Coisas
Universitárias
1.Universidade. Dois olhos longos oblíquos
de curto alcance olham esperam observam guardam quem sabe o saber das coisas,
embora vendo sem corpo o corpo talvez à distância ou nem existindo de tanto
existir. E veem o que ver o que não ver no proibido ou no inalcançável em vista
de o homem ser o comum e o comum sequer enxerga o que vê. Os prédios no
conjunto colossal são de se mostrar para quem de direito ou somente para exibir
grandezas e são eles um todo a ricochetear sua presença na urbe no país quiçá
no mundo e até no universo mas os estudantes não sabem disso não sabendo assim.
Assim por todo lado em todas ruas dessa cidade por demais universitária e de
menos compreensão andam os que andam pelos vãos a encher o todo, circulam pelas
ruas se escorregam pelas áreas de praça e vegetação espaçada a verdejar o ambiente;
entram nos edifícios a imitar os séculos vetustos da história da cultura e do
academicismo, numa exposição de colunas gregas e romanas em plena civilização
bastarda e apócrifa após milênios anteriores. Entram. Saem. Saem numa possível
satisfação com ventres estufados cheios plenos de sabedoria, a carregar nas
orelhas ramos de vitória na guerra da perfeição e ainda mais acumulados com
títulos diplomas anéis e demais ostentações humanas... As ruas são vias
públicas agora murchas vazias cheias de raios solares a aquecer um quase nada
do orgulho talvez, da vaidade com certeza, e o vento é brando e econômico
parecendo brisa para não ofender insetos voejantes e nisso sobra a beleza duma
borboleta amarela mui povinho e mais vigente viva nas baixadas úmidas dos
brejos nos campos; ali estando decerto como visita: nunca aceitaria colar grau!
E tem mil outros bichos pequenos e quase nem vistos por insignificância. Não
obstante em todo o todo sobram ainda mais veículos, veículos quase sempre
importados brilhantes ao sol a tinir no esmero da lataria e dos vidros escuros
a esconder o nada da vaidade rica e do poder dos seus proprietários, então ou a
buscar cultura ou a estudar ou a ‘estudar’ ou ainda a descansar do descanso nos
bares e lanchonetes ofertados a cada esquina dessa esquina da vida dentro da cidade
universitária colossal cheia de colunas e imitação de séculos na arquitetura; e
assim conversam sua muito conversa nas falas risonhas ao gosto da juventude,
que promete mais gastos que produção; ou seria esbanjo na apresentação no luxo
no poder diante da sociedade pobre e desempregada! Falam de tudo um pouco e se
embriagam de nadas enquanto conversam e se embriagam bastante bebericando, se
locupletam quem sabe se não do saber de cultura e de tradição... Enquanto, os
insetos percorrem no seu andar sem solo ou no solo ou esvoejam à procura do que
lhes convêm, a convir que o mundo é um todo; seu mister é tão somente colorir e
assim embelezar o ambiente. Um ambiente que dois olhos enxergam ou imaginam ver
entremeio automóveis possantes, possantes são equivalentemente os filhos de
famílias bem constituídas na riqueza e pródigas aos seus pródigos prometedores
rebentos, ali a se rir da última piada quiçá do jocoso na vida acadêmica ou que
seja dum deslize de outrem na sala de aula; ou é por nem chegar pensar na lição
e mais ‘veem’ a fragrância alcoólica ou a provinda doutras drogas mais drogas
no mundo do vício... Por essa razão não têm razão em notar mil serzinhos a
voejar, um destes ziguezagueia amarelo por volta e desce e foge se fugir e sem
fugir e para e senta e aprecia um verde qualquer também com amarelo gasto e um
vermelhinho no meio de suas pétalas e assim o amarelo ser beija sem ser pássaro
a flor, pensando talvez cultura e livro
e aula e riqueza que dá poder sem sabedoria. E dorme e balança ao vento tênue e
acorda e alevanta e bate com asas as asas ao mundo. O mundo é muito grande,
embora semelhantemente na sua insignificância de ano-luz perante o tamanho do
universo ou que o planeta possa envergonhar-se por sua pequenice diante o
espaço macro entre as galáxias; porém ele ainda muitíssimo grande a uma
borboletinha amarela, curiosa do saber universitário, onde sobra evolar-se nos
líquidos etílicos, pleno ao saber humano.
2.Um visitante. Ele examina a cidade dos
universitários por demais ocupados. Encontra-se ali quase por acaso, como fosse
um exemplar em exemplo de cão que se perdeu na mudança, o caminhão cheio pesado
de cacarecos vários e móveis de terceira categoria a despencar, cheiros acres
de barata misturados com pós de cupim, vasos vazios vasinhos cheios de terra
dura e flor cansada, restos de brinquedo (ao longe ali na cabine ouve-se choro
de criança) – e ele que caiu num descuido na estrada e agora não acha o
caminho. Perdido achado achando-se na cidade universitária sem esperar colar
grau ser doutor visto não ter vaidade. Tem mais preocupação com suas pulgas e a
fome que anda no estágio brabo, ela sem começo e pior sem fim e por este motivo
o cão andeja seu ‘viralatismo’ nas vias públicas pouco públicas no milionário
ambiente, cheio de verde é verdade mas com a mentira do ponto de referência,
embora o faro fino lúcido aceso da espécie que é sua espécie. Andeja de lá pra
cá de cá pra lá sem grandes resultados, que não sejam bastar a um par de olhos
sem corpo que somam um todo e veem o todo. Ele se coça, se estremece, procura
seus algozes a lhe sugarem, denta com dentes afiados os inimigos, se cansa
anda; anda mais, menos encontra o que encontrar ou seja aquela casa andante que
sumiu-lhe na poeira da estrada antes do cansaço que os quilômetros acresceram,
a dar em resultado uma cidade universitária todinha pra si... Percorre o
vetusto e luxuoso meio cheio parelhos às colunas greco-romanas arquitetando a
beleza e o poder do ocidente. O oriente exporta o sol, o sol já no poente,
esquentara insetos universitários com seus carrões importados e brilhantes ao
calor e aqueceu uma borboleta que até escondeu-se dos abusos dos raios numas
folhas adredemente postas pela mãe natureza a resguardá-la; e aqueceu outros
insetos a voejar e a também se esconder. E assim recebe o cãozito igualmente
suas doses solares pra si e pras suas pulgas. Anda ao deus-dará mais um pouco e
sem tempo por não ter o tempo do definitivo, para olha escuta se inclina forma
um quase caracol se dobra se encolhe e despenca no chão feito biscoito,
enrolando o esqueleto ajeitando a jeito a pele os pelos curtos onde também
carrapatos dos matos da seca do tanto tempo da viagem e da estrada e da estada
agora; agora eles se juntam a sugar o pobre já às voltas com as pulgas irritando
seu cansaço de cão. O cão fará também planos ali postado na cidade
universitária mas sem prever esperar títulos?
3.Uns outros dois olhos. Ali a menina bela
meiga com livros numa língua estranha nas mãos, a tiracolo uma bolsa que a
torna ainda mais feminina mais bonita mais presente, ali ela eles, ela vê o
cãozinho enrolado que ora e vez vez por outra abre um fecha outro olho, olha
ele olhando lá em cima aquela beleza da enorme dona que o observa, andava
andando parada agora vendo; a jovem sorri à vista dessa visita espúria suja
porca de cachorro perdido nos achados, sorri sorriem se entendem. E marcam
encontro naquela hora para todas horas da existência que se entende por
eternidade; eternidades mais menos se olham se veem juntos, ele atrás ela na
frente pelas ruas universitárias e então estacam param olham só ela vendo a
porta da biblioteca central, entra e sai, entre ambos tacitamente combinado o
cachorrinho não entrar, a sair ela de lá após sua espera de amigo num aguardo à
felicidade; a felicidade agora volta sem livros, ou por outra com outros
volumes, desconhecendo isso o amigo; são amigos sem precisarem apresentação e
menos nisso o fato dos outros estudantes passarem olharem sorrirem quando muito
e prosseguirem ou à lanchonete o mais provável ou à aula menos possível e assim
não houve apresentação nem ao táxi nem aos passageiros-pulgas; o cão se coça
engraçado, ela para observando a cena e o convida, prontamente aceito, a
continuar de onde vieram que é lugar nenhum ou o provável e presuntivo também
ir a qualquer; prosseguem, ela à frente ele atrás com sua pele de pelo ralo e
curto e sujo e decerto fedorento. Agora estão ao lado do carro importado novo
brilhante ao sol; aos dois olhos outros sem corpo observam enquanto que a bela
jovem amiga do amigo tem olhos só para o amigo quase nem vê mesmo o veículo
estacionado queimando as duas faixas corretas do estacionamento de sua
faculdade, onde os veterinários poderiam até achar o novo amigo dessa aluna
meio doutora lindo; apesar de estacionado de esguelha e prensando com os pneus
negros uma das brancas faixas pintadas no chão, apesar disso nisso ela não
pensa não vê isso vê o amigo. O amigo ensaia um sorriso, decerto por deixar ao
instinto resolver o problema da solidão e o da fome braba, por fim sorri de
rabo, linguagem que a estudante já mestra compreende e se entendem, sobem
entram se acomodam no automóvel, um presente do pai sempre ausente no
aniversário da única herdeira enquanto a mãe só mandou mensagem de excesiva
saudade, visto as letras serem pródigas, tal mensagem de celular desde lá no
estrangeiro com suas e seus amigos mas isso pormenor desnecessário ao cão, o
cão agora nuns colos quentes estofados mornos em meio dos cheiros de
combustível, vai feliz ao lado de sua protegida, dona ou amiga? Ela deixa a
cidade universitária rumo às suas terras, outro presente de papai ausente presente
no presente à futura doutora e comentará com os íntimos “não sei como aprecia
tanto os tantos animais que arruma por aí” e assim noutro aniversário a
mimoseou com uma fazendola, só para ela receber seus amigos irracionais, os
“não racionais” (diz ainda o genitor). Enfim seguem chegam descem, ele ainda no
colo quente gostoso de mamãe, a jovem não tão bela assim e para o cão de uma
beleza extraordinária, a jovem meio doutora afaga afaga o novo amigo-irmão, nem
vê as pulgas nem julga o fedor a sujeira a magreza as costelas na pele curta e
couro de cor indefinida bom aos vira-latas; afaga abraça beija... ah costume
esquisito de algumas ou muitas pessoas beijar a boca de animais como gatinhos
cabritinhos burrinhos cãezinhos, o cãozinho sente-se no céu. Verdade que
percebeu muitos dentes inimigos ou só adversários gratuitos e uma ladração
enorme, talvez de regozijo pela chegada da jovem mulher mãe de todos. Assim entrou
o cão na arca.
4.Arca de noé. Entabulou-se uma conversa
alta mansa alegre feliz entre os convivas, embora da gente apenas a universitária
doutoranda e do outro lado os latidos miados zurros e até a fala duma onça,
como se expressará um bicho selvagem amansado agora e conversando com a ama,
embora oncinha separada da esdrúxula população, num quem sabe a fim de não
almoçar no jantar a população!? Não importa, importa sim que a doutorazinha
congraçou todos, inclusive ainda tendo ao colo o novo cão, ele talvez graduado
vindo da cidade universitária e incomodado por suas pulgas. Deu-lhe banho, vestiu-o...
ora não pôs roupa só penteou o recente morador, deixando esse filho adotivo um
civilizado e a instar ser morador eterno na arca. Por isso ou também por causa
disso a felicidade geral do novo ambiente. Entre mil um dos habitantes o cão
agora antes sem alimento come seu naco e espreguiça seu viver decerto. A
população do mundo é feliz na sua porção e na sua proporção e compreensão, o
que basta à felicidade; enquanto a dona, com título e honra é ainda mais feliz
que os felizes na população moradora, ao lado dos seus bichos de muita
estimação. Quando com eles ela não quer sequer lembrar do viver entre seus
iguais, iguais por semelhantes e humanos.
5.Dois olhos que veem sentimentos. Deixa
seus irmãos e filhos aos tratadores e cuidadores e fornecedores conviventes na
gleba e parte à gleba universitária a cuidar ela dos estudos e a discutir
coisas pertinentes a esse mundo, como doutrinas leis preceitos e demais
cobranças dos que cobram ou por ser doutores ou por ser o ganha-pão a alimentar
tanto orgulho quanto a vaidade dos homens. Entrelaça-se com outros estudantes
troca ideias e noções acadêmicas, ameaça aos mais próximos narrar do cão e da
borboleta, ah a borboleta amarela pequena acompanhara a viagem do cão e da mãe
dele rumo à arca – onde estaria àquelas horas... Contudo nem os pseudos-íntimos
se interessam por aquilo. Tem um jovem belo musculoso rico interessado nessa
noé de saias vestindo calças compridas como as outras fêmeas da espécie (ela
não abandonou a espécie somente para ser mãe no seu zoológico, não:) o rapaz
quer namorá-la. Porém tem porém que pode não ser porém mas não ser também um
bem: deseja a moça mui longe do namoro antigo, aquele na varanda sob olhares do
futuro sogro e depois igreja cartório festa lua e... bem, quer uma namorada no
estilo atual. Ele até vai à aula, não para aprender o que papai mandou para ter
um título de doutor e mandar depois na empresa quando papai morrer. Não. Deseja
sim a coisa no estilo de hoje: andar com a namorada dormir com a namorada entre
outras ocasionais namoradas... enfim essas coisas consentidas agora pela
decência. Ela resiste, aceita o passeio no carrão dele, resiste às investidas
do homem e resiste outras vezes e assim descobre que o príncipe não é mais
encantado, nunca fora encantada uma coisa assim a si. A si os estudos sérios,
papai e mamãe não são sérios nesse sentido e tem cada um dos genitores seu
próprio estilo a que chama felicidade. Não importa, importa mesmo estudar
aprender formar-se livrar-se do peso universitário e tornar aos seus animais e
até manter um melhor convívio com os seus tutelados, amigos irmãos; seres confiáveis
quando estes lhe dizem “eu te amo” não se importando com as vozes nem com a
concordância tendo já a concordância do amor. Dessa maneira, perfilados os anos
como universitária, completa seu tempo e após volta aos moradores da arca. Todos
ali mas a borboleta encontrou outras congêneres e decerto é feliz. Feliz o cão:
recebeu amigos, recebeu nome, recebeu mãe-dona-ama-irmã, assim como os outros
semelhantes, a viver sem pulgas naquele mundo, para todo sempre. Amém.
Marília junho
2013
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