Certa Declaração de
Amor
1. - Apareceu por acaso, como o acaso. Não
obstante não foi acaso, visto ela andar e mais andar tempo no bairro; a serviço,
veja bem, puramente a trabalho no trabalho incessante e secular, supõe-se, da
saúde pública à saúde comprometida do povo, agora espalhado no planeta e a
contar perto de sete bilhões de almas; no bairro uma fraçãozinha respeitável de
enfermos ou que eles – os funcionários da saúde – andando mais a prevenir
doenças e a espalhar ditos de gastas campanhas no combate; como o caso da
dengue e da novíssima e convincente gripe. Andava e mais andava, ou sozinha ou
em magotes de visitadores para alertar a população. Enfim a rotina de nossos
conturbados dias.
A ele uma rotina.
Sim
porque ele existia igualmente na população contável na incontável pobreza sem
miséria, sem miséria sim; e sem que se pense na possibilidade haver miséria em
toda periferia e sobretudo na periferia mais pobre ainda e que a mesma não
precisasse tais sofrimentos sociais e a atenção do serviço sanitário. Existia
na sua periferia como os outros habitantes.
Ela quem não sabia. Ou já então sabendo...
Ele com certeza. Por vê-la passar amiúde; ou que
agora terá se assustado com presença tão cativante, bela qual flor notada após
e não antes, perdida num jardim rico nessa pobreza; ou melhor imagem: a imagem
da floresta florida. (Lembrando aqui que aos poetas tudo pode, mesmo a licença.)
De maneira que aquela flor – vermelha
berrante? roxa marcante? de laivos ora ferintes ora despenetrantes... ah como
descrever e mais ainda pintar a flor! Com exclamações e reticências decerto;
não sabia. Não sabia então, então nunca saberia. Assim aquela flor feito mulher
surgiu para si, em meio curiosamente aos horrores assinalados e alardeados pela
televisão e o boca a boca no bairro – para sua alegria, sua inteira alegria.
Aqui surge o elemento curioso e chocante do conflito dor e alegria.
Contudo
bateu palmas.
2. - A gente de longe e mesmo perdido num cômodo
escuro distante escondido que seja – já distingue bem e bem sabe o bem e o mal.
Se forem palminhas leves e finas como a voz da criança, é portanto um menino a
pedir bola, a bola que feriu a flor de nosso jardim a lutar ele contra a seca e
o abandono que os percalços do proprietário presumível da casa enfrenta; e daí
é sim o brinquedo ferindo a erva e o doninho a querê-lo de volta. Se as palmas
forem machonas, não chochas mas violentas até, fortes, intrometentes – podemos
contar com homem desses machões pra valer, piormente desejando vender algo,
algo de que não precisamos nunca e sempre nos livrando da ofensa comprando
pagando levando para dentro guardando e quiçá planejando pra quem ofertar a
desserventia e ainda a fazer pose de ‘bonzinho’. Se leve e fina, dessas com temor
ferir o mundo – ou é um ser inofensivo, debalde velho fraco inexpressivo; ou
sendo de uma fêmea da espécie em extinção ou somente a espécie teimosa a
existir; então a mulher bate palmas, preme em cópula de bafo ambas conchas das
mãos e produz um plá-plá educado quase sempre. Em vista disto sabia ser ela.
Sabia ser ela, não sabia ser ela...
O senhor... Ouviu nitidamente sua voz macia, dessas
umas que por veludosas adentram o dentro do ser, circulam antes pelas feiuras
das orelhas, após penetram o conduto auditivo, entram somem no cérebro não
somem jamais... Ainda hoje a ouvi-la.
Abriu o portão, não senhora, senhorita corrigiu a
tempo, não tem cachorro o único cão sou eu aqui e não mordo – era louco a
despejar graçolas, as quais longe em ser uma gracinha. Tem gente que nem a
melhor anedota serve a contar, vira pior. Assim mesmo sorriu, educada decerto.
Entrou.
Trajava... ah, como descrever as vestes, se hoje todo
mundo – belos e feras – usa o mesmo! Mas vestia-se decentemente, vendo-se
balançar o crachá indicativo do órgão oficial. Enfim um ser comum, incomum por
belo; com e sem roupa. Nisto se pejou o homem pois nem no pensamento desejando
ofender, sobretudo uma jovem que poderia bem enfeitar aquele jardim anos
abandonado; não fosse o abandono somente a poder melhor apreciar uma que outra
das flores porventura existentes, vermelha marcante ou roxa com laivos amenos.
Assim a flor fez o serviço, sua atividade.
Olhou o quintal, examinou entrâncias e saliências,
cuidou possíveis viveiros de larvas, recantos escondidos. Em suma os cuidados
de sua função. Falou anotou, gastou papéis na prancheta com seus hieróglifos (a
gente tem a tendência em ver garranchos por fazê-los com frequência ou sem
saber deles se livrar; assim vemos os que vemos, nós a gente). Todavia percebendo
apenas de relance a letra ser bela da bela e belamente caprichada; ou é que
quem faz faz o seu habitual sequer tendo condição talvez em apreciar o que faz
e o que se faz – e seria o caso dela?
Enquanto a bela da espécie anotava para que a
extinção observasse, observando mesmo não fosse assim; enquanto examinava, quem
sabe concupiscentemente avaliando, percebia o conjunto da moça. Seus trejeitos
naturais, sua cabeça de fada, seus cabelos castanhos claros aparados com gosto
e sem ferir o exagero; sua simplicidade na aparência, sequer a jovem a usar cosméticos
(isto um julgamento macho pra valer quando valia) até ao ponto em que inclusive
o batom não visitara aquela boca de beijá-lo... aí nesse caminhar do pensamento
se assustou, pela imprudência ou impudência absurda no absurdo daquela primeira
entrevista, cheia das novidades dos sustos e dos espantos, imprevistos de um
modo geral. Porém a abordagem se findou.
Até logo, senhor. E se lembre das recomendações.
Fez ainda mais algumas recomendações, ele nem ouvindo vendo sentindo.
Ficou
o perfume. Agora, então, interpretava mesmo o cheiro, uma fragrância nada leve.
A si um pouco machucante, abusivo, porque embora não pudesse afirmar fosse um
perfume dessas ofensas da perfumaria na atualidade, havia nele um ingrediente a
feri-lo, visto ser sensível ao enxofre em demasia, que seu olfato bem grosseiro
detestava. Isso e nem isso sujando aquela imagem, pois uma porcentagenzinha
inexpressiva no todo belo. Mais tarde, aí por anos depois, viria a jovem no seu
serviço sem quaisquer aderentes exalantes; e ainda assim ou por esse motivo
mais atrativa... Agora, naquela despedida, ficara uma leve impressão dentro de
sua mente, a mente que lia cores aparências cheiros e tudo o mais.
E se foram as palmas positivas, aquelas que então a
jovem ofertara a ele e ofertava após noutros portões; decerto outras doutras
funcionárias igualmente a avisar o trabalho sanitário. Ora, que importando
outras palmas e outras funcionárias se tão somente ainda ouvindo as dela a
enriquecer certamente os vizinhos.
3. - Aquelas
palminhas educadas da linda mulher se foram, se foram mais e mais longe daquele
perto no coração. Sem exagerar, mas sem exagero mesmo, mesmo estando ela distante,
presente naquele coração vivo ou só frágil só sentimental só amor. Isso, amor
inexplicável de um homem se supondo homem, por uma mulher, ao qual inclusive os
cacófatos e demais vícios de linguagem perdoam ou apenas compreendem. Enfim o
macho em extinção da espécie a ficar desde aí amolentado tomado vibrando aquela
ausente presença; decerto presença agora junto a outros vizinhos e entre
vizinhos os machos com ou sem espécie – nesse ponto sentiu pela primeira vez a
fisgada na pontada pontiaguda ferinte a feri-lo que é a lança do ciúme... Porém
isso já abuso na interpretação. Permaneceu como que abobalhado, tal qual estivesse
ainda, agora longe, perto de si aquela enormidade de fêmea da espécie, nada em
extinção... Tanto assim não saber desde aquela despedida da visitadora
sanitária o que fazer de sua pobre vida, a vida dele. Parecia um todo faltando
a parte; justamente a melhor das partes.
Contudo
o dia se foi, fez suas coisas qual máquina que exerce seu papel premindo alguém
um botão à geringonça se desengonçar em barulho de polias dentes rolimãs e
incompreensões mais de fora de dentro. Assim ficou-lhe como ideia fixa, fixa na
presença-ausência da jovem: debalde ouvia longe os dentilhados da máquina mesmo
vivendo na rotina, ligada desligado.
Contudo o dia se foi e voltou.
Tornou
a funcionária – agora não sendo mera e formalisticamente uma servidora mas a
melhor mulher, mulher melhor e que no pior do mundo dos sonhos era sua
exclusiva mulher, uma fêmea nada em extinção ou que fosse ela a existir para
que a espécie, a dele, andasse em extinção.
Tornou garbosa bela a bela, prenhe de todo atrativo
para que houvessem todas faltas sem quaisquer sobras. Bateu palmas sim, a
serviço veja-se bem. E o mequetrefe manejado pelas farpas do amor veio correndo
abrir o portão. Apareceu tão desgraciosamente desajeitadamente apressadamente
que não conseguia enfiar sequer a chave errada no buraco certo do cadeado (que
burrice! se xingou autocriticando: ‘cadeadear’ um homem... quem roubaria um
macho da pior espécie, mesmo sem extinção; ora...) Ela? sorriu o atrapalhamento
do sujeito, não afirmou assim, assim apenas interpretando, a dizer qualquer
coisa, uma bobagem que o ser humano inventa, criativo, na hora a fim de
diminuir o constranger de outrem. Comentou a flor.
A flor rubra na presença a indagar sobre a outra no
jardim abandonado da residência não abandonada, longe disso estando ali o coração
macho pra valer faminto de amor. Aí o morador tendo já certeza nas certezas que
nunca humanos temos.
Entrou, perfez o que mandando a rotina do trabalho
e da responsabilidade, vistorias comentários.
Entretanto o proprietário – proprietário de quê;
onde e o que vem a ser uma propriedade? – enquanto ela a comentar os tratos da
função, ele a medi-la...
Olhou aquele raro exemplar feminino, um pouco cheiroso
é verdade mas lindo para se ver; examinou e então experimentando a pixotada em
supor nela sapatos de saltos altos altíssimos de hoje na mulheres do mundo; no entanto
parou no sonho viu o real: ela trajava o comum de todas senão de todos e como
todos, quase, calçada realmente com tênis. Isto levando a realidade pra baixo;
ele ainda mais baixo ou seria que fosse a mulher de estatura com muita vantagem
em sua desvantagem habitual de homem pequeno; não baixinho barrigudinho e
demais indecências que via como indecências. Enfim observou melhor aquele
tamanhão de fêmea da espécie...
O porte daquela jovem impressionava. Diria melhor,
dissesse, que seu tamanho levava ao despropósito em ser ela de maior quantidade
em atributos – porque superlativava ele em seu íntimo ser essa mulher a maior e
mais volumosa entre todas em beleza. Ora, a quanto ridículo nos expomos quando
nos expomos, se, pois como avaliar quatitativamente a qualidade. Não pensou
sentiu.
Adeus, disse infeliz nessa expressão a funcionária,
tem vez que proferimos as maiores besteiras ou que seja um inocente indevido
para mais tarde nos autocriticar e nos envergonhar. Será que se envergonharia,
nunca soube o homem; ela mais para diante, não íntima mas mais bem relacionada
ao sujeito, diria ao se despedir apenas ‘tchau’, o tchau que importamos às
avessas dos italianos pois falam tchau ao chegar. No entanto no seu estado de
espírito em frangalhos o adeus daquela moça pareceu-lhe a perdição irremediável
dum tesouro.
Com isso lá foram horas, sempre intermináveis
nessas condições, horas a sofrer a ausência da presença dela, um dia de
ausência dias sem presença piormente pra si.
Todavia
tornou...
4. - Batamos palmas à rotina. Ela enche – e às
vezes embriaga – enche as horas desocupadas do ser humano. Agora tinha o que
fazer o morador: que fosse aguardar que ela voltasse e, enquanto, a pensar
nela. Então chegou ao abuso em desejar vitimar-se no ideal duma catástrofe da
existência de muitos focos em criadouros de insetos transmissores da morte para
a vida com a vinda da moça a cuidar de si... Se fosse louco, não era na sua
abalizada opinião, se fosse construiria minidiques com água podre poluída a
poluir apodrecer melhor e a atrair proliferação atraindo portanto aquela pura
presença (agora a bonita funcionária estaria virando santa antes de morrer, enquanto
o homem comum apenas se torna puro morto). A rotina não permitiu a loucura,
seja no plano completo da loucura seja a loucura na loucura consumada – graças
aos dramas pequenos e grandes que a rotina tem em seu bojo: impostos
indisposições impostações indiscriminações a diminuir nunca matando uma ideia
fixa, das bem suculentas. Assim todas horas de todos dias de todas semanas
pensava moça.
Chegou a rir-se de si mesmo por correr feito
cachorrinho lambeta atrelado ao cheiro da mulher chegante, vendo também outras
mulheres então feias para que ela ficasse ainda mais bonita; a correr ver
perceber se ela a passar na rua e quem sabe num descuido da sorte vir vê-lo
vendo seu quintal infestado. Porém, alarme falso quase sempre. Voltava para
dentro a desbastar outras vertentes da rotina. Não era a se rir!
No entanto de fato retornou a jovem. Fosse por
mando da ordem de serviço; e o fizera em conluio com outras funcionárias, num
matracar constante e muitas risadas, o que próprio dos jovens cheios de vida.
Em meio, ela a se destacar.
Um dia portanto voltou mas acompanhada por outra colega
e também um rapaz, decerto igualmente uniformizado e com crachá. Melhor pôde
observá-la, ‘comer’ sua beleza, beleza dos traços incomuns. Seriam mesmo raros!
não sabia, sabia ter olhos para a jovem. Despediram-se formalmente, o que uma
ofensa enorme ao amor.
Ele sentia e conscientizava o amor. Um amor puro
santo imaculado, teórico bastante? Não poderia responder, ou responder a um
monólogo tão exigente.
Um dia – esta uma expressão tão boba quanto imprecisa
– enfim certa vez concluiu amá-la. Oh como amar um ser desconhecido. Pilhou-se
desconhecê-la, porque até neste ponto os meandros do ideal a mando do coração,
um órgão nada em extinção. Quem seria ela.
Aguardou semanas quase mês e já se desesperava em
sua fragilidade, já formulando plano em andar ao deus-dará para fragrá-la no
seu trabalho no bairro. Sairia por aí, como sempre sem intenção, antes à busca
do imprevisto e da surpresa e assim quem sabe colher, então encontrada, uma
esmola de olhar. “Oh o senhor por aqui!” trocaria por ‘você’ mais próximo ou
melhormente um meu amor ou na extrema felicidade meu grande amor. Todavia não
executou o plano, se plano. Aguardou pacientemente a visita condizente.
Um
dia ela chegou. Felizmente sozinha. Entrou. Já dispondo da intimidade, ou isto
seria abusivo, pelo menos amizade melhor afirmar e mais encaixável na relação
de ambos. Entrou abrindo o portão, agora o morador escondera o cadeado a
facilitar sua própria saída e a entrada possível dela. Também a dos meninos a
fim de pegar a bola que atinge sempre uma das rubras flores; sobretudo a
facilitar a amizade da jovem entrando quase sem bater...
Ah grande conquista nessa conquista de amor.
5. - Quase que
petulantemente vistoriou a moça, a qual vistoriava seu quintal.
Era um colosso de mulher, fora nisto seu volume corporal
e o belo que todas fêmeas da espécie trazem ao mundo, o belo que nela
extravasava. Enquanto a examinar meticulosamente os errados na propriedade a
funcionária, examinava tão ou mais meticulosamente ele seus traços feminis. Naturalmente
exagerando um pouco, o que é próprio dos corações enamorados. No entanto
destacou o bem da face, o esvoaçar dos cabelos aos laivos de sol, os apetrechos
naturais que a natureza nunca se esquece de acrescentar enfeitando a mulher e
mais nessa, talvez por descuido dessa mesma mãe-natureza. Pernas ventre seios;
e trejeitos, isto da condição de cada personalidade, só apreendido pelos
namorados. Fixou-se nas mãos dela, aqueles dedos de tomar a esferográfica azul
para alimentar a prancheta e também mexer peculiarmente gostoso. Opinião
daqueles olhos famintos. E foi por aí nessa análise, mui pouco profunda e nem
um pouco satisfatória, visto que toda vez que se indo embora a mulher o homem a
lembrar não saber direito como era de fato isto ou aquilo – sempre bom sempre
agradável sempre insatisfatório, satisfazendo-se com o todo dela.
Depois,
longe da sua presença, já o frio de sua falta o calor do bem que ela deixara,
se perguntava se tendo adereços e enfeites, sobretudo nos dedos; se vaidosa
mas... via ou revia no pensamento ela demais simples para portar anéis. Ou
teria. Uma boa lembrança; que tal examinar essa particularidade na próxima
visita da bela.
6. - Dessa maneira,
esquecendo quase as exigências da rotina nas outras facetas da rotina, assim
observou melhor nas visitas sanitárias posteriores, as que se seguiram ao longo
de anos, em suma observou a mulher; além do mais sem conseguir dela uma amizade
autêntica, não fosse ele demais tímido ou sem jeito para exigir mais que a
relação social ou as formalidades nos tratos da gente. Coisa que o coração
desconhecia. Notou em primeiro lugar os dedos nus, limpos como a pureza das
crianças; aliás a mão da jovem era de menina. Não obstante um dia sentiu em
razão disso um calafrio que sugeriu nocaute na lona da rotina. Ela trouxe na visita
o dedo aureolado com uma aliança. Felizmente, disse a tristeza alegre na descoberta,
felizmente na mão direita; sempre pode haver o descuido ou a alegria disse a
alegria, a alegria em se desfazer noivados... Não é comum o descontentamento
entre namorados e não existem inúmeros casos de noivos que rompem os compromissos!
Mesmo assim o homem criador involuntário de larvas apesar dos cuidados e
recomendações sanitárias, esse homem ficou enciumado e vendo com maus olhos o
outro homem, um rival com certeza, essa a dúvida.
Ficou pensando no dedo toda uma semana um mês mais
de mês menos de ano. Entrou visita saiu a bela; o dedo. O anel.
Em sonho, dormindo ou acordado, acordado que seja
pelas exigências da rotina que assola o homem comum, em sonho desfeiteou após
brigou lutou superou matou! desfeiteou o rival. Atraiu assim a vítima,
belíssima vítima se diga a ser correto, atraiu-a para si, ela sempre indecisa
se com um com outro, quem sabe se não ambos encantados ambos príncipes e a
afugentar um triângulo doutro pretendente ainda – todos a virar trapos frente
ao morador amante para tão bela visitadora. Entretanto o sonho tem uma
característica chata: a última parte dele é o acordar.
Vem veio o sol os gritos da rua o rolar das
conduções e outras ameaças concretizadas do ramerrão.
Até se descobrir tudo com umas palmas
conhecidíssimas. Leves femininas gostosas.
7. - Foram meses vendo
sofrendo perdendo perdido a fixar a aliança de noivado de sua amada; o qual a
unia ao rival, mais desconhecido ainda que sua conhecida funcionária extremada
em beleza e de fala mansa e respeitosa. Foram muitos.
Daí melhorou? respondeu em negativo. Aconteceu
ainda o pior a si: ela apareceu com o mesmo anel de ouro. Hoje em dia se
folheia tudo nas aparências e mesmo sem aliança os matrimônios se consumam; ou
não. Ela surgiu com a aliança na esquerda; e isso não foi simplesmente para
feri-lo ou para puni-lo haver aplicado violência contra seu noivo. Foi a cumprir
a lei no cartório, quiçá na igreja. E agora!
Aprendera, andava a aprender, que é preciso
respeito às mulheres casadas. Ora, o casamento inviabiliza a beleza? Decerto
que as visitas então passaram a ter um caráter sério, não fossem até nesse
ponto respeitáveis a um respeitador das normas. Entretanto sem aquele atrativo
de anos, sem intromissão dos sonhos, eles cuja base é a falta de base concreta.
Sem que viesse totalmente um desencanto.
A funcionária adentrava a propriedade com
desenvoltura própria dos amigos (ou conhecidos!) fazia suas perguntas,
examinava o domicílio, rabiscando sua prancheta e fazendo ligeiros comentários.
Para o enamorado agradecer, como respeitoso que era. Infelizmente pra si via os
traços belos da bela, o matrimônio não elimina a beleza quem sabe até dando
melhor acabamento e ressaltando mais ainda os traços.
Porém se sentia o homem mais pobre; meses depois,
depois de muitas visitas já não sendo tão roubado: o hábito não deixa também
ser remédio.
Agora se trabalhava o morador em ver nela a honestidade
e o critério de funcionária, a que ficava logo acima da mulher, esta que ficava
também acima da deusa nas circunstâncias de então. Passava a se distrair
observando a anatomia da moça, não mais moça. Aos poucos percebia o contorno do
ventre a mudar, a fazer desenhando um estufamento; e isso mostrava a mãe...
Um
dia veio outra funcionária em visita à sua dengue. Como é a vida, consegue
descolorir o que tingira com maestria! Respondeu com parcimônia à enquete da
senhora e doutras jovens no serviço sanitário. Não indagou mas soube do parto
de alto risco em lamento das colegas. Após vieram semanas de amargura e
expectativa naquele amante destronado.
8. - Agora examinava
aquele recinto simples pobre pesado com cheiro de flores e incenso e cheio de
pesar. No centro o ataúde sem luxo; a gente em volta triste a falar quase por mímica
e em som abafado; uns a chorar, outros no ver apenas sem opinar; os colegas da
bela recontavam a vida da morta, os parentes a lastimar a morte e a vida; os
religiosos oravam ou apenas ‘sonavam’ com palavras o sentimento. Os convidados
daquela festa fúnebre eram poucos e pouco exigentes. Um a consolar a mãe da
mãe, que chorava ao desespero; o viúvo não se crendo viúvo e muito menos rival
de ninguém. As flores, umas vermelhas outras com laivos roxos, enfeitavam a
outra ainda não despetalada, a qual apresentava a cera só conhecida pelos cadáveres.
Tinha a face bela porém os olhos fechados não viam as tristezas em torno. Suas
mãos cruzadas ao peito mostravam um anel de ouro, não importando mais se folheado
e capaz de matar antes da morte a vida dum amor desconhecido e/ou inútil. Mas
eis que os funcionários fecharam a funcionária, tão só aguardando a mostra do
desespero dos mais chegados; e então sim fechando de vez, lacraram levaram ao
séquito ao túmulo ao fim, se fim.
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