quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O Caboclo Invisível


O Caboclo Invisível

1.Um belo dia, ah mas que expressão mais idiota... mas num certo dia ocorreu aquele inusitado ao rapagão Inocêncio, mero homem comum, trabalhador e inculto; isto quer dizer letrado nas primeiras letras todavia sem escola com escola fundamental apenas. Levava sua rotina desde o quarto de solteiro ao serviço, este um pouco mais que subemprego e sem registro ainda por cima nesse por baixo; com direito a domingos feriados e dias santos, devoto de Santo Antônio por razões de necessidade em não morrer solteirão, embora o santo falhando. Contudo pensava no amor, ou seja gostava bastante duma jovem entre outras jovens, dessas só para olhar e não ter pretensões. Não chegando a ser um fracassado no amor, visto a predileta sequer ter conhecimento que o sujeito a amava. Enfim um homem sem ver grandes luzes no fim do túnel.
Rotina. Até ser quebrada por um dito belo dia, por sinal redundando em grandes aflições e ainda sustos inesperados, não sejam sempre todos espantos inesperados. Em suma deparou-se com um dia se não anormal inusual.
Seguinte. Inocêncio passara mil percalcinhos de sol a lua e agora como bom trabalhador, cansado suando azedo e incomodado, agora devera lavar-se ao jantar; claro isto numa pensãozinha pobre compatível com o bolso de ganho operário. Piormente fora roceiro deixara a família e vivendo com ela percebia apenas alguns trocados nos salários baixos com os pais; portanto vindo viver na cidade pequena e ganhar pouco na fábrica já um progresso... Chega no quarto ansiando limpeza, lavar-se somente não: era habitual o banho por inteiro a roupa limpa o desodorante o perfume de gosto distutível, o pente, vai que, se disse, vai que ela no caminho à pensão... Daí a gente se compromete com a beleza e mesmo feio horrendo que seja se maquia ou na pior das hipóteses se melhora. Para tanto olha o espelho do banheiro, o do guarda-roupa veio do brechó já partido e se espedaçou na mudança até seu quarto pobre. Enfim se pôs melhor... bem, tentou pôr-se. Removeu as peças usadas, em fedentina, para usá-las, reusá-las, noutro dia. Colocou após o banho nova camisa novas calças a ficar lindo, sem pretensão a gravata pois informal por natureza ou costume o moço. Ou tentou novas vestes.
É neste ponto que o belo dia interferiu descendo à categoria de um dia para tentar se esquecer pelo resto da existência. Ao pegar a cueca – uma desse tipo vê-oito de antigamente quando os machos usavam a samba-canção antes ainda eram ceroulas; enfim cueca tida por moderna portanto, embora os machões da época achando  a cueca  demais parecida calcinha de mulher... e aí complicou a situação. Ficou a namorar alisar observar a pecinha cor cinza desbotada (a cor desbotada quase sem cor, a peça nova ainda em invólucro e cheirando goma da loja num shopping center). Sorriu, mais de satisfação porque não é sempre usarmos roupa nova e o pobre então só lá de vez em quando tem esse prazer; daí o sorriso inocente. Atirou o papel de embrulho a esmo no chão, colocou a cuequinha, ajustou-a às suas partes, olhou o efeito e se considerou o rei da China, realizado. Só depois disso se ocupou das outras peças, se não usadíssimas usadas sem serem feias nem sujas; deixando o jovem mais jovem e belo. Foi então namorar-se no espelho, claro se achar quem sabe belo igual o dia, o dia já noite e a fome pela janta gritando. Aqui é que entra o inusitado – não se viu!

2.Naquele belo dia Inocente olhava o retangulinho de vidro e não via. Ou por outra, via, via sim os partidos e trincados deformados deformando ziguezagueando as imagens, via refletido no espelho a janela do vitrô do outro lado da parede como sempre vira e a luminosidade vinda de fora ao sol ou o claro triste sem sol advindos do corredor que separava seu banheiro do muro vizinho; isso, inclusive nesga da louça do sanitário malcheiroso dele mesmo Inocêncio. Não mais. De fato os trincos os reflexos as imagens do vitrô ao contrário e ao contrário não se via!
Ele que não via ele, ele mesmo... Assustou-se, não se apavorou só depois sim apavorando-se com a surpresa sem hora marcada. Aliás não há hora para o surpreendente; este chega e pronto: bagunça remexe altera brinca ou briga com a rotina. Aí o pobre moço ficou atrapalhado.
Olhou mais, mais se olhou e agora viu. Notou um homem, ou em outras palavras: vendo sim a roupa do homem no entanto sem o homem! Apalpou-se: ali andava inteirinho um Inocêncio mas, se não transparente, invisível. Se desesperou? não ainda não ficou desesperançado, quase nem desesperado entretanto como dito surpreso. Andou pra lá voltou pra cá, remexeu coisas, a esmo, sem saber o que procurava, procurava coisa alguma ou muito pelo contrário: tentava achar um caboclo moreno pobre trabalhador inculto bom e sentimental, decerto não conforme a oposição e sim de coração mole e nesse instante pensou nela: será que ela bela tagarela (a jovem tendo sim um pouco a língua solta, reconhecia) será que pode me ver se eu próprio, o interessado, não me vejo!
Remexeu mais coisas, objetos que levaria ao serviço amanhã hoje espalhados no quarto pobre de solteiro dum solteiro prestes a ir se preparar de vez e deslocar-se à pensão jantar. Remexeu sem encontrar. A rigor desconhecia o que procurando. Ah, lembramos procurar a identidade; a identidade não, a aparência dela. Um homem magro meão moreno simples de roupa também simples, de barba feita... Nisto apalpou a face se enroscando com pelos duros mal aparados decerto da lâmina barbeadora mal usada, ou então se culpa o creme de barbear na falta no fim do tubo e a gente espreme espreme e cospe o invólucro pouco em filete perfumado já não perfumado pois envelhecendo endurecendo saindo a custo enlamear o pincel... puxa que droga! tudo não explicando nada, nada de sua tormentosa situação e o rosto com tocos de barba, apalpou o nariz, as orelhas, teria coisa mais feia que as orelhas! que importando isso se no momento não vendo face nariz – soou o nariz soprou espalhafatosamente as fossas nasais e se limpou a seguir com as costas das mãos, enfim mãos orelhas narigão sequer aparecendo sentindo apenas – ah, pensou, estava enrolado!
          ‘Pera’ lá falou alto assustando agora o pensamento, será que eu não me vendo, vendo tão só as vestes que me cobrem, não dar-se-á que os outros lá fora me vejam?

3.Aqui o susto. Melhor, susto do susto pois Inocêncio mais ainda que assustado – perplexo. Fez sua experiência para ver se viam. Saiu, vestido, não se esperando um homem indecente nu mesmo, na cor baia da noite entrante de jantar fumegante para muita fome; aliás com isso tudo já se fora aquela dorzinha ou prurido que a gente pensa vir do estômago e que engana o cérebro. Agora todas fomes foram engolidas por uma invisibilidade. Saiu, olhou, examinou o ambiente, o vaivém da rua, rua embora pacata como todas as da periferia de cidade interiorana (nada pacata quando da grita menina ou no desentender comadre...) porém a rua inalterada ao sabor da rotina: gente a passar, carros a tentar no tranco funcionar, cachorros ladrando, enfim nada mudara a satisfazer o gosto da rotina, tudo. Ninguém no momento parecia ver Inocêncio, antes sequer o notando também, desde então teve certeza não ser visto. Ou em nova abordagem do mesmo problema: todos ou algumas pessoas vendo sim mas suas vestes!
Andava parado parando na saída à rua, imóvel, quase a se exibir como fosse estátua, e eis que se mexe se vira dá de propósito um passo volta levanta o braço direito dá com a mão a um passante, uma pois menina nas imediações... para, para ela, ela então surpresa, arregalada aturdida medrosa – grita aqueles panos se mexendo sem gente dentro! Aí dá-se cena curiosa se não cômica de o feitiço contra o feiticeiro: Inocêncio desanda desabaladamente para dentro, com medo do medo que a garota pudesse ter sentido dele, e tinha mesmo. Ambos se afastando céleres, ela, não ele, a gritar o fantasma.
Aqui tem início realmente o drama do homem invisível.

4.Naturalmente em nenhum lugar do planeta há acomodação à gente invisível; ou em contrário: todos cantos podendo abrigá-la. O fato é que Inocêncio não tendo vocação para alma do outro mundo e assim se retirou por causa de sua invisibilidade do mundo.
No início fora mui difícil seu estado porque precisando trabalhar ganhar receber comprar pagar, pagar o aluguel por exemplo. Tudo girava em torno do ganho pouco no emprego mas agora quem o admitiria? quem ao menos a manter um homem invisível na fábrica sem vê-lo executar as tarefas pertinentes ao operário; além do problema da convivência com outros servidores; qual por exemplo a atitude diante do chefe, o seu bem ranzinza e no rigor do mandão chato. Como depois receber, comprovando o exercício da função, receber o papel para apresentar à mocinha do setor – e ela bonita pra valer, não chegando aos pés de sua eleita – como  enfim se pôr na posição normal aceita para daí assinar e posteriormente haver o depósito em sua conta-salário no banco. Pra começar decerto nem a belinha podendo percebê-lo. Agora põe a questão: como desse jeito ter dinheiro a fim de pagar contas e uma que outra dívida; de que maneira reagiria o senhorio. Assim se manteve retirado em seu quarto dias. Somente depois foi que se lembrou de enviar um bilhete desses comuns “Sr.João, estou acamado e logo que tiver condições torno ao trabalho. Assinado Inocêncio.” Fácil deixar, invisível, a tira escrita de papel na mesa do chefe. Os dias se encompridavam, os restos de alimentos improvisados em almoço e jantar se acabaram... Além doutros pequenos insignificantes problemazinhos – enormes para si e em seu esdrúxulo caso.
Logo no primeiro dia de descanso forçado alguém bateu palmas. Preferiu faltar com a educação ou demonstrar enganando não haver ninguém na casa. Havia sim, inclusive as vizinhas deram informes no sentido de que seu Inocêncio fazia tempo não se via (no que não mentiam, inventavam) sim inventavam e inventavam criando mazelas naquele “moreno esquisitão que nem cumprimenta nem conversa com a gente”. Usaram o subterfúgio de ‘branquear’ amorenando o vizinho, uma delas quase no pichamento di-lo-ia preto porém ocorrendo a visita também ser negra, mais escura que Inocêncio; assim se calou a tempo. A nova situação do rapaz foi prato cheio às comadres, pois uma falta que não fazia falta, no entanto chocante o fato da porta fechada e quando aberta não ter ninguém lá dentro. Olhe, disse uma delas a alguém de amizade: posso jurar haver escutado barulho, até ouvi bem tossir e era com certeza a tosse habitual do rapaz. Sai sim, ajuntou a faladeira, sai todos dias de manhã vestido no macacão para a oficina; e volta quase noite, faz um barulho danado no chuveiro, canta desafinado sempre a mesma canção, nestes últimos dias só faz barulho e não canta. Dona Chiquinha, aquela enredeira, diz à amiga a amiga, dona Chiquinha olhou pela janela e não viu alma! Foi por aí a criatividade das comadres, mui linguarudas e agora com certa razão, o sujeito desaparecido aos olhos delas, escondido. Mas escondido de quem! de si mesmo, para início de conversa; só depois, de outrem com temor.
Assim se resguardou, não atendeu vendedores e evangélicos chatos, nem possíveis cobradores chatérrimos e isto uma vantagem dentro de sua desvantagem.
Nisso acontece de a despensa (aqui tão somente latinhas e latões de plástico contra barata e formiga) essa despensa se exaurir. Ora, sem comer ninguém aguenta. Um dia sim, muitos não. É quando vem a lembrança salvadora do Antônio.
O Tonho era amigo e fora colega na oficina um tempo. Sempre se encontravam a um papo; talvez fosse o tipo íntimo de amigo, visto haver amigos nada amigos por não confiáveis e portanto... Toda gente precisa confidenciar coisas boas e nem se fale as más e perigosas. Para ouvir conselhos quem sabe e também dá-los; são pessoas com direito ou só poder de interferir na intimidade e na vida dos outros. Tonho confiável. Entretanto como falar do seu drama e ainda com possibilidade de provavelmente sequer o amigo percebê-lo; chegou a pensar no caso, semelhando à jovem que fugira dele não vendo corpo dentro da roupa. Será que... Adiou o quanto possível a alternativa de pedir pelo amigo mas no momento crítico contatou Tonho. Fê-lo por telefone; andou mil orelhões quebrados a poder fazer ligação. Alô!
Combinaram um encontro após o serviço, o serviço do amigo, bem entendido, ele prisioneiro de seu temor no quarto de solteiro.

5.Agora melhorara aquele pior para Inocêncio. O outro desde então passou a ser seu mundo de ligação com o mundo. Antônio, menos moreno que o moreno invisível, era um sujeito confiável como dito e também um indivíduo discreto; mais que isso, um servidor.
Já fazendo um mês sem ir à fábrica e se esgotando a comida e ainda sem ter grandes esperanças de conseguir meios a se manter – longe estava para Inocêncio a possibilidade em voltar à oficina e dessa forma como conseguir meios; e sem dinheiro como adquirir bens matar a fome pagar contas! Apareceu-lhe logo o amigo. Aliás fora convidado a vir em sua casa pobre e à noite após a labuta o Tonho passou a aparecer frequente ali e se punha a seu dispor. Foram horas de conversa, com algumas reservas inicialmente porque não é costumeiro nos amigos terem amigos que se não vê. Riu-se do pobre, o que bem compreensível porque de que forma falar com um fantasma ao qual só vendo a roupa! Por fim se trataram amistosamente como sempre e sérios. Debalde procuraram as causas do fenômeno, levantou mil hipóteses Antônio daquele sumiço da visibilidade de Inocêncio – sem resultado. Inclusive o interessado maior já havia pensado muito e posto todos minutos lembráveis da vida próxima pregressa. Aquele velho negócio de qual remédio tomado, o que porventura deglutido e o campo das bebidas bem amplo igualmente negativo e sem solução ao caso. O amigo repôs essa discussão na discussão de Inocêncio consigo mesmo por dias. Foram horas sérias, alegres no encontro, tristes na constatação.
O certo era (definitivamente!) era sim que Inocêncio estava invisível, quiçá podendo-se pôr assim: ‘era invisível’, um  certo nesse errado.
A noite engoliu a visita, a visita foi ao descanso no preparo ao seu ofício diúrno e assim deixou o amigo menos derrotado e sem solução que antes; a rigor não encontraram solução. Lembraram possibilidade procurar a medicina, e quem um médico examinaria... tão absurda a coisa que deixaram essa hipótese na hipótese da sem solução. A única amenidade nesse drama vivido fora a mudança de situação: agora Inocêncio continuava invisível aos outros, porém na condição de contar com o amigo, seja a lhe trazer numerário até emprestado, seja trazendo alimentos e pagando os vencimentos; além é claro o positivo de sua presença como confidente. A causa, ou as causas, da anormalidade não fora encontrada, encontrável.

6.Na empresa ninguém, fora os próximos e acostumados ao tímido Inocêncio, ninguém notando a falta e não caberia comentar sua ausência invisível. Numa indústria dezenas adoecem alguns somem, de fato; o caso de Inocêncio era um sumir existindo estando ao lado de todos e sem demissão. Na rua terá algum passante habitual percebido a falta dum macacão ensebado com um operário quietarrão dentro. Os comerciantes sim terão comentado a ausência do freguês, substituído por Antônio lá vez que outra, a alegar doença no amigo. No bairro é que causou demais estranheza. Não apenas as comadres mais xeretas a olhar nada furtivamente para descobrir alguma coisa. Pelo menos encontrar uma explicação plausível do sumiço daquele vizinho em si já estranho. Até ao ponto em que notando o amigo no entrar e sair da casa não suportaram indagando. Enfermo? ah, vamos então fazer uma visitinha ver se precisa da gente... Antônio não as convenceu em contrário e assim noutro dia dona Chiquinha dona Zefa e a Antônia, esta desconsiderada pelas outras sobretudo quando ausente e daí pichada. Todavia foram a ‘cuidar’ do enferminho. Primeiro bateram palmas, depois deram uns croques desses de doer as quinas dos dedos na porta e na janela dele, a seguir chamaram e por fim empurraram sem cerimônia forçando o trinco da porta do quarto do homem. Se ficaram escandalizadas por ‘vê-lo’ naquele calor medonho andar nu ou só nu estatelado na cama? Não, não viram ninguém. Assim mesmo perceberam a sujeira os trapos os objetos espalhados e a cama e os lençóis desarrumados quem sabe a cheirar suor de muitos dias dormidos; comentaram alto a desorganização masculina apelidada como relaxo e falta de gosto. Antônia que achava Inocêncio no tempo de homem visível um pedação de macho pôs lá seus panos quentes na língua delas a defender o vizinho ‘ausente’. As outras, sem dó nem piedade picharam picharam somente, para não perder destreza ou como exercício... Enquanto isso a vítima observava as três visitantes, uma era não mais que destroço num escombro feminino decerto sendo em jovem uma gostosura, pensou. Talvez irritado ou só para gozá-las, vestiu a camisa vermelha e se foi mexendo num movimento lento em direção do grupo. Uma correria uma gritaria enorme, por uma simples camisa que se arcava e levantava as mangas, nada mais. Mas isto gerou muito alimento à fogueira da conversa-fiada comum entre vizinhas. Sem precisar desde então inventar. Ou só inventar em cima do invento, o que bem criativo...

7.Mas um dia, esse de fato um belo dia... bem, resolveu deixar o refúgio o homem invisível. Tomou essa decisão, ou seja em pôr a limpo o caso amoroso, que se arrastava anos e agora, quando a gente não tem nada pra fazer como por exemplo ficar só, só pensando e pondo minhocas na cabeça, isto expressão do amigo, então agora a gente pensa. Decidiu ir ver a namorada. Será que o termo não pode levar em nossos dias distorcidos a crer em amante! Ora, nem a jovem antes do fenômeno que o atingia sabendo que talvez houvesse um moreno de nome Inocêncio e nessa altura vê-lo-ia ao menos sem realmente ver? O coração tem outros argumentos e dispensa a lógica do pensar; e assim pôs-se à rua. Perfumou-se o rapaz – aquela questão das águas de cheiro discutíveis que os roceiros pobretões usam – se lavou bem, se vistoriou sem se ver e imaginando estar a contento; partiu. Nu. Bolas, como ir ‘namorar’ nu! Pensou muito todo um dia em pôr as questões da apresentação – ah se fosse com a roupa de missa, os religiosos têm muito disso de melhorar a aparência nos domingos, em geral temos a roupa de sair e a de trabalhar, neste caso o macacão do tipo sua-suja-lava-enxuga-veste e nem sempre tornando o cheiro suportável. Acontece que não podia (podia sim, não devia poder, melhor dizendo) não poderia ir às vias públicas melhor trajado, ou veriam – e fugiriam dele – sim veriam apenas o tecido. Andava consciente dessa verdade, então saiu mesmo nu, nu? não totalmente pelado mas com a bendita cueca nova, nessa altura usadíssima, do tipo habitual de a gente gostar tanto que não tira nem para dormir ou somente a dormir. Ela ‘vista’, palpável, apresentável, aqui forçando um pouco a linguagem; com a vantagem de também ficar invisível estando ajustada em seu corpo... De maneira que andou nisso despreocupado preocupado em não estar totalmente despido; coisa do decoro e vergonha secular no ser humano. Aí se pensou de novo como alma doutro mundo. Urgia ver o efeito na amada. Chegou perto da residência dela, um palácio para si embora apenas um prédio vistoso mas pobre sem sua miséria de quarto solteirão; esperou: tinha todo o tempo do mundo pra si não se ocupando mais na fábrica nem a aguardar não ser malvisto, visto não mais ser visto. Até que a beldade apareceu. Não era de fenomenal beleza, afirmativa desnecessária ao cérebro do coração. O príncipe encantado havia formulado um imenso poema a declamar e conquistar a princesa não encantada porém... Não tinha conseguido sequer rabiscar o que exigia o sentimento numas linhas tortas em garranchos feios e quase firmes; nem seria capaz, não escrevendo e escrevendo a ler para ela, não seria capaz de formular, tímido, o pensamento amoroso; ou a poesia para melhor forçar aqui a palavra. Enfim ali está Inocêncio prenhe de querência e lá e ali pertinho a amada bela etc. e tal como se exige em belas. Mas a bela não o percebeu sequer. Ou por outras palavras, teve um ameaço de sentir ou percepção de algo estranho próximo, quiçá a seu lado; algo que tentou beijá-la e lhe dando uma extremeção ou arrepio... Terá achado qualquer estranheza nas imediações a menina, exalou no rapaz seu habitual perfume, que ele aspirou quase a chorar e ficaria, ficasse, grotesco um homem grosseiro em lágrimas de amor. Ficou nisso apenas. Ela voltou para dentro do palácio sem poder analisar aquela situação esquisita; ele permaneceu horas feito bobo a olhar a desejar a indagar como faz a tolice do amor: será que ela gosta de mim!? Então retornou ao seu bairro por entre o povo, este a viver no seu ramerrão, foi para sua casa seus cachorros latidores seus meninos gritões suas comadres faladeiras, para seu quarto quase tugúrio mudo, mudo ele também.

8.Aguardou uns dias a presença do seu confidente. Por fim o Tonho chegou, conversaram muito tempo a varar a madrugada pondo pontos a limpo. Num momento de quase choro ou quem sabe desespero o caboclo invisível disse se dispor mudar de vez o estado em que vivia, se vivendo, a pensar mesmo tornar aos seus na roça. O que um absurdo naquele absurdo visto sua gente estar em vias de despejo: os fazendeiros não queriam mais os trabalhadores em suas terras, preferindo capim e gado. Ele não iria acumular o drama dos familiares com seu próprio drama! E não seria esquisito um invisível a capinar no sol inclemente... Ponderaram ambos amigos a permanência; entretanto como mudar? Sim, Inocêncio não aguentaria uma existência inteira ou o resto do que pensando vida, agora sem futuro, a ficar invisível num mundo visível. Tendo mais uma agravante no caso que era Antônio, sua única ligação com a sociedade sólida e palpável, enfim o amigo fora despedido e por isso se propondo a fugir para a capital a tentar o destino.
Nesses termos a situação de Inocêncio andava se não insuportável insustentável, inviável ao ser comum como eram os dois companheiros. Buscaram interromper isso, isso custando-lhes mais algumas horas extras a varar toda madrugada: enfim o como sair o pobre invisível do drama.
Cansaram nas comparações, repuseram discussões anteriores sobejamente sem norte; o sol chegou, o café fumegou, a vizinhança se destramelando e ainda eles sem sequer levantar causas possíveis; que dirá eliminar razões e motivos daquela esdrúxula condição. Será, indagaram quase ao mesmo tempo, será que o pobre invisível invisível mesmo antes de se tornar invisível e agora tomado por alma apenas (e não seria alma penada!) será que teria de continuar realmente invisível pelo resto dos tempos e tempos...
O amigo já se despedia, quando ocorreu um fato inusitado àquele todo inusitado. Falou-lhe Antônio querer examinar melhor a tal cueca nova... Esta? Então despiu-se de todo Inocêncio, pôs outra peça, rasgada puída gasta velha não usada e de uso. E o milagre se fez vida: Inocêncio surgiu inteiro e pegável, se vendo visto com ou sem roupa. Lindamente horroroso.
Marília   maio  2011



         



             

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