segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Enfrentamento no Viver


Enfrentamento no Viver

1.Nasceu. Chovia, lentava gotas das lágrimas do céu, aqui embaixo as misérias humanas ainda insatisfeitas; contudo no lar do casal era expectativa de dias melhores, porque os homens creem nesse ditado. Igual as crianças que fazem de conta e computam ganhos. Em volta era o dilúvio das desilusões discussões contradições, não mais: conflitos domésticos e conflitos na rua pobre mas não miserável; além da rua, e se houvesse não havia ainda tevê, sintonizariam shows de baixaria e ibopes de violência para distração da gente do povo; e sintonizariam também espetáculos de guerras e outras tristezas para rebaixar a humanidade. Todavia naquele lar era a esperança com o anunciado nascimento de um novo serzinho a serviço do planeta.
Mamãe esperara bom tempo, a rigor por mais de uma década, engravidar; recorrera a tratamentos, fizera de tudo que sugeria a medicina limitada dos homens; por último – antes fizera penitências e acordos com os santos porém descrendo já da crença – por último apelara a chás e à orientação duvidosa da sabedoria dos curandeiros em plantão. Estava desesperada, não desesperançada: o sexto sentido lhe prometia um rebento, embora intuísse o desalento duma criança a lhe fazer sofrer. Mais de dez anos a esperar. Aí engravidou, transformou o lar, sinalizou ao marido que ameaçava desertar e que as más-linguas afirmavam ter quem sabe sua prole semeada fora do lar... Papai também ficou feliz, não propriamente eufórico como determinaria tanta demora e tanta expectativa. Não obstante mostrou alegria e em boa vontade encheu a casa com presentes, franqueou numerário a facilitar a esposa o necessário e o desnecessário do luxo (este que é um abusinho no orçamento em lar pobre). Agora toda a casa, por extensão a parentela amigos conhecidos e vizinhos, girava em torno da criança, a qual logo agitava aquela barriga linda de se esconder. Mamãe usando então vestimenta fofa e solta das gestantes, sofria os mil incômodos da gravidez tardia, andava e se movimentava com sacrifício, sequer podendo fazer os trabalhos domésticos na estado em que se encontrava, e requerendo ajuda duma meninota e de vizinhas solícitas. Tudo compensava aquele advir! Mesmo os chutes no ventre, a criaturinha se considerava talvez uma prisioneira ou por ser a prisão-mamãe abusiva; mais parecia um inimigo odiento brabo bruto em violência no meio uterino, mais que isso que bebê ansiado... Entretanto era esperado sim, na felicidade que as mães conseguem com esse presente dos céus. Todo acontecimento se fazia em cima do acontecimento capital: a criança. Seria hominho a elevar o nome paterno, orgulhoso e até vaidoso em suas machuras! ou uma garotinha, violenta sentia-se, entretanto mulherzinha a ser vestida e adorada por mamãe? Não se sabia.
Enfim dá-se o parto, as parteiras comuns deixadas de fora pela gestação tida em alto risco nas clínicas; e assim nasceu a fórceps o rebento na maternidade com vários médicos em volta a suar tentando primeiro salvar a parturiente e depois o filho. Sim parecia filho... Após a limpeza e conferências internas deram os profissionais a versão masculina e o caráter de gente... Aqui começa, não estivesse já em curso, o sofrimento.
Aqueles destroços duma gestação que passara dos nove meses regulamentares foram mostrados à mãe ao pai aos presentes outros como sendo um garoto. Mamãe desmaiou, o pai até o homem chorou em público, os próximos apenas ficaram constrangidos ou envergonhados por estarem perto. Meu Deus, disse baixo quanto possível a vizinha mais destravada – isso é um monstro! puxaram-lhe as vestes em psius pelo inconveniente. A senhora tendo infelizmente razão.

2.Cresceu. Foi para casa de volta a mãe, levada pelos íntimos, papai prolongou na sala de espera o fumar o fungar o fugir da ocorrência e por fim fugiu para sua mãe, não ficando a dar amparo à mãe do filho – era seu filho; três dias após tornou ao lar também, meio confundido talvez envergonhado. Começa a via-crúcis com o lado mais pesado da cruz sobre os ombros maternos.
Anos plenos de sofrimento para a ainda jovem senhora, a custo conservando a beleza física, extravasando a beleza moral, cultivando entre lágrimas as forças a prosseguir e quem sabe vencer seu drama. Já considerava então seu matrimônio com o companheiro em declínio e ver o consorte distanciando a alegar excesso no trabalho, ou estando presente a chegar em casa embriagado. Os parentes debandaram, uma que outra vizinha a lhe dar sustentação, a mais das vezes na forma de linguagem, que é maneira de auxílio por força de expressão. Pagava empregada doméstica, pois o pai da criança não negara o apoio financeiro. No entanto a jovem senhora não era mais que ‘viúva’. Não obstante desdobrou-se heroicamente a criar a cria. Por fim o esposo desertou de vez: tornou-se visita eventual e após visita a se esquecer...
Ao lado desse drama pungente a ‘coisa’ crescia.
Realmente não indo além de gente sem forma de gente o garoto. Naturalmente que o trato médico indicava um ser humano do sexo masculino, a lei o definindo por deficiente físico com direito de cidadão; e a boa vontade do bairro procurava esconder não ressaltando tão esdrúxulo vivente; a sociedade como um todo, a família em particular, fizeram mais nesse menos: esqueceram o pequeno, deixaram-no apenas na contagem insuficiente da estatística; insuficiente senão mentirosa. Os anos selaram e decerto hermetizaram essa existência dupla.
Dupla porque englobava a pobre vida e a vida da mãe, esta muito mais consciente e de profundidade pelo coração, em ver sentir sofrer a vida do filho.
A vida prosseguiu na esteira do tempo, o tempo ocultou como oculta o sofrimento e o dia a dia debaixo dos telhados que formam bairros e cidades.
Naquele telhado, naquela residência mediana, pois não chegava a tapera nem a palácio – ali era o recanto da dor. O filho que sofria sem quase ter o alcance do sofrer, a mãe com tal alcance e um depósito pleno das forças necessárias ao presente e ao futuro sem futuro.
Agora o genitor daquela imitação de gente negava o numerário sob qualquer alegação, desnecessário saber os absurdos. A mãe recebia ao menos ajuda pecuniária da parentela a se negar sofrer perto e juntamente com a pobre. Rica, cada vez mais enricava em energia, o que precisava demais então.
A criança se desenvolvida, não alcançava ainda a semelhança humana; cabeça enorme e disforme, tronco retorcido, pernas e braços afinados, os pés nunca poderiam suster o corpo pesado! Era uma embodocada criatura de olhos desiguais, ressaltados, bocarra torta, dentinhos já a virar dentuça; a epiderme grosseira e em parte peluda ao exagero.
Contudo mamãe acompanhava a transformação com carinho, beijava o horripilante conjunto; falava quase dia inteiro com a criatura, como fazem as mães a ensinar sub-repticiamente os filhos a falar e depois a fazer as coisas, caras aos normais; o comum do ver. Ela também igual as outras mães insistia, repetia, mostrava as coisas, se valendo da mímica e doutros recursos. Obtinha uma ajuda precária da empregada – não parando em casa nenhuma, era sempre a nova empregada – porém ajuda. Sobrava mesmo naquela escola doméstica o exemplo materno, sua conduta de amor. Isto lhe custando sempre horas e horas de lágrimas, lágrimas de sangue. Um sofrer autêntico. Embora, o menino crescia, aprendia com lentidão. Nunca aprendeu a falar, nunca pôde orientar seus próprios sons para que pudessem ser inteligíveis. Entretanto a mãe o entendia, numa linguagem que ambos usavam para relação possível. Fisicamente crescia e se desdobrava. Agora era um adolescente. No entanto não chegara a menino,  pulando as fases comuns.

3.Adolescenciou. Adolescenciava a criatura. Atrás de si não havia o menino a bola os jogos de roda vidraças quebradas, nem houvera o bebê a arrastar a barriguinha no chão. Acostumara assim ou desconhecia outra posição! acostumara a ser um rolo de carne enfaixada vestida amarrada; ou não se acostumara, a mugir um vagido alto em gritos; urros de prisioneiro não suficientemente entendido... urros que a genitora lia com desenvoltura a saber desejos mínimos e ansiedades máximas. Dizem entendidos que pessoas em tais condições conhecem mais a fundo seus desejos e o mundo que as cerca; distinguindo outras pessoas e sabendo objetos – tudo inteligíveis mas... o impedimento de fato e absoluto, a corrente da prisão do viver a segurar como que amarrada a criaturinha, no caso já uma criaturona adolescente com pernas de andar com mãos de expressar com boca de falar – mudas, entravadas! A mãe compreendendo na sabedoria do coração o entendimento da criatura amada, sabendo pela experiência a limitação da pobre. A criatura, por definição legal um para-homem com direitos de homem amparados na constituição e nas leis de proteção ao jovem, a criatura desentendendo as necessidades do palavrório todavia entendendo bem seus desejos e as limitações desses desejos: berrava berrava berrava até ao esmorecimento... aí retomando berrar urrar uivar inclusive. Mamãe? mamãe não mais a chorar o impossível, porém a sorrir compreensão e amor. Isso, amor. Um beijo um carinho uma resposta evasiva uma promessa dificilmente compreendida pelo filho, para acalmá-lo na paz de minutos. Um adolescente a dormir, a relaxar com remédios, o serenar do vulcão de carnes e nervos. Um dia a semana o mês um ano a mais, um sofrer a menos!?

4.Amadureceu. Que é amadurecer. Seria ficar grande, pesar mais, mais ocupar espaço, volumar, aumentar necessidades e problemas. Quem Sabe? Aceitar mais, compreender mais, mais ainda se aceitar... Talvez. Poder-se-ia aplicar modelos e fórmulas tidos por encaixes de normalidade em anormais – seja um amontoado de músculos disformemente dispostos ou então ‘bonitinho’ mas com atrapalhamento no invisível cérebro ou na mente destroçada e deformada, destrambelhada!
Nessa altura o ser, do ser infeliz materno, apresentava um volume normal de adulto, sem que se possa exigir conformações somáticas e anatômicas ideais. No entanto estagiava não mais que na infância da normalidade e não alcançara a locomoção sequer. Mamãe consegue após luta de anos uma cadeira de rodas como pernas ao seu bebê; melhora considerável e opção à cama; espécie de saída ou de certa prisão condicional. Leva-o pra cá, mostra a ele pra lá; aumenta pra si também a paisagem levando a criatura à exposição pública. Tem o lado triste em ter que provar o que não precisando provar; e doutro a alegria da tristeza alheia: despertava a piedade de outrem, fazia crescer a oportunidade no aparecimento solidário. Nada obstante, entra ano sai ano o viver solitário – a mãe da criatura, só; só quase a criatura da mãe; um horizonte curto!
Tinha o mundo, o mundo que o cercava. À criatura a mãe quase não se distinguindo dela, criatura; por muito tempo pensou apensa a genitora de si. O exterior era o mesmo que o interior, o planeta não mais que uma capota com o telhado da residência a lhe cobrir. Agora ‘anda’ de cadeira, o mundo cresce assustadoramente. O povo curioseia as coisas; gente aprecia especular espicaçar exigir estórias do que vê, quase nunca a se engrandecer aprendendo com as estórias, é mais para ter o que falar no vazio da vida que se enche apenas com o tempo, se chove se não, coisas miúdas e próximas que são a alegria do homem comum. Contudo oportunidade à mãe do infeliz limpar um pouco a alma em descarregando sofrimento. A alegria do ser humano pode apenas ser o descarrego do seu próprio sofrimento. Ela contava, narrava com minúcias os atos do filho, o que faz a felicidade de muitos assim agir, narrava o tim-tim por tim-tim da relação doméstica e o sofrer pregresso. A conversa varando horas nesses minutos em passeio. O mundo ampliando o mundo do agora adulto menino... retardado anormal ou seja lá que nome se dê à mesma coisa.
É um homem; sem necessidade em maiuscular o agá nem atrair a voracidade do fisco nem a cobrança amena porém igualmente ridícula da sociedade em cima dos membros dela. Um homem. Tamanho de homem, seria grandalhão como papai, ah papai sumiu; de voz possante e grossa como um homenzarrão; com força dum hércules se existiram super-homens. Contudo não passando dum esquálido esquelético esqueleto com alguma pele peluda cobrindo um corpo. Barba dura, difícil um dia todo para apará-la, demais como o demais em cruz nas costas maternas. Tudo dentro da roupa caprichada e cheirosa vestida por mamãe a lhe dar ares e presença.
No entanto berra berra urra urra uiva mesmo em gritos lancinantes a manchar e a marcar a vizinhança incomodada. Mamãe aguenta firme, acalma o quanto possível, conta estórias a ouvidos moucos, canta os desafinos que é uma lindeza ouvir,
ouve entretanto pouco: acalma dá trégua. Vive, vai vivendo, vão levando o fardo. Desmorrendo!?

5.Declinou. É agora, o tempo não lhe interessando nem sabendo o que seja, é agora um moço-velho. Os defeituosos no corpo já quase nascem enrugados – enrugava mais a olhos vistos. Mamãe não, jovem na sua madureza e, livre, um bom partido de beleza aos olhares machos; mas dura na queda, forte nos seus ímpetos carreando toda força na sua criança dita gente pela definição, uma criança de anos ou apenas meses e a ser vista um velho quase ancião mais e mais arcado no seu arcar... Não havendo propriamente disposição em seus músculos, ou por outra: os deficientes têm é mais energia na musculatura, por descontrolada; é assim agora a criatura da mãe, esta em que tudo nela girando em torno do filhote, a tanto esquecer-se mulher bela e com direitos que o direito lhe dá. Sentia a senhora o enfraquecimento do filho, fazia mais, desfazia-se mais ainda para salvá-lo. Ah, salvá-lo de quê? A razão era afastada a dar lugar aos últimos suspiros do viver, se viver. A criatura não pensava assim decerto, decerto nem pensava, pensavam em volta. Todavia quase deixava de usar os parcos recursos que lhe fornecera a natureza – ainda berrava uivava gritava de fazer dó nos estranhos passantes, mesmo nos convivas, inclusive e sobretudo no calejado coração materno. Este coração a mais se desdobrar, enquanto menos e menos agora o sopro na garganta da criatura.
Ora, não tem nada que dure num mundo que tão só exteriormente seja perene. Nem a alegria sempre fugaz; nem a dor.
Mesmo levando tudo em consideração, aquele amontoado de carnes disformes berrava na casa na rua e na compra; uivava, gritava presença e mal-estar. Um homenzarrão encolhido, de ossos fortes, de pelos machos, a gritar as entranhas incompreendidas e pelo encarceramento. Aí...

6.Morreu. Era um passeio, o costumeiro. Os carros deslocavam afoitos, a gente nas imediações eram os descompromissados como pensa nossa ignorância, ria bravatava contava fumava bebia andava de lá pra cá de cá pra lá feito formiga; as lojas cheias as feiras plenas as curiosidades atentas ao carro da criatura. A mãe levava empurrando a cadeira de rodas espreitando ora um lado ora outro da via pública em rebuliço; saíra do supermercado onde o filho dera seu showzinho particular a berrar em desespero enquanto mamãe olhando preços e medindo a bolsa exígua, a gritar a bolsa também o tesouro a sumir-lhe; o berrar o uivar a gritar atenção ou a desejar ‘falar’ suas aflições. Agora era atravessar a avenida movimentada. Olhava ambos lados a temer a senhora, na sua indecisão. Aproveitou um silêncio do movimento, empurrou à frente a cadeira, ainda o filho indócil nos seus desejos a gritar – não viu o automóvel ou percebendo embaixo o encima! Apenas ela virou amontoado de carnes, a criatura já por costume era amontoado. A criatura aí mais fraca no forte que era seu grito. Finalmente apenas os curiosos, antes de aparecer a viatura policial, a quebrar o silêncio, no fim do sofrer. Ou era o início?
  Marília,   abril  2006


         



           

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