segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Certa Declaração de Amor


Certa Declaração de Amor


1. - Apareceu por acaso, como o acaso. Não obstante não foi acaso, visto ela andar e mais andar tempo no bairro; a serviço, veja bem, puramente a trabalho no trabalho incessante e secular, supõe-se, da saúde pública à saúde comprometida do povo, agora espalhado no planeta e a contar perto de sete bilhões de almas; no bairro uma fraçãozinha respeitável de enfermos ou que eles – os funcionários da saúde – andando mais a prevenir doenças e a espalhar ditos de gastas campanhas no combate; como o caso da dengue e da novíssima e convincente gripe. Andava e mais andava, ou sozinha ou em magotes de visitadores para alertar a população. Enfim a rotina de nossos conturbados dias.
A ele uma rotina.
Sim porque ele existia igualmente na população contável na incontável pobreza sem miséria, sem miséria sim; e sem que se pense na possibilidade haver miséria em toda periferia e sobretudo na periferia mais pobre ainda e que a mesma não precisasse tais sofrimentos sociais e a atenção do serviço sanitário. Existia na sua periferia como os outros habitantes.
Ela quem não sabia. Ou já então sabendo...
Ele com certeza. Por vê-la passar amiúde; ou que agora terá se assustado com presença tão cativante, bela qual flor notada após e não antes, perdida num jardim rico nessa pobreza; ou melhor imagem: a imagem da floresta florida. (Lembrando aqui que aos poetas tudo pode, mesmo a licença.)
          De maneira que aquela flor – vermelha berrante? roxa marcante? de laivos ora ferintes ora despenetrantes... ah como descrever e mais ainda pintar a flor! Com exclamações e reticências decerto; não sabia. Não sabia então, então nunca saberia. Assim aquela flor feito mulher surgiu para si, em meio curiosamente aos horrores assinalados e alardeados pela televisão e o boca a boca no bairro – para sua alegria, sua inteira alegria.
Aqui surge o elemento  curioso e chocante do conflito dor e alegria.
Contudo bateu palmas.

2. - A gente de longe e mesmo perdido num cômodo escuro distante escondido que seja – já distingue bem e bem sabe o bem e o mal. Se forem palminhas leves e finas como a voz da criança, é portanto um menino a pedir bola, a bola que feriu a flor de nosso jardim a lutar ele contra a seca e o abandono que os percalços do proprietário presumível da casa enfrenta; e daí é sim o brinquedo ferindo a erva e o doninho a querê-lo de volta. Se as palmas forem machonas, não chochas mas violentas até, fortes, intrometentes – podemos contar com homem desses machões pra valer, piormente desejando vender algo, algo de que não precisamos nunca e sempre nos livrando da ofensa comprando pagando levando para dentro guardando e quiçá planejando pra quem ofertar a desserventia e ainda a fazer pose de ‘bonzinho’. Se leve e fina, dessas com temor ferir o mundo – ou é um ser inofensivo, debalde velho fraco inexpressivo; ou sendo de uma fêmea da espécie em extinção ou somente a espécie teimosa a existir; então a mulher bate palmas, preme em cópula de bafo ambas conchas das mãos e produz um plá-plá educado quase sempre. Em vista disto sabia ser ela.
Sabia ser ela, não sabia ser ela...
O senhor... Ouviu nitidamente sua voz macia, dessas umas que por veludosas adentram o dentro do ser, circulam antes pelas feiuras das orelhas, após penetram o conduto auditivo, entram somem no cérebro não somem jamais... Ainda hoje a ouvi-la.
Abriu o portão, não senhora, senhorita corrigiu a tempo, não tem cachorro o único cão sou eu aqui e não mordo – era louco a despejar graçolas, as quais longe em ser uma gracinha. Tem gente que nem a melhor anedota serve a contar, vira pior. Assim mesmo sorriu, educada decerto. Entrou.
Trajava... ah, como descrever as vestes, se hoje todo mundo – belos e feras – usa o mesmo! Mas vestia-se decentemente, vendo-se balançar o crachá indicativo do órgão oficial. Enfim um ser comum, incomum por belo; com e sem roupa. Nisto se pejou o homem pois nem no pensamento desejando ofender, sobretudo uma jovem que poderia bem enfeitar aquele jardim anos abandonado; não fosse o abandono somente a poder melhor apreciar uma que outra das flores porventura existentes, vermelha marcante ou roxa com laivos amenos. Assim a flor fez o serviço, sua atividade.
Olhou o quintal, examinou entrâncias e saliências, cuidou possíveis viveiros de larvas, recantos escondidos. Em suma os cuidados de sua função. Falou anotou, gastou papéis na prancheta com seus hieróglifos (a gente tem a tendência em ver garranchos por fazê-los com frequência ou sem saber deles se livrar; assim vemos os que vemos, nós a gente). Todavia percebendo apenas de relance a letra ser bela da bela e belamente caprichada; ou é que quem faz faz o seu habitual sequer tendo condição talvez em apreciar o que faz e o que se faz – e seria o caso dela?
Enquanto a bela da espécie anotava para que a extinção observasse, observando mesmo não fosse assim; enquanto examinava, quem sabe concupiscentemente avaliando, percebia o conjunto da moça. Seus trejeitos naturais, sua cabeça de fada, seus cabelos castanhos claros aparados com gosto e sem ferir o exagero; sua simplicidade na aparência, sequer a jovem a usar cosméticos (isto um julgamento macho pra valer quando valia) até ao ponto em que inclusive o batom não visitara aquela boca de beijá-lo... aí nesse caminhar do pensamento se assustou, pela imprudência ou impudência absurda no absurdo daquela primeira entrevista, cheia das novidades dos sustos e dos espantos, imprevistos de um modo geral. Porém a abordagem se findou.
Até logo, senhor. E se lembre das recomendações. Fez ainda mais algumas recomendações, ele nem ouvindo vendo sentindo.
Ficou o perfume. Agora, então, interpretava mesmo o cheiro, uma fragrância nada leve. A si um pouco machucante, abusivo, porque embora não pudesse afirmar fosse um perfume dessas ofensas da perfumaria na atualidade, havia nele um ingrediente a feri-lo, visto ser sensível ao enxofre em demasia, que seu olfato bem grosseiro detestava. Isso e nem isso sujando aquela imagem, pois uma porcentagenzinha inexpressiva no todo belo. Mais tarde, aí por anos depois, viria a jovem no seu serviço sem quaisquer aderentes exalantes; e ainda assim ou por esse motivo mais atrativa... Agora, naquela despedida, ficara uma leve impressão dentro de sua mente, a mente que lia cores aparências cheiros e tudo o mais.
E se foram as palmas positivas, aquelas que então a jovem ofertara a ele e ofertava após noutros portões; decerto outras doutras funcionárias igualmente a avisar o trabalho sanitário. Ora, que importando outras palmas e outras funcionárias se tão somente ainda ouvindo as dela a enriquecer certamente os vizinhos.

3. - Aquelas palminhas educadas da linda mulher se foram, se foram mais e mais longe daquele perto no coração. Sem exagerar, mas sem exagero mesmo, mesmo estando ela distante, presente naquele coração vivo ou só frágil só sentimental só amor. Isso, amor inexplicável de um homem se supondo homem, por uma mulher, ao qual inclusive os cacófatos e demais vícios de linguagem perdoam ou apenas compreendem. Enfim o macho em extinção da espécie a ficar desde aí amolentado tomado vibrando aquela ausente presença; decerto presença agora junto a outros vizinhos e entre vizinhos os machos com ou sem espécie – nesse ponto sentiu pela primeira vez a fisgada na pontada pontiaguda ferinte a feri-lo que é a lança do ciúme... Porém isso já abuso na interpretação. Permaneceu como que abobalhado, tal qual estivesse ainda, agora longe, perto de si aquela enormidade de fêmea da espécie, nada em extinção... Tanto assim não saber desde aquela despedida da visitadora sanitária o que fazer de sua pobre vida, a vida dele. Parecia um todo faltando a parte; justamente a melhor das partes.
Contudo o dia se foi, fez suas coisas qual máquina que exerce seu papel premindo alguém um botão à geringonça se desengonçar em barulho de polias dentes rolimãs e incompreensões mais de fora de dentro. Assim ficou-lhe como ideia fixa, fixa na presença-ausência da jovem: debalde ouvia longe os dentilhados da máquina mesmo vivendo na rotina, ligada desligado.
Contudo o dia se foi e voltou.
Tornou a funcionária – agora não sendo mera e formalisticamente uma servidora mas a melhor mulher, mulher melhor e que no pior do mundo dos sonhos era sua exclusiva mulher, uma fêmea nada em extinção ou que fosse ela a existir para que a espécie, a dele, andasse em extinção.
Tornou garbosa bela a bela, prenhe de todo atrativo para que houvessem todas faltas sem quaisquer sobras. Bateu palmas sim, a serviço veja-se bem. E o mequetrefe manejado pelas farpas do amor veio correndo abrir o portão. Apareceu tão desgraciosamente desajeitadamente apressadamente que não conseguia enfiar sequer a chave errada no buraco certo do cadeado (que burrice! se xingou autocriticando: ‘cadeadear’ um homem... quem roubaria um macho da pior espécie, mesmo sem extinção; ora...) Ela? sorriu o atrapalhamento do sujeito, não afirmou assim, assim apenas interpretando, a dizer qualquer coisa, uma bobagem que o ser humano inventa, criativo, na hora a fim de diminuir o constranger de outrem. Comentou a flor.
A flor rubra na presença a indagar sobre a outra no jardim abandonado da residência não abandonada, longe disso estando ali o coração macho pra valer faminto de amor. Aí o morador tendo já certeza nas certezas que nunca humanos temos.
Entrou, perfez o que mandando a rotina do trabalho e da responsabilidade, vistorias comentários.
Entretanto o proprietário – proprietário de quê; onde e o que vem a ser uma propriedade? – enquanto ela a comentar os tratos da função, ele a medi-la...
Olhou aquele raro exemplar feminino, um pouco cheiroso é verdade mas lindo para se ver; examinou e então experimentando a pixotada em supor nela sapatos de saltos altos altíssimos de hoje na mulheres do mundo; no entanto parou no sonho viu o real: ela trajava o comum de todas senão de todos e como todos, quase, calçada realmente com tênis. Isto levando a realidade pra baixo; ele ainda mais baixo ou seria que fosse a mulher de estatura com muita vantagem em sua desvantagem habitual de homem pequeno; não baixinho barrigudinho e demais indecências que via como indecências. Enfim observou melhor aquele tamanhão de fêmea da espécie...
O porte daquela jovem impressionava. Diria melhor, dissesse, que seu tamanho levava ao despropósito em ser ela de maior quantidade em atributos – porque superlativava ele em seu íntimo ser essa mulher a maior e mais volumosa entre todas em beleza. Ora, a quanto ridículo nos expomos quando nos expomos, se, pois como avaliar quatitativamente a qualidade. Não pensou sentiu.
Adeus, disse infeliz nessa expressão a funcionária, tem vez que proferimos as maiores besteiras ou que seja um inocente indevido para mais tarde nos autocriticar e nos envergonhar. Será que se envergonharia, nunca soube o homem; ela mais para diante, não íntima mas mais bem relacionada ao sujeito, diria ao se despedir apenas ‘tchau’, o tchau que importamos às avessas dos italianos pois falam tchau ao chegar. No entanto no seu estado de espírito em frangalhos o adeus daquela moça pareceu-lhe a perdição irremediável dum tesouro.
Com isso lá foram horas, sempre intermináveis nessas condições, horas a sofrer a ausência da presença dela, um dia de ausência dias sem presença piormente pra si.
Todavia tornou...

4. - Batamos palmas à rotina. Ela enche – e às vezes embriaga – enche as horas desocupadas do ser humano. Agora tinha o que fazer o morador: que fosse aguardar que ela voltasse e, enquanto, a pensar nela. Então chegou ao abuso em desejar vitimar-se no ideal duma catástrofe da existência de muitos focos em criadouros de insetos transmissores da morte para a vida com a vinda da moça a cuidar de si... Se fosse louco, não era na sua abalizada opinião, se fosse construiria minidiques com água podre poluída a poluir apodrecer melhor e a atrair proliferação atraindo portanto aquela pura presença (agora a bonita funcionária estaria virando santa antes de morrer, enquanto o homem comum apenas se torna puro morto). A rotina não permitiu a loucura, seja no plano completo da loucura seja a loucura na loucura consumada – graças aos dramas pequenos e grandes que a rotina tem em seu bojo: impostos indisposições impostações indiscriminações a diminuir nunca matando uma ideia fixa, das bem suculentas. Assim todas horas de todos dias de todas semanas pensava moça.
Chegou a rir-se de si mesmo por correr feito cachorrinho lambeta atrelado ao cheiro da mulher chegante, vendo também outras mulheres então feias para que ela ficasse ainda mais bonita; a correr ver perceber se ela a passar na rua e quem sabe num descuido da sorte vir vê-lo vendo seu quintal infestado. Porém, alarme falso quase sempre. Voltava para dentro a desbastar outras vertentes da rotina. Não era a se rir!
No entanto de fato retornou a jovem. Fosse por mando da ordem de serviço; e o fizera em conluio com outras funcionárias, num matracar constante e muitas risadas, o que próprio dos jovens cheios de vida. Em meio, ela a se destacar.
Um dia portanto voltou mas acompanhada por outra colega e também um rapaz, decerto igualmente uniformizado e com crachá. Melhor pôde observá-la, ‘comer’ sua beleza, beleza dos traços incomuns. Seriam mesmo raros! não sabia, sabia ter olhos para a jovem. Despediram-se formalmente, o que uma ofensa enorme ao amor.
Ele sentia e conscientizava o amor. Um amor puro santo imaculado, teórico bastante? Não poderia responder, ou responder a um monólogo tão exigente.
Um dia – esta uma expressão tão boba quanto imprecisa – enfim certa vez concluiu amá-la. Oh como amar um ser desconhecido. Pilhou-se desconhecê-la, porque até neste ponto os meandros do ideal a mando do coração, um órgão nada em extinção. Quem seria ela.
Aguardou semanas quase mês e já se desesperava em sua fragilidade, já formulando plano em andar ao deus-dará para fragrá-la no seu trabalho no bairro. Sairia por aí, como sempre sem intenção, antes à busca do imprevisto e da surpresa e assim quem sabe colher, então encontrada, uma esmola de olhar. “Oh o senhor por aqui!” trocaria por ‘você’ mais próximo ou melhormente um meu amor ou na extrema felicidade meu grande amor. Todavia não executou o plano, se plano. Aguardou pacientemente a visita condizente.
Um dia ela chegou. Felizmente sozinha. Entrou. Já dispondo da intimidade, ou isto seria abusivo, pelo menos amizade melhor afirmar e mais encaixável na relação de ambos. Entrou abrindo o portão, agora o morador escondera o cadeado a facilitar sua própria saída e a entrada possível dela. Também a dos meninos a fim de pegar a bola que atinge sempre uma das rubras flores; sobretudo a facilitar a amizade da jovem entrando quase sem bater...
Ah grande conquista nessa conquista de amor.

5. - Quase que petulantemente vistoriou a moça, a qual vistoriava seu quintal.
Era um colosso de mulher, fora nisto seu volume corporal e o belo que todas fêmeas da espécie trazem ao mundo, o belo que nela extravasava. Enquanto a examinar meticulosamente os errados na propriedade a funcionária, examinava tão ou mais meticulosamente ele seus traços feminis. Naturalmente exagerando um pouco, o que é próprio dos corações enamorados. No entanto destacou o bem da face, o esvoaçar dos cabelos aos laivos de sol, os apetrechos naturais que a natureza nunca se esquece de acrescentar enfeitando a mulher e mais nessa, talvez por descuido dessa mesma mãe-natureza. Pernas ventre seios; e trejeitos, isto da condição de cada personalidade, só apreendido pelos namorados. Fixou-se nas mãos dela, aqueles dedos de tomar a esferográfica azul para alimentar a prancheta e também mexer peculiarmente gostoso. Opinião daqueles olhos famintos. E foi por aí nessa análise, mui pouco profunda e nem um pouco satisfatória, visto que toda vez que se indo embora a mulher o homem a lembrar não saber direito como era de fato isto ou aquilo – sempre bom sempre agradável sempre insatisfatório, satisfazendo-se com o todo dela.
Depois, longe da sua presença, já o frio de sua falta o calor do bem que ela deixara, se perguntava se tendo adereços e enfeites, sobretudo nos dedos; se vaidosa mas... via ou revia no pensamento ela demais simples para portar anéis. Ou teria. Uma boa lembrança; que tal examinar essa particularidade na próxima visita da bela.

6. - Dessa maneira, esquecendo quase as exigências da rotina nas outras facetas da rotina, assim observou melhor nas visitas sanitárias posteriores, as que se seguiram ao longo de anos, em suma observou a mulher; além do mais sem conseguir dela uma amizade autêntica, não fosse ele demais tímido ou sem jeito para exigir mais que a relação social ou as formalidades nos tratos da gente. Coisa que o coração desconhecia. Notou em primeiro lugar os dedos nus, limpos como a pureza das crianças; aliás a mão da jovem era de menina. Não obstante um dia sentiu em razão disso um calafrio que sugeriu nocaute na lona da rotina. Ela trouxe na visita o dedo aureolado com uma aliança. Felizmente, disse a tristeza alegre na descoberta, felizmente na mão direita; sempre pode haver o descuido ou a alegria disse a alegria, a alegria em se desfazer noivados... Não é comum o descontentamento entre namorados e não existem inúmeros casos de noivos que rompem os compromissos! Mesmo assim o homem criador involuntário de larvas apesar dos cuidados e recomendações sanitárias, esse homem ficou enciumado e vendo com maus olhos o outro homem, um rival com certeza, essa a dúvida.
Ficou pensando no dedo toda uma semana um mês mais de mês menos de ano. Entrou visita saiu a bela; o dedo. O anel.
Em sonho, dormindo ou acordado, acordado que seja pelas exigências da rotina que assola o homem comum, em sonho desfeiteou após brigou lutou superou matou! desfeiteou o rival. Atraiu assim a vítima, belíssima vítima se diga a ser correto, atraiu-a para si, ela sempre indecisa se com um com outro, quem sabe se não ambos encantados ambos príncipes e a afugentar um triângulo doutro pretendente ainda – todos a virar trapos frente ao morador amante para tão bela visitadora. Entretanto o sonho tem uma característica chata: a última parte dele é o acordar.
Vem veio o sol os gritos da rua o rolar das conduções e outras ameaças concretizadas do ramerrão.
Até se descobrir tudo com umas palmas conhecidíssimas. Leves femininas gostosas.

7. - Foram meses vendo sofrendo perdendo perdido a fixar a aliança de noivado de sua amada; o qual a unia ao rival, mais desconhecido ainda que sua conhecida funcionária extremada em beleza e de fala mansa e respeitosa. Foram muitos.
Daí melhorou? respondeu em negativo. Aconteceu ainda o pior a si: ela apareceu com o mesmo anel de ouro. Hoje em dia se folheia tudo nas aparências e mesmo sem aliança os matrimônios se consumam; ou não. Ela surgiu com a aliança na esquerda; e isso não foi simplesmente para feri-lo ou para puni-lo haver aplicado violência contra seu noivo. Foi a cumprir a lei no cartório, quiçá na igreja. E agora!
Aprendera, andava a aprender, que é preciso respeito às mulheres casadas. Ora, o casamento inviabiliza a beleza? Decerto que as visitas então passaram a ter um caráter sério, não fossem até nesse ponto respeitáveis a um respeitador das normas. Entretanto sem aquele atrativo de anos, sem intromissão dos sonhos, eles cuja base é a falta de base concreta. Sem que viesse totalmente um desencanto.
A funcionária adentrava a propriedade com desenvoltura própria dos amigos (ou conhecidos!) fazia suas perguntas, examinava o domicílio, rabiscando sua prancheta e fazendo ligeiros comentários. Para o enamorado agradecer, como respeitoso que era. Infelizmente pra si via os traços belos da bela, o matrimônio não elimina a beleza quem sabe até dando melhor acabamento e ressaltando mais ainda os traços.
Porém se sentia o homem mais pobre; meses depois, depois de muitas visitas já não sendo tão roubado: o hábito não deixa também ser remédio.
Agora se trabalhava o morador em ver nela a honestidade e o critério de funcionária, a que ficava logo acima da mulher, esta que ficava também acima da deusa nas circunstâncias de então. Passava a se distrair observando a anatomia da moça, não mais moça. Aos poucos percebia o contorno do ventre a mudar, a fazer desenhando um estufamento; e isso mostrava a mãe...
Um dia veio outra funcionária em visita à sua dengue. Como é a vida, consegue descolorir o que tingira com maestria! Respondeu com parcimônia à enquete da senhora e doutras jovens no serviço sanitário. Não indagou mas soube do parto de alto risco em lamento das colegas. Após vieram semanas de amargura e expectativa naquele amante destronado.

8. - Agora examinava aquele recinto simples pobre pesado com cheiro de flores e incenso e cheio de pesar. No centro o ataúde sem luxo; a gente em volta triste a falar quase por mímica e em som abafado; uns a chorar, outros no ver apenas sem opinar; os colegas da bela recontavam a vida da morta, os parentes a lastimar a morte e a vida; os religiosos oravam ou apenas ‘sonavam’ com palavras o sentimento. Os convidados daquela festa fúnebre eram poucos e pouco exigentes. Um a consolar a mãe da mãe, que chorava ao desespero; o viúvo não se crendo viúvo e muito menos rival de ninguém. As flores, umas vermelhas outras com laivos roxos, enfeitavam a outra ainda não despetalada, a qual apresentava a cera só conhecida pelos cadáveres. Tinha a face bela porém os olhos fechados não viam as tristezas em torno. Suas mãos cruzadas ao peito mostravam um anel de ouro, não importando mais se folheado e capaz de matar antes da morte a vida dum amor desconhecido e/ou inútil. Mas eis que os funcionários fecharam a funcionária, tão só aguardando a mostra do desespero dos mais chegados; e então sim fechando de vez, lacraram levaram ao séquito ao túmulo ao fim, se fim.

Marília   março  2010

         
         




         



             

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