o de todo dia... e fica olhando por olhar a tela e já antes dessa maneira agora
também não compreende. Ele olha, ele diz na expressão do 'vernáculo' de roça
nele impregnado "óia" porém anda longe, seu perto enterrado na Vila
no cemitério municipal; olha as coisas faz que vê que ligado. Não.
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A
vida na urbe deixa a desejar; e se fosse na capital então! fora lá numa viagem
rever parentes, Graúdo Miúdo os outros meninos (irmãos de sangue dele) eles a
se findarem por aí longe a gente nem mais sabe deles e daí falam que já
morreram, sumiram.
Oh
a vida na cidade é um horror.
A
família em decomposição vive faz uns poucos anos na periferia distante perto
encostado da violência, do descaro, do descaso na falta das coisas básicas: não
tem hospital não tem... enumera nos dedos da mão grossa artelhos nodosos de quando
pegava na enxada lá no Rio do Peixe e... ah se lembra relembra em recordação
doída doido pra voltar... No entanto não pode não dá mais e vive o menos aqui.
Aqui!?
Os
filhos – claro terem eles antes de preocupação com o pai cuidar dos seus
próprios filhos, claro – seus meninos já velhos o Joãozinho mesmo e que lembra
um pouco o João da Maria da Venda, ele tá acabadinho (Jerônimo não se vê não se
analisa então, então pé na cova...) o pobre sofre de tudo que os médicos mandam
sofrer; engole mil comprimidos, é um ai o infeliz; e a mulher do João, minha
descabeçada nora e até lhe devo favores, ih mulherinha teimosa faladeira e...
ora, deixa pra lá. Os filhos o mantêm, a aposentadoria menos de salário-mínimo
é o mínimo nem dando aos seus remédios; e ainda se dá por feliz porque antes
dos setenta anos não tinha nem isso, a roça não o registrara nunca.
Não
obstante é dela que vive, se vive. Relembra o Antônio, Cumpádi Tonho que me
escrevia as cartas aos meninos longe. E o Zé Paraíba que morreu também...
falaram que... vixe quanto sofrimento e os colegas dele da enxada igualmenbte
sucumbiram.
Relembra
mais. A lembrança não tem lá muita consistência para ninguém e em especial aos
que têm o cérebro a despencar. Piormente aos que têm tiveram o costume de exagerar
nas vantagens – Jeromão mesmo agora e sobretudo antigamente quando se dizia ser
gente, era um bravateiro um faroleiro. Pouco em poucas vezes se lembra e narra
a outro velho vizinho (este o enterraria meses depois...) e expõe qual fosse hoje
agora neste instante os acontecimentos, a Morena? era grande alta forte, sete
palmos de altura. Na época aí por várias décadas atrás em voga a Mula Preta, cantiga sertaneja a dizer
"tenho uma mula preta de sete palmos de altura" e repetiam as duplas
e repetia ele, a pobre Morena não tinha sete, fraca velha usada abusada e feia,
nenhum ladrão se interessando por ela; nesse tempo o tempo da fome de roubo de
cavalo, ele mesmo tivera o Negão roubado no pasto um dia de noite; enquanto a
Rita esquecera guardar as peças e de manhã não tinha nenhuma roupa no varal!
cavalo e porco! e galinha! o Negão fogoso forte bom no arado e na carroça –
esse o bandido levou! Nesses anos houve outro tempo em que visavam burro velho
e égua esquálida pra roubar, levar a tropa ao matadouro clandestino virar
mortadela "mortandela" na sua pronúncia.
Assim
Jerônimo hoje. Hoje conta a outro velho menos acabado acabando seu pensamento
que não acaba: sempre retorna retoma o que retomar reconta ao infinito.
Uma
coisa é certa: não acerta viver ali na zona urbana, desprestigiada por uma periferia,
um arrabalde no limiar do que fora a sua roça, no seu antigo sítio de plantar e
viver, pois agora quando vê mato, vê apenas uma capoeira largada suja cheia de
entulhos, sobra do centro comercial e até mais comum ser restos da própria
periferia. Não acerta. Vive da lembrança.
São Paulo novembro
2018
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