quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Jeromão e Outros Matutos


Jeromão & Outros Matutos

1º - Personagens Matutos
O Jeromão que me espere – e vai aguardar muito, pouca paciência tendo – ele elão grandão teimosão que sempre fora; porque preciso fazer umas pesquisas, fastidiosas sei, a fim de encontrar estórias esparsas versando sobre o homem comum simples simplório até mas natural (honesto não ponho minhas mãos no fogo...) enfim o caboclo tido e dito caipira: narrativas pra encher as tripas da barriga desta novela. E isso levará tempo por abarcar mais de três mil estórias criadas postadas expostas encompridadas espichadas e/ou contidas espremidas em mais de vinte mil laudinhas manuscritas datilografadas e por último digitadas, impressas ou não, a alimentar de papel o mundo ao seu próximo quiçá distante fim, findara o pobre ou apenas infeliz planeta, findara todos sabem num Dilúvio a dar trabalhão a Noé. Porque agora, próximo ou distante temos existência curta o que pra um proximinho longinho a outrem daí a relatividade do que todos humanos afirmam, afirmo acabará desta vez em fogo e será decerto um Fogueirão. Assim minhas vinte mil folhas ajudando um pouco a queimar e consumir. Bem a propósito, vivemos (e/ou morremos) no consumismo consumista consumado. E é aqui pedir vênia escusas à paciência 'paciente' de Geromão.
Ora, é era será!? com gê do ganso que fora quando fora pra não complicar com fora (fora, Peri! lugar de vira-lata não é na cozinha e aqui Jeromão já velhotão perdendo o mando mandão se preocupando a surrupiar-se da tal cozinha onde o café a ser "quentado" requentando. Não: não ele, o cachorro) quando o fora fora fôra – dizia também o ganso fora com cê e cedilha e isto faz tempão. Mas será escrito, ainda, com gê ou com jota o Jerônimo ou Jeromão? Não sei. Aqui nesta obra de si já a cheirar mal; aqui sempre com jota, o iota. Tudinho nadinha valendo, quer dizer não tendo importância porque o que importa mesmo é que o Jeromão é analfabeto, analfabeto igualmente de pai e mãe. Acresço ao chavão popular: e de filho, filhos pois prolífero esse homem, além de machão. Contudo não adiantemos neste atraso porque somente peço que me aguarde a pesquisa aos papéis do fim do mundo.
Faz, não sendo uma exortação sadia, faz em resposta "grrrr" e assim julgo inocentemente aceite o alvitre e espere.

- Talhe do Homem
Qual homem! um que se diz mui ômi. Neste texto sequer compensa aspear palavra dita ou frase, a respeitar a língua formal – Jerônimo não respeita; e antes de respeitar desrespeitaria por desconhecê-la, já estabelecido analfabeto.
Enfim como é, ou era morreu de morte morrida ou doença ruim; este o apelido antigo do câncer, câncer nas tripas mas isto senão; senão vejamos como posto aqui o hospitaleiro morador. Morador na região do Rio do Peixe... sim tem um punhado de rios e riachos no país com tal nome, é pegar o mais conhecido e assim situar o homem volumoso. À morte andava volumoso estufado doente é claro; porém vida inteira grandalhão no físico. Ou seria que os outros moradores em comparação medianos magros. Já sendo corpulento, lá pelas tantas pôde mostrar hospitalidade. Diante dum cidadão.
O cidadão desconhecido passado cansado estudado ou estudando, universitário decerto, quase doutor, não doutor médico doutor em línguas e sábio talvez na língua pátria – o cidadão embora estranho fora acolhido.
O carro novo apesar não último tipo e do ano se quebrou. Sabe-se lá o quê! parou. Pior: parou no meio da estrada. Calor poeira deserto mato, estudante isolado. Com temor. Que fazer! andar. No asfalto a gente sempre aguarda um veículo a passar e atender; ou num melhor ligar do celular dando as coordenadas e esperar socorro ou mesmo achando nas imediações oficina. Mesmo que não entendidos em carros do ano no entanto podendo ser atendido; chover no molhado, o rapaz da cidade cortara caminho por atalho e o automóvel falhara morrera parara parou na estrada vicinal rica em poeira e nada. Pé na estrada.
Francisco, futuro Dr. Francisco, andou quilômetros e quilômetros horas e horas chegando na boca da noite. Então Dona Rita acendera já o único lampião e as lamparinas claudicantes e piscadeiras com lume a vencer o próximo escurão da lua nova.
O outro homem, o cidadão também homem (aqui não vamos discutir a validade machona) se apresentou pedindo amparo a Jeromão. Este abriu a cara fechou os olhos piscou suficiente a acostumar a vista – e acabou por dar guarida. Mais, fez Rita pegar uma galinha no pau de poleiro indo a conciliar o sono. Foi a ave à panela no meio da mandioca do arroz do feijão, servida ao homem da cidade bem distante. Ah a distância, esqueciam estas linhas dizer que o celular não fora acionado por ainda não existir naquele tempo, no tempo desta estória teimando ser história. Enfim, Francisco agora elogia a comida no prato trincado velho usado que usara, então bebericando cafezinho como sobremesa; elogia sobretudo o tempero excelente da senhora... disparando na mulher constrangimento vergonha e também vaidade. Nisso o dono da casa despeja (irreverente e defensor da verdade):
Não seu moço, num foi trabaio nenhum, a mulher tá acostumada. Nem gasto fora do gasto, num se preocupe. A galinha andava mesmo um pouco jururu adoentada; teria que sacrificar ela mesmo mais dia menos dia cum medo passar doença ao terreiro e peste nos outros bichos. Dizem que nos porcos a peste é tiro e queda. Quanto ao arroz e feijão, é de cedo, do armoço; a mandioca ela deu uma quentada. Gasto nenhum. Agora ocê vai mijá lá no fundo enquanto minha mulher ajeita uns pano na túia procê dormir.
Foi. Com medo. Em menino tendo pavor de escuro, a lua nova agora não 'colaborando'. Foi. Tornou. Experimentou a tulha e procurou o dono da casa reclamando ter visto ratos.
Jeromão: vixe, rato? ia ponhá ocê na sala mas de noite após apagar a lamparina o que tem voando demais é barata! A Rita tem medo imenso de barata e grita de assustar o mundo. Fique lá mesmo na túia com seus ratos, se precisá e num adiantá uns coices neles então me grita... (não completou a frase a afirmar que seria surdo de noite ou que os roncos invalidavam os pedidos de socorro do cidadão; diria mais: é intriga da medrosa, ela que fala que meu ronco parece corte de serrote e por isso ela não dorme). Paciência. Francisco indormiu na tulha, atulhada de palha de milho e em meio ao cheirinho de rato além da palha úmida também exalando cheiro irritante no tempo das águas, não sendo tempo de chuva, andava até mui seco. Acordou o dia ao dia acordá-lo.
Aí vêm as conversas. O chefe da pouco mais que tapera estando a limar a enxada, perto a mulher e os meninos, estes curiosos pela novidade visitante, ela preparando a marmita do seu homem num caldeirãozinho amassado.
E, lógico, tagarelando ele para descartar e se ocupando para apressar o estudante se safar dali. Nisso ao rapaz não havendo lá muito meio termo. Teria que voltar ao carro longe e de lá à via no asfalto a pé (ué, num sabe muntá, se espantou Jeromão) a pé sim e... bem, não sendo da conta do trabalhador ali carinhando o corte da enxada com uma lima mui usada; nem da conta deste texto, somente da vítima cidadã.

3º - Visita Doutora
Naquela hora, hora em que o visitante se despedia, tendo apesar demora andar rumo sua volta ao carro quebrado parado (roubado! ai, quanta bobagem a gente pensa lembra não comenta:) naquela o Jeromão a seu feitio estendeu um pouco a conversa, num papo em que se tornavam já amigos por noite passada ali na propriedade o estranho vindo da cidade grande e de condução enguiçada no estradão. Antes em noite tardando a fala encompridara, Jerônimo apreciava muito as orelhas,  pronto a dizer o que dizer – falaria sem parar diante da filharada e pior: perante Rita não! sim aproveita as orelhas 'chegantes' (diria 'saintes' pois o estranho amigo a ir-se embora) não fala manso grita, se expressando quase sempre aos berros; ora, o costume impede que se exagere na fala aos de fora e o mais a acontecer é que nem se ouvindo de tanto ouvir já a barulheira dos de casa. Agora, em chegando o fim da rápida estada, agora embica a contar derramar conversa contar vantagem também diante de quem não possa validar ou contestar ditos... Assim destramela o 'contido' Jerônimo frente 'doutor' Francisco, não só na despedida do homem não. Haviam conversado muito. O neófito naquelas bandas atrasadas cercadas de mato, realmente nenhuma selva bravia porém capoeira braba a vicejar carrapatos – tanto que o visitante noite toda se coçando bem... E num momento o dito cidadão, interessado por hábito vender pensamentos construtivos e a tentar impingir civilização naquele meio pobre de língua; no momento indagou de um qualquer termo a se esclarecer, todavia... onde um dicionário a comprovar! Debalde quis ao dono da casa ensinar certa palavra, aí aqui entrando o pai de burros nunca visto no meio e pergunta se não tem dicionário! Jeromão: quem!? nunca apareceu aqui um sujeito com esse nome, Januário sim, tem o cumpádi Zé o cumpádi João tem o cumpádi Januário... Fora difícil entender que entendesse o homenzarrão, homenzarrão ou é que Francisco franzino pequeno magro baixo perto daquela barriga de muito comer e pouco alfabetizada, analfabeto mesmo de pai e mãe e filho, filhos ali em penca. A propósito... ah a conversa esticara tanto, a tanto o próprio Francisco esquecer-se do vocábulo incerto. Agora tarda dar a mão ao morador e sair escapulir ao carro parado morto no estradão que ficara em a noite escura. É preciso insistir que anteriormente versara a prosa em mil aspectos, um chamara atenção da visita, visita esporádica porém importante e importante exato por ser raro alguém aparecer; o chefe da família andava seco de vontade contar o que contar... Um chamara de fato atenção por ser sobre Dona Rita, chamada Linda diz o esposo da esposa, na família dela. Ela respondia lá por Ritinha ou Linda. Linda feia agora, destroçada na idade na parição, enfim nos muitos partos – bem uns quinze rebentos visto ela mui parideira, vivinhos na casa só os oito os outros saíram de anjinhos, apenas um menino falecera grande. E no descuido da fala, fala Jerônimo da própria mulher ao dizê-la estragada, e diz sem meias palavras, sem diplomacia, sem jeito; porque desajeitado por natureza; ou grosseiro somente.
Por fim o 'doutor' Francisco, sem idade a quem não saiba medir ou só calcular, por fim se despede do velho, velho em termos o Jerônimo porque aí por uns sessenta anos e na época passada passado ele quase considerado matusalém aos caboclos. No bota-fora Peri não deixa por menos e ladra, não se sabendo se de tristeza na despedida se alegre por livrar-se da visita. Além do cão os meninos a rodeá-lo, com respingos paternos aos filhos; uma pequena se engraçara do moço estranho já seu amigo, embora Francisco igualmente desajeitado e não sabendo carinhá-la.
 Naquela hora, exato no aperto de mãos, enquanto um parte outro chega, o compadre Zé, numa passagem rápida indo à vila comprar remédio à sua filha doente; e não obstante o impositivo da pressa, retiveram um pouco mais ambos compadres o cidadão de partida. Mas afinal o hóspede sumiu, sumiu na estrada sumiu da vista sumiu destas linhas.

- A Morte a Morta
A morte não manda recados... manda sim na foma de enfermidades; e, depois, visita o local e não perdoa patifarias covardias vaidades constrangimentos. A morte executa!

Toda a casa da comadre chorava; os pequenininhos igualmente em lágrimas mesmo sem entender aquilo e por imitação, comum entre seres humanos, a semelhar os grandes, pequenos estes por baixa estatura; o Cumpádi Zé mesmo atarracado e cheio de corpo mas quando muito mediano, ele firme porque o mandamento era então de que homem não chora, chora, chora sim e não demonstra não pode se trair e trair olhos vizinhos; os vizinhos de perto os parentes de longe chegando também todos ao anjinho ali. Ali a menina espevitada e viva, morta no aguardo do fim do velório do começo do enterro; o qual seria e foi na vila, lá pra lá do Rio do Peixe além da casa de Jeromão. O Cumpádi Jeromão a dizer na festa fúnebre que o rio Sem peixe não do Peixe, era sim ainda piscoso à época. Iria o cortejo simples e custoso, lerdo, lento, de horas. Ora, agora se fala a velar pra não dormir, não fazer feio e ofender os santos; a Cumádi Maria mãe da morta, ela sim não a morta vê-se que não, a Cumádi não se conforma com a perda. Até o tempo fica triste e chora, chora triste de tristeza ou apenas permanece carrancudo da não aceitação dessa sumária execução. Tanto assim que logo a desabar e o cortejo se realizaria na chuva lenta qual a gente a acompanhar o cavalo levando o corpo à sua última morada; apesar de não haver havido as bênçãos do padre o qual só vindo quando vindo de passagem. Comentava-se no publiquinho (pouca gente por ser hora de enxada a enxada parada em respeito a elinha e aos compadres) que a Cumádi Maria a que mais chorando; ou secando um pouco o rosto de mãe a dar uma ordem ao café ao bolinho e até à cachaça dos homens, com nenhum podendo ela era deixar que bebessem de boca em boca e se destramelassem por isso; porém tornava loguinho a mulher ao choro e a lamentar a perda da filha ali no caixãozinho branco adornado de flores trazidas a enfeitar por toda vizinhança. Contudo havendo papo – sem graça porque papo de verdade exige alegria mentira e exageros outros, quase todos contidos. Girando a conversa em torno da lavoura preços e mil questõezinhas, questiúnculas insolúveis na relação cabocla no entanto a gente quieta ou à meia voz em respeito à defuntinha ali próximo, mãozinhas postas narizinho pro céu levemente iluminado por velas fedidas e parecendo ao vento lá fora ali respingando dentro como um vaga-lume ou caga-fogo no dizer irreverente do Cumpádi Jeromão, presente com os seus, a Cumádi Rita se desdobrando a movimentar a cozinha no lugar da patroa da casa, a infeliz então em prantos convulsos, pois chegando a hora da hora de levarem sua menininha "calma, Cumádi, é Deus que vai levá ela!" Todavia a roda macha não 'irreverenciando' no instante porque é e sempre foi desse jeito: eles juntos e a falar por vezes altão de coisas mundanas – noite inteirinha uns contavam anedotas e até as cabeludas dessas que se narra longe delas, as muiés, diziam eles, que só conversam de criança e coisas de casa de lavar de passar, a passar horas! hora eles passam, os que não são traídos pelo sono e o Dito chegou a roncar, cutucado por outrem acordando sem saber onde quando quem, ah quem no caixão na mesa na sala na casa do Cumpádi!? Porém chega mesmo a hora.
E já quase a reunir uns no fim a fim de levar a pobrinha a comadre lembra a força dela... da enfermazinha? da Cumádi? da Morte. A Morte chega com seu alfanje, foice dizem matutos e ah... quando se percebe, ela a limpar os cortes da lâmina, alimpa nos panos negros feios sujos da saia ou até – a garantir a mentira um que vira isso e a jurar ter sido com olhos que a terra há de comer: lambendo Ela o sangue da vítima, aqui vitiminha inocente. Ela não quer saber de prosa e executa.
Então se reunem para levar a urna diminuta simples pobre da pobrinha à Vila, ao menos para um religioso benzer não estando o padre; e de lá ao cemitério, um sem o luxo daqueles com anjos de asas ricas das ricas capelas quase igrejas nas cidades grandes. Quem afirmou isso! ora, o mais mentiroso em a noite de velório no meio das piadas indecentes e de caco cheio de pinga.

5º - Menininho Jeromão
Jeromão em Jerominho era uma gracinha, tal qual toda e qualquer criança. Verdade que nem todo mundo vendo assim o quê se vê e vê doutro modo, como por exemplo dona Zefa com hábito pôr defeito em tudo e disse outra coisa que a ordem afirma ou seja 'os menininhos são uma gracinha'. Nascera gêmeo, ela: "logo o que era bonito morreu, sobrou isso..." Isso o nenê Gerônimo – registrado com gê do ganso mas isto já vimos e não discutimos, pelo menos bem discutido. Ela, a Zefa, que dizia a dizer parecença com macaco... Valha-nos Deus! Cumádi – todo recém-nascido não parecendo com gente e... num deixa a gente terminar, viu mais defeitos ainda no pobrinho, falta disso daquilo naquilo.
Aquilo cresceu, sabemos até haver virado homenzarrão a deixar outros caipiras lá embaixo apesar de em média nossa gente não disputar alturas com pessoas do norte da Europa por exemplo. Mais pelo volume a grandura de Jeromão fazendo jus ao nome ou apelido; dito redito tido ele por chefe, homem, homenzarrão.
Porém sim, Zefa tendo um tantinho de razão.
Aos dez, anos é claro, aos dez já sabendo ver as horas no despertador, o que algo impressionante e extraordinário no seu atrasado meio. Meia década antes havia aprendido (com louvor? com louvor entretanto pra matar a mãe dele de raiva!) aprendera a assobiar ou assoviar e a reação é a mesma não depende de letra se bê se vê, se vê neste caso: depende do talento, se bem que os meninos loguinho conseguem assobiar e repetir e repetir o assovio. Assobiava a todo momento e sem parar; um fifio fininho e um pouco desafinado, mui longe das músicas sertanejas que ouvia a repetir (isto não chega a ser talento...) a repetir o canto que lhe dera origem; não importa; importa a irritação causada pelo assovio, irritação na pobre genitora, a qual além disso aguentava a trempe inteira, a meninada dela com presença de um ou outro afilhado seu ali a bagunçar sua cabeça de mulher; e a suportar os moleques da vizinhança também; além de apanhar do marido quando bêbado ou mesmo sem cachaça no bucho ou até pela falta de pinga na barriga (na cabeça). Agora Jerominho aprende assoviar fino com a boca em bico, ai que tristeza essa alegria do menino. Menino não tem jeito. Os grandes (pequenos igualmente na estatura, isto discutido antes) enfim os adultos, gritavam com ele, ele parava de cara sem graça; a retomar esquecendo imediato a ralhação por seu firififi.
Dona Zefa, não dona Zefa tendo defeito pôr defeito nos outros – Dona Zefa mãe de Jerominho, ela Josefa; a outra sim que era conhecida com tal apelido no bairro; os nomes se repetem assim como José Antônio João e seus correspondentes femininos, os quais sempre vicejaram nos cartórios. Aliás não se registrava na época os filhos no cartório, inícios do Século XX, eram registrados pelo batismo, quando tendo sacerdote, ou seja registro na Igreja.
Além de irritar pelo assobio e também pelas rusgas entre os moleques, incluindo Jerônimo – Jerominho com outro hábito condenável... não era por não tomar banho e andar com o corpo e as vestes sujos não: um pormenor que se não via nos adultos, aos quais era preciso quase levar à força tomar banho na bica ou na bacia, bacião, no caso ainda pior a reação. Não. Não isso, aquilo. Aquilo? Jerominho vivia alimpando o ranho a escorrer-lhe quando resfriado no braço direito. Não estava direito e daí repreendido severamente por Zefa; a mãe Zefa. O bracinho a ficar prateado da gosma seca, frequente misturada à poeira.
Enfim nada que o sol não houvesse visto antes. E veria ainda por muito tempo depois.
Um dia, muitos dias e anos após, o berrador Jeromão quase bate num dos seus pequenos a alimpar o muco no braço, também o braço direito igualzinho o pai. O pai, por sorte do filho, se lembrando a ralhação materna, pelo mesmo vício.
Nojento, "nojento!" gritava cumádi Zefa, justificando Zefa à outra Zefa escutar.
Isso decerto o sol percebeu.

6º – Visitantes na Roça
Hoje é dia quatro, o mês o passado não se lembrando, o ano o futuro adivinhão não tendo ideia; eu sou moleque, a família veio passar o domingo de descanso no seu Jeromão compadre de meu pai, que batizou em nome de Deus na igrejá o quinto dele, não de Deus sim de Deus é claro, que assim creem, mas de Jeromão e dona Rita, comadre Ritinha. Estamos nas bandas do Rio do Peixe e é tempo da Guerra. Qual guerra a gente miúda nunca sabe, sabe que falta o essencial faltando tudo... Ah lembrei, acho que me recordo o ano: 1944, então minha irmã nascera, era nenê ainda, pronto; tenho certeza nessa data. E deve, creio, ter sido na Europa pois o vizinho lá em nossa Vila a qual nós pensamos cidade, o vizinho embarcou pra lá, para Europa a morrer patrioticamente na Itália com os pracinhas, a mãe dele chorava em desespero na estação de trem...
Jeromão anda, vejo, um pouco constrangido porque como receber os cumpádis da Vila! sem o necessário, não por não dispor de meios, suponho faltar meios também, um menino desconhece essas coisas. Porém por não haver encontrado na venda na compra última açúcar; e agora como Rita fará fazendo café... Então, na roça sempre se arruma um jeitinho e se improvisa, improvisaram o açúcar usando no lugar caldo de cana. Umas canas que chamam cana de burro, finas duras e mui gostosas, boas para as criações e boas para criança morder espremer escorrer o caldinho no braço e ficar grudento. No dicionário terá 'grudento'? oi que já falo a falar e lógico todos falamos certo o errado, todavia já a escrever também errado o certo da língua; e isto é grave me ensinou Dona Tomásia na escola; olho pros meus coleguinhas aqui na roça, a roça parecendo mais um arraial com casebres bem pobres e cheiro de mato, mais arraial que casas comportadas no estilo citadino. Então me perdoem pela ortografia – escrevemos em tendência como pronunciamos.
Enfim a família roceira resolveu o drama do açúcar; enquanto tal solução nós meninos fomos bagunçar conversar nossas coisas insignificantes na visão adulta. Ou não bem assim, assim assim o menino mais velho na família, eu, a família da cidade, arisco tímido como fosse ele não os da casa o caipira – e por essa razão fiquei encorujado na barra da saia de minha mãe. Não aguentei não aguentaram os matutinhos e logo nos unimos na brincadeira, brincadeira inventada na hora mesma de brincar. Corremos gritamos tal qual fôssemos amigos por anos e anos... Mostraram o córrego, "córgo" pronunciaram, vi peixes miúdos no fundo em água límpida e – pra mim a novidade – agrião vicejando na tona. Me lembrei (ah dona Tomásia, ela: "nada disso rapazinho, não, não é assim; na frase é feio iniciar com pronome" e o que seria pronome!) realmente lembrei-me ser obrigado a comer no almoço alface couve agrião, folhas eu dizia, preferindo bifes. Aí voltei aos amigos recentes, eles propunham correr apostar corrida e me chamavam a participar, também chamava pelo filho mamãe, fui a contragosto, chego dentro da casa: hora do café. Dona Rita, a comadre dela, servia a infusão fraca e adocicada e uns bolinhos umas broas de fubá, broas que sempre detestei. Fiz decerto feio, fiz cara de nojo, fiz um asco mal-educado...
Despejam agora numa caneca de lata de flandres outra caneca de café quente de queimar os beiços. Tudo bem.
Tudo mal: o sabor horroroso de café preto como a noite no dia na tarde de se ir embora, o sabor num gosto intraduzível aos enjoados e malcriados e petulantes. Fiz blululuf de rejeição.
Pior. Gritei o que pensando em não engolir aquilo; a envergonhar os meus de casa e a casa adulta que nos recebia. Quase mato a mãe, o pai num papo com Jerómo não viu não ouviu. A pobre, quase morta de vergonha!

- Compra na Venda
O chefe da casa, não o dono o dono a dona e é sempre e sempre foi assim – a mulher é quem sabe de fato e de direito das coisas que faltam em casa; sobretudo na cozinha e, antes dela cozinha mandona imperante chata por exigente, a mulher exigente aos bolsos do homem (homem dessa época, aí por 1944, meados do século XX) esse homem reclama disso com ela, ela faz que ouve houve por bem exigência de não ser escutada escutando embora; e ele, Jeromão, reclama por andar sem dinheiro, Rita cobra: falta isso aquilo e não tem... digamos linguiça. O Peri olha desenxavido ou sonhando, decerto a sonhar com aquelas esticadas num varal dentro de casa que ele fez, ele naturalmente que não o cachorro, o dono do cachorro; fez montou lá em cima naquelas alturas a gotejar gorduras embaixo no chão onde o cão de espreita a cheirar as gostosuras lá presas... na verdade Jerônimo enganchou um arame; antes pusera uma cordinha um cordonê um barbante que se arrebentou e a coisa despencara no solo, não estando a desejar os impossíveis o cachorrinho da família, por estar ele na hora a correr com os meninos lá fora. Assim, refez a geringonça o chefe substituindo a corda fraca por arame resistente e a isto junta-se umas marteladas no dedo e xingos do dono do dedo e, eventualmente da casa, pois Jeromão adorando o calão... Todavia, agora não: Peri olha pra cima esticado o arame – sem linguiça sem carne sem nada; quem sabe com saudades, isto absurdo porque só gente sente saudades; e o que seria saudade!?
Bem, o fato é que ela reclama a falta de linguiça para o almoço, linguiça e outros alimentos práticos de na roça se guardar conservar. Ela. Ele do seu lado inventa que precisa ir ao eito capinar o feijão; e reclama da reclamação dela porque os bolsos vazios não comportam meios a comprar – faltam uns dias pra fazer a costumeira compra na venda, a compra do mês, e ele além do mais não tem lá muita disposição:
O chefe da casa não sabe como saber fazer para se arranjar e arranjar moedas na compra... moedas! põe notas nisso e eram antes de mil-réis agora cruzeiros, ainda tem muita das antigas circulando na mudança oficial do dinheiro do governo, assim ele fala, aliás com respeito e até carinho se referindo a Getúlio, Getúlio e Governo pra si e para outros caboclos desse tempo vem tudo a ser o mesmo. Falta, gritantemente! linguiça. E outros necessários do tipo sine qua non ao meio rural longe da Vila.
Então se dispõe a antecipar e ir à compra na Venda do João na beira da estrada, estradão eles dizem, no caminho da zona urbana e distante da zona urbana. Peri quase entende, fica alegre abana o rabo por certamente saber que irá passear atrás da mula, em cima dela o Jeromão, ainda a se desentender com Rita lá longe a gritar "não esqueça de trazer mais aquilo e aquiloutro" porém já a Morena, mula mansa velha arcada cansada longe estar imaginando um trote ela não troteia anda apenas lerda com aquele pesão de gente porque Jerônimo barrigudo e volumoso e pior: pior a volta da venda com as compras a lhe pesar na cacunda, a espinha, coitada da Morena, arcadinha cedendo pela velhice. E ainda por cima (caberia 'por baixo') ainda tem aquele fedorento encardido a latir atrás dela, deles. Eles seguem à Venda.
Chegam.
Tem um alimpado – quer dizer, de tanto tanta gente e animais chegarem pararem seguirem embora então fica limpo os matos não crescem, pisotedos; é isso o alimpado – tem esse largo vasto, vasto diante da construçãozinha que é a Venda do João, um casebre que serve como loja aos matutos comprarem... não disse pagarem, não pagam devem deve marcar no caderno o João ou dona Maria, Maria da Conceição tem ali na parede uma imagem da santa de sua devoção, dona Maria esposa que registra a dívida, com juros decerto e que o comprador nunca conferirá, analfabeto ou alfabetizado analfabeto funcional sabendo apenas soletrar o nome e é bem o caso de Jeromão ali com os seus chegando: o Peri a Morena embaixo encima o chefe desapeando.
Funga, fala brabo ao cachorro o cachorro não entende e entende de se encolher como um biscoito nas proximidades. Amarra pelo cabresto a mula, a mula já começa a espantar com o rabo as moscas atrevidas enquanto o homenzarrão entra no João. A Maria olha e compreende o esposo...
Encosta a barrigona no balcão sujo velho lustrado encerado quase por sujeira anos trazida pelos capiaus e aí... começa a conversa o pedido da compra na vendinha.
Claro a lista conter linguiça, favas contadas; tem mais precisão nas necessidades. A mortadela, "mortandela" pronuncia pronunciam todos inclusive o João e lógico seus fregueses na casa comercial, isto antigo na cidade igualmente, a casa de Secos & Molhados. Aí sobe um cheiro característico do estabelecimento de então, mistura de carnes doces rolos de fumo e mil outras coisas exalantes a serem pesadas na balança comum na época e sempre em cima do balcão do negócio. Contudo já não sente o comprador, Jeromão tomara uma atrás da outra doses doces ou queimantes de cachaça "da boa" garante  o casal vendedor e o bebente comprovante, comprovante (não pagante, Maria diz que não, "não" nega o devente... perdão ó pai dos burros e a língua padrão!) Não sente maismente o hálito exalante da venda, caso 'veja' a venda o freguês. Aparece-lhe Peri, senão a admoestá-lo a lembrar pelo menos o exagero na água que passarinho não bebe, e em casa na volta a Rita ainda lhe pegará mais no pé não só pelos desarranjos da ideia contaminada de caninha mas pela falta na falta: "ocê num trôxe isto e aquilo que pedi comprá". Bem, Jeromão coça a cabeça de pensar e não alembrar e engole a fala da falta, inventa um serviço qualquer necessário a tratar...
Ah, se esborracha na cama do casal, meio de atravessado, vestido, nem tira sapatões, o botinão de elástico comum aos roceiros. Pior. Tem pior! tem: faz xixi ali aqui no colchão de palha ao colchão feder. Pra Rita reclamar. Já podendo reclamar com autoridade de esposa velha do dorminhoco...

8º - Roceiros e Oleiros
Compra na Venda, a despesa do mês, o estabelecimento de João, João da Maria; aí Jerônimo mais lerdão por velho e por embriagado, bêbado!? ele negando a pés juntos tal acusação da oposição, ou seja Dona Rita a mulher então o homem da casa, casada com o esposo que o padre juntara jovem forte sendo agora fracalhão. Não agora antes anos antes sim forte sadio trabalhador digno honesto (sem exagerar...) novo enfim. Nesse tempo foi convidado pelo Zé Paraíba a visitar ("ver como funciona, seu Jerómo, e é diferente daqui da roça") visitar os oleiros seus amigos, o Zé vivia nas folgas na olaria, pronunciava "oleria" e aos oleiros "olêros" roubando o 'i' deles. Então um dia concordou e foi com o colega até a essa pequena indústria encalacrada nas terras do Coronel; sim porque Jerônimo e Zé trabalhavam nessas terras, o outro arrendatário e o Zé mero peão, trabalhador braçal diarista.
Um dia foi o colega, não sendo agora na hora de pegar os embrulhos, sem esquecer linguiça mortadela doces aos meninos e não lembrando mais coisiquitas recomendadas pela companheira a qual surrara tantas vezes não hoje se considerando um macho-banana, moleirão, mais obedecendo à cara-metade que possuindo metade de suas próprias forças e valentias. Na Venda e com ajuda do vendeiro ajeita no lombo de Morena o peso – ou cairia na estrada antes de chegar ao lar, não mui doce lar; ele mesmo nunca caíra, só uma única vez demais bebum – se esquece até despedir do João e ordena à alimária movimentar-se ao caminho, o Peri atrás da dupla homem e mula... e as compras.
Tornemos ao convite do Paraíba.
O Zé era amigo, conversavam sempre de preço e de trabalho, embora o colega solteiro e mais livre que Jerônimo, este sempre ocupado além do serviço no seu milharal o milho eles pronunciavam "mío"; pois muita vez após precisando rachar lenha e tratar em casa doutros afazeres quando a mulher menstruando "de paquete" diziam na roça; ou quando de criança novinha, ela parideira. Por fim e após vários convites aceitou; foram na tarde duma terça-feira ver a tal olaria. Passaram a chegar lá por muitos roçados de propriedade de novos e antigos fazendeiros. Um deles dera arrendado área para funcionar a olaria a um caboclo italiano, para Jeromão "intalianu"... Esquisito ser italiano e caboclo porém os peninsulares se adaptaram ao jeito da gente da terra e até no falar falando qual caipira nato. Seu Genaro recebeu os dois roceiros, Zé já seu amigo meses ali olhando o trabalho oleiro. Jerônimo só ouvira de ouvir falar.
Quanto ao Zé Paraíba, decerto nordestino da Paraíba; esse sendo um sujeito novo e limpo (Jerómo dava trabalho à língua de sua companheira por relaxado e meio porco... intriga da oposição!) Apresentava-se bem trajado e a cheirar perfume, certamente não assim no seu diário trabalho e após o banho. Até um pouquinho vaidoso. De maneira que a dupla visitante meio esdrúxula. Já os oleiros fediam exalavam seus respectivos suores e trajando indumentária pobre simples e claro usada e suja, como evitar a realidade das coisas!? Bem, foram bem recebidos.
Ficaram zanzando por ali mais de hora. Zé quase cicerone do outro porque conhecendo melhor o ambiente.
Apesar estarem os trabalhadores operando ali, quase todos da família de Genaro, andavam a findar o período, visto o trabalho se iniciar madrugada (enquanto a roça apenas na claridade do dia) e já eram desesseis para desessete horas, final de jornada. Assim mesmo o novato se impressionou com a labuta e a arte oleiras. O barro chegando em carroça de um burro; depois a pipa, pipa como apelidavam, a girar para mexer misturar a argila; após, carriolas com pastões da matéria-prima levados dentro do rancho, este erguido em mourões e coberto por folhas barulhentas de zinco. Depois além de observarem o feitio do tijolo em fôrmas nas bancadas "banca" diz o oleiro; a secagem das unidades prontas; e finalmente o forno enorme para assar os ditos tijolos, a gente oleira trata "queima do tijolo". Jerómo não viu o trabalho no forno por não ser tempo da queima – enchiam então de tijolos o forno.
Daí se despediram tornaram às suas casas, o Zé com seus colegas diaristas. Enquanto que Jerómo, candidato a ser um dia Jeromão volumoso e fraco no físico forte na língua e só calando nas reprimendas da companheira – esse se pôs, à noite à lamparina tremedeira, a narrar o que vira na olaria; e o fez como sendo um especialista um expert no assunto... à plateiazinha de filhos em volta da mesa no aplaudir ou somente a se entusiasmar.

9º - O Escrevedor
Num certo dia, não tão longe da realidade e da realidade roceira, o roceiro se dispôs a mandar certa incerta carta aos próximos distantes do Rio do Peixe onde vivia com a familiazinha; aliás bem grande diante o fato de possuir filharada, aquele negócio que o matuto diz dos herdeiros em penca. Ali vivia, não morreria ali, a casa pobre o roçado simples donde tirava o sustento dos seus, seu Jeromão grandão estufadão pobrão, um bom vizinho afirmavam vizinhos. Ele Rita e a prole.
Contudo tudo de quase nada sabia dos de sangue – e dos sem sangue também; adotivos, aparentados como primos terceiros e os seus, destes, os quais se cruzaram ao longo dos anos e não sendo do sangue se juntaram aos parentes consanguínios portanto 'sem sangue'... As dificuldades os quilômetros e o tempo; isto é não se vive junto perto próximos nos interesses imediatos e por isso não se convive – vem em 'socorro' disto até o silêncio o esquecimento. Não obstante se falando na fala comum na casa neles deles se lembrando ao menos. Então se pede ajuda da mão do cérebro de um outro, esse o escrevedor.
Ora, é pedir muito que um roceiro seja, a servir outrem, um escritor. Escritor desses da cidade, que são intelectuais inteligentes pra burro (a expressão posta não por acaso...) e além da inteligência têm arte talento e disposição de espírito ou visão quem sabe comercial ou de empreendimento; podendo por esses atributos ficarem conhecidos (não só quando morrem não! em vida; vida não discutamos neste pedaço de texto mas tem conotação quase que só de existência, curta curtíssima dentro da Vida). Bem, tais escritores, assim poderiam e podem com certa frequência virarem best-sellers, primeiro por seus best-sellers e após eles mesmo ficarem famosos com a venda das obras.
Todavia existem os noutro extremo que são apenas anotadores, rabiscadores, escrevedores (sendo o caso do criador das estórias desta novela sobre matutos). Assim vem à baila o escrevedor.
Seu Antônio era letrado; quer dizer versado um pouco mais que apenas poder registrar sem errar seu próprio nome. De bondade e de boa vontade exemplares, se punha sempre a ser o língua na escrita ao lavrador, que em exemplo de Jerônimo no geral desconhece as letras; e caso dominando o abecedário, apesar disso podendo prestar o favor e ser o intérprete dum amigo.
Assim Antônio se dispôs a unir, com um talvez bem acentuado visto nem sempre se obter resposta e aí a carta fica nula; ou volta por endereço insuficiente ou errado ou pelo cansaço da posta-restante dos correios. Jeromão o procura num dia de noite a fim de escrever missiva a um parente "ah faz tantos anos que não sei dele..."
O caso não fora tão simples assim, precisou longamente discutir em casa e postergar até chegar ao ponto xis, xis o pedido a Antônio.
Primeiro discutiram – e deram suas respectivas versões sobre o cumpádi Graúdo; curiosamente os pequenos que nunca haviam visto esse tio ou avô ou seja lá o que fosse, até eles forneceram suas bicadinhas no habitual "manda lembrança a..."
Na família enorme agora alongada qual gato escaldado que foge até da água fria... essa andava espalhada longe donde viera, o Nordeste; já fazendo anos. No entanto comentavam-se contavam-se a miúdo de Miúdo – um pouco de Graúdo: o como eram o que faziam as bobagens e acertos de suas respectivas bocas. Agora especificamente para Graúdo, a carta de Jerómo pelas mãos de Antônio a esse irmão, querido (ou apenas lembrado...)
Este um dos manos, a genitora deles fora tão quanto ou mais parideira comparando à Rita; o comum era perder filhos à morte e ainda ter muitos vivos; como o caso dos gêmeos, um batizado Miúdo, magro pequeno fino; outro Graúdo alto gordo. Se bem que os anos demonstraram o erro: Miúdo ficara baixinho e fino mas Graúdo não passou em adulto dum homem meão nada mais alto que Jerônimo.
Jerônimo partilha do lampião de luz fraca do vizinho a conversar com o mano Graúdo, seu compadre tendo batizado um filho deste, seu sobrinho portanto. Tudo através da mão calosa (a enxada cala delicadezas e deixa calos nos dedos) dessa mão de Antônio.
O outro, quer dizer Jerônimo, fala narra ao parente o que transmitir; porém o língua (escrita...) precisa pedir-lhe "mais devagar, cumpádi, tenho dificuldade anotar etc. e tal".
Poucas horas num cursivo irregular e quase ilegível, a gastar uma borracha. Acontece que o escrevedor borrando sujando ao pôr em tinta, com aquelas penas antigas de metal; optando por isso registrar a lápis: de repente quebra a ponta, erra e aqui gastando a borracha de apagar para substituir a palavra; além da sujeira. Digamos além da sujidade da feiura e da ilegibilidade quase; gastando a língua, a ponta, a umidecer a tal borracha.
Por fim, caso houvesse ou houver um dia o fim das coisas, por fim meia brochura de caderno escrita numa letra trêmula com tentativa de perfeição longe da perfeição. Todavia ali plena a carta ao Compadre Graúdo lá nas lonjuras mas perto do coração dos parentes no Rio do Peixe.
Noutro dia, não: chovera transferira a outro dia ainda – Jeromão foi à Vila botar a correspondência no correio. Aqui com novos dramas, o lamber selo o selo pra grudar e o lamber as bordas do envelope. Não discutiu com o funcionário o preço da postagem. Curiosamente receberia outros garranchos, até mais menos caprichados em resposta; e aqui o curioso no curioso, com apenas duas semanas entre envio e reposta, quando o comum eram meses.
Isto nós antigos sabemos, não quem hoje só vive digitando no celular às suas redes sociais; e nunca poderia entender.

10º  Um Hábito a Perdurar
O caboclo Jeromão está agora a pensar, lembra a carta ao mano e lembra umas boas que a esposa Rita lhe esfregara na cara, piormente com razão; batera nela nova e velha agora bate de língua nele; lembra as dívidas que já não domina não sabe a quanto estão; lembra os preços pra baixo na vendagem do que planta; lembra de um mundo de coisas que se exige esquecer... Contudo na hora de narrar a outrem tudo, nada o diminui – é um pouco, bastante, bravateiro e as lembranças tristes ou más sendo tão só lembranças que se não fala, não falaria; falaria sim pois fala sozinho e está só agora; não vê o fogo a subir o suor a descer escorrer, seu calor então a se misturar com o calor do dia. Nisto não deixando ele ser um mero índio, do qual se origina.
O imperdoável! hábito antigo de queimar a roça para limpá-la, ele afirma e os outros roceiros confirmam; enfim para dar menos trabalho na limpeza do terreno e às vezes o aceiro insuficiente ou mesmo sequer feito; assim o fogo ultrapassa sua área e lastreia e atinge e queima e destrói uma região inteira antes fértil, empobrecida na incineração, quiçá com sacrifício de animais de pequeno porte; se não também a prejudicar algum humano. Além de não se saber onde começou a coisa. A coisa se iniciou num palito de fósforo ou no seu binga, assim ele chama o isqueiro de acender o cigarro de palha, agora apagado enganchado na dobra de sua orelha e preparado adredemente no almoço após o almoço no quilo do almoço; que entende ser quilo de peso mesmo e o dele seria daqueles quilos de toneladas visto comer muito a encher o bucho, a barriga volumosa e pronunciada. Em verdade é mentira que se alimenta a contento nisso porque o matuto ingere muito, volumosamente muito diante da fome imperante e discricionária porém engole apenas o mínimo básico a sobreviver, a comida não passando do arroz com feijão e farinha de mandioca; carne vez que outra à mesa, caso indo ou ainda vindo da Venda do João ou vindo da Vila; ou um franguinho sacrificado por Rita: ela chama, enganadora, pi-pi-pi carrega no último dos is a angariar confiança e aceitação da ave, pega de sopetão a ave puxa o pescoço da ave, ao esganiçado ladrar do Peri – Peri terceiro ou quarto ou quinto sempre a família dando esse nome ao cãozinho que chega no lar e os meninos pegam no colo e carinham e mimam; todos quase Peri, esse Peri latidor vendo a penosa ele sem pena é lógico, sem pena visto terem sim muito dó as crianças, umas são apartadas longe da casa e do ponto de sacrifício, à casa da comadre quase sempre para não ver reclamar chorar gritar. A galinha já não grita, virou comida virou frango que o pai trinca a escorrer sanguinho no prato.
Então Jeromão não tem contemplação e come com prazer e abre e fecha a boca e mastiga de boca aberta; aliás dando 'excelente' exemplo aos filhos todinhos fazendo assim na refeição. Ou não é o tal frango afogado pronto morto galinha, sim a linguiça.
O Peri olha lá em cima dependuradas as carnes e o cheiro, as gotas meio secas no chão de se lamber – a linguiça ou a carne seca a secar apurar, "apertar" diz o chefe da casa, quando tem carne e a crise não deixa ter, ele alembra disso de enxada à mão a cutucar o fogo a cinza a brasa a cor o calor o calorão a subir tal qual seu pai fizera seu avô fizera fizeram outros parentes ancestrais e ah será farão os meninos ali igual? eles ali agora a brincar! Têm uns já ajudando o pai no roçado os outros na brincadeira; a brincadeira é então correr ver esperar instigar o cachorro ou ir ver a arapuca ou até pregar qualquer arte num mano ou no Peri – o menino contra o Peri ou outro e novo cão. E isso exposto vai longe, leva longe um texto inexpressivo e banal.
Perto dele, do chefe de rosto vermelho queimado de fogo pela quentura do fogaréu, perto sobe longe das labaredas a fumaça de arder olhos e de queimar o solo, empobrecer o solo para o solo se enriquecer de vegetação cada vez mais raquítica e minguada...
Ah, fala sozinho agora, ah "os preço", Jerómo e todos lavradores em volta não sabem que não sabem e que não se interessam saber que não sabem disso, de concordar na frase: engolem esses e erres errado.
Ora, o que será o certo!
Um matuto não é dado a filosofar.

11º -  Elas e Eles, eles não: ele
A comadre da comadre Rita em vindita acredita e grita essa dita por liberdade na casa e conviver com ela, ela Rita, e assim elas numa tagarelice bastante mas nunca bastante pois que não param não sabem parar quando começam a conversar; sim bastante, dá no bate-papo esquentado um basta Jeromão naquele vozeirão de homem grandão – oh alarme falso! – Jerônimo apenas chega não interfere, interfere sim por sua presença porém não fala nada dirigindo-se às mulheres vizinhas ali num barulho de assustar o mundo. Chega descansa a enxada cansada coitada da enxada pelo trabalho, agora tardezinha à boca da noite já, já o galo a cantar alertar suas mulheres irem ao poleiro, nada mais que galhos forquilhas da mamoneira e, portanto, não deu nelas propriamente um basta, bastando de fato sua aparição diante da discussão sem tamanho ou ao menos barulhenta das vozes finas; tanto assim que os meninos andavam assustados porque as crianças não sabem o que fazer abusando os adultos a dar mau exemplo; as vizinhas na cozinha cheiinha delas (quer dizer, meia dúzia mas a cozinha apertada, pisada por chão de terra batida e espaço em área mínima). E aqui dá para enumerar as comadres ali a se esfalfarem de tanta fala, todo mundo querendo ter razão sem razão dado o assunto, o Peri. O Peri de novo! o Peri de novo a comer ovos no ninho e daí estando no quintal, isto é no mato em volta da casa da comadre Geni, que veio reclamar, tirar satisfação com a dona do cachorro. Pois o cachorro come ovos assusta as criações e lá vem a gritaria das penosas, irrita outros cães donos do pedaço, a Geni tendo bem uns três vira-latas, na roça não havendo lata porque não tem lixeiro como na Vila. Contudo dá um quiprocó. Entra na conversa as duas outras, duas ou três, a enumerar: Tereza, Chica e Bastiana – todinhas cumádis da Cumádi Rita do Cumpádi Jeromão ali chegado... Então, elas dando mau exemplo aos pequenos, têm uns grandinhos inclusive trabalhando com o pai na enxada e os menores também, naquele negócio a dar recado, os meninos imbatíveis nisso, se bem que mal ocorre também darem recado errado, errando a pensar suas brincadeiras. Ah por que motivo elas a se desgastar... Não. Não se desgastaram demais as comadres no entrevero delas na cozinha de Rita, após só ficando meio emburradas enfunadas zangadas enfim mas... ah houveram por bem naquele dia mesmo e no dia imediato reatamento e tudo já nas boas entre as boas senhoras e boas mães e boas esposas, apenas uma tida realmente por 'boa' (linguajar macho pra valer) enfim relação de amizade sólida de anos de convivência e vizinhança e de compadrio (ou comadrio!?) dando o barulho tudo em nada, a desvirar depois chegando naquela hora crítica o marido de Rita. Mais ainda noutro dia, vindo aquele pãozinho gostoso de casa, oh assim mesmo o roceiro adora o treque no mastigar o pão de padeiro feito na cidade e vindo da Vila. Sobre o pão, o hábito exige de cada uma das casas numa colônia que, feito a assadura desse alimento, se ofereça um aos vizinhos, com recíproca esperada e verdadeira; assim sempre tendo o confeito pois alguém há de haver usado seu forno com as unidades e também o que os meninos chamam "pombinhas" que são bolotazinhas da mesma massa às crianças. E não é que retomaram a tagarelice mansa costumeira! Na discussão e naquela hora uma entre elas alerta: "Cumádi dona Rita" chega de papo porque tava já esquentando fervendo quem sabe onde nóis ia pará... e afinal a senhora precisa atender o Cumpádi Jerómo que chegou... Jerómo guarda os instrumentos de ganhar o pão, aqui em linguagem figurada, pensa não no pão pensa no peixe e não é que o cumpádi Dito prometeu peixe aqui, lá no rio o pobre não pegará sequer lambarizinho, o que nem dá para sua penca comer, que dirá dar como oferta aqui em casa; eh Peri! some daqui, pulguento, vai namonar as linguiças dependuradas lá no quartinho. E lá cheirando vianda e fumo e outros secos & molhados na reserva (isso em tempo de vacas gordas, agora estamos no das magras, os preços não ajudam). E assim descalça o sapatão fedido o chulé se espalhando desde o botinão de elástico, depõe no chão nem engancha mesmo o chapelão, ao solão, e o sol já se pôs, se põe ele a seguir tomar banho – o que um exagero porque o matuto aprecia tomar banho só nos sábados... banho diário... banho? nada disso, lavar 'pé cara e mão', não apenas pra ingerir a janta, a boia, igual os intalianu da olaria dizem, "bóia".

12º - O Tempo Caboclo
Ah a Eternidade, que importa se algo ocorreu há mil anos antes se milênio depois!?

A você, a mim, ao Jeromão – matuto de atitudes imprevisíveis – a todos homens metidos contidos presos na eternidade, que importa se aconteceu um fato, a morte da velha Tereza por exemplo, se isso no dia do dia que se conta, e se exagera se intenta se inventa, se inventa a dar sustentação no afirmado e... vai por aí; vão os roceiros nisso, numa discussão boba (ao menos frágil, do tipo sem pé nem cabeça...) se reunindo na sala e a maioria entre presentes parentes frequentes na casa em a noite de lua e ainda assim a lamparina acesa, acesos ânimos e acesos os meninos dele a rodear os adultos, acalorados nessa discussão. E se pergunta às respostas o óbvio se fora na quarta-feira se na quinta-feira sobre um não sei quê, pomo da conversa que atrai um barulhão; barulhão esse que por sua vez atrai alguns vizinhos mais chegados chegando pra ver o que ouvir e a entrar na briga... briga! pare. Paremos aqui a analisar a psicologia cabocla, a qual não é bem apenas cabocla e da roça sim da pessoa comum; estendido o entendido (desentendido) aos da cidade. A cidade? a Vila virava já uma urbezinha graças à pujança da economia e a produção do café do algodão do milho; mandioca pouco e o homem chefe dessa família plantando sempre mandioca em volta da casa e também lá pra baixo no roçado; além do amendoim e então havendo muita melancia plantada colhida vendida, especialmente a melancia Santa Bárbara grandona vermelha saborosa.
Nessa hora os meninos alvoroçados na brincadeira, enquanto a discussão de valor em teima séria na brincadeira adulta, a machucar eventualmente oportuna ou importunamente alguns melindres (bobos, sempre bobos). Contudo a gente se acalma ao sorriso superior da lua, não na rua mas em volta na capoeira e dentro da sala começa a sair a meninada como que imantada aos gritos dos outros meninos que gritam fora da casa simples de Jeromão e de Rita. Menino atrai menino. O mais velho do casal era de um tipo curioso: puxando o pai, machista e conquistador e pelo costume andar atrás da mulher dos outros, a ferir Rita, claro. Doutro lado o garotão adolescente sendo vergonhoso pra burro – olha gosta aprecia, sem coragem à corte, diverso da tendência desabrida paterna... o rapazote sem coragem diante das jovenzinhas nos bailes e nos arredores de sua morada. Todavia com as meninas emplumando mais conhecidas e próximas conversava quase de homem para homem e isto um absurdo a levar em conta um casal humano.
Fazia tempo se engraçara da Alice, mulatinha empinada e mais parecendo mulher feita que menina; porém humilde e quase sem voz. Agorinha mesmo ela estava no meio dos compadres dos pais não interessada nos adultos porque dona Benedita trouxera à casa da comadre Rita essa filha. Não cabia falar com a jovem na sala, mormente havendo a discussão desinteressante e com tema centrado no dia da noite da morte da velha Tereza e como falecera e por que e onde e... ora... ora olhava ao lado da moça e logo descartava fingia como fosse desinteressado. Não era. Com figuras assim próximas vinha ao Antônio a coragem. Pior, abusava e abusara muitas vezes da língua, levando em conta que a pobre não tendo boca a delatá-lo, mesmo à senhora sua mãe. Num belo dia, fazendo mês, se dispusera a ter conversa de namoro com a escurinha e a coisa acabou em nada porque a causa básica para esticar uma conversa sendo um triste caso: sacrifício dum pinto. O pinto já cantava de galo mas vivia jururu adoentado não andava, andava encorujado nos cantos e bicado pelas outras aves. Nessas condições era matá-lo e pronto. O homem da roça sempre teme a doença a contaminar todo um terreiro. A Rita dá ordem ao filho e chama Alice para ajudá-lo na empreitada (não se sabe se não com certa intenção de os aproximar; o que muito comum nas mulheres feito santoantônio casamenteiro). Combinaram de um segurar a cabeça pelo pescoço do pinto doente (e perigoso...) o outro, a outra, grudar no corpo do bicho. Foram ambos com o infeliz franguinho a um carreador no cafezal pragejado de Jeromão. Executaram a vítima esses carrascos de primeira viagem, porém com grande dose de sentimentalismo na tarefa entretanto com certo rigor. Antoninho ficara com a cabeça do frango segura nas mãos. Alice firme no prender o corpo; puxaram com força (olhos fechados pra não ver o estrago) e o animal não morreu... jogado o corpo sangrento no chão, se pôs a pular! O corajoso menino atirou longe sua parte, a cabeça e o pescoço, e saiu correndo a chorar; com promessa de nunca mais se pôr a matar galinha. Não houve bem condições para uma conversa amorosa. Doutro lado também não houve discussão como adora a gente madura...
Fora o miúdo do que se discutir, o tempo caboclo compreende muito mais aspectos; é o da lua, até a regra feminina, que eles chamam "paquete", calculada pela lua; e se guiam pelo sol é claro, ou escuro nos dias sem raios, o sol que vai e volta a marcar sempre o dia; e têm outras referências a calcular o tempo como o tempo da chuva o do plantio o da colheita (ih! os preços e os açambarcadores que se apropriam e controlam as mercadorias...) Levam os roceiros em conta o tempo miúdo, específico mesmo, esse que enfrenta a eternidade de igual para igual e dá a confusão numa discussão sem pretensão de início e a esquentar na conclusão. Com que fim! ter razão, impor a própria razão. Não bate ponto o caboclo no serviço mas sabe a hora da enxada. Ou sabe a hora do almoço, às 8 e 30 da manhã; sabe secularmente a hora de se apagar o dia, vendo a galinha indo ao poleiro.

13º - Perante a Autoridade
É comum desconhecermos a autoridade e sabermos bem sobre o discricionário representante dela que vive próximo de nós, fazendo supor um justo um santo, seja lá onde habitarmos. Na roça o imediato poder é o fazendeiro e seus administradores, estes bem conhecidos, abusivos abusamos repetir. Jeromão dona Rita os compadres os vizinhos enfim todo mundo conhece isso. Porém dentro de casa entre as quatro paredes a coisa funciona... ou não funciona por funcionar. O homem da casa é a mulher. Isso bem nítido ali na pouco mais que tapera nas proximidades do Rio do Peixe, rio de poucas águas e por isso de poucos peixes.
No início, como comum nas famílias pobres do país (e nas ricas) ele é ele, ela é ela. Os meninos na prole miúda e bastante, não demais bastante porque Rita prolífera até quase à morte; esses filhotes conhecem bem os mandos e desmandos. O caboclo Jerônimo é livre; não liberto dos vínculos com o dono das terras onde vive e vivem vizinhos; livre a praticar suas liberdades garantidas pelo machismo que impera séculos. Não pergunta que fazer onde ir quando nem como chegar, faz. Na sua casa, sem precisar esconder atitudes, toma atitude de até espezinhar e quase tripudiar sobre os vencidos – seria melhor pontuar 'vencida' pois se tratando principalmente de Rita, sendo ela esposa dele e desde menina ali imposta, imposta pelo hábito imposta pela tradição e mesmo imposta pela religião na sociedade, esta acanhada no seu meio. Jerómo vai executa torna e não precisa prestar conta dos atos. Todos engolem. A ignorância tem desses arroubos imperfeitos e ninguém discute. Executa o poder sobre a filharada, em escadinha por tamanho e idade; inclusive sobre o Antônio seu mais velho, que é meão e só pode sem contestação ser grande nos anos do registro de batismo na igreja lá na Vila; seu mais velho, porém ainda assim antes um punhado havendo a sair de anjinho ao choro da mãe, ela a lamentar depois as atrapalhadas também do primogênito. Ele e os outros manos e inclusive os afilhados que vinham tomar a bênção ao padrinho Jeromão – todos conhecem essa autoridade mandona e abusiva do homem. Torna da Venda do João trançando as pernas, visto a bebida exagerar na autoridade para que ele exagere na autoridade própria batendo na mulher! Os outros homens conhecidos igualmente agem assim. Chega fala grita berra impera sobre o medo e a submissão... verdade que no começo altão depois alto e após embrulhar 'normal' (que seria o normal! ah esses filósofos...) e mais um tempinho não fala e desmonta sobre o colchão do casal, a curtir a dormir a esquecer o que somente devendo lembrar. Para noutro dia pegar a enxada – tal roceiro teve sempre o mérito ser trabalhador; e honesto, embora os descontos – vai trabalhar no eito alimentado com apenas um café magro no bucho, e provavelmente sentirá o amargor em arroto, a culpar a palha e o caroço no colchão ou o calor da noite. Ninguém lhe cobra posturas nem exagero nas atitudes de desmandos morais, o garanhão aqui tratado é um conquistador, sempre em choque com outros machos da espécie (nada escondido pelo sol milenar; talvez camuflado) ou somente a bravatear sobre mando num papo de balcão no balcão do armazém caipira de secos e molhados na beira da estrada.
No entanto a coisa mudou, explicam os anos. No fim da jornada do casal, ela se fora ele sobrara, iria viver até à morte longe na Vila e sujeito aos filhos, todos na dependência urbana. Tudo mudara porque Rita cresceu. Ou, indaga-se, não será que Jerônimo é quem encolheu?
O fato é que ela agora sendo o homem da casa, manda determina impõe direto direitos; e ele ou obedece ou não executa a ordem mas também não abre a boca. Abre, resmunga, baixinho; ou comenta o desígnio dela com os filhos ainda pequenos que possam com tempo disponível ouvi-lo; ou não. No final dos tempos o mundo engole seus familiares e a ele por tabela e passa a viver, se viver, da memória.
Dentro de casa, fora a varrer nas imediações a sujeira e corrigir a esculhambada desordem dos herdeiros (pobre e roceiro em geral não têm o que herdar... sim isso discutível); varre, grita menino grita criações grita a cumádi lá longe ali pertinho; dá seu recado e o marido, em não estando nos lambaris na beira do corgo ou com os colegas a jogar fora conversa; esse marido responde, manso, seu mando, o mando da mandachuva de saia, ali agora no poeirão da vassoura e nos pios das galinhas. Calixto, diz braba a mãe ao filho, vai pôr a lavagem que aqueles chorões estão a pedir. Ou faça isso faça aquilo. O filho, eles ambos pronunciam "fío", o menino obedece; e se for o caso, caso o esposo ali a ouvir comportadamente, o esposo tal qual o filho obedece também àquela força moral ralhadeira; não sendo exceção à regra que frequente repasse o pai a 'ordem' da autoridade a um dos moleques.
Ele vira segundão, fora primeirão.

14º - O Morto do Vivo
Um velho costume em todas antigas roças e novas periferias urbanas que hajam – é pôr o defunto à mesa. Isto é, na horinha de comer mastigar com boca aberta ou menos aberta e se pergunta de que jeito comer sem abrir! Nessa mesma hora sagrada de refeição se lembra assuntos vários e mais o dominante que a memória nos vomita, atrevida; por exemplo o falecimento do pai do filho Jerônimo, tido este por Jeromão na sua grandura de homem mediano aos caboclos vizinhos e considerado grandalhão aos de casa. Põe-se agora por qualquer pretexto dessa memória ordinária a morte do pai. Seu Zé, não seu Zé que é o cumpádi ali visitante, tadinho perdeu a filha nova para morte, e relembra que o cumpádi Jerómo até foi ao enterro, num foi Cumpádi? Jeromão faz que sim de cabeça a mastigar de boca aberta e fazendo um barulhão ao mastigar, que fora sim com a cumádi Rita e os meninos mais velhos à festa fúnebre. Pois bem, o senhor José pai dele, dele chefe da casa, morreu. E... passa Peri! diz incomodado ao cachorro nos seus pés, e foi triste, cumpádi. Jeromão conta o recontado, todos da família já ouviram ene-vezes e mais a esposa agora já o casal sentados com seus convivas, a comadre e o compadre, a filar boia (isto falar dos intalianu da olaria, aqueles não acentuam na fala nem sabem escrever pra acentuar errado:) pois bem, morreu, diz isso a ingerir feijão com arroz, morreu e reconta o coração do velho, ele inclusive indica o genitor "véio" e se souber que não se põe mais acento escrevendo, fá-lo falando; pois descansou antes da Guerra, a segunda se referem ali, num almoço em que engolia arroz e feijão, não o seu o deles sendo feijão com arroz umas mandiocas fritas a abobrinha afogada (coitada, mastigada comida ingerida engolida) não esse aquele, o velhote na refeição, e o Jerônimo afirma "lembro como se fosse hoje" e narra: o homem se levantou abruptamente da mesa encapada com toalha de algodão, tecido de algodão de saco de farinha dos antigões, se levantando nervoso e deu um meio grito, caiu fulminado no chão e todos correm atendê-lo a se perguntar terá batido a cabeça na quina da cadeira ou no chão ou no... tava já inconsciente e depois apareceu o farmacêutico, relembram também o Chico da botica, lembram o homem enquanto mastigando arroz com feijão... não o Chico o Jerônimo e o Compadre Zé no almoço, pois costuma ser a hora sagrada do alimento a hora fatal inclusive por se recordar coisas que devem ser esquecidas, ao menos naquele santo momento. Pois é... e caiu e desmaiou e morreu, no chão já morto, "passa Peri, seu cachorro!" sendo de fato cachorro, lambido cansado quase morto ele também e sem coragem morder arrancar as pulgas e os carrapatos de sua própria pele. O anfitrião mastiga mais um pouco engole e vomita, não de vomitar ipsis litteris, vomitar relembranças da morte. Narra como foi como não foi, foi num 'dirrepente' e aqui o filho do pai narra com o netinho do outro e seu filho próximo a si, um feito em comum acordo com Rita; essinho arregalado de orelha pra ver e ouvir o caso tétrico fúnebre tenebroso da morte em vida do pai dele, dele Jerônimo. Morte morrida. Sim os matutos lembram tal esquecimento quase sempre como a morte súbita ser a morte morrida, sabe-se lá o que escrituraram oficialmente ao sepultamento do caboclo enrugado no cemitério ainda quase vazio da Vila, a Vila nas imediações do Rio do Peixe, no seu vale, vale aqui lembrar, e cheio de algodão branquinho e bonito de se ver para a lembrança lembrar. Bem, mal mastigaram 'mastigaram' esse e outros mais causos, entre um abrir e outro fechar; o Jeromão a olhar no prato e deste pra sua mulher ali, recordando reprovando condenando a pobre senhora por haver queimado no tempero, que por sinal era delicioso de lamber beiços, condenando-a por haver deixado queimar o alho, pretuminhos e sabor da queima na língua; e a cebola e o manjericão e a... puxa, ela, pensou ele, ela estraga todo o gosto da comida assim! não disse; no início de casados no padre, no começo ralhava na mesa com ela, agora só olha a condenar sem abrir a boca, abre sim e olha o cumpádi, tadinho perdeu a filha e não foi de morte morrida, o pai, o pai dele.

15º - Pão Grande
Num inteiro deixa pra lá da casa, o caboclo Jerônimo a trocar rápido palavras com a cara-metade responde que sim; um não com certeza e essa a dúvida. Comparado esse mais ou menos passe livre, ele parte no domingo de arma em punho, a varinha de pescar, pois que nos dias a descanso não trabalha – trabalhasse, uma oportunidade e tanto a resolver de vez um problema sério à família. Não trabalha. Trabalha Rita e todas outras roceiras em descanso da enxada semanal mas não tem jeito o jeito é tratar os dramas domésticos, com ajuda dos pequenos já grandes; sobretudo a aproveitar os braços das filhas, com os moleques não pode a mulher contar... Sim o assunto é sério. Enquanto, não descansa ela no seu domingo; trabalha na massa.
Isto além doutras ordens às meninas enquanto a massa do pão cresce, não: estufa pelo fermento; deixa inclusive certa nesga da massa de farinha numa caneca com água; quando no ponto o pedacinho sobe à tona: hora de assar o pão; pão de trigo o trigo vindo da Venda careira do João, aquela Maria lança o quanto quer pretendendo explorar na ajuda ao seu esposo no balcão. Fermento e ovos e leite e banha, gordura sobra do capado engordado sacrificado outro dia. Contudo também varreu já a casa fez comida espantou o cachorro, este sempre na barra da saia, o cão aquela imundície e Rita se agita grita a bendita criatura (o Peri). Preparou o forno com lenha fumegante deixada a esquentar dentro; o forninho saiu malacafento pela mãos de Jeromão aquele barrigão (do companheiro, não dela) seu companheiro agora mais lento até nos passos; ele; ela a mexer gozar ferir por isso; longe da perfeição a obra, que fazer! faz assim mesmo o pão de casa em casa; necessário lembrar algo: os matutos apreciam demais o pão de padeiro, trazido da Vila. Assim aquece o tal forno, forno acabado com pontas de tijolos por fora que aparecem na imperfeição do marido porco... ela nessa altura da vida a dois podendo criticá-lo noutras pequenas coisas também; antigamente abria a boca, apanhava. Ele trouxe uns cacos da olaria, os intalianu falam falou Jerómo 'fazer pão grande', olaria parada na visita, parece porque chovera muito e passou o ponto da massa, não do pão, do barro ao tijolo e aí não se trabalha lá. Os dela cresce. Costuma tirá-los quentes, forrados antes com folha de bananeira e as unidades são grandes umas enormes. Os meninos querem as pombinhas, que são minipães ou pães de brincadeira, brincadeira de comer.
Depois, pronto, frio, coberto com toalha, ai aquelas moscas... – eles pronunciam "tuáia" – uma limpíssima, a mulher é limpa e ensina esse valor à prole. Enquanto...
Jeromão longe aos tambiús voltara sorridente com os peixes espetados numa forquilha de pau, cheirando já podre das horas tardas gastas nas águas; os peixinhos a ficar no barranco o qual disputa com as formigas quem estraga mais a mistura ao arroz com feijão da janta, Rita faz no domingo não arroz costumeiro sim macarronada... mas deixa pra lá.
Porque a mulher entende de encher todos dias, pensa o homem, a cobrar arranjar consertar a casinha... não a quase tapera pobre deles, a da defecação. Feita de pau no mais ou menos e isto ocorrera pelos moradores que residiam antes deles ali; não é culpa do Jerómo. Agora a privada ameaça desabar despencar podre pobre bichada cheirosa, malcheirosa a agradar as baratas (a mulher tem pavor delas!). Tem tanto cheiro mau tanta barata além doutros insetos, tanto que as crianças têm medo se servir do buraco da casinha – um buraco no centro dessa nojeira entre tábuas velhas a rachar – então elinhas fazem necessidades no terreiro atrás da casa e fica uma fedentina, reclama Rita; além disso, é uma gritaria "ninguém vem aqui agora que eu..." toda família entende, ela não: Rita incita o homem a consertar aquilo, antes de cair na lama um dia pela podridão com cheiros lá embaixo nessa latrina meio improvisada. Soubessem ler o futuro saberiam os familiares dele que ele mesmo despencaria com a casinha rumo à sujeira, felizmente cedendo de lado o conjunto e descendo apenas metade. Aí nesse futuro irá gritar o chefe 'corajoso' temendo afundar. Nisto a assoprar mil pragas no linguajar sujo, Jerônimo nunca mediu o ambiente proferindo o calão. Todavia não sabiam ler.
Não leram então o futuro; apenas a esposa cobrando no retorno da pescaria do seu homem a recordar o perigo iminente, sobretudo em se deixando pra lá...

16º -  Um Desastre
Um. Um dois três ah a bruxa anda solta para dona Rita, Rita mulher de Jerônimo. Embora ela desconhecesse tal ditado da gente da Vila e doutras cidades porque no campo não tem desses dizeres, só outros dizeres – a megera estava solta!
Solta!
Solta porque um drama em casa de Jeromão? não mas era difícil à pobre senhora sequer entender tanta coisa ruim acontecendo, não na mesma hora e isso seria fosse um despropósito. No entanto tudo no mesmo dia, uma quinta-feira normal ou comum.
O mais importante daqueles acontecimentos que deixam a gente de cabelos brancos, foi o espatifar da garrafa de fermento no chão da cozinha... ela eles todos roceiros dizendo não fermento "formento", o que não altera o prejuízo
Na roça antes e até acabar a roça – os fazendeiros viraram latifundiários em detrimento dos sitiantes lavradores pobres ou empobrecidos, compraram as terras expulsaram das terras os lavradores, os quais foram pra cidade alimentar o desemprego às vezes partindo ao desespero, assim acabou a roça. Nela era quase impossível ter fermento fresco, esse de padaria; dada a distância da Vila no caso e situada no Vale do Rio do Peixe. Pois bem (devendo ser pois mal) os matutos criaram um substituto ao fermento usual na cidade por outro cultivado e mantido numa garrafa; substituído o caldo com novas adições em tal recipiente, usando-se o caldo restante a avolumar na garrafa; a fim de preparar sua fornada. E é (ou era) com isso que Rita contava fazer crescer e assar seus pães enormes em tamanho e sabor. Mas eis... foi estabelecido que fora derrubado o vasilhame, certamente num descuido ou mau manuseio de moleques na brincadeira na cozinha.
Tibóf no chão!
Quer maior tragédia!
A solução foram as mudas de fermento das garrafas das comadres vizinhas, parece que Cumádi Zefa. Resolvido o problema.
Contudo, a bruxa não andava solta? Sim.
Não parou aí na terrível quinta-feira. Naquela arrebentou o varal.... a choca gorou os pintos, quer dizer fugiu do ninho deixou os filhos a nascer ao cachorro e seria depois crescidos do gaviãozinho... o menino mais velho, Antônio, foi capinar a área destinada às verduras e limpou um canteiro nascente de alface imaginando ervas daninhas... o esposo Jeromão gritou com ela, a mulher, e fazia anos não mais apanhava do marido e agora quase ele deu-lhe uns safanões (nervoso por culpa do preço baixo precisando vender barato a mandioca).
 Enfim parecia mesmo que o mundo ia se acabar.
De maior gravidade foram os cacos de vidro misturados no chão da cozinha com o caldo do fermento. Em segundo lugar o varal talvez, porque foi mais de um dia pra recompor tudo no varal. O vento por cima a ferrugem por baixo a minar o arame de ferro esticado para a roupa; quem sabe o excesso no peso das peças a gotejar. A filha maiorzinha havia trabalhado nisso horas, um dia inteiro, tendo lavado esfregado torcido gotejado no arame farpado onde presa a roupa. Daí, um barulhão de assustar o mundo até fazer o Peri correr ladrar de longe o estrago e mesmo a galinhada a se espalhar temerosa. De tudo nada sobrando no alto pro chão de terra, suja é claro. E recolher amontoar lavar relavar e aí... bem o homem da casa chega na volta do trabalho longe com sua enxada, ele e os meninos maiores, eles – elas, as mulheres tiveram de unir força a emendar no mais ou menos (medida bem cabocla) para juntar de novo as pontas do varal. Recomeçar. Ainda a complicar aparece o homem e grita e quase bate na mãe dos filhos, o lavrador no cansaço e na sua ira. Ih, não tinha saída, era recomeçar.
Ora, a existência é um diário recomeçar, diz a escola da vida.

17º - Linha do Tempo no Tempo de Convivência
Na altura em que nos encontramos neste vigésimo primeiro século, os seres têm dificuldade a calcular como viviam os matutos nos meados do século que passou, seus dramas suas expectativas seus sonhos e como enfrentaram a realidade, dura! que os cercava. Enfim como era a vivência, ao menos a vivência da familiazinha objeto deste estudo; mais que estudo tentativa de recuperar memória.
Jerônimo Silva tido no seu meio Jeromão dado o porte diante do meão caipira e mais nesse menos pela barriga volumosa na idade da hoje chamada terceira idade... com seu andar lento – esse teve com dona Rita, de quem viúvo na velhice, teve uma história rica em acontecimentos. Como sendo pobres e os pobres a borracha da História apaga, deixando gravado a existência somente dos personagens marcantes por ricos e dada a projeção – tais capiaus sumiram; tentamos resgatar resquícios quase remotos do que foram...
No entanto esses pobres diabos tiveram vida por vez rica em jornadas sadias e tristezas e sofrimentos e momentos negativos próprios ao sofrimento; tudo apenas guardado na lembrança dos herdeiros. Ora, afirmamos que pobre não deixa herança; mas a lembrança dos feitos e desfeitos (e defeitos...) isso permanece na conversa íntima dos filhos e netos; todavia a outra geração a esquecer fácil: não se lembra o ser terreno daquilo que não se cultiva, qual a planta sem regador sem água; que morre, some.
Contudo Jeromão feito Jerominho, uma gracinha; e a Rita que fora Ritinha ou Lindinha igualmente uma graça – tiveram sua história, contada muita vez nos encontros dos roceiros adultos e aqui supondo-se as crianças em volta ou a brigar ou a brincar em gritos com gritos na ralhação dos grandes, pequenos em estatura. No começo não se conheceram. Aos poucos as famílias na contínua interação se aproximam e selam amizade, o que proporcionando encontro de tais personagens, inexpressivos. Então Comadre Maria sabe que a Comadre Adélia tem uma filharada e na penca existe a Ritinha. Jeromãozinho nunca viu Rita; viu após anos. Eles se encontraram na escola? não havia escola na roça paulista na passagem do século dezenove para o vinte. Depois sim.
O moleque Jerómo fica sabendo da existência da criançada vizinha, a da cumádi "Adéla", diz a mãe ao filho. Na penca a Rita porém menino só pensa brincadeira, não sabe doutra coisa; embora devendo ele ser mais responsável por primogênito (sempre se indica como o mais velho mas antes a perda da mãe de família de filhos nascituros à morte e daí virar primogênito Jerônimo sem sê-lo). Porém vive o mais velho no eito a ajudar o pai e a mãe, os adultos enfim; no entanto também aí a brincar: ninguém segura na enxada um moleque com arapuca armada e assim deixa o cabo da ferramenta pra tomar, vitorioso, e exibir a ave presa e isso não é trabalhar à família.
As famílias se mudam e por vezes somem do conhecimento roceiro: sempre trocando de casa entretanto as casas onde moram pertinho, residem as famílias próximo, entenda-se; já os casebres são como os indígenas nos ensinaram erguer por séculos e séculos, claro continuaram fixos, não passam de taperas embora a despencar. Nosso 'camponês', isto porque não têm consciência de classe; esse nosso trabalhador pobre em coragem, e sem coragem igualmente a refazer a moradia. Fora casos excepcionais. A tapera não muda, apodrece e servirá depois para guardar ferramentas e insetos, Rita sempre teve medaço das baratas...
Na mocidade, Jerônimo vê Rita, bela figura de mulher. Meses, anos até um encontro quase formal num baile ou num terço nas imediações, pois o homem do tempo é religioso por tradição, não se vai exigir filosofia e discussões no campo, onde o analfabetismo grassa. Jeromão mesmo soletrava somente e Rita morreria sem letra. Nesses encontros meio fortuitos se viram, talvez se interessaram um pelo outro; enfim houve atratividade. Mas quem a reuni-los de fato seriam os acordos entre as famílias.
Noutra fase da aproximação da dupla, a qual geraria a vivência descrita até agora nas estórias desta obra; noutra fase já os encontramos casados no padre da Vila, sita nas proximidades do Rio do Peixe, então de piscosas águas, depois pelos corretivos dos engenheiros do governo, foi retificado o rio e virou córrego de poucos lambaris. Onde o chefe da família se divertia com os filhos maiores na varinha e a deixar sua companheira na defesa das filhas, com muito labor e canseira e desgaste. Os moleques não ajudavam a mãe: a mãe não conseguia segurá-los; em não ser passando servicinhos como pôr lavagem aos porcos.
Então a família já estabilizada. Desestabilizada logo e minada pela crise que aparecia mais a despicar em cima das camadas debaixo; o roceiro por exemplo.
Assim envelheceria a casa de Jeromão, envolvida nas dores da eterna guerra da exploração – sempre atravessadores se enriquecendo na exploração da pobreza do carpinador, produtor pobre e indefeso diante das normas do Estado e dos comerciantes, sobretudo da ação dos banqueiros. Ah, assim desde que o mundo é mundo, supõe o homem pequeno.

18º - O Cavalo
Agora Jeromão arreava seu cavalo pisado, quer dizer sem forças e a pedir aposentadoria (o animal irracional, aqui se entenda; ora, o homem velho também). Sorri a se lembrar menino, quando a imaginar-se grande adulto poderoso e... bem, falava então consigo mesmo igual outra criança.
Era muito minucioso. Não deixava por menos. Fez o animal ficar quieto.
Tomou dos arreios, apertou barrigueira, o capricho e a paciência para colocar certinho cada correia, encaixar fivela por fivela. Agora o baio – disse ser baio, parecia baio – estava ele agora parado, sem as coceiras intermináveis, sem precisar cavoucar a grama do chão com seus cascos ferrados. Aliás o solo era quase despojado de gramínea. Nem precisava se incomodar com o incômodo do seu cavalo, a ralhar as moscas cheirando lugares indevidos no pobre animal – que a cauda estava parada. Todo animalzão andava inerte. E pôde o fulano minucioso cuidar que o arreamento assentasse bem; que ficasse vistosa a cavalgadura.
Aí tomou as correias, o saco de estopa improvisando pelego, tudo no lugar; a barrigueira era tão somente tiras por não ter outra coisa; as correias não eram mais que barbantes sujos encontrados por aí; o selim um pedaço de pau achado ao léu. Andava pronta a montaria.
O cavalo não rinchou, aceitando a situação, ou por impossibilidade mesmo. Manso, dócil, ia para a direita ou para a esquerda, o cérebro de um equino é o cérebro do homem que o cavalga; ia para todos os lados como puxavam as rédeas de cordonê encerado pela sujeira e pelo tempo. O cavaleiro, sujeito exigente e minucioso, impunha, montado.
Ia cavalgar. Após espera paciente, cavalgou enfim. Saiu pulando por todo canto, a bater sem piedade na vassoura só cabo, por intermédio de um relho também improvisado. Todavia ninguém notara coisa alguma, pois todos roceiros passavam apressados demais; os adultos desapercebem crianças.
Que faz agora tantos anos depois o velho matuto Jerônimo? nada, olha seu pensamento e olha o Peri, cão sarnento a se coçar.

19º - Bravatas e Costumes
Personagem central desta obra de retalhos dos matutos lembrados pela memória, Jeromão, cansado, casado também a Rita que nos desminta; Jeromão agora (puxa, faz tempo pois em meados do século vinte) encilha a montaria, um cavalo bem pisado coitado parado esperando a boa vontade humana, a imaginar o quadrúpede que seu dono o prepare a fim de irem à venda do João e nesse momento não é pela compra mensal da família; o cavalo examina o homem, enfim olha o animal o animal racional, este que não se volta bem pro cavalo e faz o infeliz esperar; o cavaleiro também a esperar arranjar ajeitar os apetrechos na criatura como sela arreios tiras coxinilho e ainda aguarda balangar o estribo nas bordas a cada mexida do animal, do irracional, ali então paciente. E pensa, não pensa certamente o cavalo ou pensa? pensa nos seus dramas o proprietário do cavalo, velho ambos. Já sabe o primeiro que o segundo voltará depois 'corajoso', até para enfrentar a boca solta de Rita... Quando na venda, favas contadas, falará horas, embrulhado, de caco cheio, narrando vantagens; parece que a poesia nos ajuda nisso: "a bravata sempre tem um cheiro de cachaça", inclusive por ser machão ah... pobre dos lombos da companheira nesse bravatear... No entanto curado, agora (meados do século, entenda-se) manso para ouvir o falatório hoje "ontem... você bebeu em demasia" e ele, Jerônimo Silva, quieto quietinho diante da razão da razão, ela, Rita. Ora, será que isto, exatamente assim, não estará acontecendo dentro das casas nas casas vizinhas! Decerto. É o costume na roça, quanto mais vendinha mais cachaça e mais a volta dura com a esposa aturando o bebum; e ainda por cima nesse por baixo, a pobre Rita com ajuda de suas filhas, os meninos não se conta... a mulher na volta da compra e com tal auxílio precisa pôr o pesado bêbado, um homem embriagado pesando por dois por três... em síntese quatro meninas a ajudar a mãe pôr o pai no colchão, a mijar no colchão, pra curar. Noutro dia, mansinho mansinho...  Contudo o homem, dito e tido por chefe da casa, nessa hora está se preparando a servir numa causa nobre: morreu um capiau, o Zé? um Zé; e ele deverá ir, não apenas ver o defunto e sim arranjar alguém conhecido para fazer o ataúde antes que cheire mal, o caixão do defunto sim e sobretudo o defunto no caixão. Entretanto ainda não tem caixão. Deve ir buscar alguém que só ele conhece e que tenha entendimento de carpintaria ou coisa assim, que saiba manusear um martelo, sim lá uma que outra escapada no dedo nos improvisos e pressas que um defunto exige, seu fedor. O chefe da casa arruma a montaria para isso. Enquanto...
Enquanto isso lá na área do morto os vivos choram seu fim elevam seus grandes feitos esquecem talvez defeitos; lágrimas dos íntimos. E as mulheres vão preparar o mortinho; ele que não passava dum homem de mediano pra baixo, alto no trabalho, isso visto haver sido trabalhador, então desempregado porque os fazendeiros iniciavam a fase do despejo das famílias de suas terras, plantadas com capim ao gado, cultivada a erva pelos próprios roceiros que ficariam depois sem serviço, bem o caso do Zé. Outro Zé buscado pelo Jerônimo da comadre Rita para fazer o caixão do pobre a levá-lo ao cemitério e se promover as coisas de praxe. A Vila ainda nascente como cidade e não dispunha funerária.
Sim, não os homens, elas, as mulheres reunidas, chorosas algumas, no hábito de arranjar o corpo morto à vida eterna, ao descanso no céu, segundo a religião pregada e válida na roça. As crianças nessa novidade triste dão uma trégua e deixam as mães livres à importante tarefa de lavar limpar vestir, quiçá pondo terno e gravata! ah quanta bobagem e quanto estrago pois nem sequer na zona urbana se usava quase indumentária europeia, com a terrível gravata de enforcar, e agora é posta no morto.
Tudo bem nesse tudo mal; o esposo de Rita já um tanto envelhecido arruma o cavalo, o cavaleiro sério quieto sombrio e sobretudo a curtir o dia seguinte duma bebedeira sem conta. Portanto não está disposto; não pode estar bem. Todavia não adianta fazer cara feia e assim Jeromão assopra qualquer instrução à esposa, sobe no lombo do equino e ruma ao rumo, objetivando encontrar um Zé que faça o esquife a um Zé morto; morto decerto de morte morrida, causa mais comum ao comum na roça.

20º  Vacas & Demais Bichos
No campo o campo é vasto, os caboclos ali viventes é que sequer percebem, ah percebem sim mas não aquilatam a extensão no tocante à imensidade da área e quantos animais vivem nela. Dos animais unzinho já ladra perto e nos pés do velho Jerônimo, o Peri a atrapalhar a gente. Não percebem eles e a gente de fora na cidade nem pensa na roça, ela a esperar seu próprio fim... Agora a roça como fator básico na sociedade só a temos na memória, memória de meados do outro século. O cão ladra não sei o quê. Seu Jerómo cuida da bicheira no cavalo – último de seus bens, mesmo a terra não lhe pertencendo e em vias ser expulso dela igual outros trabalhadores; e para onde iria, pensa tristonho, onde? após Dona Rita enterrada e os filhos criados... é mesmo, se responde, precisaria se mudar à Vila; e piormente tivesse residir na Capital; lá fora uma vez ver parentes, viu confusão.
Pensa enquanto exalando o cheiro da creolina, o curativo a arder e daí o cavalo estremece quase foge na dor e do incômodo. Ali estão os que nunca se largaram, o Peri feito grude onde o amo vai vai o cão; e o cavalo de nome Guarani, embora não saiba disso, o qual não se gruda ao homem é o homem quem o não larga. Também, com aquele andar lento a barriga enorme pesando, nada faz sem o cavalo. Cuida da bicheira assim como cuida dos instrumentos de trabalho, a enxada por exemplo. Ai o trabalho... o trabalho quase aposentado a um velho jururu; tentando viver sozinho na tapera, a lhe parecer grande demais para tão pouca criatura. Logo os filhos lhe fariam a mudança dali. O pobre roceiro a imaginar enquanto trata dos ferimentos da montaria de que jeito sobreviver no período das vacas magras na casa; pensa nos conflitos em novo ambiente sobretudo com as noras; os netinhos? esses até a lhe alegrar os dias. Agora eram as vacas magras pra si, sem ganho sem forças à labuta e pior: doente!
Resta-lhe lembrar os tempos das vacas gordas, palavreado que os trabalhadores usavam para expressar não a riqueza sim alguma fartura na pobreza crônica de suas casas. Conta isso... contar a quem! ao Peri o Guarani decerto nem sabendo ouvir. Nunca fora criador de animais, como é o comum entre os caboclos, somente a Rita cuidava das criações, porcos galinhas e... crianças; inclusive conversava de homem para homem com os bichos todos; claro ser de sua alçada e competência o falar falar falar ralhando dia inteiro; falar e educar sobretudo a prole, pois o machão nas suas altas funções a trabalhar no eito ou na beira do rio, o Rio do Peixe lembramos para não se esquecer. Ela morta. Ele viúvo. Sozinho e isso afirma na conversação, concordando, o Peri.
Além dessa conversa meio monólogo pois nem o velho quase abrindo a boca... não é bem assim porque o cachorro ladra até nos passarinhos próximos – além, lembra das coisas da época, inclusive aquela bagunça, ou seja a bagunça no tempo de eleição. Na roça, viva ou morta, nela a política não chegando, chegando sim vestígios através do ronco nos aparelhos de rádio de algum lavrador, ainda não expulso de lá. Contudo a cidade fervilhava...
Ele pensa se alembra e a memória é também uma forma de viver, inclusive viver da morte qual aprecia o dia de finados. Recorda-se da eleição. Bem, nisso viu pouco e participou nadinha, nem eleitor sendo no seu analfabetismo. No tempo antigo, isso sim contavam os pais e os tios com mais contato no voto. Diziam eles – ele repete às orelhas duras do Peri – falavam que na Vila no dia de votar os cavaleiros circulavam nos vilarejos de arma em punho. Tiros brigas mortes. Jeromão entretanto um ser pacífico, além dos pais não lhe deixarem ir ao patrimônio na semana da festa à escolha em qual coronel votar.
Sua realidade era menos dura; agora mais dura; e mais difusa.

21º - Um Acabar enfim
Será um sonho!
Não é um sonho. Não é um sonho sonharia Jeromão da cumádi Rita... ah dona Rita se foi, comenta a vizinha da vizinha, aquela que não se dava com a "Véia", se expressando assim gozadores do bairro de periferia na cidade em crise a província em crise o país em crise, a crise do mundo. Ah não se deve respeito aos mortos, sobremaneira nos casos de grande sofrimento!
Jerônimo – um Jeromão encolhido enrugado renegado encucado agora nos seus pensamentos íntimos, e não são em totalidade os pensamentos a única expressão íntima que temos? – seu Jerônimo da velha dona Rita, Jerônimo do Joãozinho, do Antônio que morreu ano passado, da Maria, "dona Maria" essa filha dele faz questão esconder sua vida desregrada na presença da vizinha deles dona Santa (não tanto, sim até boa vizinha; e que culpa de sua língua se aquela caipirona pusera também Santa como nome na filha, coitada, coitada por quê?) e ainda Jerônimo da sobra da prole deles; quer dizer daquela que deu à luz, o pessoal diz Jerómo; sim nada sobrando da filharada do casal e ainda por cima devendo ser por baixo sete palmos para baixo, como exemplo o Antônio que faleceu no hospital da prefeitura ano que passou. Dessa gente ninguém quase.
Quase Jeromão teria um chilique igual dava na Rita nos últimos dias antes do dia o velório o cortejo o cemitério municipal; quase Jeromão, soubesse o que se falava à boca pequena meio na surdina e alguma vez escancaradamente a ferir sua casa; gente do povo não mede palavras não tem as meias palavras, não fala mas pensa imediato e aí abre a boca. Não. Alguns têm o cuidado pedir desculpa. "Desculpa, Compadre" a maioria de língua despregada. E Jeromão tendo mesmo ouvir isso, ouvisse surdo duma e escutando pouco da outra orelha.
O mundo continua rodando, é assim que o mundo gira, diz um comentarista internacional que vê na tevê de se não ver vendo – a gente embora não se conforme bem, bem que vê ouve a mentirosa ali a praguejar políticos corruptos, o de todo dia... e fica olhando por olhar a tela e já antes dessa maneira agora também não compreende. Ele olha, ele diz na expressão do 'vernáculo' de roça nele impregnado "óia" porém anda longe, seu perto enterrado na Vila no cemitério municipal; olha as coisas faz que vê que ligado. Não.
- - -
A vida na urbe deixa a desejar; e se fosse na capital então! fora lá numa viagem rever parentes, Graúdo Miúdo os outros meninos (irmãos de sangue dele) eles a se findarem por aí longe a gente nem mais sabe deles e daí falam que já morreram, sumiram.
Oh a vida na cidade é um horror.
A família em decomposição vive faz uns poucos anos na periferia distante perto encostado da violência, do descaro, do descaso na falta das coisas básicas: não tem hospital não tem... enumera nos dedos da mão grossa artelhos nodosos de quando pegava na enxada lá no Rio do Peixe e... ah se lembra relembra em recordação doída doido pra voltar... No entanto não pode não dá mais e vive o menos aqui. Aqui!?
Os filhos – claro terem eles antes de preocupação com o pai cuidar dos seus próprios filhos, claro – seus meninos já velhos o Joãozinho mesmo e que lembra um pouco o João da Maria da Venda, ele tá acabadinho (Jerônimo não se vê não se analisa então, então pé na cova...) o pobre sofre de tudo que os médicos mandam sofrer; engole mil comprimidos, é um ai o infeliz; e a mulher do João, minha descabeçada nora e até lhe devo favores, ih mulherinha teimosa faladeira e... ora, deixa pra lá. Os filhos o mantêm, a aposentadoria menos de salário-mínimo é o mínimo nem dando aos seus remédios; e ainda se dá por feliz porque antes dos setenta anos não tinha nem isso, a roça não o registrara nunca.
Não obstante é dela que vive, se vive. Relembra o Antônio, Cumpádi Tonho que me escrevia as cartas aos meninos longe. E o Zé Paraíba que morreu também... falaram que... vixe quanto sofrimento e os colegas dele da enxada igualmenbte sucumbiram.
Relembra mais. A lembrança não tem lá muita consistência para ninguém e em especial aos que têm o cérebro a despencar. Piormente aos que têm tiveram o costume de exagerar nas vantagens – Jeromão mesmo agora e sobretudo antigamente quando se dizia ser gente, era um bravateiro um faroleiro. Pouco em poucas vezes se lembra e narra a outro velho vizinho (este o enterraria meses depois...) e expõe qual fosse hoje agora neste instante os acontecimentos, a Morena? era grande alta forte, sete palmos de altura. Na época aí por várias décadas atrás em voga a Mula Preta, cantiga sertaneja a dizer "tenho uma mula preta de sete palmos de altura" e repetiam as duplas e repetia ele, a pobre Morena não tinha sete, fraca velha usada abusada e feia, nenhum ladrão se interessando por ela; nesse tempo o tempo da fome de roubo de cavalo, ele mesmo tivera o Negão roubado no pasto um dia de noite; enquanto a Rita esquecera guardar as peças e de manhã não tinha nenhuma roupa no varal! cavalo e porco! e galinha! o Negão fogoso forte bom no arado e na carroça – esse o bandido levou! Nesses anos houve outro tempo em que visavam burro velho e égua esquálida pra roubar, levar a tropa ao matadouro clandestino virar mortadela "mortandela" na sua pronúncia.
Assim Jerônimo hoje. Hoje conta a outro velho menos acabado acabando seu pensamento que não acaba: sempre retorna retoma o que retomar reconta ao infinito.
Uma coisa é certa: não acerta viver ali na zona urbana, desprestigiada por uma periferia, um arrabalde no limiar do que fora a sua roça, no seu antigo sítio de plantar e viver, pois agora quando vê mato, vê apenas uma capoeira largada suja cheia de entulhos, sobra do centro comercial e até mais comum ser restos da própria periferia. Não acerta. Vive da lembrança.
São Paulo   novembro  2018


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