A Cabeça
Franciscana
I - Introdução
O
que interessaria a um sapo sapeando nas proximidades, me indago, adiantaria
perguntar ao meio desatencioso e até desinteressado! Nada. Posto assim,
volto-me à minha atenção no que atento e a meu próprio interesse, interessado.
Por isso penetro o mais que posso o interior, mente coração, do sujeito aqui
presente (ainda) à beira da morte, presente a bem da verdade mas descartado o
absoluto das coisas, a bem ainda da mesma verdade parece ter ouvido ser chamado
por um familiar Francisco, outro íntimo e mais íntimo até que o próprio
familiar a indicá-lo e este gritou com sentimento "Chico!" você anda
vivo forte belo corajoso; e emendou mil coisinhas como "ah se lembra de
nossas caçadas"; ora, o velhote forte e surdo surdinho da silva não
ouvindo.
Ouvi,
não obstante a sapear nas imediações, xeretando dizem os seres humanos, a
sapear o mais desumanamente possível. Dizia-se ali sobre alguém sapeando a se
meter. Fiz de conta não escutar a ofensa se ofensa e alarguei orelhas...
Estávamos
(os outros igualmente estando na área) num lugar confuso, parece-me houvesse um
magote desgastado de animais aloucados chocados e piormente egocêntricos e por
isso com interesses centralizados nos próprios umbigos, sem tomar conhecimento
dos interesses alheios, alheios ao mais. Menos se voltando ao Chiquinho,
Francisco nesse dito momento era um menininho em meio a mil irmãos – aqui eu sapo
abuso porque nós temos filhos a rodo, isto dizer humano da época pra afirmar
muitos filhos, enquanto as famílias humanas geravam aí por uns dez ou doze
descendentes, havendo uma que outra casa com dois e inclusive sem filho algum.
O Chiquinho grita e a mãe não escuta, escuta decerto a balbúrdia em conjunto da
meninada e a grita berrada dos afazeres e por isso não atende ao pouco mais que
caçula. O meio caçula: "mãe, me dá comida!" Entram galinhas (eu tenho
um medo terrível de suas bicadas, fico no alerta...) entram cabras e até porcos
na cozinha enorme da família enorme na residência pobre e pequena a tanta
gente, mormente nos momentos em que o velho chefe da casa vem vindo com a
enxada nos ombros, cansado, rumando ao prato de arroz e feijão e mistura como
abobrinha e umas linguiças, enfim alimento caboclo de caboclo trabalhador duma
família prolífica. Repete repete repete, não houve jeito ouvir, a pobre mulher
ainda forçando o nenê a engolir doentinho uma porção da garrafa de leite de
cabra acoplada de chupeta, por causa do leite seco nos seios dela. Não escuta.
Não
obstante não poderia ouvir mesmo, mesmo estando perto de si o Chiquinho, pois
falando mais alto os gritos cruzados doutros loucos... puxa, será não estarei
como um sapo abusando na loucura da loucura da gente! As servidoras, duas na
tarde tardando o almoço (isto dizer dos ponteiros dum relógio atrevido a tiquetaquear
no salão onde a tevê xingando o mundo o rádio ligado à toda para enlouquecer melhor
os loucos) essas servidoras atendendo um dois três mil deles, um a querer outra
fralda mais seca que a molhada; outro a repetir e repetir estar morrendo; nisto
um graçolinha encaixa para o candidato a caixão não o fizesse (não morresse
portanto) por enquanto, que ao menos almoçasse; depois, sim, não mais vivesse.
Outro mais a exigir tratamento VIP e
de Primeiro Mundo só cuidando de suas altas necessidades como exemplo coçar-lhe
as costas – as nossas são grossas feias e além do mais sem necessidade usar as
mãos curtas a alcançar com o dedo indicador o ponto onde comichando. As
servidoras também não ouvindo nem isso dessa lamentação do louco, louca melhor
atrever dizer, se pensando a única no universo das funcionárias, estas mais
interessadas ouvir a música ou a propaganda ardendo as orelhas de todo salão.
Contudo gritava ele: "mãe, me dá comida!"
II – O Corpo
Sim,
porque o homenzarrão, não obstante um colosso no corpo, só tem mesmo talvez a
se salvar a mente, alizinho escondida no que se vê: da cabeça a cabeça o corpo
e os membros. E esse trio com osso carne pele sangue pode facilmente ser
descrito até por um sapo; o qual não se teme e quando muito faz o bem de limpar
a água do poço a serviço da humanidade, ingerindo bichinhos que empesteiam e
praguejariam contaminando o líquido. O corpo.
O
corpanzil dele é branco, branco desbotado na falta de sol; quebradiço manchado
malhado quase por ter trechos pequenos de pele escura (necrosada, não o preto
da cor a ser discriminada por discriminadores) entremeado tudo na pele por
pelos semirruivos um que outro branco do branco da velhice um pouquinho
antecipada pois já no seu tempo de 'gozar' a idade... E tem mais nesse quadro
horroroso ou nojento segundo os escrupulosos, esse é somado ao próprio comer...
Explico o que pretendi falar, visto ser difícil transpor duma linguagem de sapo
ao humano ser. É que Francisco se come. Isto choca? choca. No entanto o
homenzarrão aqui retratado se morde, quando nada tem que fazer, faz
morder-se... Uma de suas maduras filhas diz (a um curioso e a mim ali ouvindo)
diz ela que não é mero esfolão o sangramento que se nota no braço direito do
pai, mas que ele se morde vendo na mancha do tal braço um bocado de carne; não
raciocina mais que essa carne é seu músculo! Porque o Francisco é praticamente
cego, tem seus olhões estatelados, sem ver, são duas postas arreganhadas tal
qual beiços nos lábios então nos globos oculares... Sim isso impressiona qualquer
um analisando o pobre sentado na cadeira de rodas, é agora um cadeirante inerme
ingênuo inocente. É isso. Um cadeirante sentado no refeitório e aí dorme; terá uma enfermidade mui na
moda hoje em dia, Alzeimer ou outra pois minha formação não permite que discorra
além, sim pode ser outra também e bicho de sete cabeças para mim. Com certeza é
meio cego, por vezes toma desenhos da toalha na mesa como alimento ali servido
e então 'pega' a coisa põe na boca e tenta mastigá-la; a filha informante me informa ser de família a
semicegueira, vários aparentados assim. Aliás (e eu facilmente ganharia mais
não dando esse informe:) ela e a outra das filhas frequentadoras do abrigo em
que nos achamos parecem-me um tanto machonas diante dos seus respectivos maridos...
Os pobrezinhos executam as 'ordens' quase sub-repticiamente dadas... enquanto
que as esposas conversam com o sogro deles, agora na área fora do refeitório e
do salão de estar (mal-estar embirro meter-me). Por isso falam alto e explicam
ambas ao enxerido de plantão ali num mostrar interesse pelo drama do genitor
delas. Contam, dão o serviço, a usar aqui linguagem coloquial; dão sim o
serviço, pois matracantes tanto quanto emudecido hoje o pai. Mostram as
marcas...
Não. Não são as
marcas citadas aqui, aqui agora sinais e cicatrizes que ficaram do tempo num
tempo que o Francisco viveu com outros mortais. De origem paranaense – estamos
na Grande São Paulo – ele migrou e tem passado eslavo, polonês, porém sendo já
filho de imigrantes do começo do século XX; daí a brancura de pele e a
coloração ruiva dos cabelos, ele pouco calvo; naturalmente desclassificadas as
cores pela idade. Não obstante é de um volume colossal; pesado a tanto que é
necessário duas servidoras a pô-lo numa cadeira de rodas para levá-lo à mesa no
refeitório. Durante outras horas se espicha numa espécie de poltrona ajeitada
para ele, onde fica com os demais a assistir as horríveis novelas ou a bandalheira
que são as emissoras de rádio FM; isto me leva não lamentar sua surdez... eu
mesmo sou obrigado a ouvir tudo isso em alto e desvirtuado som. Com esse
corpanzil o homem executou mil serviços ao seu estado primeiro e depois a esta
região para a qual migrou com a família. Foi bom o resultado desse enorme
serviço de patriota, sim demonstra certo apego às nossas coisas, às da pátria.
Quem sabe um mérito. Entretanto o quanto fez o quanto exerceu – será posto nas
partes III e IV deste relato.
III – O
Invisível
1º - Por que
motivo só o homem, ser complexo e tão esdrúxulo, por que somente ele deve e pode
ser invisível! A tevê o cinema a literatura mostram muitas vezes o homem que
desaparece diante da multidão dos homens, seja tornando-se de fato transparente
qual água e ar, seja se escondendo do mal perpetrado, seja até para não virar
culpado na política sujar eleitores e então esconde milhares na cueca na mala
no apartamento onde quando muito deixa impressão digital... Por que não o
sapo!? Vou demonstrar daqui por diante essa possibilidade me intrometendo a
estudar o intrínseco o interior o dentro o profundo (aqui revelado pelo
periférico do que um estudo possa elaborar) enfim o que não se vê quando se
olha alguém, neste caso o Francisco, seja na forma anterior de um Chiquinho
seja na forma dum Chico aos amigos seja na forma do estar convivendo com demais
loucos (estou abusando como fora um sapo divino ou extraterrestre a penetrar
qual alma na alma dele, apesar do barulho que seus colegas na casa de repouso
fazem ao seu entorno).
Invisível,
eu me imiscuo no entusiasmo do contar duma filha, das maduras e belas senhoras
parentas a narrar como fora seu pai nos tempos idos. Este homem, diz a mulher
cheiinha e cheirosa que temos nas horas de folga de carinhar o Francisco por
conta de sua visita, "este homem foi mui mulherengo..." e afirma
haver se casado duas vezes, dizia já após o enterro da segunda pensar numa
terceira, isso fora as aventuras sabidas. Olho o contraste do traste ali ao
nosso lado e me rio pois vejo um pedaço de gente velha e ademais dependente.
Claro, não digo não diria à filha a narrar espontaneamente as estórias em que
se metera Francisco.
2º - Como sapo
de fora, dentro entro encontro o refeitório quase às moscas. Quase acerto.
Acerto pouco porque os colegas dele andam meio constrangidos com o inusitado;
não é bem inusitado, é algo mais que previsto onde uma área a concentrar
idosos, alguns em fim de carreira no planeta e é o caso do Francisco. Várias
vezes ocorrera assim, assim de o paciente ser levado às pressas ao
pronto-socorro ou até 'melhor' num pior vindo a falecer. A turma aguardando o
café da manhã já atrasado e daí se dá a coisa: o homenzarrão sentado na sua
cadeira, sem seu entusiasmo de bater o
talher fortemente na mesa a exigir como hábito o alimento; aqui lembrar que não
lembra, ou melhor não escuta pra ter paciência e esperar sua vez, escuta mal o
remexer dos pratos dos companheiros pertinho, não sabe que ainda não é sua hora
e então bate na mesa por vezes grita "quero comer" e não ouve a
resposta da funcionária servindo outrem... Sim, aí se dando o problema: ele não
acorda a tomar remédio e o líquido a engolir o comprimido, piormente não
acorda!!! Não. Não veio a óbito, vive mas quase sobrevive visto não conseguir
despertar como fá-lo toda manhã ali frente a mesona. Vem uma servidora, chama a
outra auxiliar de enfermagem, correm, deixam os demais pacientes ou na agonia
de não entender o drama ou somente como no maior dos casos sem sequer saber as
dores alheias, voltados às suas próprias. Muitos, a maioria, como que dopados
distraídos apenas sentem não terem sido servidos. Ah é urgente a questão e
assim as funcionárias retiram rápido a cadeira e em cima dela ele semidesmaiado
semimorto... Levam-no, ou o escondem dos olhares mais curiosos, encantonam-no
num aposento enquanto fazem de tudo a acordá-lo a reagir ao menos. Torna ao
refeitório uma a atender a fome dos outros pacientes, alguns já impacientes num
trocadilho banal aqui. Serve, se mostra tranquila, apenas a ter uma
tranquilidade que a profissão lhe fornece. Faz o que pode enquanto a outra mais
traquejada consegue despertar no mais ou menos o Francisco – numa e duma como
crise de quase morte! E o mundo que já girava sem pensar nesse problema aqui
adstrito, continuou. Dentro da casa de repouso, o repouso tornou a sobrar aos
velhinhos, a falar como sempre suas coisas e a ouvir os desaforos da FM ali
ferozmente ligada eles não ligados assim mesmo ouvindo; o que se supõe a
normalidade da existência. Eu não concordo, mas sapo de fora, fico fora em dar
uma opinião, mesmo frouxa e do tipo 'borracha' ou 'abobrinha'...
3º - Olho aquele
povo, nesga do povo na sua feição idosa, agora se mastiga a refeição rápida, o
quanto a lerdeza dos hóspedes permite.
Primeiro puseram uns canecos de plástico com algum suco de qualquer,
açucarado (uns irão gritar "falta açúcar" outros dirão "tem
demais açúcar" e as servidoras responderão o que lhes vier na veneta) o
Francisco não reclama disso só grita na falta do que realmente não enxerga ou
pela demora na boia. Posto o caneco, vêm a seguir um copinho plástico com
comprimidos e um prato com pão e manteiga, realmente margarina mais barata à
direção do estabelecimento. Daí dá-se o algumas vezes ocorrido já: o Francisco
passa a mão no suco doutro paciente e inclusive no remédio... Chega a cuidadora
e reclama do feito malfeito, inocentemente feito por um semicego... tudo foi ao
bucho do velho. Resta então beber seu próprio líquido seu próprio medicamento e
o Francisco fá-lo sem lamentar sem se importar sem se perturbar com o que
fizera.
4º
- Passo, invisível, pelo salão da tevê e∕ou rádio xingar o público
desconsolado de velhos surdos e meio cegos ver-ouvir; passo como não existisse,
os invisíveis não existem garantem os que garantirem. Noto o Francisco, ele
como sempre a escorrer seu narigão, assopra se limpa como pode, fala alguma
coisa sem nexo e, num descuido da sorte ou do azar deixa cair da 'bocona'
estufada a dentadura de cima, tem ele a de baixo, desse tipo que dói muito mais
quando ferida, mais que a de cima bem mais encaixável suponho (suponho: alguém
já viu sapo com dentadura!) Ela rola ao chão, sai cai vai por baixo dum sofá
perto, onde um dos hóspedes relaxado; antes passa a gosma dela mesma ao mesmo
paciente relaxado. Demoraria para uma serviçal descobrir a fujona; o
proprietário sequer descobriria a falcatrua.
5º - Vejo, não me vê o Francisco nem seus colegas me percebendo sequer.
Não tem importância. Eles no salão curiosamente tido por salão de festas, e que
festa a dor dos pacientes de corpo e alma! Os nomes não mudam as coisas. O
Francisco que mais detidamente estudo anda indócil; curioso usar aqui 'anda'
ele não anda não andará mais... Não, não é que uma vez flagro uma das filhas
visitantes a ajudá-lo com um andador, desses comuns a auxiliar o doente e usado
para fisioterapia. Então, não andou como um soldado em exercício na caserna
porém andou com firmeza. No entanto fica dia todo privado numa cadeira. Agora
vejo o homem indócil por estar todinho molhado. Até que as servidoras detectam
a razão do seu nervosismo (ele não mais sabe reclamar, reclama de outras coisas
até inexistentes existentes apenas em sua mente). Daí em diante trocam suas
fraldas, limpam-no, lavam-no, vestem-no; e ele não se vê belo limpo cheiroso
porém demonstra estar alegre após. Igual ou semelhante aos demais albergados.
6º - Francisco encontra-se agora no refeitório, não me lembra qual dia,
como comum todos dias de manhã, tomamos nossa refeição. Quer dizer, olho não
comeria o que a gente ingere... Por isso falei "tomamos nossa
refeição". Ele não é nunca fora conforme as filhas desrespeitoso, antes
que isso um excelente chefe de família e amado pelos seus; completam elas que
mesmo com a mãe delas não brigava e avesso à violência. Agora não mudou nem a
postura, contudo não se segura, melhor nesse pior ele não sabe nem o que faz e
não pretende fazer o que faz para ferir outrem. No entanto estamos na mesa,
claro nas cadeiras, e o velhote despenca
a soltar ao lado dos colegas uns puns... uns ventos ruidosos velhacos malcheirosos;
e lamentavelmente às cuidadoras sólidos e molhados... Os companheiros
possivelmente mais sensíveis reclamam, não querem ficar a seu lado, alguns
falam alto contra (ele não ouvem nem nessa altura). As servidoras são obrigadas
a levá-lo ao serviço de limpeza. Todavia o Francisco não se envergonha – como
antigamente a pegar no pé nas faltas dos filhos – não se mostra envergonhado
nem percebe ser consigo a coisa. Não há escândalo a um idoso nessas condições.
IV - A Mente
1º - Este
Francisco que se encontra aqui dentro e é o ser pensante, assim como outros
franciscos decerto com dramas e desejos planos e fracassos equivalentes ou
ainda melhores ou piores por mais avantajados (e o que é que se pode saber dos
outros!?) este e os outros quem sabe correu correram mundo, desde o Paraná,
levando seus projetos de vida, amando, ou só tentando namoro e conquista – por
fim tendo se fixado, no caso de nosso Francisco, na Grande São Paulo e acabando
a acabar aqui numa casa de repouso; local para o qual as famílias não podendo
com os próprios dramas não querem ou não podem casar aqueles com estes, ou seja
drama de cuidar dum velhote com seus melindres e fraquezas, quiçá a arcar com
custos elevados que a sociedade cobra e exige. É bem assim. Assim a família
franciscana deixou seu patriarca no abrigo. Contudo o Francisco, sua mente se
se quiser, não deixa suas impressões e as vive vivendo revivendo sem o
conhecimento do lado de fora do mundo, sua cabeça é o mundo entre
fora-e-dentro. Isto válido a todas pessoas, tíbias fracas pequenas e até
insignificantes ou as fortes grandes e que se podem exibir. Chover no molhado.
Um dos dramas a visitar constante essa mente quase demente é o caso duma
irmãzinha dele. As lembranças estão a fustigá-lo como ocorrendo hoje agora
neste instante. A memória entretanto só brota de vez em quando – a família
conhece profundamente isso e a uma recordação fortuita me conta (por que é que
um sapo não possa ouvir!) narra na figura da filha mais velha, aqui em visita
ao pai. Uma irmã falecida lhe aparece, nisto como imagem nítida e quase
tateável, o que contraria o pensar da maioria católica do seu meio; insiste:
aparece aos dezessete anos, bela jovem amorosa ao irmão, o Francisco, ela ainda
no Paraná ele aqui na Grande São Paulo. Ora, diz a narradora, nem os familiares
sabendo disso, desconhecendo os primeiros conviventes fraternos, inclusive não
sabendo as tias mais novas em idade, as velhas sim no entanto é aquele negócio
de virar tabu: não se fala! Bem, depois uma entre velhas conta da irmã de dois anos que tivera a cabeça amassada
no monjolo ao lado do menino Francisco... e a fuga das emoções fortes, o temor
em relembrar a dor e por isso nascendo o tabu na casa, a mãe foi à loucura pela
tragédia. Nunca mais se falou. Todavia a menina de então dois aninhos,
sacrificada num descuido pela mão do monjolo, esmigalhado a cabeça o miolo –
isso ainda a pôr a mente do já maduro chefe da casa num sofrer. E ela, não elinha,
a jovem de dezessete anos quinze passados reaparece ao mano, graciosa feliz
real na mente sã no corpo são do trabalhador a iniciar sua vida e a de sua
familinha aqui na terra dos paulistas. Ele se furta, não quer sequer referir-se
à memória; só o acaso fez essa rememorização através de velhas tias a contar à
parenta agora filha dele em lágrimas essa tragédia.
2º - Novo velho
caso perturba o pobre idoso Francisco, a dizer quando diz asneiras ou não mas
fatos que a gente que o vê desconhece. A segunda filha visitante une as frases
ditas pelo corpo nada são dele e me esclarece algo que o fustiga (a gente, no
caso eu sapo, a gente sente o quanto anda a sofrer por causa do acontecido; ela
desembrama mais ou menos assim:) num caso ele diz ter matado uma japonesa ruim que
tomava seu salário na roça e o de outros colegas na enxada... Várias vezes pôs
a questão meio nublada aos familiares e agora relembra, porém a filha o
convence, a tentar descarregá-lo por causa do peso na consciência de cristão,
ele crê possa perder a alma pelo suposto
assassinato duma sua patroa roceira nipônica... Nossa visita incute no pai que a tal anda viva
só ferida pelos tiros de espingarda que trabalhador despejara contra ela, daí seu
alívio. Olha feliz nessa conclusão o homem. A mentira pode ser uma grande
verdade, criada por caridade filial, suponho.
3º - De repente, tudo ocorre inesperado no velho a
todos olharem, todos curiosos bem entendido pois a maioria sequer se espanta quando
Francisco grita; outrem mastiga sua comida sem nem ligar e alguns notam... ele:
"os ovos! oi o Teiiú!" Teiiú o apelidinho dele menino fazedor de
artes... então rouba da galinha os ovos, um dia era choco e aquele fedor o
assustou uns dias; mamãe não podendo com o filho. Agora hoje um idoso vem-lhe à cabeça o
que parece disparate mas não: é o garoto a se apossar do ninho, a choca
disparando a gritar, a mãe vai ver o ladrão, o ladrão é o ladrãozinho, sai na
correria pela descoberta materna; depois apanha na bunda assim mesmo, quer
dizer reconhecera o erro o errado e assim mesmo leva umas... De maneira que
numa rapidez colossal, Chiquinho (Teiiú lagarto ladrão de ovos) esse, passa a
bola para Chico e o homem adulto passa ao velho Francisco ali a gritar os ovos...)
É isso que lhe volta à memória. Todavia ninguém presente do passado a saber, os
velhos seus colegas olham e quando muito riem, não entendem.
4º - Essa mesma
filha em visita (o sapo bedelha a perguntar: e os filhos-homens, não aparecem
ver o genitor! a irmã deles desconversa ou faz que não escuta, decerto não
ouvindo o inconveniente) sim a mesma senhora nos passa algo precioso daquela cabeça
grisalha, não grisalha sim branca de fato, algo que nem as frases soltas que
solta esclarecem; se a gente desonhece uma coisa, sentenças rápidas ditas pela
boca murcha do homem, não aclaram nada. Bem, murcha porque as servidoras ainda
não repuseram nela a dentadura postiça dele, a filha diz "ponte" o
que pra mim dá no mesmo. Sim, algo meio confuso como alguém teria matado um cavalo dele e
cortado de foice o rabo em três cotos... Reclama da injustiça e pela violência
do ladrão, logo aquele animal que prezava tanto... Francisco já nos dissera
antes vezes muitas sobre a questão; no entanto o público desconhecendo o fato.
A filha confirma o episódio, o que lhe fez anos sofrer a injustiça. Agora
retorna e conta pra alguém, alguém que nunca sabemos sequer se existe se
existiu. Traços da mente assoberbada.
V – Final
Como expostas as
linhas, deduzimos um homem velho e velho em fim de carreira humana, dependente
e quase uma coisa. Decerto isto por incapacidade literária. No entanto o
Francisco, mesmo no estado em que se encontra, digamos semelhando decomposição
– no entanto é gente; e gente sensível. Isto digo por presenciar (sequer me
perceberam visitantes e quem daria importância a um sapo; talvez houvesse junto
à visita um cachorro, então eu fugiria espavorido ou...) sim por presenciar uma
cena da visita de familiares, havendo uma visitinha que era uma gracinha de
bebê, bisneta do Francisco. Então lhe apresentaram a beleza e ele desandou em lágrimas
a falar alto como alto falando seu coração de bisavô! Foi exaltação tocante.
Contudo não devia
meter-me, não me intrometi de fato, sumi no mundo. Ora, sapo de fora... estando
a bem da verdade apenas mentindo esta novela.
Itapecerica da Serra outubro
2017
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