Enfrentamento
no Viver
1.Nasceu. Chovia, lentava gotas
das lágrimas do céu, aqui embaixo as misérias humanas ainda insatisfeitas;
contudo no lar do casal era expectativa de dias melhores, porque os homens creem
nesse ditado. Igual as crianças que fazem de conta e computam ganhos. Em volta
era o dilúvio das desilusões discussões contradições, não mais: conflitos
domésticos e conflitos na rua pobre mas não miserável; além da rua, e se houvesse
não havia ainda tevê, sintonizariam shows
de baixaria e ibopes de violência para distração da gente do povo; e sintonizariam
também espetáculos de guerras e outras tristezas para rebaixar a humanidade.
Todavia naquele lar era a esperança com o anunciado nascimento de um novo
serzinho a serviço do planeta.
Mamãe
esperara bom tempo, a rigor por mais de uma década, engravidar; recorrera a
tratamentos, fizera de tudo que sugeria a medicina limitada dos homens; por
último – antes fizera penitências e acordos com os santos porém descrendo já da
crença – por último apelara a chás e à orientação duvidosa da sabedoria dos
curandeiros em plantão. Estava desesperada, não desesperançada: o sexto sentido
lhe prometia um rebento, embora intuísse o desalento duma criança a lhe fazer sofrer.
Mais de dez anos a esperar. Aí engravidou, transformou o lar, sinalizou ao
marido que ameaçava desertar e que as más-linguas afirmavam ter quem sabe sua
prole semeada fora do lar... Papai também ficou feliz, não propriamente
eufórico como determinaria tanta demora e tanta expectativa. Não obstante mostrou
alegria e em boa vontade encheu a casa com presentes, franqueou numerário a
facilitar a esposa o necessário e o desnecessário do luxo (este que é um
abusinho no orçamento em lar pobre). Agora toda a casa, por extensão a
parentela amigos conhecidos e vizinhos, girava em torno da criança, a qual logo
agitava aquela barriga linda de se esconder. Mamãe usando então vestimenta fofa
e solta das gestantes, sofria os mil incômodos da gravidez tardia, andava e se
movimentava com sacrifício, sequer podendo fazer os trabalhos domésticos na
estado em que se encontrava, e requerendo ajuda duma meninota e de vizinhas
solícitas. Tudo compensava aquele advir! Mesmo os chutes no ventre, a criaturinha
se considerava talvez uma prisioneira ou por ser a prisão-mamãe abusiva; mais
parecia um inimigo odiento brabo bruto em violência no meio uterino, mais que
isso que bebê ansiado... Entretanto era esperado sim, na felicidade que as mães
conseguem com esse presente dos céus. Todo acontecimento se fazia em cima do
acontecimento capital: a criança. Seria hominho a elevar o nome paterno,
orgulhoso e até vaidoso em suas machuras! ou uma garotinha, violenta sentia-se,
entretanto mulherzinha a ser vestida e adorada por mamãe? Não se sabia.
Enfim
dá-se o parto, as parteiras comuns deixadas de fora pela gestação tida em alto
risco nas clínicas; e assim nasceu a fórceps o rebento na maternidade com
vários médicos em volta a suar tentando primeiro salvar a parturiente e depois
o filho. Sim parecia filho... Após a limpeza e conferências internas deram os
profissionais a versão masculina e o caráter de gente... Aqui começa, não
estivesse já em curso, o sofrimento.
Aqueles
destroços duma gestação que passara dos nove meses regulamentares foram
mostrados à mãe ao pai aos presentes outros como sendo um garoto. Mamãe
desmaiou, o pai até o homem chorou em público, os próximos apenas ficaram
constrangidos ou envergonhados por estarem perto. Meu Deus, disse baixo quanto
possível a vizinha mais destravada – isso é um monstro! puxaram-lhe as vestes
em psius pelo inconveniente. A senhora tendo infelizmente razão.
2.Cresceu.
Foi para casa de volta a mãe, levada pelos íntimos, papai prolongou na sala de
espera o fumar o fungar o fugir da ocorrência e por fim fugiu para sua mãe, não
ficando a dar amparo à mãe do filho – era seu filho; três dias após tornou ao
lar também, meio confundido talvez envergonhado. Começa a via-crúcis com o lado
mais pesado da cruz sobre os ombros maternos.
Anos
plenos de sofrimento para a ainda jovem senhora, a custo conservando a beleza
física, extravasando a beleza moral, cultivando entre lágrimas as forças a
prosseguir e quem sabe vencer seu drama. Já considerava então seu matrimônio com
o companheiro em declínio e ver o consorte distanciando a alegar excesso no
trabalho, ou estando presente a chegar em casa embriagado. Os parentes debandaram,
uma que outra vizinha a lhe dar sustentação, a mais das vezes na forma de
linguagem, que é maneira de auxílio por força de expressão. Pagava empregada
doméstica, pois o pai da criança não negara o apoio financeiro. No entanto a
jovem senhora não era mais que ‘viúva’. Não obstante desdobrou-se heroicamente
a criar a cria. Por fim o esposo desertou de vez: tornou-se visita eventual e
após visita a se esquecer...
Ao
lado desse drama pungente a ‘coisa’ crescia.
Realmente
não indo além de gente sem forma de gente o garoto. Naturalmente que o trato
médico indicava um ser humano do sexo masculino, a lei o definindo por
deficiente físico com direito de cidadão; e a boa vontade do bairro procurava
esconder não ressaltando tão esdrúxulo vivente; a sociedade como um todo, a
família em particular, fizeram mais nesse menos: esqueceram o pequeno,
deixaram-no apenas na contagem insuficiente da estatística; insuficiente senão
mentirosa. Os anos selaram e decerto hermetizaram essa existência dupla.
Dupla
porque englobava a pobre vida e a vida da mãe, esta muito mais consciente e de
profundidade pelo coração, em ver sentir sofrer a vida do filho.
A
vida prosseguiu na esteira do tempo, o tempo ocultou como oculta o sofrimento e
o dia a dia debaixo dos telhados que formam bairros e cidades.
Naquele
telhado, naquela residência mediana, pois não chegava a tapera nem a palácio –
ali era o recanto da dor. O filho que sofria sem quase ter o alcance do sofrer,
a mãe com tal alcance e um depósito pleno das forças necessárias ao presente e
ao futuro sem futuro.
Agora
o genitor daquela imitação de gente negava o numerário sob qualquer alegação,
desnecessário saber os absurdos. A mãe recebia ao menos ajuda pecuniária da
parentela a se negar sofrer perto e juntamente com a pobre. Rica, cada vez mais
enricava em energia, o que precisava demais então.
A
criança se desenvolvida, não alcançava ainda a semelhança humana; cabeça enorme
e disforme, tronco retorcido, pernas e braços afinados, os pés nunca poderiam
suster o corpo pesado! Era uma embodocada criatura de olhos desiguais, ressaltados,
bocarra torta, dentinhos já a virar dentuça; a epiderme grosseira e em parte
peluda ao exagero.
Contudo
mamãe acompanhava a transformação com carinho, beijava o horripilante conjunto;
falava quase dia inteiro com a criatura, como fazem as mães a ensinar
sub-repticiamente os filhos a falar e depois a fazer as coisas, caras aos normais;
o comum do ver. Ela também igual as outras mães insistia, repetia, mostrava as
coisas, se valendo da mímica e doutros recursos. Obtinha uma ajuda precária da
empregada – não parando em casa nenhuma, era sempre a nova empregada – porém
ajuda. Sobrava mesmo naquela escola doméstica o exemplo materno, sua conduta de
amor. Isto lhe custando sempre horas e horas de lágrimas, lágrimas de sangue.
Um sofrer autêntico. Embora, o menino crescia, aprendia com lentidão. Nunca
aprendeu a falar, nunca pôde orientar seus próprios sons para que pudessem ser
inteligíveis. Entretanto a mãe o entendia, numa linguagem que ambos usavam para
relação possível. Fisicamente crescia e se desdobrava. Agora era um adolescente.
No entanto não chegara a menino, pulando
as fases comuns.
3.Adolescenciou.
Adolescenciava a criatura. Atrás de si não havia o menino a bola os jogos de
roda vidraças quebradas, nem houvera o bebê a arrastar a barriguinha no chão.
Acostumara assim ou desconhecia outra posição! acostumara a ser um rolo de
carne enfaixada vestida amarrada; ou não se acostumara, a mugir um vagido alto
em gritos; urros de prisioneiro não suficientemente entendido... urros que a
genitora lia com desenvoltura a saber desejos mínimos e ansiedades máximas. Dizem
entendidos que pessoas em tais condições conhecem mais a fundo seus desejos e o
mundo que as cerca; distinguindo outras pessoas e sabendo objetos – tudo
inteligíveis mas... o impedimento de fato e absoluto, a corrente da prisão do
viver a segurar como que amarrada a criaturinha, no caso já uma criaturona
adolescente com pernas de andar com mãos de expressar com boca de falar –
mudas, entravadas! A mãe compreendendo na sabedoria do coração o entendimento
da criatura amada, sabendo pela experiência a limitação da pobre. A criatura,
por definição legal um para-homem com direitos de homem amparados na
constituição e nas leis de proteção ao jovem, a criatura desentendendo as
necessidades do palavrório todavia entendendo bem seus desejos e as limitações
desses desejos: berrava berrava berrava até ao esmorecimento... aí retomando
berrar urrar uivar inclusive. Mamãe? mamãe não mais a chorar o impossível,
porém a sorrir compreensão e amor. Isso, amor. Um beijo um carinho uma resposta
evasiva uma promessa dificilmente compreendida pelo filho, para acalmá-lo na
paz de minutos. Um adolescente a dormir, a relaxar com remédios, o serenar do
vulcão de carnes e nervos. Um dia a semana o mês um ano a mais, um sofrer a
menos!?
4.Amadureceu.
Que é amadurecer. Seria ficar grande, pesar mais, mais ocupar espaço, volumar,
aumentar necessidades e problemas. Quem Sabe? Aceitar mais, compreender mais,
mais ainda se aceitar... Talvez. Poder-se-ia aplicar modelos e fórmulas tidos
por encaixes de normalidade em anormais – seja um amontoado de músculos
disformemente dispostos ou então ‘bonitinho’ mas com atrapalhamento no invisível
cérebro ou na mente destroçada e deformada, destrambelhada!
Nessa
altura o ser, do ser infeliz materno, apresentava um volume normal de adulto,
sem que se possa exigir conformações somáticas e anatômicas ideais. No entanto
estagiava não mais que na infância da normalidade e não alcançara a locomoção
sequer. Mamãe consegue após luta de anos uma cadeira de rodas como pernas ao
seu bebê; melhora considerável e opção à cama; espécie de saída ou de certa
prisão condicional. Leva-o pra cá, mostra a ele pra lá; aumenta pra si também a
paisagem levando a criatura à exposição pública. Tem o lado triste em ter que
provar o que não precisando provar; e doutro a alegria da tristeza alheia:
despertava a piedade de outrem, fazia crescer a oportunidade no aparecimento
solidário. Nada obstante, entra ano sai ano o viver solitário – a mãe da criatura,
só; só quase a criatura da mãe; um horizonte curto!
Tinha
o mundo, o mundo que o cercava. À criatura a mãe quase não se distinguindo
dela, criatura; por muito tempo pensou apensa a genitora de si. O exterior era
o mesmo que o interior, o planeta não mais que uma capota com o telhado da
residência a lhe cobrir. Agora ‘anda’ de cadeira, o mundo cresce
assustadoramente. O povo curioseia as coisas; gente aprecia especular espicaçar
exigir estórias do que vê, quase nunca a se engrandecer aprendendo com as
estórias, é mais para ter o que falar no vazio da vida que se enche apenas com
o tempo, se chove se não, coisas miúdas e próximas que são a alegria do homem
comum. Contudo oportunidade à mãe do infeliz limpar um pouco a alma em
descarregando sofrimento. A alegria do ser humano pode apenas ser o descarrego
do seu próprio sofrimento. Ela contava, narrava com minúcias os atos do filho,
o que faz a felicidade de muitos assim agir, narrava o tim-tim por tim-tim da
relação doméstica e o sofrer pregresso. A conversa varando horas nesses minutos
em passeio. O mundo ampliando o mundo do agora adulto menino... retardado
anormal ou seja lá que nome se dê à mesma coisa.
É
um homem; sem necessidade em maiuscular o agá nem atrair a voracidade do fisco
nem a cobrança amena porém igualmente ridícula da sociedade em cima dos membros
dela. Um homem. Tamanho de homem, seria grandalhão como papai, ah papai sumiu;
de voz possante e grossa como um homenzarrão; com força dum hércules se
existiram super-homens. Contudo não passando dum esquálido esquelético esqueleto
com alguma pele peluda cobrindo um corpo. Barba dura, difícil um dia todo para
apará-la, demais como o demais em cruz nas costas maternas. Tudo dentro da
roupa caprichada e cheirosa vestida por mamãe a lhe dar ares e presença.
No
entanto berra berra urra urra uiva mesmo em gritos lancinantes a manchar e a
marcar a vizinhança incomodada. Mamãe aguenta firme, acalma o quanto possível,
conta estórias a ouvidos moucos, canta os desafinos que é uma lindeza ouvir,
ouve
entretanto pouco: acalma dá trégua. Vive, vai vivendo, vão levando o fardo.
Desmorrendo!?
5.Declinou.
É agora, o tempo não lhe interessando nem sabendo o que seja, é agora um moço-velho.
Os defeituosos no corpo já quase nascem enrugados – enrugava mais a olhos
vistos. Mamãe não, jovem na sua madureza e, livre, um bom partido de beleza aos
olhares machos; mas dura na queda, forte nos seus ímpetos carreando toda força
na sua criança dita gente pela definição, uma criança de anos ou apenas meses e
a ser vista um velho quase ancião mais e mais arcado no seu arcar... Não
havendo propriamente disposição em seus músculos, ou por outra: os deficientes
têm é mais energia na musculatura, por descontrolada; é assim agora a criatura
da mãe, esta em que tudo nela girando em torno do filhote, a tanto esquecer-se
mulher bela e com direitos que o direito lhe dá. Sentia a senhora o
enfraquecimento do filho, fazia mais, desfazia-se mais ainda para salvá-lo. Ah,
salvá-lo de quê? A razão era afastada a dar lugar aos últimos suspiros do
viver, se viver. A criatura não pensava assim decerto, decerto nem pensava,
pensavam em volta. Todavia quase deixava de usar os parcos recursos que lhe
fornecera a natureza – ainda berrava uivava gritava de fazer dó nos estranhos
passantes, mesmo nos convivas, inclusive e sobretudo no calejado coração
materno. Este coração a mais se desdobrar, enquanto menos e menos agora o sopro
na garganta da criatura.
Ora,
não tem nada que dure num mundo que tão só exteriormente seja perene. Nem a
alegria sempre fugaz; nem a dor.
Mesmo
levando tudo em consideração, aquele amontoado de carnes disformes berrava na
casa na rua e na compra; uivava, gritava presença e mal-estar. Um homenzarrão
encolhido, de ossos fortes, de pelos machos, a gritar as entranhas incompreendidas
e pelo encarceramento. Aí...
6.Morreu.
Era um passeio, o costumeiro. Os carros deslocavam afoitos, a gente nas
imediações eram os descompromissados como pensa nossa ignorância, ria bravatava
contava fumava bebia andava de lá pra cá de cá pra lá feito formiga; as lojas
cheias as feiras plenas as curiosidades atentas ao carro da criatura. A mãe
levava empurrando a cadeira de rodas espreitando ora um lado ora outro da via
pública em rebuliço; saíra do supermercado onde o filho dera seu showzinho particular a berrar em
desespero enquanto mamãe olhando preços e medindo a bolsa exígua, a gritar a
bolsa também o tesouro a sumir-lhe; o berrar o uivar a gritar atenção ou a
desejar ‘falar’ suas aflições. Agora era atravessar a avenida movimentada.
Olhava ambos lados a temer a senhora, na sua indecisão. Aproveitou um silêncio
do movimento, empurrou à frente a cadeira, ainda o filho indócil nos seus desejos
a gritar – não viu o automóvel ou percebendo embaixo o encima! Apenas ela virou
amontoado de carnes, a criatura já por costume era amontoado. A criatura aí
mais fraca no forte que era seu grito. Finalmente apenas os curiosos, antes de
aparecer a viatura policial, a quebrar o silêncio, no fim do sofrer. Ou era o
início?
Marília, abril
2006
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